terça-feira, 17 de setembro de 2019

4504) A palavra Exu (17.9.2019)




Proposta Inicial: “Toda palavra é uma mensagem que pode ser decifrada, mesmo não tendo sido cifrada antes por ninguém.”

"Decifrar" pode ser também inventar uma intencionalidade a-posteriori. Não é a “descoberta”, e sim a invenção de significados. Decifrar não é apenas encontrar o que estava escondido, é criar o que não existia antes.

Uma caixa vazia e fechada, que a gente abre e no momento em que ela é aberta se enche de coisas.

Há muitos anos, na Bahia, tomei uma noitada de cerveja com o cineasta Miguel Borges, que divertiu todo mundo na mesa com interpretações onomástico-numerológicas do nome de cada um. Ele pegava cada nome, explicava (inventava) um significado, uma mensagem. A pessoa morria de rir vendo o truque, mas concordava que tinha tudo a ver com ela.

Sim, era o mesmo Miguel Borges que dirigiu As Escandalosas e O Enterro da Cafetina – ele também foi editor da “revista mística” Ano Zero e tinha uma certa propensão ao Realismo Fantástico.

(Infelizmente, as testemunhas da veracidade do que estou dizendo, Guido Araújo, Pedro Camargo, estão a esta altura debruçados numa varanda lááá de cima, me cochichando: “Não se preocupe, vai em frente, faz de conta que está inventando mesmo.”)

A palavra “exu”, por exemplo, que neste amanhecer sonolento se depara comigo numa página (a página de abertura) do livro novo de Luiz Antonio Simas, O Corpo Encantado das Ruas. Essa palavra contém o quê?

Ela contém um E, um X e um U.

É a palavra “EU”, só que no centro dela, cravado nela, dividindo-a, está um X, uma incógnita, o símbolo do desconhecido (uma quantidade que não sabemos qual seja) e do arbitrário (uma quantidade que nos permite decidir: “é tanto”).

No centro do Eu, dois machados cruzados, duas lanças, duas espadas, simbolizando o conflito, mas não apenas o conflito negativo (a guerra, a destruição), mas o conflito gerador, o cruzamento entre o macho e a fêmea gerando vida, o cruzamento entre duas lascas de pedra gerando fogo.

Esse X é uma encruzilhada no centro do Eu, assim como existe um grão de areia no centro da ostra. É em redor desse conflito incômodo que camadas sucessivas de luz começam a se sobrepor e a se irradiar.

O Exu (diz Simas) é “o mensageiro entre o visível e o invisível”. É o equivalente ao Hermes grego e o Mercúrio romano. (Essa analogia é por minha conta e risco.) Não é uma pessoa, é um portal que pensa, um portal ambulante com intencionalidade e algo de emoções humanas. Uma passagem e ao mesmo tempo um passageiro.

Como todo mundo sabe, o símbolo da cruz é visto por alguns como o instrumento de suplício em que Jesus Cristo foi sacrificado. E é visto por outros como a Cruz de Descartes, o eixo das abscissas e ordenadas, do X e do Y, do visível e do invisível.

O X e a cruz são o mesmo símbolo, em diferentes momentos de sua rotação. São o contato com o Incógnito, o Desconhecido, o Mistério Inefável.

Exu não é o diabo cristão, como muita gente insiste em vê-lo. O Diabo cristão é por um lado uma personificação (uma antropomorfização) do Mal, um Mal que de fato existe no mundo físico-espiritual. Mas no varejo ele acaba sendo o personagem preferido das correntes puritanas e repressoras, como um elemento contaminador que serve para envenenar tudo que torna a vida mais intensa e por isso causa medo. O sexo é coisa do Diabo, o riso é coisa do Diabo, a festa é coisa do Diabo, o prazer é coisa do Diabo, a comida saborosa é coisa do Diabo, a bebida é coisa do Diabo...

Essas coisas não são do Diabo, não são do Mal: são do Exu, são dessa contradição cravada em nós – a contradição entre o físico e o espiritual, duas forças que nos puxam em direções opostas e nos dilaceram, mas nesse puxar e dilacerar geram a energia que nos move.

Não podemos existir só no físico – nem só no espiritual. Temos que existir neste ponto onde os dois se encruzam, neste X. Neste cabo-de-guerra onde essas duas energias se enfrentam, como numa queda-de-braço onde centímetros de vantagem se alternam mas um é sempre incapaz de derrubar de vez o outro.

Na adolescência eu olhava fascinado um livro que me foi muito importante, e que não reli desde então: Sexus de Henry Miller. E eu via o Exu dentro desse título. O sexo (cujo mundo eu estava adentrando pé ante pé, virginiano que sou) tinha cravado dentro de si esse diabrete irrequieto com o pau duro de fora, e quando eu prestava atenção via que o diabrete era eu.

Era o trupizupezinho que reencontrei anos depois numa xilogravura e usei como carimbo dos meus folhetos e livros de poemas. Um diabinho do bem, de asas, mas olhando de soslaio as coxas das moças. Um diabinho que dança. “Só posso acreditar num diabo que seja capaz de dançar”.


