quinta-feira, 10 de março de 2011
2500) A tradução sonora (10.3.2011)
(ilustração: Wolstenholme)
Traduzir literatura é como fazer caricatura.
Como é impossível reproduzir o original (como reproduzir, com nanquim preto sobre papel branco, um rosto em três dimensões, a cores, de carne e osso, cheios de nuances incapturáveis?), o caricaturista precisa identificar alguns detalhes que “saltam aos olhos” e passá-los para o papel de modo que qualquer leitor olhe aquilo e numa fração de segundo diga: “É Fulano de Tal! Puxa, está igualzinho!”.
Não, não está igualzinho, perderam-se inúmeros aspectos do rosto e da expressão de Fulano. Mas alguns, essenciais, foram trazidos para o papel de modo reconhecível.
Mesma coisa é traduzir qualquer texto que vá além do “the book is on the table”. E um aspecto que muitas vezes se desdenha é traduzir o som, além do sentido. Porque a expressão literária é feita das duas coisas. O som das palavras (na poesia como na prosa) é uma melodiazinha que faz parte de sua essência.
Como traduzir, por exemplo, o mero título do poema de Eliot, The Waste Land? Uns dizem “A Terra Sem Vida”, outros dizem “A Terra Devastada”, outros “A Terra Destruída”, outros “A Terra Desolada”; já vi em espanhol “La Tierra Baldía”.
Talvez “devastada” seja o melhor adjetivo, porque a partícula /vast/ evoca a palavra /waste/ do original; e foi isto que levou Paulo Leminski a sugerir a tradução híbrida “Devastolândia” que é a de sonoridade mais próxima a “The Waste Land”.
Uma tradução anticonvencional, ousada, que pelo seu próprio exagero caricatural (na sua tentativa de chegar ainda mais perto do som da expressão inglesa) mostra a dificuldade de traduzir sentido e som ao mesmo tempo.
A principal restrição que se pode fazer ao termo proposto por Leminski é estilística: ele destoa das três palavras comuns e severas usadas no título original, propõe um neologismo surpreendente, e com isto se afasta do tom de voz (toda poesia tem por trás de si uma voz) usado por Eliot.
“Le Bateau Ivre”, o grande poema de Rimbaud, é traduzido em português como “O Barco Bêbado”, “O Barco Embriagado” e “O Barco Ébrio”. As três se equivalem em sentido; mas a tradução mais próxima, para meu gosto, é a terceira, porque “ébrio” tem a sonoridade mais próxima de “ivre” e reproduz, sem forçar o sentido, a melodiazinha do título original.
Reli dias atrás as traduções feitas por Carlos Drummond de algumas canções do Álbum Branco dos Beatles.
Ele traduz “Blackbird” por “Melro”. Eu discordo, não semanticamente, mas no aspecto sonoro. “Melro” tem também duas sílabas, mas “blackbird” são duas sílabas fortes, explosivas, sendo que “melro” tem uma forte e uma fraca.
Além do mais, “melro” não é uma palavra tão instantaneamente visualizável. A saída (se não for uma tradução para ser cantada) talvez fosse esquecer o ritmo do original e apelar para o aspecto visual: talvez “Pássaro Preto”, com o /pp/ evocando o /bb/ do termo inglês.
Dizem os grandes tradutores que toda tradução é perda; mas é preciso, sempre, vender caro a derrota!
quarta-feira, 9 de março de 2011
2499) Os 400 queijos (9.3.2011)

Sempre que se fala em políticas públicas para a cultura eu me lembro da frase impaciente do General De Gaulle, quando era presidente da França: “Como se pode governar um país que tem 400 marcas de queijo?”. A beleza deste desabafo é que ele não vem de um “enfant terrible” como Daniel Cohn-Bendit ou de um contestador como Sartre. Vem de um dos mais caretões dos militares que já encarnaram A França Profunda; vem da reserva moral da velha Gália. Pois é, general. Uma coisa é acreditar em símbolos, outra muito diferente é produzir uma legislação que acomode e contemple reivindicações específicas. Ora que diabos, 400 tipos de queijo?! Por que não resumimos isto a uma dúzia, e estamos conversados?!
