quinta-feira, 28 de agosto de 2008

0531) A máquina pensante (1.12.2004)


(do saite "Thinking Machine")

Uma das características mais interessantes do jogo de xadrez (como da maioria dos jogos, mas, concentremo-nos num só) é o fato de existir uma hierarquia estratégica que se sobrepõe à mera probabilidade matemática dos movimentos. Essa hierarquia se refere aos movimentos que deixam o jogador mais próximo de derrotar o oponente. Antes de cada movimento, existe um número gigantesco (embora finito) de possibilidades, em função do movimento de cada peça e das casas disponíveis para ela. Matematicamente, todos estes movimentos se equivalem. Estrategicamente, uns são mais relevantes do que outros.

Podemos então dizer que há três tipos de jogadas. Primeiro, a jogada possível: qualquer movimento para a frente, para trás ou para o lado, que seja permitido pelas regras, independentemente de sua utilidade. Segundo, a jogada obviamente útil: a jogada que tem mais probabilidade de ameaçar o oponente ou de conquistar para o jogador uma posição vantajosa. E terceiro, a jogada surpreendente: uma jogada pouco óbvia, que à primeira vista parece totalmente absurda, mas que pode desencadear uma combinação improvável de movimentos e dar a vitória ao jogador.

Quando um computador é programado para jogar xadrez, os movimentos do primeiro tipo são facilmente programáveis: o bispo pode ir para estas e estas casas, mas não pode ir para aquelas. Os movimentos do segundo tipo também podem ser programados, desde que se possa prever, para cada situação possível no tabuleiro, quais os caminhos mais rápidos para obter a vitória. Os movimentos de terceiro tipo são os mais difíceis. Eles são mais elegantes, mais ricos, mais surpreendentes, e possuem não apenas um valor estratégico, mas um valor estético. São o pulo-do-gato.

O saite “Thinking Machine 4” (em: http://turbulence.org/spotlight/thinking/chess.html) oferece um interessante recurso para ilustrar o modo como uma máquina pensa o xadrez. A cada jogada, linhas coloridas vão surgindo na tela indicando os movimentos mais prováveis para responder à jogada feita pelo adversário. À medida que a máquina “pensa”, algumas linhas vão ficando mais encorpadas, mais nítidas, porque um número maior de manobras passa por ali, até chegar o momento em que a máquina responde à jogada que fizemos.

Assim como no campo verbal podemos distinguir uma linguagem mais previsível e mais “pobre” (a linguagem normal do dia-a-dia) e uma linguagem menos previsível e mais “rica” (a linguagem poética), os movimentos no xadrez podem ser classificados em graus de previsibilidade e riqueza. Os melhores movimentos são os que cumprem uma função estratégica, possuem uma simplicidade estética (como a “elegância” das fórmulas matemáticas) e guardam um grau maior de imprevisibilidade. Escrevem por linhas tortas. Criam um atalho imprevisto. São inexplicáveis à primeira vista, mas na seqüência das jogadas o adversário percebe qual era a armadilha – quando já é tarde demais.

0530) A lei de Zezim Torneira (30.11.2004)


(vítima civil em Fallujah)

Zezim Torneira era um garoto que tinha lá no Alto Branco, nos velhos tempos. Segundo a lenda, um belo dia ele estava sentado em cima de um muro, aí escorregou e caiu lá de cima. Por azar, caiu sentado em cima de uma torneira que tinha no pé do muro, uma dessas torneiras baixas onde as pessoas lavam os pés antes de entrar em casa pela porta dos fundos. Zezim caiu sentado em cima da torneira, que não era uma dessas torneiras modernas, redondas, mas daquelas que têm uma haste horizontal, do tipo “borboleta”. A borboleta entrou com tudo no fedesqüepe de Zezim, que sofreu cirurgia, pontos, convalescença, e teve que passar o resto da adolescência ouvindo a toda hora um pirangueiro gritar: “Zezim!... Pega aqui na minha torneira!”

