quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

1491) Mamute Morto Bom (23.12.2007)



Estávamos reunidos em nossa caverna paleolítica, os três anciãos da tribo: eu, Urgh e Humm. Como se sabe, cabe aos anciãos decidir o rumo das coisas, o evoluir dos usos e costumes. Não porque os anciãos sejam mais sábios. Mas porque os jovens da tribo estão muito ocupados – matando mamutes, acasalando, mascando ervas perigosas. Nós, os anciãos, ficamos na cavernas, examinando etimologias e definindo tecnicalidades.

Por exemplo: hoje um bando de jovens matou um mamute e inventou essa palavra para designar as criaturas peludas que nos cedem (um tanto a contragosto) sua alcatra, seu patinho e seu acém. “Ma-mu-te!”, ficaram eles cantando e pulando em volta da carcaça, enquanto as mulheres cortavam os bifes. “Ma-mu-te!” Isso inquietou os anciãos. Nossa linguagem monossilábica, consciente da necessidade evolutiva inerente a todas as atividades da Cultura, tem feito uma aproximação gradual rumo às palavras de duas sílabas. Mas os jovens – ah, os jovens! – são impacientes. Querem avançar demais, querem tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Começam com trissílabos, daqui a pouco estarão querendo proceder anticonstitucionalissimamente.

Reunimos o Conselho e decidimos: o nome do bicho é “mut”, e não mamute. Estão pensando o quê? Somos trogloditas mas aqui há normas, há princípios. Os jovens voltaram para a caverna enfarruscados, resmungando. Nessa noite ninguém acasalou – ficaram conferenciando junto à fogueira. Na manhã seguinte, uma delegação veio negociar uma proposta. “São três palavras”, explicaram. “Ma quer dizer mim. Mut quer dizer a carne. Te quer dizer para ti. Ou seja: eu estou oferecendo carne.” Fiquei encalacrado, porque na verdade quem decide tudo no Conselho dos Anciãos sou eu (tem um que só faz concordar, o outro só faz ficar em dúvida). “Não há precedentes, não há jurisprudência firmada”, argumentei. “Que história é essa de palavras significando relações? Palavras significam coisas. A gente aponta o indicador, emite uma sílaba, e todo mundo sabe a que estamos nos referindo. Foi sempre assim”.

Os jovens insistiram: “Mas precisamos de uma sintaxe, de partículas que indiquem finalidade, dependência, junção, posicionamento...” Fui canônico, fui radical: “Não! Nem vem! Não tem pra tu!” Retiraram-se fumaçando e no outro dia apareceu um Comando de Greve dizendo que “aqui ninguém caça mais, se quiserem comer peguem suas azagaias e vão à luta”. As mulheres, sempre nervosas, prorromperam em pranto. Depois de três dias com as barrigas roncando, chamei o restante do Conselho e marcamos nossa rodada de negociações para depois da caçada.

Por garantia, resolvemos ir junto (vai que os jovens resolvem cooptar o Mut!). Eu não me lembrava do tumulto que é uma caçada. Para resumir – foi tudo muito rápido. Quando a poeira baixou, os jovens gritavam: “Mamute Vivo Mau! Mamute Morto Bom!” Fui me aconselhar com Urgh e Humm mas parece que algo muito pesado tinha passado por cima deles.

1490) A arte da digressão (22.12.2007)




(Marcel Jean, Specter of the Gardenia)

Uma das críticas mais injustas que se pode fazer a um romance é censurar ao autor o uso de digressões. Uma digressão é um afastamento do assunto principal para contar uma história secundária, refletir sobre algum aspecto da vida ou do mundo, ou explicar algum detalhe acessório da narrativa enquanto a história principal fica esperando. 

Como tudo o mais na esfera da arte, tem gente que gosta e gente que não gosta. Eu sou dos que gostam, e vou explicar por quê.