SEXUS é uma palavra que tem EXU no centro e dois S nas extremidades. Por que um S? O que diz essa letra? Quem dá a resposta é a sextilha famosa de Pinto do Monteiro:

Eu só comparo esta vida
à curva da letra S:
tem uma ponta que sobe
tem outra ponta que desce
e a volta que dá no meio
nem todo mundo conhece.

A Vida nas duas extremidades. O Eu dentro dela. E no centro do Eu esse X mercurial, instável, desequilibrante, arlequinal, ora rude ora terno, ora violento ora apaixonado, com duas correntes de energia que se cruzam e se reforçam uma à outra.

Não estou “viajando”, aliás são 10:55 da manhã e tudo que tomei foi meia garrafa de café, com um sanduíche de queijo. “Sexus” era uma palavra onde se cifrava esse sentido da vida como algo que tem no seu centro uma encruzilhada, o lugar das oferendas (a oferenda é o nosso corpo, que deixamos aqui para que o espírito possa subir – segundo a crença de muitos).

A prova de que não estou delirando é que o próprio Henry Miller sub-titulou aquela sua trilogia como “A Crucificação Encarnada”, “The Rosy Crucifixion”. Uma dessas expressões onde a forma traduzida é superior à original, porque “encarnado” não significa apenas “cor de rosa, avermelhado”, mas “transformado em carne”.


Assim diz, na página de abertura do seu livro, compartilhada em foto nas redes sociais, o autor Luiz Antonio Simas:

A ruas são de Exu em dias de festa e de feira, dos malandros e pombagiras quando os homens e mulheres vadeiam e dos Ibêjis quando as crianças brincam.

Tudo começa com o ipadê, o padê de Exu, a cerimônia propiciatória com farofa de dendê, cachaça (oti) e cantos rituais, para que Exu traga bom axé para as festas nos terreiros, cumpra seu papel de mensageiro entre o visível e o invisível, chame os orixás e não desarticule, com suas estripulias fundadoras da vida, os ritos da roda, aqueles em que os deuses dançam pelo corpo das iaôs (as filhas de santo). O padê de Exu também pode ser colocado na encruzilhada, lugar em que as ruas se encontram e os corpos da cidade circulam.

A encruzilhada é a crossroads onde se diz que os cantores de blues como Robert Johnson “fizeram um pacto com o Mal para aprender a tocar”. O que é uma falácia, uma calúnia. Nas encruzilhadas o único pacto possível é com o fluxo, o trânsito, a passagem, a travessia. A encruzilhada representa (entre outras coisas) o lugar onde o Bem e o Mal se cruzam, se tocam, se contaminam: a Vida.

E quem tem jurisdição sobre a encruzilhada é esse trickster, esse diabrete, esse anjinho da cara suja, esse palhacinho exuberante, exultante, exumado do fundo da terra e que ao ser trazido de volta à luz está eternamente vivo, transgressor, desarrumando o arrumado, viramundo virado, fechando um caminho aqui, abrindo outro acolá, ponto de energia ora em corrente alternada, ora em corrente contínua, cravado no centro do Eu do mundo.











domingo, 15 de setembro de 2019

4503) "O senhor acredita na realidade?..." (15.9.2019)




Uma vez, depois de uma mesa-redonda sobre temas ligados a religião, fé, etc., alguém me perguntou: “Por que você não acredita na existência de Outro Mundo?”, e eu disse: “Eu não consigo acreditar nem sequer neste, quanto mais num que eu nunca vi!...”

Um cético nem sempre é um cara aferrado à realidade. Às vezes é um cara que precisa de comprovações muito rigorosas. E se ele sente que o mundo de cá está em falta, o que dizer de um mundo com o qual ele nunca teve nenhum contato?

Não que eu seja tão cético assim, e na verdade tenho uma certa medula sertaneja que me leva a ser prático, aceitar as coisas como elas parecem ser, e botar açúcar no café, mesmo admitindo a possibilidade de que ambos não passem de ilusões berkeleyanas do meu espírito.

A respeito disso, tem uma história muito divertida a respeito dos filósofos Bertrand Russell e Rudolf Carnap. Os dois estavam num congresso filosófico discutindo sobre o “phaneron”, um conceito grego que designa o conjunto de nossas percepções sobre o mundo. Quando existe uma certa regularidade nessas percepções, construímos uma “ficção lógica” para afirmar que qualquer coisa existe: uma pedra, uma cadeira, uma casa, uma pessoa...

Porque não sabemos o que é o mundo – sabemos apenas o que percebemos dele, mas pode haver infinitas coisas que não percebemos. O exemplo na linguagem comum é o vento, que a gente não vê, mas deduz sua existência pelas coisas que ele move. (A resposta mais simples a essa questão é que a existência do vento não é percebida pela visão, mas o é pelo tato, assim como há coisa que o tato não percebe mas a visão sim, como as estrelas do céu.)