O mais interessante do episódio é que Zezim tomou-se (compreensivelmente) de um verdadeiro ódio ao apelido, e à simples menção da palavra torneira. Ficou como aquele doido chamado Garapa, que quando surgia um cara gritava de um lado: “Água!...” e outro respondia lá adiante: “Açúcar!...” e ele ficava esbravejando no meio da rua: “Se misturar eu mato um!” Pois Zezim era a mesma coisa. Ele vinha pelo Ponto Cem Réis, chegava ali à altura do canal, tinha três ou quatro garotos sentados na ponte, conversando futebol. Quando Zezim se aproximava, havia um certo silêncio... e aí ele enchia a mão de pedras e saía correndo, furioso, cobrindo todo mundo na pedrada. A galera gritava: “Mas ninguém disse nada!” E Zezim Torneira: “Mas pensou!”

Parece familiar, caro leitor? É o conceito georgebushiano de “pre-emptive war”: defender-se antes mesmo do ataque acontecer. Como toda deformação bárbara de conceitos, este se baseia numa verdade indiscutível. No caso, um princípio básico da Medicina (“é melhor evitar a doença do que tentar curá-la depois que acontece”), o qual passou para a sabedoria do povo na forma enxuta e lapidada de “É melhor prevenir do que remediar”.

Transposto para o mundo militar, esse conceito se transforma no que um oficial dos Marines americanos aconselhou aos seus comandados, antes da invasão de Fallujah, dias atrás: “O inimigo pode vir vestido de mulher, pode estar se fingindo de morto. Atirem em tudo que se mexer, e em tudo que não se mexer.” O massacre americano no Iraque não é monstruoso pela quantidade de mortos, mas pela gratuidade da guerra, pela absoluta desnecessidade de uma invasão como esta, e pelo fato de que está se criando naquele país um celeiro de terroristas muito mais perigoso do que o que poderia crescer embaixo da asa de Saddam Hussein.
Atirar primeiro e perguntar depois é uma atitude de quem está desesperado. Não importa se quem está desesperado é justamente o exército mais forte, mais numeroso e mais bem equipado. O desespero deles reside justamente em saber que não têm outro exército pela frente, têm uma população violentada e ressentida, onde é preciso atirar até nos cadáveres. Sabe-se lá no que um iraquiano morto pode estar pensando!

0529) A importância das gárgulas (28.11.2004)




(Catedral de Sevilha)

George Orwell, comentando os romances de Charles Dickens, os definiu assim: “Uma arquitetura horrível, mas com gárgulas maravilhosas”. 

A fórmula se aplica a muita coisa na literatura. Se entendi bem, Orwell queria dizer que os livros de Dickens têm defeitos de estrutura, são mal planejados, não têm unidade, mas estão repletos de passagens brilhantes, descrições vívidas, personagens inesquecíveis. 

É uma tendência do romance em estilo folhetinesco, aquele texto que vai sendo planejado à medida que vai sendo escrito. Não se pode exigir dele a clareza apolínea de um romance de Osman Lins, de Georges Perec ou de Autran Dourado, esses planejadores contumazes. 

O escritor folhetinesco não planeja: escreve aos arrancos. Assim era Alexandre Dumas, assim era Henry Miller, e assim era Jorge Amado. Nenhum destes jamais teve vocação arquitetônica.

Alguns colegas mais sofisticados hão de torcer o nariz diante destes exemplos (nenhum destes três é considerado um “grande escritor”), portanto deixem-me recorrer a outros: Dostoiévski, Balzac. Estes, se minha bolsa-de-valores não está desatualizada, são considerados escritores de primeira linha, mas não pela sua arquitetura, e sim pelas suas gárgulas. 

Eu diria que o gênero “romance” é por natureza mais propício às gárgulas do que ao planejamento arquitetônico. O romance, pelas suas dimensões, parece ser uma obra de engenharia; mas a sua tendência mais natural é para ser uma obra múltipla de escultura.

