domingo, 23 de agosto de 2009

1216) O fácil e o difícil (4.2.2007)





(Vik Muniz por Vik Muniz)

Há um estilo de cantoria de viola chamado “Quadrão de Meia Quadra” que é uma beleza para um cantador “se amostrar” diante dos leigos. É uma estrofe um tanto longa, e que sempre vai mais ou menos nessa pisada:

“Se eu disser que é meia noite, você diz que é meio dia
se eu disser que é meio balde, você diz meia bacia
se eu disser que é meio João, você diz meia Maria
se eu disser meia Maria, você diz que é meio João.
Se eu disser que é meia areia, você diz meio torrão
se eu disser meio torrão, você diz que é meia areia
se eu disser que é meia quadra, você diz que é quadra e meia
e se eu disser que é quadra e meia, você diz que é meio quadrão.

É um estilo marcante, e foi citado indiretamente por Zé Ramalho em “Avôhai” (“E se eu disser que é meio sabido, você diz que é meio pior...”).

Já tirei muita onda diante de pessoas leigas, cantando de improviso este tipo de verso. Porque na verdade não tem o que inventar, é só essa cantilena de meio-isso-meio-aquilo, substituindo as palavras-chave para encaixar nas rimas obrigatórias. E pronto.

Mas as linhas são longas, são cantadas com certa rapidez atropelada, e envolvem jogos-de-palavras cuja estrutura simples não é percebida à primeira vista, e então parece que é o troço mais difícil do mundo. Já cantei muita meia-quadra, sozinho, ao violão, diante de amigos que saíam dizendo que eu era o maior repentista do Nordeste.

Muito mais difícil do que uma meia-quadra é improvisar uma mera sextilha, onde você tem que tirar seis versos do Nada, do Zero Absoluto, e tudo tem que fazer sentido.

Em toda atividade existem coisas assim. No futebol, por exemplo, um passe de calcanhar parece mais difícil, e provoca mais sensação, do que um passe de 30 metros que vai certinho no pé do outro cara. Este último, por ser feito “de frente”, parece muito mais fácil, e não é.

Vik Muniz, artista plástico paulistano radicado em Nova York, resumiu esta questão numa entrevista à revista Zupi de novembro, de maneira exemplar:

“Existem trabalhos que são gostosos de fazer por serem fáceis e parecerem difíceis, e existem trabalhos gostosos de ver prontos por serem difíceis e parecerem fáceis”. 

No primeiro caso está a meia-quadra, que qualquer cantador mediano canta durante meia-hora sem nem sequer suar a testa.

Muniz observa que quando um trabalho é difícil ele não é bom de fazer: é bom de ver pronto. Isto bate certinho com uma frase que já vi atribuída a Armando Nogueira e a Zuenir Ventura: “Não gosto de escrever. Gosto de ter escrito”. Certas coisas nos dão um orgulho imenso depois que estão existindo, mas só Deus sabe o sofrimento que foi para botá-las de pé. Qualquer elogio a elas, contudo, sempre nos parece pouco, porque só nós sabemos o quanto de suor nos custaram.

Por outro lado, fazer uma meia-quadra e receber mil elogios nos dá complexo de culpa, porque quem elogia está superestimando a dificuldade da façanha, e se iludindo quanto ao talento de quem a praticou.





1215) Embebido em palavras (3.2.2007)




(Lord Macaulay)

Todo mundo que escreve já experimentou a sensação de se plantar diante de uma página em branco (onde se lê “página” leia-se “tela de monitor”) e sentir-se mais em branco ainda. O cara precisa escrever, vive dessa atividade, preparou-se para isto a vida inteira, assumiu compromissos, assinou contratos, já gastou o dinheiro do adiantamento... e (cedo a palavra ao mestre Augusto) “tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!”. É o famoso “writer’s block”, o bloqueio criativo que em alguns casos patológicos chega a durar anos a fio. Perguntem a Raduan Nassar, a Felipe Alfau, a Arthur Rimbaud. Todos dirão que “foi de propósito”.