Há também o mundo microscópico, que era inacessível a nossa percepção, mas começou a fazer parte do nosso phaneron com o advento do microscópio, etc.


(Bertrand Russell e Rudolf Carnap)

Pois bem: certa vez os filósofos Bertrand Russell e Rudolf Carnap estavam debatendo esta questão, perante um auditório na Universidade de Chicago, e a certa altura Russell perguntou:

-- Professor Carnap: nossas esposas vieram conosco, e estão presentes aqui no auditório. Será que elas existem, de fato, ou devem ser consideradas meras ficções lógicas baseadas em regularidades existentes no phaneron de nós dois, seus maridos?

Foi uma pequena molecagem da parte de Russell, que tinha aquele humor britânico fundado em muita gentileza e cara-de-pau. É um argumento aparentemente irrespondível, e que me lembra uma boutade semelhante de Ariano Suassuna, que dizia:

-- Eu não gosto de Kant [o filósofo] e um dos motivos é esse. Ele dizia que nós não podemos afirmar a realidade exterior, que aquele jasmineiro é uma coisa para mim, outra para você, outra para ele. Mais do que isso, ele acreditava que eu nem sequer posso provar que a imagem que eu tenho corresponde ao real. (...)  É muito fácil você discutir se aquele jasmineiro, se a imagem daquele jasmineiro corresponde ou não ao real. O jasmineiro está quieto, no canto dele. Mas eu garanto que, se fosse uma onça que entrasse aqui, nem Kant iria perguntar se por acaso se tratava de uma correspondência com o real.
(Cadernos de Literatura, Instituto Moreira Salles, pag. 30)


O pragmatismo oncístico de Ariano ecoa o pragmatismo conjugal de Bertrand Russell. Tem certos aspectos da realidade que, por mais que a gente procure questionar filosoficamente, eles sempre dão um jeito de prevalecer e dizer, “pára com essa besteira, é claro que eu estou aqui.”

O mesmo problema – penso eu – pode lançar luz sobre o famoso Paradoxo de Aquiles e a Tartaruga, que já fez correr muita tinta de penas ilustres como a de Jorge Luís Borges e a de Douglas Hofstadter (Godel, Escher and Bach). É aquela antiga pegadinha onde o filósofo tenta nos convencer de que numa corrida entre “o velocípede Aquiles” (como se diz em algumas traduções de Ilíada) e uma tartaruga aquele jamais conseguiria ultrapassá-la. É claro que consegue. Mas é mais difícil provar isso teoricamente do que na prática.

O que todos esses problemas envolvem é um detalhe que foi levantado com justiça pelo professor Carnap, naquele debate com Russell. Queixou-se ele de que Russell estava tentando ser engraçadinho às suas custas, pois na verdade não se estava ali duvidando da existência das esposas de ninguém. O que eles dois (e todos os filósofos) procuram é algum tipo de certeza filosófica, uma prova argumental de que isto em que acreditam é verdadeiro. Querem uma prova filosófica irrefutável de que o mundo é real; e essa prova não existe.


(Bruno Latour)

Um artigo de Ava Kofman no New York Times conta os percalços filosóficos de Bruno Latour, um filósofo da Ciência que vem passeando há muitos anos nesses labirintos. Ela abre o artigo narrando como Latour estava no Brasil em 1996, participando de um simpósio, e um ansioso psicólogo conseguiu levá-lo para um lugar discreto e desfechar-lhe a pergunta: “Professor, o senhor acredita na realidade?...”


Parece piada de leitor de Philip K. Dick depois de algumas cervejas. Mas isso é o café-com-pão desses filósofos, que se veem forçados a esmiuçar as menores coisas na tentativa de provar o que parece óbvio a todo mundo.

O trabalho de Latour envolve uma longa tentativa de provar que os fatos científicos não existem por si sós: eles são o produto de uma rede (networtk) de instituições e práticas e grupos e debates e consensos, que os tornam inteligíveis e aceitos. Se essa rede de apoios sócio-culturais se romper ou se esvair, fica fácil provar qualquer coisa. Até que a Terra é plana.

A consciência científica é uma consciência social, comunitária. Ela pode ser sacudida de vez em quando pelos terremotos de um novo “conceptual breakthrough”, uma ruptura de conceitos para abarcar uma visão mais ampla – como o que Einstein fez com a Física, ampliando (e negando em alguns aspectos cruciais) o universo de Isaac Newton.

Ela pode também ser sacudida por terremotos de obscurantismo, como parece estar sucedendo agora, com a ascensão de grupos semi-letrados manipulados por gente interessada na devastação do meio ambiente, por exemplo. Ou na (impossível) eternização do modelo energético baseado no petróleo e nos motores a explosão.

Esses grupos se aproveitam de um certo torre-de-marfinismo da própria comunidade científica e começa a questionar coisas absurdamente óbvias – se a Terra gira em torno do Sol, ou se de fato existem micróbios. E se propõem, principalmente para milhões de jovens inconformados com isto ou aquilo, como “questionadores do status quo científico”, como rebeldes perseguidos pelo mundo acadêmico.