Pego como exemplos o Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna e Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. São dois livros imensos, desconjuntados, excessivos. 

Em matéria de arquitetura dramática, não têm a elegância de um Niemeyer ou de um Frank Lloyd Wright. Parecem-se mais com a Catedral de Sevilha, uma geringonça de blocos superpostos por cristãos e muçulmanos ao longo de séculos. Uma estrutura produzida por simples acreção, sem planejamento, sem que em momento algum de sua construção alguém tivesse em mente a totalidade do conjunto, ou uma intenção final. 

Grande Sertão é o terror de muitos leitores que recuam diante daquele linguajar bárbaro, e se perdem naquele labirinto de palavras que parece não estar levando a lugar algum. Por sorte, apesar do começo do livro ser totalmente aleatório, por volta da página 150 a narrativa pega um rumo e daí em diante flui toda na mesma direção.

O livro de Ariano também é cheio de idas e vindas, flash-backs longuíssimos, incontáveis episódios interpolados. É quase impossível ler o livro de A a Z e ter uma idéia clara da história que foi contada; é preciso voltar atrás, botar as peças na ordem, esquecer as numerosas e intermináveis citações de livros alheios... 

Mas no meio disso tudo, quantos episódios brilhantes de humor, de visionarismo sertanejo, de erotismo sacrílego e tentador, de sátira política e literária. Com uma gárgula dessas por capítulo, quem liga para a forma da catedral?






0528) O ônibus da Prata (27.11.2004)




(prédio do Correio, foto atual)

O ponto do ônibus da Prata, que nos levava todas as noites para as aulas no “Gigantão” era junto ao prédio do Correio, naquele trecho da calçada hoje cheio de fiteiros e barracas. 

A época a que estou me referindo é 1967, quando comecei o Curso Clássico e entrei para o turno da noite. A aula começava às 19:00, de modo que a partir das 18:30 aquilo já ficava intransitável de tanta gente fardada. 

Me lembro como se fosse hoje da farda das meninas, que era uma blusa branca de manga curtas, com o monograma do colégio bordado em verde, no bolso; as saias eram cáqui, pregueadas, com fitas verdes ao longo da barra, e foi essa a época em que começaram a subir, segundo a lei de Mary Quant, que fez mais pela nossa vida sexual do que Fritz Kahn e o Padre João Mohana juntos.

O ônibus saía do Correio e virava à direita na Getúlio Vargas, descia pela frente do antigo Cine Avenida, virava à esquerda na Nilo Peçanha. O primeiro ponto de descida era na esquina em frente à Igreja do Rosário. Os pontos correspondiam aos três portões de entrada do Colégio, situados ao longo de dois quarteirões inteiros. 

Depois que descarregava os alunos, o ônibus enchia com os que estavam voltando para o centro, e seguia rumo à Rua da Independência, onde virava à esquerda e descia até a Praça do Trabalho, passava em frente ao Cine São José e descia para o balde do Açude Novo. 

Ali, não me lembro se subia a 13 de maio, ou se já virava à esquerda para subir pela Floriano Peixoto até em frente ao Capitólio, onde rodeava a Praça da Bandeira e encerrava a “circular” na calçada do Correio.

O interior do ônibus era uma versão eufórica do caos. A cada curva, todos os corpos masculinos, de acordo com a Lei de Isaac Newton, eram pressionados de encontro aos corpos femininos. Quem estava sentado empilhava no colo bolsas, pastas, pranchetas e livros de quem estava por perto. Descidas e freadas bruscas eram saudadas com gritos de provocação: “Tira o pé do bolso, motorista!” “Motorista, bateram minha carteira!” Havia um motorista chamado Taba Lascada que era alvo permanente de gozação.