Primeiro, uma pequena digressão. Quando eu tinha dezesseis anos, vi dois caras conversando sobre um curso de Leitura Dinâmica anunciado no jornal. Um deles perguntou qual era a vantagem de ler cinco ou dez vezes mais depressa (era o que o curso prometia). O outro retrucou: “Quando você está lendo um livro, qual é a coisa que você mais quer saber?” O outro embatucou. Eu, que escutava ali por perto, também. O primeiro respondeu: “Ora, você quer saber o fim, quer saber como o livro acaba. E com a Leitura Dinâmica o livro acaba mais depressa”.

A digressão desagrada esse pessoal: os que querem que o livro acabe depressa. Esse tipo de leitor (a que eu chamo, quando estou de mau humor, “leitor americanizado”) tem uma visão utilitária da leitura, e quer maximizar a eficiência do ato leitoral. Quer ler cada vez mais depressa, consumindo cada vez mais palavras por minuto. E exige do autor que não fique enrolando, vá direto ao ponto, conte a história em linha reta, como uma seta em vôo instantâneo rumo à palavra “Fim”.

Cada um lê do jeito que lhe apraz, e não sou eu quem irá ensinar aos outros como viver. Mas os leitores como eu não querem que o livro acabe logo, não querem saber já como é o fim, a não ser quando a leitura é feita por obrigação profissional, para publicar uma resenha na semana que vem. 

Quando lemos por interesse próprio ou por prazer, não estamos disputando uma corrida de cem metros rasos. Avançamos no interior do livro como alguém que passeia numa cidade onde deverá passar os próximos dias: sabendo que não vai dar para ver tudo, sem pressa de conhecer todos os detalhes, caminhando meio ao acaso, sem lugar específico para ir e sem hora para lá chegar.

As digressões são como mudanças de rumo provocadas pelo impulso súbito de pegar um ônibus que parou ao nosso lado, ou de entrar por uma galeria de lojas que surgiu à nossa direita, ou de saltar do metrô numa estação desconhecida para saber o que existe ali em volta. 

Não há necessidade de caminhar em linha reta, rumo a um objetivo, porque tudo ali nos interessa igualmente. A digressão serve para abrir janelas, links de hipertexto, notas de pé de página. Traz temperos e sabores diferentes ao prato principal. 

O rei da digressão, Laurence Sterne, dizia que as digressões são “a luz do sol”. Elas não são a história que estamos lendo, não são a paisagem onde viajamos, são a luz que ilumina tudo aquilo e os torna reais aos nossos olhos.








1489) Coincidências (21.12.2007)



(Salvador Dali, "A Retrospective Bust of a Woman")

Há pessoas que vêem na mais banal coincidência um sinal do Destino, uma mensagem mística para dizer-lhes que Alguém, num plano portentoso e sobrenatural, está velando por elas. 

Não precisa ser uma revolução total em suas vidas, como encontrar na calçada um bilhete premiado de Loteria. Bastam pequenos sinais. 

A costureirinha está sacolejando no ônibus, rumo ao trabalho. Fecha os olhos e lembra do namorado. Pensa: “Meu Deus! Será que ele gosta mesmo de mim? Me dê um sinal!...” Abre os olhos e vê pendurado na banca de revistas um DVD intitulado “Amor Sincero”. E considera isto uma resposta divina.

A jornalista Leonor Amarante me relatou um fato que foi direto para minha coleção de coincidências. 

Ela estava em Natal, organizando uma exposição de artes plásticas, sua área de atuação. Conheceu um artista chamado Guaracy Gabriel, os dois trocaram telefones e ficaram de se ligar. Dias depois, no hotel em que estava, ela ligou para o número do artista. Acontece que ela tinha anotado erradamente o número, como percebeu depois; tinha trocado um ou outro algarismo.

A ligação foi atendida e ela perguntou: “É da residência (ou do ateliê) de Guaracy Gabriel?” 

O sujeito que atendeu disse: “Não senhora, isto aqui é um orelhão, na rua tal”. 

Ela disse: “Eu estou ligando para esse número porque quem me deu foi essa pessoa, dizendo que era o da casa dele”. 