A cultura tende a se diversificar e a se ramificar fractalmente, subdividindo-se cada vez mais, em instâncias minimamente particularizadas e individuais. A cultura é o reino do único, do personalizado. Por outro lado, a administração (e as suas correspondentes legislações e instâncias regulatórias) tende a generalizar, a colocar mil coisas diferentes sob uma única denominação, para ganhar tempo e poupar papel, além de deixar claro que todos são iguais perante a lei. Ou seja, a lei que organiza a produção e comercialização dos queijos tem o dever republicano de tratar todos os queijos como iguais. Só que cada queijo francês (e “queijo francês” se pronuncia com o tom de voz de “catedral gótica” ou “concerto barroco”) exige ser tratado como algo excepcional, fora de série, irredutível às generalizações. E chegamos àquele impasse tão comum quando tratamos com objetos culturais: a Cultura é uma regra composta totalmente de exceções a ela mesma.
Um governo resolve eliminar um imposto qualquer sobre o livro, para ajudar a literatura. Mas os romancistas reclamam que a mudança favorece também os livros de auto-ajuda, que, segundo eles, são mais inimigos da literatura do que as fogueiras da Inquisição. O que fazer? Liberar do imposto apenas os romances? Apenas os bons romances? Apenas os romances bem escritos? Apenas os romances com mensagem social e verdade filosófica? E o que dizer dos livros de contos? E da poesia? Por outro lado, talvez os romances publicados pelas pequenas editoras talvez precisem mais dessa isenção do que os das editoras grandes, que têm mais jogo-de-cintura financeiro. E por aí vai.
Toda lei é uma desumanização, porque implica numa generalização, numa recusa a reconhecer o que cada Ser tem de único. Temos o hábito de dizer que “cada caso é um caso”; essa frase bate de frente com um dos pilares da democracia, que é a noção de que todos devem ser iguais perante a lei. Todos acreditamos que a lei não pode favorecer ninguém, não pode abrir exceções para beneficiar alguém considerado “um caso especial”. O fato de que mesmo assim toda lei abre tais exceções mostra o quanto é difícil praticar a democracia (que se baseia na pressuposição de igualdade) no reino da diferença.
terça-feira, 8 de março de 2011
2498) Literatura e joguinhos (8.3.2011)

Os videogames são uma das formas de narrativa mais interessantes inventadas nas últimas décadas. (Neste caso, estou colocando no mesmo saco produtos distintos, como o game de PC, que roda através de um CD-Rom ou DVD, e o game de console, que é plugado na TV e roda com cartucho). Ele é a confluência entre os jogos de mesa-e-tabuleiro como War ou Banco Imobiliário, o cinema de animação e a TV.
Dizem que os literatos e os intelectuais em geral têm preconceito contra os games. Bem, talvez esse preconceito exista “em geral”, mas sei de numerosos casos particulares em que sujeitos sérios (como eu) se afeiçoam a certos jogos e não acham que estão perdendo seu tempo. Nos casos em que o preconceito existe, ele usa, curiosamente, termos parecidos com os das pessoas que não gostam de ficção científica. Ou seja: 1) É coisa de garoto, não de adulto; 2) É coisa de americano, não tem nada a ver com a realidade brasileira; 3) Só trata de guerra, violência, monstros. São verdades parciais, e todo preconceito é alimentado por verdades parciais que alguém transforma em generalizações definitivas. Não importa se um milhão de negros são trabalhadores; basta o preconceituoso ver um negro com preguiça para dizer: “Tá vendo? Todo negro é preguiçoso”.
Sugiro a leitura deste artigo (http://tinyurl.com/6aupee5) no saite da Livraria Saraiva, em que escritores brasileiros jovens (Daniel Galera, Antonio Xerxenesky, Samir Machado, Simone Campos) dão seu depoimento sobre sua vivência com os games e o modo como eles estão sendo assimilados em seus romances e contos.