Filósofos e cientistas são capazes de questionar a existência de uma esposa ou de uma onça, pelo mero esforço intelectual de explorar uma pergunta até o fim (coisa que os semi-letrados detestam fazer). E é irônico que agora sejam forçados a ignorar perguntas como “O senhor acredita na realidade?”, que em sua aparente ingenuidade é uma pergunta crucial, para explicar o que nunca lhes passou pela cabeça ter que explicar – que é preciso tomar vacinas contra o sarampo, ou que não existem alienígenas reptilianos disfarçados de políticos ou banqueiros. (Se bem que esta última imagem seja a metáfora mais adequada que nosso inconsciente coletivo já produziu sobre estas duas categorias profissionais.)









segunda-feira, 9 de setembro de 2019

4502) Bacurau, o dia da caça (9.9.2019)




Bacurau (2019), de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é um filme que contrasta empatia e crueldade, uma das questões cruciais da civilização de hoje.

Apesar de violento, não é um filme sobre a violência, assim como não é um filme sobre telecomunicações, que têm um papel importantíssimo no seu roteiro. Também não é um filme sobre política partidária e a administração pública – embora faça delas um retrato caricato e burlesco em seu terço mediano, e revele a sua face sádica no desfecho.

Em termos de ficção científica, eu minimizo a importância das engenhocas tipo GPS, drone, transmissor de ouvido, etc. Prefiro filiar este roteiro à linha que é comumente associada ao conto “Vintage Season” (1946), de Catherine L. Moore e Henry Kuttner, sob o pseudônimo de “Lawrence O’Donnell”. E às suas incontáveis variantes nas décadas seguintes.

Pode não ter sido a primeira, mas é uma das melhores histórias sobre turistas do Futuro que viajam pelo tempo para presenciar as estações mais belas do Passado. Moore e Kuttner destacam a alta tecnologia dos viajantes, sua beleza física, sua sofisticação, o secretismo de suas atitudes e o desprezo que sentem pelos “locais”.



Bacurau pega esta premissa e a transporta para outro contexto, o dos caçadores profissionais (no caso, uma competição onde cada caça abatida conta pontos numa disputa). Eles levam consigo seus armamentos, alguns altamente sofisticados (o que os deixa parecidos com Viajantes no Tempo), outros “vintage”, objetos de memória afetiva pessoal. Cria-se a disputa entre dois mundos, o mundo pós-drone e o mundo pré-água-encanada.

É um pouco como um safari caçando elefantes ou leões no Serengeti ou no Kilimanjaro. Ou, quem sabe, em algum vilarejo remoto da China ou da Índia, um lugar perdido, fora do mapa, habitado por gente toda igual, sem nome, sem rosto, sem história pessoal, descrita no tom monocórdio de quem faz relatórios: “Foram abatidas duas presas, sendo um macho, uma fêmea...”.


O que esses “visitantes do Futuro” não sabem é que o futuro exportado por eles próprios já chegou ali, sob a forma de celulares, tablets com GPS, escopetas, e a mesma determinação em liquidar sem muita conversa. Naquele mundo, entretanto, a empatia é como a água potável: um bem cuidadosamente armazenado e fruído.

O vilarejo de Bacurau é anunciado por uma placa de estrada dizendo “Bacurau – se for, vá na paz”, o que ecoa a advertência de Riobaldo Tatarana no Grande Sertão: Veredas: “O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal...”.

Guimarães Rosa não está ausente desta história de violência, e a canção de Geraldo Vandré, “Réquiem para Matraga”, nos remete a Augusto Matraga, o desordeiro que vira cristão e abandona os tiroteios, mas volta a pegar em armas para defender dos jagunços o vilarejozinho de Rala-Coco, não muito maior que Bacurau.



A violência é boa? A violência é ruim? A violência é uma parte da Natureza física. É uma parte da natureza mental humana, quer a gente queira, quer não. Bacurau descreve essa sucessão de violências, mas elas são efeito colateral do verdadeiro tema, que é a crueldade, e neste aspecto a gente não deve olhar para o que os personagens empunham, e sim para os seus olhos.

Pode até haver no mundo um ator cujos olhos exprimam mais crueldade fria do que os de Udo Kier, mas esse ator hipotético não foi escalado para o filme. Quem está lá é este veterano aterrorizador-de-gente, com seus olhos de naja, de consideração-zero para com as vidas humanas à sua volta.


Ou então o ator Thomas Aquino, "Acácio", mais conhecido como “Pacote, o Rei do Teco”, pistoleiro que executa com limpeza e sem pressa e é uma espécie de Billy the Kid local, com os olhos intensos de quem já viu mais coisas do que suporta contar.


Ou então o outro líder local, Lunga, uma criatura feral, que apropriadamente vive emboscado no mato e quando é convocado emerge no vilarejo como (ele também) um visitante do Futuro, um mad-max pós-apocalíptico com olhos que já cortaram o cordão umbilical com qualquer zona-do-conforto histórica.