O cara do outro lado disse: “Não, é um telefone público, mas... a senhora disse que estava ligando para Guaracy Gabriel, o artista?” 

“Sim, para ele mesmo” 

“Um momento... Ei! Guaracy! Telefone pra você!”

Ou seja, a ligação errada caiu num telefone público, foi atendida por alguém que conhecia a pessoa para quem ela estava ligando, e ainda por cima o destinatário da ligação estava passando por acaso justamente ali, naquele momento! 

Calculadoras em punho, amigos: quais são as chances matemáticas de uma coisa assim acontecer? Minha vontade é traduzir esta história para o inglês e remetê-la para Alan Vaughan, autor do interessante livro Incredible Coincidence, repleto de ocorrências tão estranhas quanto esta, e até mais.

O caso de Leonor se parece com outro que achei na Internet. Em 1953 o jornalista Irv Kupcinet foi fazer uma reportagem em Londres. No quarto do Hotel Savoy, onde se hospedou, encontrou alguns objetos pessoais esquecidos por outro hóspede. Examinando-os, descobriu que seu dono era Harry Hannin, um jogador de basquete que fazia parte da famosa equipe dos Harlem Globetrotters, os quais viajavam pelo mundo inteiro fazendo jogos-exibições. 

Kupcinet, que conhecia Hannin pessoalmente, guardou os objetos para devolvê-los quando encontrasse o amigo. 

Dois dias depois, recebeu uma carta de Hannin. Ele dizia que tinha se hospedado no Hotel Meurice, em Paris, e no quarto em que ficou lá tinha encontrado uma gravata com o nome de Kupcinet bordado – que o próprio havia esquecido ali, antes de ir para Londres. Se não é verdadeiro, é bem inventado.




1488) A doce pornografia (20.12.2007)


(Doll, de Hans Bellmer)

Carlos Drummond já dizia: “Sejamos pornográficos, docemente pornográficos... Por que seremos mais castos que nosso avô português?”. A pornografia é a mais incompreendida das artes, até porque quando usamos este termo estamos nos referindo à Pornografia do Sexo, às artes voltadas para a descrição dos atos sexuais. Ora, existe também a Pornografia da Violência, hoje em dia tão em moda no cinema e nos videogames. Existe a Pornografia da Afetividade – os livrinhos e fotonovelas de amor destinados às jovenzinhas e às donas-de-casa. Existe a Pornografia da Política, mais conhecida como “o romance engajado”, aquele em que todas as relações humanas são reinterpretadas em função da luta de classes e da ascensão do proletariado. Pornografia é qualquer arte que bate o tempo inteiro numa única tecla, numa única nota.

A Pornografia do Sexo parece ser mais antiga que todas estas, e nas bibliotecas tradicionais era confinada a um setor chamado “O Inferno”, ao qual só tinham acesso leitores autorizados. (Uma interessante metáfora do próprio sexo, ou seja, a genitália humana sendo uma parte a que só têm acesso pessoas autorizadas pelo Estado e pela Igreja, através do casamento civil e religioso.) A Biblioteca Nacional de Paris está abrindo neste mês de dezembro (até 2 de março) uma exposição intitulada L’Enfer de la Bibliothèque - Éros au secret, organizada por Marie-Françoise ­Quignard e Raymond-Josué ­Seckel, na qual estão expostas mais de 350 obras, entre livros, fotos e gravuras, que fazem parte desse acervo proibido. Ali estão autores obscuros dos séculos 18 e 19, além dos inevitáveis Georges Bataille, Jean Genêt, Guillaume Apollinaire e o Marquês de Sade (do qual está em exibição o manuscrito original de Justine, ou Os Infortúnios da Virtude). Baixem o catálogo aqui: http://www.bnf.fr/pages/catalog/rtf/enfer.rtf.