Existe uma diferença crucial entre a função imaginativa da mente e o ato de escrever. Os leigos pensam que as duas coisas são uma só. Pois não são. Imaginar é mental, escrever é físico. Na grande maioria dos casos, o indivíduo tem predisposição para uma, e com a ajuda dela começa a estimular a outra até desenvolvê-la, como quem faz exercícios num aparelho de academia para desenvolver um músculo específico. Alguns escritores passam anos a fio tentando escrever de um jeito que não lhes convém, até encontrarem o jeito certo: a mão, à máquina, com lápis, com caneta, em pé, sentado, de dia, de noite... Escrever é uma tarefa corporal, um esforço físico, como tocar um instrumento musical. Pensar todo mundo pensa. Se eu escrevesse todos os livros que surgem já prontos na minha cabeça, ia faltar papel no Brasil.

Lord Macaulay, grande historiador britânico, disse na velhice que sua capacidade para reconstituir épocas e lugares remotos se devia a sua capacidade de fantasiar, de sonhar acordado: “Fico sonhando grande parte do meu tempo; talvez não mais do que antes, mas antigamente eu sonhava meus sonhos diurnos andando; agora os sonho sentado, perto da lareira. Se tiver vida para isso, escreverei sobre esse estranho hábito uma dissertação mais completa do que jamais foi escrita sobre esse assunto. É um bom hábito, sob certos aspectos. Eu, pelo menos, lhe atribuo grande parte dos meus sucessos literários”.

A melhor maneira de “ser bom” numa atividade é pensar nela o tempo todo. É conduzir a si próprio para um estado mental de atividade incessante, confrontando idéias, fazendo e respondendo perguntas, propondo problemas, inventando soluções. O poeta Hart Crane dizia: “O indivíduo deve estar encharcado de palavras, literalmente embebido delas, para que elas possam se combinar da maneira certa no momento certo”. Pensar é fácil, ou melhor, imaginar é fácil para um grupo específico de pessoas. Manter esse estado mental durante o enfrentamento físico com o instrumento (seja caneta Bic ou computador) são outros quinhentos. Escrever pode até embaralhar o pensamento. Augusto dos Anjos era um que compunha o poema mentalmente, corrigia, revisava, decorava, e só depois passava-o para o papel, para que esta tarefa física não interferisse na sua concentração criadora.


1214) Uma Noite no Museu (2.2.2007)



Esta comédia é um daqueles filmes-de-férias que poderiam ter cópias adquiridas por Escolas de Cinema no mundo inteiro, tal a nitidez da fórmula que seguem. É como aqueles casos que fazem um médico, inebriado pelo saber científico, dizer aos seus alunos, apontando um paciente: “Vejam que belo exemplo de escoliose lombar!” Neste caso, o professor diria algo como: “Vejam que belo exemplo de filme-de-atores disfarçado de filme-de-efeitos-especiais, tendo como justificativa ética a décima milésima história de Hollywood sobre um pai desempregado em crise de auto-estima querendo mostrar ao seu filho o quanto ele não é um babaca como a mãe do menino, cujo atual namorado é, este sim, um grande babaca, vive dizendo!” Vejo filmes assim desde que Ben Stiller estava na barriga da mãe (que, aliás, interpreta o papel daquela senhora com a qual ele faz a entrevista de emprego no começo do filme).

A imprensa bate na tecla de que “os efeitos especiais são a única coisa que presta no filme”. Eu os achei ínfimos: limitam-se ao esqueleto de Tiranossauro que anda, e aos soldadinhos e cowboys miniaturizados. Coisas que hoje em dia um diretor entrega à equipe de segunda unidade, e nem confere os “takes” no fim do dia. A premissa do filme (as criaturas de um Museu de História Natural ficam vivas durante a noite) dá a impressão de que os efeitos especiais são mais numerosos, porque vemos uma mistura carnavalesca de cowboys, dinossauros, legionários romanos, vultos históricos, macacos, leões, faraós, o escambau. Noventa por cento são atores fantasiados, como em qualquer Escola de Samba carioca. Torna o filme visualmente mais variado, e o rótulo genérico “efeitos especiais” confere à ação uma impressão de irrealidade.