Quem sofria muito também era o cobrador. Naquele tempo não havia roleta, o cobrador andava pelo ônibus recebendo o pagamento e dando uma senha como comprovante, senha que ele destacava de um talãozinho que trazia na mão. Era um sistema de controle, convenhamos, fadado a uma rápida extinção, porque ninguém colocava a senha na urnazinha ao sair, e todo mundo brandia uma senha velha: “Oxente, rapaz! Já paguei!” 

O cobrador tinha que se esgueirar entre os corpos de todos, empurrar, meter o cotovelo, firmar-se do melhor jeito possível enquanto recebia o dinheiro e passava troco. Ele pegava as notas, dobrava-as ao meio do sentido do comprimento, e as prendia entre os dedos. Jean-Luc Godard, em viagem ao Rio nos anos 1950, encantou-se com este detalhe nos ônibus cariocas. 

Eu olhava para aquilo sem prestar atenção, achando que ia durar para sempre.





terça-feira, 26 de agosto de 2008

0527) A definição do amor (26.11.2004)


(desenho de Tomi Ungerer)

Dizem que Jacques Lacan definiu assim o amor: “Amar é dar algo que não se tem a uma pessoa que não quer receber.” As definições de amor são tão subjetivas quanto preferências culinárias ou futebolísticas. Vai daí, proponho uma variante: “Amar é dar algo que a gente não sabia que tinha a uma pessoa que não sabia que precisava.” Porque se a gente prestar atenção vai perceber que o amor é assim: um enriquecimento emocional e espiritual para ambos os envolvidos, uma expansão do que eles tinham sido até então. Como se cada um descobrisse facetas de si mesmo que desconhecia, novas maneiras de ser, de reagir e de pensar.

Se não for assim, não adianta muito, não é mesmo? A tragédia dos grandes conquistadores, como Don Juan ou Casanova, é o fato de que eles são imunes a esse tipo de convivência, que exige em primeiríssimo lugar um enorme interesse pela outra pessoa. Casanova, ao “traçar” uma madame da corte atrás da outra, estava interessado apenas no ato e no fato, e para ele a mulher era um mero complemento. Colin Wilson, em Origins of the Sexual Impulse (1963) descreve argutamente Casanova e seus epígonos como indivíduos dotados de muita vitalidade e baixa auto-estima. As conquistas sucessivas servem-lhe como reposições momentâneas para esse amor próprio que lhes é eternamente deficitário. Existe, como observa Wilson, uma semelhança essencial entre o conquistador e o “serial killer”. É a reiteração daquele ato que lhe interessa, e a pessoa que dele participa é o que menos importa.

O amor, essa atitude de interesse inesgotável pela pessoa que está “do outro lado” é, aliás, a mesma relação recíproca que deve existe idealmente entre um escritor e o leitor. A relação literária é uma relação amorosa, sem sexo, sem corpo, mas impregnada de um profundo e inesgotável interesse pela outra pessoa. Eu sinto esse interesse pela pessoa de Jorge Luís Borges ou de Philip K. Dick, pela pessoa de Augusto dos Anjos ou de Agatha Christie. Tudo que esses indivíduos sentiram, pensaram, experimentaram e viveram me interessa. O que eu sinto por eles é amor, não o amor-desejo, amor-erótico, mas o amor-de-almas. Por razões misteriosas e inexplicáveis, eu me identifico com eles, por mais diferentes que possam ser uns dos outros.

Amar um autor, contudo, é muito fácil. Um autor é visibilíssimo, através de livros, entrevistas, biografias. Mais complicada é a relação inversa, o amor que um escritor sente pelo seu leitor. Como sentir amor por essa coisa abstrata e sem rosto? Muitos autores tentam escrever para um “leitor ideal” (ver “Cinqüenta anos falando sozinho”, 20 de outubro) que eles próprios constroem em sua mente. Muitas vezes, o ato de escrever envolve esse esforço de dedicar algo a alguém cuja presença só podemos imaginar. Escrever, nesses casos, é dar algo que a gente não sabe se vai ter ou não, a uma pessoa que a gente nem sequer sabe que existe.

