quarta-feira, 6 de abril de 2022

4810) Eu Me Lembro 24 - músicas (6.4.2022)


 
1)
Eu me lembro de uma música de Renato e Seus Blue Caps, num dos seus elepês de maior sucesso (1967), onde o cantor, numa vocalização pra lá de melancólica, cantava “Menina feia que mora... na mesma rua que eu... com ela ninguém namora... sozinha sempre viveu...”
https://www.youtube.com/watch?v=T-99vNQGZiM
 
Essa música era usada a toda hora como gozação e provocação com as garotas que a gente conhecia. Amizade de adolescente, em geral, é com quem mora perto, ou com quem estuda no mesmo colégio, e sempre existia uma menina para quem alguém podia dizer no meio de uma festa, ao trocar o disco e colocar a agulha naquela faixa: “Essa música agora é uma mensagem sonora dedicada de todo coração a Fulana...”  Fulana ficava toda fofa na expectativa da homenagem, e quando a música começava, rolava a mangação.
 
Pouco importa que nos versos seguintes a música dissesse: “Menina feia... não chore assim... você é feia pra eles... mas é a mais linda menina pra mim, linda pra mim...”  O que valia de fato era a provocação no início. Ressalte-se que não me lembro disso sendo feito em tom de bullying contra alguma menina feiosa. Em geral, dedicavam às bonitonas da turma, que davam de ombros, entortavam a boca e diziam: “Muito engraçadinho você, achando que tem chance.”


2)
Eu me lembro de vez em quando que há um livro a ser escrito, na História Secreta da Música Popular Brasileira, ou se não um livro pelo menos um capítulo, intitulado: “As Músicas Sem Pé Nem Cabeça”. Se tem uma coisa que música precisa ter é pé e cabeça, não é mesmo? Ou a música faz a gente dançar, ou diz alguma coisa que faz pensar. Quando não serve para essas duas coisas, serve pra quê então, meu Deus do céu?
 
É o caso desta obra-prima do surrealismo, “A Mulher Que o Trem Matou” (1961), da Dupla Ouro e Prata. Uma composição (registremos, para a História) de Waldomiro “Dinho” da Silveira. E diz: 

A mulher que o trem matou, morreu; morreu pela primeira vez... 
Morreu, que triste fim, morreu com o nariz fazendo assim: 
Hum, hum hum, hum, 
Hum, hum hum, hum. 

Quando ela estava enterradinha, 
o mundo inteiro quis saber: “Morreu?” 
Morreu! Que triste fim! 
Morreu com o nariz fazendo assim: 
Hum, hum hum, hum,
Hum, hum hum, hum. 

Eu passei minha juventude cantando isso em mesa de bar.
https://www.youtube.com/watch?v=3TWQ6hBowMk



3)
Eu me lembro, ainda no capítulo de músicas sem pé nem cabeça, vai ser difícil arrancar o troféu das mãos de Geraldo Nunes e seu clássico “A Velha Debaixo da Cama” (composição de Jonas de Andrade): 

“A véia debaixo da cama, a véia criava um rato... 
À noite que se danava, o rato chiava, e a véia dizia: 
Ai meu Deus se acaba tudo, tanto bem que eu te queria!...”
 
É um poema cumulativo, porque debaixo da cama são acrescidos um gato que mia, um cachorro que late, um veado que corre, um galo que canta, um macaco que pula, um porco que fuça, um bode que berra, um jumento que rincha, um leão que esturra, e uma cobra que morde rato, gato, cachorro, veado, galo, macaco, porco, bode, jumento, leão, a própria véia... “e não sobrou nenhum”. 

É um formato folclórico, no estilo do tradicional “A Velha A Fiar”, e neste caso a cobra serve para dar um fim a uma história infinita, matando os outros figurantes.
 
O mais curioso é que dá para entender que a velha era uma velha comum, e era embaixo da cama que ela criava esses bichos todos. Mas no tempo em que essa música tocava O DIA TODO, O DIA TODO nas rádios de Campina Grande, todas as caricaturas, desenhos, charges, cartazes, graffiti de parede que se referiam a ela desenhavam uma cama e... a véia debaixo da cama!



4)
Eu me lembro de outra música da infância, que jamais seria gravada hoje: “Maria Chiquinha”. Verdade que acabou sendo gravada anos atrás pelos infantis Sandy & Júnior, e que deu o que falar. É aquela música dialogada em que “Genaro”, o namorado, submete a namorada “Maria Chiquinha” a um interrogatório sobre um passeio suspeito que ela deu no mato.
 
Parece que a gravação original de 1961, é de Evaldo Gouveia e Sônia Mamede:
https://www.youtube.com/watch?v=Ny8S9nb4nzg
 
“Que é que ocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha? Que é que ocê foi fazer no mato?”
“Eu precisava de cortar lenha, Genaro meu bem... Eu precisava de cortar lenha.”
 
E por aí vai, Genaro encurralando a moça cada vez mais, para saber quem era a pessoa “de culote” e “de bigode” que estava com ela. Insatisfeito, ele ameaça:
 
“Então eu vou te cortar a cabeça, Maria Chiquinha... Então eu vou te cortar a cabeça.”
“Que é que ocê vai fazer do resto, Genaro meu bem? Que é que ocê vai fazer do resto?”
“O resto? Pode deixar comigo que eu aproveito!...”
 