O filme (de acordo com o saite “Internet Movie Data Base”) custou 110 milhões de dólares, ultrapassou este piso em sua segunda semana em cartaz, e até 21 de janeiro tinha faturado 204 milhões de dólares nos EUA e 18 milhões de libras no Reino Unido. Acho que filmes assim podem ser uma boa ilustração para a teoria kantiana do “fim” e da “finalidade” estética, como explica Ariano Suassuna em sua “Introdução à Estética”: “No pensamento kantiano, as Belas-Artes pertencem a um campo determinado, o da finalidade, no qual não se tem em vista nenhum objetivo prático, mas sim, pura e exclusivamente, o prazer do sujeito e a harmonia de suas faculdades. Já as Artes úteis, ou mecânicas, pertencem ao campo do fim, isto é, da destinação prática do objeto”. Ou seja: o filme de Shawn Levy não visa prioritariamente à finalidade da fruição estética, e sim ao fim prático de sua utilização do ponto de vista do público (entretenimento reiterativo) e do ponto de vista da indústria (manter atores, equipes, estúdios, etc. funcionando). Há filmes que são obras de arte, pertencem à mesma categoria de algumas músicas, livros ou quadros. E há filmes que são empreendimentos utilitários, como parques-de-diversões ou museus. Não são arte.

sábado, 22 de agosto de 2009

1213) O filho e o carro (1.2.2007)



Recebo muitos trabalhos enviados por amigos ou desconhecidos: livros, poemas, CDs, crônicas, etc. Quando a gente tem com o autor um certo grau de intimidade, não há problema em dar nossa opinião, quando ele a pede. Mas quando é um desconhecido, e a gente nem sabe se é um principiante ou um artista já encaminhado, é difícil saber que o que dizer. Tenho o maior medo de dizer algo tipo “olhe, Fulano, escreva mais, amadureça mais, você tem muito talento em potencial, etc.” e o cara me responder que é mais velho do que eu e tem 20 livros publicados. Onde vou enfiar a cara?

Quem mostra um trabalho tem muitas vezes a atitude de quem mostra um filho. Uma vez encontrei na rua um conhecido que não via há alguns anos. Cumprimentamo-nos, trocamos um abraço, e ele me mostrou o garoto de uns cinco anos que o acompanhava: “Olha, este aqui é o meu filho”. Olhei pro guri e disse: “Parece muito contigo”. O guri me olhou de cima a baixo e disse: “Deus me livre, meu pai é muito feio”. Rimos muito, porque o que eu tinha dito era uma mentira social, e o guri dissera a verdade pura.

Minha pergunta é: se o guri fosse feio, teria eu o direito de dizer isto? Quem mostra um fiho não está pedindo uma avaliação crítica, está pedido um gesto de aprovação, a ratificação de um vínculo afetivo. Quem tem um filho orgulha-se dele, e ponto final. Um filho é uma extensão de nós mesmos, é prolongamento futuro de nossa passagem sobre a Terra, como uma árvore plantada ou um livro escrito. Quem mostra um filho está mostrando um fato consumado, ao qual nenum juízo crítico pode se aplicar.

Mas há casos em que alguém nos mostra um CD ou um poema com outra atitude. A atitude de quem leva um carro à oficina e diz ao mecânico: “Josias, dá uma olhada nesse carburador, que ele tá meio esquisito”. Às vezes o carburador não tem nada, mas a gente só confirma isto através de Josias, que entende de carburador mais do que nós. O que a pessoa pede nestes casos é uma opinião técnica, um diagnóstico entre colegas de ofício, mesmo que um seja um mestre e o outro um aprendiz. E nestes casos, quem pede deve estar preparado para ouvir o que precisa ser dito, e que nem sempre é agradável.