São os três grandes personagens trágicos do filme, os três que vivem plenamente no futuro onde há execuções públicas no Vale do Anhangabaú, uma suposição que dez anos atrás nos pareceria absurda, mas que hoje parece estar a meros dez anos no futuro. 

Os demais personagens são gente comum, tanto os rambos-de-fim-de-semana que vêm caçar no Brasil quanto os habitantes da cidade. A violência de uns tem um viés sádico – o casal que trepa no mato, à noite, logo após executar com uma-rajada-de-balas outro casal que fugia.  A de outros tem um distanciamento prosaico, como o casal de negros idosos, que abatem os atacantes com escopeta, mas usam pistolinha de plástico para borrifar água nas plantas enquanto conversam com elas.

A ausência de empatia, de vínculo, é o grande crime cultural assumido por esses caçadores do futuro, com armamento liberado e proteção das autoridades do Município, para o qual estão decerto “gerando divisas”, porque, num presente como o de agora, está na cara que o futuro não nos reserva apenas o turismo sexual.

A situação mais patética é a dos “guias locais”, esses personagens ambíguos de todo filme de aventuras em ambiente alienígena – o africano que fala inglês, o aborígene que ouve rock, o rastreador marroquino que no fim da caçada ganha do japonês um rifle de lembrança. Divididos entre dois mundos, acabam sendo destruídos por um deles – geralmente pelo que tentavam acessar, e que os repele pelo que são.

Bacurau tem um ritmo arrastado que condiz com o ambiente onde aquilo acontece, e é mais um desses filmes nordestinos onde tanto protagonismo é dado às estradas, seja o asfalto esburacado e carcomido, seja a terra-batida trepidante de pedregulhos. As intermináveis estradas que nos conduzem a Mossoró, a Sousa, a Salgueiro, a Serra Talhada, a Catolé do Rocha, a Parnaíba, a Monteiro, a Taperoá, a São José do Egito.

Alguém deveria cortar e emendar todas essas deslocações intermináveis em Cinema, Aspirina e Urubus, em Árido Movie, em Azougue Nazaré, em Baixio das Bestas, em dezenas de outros filmes onde os personagens, como num video-game de free-roaming, não se teleportam magicamente de um lugar para o outro, mas têm que vencer fisicamente aquelas distâncias.

Optando por uma narrativa descentralizada, sem se focar num personagem ou par de personagens específicos, o filme mostra apenas pedaços da vida desses desconhecidos que surgem, abatem ou são abatidos, e desaparecem para sempre. O caráter fragmentado da história é reforçado nas cenas finais, quando o último caçador é conduzido para a cripta subterrânea (que evoca um dos episódios mais arrepiantes do futurista A Estrada de Cormac McCarthy) e grita: “Isto é apenas o começo!”.








sábado, 7 de setembro de 2019

4501) João Melchíades, o Cantor da Borborema (7.9.2019)




O dia de 7 de setembro é aniversário de muita gente importante, como meus amigos-do-coração Roberto Coura e Jakson Agra, e de instituições fundamentais para o equilíbrio do Universo, como o Treze Futebol Clube, o glorioso Galo da Borborema.

Mas resolvi dedicar este artigo a um aniversariante não menos ilustre, embora pouco conhecido, que hoje completa o seu sesquicentenário de nascimento.

Nasceu em 7 de setembro de 1869, no município de Bananeiras (PB) o poeta que veio a ser chamado “O Cantor da Borborema”, João Melchíades Ferreira da Silva.

Acabei de passar os olhos no primeiro esboço da biografia do poeta que está sendo escrita pelo pesquisador Arievaldo Viana, de Fortaleza, o mesmo que biografou o “pai do cordel” Leandro Gomes de Barros, além do precursor “Santaninha”, cuja vida ele reconstituiu juntamente com Stélio Torquato.

Aqui, as respectivas referências:

Leandro:

Santaninha:


No seu trabalho bem documentado sobre João Melchíades, sob o título provisório de A Saga Aventurosa do Cantor da Borborema, Arievaldo destaca, entre outros, três elementos importantes para fazer dele um personagem único:

1) Lutou ainda muito jovem na Guerra de Canudos.

2) Escreveu o Romance do Pavão Misterioso.

3) Foi personagem de Ariano Suassuna no ciclo da Pedra do Reino.

Melchíades teve uma vida aventurosa: raptado por ciganos antes dos dez anos de idade, só foi resgatado pela família três anos depois. Aos dezoito anos, ainda na época da monarquia, entrou para o  Exército, e em 1897, como integrante do 27º Batalhão de Infantaria das Forças Armadas, foi combater na Guerra de Canudos, onde quase perdeu a vida. Depois da guerra, foi promovido a Sargento-Mor.

Existem relatos entre seus descendentes de que ele teria voltado da guerra muito traumatizado pelos episódios de violência e crueldade que testemunhou, entre eles a visão dos cadáveres carbonizados de mães agarradas aos filhos. Em todo caso, participou da tomada das trincheiras dos jagunços ao longo das margens do rio Cocorobó, uma das batalhas mais sangrentas daquela guerra.