A grande contribuição dos games é quanto à narrativa, porque eles propõem uma interatividade que a literatura-de-livro só pode oferecer até um certo ponto. Existem games violentos, mas porque o mercado se estruturou assim. E por falar nisso, também existem livros violentos. Assim como temos hoje histórias em quadrinhos adaptando a obra de Proust, nada impede que daqui a algumas décadas tenhamos um videogame do Ulisses de Joyce, em que o jogador passeará por Dublin, terá acesso à infância de Stephen Dedalus, encherá a cara com Bloom num bordel, poderá bisbilhotar as aventuras extraconjugais de Molly... Se houver mercado para isso, acontecerá.
Nada impede que tenhamos um dia um game da Guerra de Canudos, usando material fornecido por Euclides da Cunha, Vargas Llosa, Manuel Bombinho e outros. Nada impede que o Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, possa virar um imenso universo interativo, reproduzindo antigas e novas aventuras. O que era literatura (texto, palavras, frases) pode virar game (imagens, som, movimento, narrativa, interatividade), com alguma perda estética neste processo, mas também com a possibilidade de ganhos estéticos. É irrelevante essa discussão boba de “quem é melhor, a literatura ou o game”. O melhor meio é o que atrai maiores talentos individuais. Já foi a literatura, mas nada obriga que seja assim eternamente.
2497) A Era do Monjolo (6.3.2011)

Nasci no Condado de Gurtz, no ano 2557 da Era do Monjolo. Minha infância foi uma fuga constante em lombo de burro, no temporal ou na poeira, comendo frutas verdes ou carne estragada, meu pai matando um salteador por dia, minha mãe perseguindo coelhos e acendendo fogueiras. Às vezes demorávamos numa choupana o tempo suficiente para que eu me acostumasse ao desenho das palhas no teto, ao som do vento, ao meu cantinho de dormir, o mesmo canto todas as noites, e pensei uma vez que gostava daquele canto como se ele fosse uma pessoa. Nunca demorava muito, porque chegavam os cavaleiros do Khan, archotes em punho, devastando aquela aldeia, incendiando as florestas e cravando cabeças nas estacas. O Khan demonizou nossas vidas até quando, na época da minha primeira barba, conheci jovens rudes e queimados do sol que me levaram para uma reunião numa gruta. Fiquei sabendo que ali se reuniam os inimigos do Khan, que preparavam a sua derrubada. Perguntaram-me se gostaria de me unir a eles. Minha resposta foi puxar a faca que trazia à cinta, cravá-la no chão e ajoelhar-me.
Deram-me um fuzil, um nome novo, e treinamento. Assinei contratos com sangue, bebi pólvora misturada ao álcool, permiti que me fotografassem degolando um desconhecido, ou beijando a mão de um desconhecido, ou na Praça, erguendo um cartaz em língua desconhecida. Unimo-nos em volta dos exércitos comandados pelo Raij, a nêmese do Khan, o homem que jurara cortar sua cabeça pessoalmente e acabar com o terror na península. Possuídos por uma fúria sagrada, chocamo-nos contra os exércitos do Khan em sucessivos combates, até fazê-los refluir para dentro das muralhas da capital. Na véspera do assalto derradeiro, pude entrever o Raij à distância; ele passou em seu cavalo branco, exortando as tropas. No dia seguinte, desfilamos durante horas diante da estaca, à frente do palácio, em que a cabeça do Khan nos esperava, e a música das nossas trompas de caça emergiu das janelas do palácio, onde se debruçavam mulheres como nunca mais vi.
É duro implantar o Bem numa terra que o mal devastou durante gerações. A violência que o Khan propagara morava agora na memória dos aldeões, contaminava sua vida. Assaltos e emboscadas contra as tropas do Raij se multiplicavam. Descobrimos (a esta altura eu era centurião) que a morte do Khan não mudara muito o mundo, e que o Mal era como um monstro que sobrevive mesmo depois de decapitado. À frente das minhas tropas, comandei incursões de Norte a Sul, enquanto meus cabelos embranqueciam e os incêndios empobreciam as florestas. Vi erguerem-se contra nós as tropas andrajosas e mal-armadas dos seguidores do Valoong, o guerreiro envolto em peles de urso que jurou queimar vivo o Raij e seus seguidores. Hoje, à véspera de mais uma batalha, escrevo estas linhas à luz dos archotes, os mesmos que empunharemos amanhã no momento de massacrar outra geração de insurgentes, devastar suas florestas e cravar suas cabeças nas estacas.