Não acho que devamos julgar com rigor excessivo o trabalho alheio, principalmente de um autor jovem. Conheço muitos casos de pessoas que desistiram de uma carreira porque a primeira crítica que receberam foi devastadora demais. E todos nós sabemos de autores que começaram medíocres, mas foram crescendo por esforço próprio, e depois de muitos anos produziram obras de alto nível. Devemos ter confiança no futuro. O primeiro CD da banda, os primeiros poemas da jovem universitária, o primeiro romance do rapaz meio prolixo... o talento talvez ainda não esteja ali, mas pode despontar um dia. Não devemos afagar demais sua vaidade, mas devemos dizer: “Pode ir pra casa, e fique tranqüilo. Seu carro não tem nenhum problema. Continue dirigindo que um dia você chega lá”.

1212) A crença de quem não crê (31.1.2007)




A Editora Record publicou em 1999 um debate, travado nas páginas da revista “Liberal”, entre intelectuais italianos sobre a questão da fé e da ética entre religiosos e leigos. O principal debate foi travado entre o escritor Umberto Eco e o Cardeal Carlo Maria Martini, sendo que na segunda parte do livro aparecem contribuições de filósofos, jornalistas e políticos. 

Tanto Eco quanto Martini defendem com erudição e clareza seus pontos de vista. Entre os demais, gostei dos argumentos do jornalista Eugenio Scalfari e do ex-secretário do Partido Socialista, Claudio Martelli. O livro tem como título Em que crêem os que não crêem?.

A principal diferença entre o pensamento religioso e o pensamento laico é que o primeiro exprime a necessidade de um Centro geométrico, e o segundo se contenta com um ambiente conceitual sem forma definida. 

As religiões monoteístas (cristianismo, Islã, judaísmo) exprimem esta concentração de valor num único ponto de referência dogmático, inquestionável, e neste sentido assemelham-se aos regimes políticos centralizadores, autocráticos (quando não são explicitamente autoritários e ditatoriais). 

As religiões politeístas parecem certas democracias parlamentares, onde a toda hora quem está mandando é um grupo diferente, de acordo com as flutuações de poder e de influência.

Passamos de um estado primitivo onde havia um grande número de deuses para a fase do Cristianismo em que tudo se concentrou num Deus uno (ou trino, nessas ambigüidades geométricas que fazem a alegria dos metafísicos). Com o Iluminismo, a Revolução Francesa, a separação entre igreja e Estado, e assim por diante, foi quebrado esse centralismo espiritual e retornamos a uma multiplicidade de valores que agora não mais se exprime por uma proliferação de divindades antropomórficas, mas por uma proliferação de crenças não-espirituais.

É esta proliferação que é questionada pelo Cardeal Martini em seu debate com Eco: essas pessoas que não crêem mais em Deus têm valores morais e éticos; mas de onde lhes vêm estes valores? Eles não podem ser totalmente relativos ao momento, senão teríamos que admitir que em tais e tais circunstâncias seria legítimo agredir, saquear, matar e fazer mal a outras pessoas. 

O debate entre os pensadores italianos retoma a frase crucial de Dostoiévski: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Para os monoteístas, é preciso que haja um Centro, um Absoluto, um dedo que risca o limite entre o que podemos e o que não podemos fazer, ou, mais precisamente, uma escala de valores que vai desde o absolutamente obrigatório ao absolutamente proibido, com todos os estágios intermédios entre um e outro. E isto só pode vir de Deus.