Melchíades casou-se em 1897 com Senhorinha Melchíades, com quem teve quatro filhos. Nessa época começou também a sua produção poética. Segundo Arievaldo Viana, a pesquisadora Ruth Brito Lemos Terra localizou um poema datado desse período.

Alguns dos folhetos mais conhecidos do poeta, que morreu em 1933, são A Guerra de Canudos, O Príncipe Roldão no Leão de Ouro, Estória do Valente Sertanejo Zé Garcia, Combate de José Colatino contra o Carranca do Piauí, História de Juvenal e Leopoldina, A Vitória dos Aliados: a Derrota da Alemanha e a Influenza Espanhola e outros.

Com relação ao célebre Romance do Pavão Misterioso, existe há muitas décadas dentro da historiografia do cordel uma polêmica acesa sobre quem seria o verdadeiro autor do folheto: José Camelo de Melo Rezende ou João Melchíades Ferreira da Silva.


Arievaldo Vianna colhe depoimentos de descendentes dos poetas e de outras fontes, e tenta pôr um pouco de ordem nesta discussão que repousa em grande parte nas opiniões de pessoas que dispõem apenas de relatos orais. Há pouca documentação impressa disponível.

Segundo Arievaldo,

...entre 1925 e 1929 circula a primeira edição impressa de O Pavão Misterioso, a qual vinha assinada por João Melchíades Ferreira da Silva. Alguns pesquisadores asseguram que já havia uma versão do poema, escrita anteriormente pelo paraibano José Camelo de Melo Resende. Esta versão supostamente “original”, no entanto, teria vindo a lume apenas sob a forma de cantoria, numa apresentação de Camelo Resende, não tendo sido publicada. Teria ocorrido então que João Melchíades, parceiro de Camelo Resende em algumas cantorias, memorizara a essência da narrativa, reescrevendo-a a seu modo.

Há indícios de que Camelo teria de fato criado a versão inicial do romance, mas Melchíades imprimiu primeiro a sua, de modo que cada um, possivelmente, achava-se com algum direito para reivindicar a primazia.

José Camelo não protestou de início porque foi esta uma fase turbulenta de sua vida; preso por ter recebido e passado adiante (inadvertidamente) algum dinheiro falso, ele levou anos para reequilibrar sua vida. E nesse processo revoltou-se contra a publicação do folheto de Melchíades, afirmando, ao publicar sua própria versão:

Quem quiser ficar ciente
da história do Pavão
leia agora este romance
com calma e muita atenção
e verá que essa história 
é minha, e de outro não!

Há muitos anos versei
esta história, e muitos dias,
fiz uso d’ela sozinho
em diversas cantorias
depois dei a cópia dela
ao cantor Romano Elias.

O cantor Romano Elias
mostrou-a a um camarada,
a João Melchíades Ferreira
e este fez-me a cilada
de publicá-la, porém,
está toda adulterada.

De fato existem diferenças textuais entre as versões dos dois autores, bem como semelhanças, que o livro de Arievaldo estuda de maneira mais minuciosa.

João Melchíades tem a honra de ser um dos poucos personagens “da vida real” que figuram no Romance da Pedra do Reino (1971) de Ariano Suassuna (ele e o poeta-charadista Euclides Vilar). No livro, ele é o mestre poético do protagonista Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, e aparece em momentos-chave da narrativa.



O maior destaque dado a Melchíades, contudo, é numa das sequências do romance, As Infâncias de Quaderna, publicado em folhetins no Diário de Pernambuco entre 1976 e 1977, e ainda inédito em livro.

É nesta última obra que João Melchíades é visto por Quaderna pela primeira vez, no Folheto XLIII, ”A Casa do Matagal e a Chave Enferrujada”.

Quaderna tinha sido raptado por ciganos (tal como ocorreu com Melchíades na vida real) e é resgatado pelo cangaceiro Antonio Silvino, que o traz de volta para a casa de sua família. O garoto está passeando pela fazenda com seu primo Arésio Garcia-Barreto e os dois se encontram com o poeta, que reconhece Quaderna, de quem é primo distante. E passa a transmitir a este, pela primeira vez, a história da família de ambos!

João Melchíades começou a infeccionar meu sangue com aquela turva história de assassinatos sobre aras e pedras, tesouros, encantações, combates, coroas, elevação e trucidamento de Reis, violações de Princesas, incêndios, degola dos inocentes e outras coisas gloriosas e monárquicas.

Diante do menino maravilhado com tantas façanhas nobres, Melchíades continua:

– Os turcos inventaram que tinham matado O Rei Dom Sebastião, na África, mas é mentira. Ele veio para cá, numa Nau, entre nevoeiros, e depois um filho dele veio morar no Pilar, e o neto em Boqueirão de Cabaceiras, junto com o Teodósio, o Imperador Teodósio – Teodósio de Oliveira Ledo de nome. (...)