A mostra conta com um interessante recurso publicitário: uma estação desativada do metrô (Croix Rouge, na linha 10) está sendo usada como vitrine: o trem não pára ali, mas ao passar por ela os passageiros a verão iluminada e cheia de cartazes e reproduções de obras, convidando o público a comparecer à Bibliothèque. A exposição é proibida para menores de 16 anos, o que levou os jornalistas do websaite The Literary Salon a afirmar que “a proibição é apenas um truque dos bibliotecários para atrair a atenção dos garotos e fazê-los pensar que os livros podem ter algo interessante para oferecer”.

Resta uma questão. Uma exposição assim prova que, finalmente, a cultura ocidental conseguiu chegar a um acordo com o erotismo e a sexualidade, e não mais considera essas obras transgressoras como uma ameaça? Ou significa que a pornografia (principalmente após o excesso de oferta na Internet) invadiu o mundo como um exército de bilhões de cupins triunfantes, e que não há outro recurso senão depor as armas e render-se ao seu poder? Quem puder ir a Paris, dê uma olhada e me informe.

1487) O Número da Besta (19.12.2007)




Escândalos científicos sacolejam de vez em quando a comunidade acadêmica, quando se descobre que a pesquisa do Professor Tal foi falsificada para corresponder aos resultados de sua hipótese. O sujeito mexe uma vírgula pra cá, adiciona um zero onde ele estava faltando, valoriza resultados próximos ao que ele esperava, descarta resultados incômodos... 

Se isto se faz no vigiadíssimo e desconfiado ambiente científico, o que dizer do ambiente místico-esotérico, onde os mecanismos de vigilância são meramente espirituais?

Não sou um grande leitor, mas sou um bom folheador de livros. Quando eu tinha dez anos estava tentando ler Guerra e Paz de Tolstoi, porque eu gostava de qualquer história que contivesse batalhas, espaldeiradas e tiroteios. 

Não li o livro até hoje, mas lembro que a edição brasileira daquela época era em dois volumes – eu imaginava que o primeiro descrevia a guerra, o segundo a paz. 

A certa altura, havia algumas páginas cheias de cálculos numéricos que me chamaram a atenção. O personagem Pierre Bezukhov (ou “Bésuhoff”, na grafia francesa) está se divertindo com cálculos numerológicos para descobrir quem será, naquela época belicosa de princípios do século 19, a Besta do Apocalipse.

Pierre pega uma tabela de correspondências alfanuméricas (A=1, B=2, etc., e em seguida K=20, L=30, M=40 – algo assim). E começa a escrever nomes próprios e somar seus valores numéricos, para ver se acha 666, que, como sabe até quem não leu a Bíblia, é o número da Besta. 

Pierre é um cara culto e usa o idioma culto da época, que é francês. E a certa altura ele escreve: “L’Empereur Napoléon”, soma os números... e obtém 666. Aquilo lhe dá um calafrio de descoberta e de premonição, porque a Rússia está justamente em guerra contra o imperador francês.

Ele imagina (se bem me lembro) que o povo ou a pessoa destinada a derrotar Napoleão deverá ter uma soma numérica equivalente. Repete o cálculo com seu próprio nome, mas a soma é muito grande ou muito pequena. 

Depois de tentar algumas combinações, ele tenta: “Le russe Bésuhoff”, e o resultado é 671. Uma diferença de 5 pontos a mais sobre o resultado pretendido. Ora, 5 é o valor da letra “E”, que havia sofrido elisão na expressão “l’empereur”. Quando ele refaz o processo, mesmo violando as regras da gramática, a expressão “L’russe Bésuhoff” soma 666. E ele considera isto uma prova de que seu destino é derrotar a Besta.

Esta é uma típica experiência em que o experimentador vai tentando incontáveis coisas e descartando todos os resultados que não lhe interessam. 

E quando obtém um resultado parcialmente interessante, ele faz pequenas adaptações pouco ortodoxas até que “a conta feche sem deixar resto”. 