A principal crítica feita pelos não-crentes é que, não existindo um Deus que “inspire” os Papas e outros líderes, as escolhas morais e éticas destes são subjetivas, historicamente condicionadas, politicamente interessadas – tanto quanto as dos cientistas ateus.




sexta-feira, 21 de agosto de 2009

1211) O encantamento da fala (30.1.2007)




Em seu romance Misery, Stephen King conta a história de Paul Sheldon, um escritor de sucesso que se recolhe numa casa de campo para terminar um romance. Com o livro pronto, ele sofre um acidente de carro e é salvo, numa dessas coincidências inevitáveis da literatura, por Annie, uma de suas fãs mais radicais. 

Annie mal consegue acreditar na própria sorte: ali está ela, salvando seu ídolo, que está com as pernas quebradas! Quando Sheldon volta a si, os dois começam a conversar, ele lhe mostra o manuscrito do livro novo, mas Annie fica chocada ao saber que o desfecho não é o que ela esperava. (O livro conclui uma série, com personagens já conhecidos) 

Ela exige de Sheldon que termine o livro do jeito que ela quer. E os argumentos físicos que usa são vigorosos, dolorosos, cruéis.

Não li o livro, mas vi o filme de Rob Reiner. Os livros de King passam bem para a tela, ainda mais neste caso, em que os atores são Kathy Bates e James Caan. Sheldon vê-se forçado a escrever sob as ordens de Annie, refazendo o livro inteiro de acordo com o gosto dela, e procurando ganhar tempo até que alguém descubra o que aconteceu e venha salvá-lo. 

Como Sherazade, o autor de Misery tem que contar interminavelmente uma história para salvar a própria vida, vivendo a situação paradoxal de não poder interromper a narrativa nem poder terminar a história, para não morrer. (Porque Annie, depois de algumas tentativas de fuga de Paul, decretou que ele não sairá dali vivo).

Como Penélope, na Odisséia, Sheldon finge que está adiantando um trabalho mas, sabendo que concluí-lo é perigoso, passa a sabotar sua própria atividade. 

E o poder meio encantatório que ele tem sobre Annie, sua carcereira e carrasca, parece um pouco com aquelas flautinhas ou rabecas mágicas dos contos folclóricos: o herói toca o instrumento ao ser atacado por dragões ou guerreiros, e põe os atacantes para dançar sem parar. O problema é que ele também precisa tocar sem parar, porque no momento em que fizer uma pausa o dragão ou os guerreiros vão fazê-lo em pedacinhos.

Será que Stephen King tem consciência da persistência da memória oral, desses contos populares com mil anos de idade, nos romances que escreve? 

Pode ser. King não é inculto nem “naïf”. Suas entrevistas são articuladas e interessantes, e seu livro Dança Macabra, sobre a evolução da história de terror na literatura e no cinema, é impecável, mostrando um sujeito que sabe ir direto ao que importa, numa história. 

King não é um estilista, não é um literato, não é um pensador. Tem uma imaginação mórbida e doentia demais para meu gosto. Mas é um animal literário, no sentido de ser um contador de histórias nato, aquele que, no instante do arrebatamento criativo, faz com que brotem dentro de si imagens e histórias que ele pensa serem criações suas, e o leitor também, mas que são apenas testemunhos do quanto o nosso Inconsciente é coletivo, e é quem manda na literatura popular.





1210) Canções de cidade (28.1.2007)



Como sabe o leitor, estou em plena campanha visando à redefinição dos gêneros da MPB a partir das letras, e não dos ritmos. Abaixo essa besteira de samba, xaxado, hip-hop. Que tal classificarmos as músicas pelo que elas efetivamente dizem, e não pela gratuita variação de padrões percussivos? Vejamos o exemplo de hoje: Canções de Cidade. Poderíamos encher um Napster inteiro só com canções que homenageiam cidades famosas ou obscuras, reais ou imaginárias. Está na memória racial da Humanidade, há milênios. É algo com mais tradição do que a valsa ou os blues.