2496) Contraintes (5.3.2011)
“Contrainte” (con-TRÉNT): palavra francesa que pode ser traduzida como “restrição auto-imposta”. É quando um artista diz: “Proponho-me a fazer uma obra sem ultrapassar tais e tais limites, ou na qual será obrigatório proceder assim ou assado”.
Parece um convite à excentricidade, mas a verdade é que toda obra de arte principia por aí. Quem compõe uma música para cavaquinho só pode lidar com as notas que cabem num cavaquinho.
O crítico Rudolf Arnheim escreveu um dos melhores livros sobre a linguagem do filme, A Arte do Cinema, defendendo com brilhantismo a teoria de que a riqueza da linguagem cinematográfica decorre de suas limitações iniciais: ser mudo, ser em preto-e-branco, ter a imagem limitada pra um retângulo, etc.
Na literatura temos “contraintes” famosa como o formato obrigatório de muitos gêneros poéticos, como o hai-kai, o soneto, etc. E existem aquelas “contraintes” excepcionais, como a de Georges Perec e de Ernest Wright, que escreveram romances inteiros sem usar a letra “E”.
Fiquei sabendo agora de outra obra que para mim é prova da existência de mais um autor fora-de-esquadro. Trata-se do livro Never Again, de Doug Nufer (http://www.amazon.com/o/asin/0971248567/ws00-20), que parece ser a história de um jogador compulsivo que quer se regenerar. O livro tem uma “contrainte” que é coisa de maluco: como o título indica, o autor se compromete a não mais usar qualquer palavra que venha a aparecer no texto.
Ou seja, cada palavra só pode ser usada uma vez. Imagine a dificuldade de alguém para omitir as palavras mais comuns da língua (o, a, os, as, um, uma, uns, umas, de, em, para, que...).
O livro começa parecendo um livro normal: “When the racetrack closed forever, I had to find a job. Want ads made wonderlands, founding systems barely imagined”. (“Quando a pista de corridas fechou para sempre, tive que procurar um emprego. Anúncios de ‘procura-se’ projetavam fantasias, criando sistemas que mal se poderia imaginar.”).
Veja-se que logo no comecinho do livro o autor já queimou algumas palavras essenciais: “When”, “the”, “I”, “to”, “a”. E por aí vai.
Quando chegamos à página 4, o autor já descarregou todo seu suprimento de conectivos e palavrinhas curtas, e as frases vão ganhando um aspecto assim: “Tilt? Nodded acceptance unclogs processional drainpipe. Headtalk gestures convey protodocuments: workpass, memo allocating stingy directional information”. Lamento, mas não vou perder meu tempo tentando traduzir.
Uma regra como esta pode produzir boa literatura? Talvez não, mas a verdade paradoxal é que a literatura não tem como objetivo apenas produzir boa literatura. A literatura serve para sabermos os limites do que é possível fazer com palavras. “Boa literatura” é uma pequena fatia dessa pizza, a fatia que uma cultura, numa época qualquer, resolve considerar mais significativa ou mais deleitável que as outras. A Boa Literatura é um efeito colateral, e não o objetivo da literatura.
sexta-feira, 4 de março de 2011
2495) “Fuck” e o Rei da Inglaterra (4.3.2011)
(O Discurso do Rei)
O item mais recente na minha coleção pessoal de coincidências envolve o filme de Tom Hooper O Discurso do Rei, visto algumas noites atrás, e um livro que estive lendo naquela mesma tarde.
The Other Victorians, de Steven Marcus, é um estudo da moral mediana da Inglaterra durante a época da Rainha Vitória (aproximadamente a segunda metade do século 19) através de alguns textos básicos.