Veio a Guerra dos Quebra-Quilos em 1874: foi aí que, na estrada de Campina Grande aqui para Taperoá, degolaram seu Avô, meu tio, Pedro Alexandre. A mulher dele, Bruna, tia minha e Avó sua, pegou a cabeça cortada dele e veio para cá, pedir morada e proteção a seu outro Avô, o Barão do Cariri. (...) Bruna, que era filha do Padre Wanderley, mandou botar na salmoura a cabeça do marido dela, Pedro Alexandre, para ela não apodrecer.

É esse o mestre que injeta na imaginação fogosa de Quaderna uma boa parte dos delírios que futuramente irão desencadear os prodígios, os crimes bárbaros e as convulsões sociais do Romance da Pedra do Reino. Seu uso como personagem de ficção por Ariano mostra a importância deste poeta de verdade cujo sesquicentenário de nascimento celebramos hoje, 7 de setembro de 2019, quando o Brasil mostra que não mudou nada, nadinha.




(ilustração: Arievaldo Viana)








quinta-feira, 5 de setembro de 2019

4500) "O Eclipse do Sol em Veneza em 1842" (5.9.2019)






Algum tempo atrás tirei uma brincadeira no Facebook, postando a imagem de uma pintura que se me deparou por acaso, “O Eclipse do Sol em Veneza em 6 de Julho de 1842”, do artista italiano Ippolito Caffi (1809-1866). Nunca tinha ouvido falar no artista nem tinha visto o quadro, mas ele me chamou logo a atenção por uma série de detalhes insólitos.

Como as redes sociais são notórias estimuladoras de bravatas, postei o seguinte:

Eu ainda vou preparar uma aula de 50 minutos sobre este quadro, "O Eclipse do Sol em Veneza em 6 de Julho de 1842", de Ippolito Caffi. Tem caminhos para falar de astronomia, ciência, pintura, cinema, realidade imagética, objetividade/subjetividade, surrealismo, memória, perspectiva...

Claro que era mera pabulagem de minha parte, o que não impede que todas essas coisas possam ser discutidas. Um pouco no estilo texto-visual cultivado pelo mestre W. J. Solha. 

Vamos falar primeiro de Astronomia.

O quadro mostra um fenômeno astronômico que na época, século 19, já estava devidamente explicado e entendido: os eclipses solares. Acontece que naquele tempo os fenômenos celestes tinham que ser ou descritos verbalmente ou pintados. A fotografia ainda engatinhava em 1842.

Esse quadro tem um valor simbólico muito grande. Um eclipse é um fenômeno de luz e sombra. No quadro, temos uma divisão muito clara entre o mundo das trevas e o mundo da luz, que o pintor separa com admirável candura. O primeiro aspecto que chama a atenção no quadro é essa separação entre sombra à esquerda e luz à direita, totalmente irreal se pensarmos como um eclipse realmente se produz.

Mesmo com o Sol parcialmente encoberto, a luz não se dirige, como um facho ou um holofote, para um só lado do céu. A parte não-encoberta do Sol, por menor que esteja no momento, torna-se um ponto de onde os raios de luz se espalham, vindo na direção da Terra. A luminosidade é menor, mas tão uniforme quando a de um dia normal.

(Vejam só – estou especulando. Nunca vi um eclipse total do Sol, e eis-me questionando um pintor que certamente viu!)

Eis um eclipse, visto do espaço:



Do ponto de vista pictórico, o quadro, que usa a Perspectiva rigorosa já padrão nos anos 1800, tem o Sol como ponto-de-fuga em relação a nós; mas a projeção desviada desse feixe de raios luminosos sugere um ponto de observação alternativo, num ângulo de quase 90 graus entre o observador e o Sol. Sugere o lugar onde o Sol estaria sendo visto por inteiro. É por assim dizer uma pintura que aponta para fora de si mesma.

Este aspecto me leva a pensar em como os temas da Ciência têm sido tratados visualmente para demonstração. Tratados científicos feitos desde o Renascimento, dirigidos aos leigos. E entre os leigos incluímos reis, Papas, nobres, etc. – o pessoal que detém o poder e precisa ter algum contato com o Saber.

Toda representação visual de algum aspecto científico é valiosa e incompleta, é essencial e falível. Me lembro dos famosos esboços de Galileu, com o olho no telescópio e a pena na mão, rabiscando o que via, e que publicou em O Mensageiro das Estrelas (1610):



Ninguém jamais vira as asperezas e anfractuosidades do solo da Lua, cheio de crateras. A teoria vigente era de que ela, sendo um corpo celeste criado por Deus, seria uma esfera lisa e perfeita como uma bola de bilhar. Os desenhos acima já começaram a levar alguma lenha para a fogueira que o cientista, prudente e safo, conseguiu saltar, não sem algum prejuízo para a própria valentia.

Já o desenho abaixo está num livro do astrônomo Huygens, registrando as observações de Galileu e outros sobre os anéis do planeta Saturno, algo que ninguém entendia mas estava vendo e precisava desenhar. Eram as primeiras tentativas de entender o que havia ao redor de Saturno.