Há cidades óbvias pela sua beleza ou sua importância histórica, portanto não vou perder tempo enumerando canções que celebram Paris, Nova York, Rio de Janeiro ou Campina Grande. Prefiro as canções onde alguém canta uma cidade que nunca nos tinha passado pela cabeça. Uma das cidades mais vilipendiadas de nosso país é São Paulo, mas o amor por ela gerou jóias como "Sampa" de Caetano ou "São São Paulo Mon Amour" de Tom Zé. São “canções de migrante” ao contrário: o migrante celebrando o lugar onde foi parar, e não o lugar de onde partiu. Algo parecido com que fez o exilado Caetano em “London, London”.

É natural que um compositor celebre a cidade em que nasceu, daí termos Ataulfo Alves falando de Miraí, Antonio Maria falando de Recife, Ednardo e Fagner falando de Fortaleza, Lennon & McCartney celebrando Liverpool através de “Penny Lane” ou “Strawberry Fields Forever”. Mas prefiro lembrar surpresas como Chico Buarque fazendo uma canção de ficção científica para a cidade natal de Zé Ramalho, Brejo do Cruz (embora ele intitule a música “Brejo da Cruz”). Garotos que comem luz, que voam pelos céus do Brasil, que viram mutantes nas grandes metrópoles... Uma homenagem indireta ao nosso bardo rock-surrealista, talvez, através da celebração do seu lugar de origem.

A improvável Londrina ganhou uma canção homônima de Arrigo Barnabé, defendida num festival por Tetê Espíndola: “Nuvens vermelhas no céu / na terra, silêncio...” Curiosamente, esta música aparece em vários saites atribuída a Eduardo Dusek. Outra curiosidade é a canção “Maringá” de Joubert de Carvalho, que cita uma cidade paraibana (Pombal) e batizou uma cidade paranaense. A famosa “Petrolina e Juazeiro”, regravada e recantada Brasil afora, consegue diplomaticamente celebrar as duas cidades separadas por um rio e unidas por uma ponte. Milton Nascimento homenageou sua “Três Pontas”. Chuck Berry homenageou “Memphis, Tennessee”. Leiber & Stoller celebraram “Kansas City”, gravada até pelos Beatles.

Celebrar uma cidade não é apenas fazer uma canção ufanista, mas capturar em letra, melodia e ritmo alguma coisa do espírito dessa cidade, o suingue local, a fala das ruas, o som do sotaque, o balanço de seu ritmo urbano, o sentido de suas casas e suas cores, mesmo quando a canção é sofrida, quando fala da distância entre a cidade e o poeta, que afinal é a distância entre qualquer cidade e cada um de nós.

1209) No reino da Dinamarca (27.1.2007)



Acabei de ler um artigo publicado no respeitável British Medical Journal. Na verdade, não sei se é tão respeitável assim, mas, com este título, permito-me ceder à mais conciliatória forma de preconceito, que é render homenagem imediata à pompa e à autoridade. Enfim: o BMJ afirma, num artigo assinado por dois cientistas dinamarqueses e um alemão, que os dinamarqueses são o povo mais feliz da Europa. O artigo está em: http://www.bmj.com/cgi/content/full/333/7582/1289. E não é só isto. Esta posição vem sendo ocupada pela Dinamarca desde 1975, nas pesquisas do chamado “Eurobarômetro”, com os habitantes da Holanda, Luxemburgo e Suécia revezando-se no segundo lugar.

Os dados podem ser conferidos também no “Mapa da Felicidade Mundial” divulgado pela Universidade de Leicester, que classifica o grau de bem-estar subjetivo dos países de acordo com um sistema de cores numa escala de seis, que vão de Infeliz (amarelo claro) a Feliz (vermelho escuro). Neste caso, vale a pena notar que os países mais felizes, além dos escandinavos, são os EUA e Canadá, Austrália, Nova Zelândia e alguns outros europeus. A Argentina, na segunda faixa, é mais feliz que o Brasil, que está na terceira.