Entre os textos estudados por Marcus, está o gigantesco e anônimo livro pornográfico My Secret Life, um clássico da literatura subterrânea, de autor até hoje não identificado com certeza. Ao longo de milhares de páginas, o autor descreve com riqueza de detalhes as aventuras sexuais que teve (com prostitutas e mulheres do povo, de modo geral) ao longo de toda sua vida adulta.
A certa altura de My Secret Life, o autor conta seu envolvimento com duas garotas interioranas que foram fazer a vida em Londres, garotas gostosinhas mas incultas. E ele se diverte contando a obsessão de uma delas com o palavrão “fuck”, que ainda hoje é meio tabu no mundo de língua inglesa, tanto que costumam referir-se a ele como “a palavra com F” (“the F-word”). Diz ele (melhor não traduzir os palavrões, para manter o sabor do original):
A certa altura de My Secret Life, o autor conta seu envolvimento com duas garotas interioranas que foram fazer a vida em Londres, garotas gostosinhas mas incultas. E ele se diverte contando a obsessão de uma delas com o palavrão “fuck”, que ainda hoje é meio tabu no mundo de língua inglesa, tanto que costumam referir-se a ele como “a palavra com F” (“the F-word”). Diz ele (melhor não traduzir os palavrões, para manter o sabor do original):
“Quando estávamos os três juntos, ela sentava quieta junto ao fogo, e de repente dizia em voz alta para si mesma: Fuck. Lembro de como penteava o cabelo ao espelho, quando eu e Nell estávamos sentados, e de como ao seu jeito vulgar e rude, e sua voz esganiçada, ela dizia: Fuck, fuck, fucky, oh, fuck, fuck, fuck, fuck her and fuck him, and fuck, fuck, fuck”.
É a propriedade terapêutica e libertadora do palavrão, não é mesmo? A garota provavelmente era reprimidíssima em sua zona rural de origem, e talvez ficasse mais eufórica com a liberdade para dizer palavrões do que com a liberdade para fazer “ménage à trois” com a amiga e o cliente.
Que o diga o Rei George VI, que, incentivado pelo terapeuta, dispara num jorro interminável de “fuck” e “shit”, que aos poucos vão desinibindo seu aparelho fonador.
Diz o IMDB que o filme recebeu uma censura etária um pouco alta pelas 17 vezes em que a palavra “fuck” aparece, mas essa censura foi reduzida com a ressalva: “Contém linguagem forte num contexto de terapia da fala”. O que é bem diferente das centenas de vezes em que “fuck” e o onipresente adjetivo “fucking” aparecem em qualquer filme policial norte-americano, especialmente os de Quentin Tarantino.
Diz o IMDB que o filme recebeu uma censura etária um pouco alta pelas 17 vezes em que a palavra “fuck” aparece, mas essa censura foi reduzida com a ressalva: “Contém linguagem forte num contexto de terapia da fala”. O que é bem diferente das centenas de vezes em que “fuck” e o onipresente adjetivo “fucking” aparecem em qualquer filme policial norte-americano, especialmente os de Quentin Tarantino.
A verdade é que palavrões como “fuck” são, primeiro, um tabu verbal quase intransponível. Depois viram uma blasfêmia euforicamente libertária, inebriando o paciente até uma espécie de orgasmo fonoaudiológico.
E por fim o termo se empobrece (à medida que se multiplica), transformando-se num expletivo inócuo e cada vez mais vazio, um cacoete cansativo para quem está ouvindo os personagens martelando sem parar aquelas sílabas. Deixa de ser um Tabu do Proibido para se transformar num Tabu do Obrigatório.
quinta-feira, 3 de março de 2011
2494) “eXistenZ” (3.3.2011)

É assim que se escreve o título deste filme que David Cronenberg lançou em 1999. É algo bem da cultura hip-hop essa negócio de desobedecer à regra das maiúsculas e minúsculas, não é mesmo? Em todo caso, vi no IMDB que dois dos produtores do filme são húngaros, e que a palavra “isten” significa “Deus” naquele idioma. Vivendo e aprendendo.