É uma música surrealista, punk, que envolve ciúme, assédio, feminicídio e necrofilia, tudo ao mesmo tempo. E a gente ouvia isso sem problema algum, porque o tom caricato e meio infantil da melodia e das vozes projetava tudo num plano cartunesco, de gibi, e a violência era tão abstrata quanto a dos desenhos de Tom & Jerry.
 
O grande mistério para mim era “jamelão”. Eu já sabia que, como nome próprio, era um sambista; entendia que era uma planta; mas como seria essa planta? E durante muitos anos fiquei guardando o jamelão na prateleira mental das plantas exóticas, junto com o ruibarbo e a salsaparrilha.



5)
Eu tenho a mania de gostar de doidos, e nisso me sinto bem avalizado estando na companhia de Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Raymond Queneau, Werner Herzog, André Breton e muitos outros. É preciso ficar claro que não é qualquer doido, pois muitos deles são dignos de pena, ameaçadores, ou incômodos; mas o doido que se manifesta de maneira absurdamente profunda, ou imaginativamente caótica.
 
Quando eu era garoto, tocava demais no rádio esse rock de Gordurinha (sim, o rock quando apareceu todo mundo fez algum tipo de rock, inclusive os nordestinos). Ele me fazia largar o que estivesse fazendo e correr para a sala, para escutar de perto. (Naquele tempo, era preciso aproveitar qualquer chance para ouvir uma música que a gente gostava; a gente não sabia quando teria outra.)
 
“Tô Doido pra Ficar Maluco” (de Ataíde Pereira e Rodrigues Da Silva).
https://www.youtube.com/watch?v=Tvb7Mgg7fEs
 
Eu estou doido pra ficar maluco
estou doidinho mesmo pra ficar maluco
tenho calo na memória, tirei curso de caduco
sou um matusquela que chegou de Pernambuco.
 
Alô alô, Jacarepaguá, voluntariamente vou me apresentar
Alô alô, Jacarepaguá, guarde o meu cantinho que eu já vou pra lá.
 
O “Jacarepaguá” é no caso uma referência à Colônia Juliano Moreira, que meio século depois voltaria a ser famosa através da figura do artista Bispo do Rosário. Naquele tempo, o bairro virou sinônimo de “lugar pra doido”, e lembro também a música “Neurastênico” (“Brrrum, ai que nervoso estou; brrrrum, tou neurastenicô... Brrrrum, preciso me casar, senão... eu vou pra Jacarepaguá”).
 
No rock de Gordurinha, o melhor era a letra, onde eu reencontrava a poesia do absurdo, ao estilo de Zé Limeira:
 
Lá na Colombo eu fiz uma confusão
pedi água sanitária e sanduíche de sabão;
mexi o cafezinho com o cabo da vassoura
mandei somar a conta num pedaço de cenoura...
 
A Colombo é sem dúvida a famosa e chique Confeitaria Colombo, um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro. Gordurinha fecha a canção com esta quadra impecável:
 
Trabalho atualmente numa fábrica de areia
Me deito às quatro horas e levanto às três e meia
Sou telefonista, só atendo quando quero:
“ – Zero mil e zerecentos e zerenta e zero!...”
 
O nonsense dos versos da “Colombo” são no clima dos versos absurdistas que Aloysio de Oliveira compôs para a melodia do clássico de Glenn Miller, “In the Mood”, que ele aproveitou por assonância para intitular “Edmundo”:
 
Edmundo nunca sabe bem o que faz
ele é um sujeito distraído demais
dizem que uma noite quando em casa chegou
antes de ir pra cama ele fez tal confusão
que os chinelos no seu travesseiro botou
e se ajeitando foi dormir no chão...
Na manhã seguinte, depois de levantar,
encheu a banheira para um banho tomar,
foi para a cozinha e fritou o roupão,
e a água da banheira ele mexeu com a colher,
depois de passar pasta-de-dentes no pão
foi se lavar na xícara de café...
 
É demais, o homem não sabe o que faz
eu tenho pena do rapaz,
o Edmundo, todo mundo diz que não tem jeito mais...
 
Aqui, na bela gravação de Lisa Ono, “Edmundo”
https://www.youtube.com/watch?v=JFnSNvPFQeI
 
 
 
 
 
 
 
 









4 comentários:

sibilante disse...

Grande Bráulio, só seu texto e sua memória afetiva. Para nos brindar com frescor e saudades,em tempos soturnos.

Zeca Lopes disse...

Beleza Braulíssimo!! Que texto maravilhoso! Fui longe nos recantos da memória e do saudosismo! Abraço fraterno.

Carmelo Ribeiro disse...

Oi Braulio,

Quando eu era criança, de vez em quando, meu pai cantava a música do bigorrilho, que não me saía da cabeça durante dias e que eu nunca entendi, era assim:

Lá em casa tinha um bigorrilho
Bigorrilho fazia mingau
Bigorrilho foi quem me ensinou
A tirar o cavaco do pau
Trepa Antônio, o siri tá no pau
Eu também sei tirar o cavaco do pau
Dona Dadá, Dona Didi
Seu marido entrou aí
Ele tem que sair
Ele tem que sair.

Anônimo disse...






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