No artigo do BMJ, os cientistas descartam fatores como genética, cor do cabelo (parece que na Europa se crê, por um consenso difuso, que os louros são mais felizes), alimentação, clima. Certa importância é dada à comida: os três países mais felizes de acordo com o Mapa de Leicester (Dinamarca, Suíça e Áustria) têm algo em comum: uma culinária meramente utilitária e sem imaginação. Anotem e meditem, amigos gastrônomos.

Os dinamarqueses estão entre os povos que consomem mais álcool e tabaco na Europa; têm altos índices de casamentos e de divórcios; têm uma das maiores taxas de fertilidade européias; praticam muito os exercícios, principalmente bicicleta. Será que isto influi ou contribui? Os cientistas também registraram que depois que a seleção dinamarquesa tornou-se campeã da Europa em 1992, derrotando a Alemanha, o gráfico da felicidade nacional deu um pulo para cima e nunca mais desceu.

Um parágrafo no final do estudo, no entanto, nos dá o que pensar. Dizem os profs. Christensen, Herskind e Vaupel:

“Foi sugerido que há uma relação com boas expectativas sobre o futuro, mas se tais expectativas são exageradamente altas podem também se tornar uma fonte de desapontamento e baixa satisfação. Os dados do Eurobarômetro remontam a 1980 e mostram que os dinamarqueses, embora satisfeitos, mantêm suas expectativas para o futuro bastante baixas, abaixo da média. Em contraste, Itália e Grécia, com índice mais baixos do que os deles, têm expectativas altas para o ano que vem. (...) Os dinamarqueses exprimem sua satisfação com a vida com a expressão “lige nu”, que significa “por agora”, e expressa a idéia de que ‘por enquanto estamos felizes, mas talvez não dure muito”. Quando acabar, é o brasileiro que vive para o aqui-e-agora!

1208) “Henry e June” (26.1.2007)



Vi no DVD este filme de Philip Kaufman, que narra o período, no início dos anos 1930, em que o americano Henry Miller e a francesa Anaïs Nin se conheceram em Paris, tiveram um caso amoroso e decolaram em suas respectivas carreiras literárias, ambas fortemente marcadas pelo erotismo. O filme poderia chamar-se Henry e Anaïs, mas o título que tem rende homenagem a June, a esposa americana de Miller, a qual durante muito tempo fez programas para sustentar a literatura do marido, que ela considerava um gênio. As duas mulheres executam em torno dele um complexo bailado de idas e vindas, atração e ciúme. Seu comportamento soa curiosamente reprimido e problemático, numa época permissiva como a nossa. Naquele tempo, as revoluções sexuais eram revoluções morais, porque os indivíduos se sentiam na obrigação de justificar moralmente seus atos. Hoje, o sexo tornou-se uma mercadoria como qualquer outra, mesmo quando não envolve dinheiro vivo. É moeda-de-troca nas relações de poder, de fama, de controle social. A imprensa descreve Henry Miller como “um dos pioneiros da liberação sexual de nossa sociedade”, mas se Miller visse o preço dessa liberação, pediria eutanásia.

Anaïs Nin é interpretada por Maria de Medeiros, atriz portuguesa com tipo de Betty Boop e enormes olhos expressivos. June é Uma Thurman, longa, esguia, problemática, depressiva. Miller é Fred Ward, que tem uma certa semelhança física com o escritor e cujo olhar de permanente deboche tem algo da sua impudência naquela época. Miller é um autor execrado pelas feministas, por sua masculinidade agressiva, escrachada, polígama. Sua obra foi um corte definitivo entre os conceitos de amor e de sexo, coisa que os autores (e autoras) de temperamento romântico jamais lhe perdoaram. Miller defendia a idéia de que o sexo é bom, é natural, é legítimo, e que o compromisso entre as partes se encerra quando elas saem da cama. Por outro lado, Miller dizia que a sociedade americana transformava tudo em mercadoria e em jogo de poder, e que o sexo deveria afastar-se disso, ser vivido fisicamente, duas mentes e dois corpos voltados um para o outro.