(Este artigo não tem como tema a Bíblia, o Apocalipse, as Guerras Napoleônicas ou a obra de Tolstoi; o tema deste artigo é: “Quando alguém, mesmo um cientista, precisa muito encontrar um resultado, acaba convencendo a si próprio de que encontrou”.)






quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

1486) Zeca tuas ventas (18.12.2007)



A cervejaria Brahma está se excedendo na própria falta de assunto e de idéias. Tempos atrás tentou inventar uma moda – que não pegou nem vai pegar – de mudar o nome da “quarta-feira” para “zeca-feira”, sendo Zeca, no caso, uma alusão a Zeca Pagodinho. A quarta seria o dia de Zeca – o dia de tomar cerveja. Agora, inventaram outra – que não vai pegar, nem pegou – de chamar a “happy hour” (aquela saidazinha com os amigos após o expediente) de “Zeca hora”. Eu estou com vontade de fazer uma aposta. Cada vez que eu ouvir alguém chamando espontaneamente a quarta-feira de zeca-feira, ou uma “happy hour” de zeca-hora, eu passo um dia inteiro sem beber cerveja.

Vamos examinar esse papo de zeca-hora, o que está indo ao ar. Começa com uma suposta boa intenção, a de substituir por uma expressão em português mais uma dessas coisas que dizemos em inglês para bancar os cosmopolitas e nos diferenciarmos da plebe rude que não sabe pronunciar essas coisas. Na hora de trocar “happy hour” por alguma coisa, a propaganda escorrega quando a traduz por “hora alegre”. Não é, amigos. “Happy hour” quer dizer “hora feliz”, o que não é a mesma coisa. Alegria é quando estamos satisfeitos, eufóricos, mas com a consciência de que se trata de um momento passageiro. Felicidade é quando estamos na mesma situação mas pensamos que esse estado vai perdurar indefinidamente. Para resumir: a gente diz que “está alegre” e diz que “é feliz”.

Traduziram errado – mas não por ignorância, visto que todo publicitário brasileiro é alfabetizado em inglês, e só aprende a língua de Zeca Pagodinho para se comunicar com os nativos. É porque “hora feliz” não lhes proporcionaria o duplo sentido que “hora alegre” proporciona, e que eles exploram no anúncio, sugerindo que “hora alegre” é coisa de homossexual.

Por que? Ora, porque a palavra “gay”, antes de designar homossexual, era um inofensivo adjetivo que significava “alegre”. O uso foi se desviando desde o século 19 para indicar promiscuidade e vida dissipada (“gay house” era bordel, assim como chamamos as prostitutas de “mulheres de vida alegre, ou vida airada”). O uso moderno de “gay” como substantivo indicando um homossexual masculino é da década de 1970, e tem contaminado em retrospecto muitos textos antigos, principalmente letras de músicas, em que o sujeito cantava “Oh, today I am so gay...” ou coisas que o valham. (A palavra vem do francês “gai”, alegre, e é um adjetivo de pouco uso em português, vide “A gaia ciência”, tradução do livro de Nietzsche, ou “A ingaia ciência”, poema de Drummond)

Vai daí que os publicitários da Brahma, querendo combater a expressão “happy hour”, não tiveram como questionar “hora feliz” e inventaram que é “hora alegre”, para nos ameaçar com a pecha de homossexual e nos impingir esse desajeitadíssimo “zeca-hora”. É por essas besteiras e outras que um inglesismo como “happy hour” tem tudo para se fixar em nosso idioma nos próximos cem anos. Zeca-hora o quê, rapaz.

1485) O Burocrata Troglodita (16.12.2007)


Quando as tribos crescem, é preciso que alguém encare a espinhosa tarefa de dar-lhes Ordem, antes que o Caos tome conta. Ainda mais hoje, no tempo pré-histórico, quando não dispomos das facilidades de catalogação do mundo moderno: computador, Internet, livro de ponto, expediente, protocolo, e manifestações de apreço ao Sr. Diretor. Não obstante, a chama do pensamento criador já brilha em nossos cérebros hominídeos!