0526) Gêneros literários (25.11.2004)



Dias atrás, comentei aqui (“O Modelo e o Produto”, 3 de novembro) o modo como a indústria cultural, além de fabricar livros em massa, fabrica também fórmulas em massa para produzir textos literários. Isso não foi uma invenção da indústria, foi uma invenção dos escritores. E é um mecanismo natural da criação artística. Se você for analisar os poemas religiosos dos sumérios e caldeus, vai ver a mesma coisa acontecendo. Um sacerdote com veleidades poéticas fazia um hino agradecendo aos deuses pela bênção da colheita, e o hino fazia o maior sucesso. Aí tempos depois outro sacerdote esperto pegava o mesmo modelo e fazia um hino agradecendo pela chuva. Surgiam aí os gêneros literários, obras que compartilham um certo conjunto de características, que se pode reconhecer de imediato, mas que trazem elementos novos: novas abordagens, sub-temas, variações de linguagem.

Quando os poetas concretistas de São Paulo (os irmãos Campos e Décio Pignatari) criaram no Brasil o movimento da Poesia Concreta, muita gente começou a fazer poemas seguindo os mesmos princípios: cancelamento quase total do verso discursivo, da estrofe e da rima tradicionais; exploração da visualidade das palavras, da sua disposição no branco da página; jogos com a sonoridade das palavras, e com sua aparência visual, etc. Toda vez que você cria obras de arte que pretendem quebrar um modelo já existente, você está criando um modelo novo. E outros artistas irão utilizar esse modelo para criar novos produtos. É o movimento natural da criação artística. Não interessa aqui discutir se o modelo é bom ou ruim, ou se os produtos são bons ou ruins, até porque esses conceitos são subjetivos. Mas esse processo de surgimento constante de Modelos e Produtos ocorre na poesia de vanguarda, no filme de faroeste, na pintura abstrata, na comédia teatral, na literatura de cordel, no rock, na música sacra orquestral, nas histórias em quadrinhos. Existe em todo canto.

Fala-se que os gêneros são típicos da literatura de massas (policial, terror, romance, espionagem, etc.), mas eles existem também na literatura erudita. Há por exemplo o Bildungsroman, o romance de formação, que narra a trajetória de um personagem da infância à maturidade, como em A Montanha Mágica de Thomas Mann e o Retrato do Artista Quando Jovem de Joyce. Eu diria que o “Triângulo Amoroso” constitui um gênero literário à parte, tal a solidez de sua estrutura básica, que permite, sem sofrer alterações, incontáveis variantes, de Dona Flor de Jorge Amado a Dom Casmurro de Machado. A “Saga Familiar”, história de uma família ao longo de décadas ou séculos, é um gênero literário à parte, não é mesmo? O mesmo pode-se dizer do “Romance Marítimo”, que vai de Moby Dick às obras de Joseph Conrad. A chamada literatura erudita não é mais imune aos modelos repetitivos (ou seja, aos gêneros) do que a literatura popular.

0525) Abaixo os gregos (24.11.2004)



Das leituras marxistas do meu tempo de estudante, não aproveitei nada das obras políticas, mas as leituras filosóficas me rendem assunto até hoje. Lembro-me dos manuais de Materialismo Dialético, o qual sempre achei muito mais consistente do que o Materialismo Histórico. A teoria marxista é uma beleza. Quem a estragou foi Lênin, com aquela mania de aplicá-la na prática.