J. G. Ballard via em Miller o apogeu da literatura operária, da literatura feita por sujeitos simples, sem formação sofisticada, autodidatas, que se acham no direito de viver a vida como lhes dá na telha e de escrever uma literatura própria, sem se preocupar com modelos. Seus livros mais conhecidos são os “Trópicos” (de Câncer e de Capricórmio) e a trilogia da “Crucificação Encarnada” (Sexus, Plexus e Nexus). Não se espere de Miller a criação de tramas originais ou a descrição de personagens memoráveis. Sua literatura é um relato pessoal, centrado no próprio Eu, como um livro de viagens. Foi chamado de barroco, de beatnik, de surrealista, de pop. Tinha um pouco disto tudo, mas sua obra foi acima de tudo um dos maiores auto-retratos literários de seu século.

1207) Usina de Sonhos (25.1.2007)



Essa noite eu estava numa cidade qualquer com amigos, de madrugada, fazendo farra. Fizemos tanto barulho na rua que a polícia veio e nos levou para a delegacia, onde um delegado nos passou uma descompostura, dizendo que aquilo não era papel para jovens de família, e ameaçando fazer-nos passar a noite no xilindró. Eu estava meio de banda, sem dar muita atenção, e, para me distrair comecei a improvisar um repente, dizendo em voz alta: “Eu sou tão pobre / tenho um par de chinela / um paletó de flanela / pra fazer comida fria”. O verso saiu tão ruim que acordei, sobressaltado.

De vez em quando me acontece compor versos inteiros, geralmente sextilhas ou versos de embolada, durante um sonho. Imagino que jogadores de futebol sonhem que estão batendo um escanteio, e que mecânicos sonhem que estão às voltas com um platinado ou um virabrequim. Faz parte dos resíduos do cotidiano que a mente reprocessa durante o sono. Dizem algumas teorias psicológicas que quando dormimos o cérebro age como um caixa de Banco ao encerrar o expediente: dá uma geral em tudo que foi feito, verifica se não houve algum erro, joga fora o que não presta mais, arquiva no devido lugar as coisas que podem ter alguma importância. Esta seria, dizem os especialistas, uma das principais funções do sono e do sonho. Pessoas com privação de sono são acometidas, depois de certo tempo, de surtos de amnésia. Por que? Porque seu processo de “salvar arquivos” foi interrompido.

Ora, depois das 16:00 horas o caixa do Banco não se limita a salvar arquivos. Enquanto faz isto, ele conversa com os colegas, escuta MP3 no Ipod (se o gerente for gente boa), atende o telefone, fala da vida alheia. No caso do nosso cérebro, a função organizadora de memórias atua em paralelo com as outras funções, entre elas o que eu chamo de “função fantasista” ou “função fabulatória”, aquela que nos faz inventar pequenos episódios que não aconteceram, a partir de detalhes que vemos ou lembramos.

Fazemos isto o tempo inteiro quando estamos acordados. Às vezes, temos três convites para sair à noite: cerveja com amigos, cinema com a namorada, festa na casa de Fulano. Temos que escolher apenas um, e no processo de escolha criamos pequenas ficções antecipatórias para avaliar qual das opções é mais promissora. Imaginamos velozmente, em cada caso, como vai ser, como vamos chegar no local, quem poderemos encontar, as situações que podem surgir, o grau de diversão e de prazer de cada uma. E este sistema de criar historinhas nos ajuda a tomar decisões.

Durante o sono, inventamos situações, só que desta vez não é a mente consciente que cria, a mente voltada para administrar nossa relação com o mundo exterior. Desta vez quem cria não é o médico, é o monstro. No bom sentido, claro: o monstro é essa coisa torta, barroca, gigantesca, descomedida, a que o médico chama “o Inconsciente” e que deveríamos ter a coragem, como Augusto dos Anjos, de chamar apenas, em letras garrafais: EU.