Hoje temos sistemas de observação astronômica mais sofisticados, podemos achar graças nessas tentativas toscas de entender que diabo era aquilo. Mas esses desenhos sempre me lembraram estas fotos abaixo, que são modelos da “Nuvem de Probabilidade” dos elétrons, as possíveis trajetórias deles em torno do núcleo atômico:



Mais uma vez, é a tentativa de representação visual do invisível.

Voltamos ao quadro de Ippolito Caffi. O quanto a Pintura é diferente da fotografia, que por mais tosca que fosse era quase instantânea, mesmo em 1842!   Em 1838 já existia a famosa foto feita por Daguerre do “Boulevard du Temple”, que necessitou de alguns minutos de exposição contínua, e se tornou a primeira foto onde aparecem pessoas: o sujeito em pé na esquina e o engraxate que lustra os seus sapatos.



Como ficaria uma única foto, em exposição contínua, de todas as fases de um eclipse? Foi preciso inventar o Cinema para ilustrar esta questão.

Se Caffi batesse uma foto do eclipse não dependeria tanto da própria Memória, que é outro tema essencial aqui. Um quadro como esse não poderia ser pintado na hora. O pintor está tentando reproduzir na tela o que ele certamente viu, mas depende da memória, uma memória ainda não educada por demonstrações “objetivas” de como um eclipse acontece. Ninguém em 1842 tinha fotografado ou filmado um eclipse. Caffi tentou pintar o que lembrava – e o que lembrava é esse encantador absurdo que ele nos mostra.

Nossa memória é sempre metade registro e metade imaginação. O que a lembrança não capta, o instinto substitui.

A Realidade Imagética tem um caráter ambíguo, por um lado é sinônimo de “fidelidade, descrição, reprodução exata, etc.” e por outro lado é uma construção da mente de quem a produz, seja pintor, desenhista, fotógrafo, cineasta, etc.  Não existe imagem 100% real. Toda imagem já nasce como uma manipulação.

Acreditamos em qualquer imagem do mesmo modo como os contemporâneos de Ippolito Caffi provavelmente viram este quadro e acreditaram que um eclipse, visto daquele ponto de sua cidade, era exatamente assim. A realidade imagética não reproduz o que vemos, mas nos ensina a ver. Ela fornece convenções óticas que não passam de ilusões: a ilusão da distância através da perspectiva, a ilusão de relevo através do sombreado, a ilusão do movimento através do desfoque, e assim por diante.

A produção de imagens (pintura, foto, cinema, etc.) é a produção de pseudo-objetividades, de realidades que parecem autônomas, independentes, “naturais”, mas que são realidades de segunda ordem, de segunda mão: foram produzidas por pessoas como nós.

Parece ingênuo dizer isso depois de milênios de pintura, séculos de fotografia, mas o surgimento das imagens digitais e dos seus instrumentos de manipulação nos fazem reaprender de novo essa lição.

Photo-shop, fake-news, colagens, fotos interferidas… tudo são falsas fatias de objetividade que podem ser trucadas à vontade e acabar nos enganando. Eu mesmo vejo várias vezes por semana imagens que “botaria a mão no fogo” por serem autênticas, e depois acabo reconhecendo que são imagens subjetivas, imagens que foram modificadas com alguma intenção, mesmo que seja apenas a de criar um meme humorístico.

Como este belo planeta Saturno de Val Koleva, no saite “Design Crowd”:



Quanto ao Surrealismo, eu diria que Ippolito Caffi mereceria um lugar de honra, ainda que involuntariamente, nessa enorme galeria de falsas paisagens, de registros em trompe l’oeil, de perspectivas distorcidas, de imagens com perfeccionismo fotográfico produzindo ambientes impossíveis.

Max Ernst, “La Ville Entière” (1935-36), uma paisagem iluminada de frente por uma lua cheia situada por trás dela:



René Magritte, “L’Empire des Lumières” (várias versões), uma paisagem cuja metade superior está “de dia” e a metade inferior “de noite”:


Rob Gonsalves, “Night Lights”, onde a lua cheia avistada por trás dos pinheiros contém os continentes da Terra e suas luzes urbanas:



Ou o fotógrafo surrealista Erik Johansson e seu “The Cover Up”, onde o céu escuro e tempestuoso é recoberto por um céu artificial, cheio de sol:


A pintura de Ippolito Caffi envolve todos estes fatores e o que a torna mais interessante é o fato de que ela mistura objetividade e subjetividade de uma maneira hoje talvez evidente para a maioria de nós, mas que não o seria tanto para o artista e seus contemporâneos. Eles talvez o achassem 100% fiel à verdade visual e à plausibilidade científica do que retratou.

Todo “realismo” é sempre constituído por uma liga fortíssima entre a realidade externa, que se impõe pela presença, e a realidade interna, ou mental, que se impõe no ato de criar ou recriar. Esta pintura é um exemplo perfeito disso.