Os autores dialéticos que eu lia aos 20 anos criticavam a filosofia aristotélica. Para Aristóteles, diziam eles, “A” é “A”, e “B” é “B” – ou, como diria Tim Maia, “uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”. Para Aristóteles, “A” não pode ser ao mesmo tempo “não-A”. Ora, para a filosofia dialética, “A” pode ser “não-A”, sim senhor, por que não? Muitas coisas podem conter em si a sua negação, o seu contrário. Os seres (e mais que eles, os grupos sociais) estão muito mais próximos de entidades complexas e heterogêneas do que de entidades simples e homogêneas. Esta verdade me parece tão óbvia que me pergunto como é que a fórmula simplória de Aristóteles conseguiu sobreviver durante tantos milênios.

Os gregos são ainda o ponto de referência principal de nossa Filosofia, de nossa Ciência e de nossa Arte, o que me parece o maior dos equívocos. Não que eles fossem tapados, mas a sua percepção do mundo era limitadíssima. Vejam o caso de Ptolomeu e sua concepção do Universo (baseada em Aristóteles) tendo a Terra como centro. À primeira vista, correspondia ao mundo observado, pois é fácil notar que o sol, a lua e as estrelas giram todos em volta da Terra. O problema é que à medida que a observações iam se tornando mais detalhadas, os dados não batiam com a teoria. Mil e quatrocentos anos foram consumidos pelos astrônomos tentando adaptar os fatos à teoria de Ptolomeu, criando sub-teorias como a dos “epiciclos” e dos “deferentes”, etc. Aí um dia chegou Copérnico e disse: “Esquece os gregos.” No momento em que esqueceram os gregos e organizaram os dados de que dispunham, os astrônomos entenderam tudo.

Quer outro exemplo? Euclides, o pai da geometria, criou todo um edifício teórico baseado na demonstração de seus postulados. A geometria euclidiana era tida como algo tão sólido e tão cristalino quanto a aritmética dos números inteiros, algo que não foi questionado durante 2.200 anos. Aí no começo do século 19 apareceu um russo, Lobatchevsky, que questionou o Quinto Postulado, o das paralelas, e mostrou que a geometria de Euclides era apenas uma entre várias geometrias possíveis. Em vinte e dois séculos ninguém tinha percebido. Por que? Porque ninguém questionava os gregos.

Questionemos os gregos, meus amigos. Não necessariamente os naturais daquele simpático país que nos deu tantas coisas boas. Os "gregos" a que me refiro são os autores que ninguém discute, que são sempre tomados como ponto de partida. Na ciência e na arte não há verdades indiscutíveis. Quando uma coisa estiver grega demais, desconfiem.

0524) Cirurgia contra virose (23.11.2004)


(a guerra em Falluja)

A ofensiva norte-americana contra a cidade de Falluja, no Iraque, foi mais um desses episódios de Absurdo Organizado típicos desta guerra. O método do governo Bush para combater o terrorismo equivale a tratar uma virose através de cirurgia: pegar um bisturi e sair arrancando todos os tecidos onde haja suspeita de localização de vírus. O Iraque foi invadido em março de 2003, o fim da guerra foi oficialmente anunciado no mês de maio seguinte, e agora, mais de um ano depois, estão acontecendo batalhas que deixam no chinelo as da guerra propriamente dita.

Fallujah é a cidade onde alguns seguranças americanos foram mortos meses atrás, arrastados para fora do carro, pendurados numa ponte, ensopados de gasolina e incendiados, enquanto a multidão agitava bandeiras e batia em latas velhas (v. “Os postais do linchamento”, 7 de abril). É um perigoso reduto de partidários de Saddam Hussein. Um oficial americano anunciou, depois do linchamento: “Vamos conquistar os corações e mentes em Fallujah, livrando a cidade dos insurgentes.” E é exatamente isso que o exército americano fez. Entraram lá e botaram a cidade abaixo. Fallujah é chamada a “cidade das mesquitas”, porque lá existem mais de duzentas. Não sei se restou alguma, depois que o exército de Bush passou a britadeira em tudo.