eXistenZ é mais um mergulho de Cronenberg na zona crepuscular entre realidade física e pesadelo freudiano. Usando o pretexto de um videogame coletivo, ele mergulha os personagens num jogo de perseguição e assassinatos, no qual aparecem de vez em quando as imagens bio-teratológicas que são obsessão do diretor: objetos vagamente humanos, parecendo reconstruções em plástico de órgãos sexuais deformados. Os filmes de Cronenberg são pesadelos biológicos, onde a toda hora nos defrontamos com seres ou coisas que parecem objetos de uma sex-shop mórbida. Ou então um daqueles museus de ceras pretensamente científicos que visitavam nossas cidades quando a gente era pequeno, cheios de púbis de manequins com doenças venéreas.
Os dois temas preferidos de Cronenberg são: 1) a incerteza philipkdickiana sobre o que é real e o que é ilusão; 2) o horror e o fascínio pelos aspectos físicos do corpo (incluindo-se aí o sexo, a excreção, a gravidez e reprodução, a mutilação, a deformação, etc.). É como se Algo o chamasse o tempo inteiro para ir viver num universo puramente cartesiano e mental, um universo feito de idéias metafísicas e de computação gráfica, onde as coisas acontecessem de acordo com a imaginação e o desejo. E, ao mesmo tempo, um outro Algo o arrastasse de volta para um mundo incômodo onde existe a carne humana e suas necessidades fisiológicas, onde existem a doença, a dor e a morte, mas ao mesmo tempo existe o “desejo maciço e permanente”, como dizia Vinícius de Moraes, pela textura pecaminosa dessas partes pudendas, dessas regiões proibidas.
Transportar-se para um videogame é pular para uma região virtual onde podemos matar e ser mortos sem que nada de verdade nos aconteça. Mas, de que adianta?! Para que nossa mente possa estar ali, precisamos do maldito corpo, que precisa estar num quarto de hotel vagabundo, plugado no console de um jogo! Os filósofos medievais viviam devaneando sobre o corpo ser a prisão da alma. O mundo moderno parece acreditar que a mente cometeu algum delito e sua punição é ficar presa a um corpo.
E isso logo agora, no umbral do século 21, quando finalmente conseguiremos criar o projeto Trans-Humanista de transferir nossas mentes para uma realidade virtual em que elas não estejam presas, por cordões umbilicais pegajosos e úmidos, a esses corpos cheios de mucosas, esfíncteres, glândulas de secreção interna e externa, superfícies viscosas e cavidades pulsantes. Cronenberg é o cronista desse momento de transição, das últimas gerações de humanos que possuíram carne e osso, e as primeiras gerações dos que serão feitos apenas de zeros e uns.
quarta-feira, 2 de março de 2011
2493) Kadhafi (2.3.2011)

No dia em que escrevo, a insurreição popular na Líbia está comendo pelas beiras a ditadura de Muhammar Kadhafi. A situação me lembra a dos protagonistas do conto “Casa Tomada” de Cortázar, em que a mansão de um casal de irmãos vai sendo invadida por desconhecidos. Cada vez que um aposento é tomado, eles o trancam por fora e não chegam mais perto. O espaço em que vivem vai se tornando cada vez menor. Quando é tomado o último recinto, eles saem, trancam a casa por fora e jogam a chave no esgoto da rua. Kadhafi fará o mesmo? Morrerá heroicamente, como ameaçou, de cimitarra em punho, enfrentando os invasores? Ou fugirá num jatinho particular, na calada da noite, com os costumeiros bilhões de dólares, rumo ao aconchego dos spas capitalistas?
Hosni Mubarak, o ditador egípcio recém-defenestrado, era um ditador de outra natureza. Militar-burocrata, foi adquirindo com o passar dos anos um aspecto vulturino de vampiro ou de milionário insone que se alimenta de fígados de criancinhas. Se um dia filmarem sua vida, pena que Bela Lugosi não esteja vivo para interpretá-lo. Mubarak era o típico conspirador de bastidores (dos quais há muitos em nosso Congresso Nacional), um indivíduo aparentemente sem talentos e sem prazeres, uma máquina de produzir maquinações, um ambicioso capaz de juntar fortunas mas não de desfrutá-las. Um calvinista do Mal, em suma, um sujeito que se nega os deleites da vida pelo sacerdócio de infelicitar a vida alheia. (Não sei nada da vida desse sujeito; falo da imagem que transparece. Vai ver que é o maior farrista.)