Por exemplo: um debate acirrado, que está pegando fogo aqui na caverna, é o que se trava entre duas correntes do pensamento organizatório. De um lado, temos os partidários da Ordem Alfabética, e do outro os defensores da Ordem Cronológica. Estes surgiram primeiro, em virtude da nossa percepção empírica do suceder dos dias e noites. Tivemos várias reuniões em volta à fogueira (nosso “locus” de debate por excelência, até porque fica mais fácil livrarmo-nos dos dissidentes). Eu havia nomeado um Grupo de Trabalho para preparar um cronograma das atividades da tribo. Um dos grandes problemas de nossa era paleolítica é a interminável discussão de todas as manhãs, que nos faz perder um tempo enorme antes de sairmos à procura de alimento. Existem duas correntes filosóficas principais: os Ineditistas, para os quais aquele dia é um dia que nunca aconteceu antes, e os Recursivistas, para os quais todo dia é uma repetição deteriorada do dia anterior. Ambos parecem ter carradas de razão – pelo menos, ambos têm carradas de argumentos. Quando chegamos a um impasse mais espinhoso, a tarde já descamba, e os jovens já estão de volta trazendo mel, frutos silvestres, e de vez em quando um javali abatido.

Ordenei ao Grupo de Trabalho que fizesse uma lista de todos os eventos da vida da tribo, para que tivéssemos certeza se determinado fato já tinha ocorrido ou não. O grupo pôs logo mãos à obra, e dentro de breve tempo tínhamos catalogado uma quantidade impressionante de informações, tais como “Chuva apaga fogueira”, “Aranhas invadem caverna”, “Mulher 17 tem bebê”, etc. Como ainda não dispomos da escrita, ficamos na dependência da memória dos membros do grupo, que a certa altura começaram a confundir-se, misturando “Raio carboniza árvore” com “Raio carboniza árvore”, dois fatos ocorridos em anos diferentes, mas que catalogados assim parecem uma repetição.

Surgiu então a teoria da Ordem Alfabética, cujo grupo sugeriu nomearmos membros da tribo para a memorização dos fatos começados por uma mesma letra. Esta foi uma evolução notável, porque tivemos que inventar o alfabeto, mesmo sem podermos imaginar os espantosos desdobramentos futuros de uma tão simples medida. O problema, agora, é que, por alguma razão que desconhecemos, os fatos enumerados em ordem alfabética estão numa tremenda desorganização cronológica; e vice-versa. O que parece sugerir a hipótese, muito perturbadora até para uma mente troglodita, de que quanto mais a gente busca ordem numa direção mais vulnerável fica ao caos, na direção oposta.

1484) “Utz” (15.12.2007)


Este esguio romance de Bruce Chatwin tem o encanto indefinível das narrativas que parecem no umbral de um gênero, mas não dão o passo decisivo que as deixaria aprisionadas dentro da armadilha de uma convenção literária. Utz é uma biografia romanceada? Ou a história da vida de um indivíduo imaginário? É um livro sobre a Guerra Fria? Sobre a psicologia do colecionador? É a improvável história de amor entre um patrão e uma criada de meia idade?

Kaspar Utz foi um judeu tcheco, com parentes vagamente nobres, que ainda jovem começou a colecionar porcelanas de Meissen, um tipo de porcelana de extrema pureza que produz peças belíssimas. Não era rico, mas formou sua coleção aproveitando a bancarrota alheia: “Guerras, pogroms e revoluções oferecem excelentes oportunidades para o colecionador”. (Assis Chateaubriand e o Masp que o digam.) Vivendo sob o regime comunista em Praga, Utz consegue freqüentes salvo-condutos para ir à França, pretextando tratamento médico. Poderia fugir, não voltar nunca mais. Por que não o faz? Para não perder sua coleção.

A história começa com o funeral de Utz e a narração de como os dois se conheceram. (O livro é narrado na primeira pessoa; Chatwin é um desses jornalistas-autores que nunca nos dão certeza do quanto é fato e do quanto é ficção em seus relatos.) Ele é apresentado a Utz, conhece sua primorosa coleção, percebe a relação esquisita de Utz com sua fidelíssima e mal-humorada governanta. Utz o recebe meio a contragosto. Os dois discutem a obra de Kafka, discutem política, discutem alquimia, discutem a lenda do Golem (o homem artificial criado do barro, como as peças de porcelana), ironizam os europeus ocidentais que vão à Tchecoslováquia para analisar os dissidentes políticos como se estes fossem espécies em extinção.