Quem quiser saber um pouco mais sobre a cidade, pode ver em: http://en.wikipedia.org/wiki/Fallujah . Fallujah tem cerca de 350 mil habitantes, ou seja, é uma cidade “do tope” de Campina. Uma estatística divulgada no New York Times diz que a operação de invasão da cidade está oficialmente encerrada, restando agora as tarefas de “limpeza” (extermínio dos últimos focos de resistência) e ocupação. Para tomar esta cidade de 350 mil habitantes, onde havia cerca de 10 mil combatentes inimigos, os americanos tiveram 51 mortos, 425 feridos, mataram cerca de 1.200 combatentes inimigos e fizeram 1.025 prisioneiros. Ou seja: eles botaram Campina Grande abaixo, fizeram mais da metade da população ir embora, e dos 10 mil combatentes que havia na cidade, eles se livraram de apenas 22%.

Isto é o que o governo Bush chama de “uma operação militar bem sucedida”, assim como houve quem considerasse bem-sucedido o massacre do Carandiru, porque os presos tiveram mais baixas do que a polícia paulista. A guerra que os americanos travam contra os iraquianos é ainda mais desproporcional do que a que travaram com os vietnamtias 30 anos atrás. Para cada americano morto, morrem 20 inimigos (sem contar os civis), e isto é contabilizado como um sucesso. Mas os EUA não param de despejar dinheiro e consultores militares no Afeganistão (invadido no fim de 2001), e ainda não controlam o país, que voltou a ser dominado pelos “barões da papoula” (os traficantes da matéria prima para fabricação da heroína). Che Guevara lançou um dia um grito de guerra: “Precisamos criar 10, 100, mil Vietnams!” George Bush parece decidido a realizar o seu plano.

0523) A pior canção dos Beatles (21.11.2004)





Uma votação recente na Internet elegeu “Ob-La-Di, Ob-La-Da” como a pior canção gravada pelos Beatles. “Disconcordo”, como se diz por aí, mas é para isto mesmo que essas votações são feitas. 

O que me surpreende não é a escolha desta divertida e irrelevante canção pseudo-jamaicana. É que eu sempre achei que “Revolution 9” seria eternamente a escolha mais óbvia para esse título (embora, na minha opinião, seja uma excelente faixa). 

Por outro lado, acho que qualquer beatlemaníaco de bom-senso reconhecerá que os garotos gravaram uma porção de besteiras, no meio de várias dezenas de obras-primas. Que besteiras seriam essas?

A primeira que me vem sempre à cabeça é “Wild Honey Pie”, uma bobagem de McCartney com menos de um minuto (graças a Deus) que por motivos insondáveis mereceu ser uma das faixas do Álbum Branco. Segundo Ian MacDonald em Revolution in the Head (a melhor análise em livro das canções dos Beatles), foi uma brincadeira utilizando um recurso bolado por McCartney para a gravação de “Mother Nature´s Son”: a colocação da bateria no corredor do estúdio, para mudar a sonoridade. A música consiste apenas nas palavras “Honey Pie” esgoeladas ao fundo, com uma linha decrescente de guitarra, e... ah, chega.

Outra forte candidata é “Dig It”, aquela curtição que aparece em Let it Be: “Like the FBI... and the CIA... and the BBC... B. B. King…” São 50 segundos de “pura maluquice emaconhada”, como dizia um amigo meu. Sempre a escuto com prazer, porque me lembra uma época divertida de minha vida. Mas é o tipo da coisa que eu jamais colocaria num disco meu.

Aí chegamos a “You Know My Name (Look up the Number)”. Se você não é músico profissional, caro leitor, se nunca entrou num estúdio de gravação, e tem curiosidade de saber o que é que aqueles músicos tão talentosos fazem entre uma sessão de trabalho e outra, não precisa ir muito longe. Coloque o CD Let It Be e deleite-se com estes quatro minutos de pura bobagem. É o equivalente musical àquilo que os jogadores de futebol fazem no gramado antes do jogo começar: equilibrar a bola na nuca ou nas costas, fazer embaixadas, trocar passes de cabeça... 