Kadhafi é, comparado a esse, um personagem divertido. É difícil não achar graça nas suas roupas extravagantes, nos seus óculos excêntricos que deixam Elton John no chinelo, na sua grandiloquência infantil. Entre o ditador soturno e o ditador exuberante, fico com este último. Seu histrionismo, se não atenua suas culpas, pelo menos sugere que ele é humano. E ao liberar a sua face burlesca ele nos lembra que o Mal não é monolítico – se fosse, simplificaria tanto os nossos dilemas éticos! O Mal é uma colcha de retalhos furtados às pressas, furtados dos variados tecidos que compõem a vida.
O ditador delirante foi, meio século atrás, um personagem típico da cultura latino-americana, basta ver as obras de Garcia Márquez, Miguel Ángel Astúrias, Glauber Rocha (Cabeças Cortadas), Alejo Carpentier, Augusto Roa Bastos, etc. O mundo árabe e o mundo muçulmano (os dois não são a mesma coisa) têm produzido uma grande literatura e um grande cinema. Será que já existem romances sobre essa leva de ditadores que, depois dos da América Latina e da Europa Oriental, começa a cair como dominós? Sujeitos fanfarrões e sanguinários, como Saddam Hussein ou Kadhafi, são irrecuperáveis como vultos políticos, mas a literatura, que redime tudo, que transforma lixo em arte, que transforma tragédias em redenção e mediocridade em alegoria, é a única força capaz de justificar a passagem desses indivíduos pela Terra.
terça-feira, 1 de março de 2011
2492) Almira Castilho e Moacyr Scliar (1.3.2011)

No mesmo dia, vejo na imprensa a notícia do falecimento de Almira Castilho (86 anos) e Moacyr Scliar (73 anos). É ruim começar o dia com duas perdas como estas. Talvez metade do Brasil não saiba de quem se trata, não seja capaz de reconhecer seus nomes ou suas fotos, mas o Brasil deve muito a ambos.
Almira conheceu o auge da fama nos anos 1950, quando foi casada com Jackson do Pandeiro, dividindo com ele uma carreira cheia de sucessos Brasil afora. Os dois faziam uma dupla engraçadíssima no palco, ele pequenino e arisco, ela grandona e aparentemente desajeitada (na verdade dançava bem). Os dois encenavam umbigadas e arrasta-pés, e Almira arregalava os olhos, balançava os quadris, fazia munganga... Era boa cantora, e ao que consta também compunha, pois aparece como co-autora de clássicos como “Chiclete com Banana” e outros. Vi-a, já com seus 80 anos, subindo ao palco com Silvério Pessoa no Fórum Junino de Aracaju, cantando, rebolando; e depois em mesa de restaurante contando histórias e dando risadas. Uma pessoa em paz com a vida, e que podia dizer, como disse em suas memórias o “bluesman” Honeyboy Edwards: “O mundo não me deve nada”.
Moacyr Scliar percorreu uma carreira mais discreta e mais estável, como é de praxe na literatura. Foi um dos escritores que se tornaram conhecidos na década de 1970, e nessa condição foi uma das referências literárias da minha geração, dos jovens de 20-e-poucos anos que estavam começando a escrever. E recomeçando a ler. (Quando você começa a escrever a sério, precisa aprender a ler de uma maneira diferente.) O gaúcho Scliar tinha duas condições que o particularizavam dentro de nossa literatura: era médico e era judeu. Esses dois universos a que pertencia não o limitavam (ele escrevia qualquer tipo de coisa, abordava qualquer tipo de assunto), mas forneciam, de forma intermitente, um precioso material de inspiração.