Chatwin tem um estilo enxuto, compacto, e nas 134 páginas do livro (Companhia das Letras, 1990) cria este personagem antipático e fascinante. Seu romance é a história de um fanático que a certa altura da vida, por motivos inexplicáveis, deixa sua maior obsessão se perder. Após a morte de Utz, ninguém (nem mesmo as autoridades comunistas) tem a menor idéia do que foi feito de sua coleção, desaparecida tão misteriosamente quanto o famoso Salão de Âmbar russo, um tesouro que sumiu, não se sabe onde, nem como, nem através de quem, durante a II Guerra Mundial.

O estilo de Chatwin neste livro é notável. É como se ele tivesse escrito um livro de 600 páginas, por alguma razão não pudesse publicá-lo, e tivesse resumido cada um dos seus parágrafos numa frase. Tudo é curto. Mesmo as cenas de vinte páginas nos dão a impressão de terem sido muito mais longas. Tudo aparece ali resumido, condensado, concentrado em frases límpidas, claras, que dão uma informação, passam para a próxima e não tocam mais no assunto. Não parece um romance, geralmente um gênero acumulativo, em que as informações são reiteradas de diferentes formas. O livro de Chatwin é o contrário disto.

1483) Pikachu Metallica (14.12.2007)




Ouvindo o nome a gente nunca o liga à pessoa. Pikachu Metallica é um rapaz de seus vinte e poucos anos, de modos reservados, óculos discretos, vestindo-se como um estudante de Direito, o que de fato é – forma-se no ano que vem. 

Mora com a mãe num apartamento em Botafogo, a vinte metros do Espaço Unibanco de Cinema, do qual é freqüentador assíduo. Foi lá que o conheci junto a um grupo de amigos que estava fazendo hora, tomando cafezinho, à espera da primeira sessão de um filme de Eduardo Coutinho.

Claro que seu nome não é esse; chama-se Marcelo, Maurício, alguma coisa assim. Mas o apelido pegou e não saiu mais. Um dos amigos que estavam com ele naquele dia tinha sido meu aluno numa oficina qualquer. Entre um café com leite e um pão de queijo, começamos a trocar idéias sobre documentário, e me admirei em ver que aqueles caras tão jovens tinham visto a maior parte dos meus clássicos preferidos, desde Flaherty até Chris Marker.

A história de Maurício foi se desvendando aos poucos, principalmente nos dias em que ele não aparecia. 

Me disseram que ele era o ai-jesus da mãe viúva, que lhe fazia todos os gostos. Aos seis ou sete anos foi contaminado, como tantos outros de sua geração, pelo vírus Pokemon, contra o qual a Ciência permanece impotente. Viu todos os desenhos do Cartoon Network, colecionou todos os bonecos, sabia de cor os nomes, as propriedades, a evolução. (Aliás foi ele quem me mostrou a música de Caetano Veloso sobre o Pokemon, gravada por Cássia Eller, aquela que diz “Tenho que pegar, tenho que pegar... Será que ela evolui?”) 

Um dia, exigiu fazer uma tatuagem nas costas. A mãe (carente, devota, apaixonada) cedeu.

O problema é que Marcelo evoluiu. Surgiram as primeiras espinhas, os primeiros pentelhos. As glândulas endócrinas começaram a viciá-lo em hormônios, os tímpanos, afinados como tamborins de escola, passaram a exigir doses cada vez maiores de guitarra e estridência. 

Ele jogou fora todas as quinquilharias da infância e aderiu ao heavy-metal. Só se vestia de preto, usava correntes, o cabelo parecia o da Maga Patalójika. CDs de bandas com aparência Neandertal se empilhavam no seu quarto. A mãe (cansada, míope, costurando o dia inteiro) já nem tinha mais forças para argumentar quando ele, envergonhado da tatuagem nas costas, anunciou que ia fazer outra no peito.