O próprio Ian MacDonald, um crítico severo, diz que “o resultado, graças ao senso de humor espontâneo da banda, é bastante engraçado”.

Os Beatles têm numerosos rockzinhos banais (“Little Child”, “What You´re Doing”, “Thank You Girl”...) mas que não são piores do que os rockzinhos análogos que eram feitos na época. Em seus primeiros discos, os piores momentos eram do mesmo nível do que se fazia na época; os melhores momentos eram rockzinhos inovadores como “A Hard Day´s Night”, “I Wanna Hold Your Hand” ou “She Loves You”. 

Mas nos seus álbuns de fim de carreira, o caos econômico e emocional desse período os levou a chamar de canções um material de estúdio que somente um grau muito alto de egocentrismo e desorientação mental faria levar a público.





sábado, 23 de agosto de 2008

0522) A arte de caçar talentos (20.11.2004)




A Google Inc., empresa criadora do instrumento de buscas pela Internet (ver “O Hiper-Google”, 21 de outubro) está recrutando funcionários de uma forma criativa e eficaz. A companhia possui a mais poderosa rede privada de servidores no mundo, e de dois anos para cá passou de 700 para 2.700 funcionários.

A Google precisa de técnicos jovens, espertos, cheios de energia e de competividade. O que faz? Bota um anúncio?

Sim, mas não um anúncio qualquer. A empresa publicou em meia dúzia de revistas científicas (Mensa, Physics Today, o Linux Journal, etc.) um teste de 21 perguntas, espécie de vestibular para candidatos a um emprego.

Algumas perguntas são de natureza matemática (“De quantas maneiras diferentes é possível colorir um icosaedro, cada face de uma cor, com três cores à escolha?”) até questões sem resposta específica, onde vai valer a criatividade do candidato: “Escreva um hai-kai descrevendo possíveis métodos para predizer as oscilações de tráfego na rede”, ou “Qual é a mais bela equação matemática derivada, e por quê?”

Algum tempo atrás, pessoas que passavam de carro pelo Silicon Valley, o reduto da indústria informática, viam out-doors mostrando apenas uma linha de texto: “(o primeiro número primo de 10 dígitos encontrado em dígitos consecutivos de “e”).com”.

Ou seja: o sujeito teria que encontrar esse número primo para ter o endereço correto de um saite. Ao chegar lá, ele se deparava com outras perguntas do mesmo nível e, se as respondesse, recebia um pedido de currículo.

Isto me lembra O homem demolido, de Alfred Bester (1953), onde ele descreve um futuro próximo onde uma pequena percentagem da humanidade é de pessoas telepatas. Estes “ledores de pensamentos” acabam constituindo uma elite intelectual extremamente fechada, que se comunica à revelia de nós, pobres mortais.

Acontece que a maioria dos telepatas não sabe que o é, pois é um talento que precisa ser descoberto e desenvolvido. E Bester descreve uma cena no saguão do edifício de recrutamento de telepatas. Filas enormes de pessoas esperançosas solicitando um exame, um diagnóstico, para saber se pertencem ou não a esse grupo privilegiado.

A certa altura, o protagonista (que é telepata) começa a captar uma mensagem que repete sem parar, baixinho: “Dirija-se para a porta verde, ao fundo do saguão...” Um rapaz negro que está na fila titubeia, e com passos hesitantes se dirige para essa porta, gira a maçaneta, entra. Do outro lado, é abraçado festivamente pelos outros telepatas, que estavam enviando a mensagem.

Moral da história: quando precisamos de pessoas com determinado talento, basta soltar “no ar”, à vista de todo mundo, uma mensagem que só pode ser entendida usando-se esse talento. Para os demais, é um recado sem sentido, mas para Os Que Sabem, é a senha de acesso para um mundo onde aquilo que eles sabem e aquilo que eles são será valorizado na justa medida.