("Babel", de Peter Bruegel)
Qual a melhor maneira de se comunicar
uma idéia sutil, uma ideia extraordinária, ou pelo menos distante da
experiência comum do leitor? Talvez
pelo retorno dessa ideia em situações diferentes que lhe servem de ilustração,
mesmo quando o autor parece estar querendo contar outro fato ou comentar outro
assunto.
Isto tanto pode ser uma estratégia
deliberada quanto um processo que o autor faz instintivamente. Grandes escritores têm, muitas vezes, um
certo número de idéias fixas que os perseguem durante a vida inteira.
Guimarães Rosa tinha uma obsessão assim
com o tema da vitória do espírito sobre si mesmo, ou sobre suas próprias
fraquezas. Leitor de correntes variadas
do misticismo e do ocultismo, ele acreditava no poder da meditação, da prece,
da concentração mental, para atingir uma disciplina superior sobre as idéias e
as emoções.
O Grande Sertão: Veredas está
costurado de ponta a ponta por este tema, que aparece das formas mais
variadas.
(Guimarães Rosa, entre vaqueiros)
Há dois episódios principais. Um deles (pág. 147-148, 2a.
edição) é a lenda, referida por Riobaldo, de que
“...qualquer
um vira brabo corajoso, se puder comer cru o coração de uma onça pintada. É, mas, a onça, a pessoa mesma é quem carece
de matar; mas matar à mão curta, a ponta de faca!”
Existe aí um curioso raciocínio
circular, porque para se tornar corajoso o indivíduo precisa praticar uma ação
que por si só já requer coragem.
O outro episódio (pág. 408-409) é o
divertido diálogo entre dois jagunços, o José Misuso e o Etelvininho, em que o
primeiro se propõe a ensinar ao segundo, por 40 mil réis, como fazer para fazer
um inimigo errar o tiro. Segundo ele,
basta pensar com força:
“Tu
erra esse tiro, tu erra, tu erra, a bala sai vindo de lado, não acerta em mim,
tu erra, tu erra, filho de uma cã!...”
Ao que o Etelvininho responde que não
vai pagar nada, porque já empregava esse mesmíssimo método, com uma diferença:
que no final insultava o outro de “filho de uma cuia!”. E Misuso retruca: “Então basta que tu me
pague só uns vinte milréis...”
A concentração mental não é capaz
apenas de fazer tremer a mão que dispara, mas de evitar o contágio com o medo
alheio, como Riobaldo diz à pág. 377:
“Alguém
estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o
senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a
coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta”.
O mesmo funciona (pág. 406) para evitar
a inveja: “A primeira coisa, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é
topar firme as invejas dos outros restantes...
Me rejo, me
calejo!”. O
autodomínio é uma luta de si consigo mesmo, da força do espírito contra a
própria fraqueza.
Os exercícios de autossugestão ou de
autoconcentração são evocados quando Riobaldo diz (pág. 45-46):
“...para
a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah basta se olhar um minutinho
no espelho – caprichando de fazer cara de valentia; ou cara de ruindade!”.
Note-se que todas estas referências
surgem espalhadas ao longo da história de um herói problemático, um intelectual
que somente se junta ao bando de jagunços com a função de dar aulas ao chefe
destes, e que depois descobre ter talento para atirador.
Riobaldo torna-se guerreiro, e mais
tarde torna-se chefe, apesar de si próprio, após um pacto com o Diabo ao qual
ele próprio fica sem saber se o Diabo compareceu ou não. “Travessia” é uma palavra chave do romance,
entendida, entre outros sentidos (viagem, etc.) como a transformação que só se
obtém através da experiência, do esforço, do poder de modificar a si mesmo e
aos outros.
Jorge Luís Borges, por outro lado, costura
através de sua obra a ideia fantástica de que a mente possa ser capaz de
influir no mundo físico. Uma ideia
recorrente, que lhe deu alguns dos seus melhores contos.
Em “As ruínas circulares”, um mago
sonha um ser humano célula por célula, órgão por órgão, imagina esse indivíduo,
que será seu filho, e o faz brotar do nada pelo simples esforço da
vontade.
Em “Tlon, Uqbar, Orbis Tertius”, ele
conta a história de um planeta em que a simples expectativa de encontrar um
objeto faz com que ele surja do nada: se um lápis se perde e três pessoas o
procuram, isto pode fazer com que surjam três lápis diferentes.
No mundo de Rosa, a mente faz um
esforço sobre-humano para moldar a si mesma; no mundo fantástico de Borges, a
existência de objetos materiais depende do fato de serem percebidos ou não, e
ele conta:
“É
clássico o exemplo do umbral que perdurou enquanto o visitava um mendigo, e que
se perdeu de vista com sua morte. Às
vezes alguns pássaros, um cavalo, salvaram as ruínas de um anfiteatro”.
Borges atribui à mente humana o papel
de dar e de manter a existência, papel semelhante ao de Deus, como ele mesmo
lembra em “Deutsches Requiem”:
“Se a
atenção do Senhor se desviasse um só segundo da minha mão direita que escreve,
esta cairia no nada, como se a fulminasse um fogo sem luz”.
Reiterações desse tipo, salpicadas ao
longo de um extenso romance, como o de Rosa, ou de vários contos curtos, como
os de Borges, acabam dando espessura e peso a uma ideia. Talvez o leitor a
visse com estranheza se fosse apresentada às pressas, ou, pior ainda, se o
autor tentasse dar-lhe uma extensa justificativa, cheia de exemplos, ao longo
de várias páginas.
O que estes dois autores fazem não é
mais do que deixar que a ideia aflore, num movimento emocional espontâneo, no
ato da escrita. Entranhada em sua visão
literária do mundo, a ideia emerge nos momentos em que é necessária,
revestindo-se dos exemplos que cabem em cada situação.
E assim, camada vai se superpondo a
camada, permitindo-nos recompor em nossa mente a ideia abstrata por trás de
todas essas instâncias concretas.
(Uma versão ligeiramente diferente deste artigo foi
publicada na revista “Língua Portuguesa”, Editora Segmento, São Paulo, # 62,
dezembro de 2010)