Nada como uma namorada para nos curar de certas deformações masculinas. Quando os decibéis do metal foram amainando, ele conheceu numa festa a tímida Joana. Com uma delicadeza implacável e uma doçura irresistível ela o fez cortar o cabelo, organizar-se, vestir-se feito gente. Ele passou no Vestibular. Entrou para um cineclube. Descobriu Chico Buarque, Duke Ellington, José Saramago. 

Hoje é um rapaz feliz, vai casar depois da formatura. Joana é que não entende por que motivo ele não gosta de ir à praia, e por que, quando está com ela, ele só tira a camisa na escuridão total.






terça-feira, 5 de janeiro de 2010

1482) A tumba de Jesus (13.12.2007)


Em 1980, operários que preparavam os alicerces de um prédio de apartamentos, em Jerusalém, escavaram a entrada de uma antiga tumba, encimada (o que não era comum entre tumbas desse tipo) por um sinal que não foi decifrado: um grande V invertido tendo no centro um pequeno círculo. Arqueólogos foram chamados e tiveram três dias para mapear a tumba e retirar dali o que fosse de interesse. Eles retiraram uma meia dúzia de ossuários (pequenos esquifes de pedra) que foram para o Museu. Depois, a tumba foi lacrada, coberta, e o prédio de 15 ou 20 andares foi erguido ali em cima.

Anos depois, os pesquisadores do Museu viram que aquele grupo de ossuários era especial. Num deles estava escrito: “Maria”. Em outro, “Jesus, Filho de José”. Em outro, “Mateus”; em outro, “Tiago” (eram os nomes de dois dos presumidos irmãos de Jesus Cristo, o “Jesus histórico” como se diz). Houve um alvoroço muito grande com esses achados, e parte desse alvoroço é um documentário exibido no Canal Discovery. Existe um saite com todo o material relativo à descoberta – fotos, mapas, e um documento PDF com a descrição minuciosa do que foi encontrado na tumba. Tudo aqui: http://dsc.discovery.com/convergence/tomb/tomb.html

O filme (cerca de uma hora e meia) tem uma narrativa fascinante. Primeiro, acompanhando a decifração dos nomes, que foram rabiscados no exterior dos ossuários há dois mil anos. Depois, acompanhando os esforços dos pesquisadores para encontrar a localização exata do túmulo sob um moderno condomínio, e a sucessão de golpes de sorte que acaba por levá-los à redescoberta da tumba.

Autoridades da igreja, claro, dizem que não é nada disso. Nomes como Jesus, Maria, Tiago, etc. eram muito comuns naquela época. Os pesquisadores rebatem dizendo que eram nomes comuns, isoladamente, mas todos eles no interior de uma mesma família (tumbas daquele tipo eram próprias para sepultamentos de membros de uma família) são coincidência demais. A presença de um ossuário com o nome “Mariamne” também chama a atenção; os pesquisadores fazem um complicado raciocínio linguístico para explicar que “Mariamne” é “Maria Madalena”, e que estaria na tumba por ser esposa de Cristo, além de um outro ossuário com o nome “Judá, filho de Jesus”.

Quando a tumba foi aberta em 1980, os ossos foram acondicionados separadamente e sepultados num solo sagrado, mas num local (ao que me parece) que ninguém lembra mais onde foi. Seria uma ironia muito grande se, dois mil anos depois, tivéssemos de fato encontrados os restos físicos de Jesus Cristo e voltado a enterrá-los num lugar qualquer. Ou talvez não. Os pesquisadores rasparam a face interna dos ossuários e recolheram material para os exames de DNA (aliás, provaram que todos eram da mesma família, menos “Mariamne”, o que reforça a tese de que seria a esposa de um deles). O material era suficiente para os testes, mas não para clonar um dos personagens. Ainda bem, porque senão não sei do que seríamos capazes.