Acadêmico da ABL, ganhador de numerosos prêmios, Moacyr Scliar foi também um praticante da literatura fantástica, que já aparece em seus livros de contos mais antigos (O Carnaval dos Animais, Histórias da Terra Trêmula) e depois em seus romances. O Centauro no Jardim é uma alegoria da diáspora judaica, contando a história de um menino judeu que nasce com corpo de centauro; Cenas da Vida Minúscula retoma a lenda medieval do “homúnculo”, o ser humano criado em laboratório. Outras obras “triscam” pelo fantástico, pela alegoria, pelo realismo mágico.
O suingue e o humor de Almira, a erudição e a simplicidade imaginativa de Scliar são como luzes distantes, que iluminam áreas diferentes de nosso ser coletivo mas parecem pertencer a mundos distintos. Almira terá lido algum livro dele? Moacyr terá assistido algum show dela? Talvez não, sei lá. Talvez sejam dois Brasis unidos apenas por uma coincidência do calendário, dois Brasis que poderiam se iluminar mutuamente. Como iluminaram a nós, os privilegiados que conhecemos os dois.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
2491) A moral da fábula (27.2.2011)
No final das fábulas de Esopo ou de La Fontaine, vem sempre aquela frasezinha curta que nos acostumamos a chamar de “a moral da história”.
O lobo bebe água no rio junto ao cordeiro, faz-lhe um monte de acusações e por fim o devora. Após o desfecho, vem uma “moral” tipo: “Quando um poderoso decide castigar um fraco, qualquer pretexto serve, e às vezes pretexto nenhum”.
Essas fábulas têm um propósito didático e moralizante, tanto que continuam a fazer parte da nossa literatura infantil. O lado moralizante não precisa de explicações – trata-se de implantar na mente dos pimpolhos princípios morais, éticos, etc. O lado didático é mais sutil e mais interessante. Trata-se de dizer, por um lado: “Qualquer episódio concreto pode ser interpretado sob a forma de conceitos abstratos”. E por outro: “Qualquer conceito abstrato pode ser ilustrado através de pequenas historietas aparentemente ambientadas num mundo parecido com o nosso”.
A História é uma ciência em que somos o tempo inteiro induzidos a passar do concreto para o abstrato.
Se nos deparamos com os registros de tráfico de escravos africanos durante 150 anos, podemos traçar um gráfico que ilustra as idas e vindas desse comércio e afirmar, por exemplo, que “do ano X ao ano Y o tráfico cresceu, mas do ano Y ao ano Z ele diminuiu”.
Mesmo conceitos tão óbvios quanto crescer e diminuir só podem ser formulados se tivermos registros confiáveis sobre as quantidades, ao longo de um período de tempo aceitável.
A passagem do abstrato para o concreto tem mais a ver com a literatura. Uma coisa é a professora perguntar ao pirralho: “Zezinho, quanto é 15 dividido por 3?”. Ou o guri estudou tabuada ou não vai saber responder. Mas ela pode criar uma pequena obra de ficção. “Zezinho, uma mulher foi ao mercado e comprou quinze chocolates. Ela tem três filhos, e, para que eles não brigassem, teve que dar a mesma quantidade a cada um. Quantos chocolates cada um deles recebeu?”.
Motivado por essa pequena tensão dramatúrgica, o guri é capaz de entender não só a possibilidade como também a importância de se dividir quinze por três; e faz a conta.
Grande parte da literatura nasce assim, de uma idéia abstrata que ocorre ao escritor enquanto ele fuma cachimbo (“A sociedade de consumo despersonifica os seres humanos, e faz com que eles vejam uns aos outros como meras mercadorias...”) e a partir disso ele começa a escolher personagens-função: este aqui vai ser o Capitalista Inescrupuloso, aquele outro vai ser o Trabalhador Ingênuo, esta vai ser a Companheira Solidária, aquela outra a Intelectual Egocêntrica...
O problemas das idéias abstratas é que não produzem narrativas que pareçam com a vida humana. Produzem alegorias, histórias em que os personagens são tão programados e previsíveis quando um zumbi de videogame.
(Os videogames, aliás, estão padecendo desse mesmo mecanicismo, que estraga as Utopias Proletárias, as Fábulas Cristãs e outras narrativas que nunca saem do abstrato).
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