quarta-feira, 30 de setembro de 2026

5255) Três poetas (30.9.2026)



Faz um tempo que não comento aqui a poesia dos amigos, mas não por desinteresse ou por falta de material. Escrever estes artigos é andar de moto, e falar de poesia é um passeio a pé. Louis Pauwels e Jacques Bergier, em O Despertar dos Mágicos, comparam a Alquimia à jardinagem... e a poesia corre nessa mesma raia. Coisas da modernidade. 
 
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Noite devorada
Mar Becker
(São Paulo: Círculo de Poemas, 2025)
 
Conheci a poesia de Mar Becker no Facebook, e a acompanho há vários anos. Ela adotou o sistema de colocar os poemas na rede num espírito de work in progress, com versões sucessivas dos mesmos versos, com dias ou semanas de intervalo. Isso nos dá uma sensação permanente de suspensão, de expectativa, como ao ver a foto de um nadador pulando do trampolim. 
 
talvez esta escrita e a água sejam irmãs. ambas mal suportam o toque. ambas se devolvem aos olhos pela marca da finitude (do que desaparece quando tocado bruscamente, e portanto pede mãos breves, que alcancem de dizer certo ponto de estremecimento, nem mais nem menos) esse parentesco entre água e vocabulário, o afeiçoar-se dos dois é a mesma ocasião de tremor, é isso o que eles parecem confessar:
“aqui apenas o rastro sobrevive” 
 
Esse estilo de “prosa poética”, nivelado em minúsculas, sem separação em estrofes, é o mais frequente: parágrafos que compõem um bloco inteiriço, num discurso com a aparência inicial de um relato ou comentário prosaico, mas engastado de surpresas poética de ponta a ponta. O susto poético, o que eu chamo de susto-de-novidade, está presente no inesperado das imagens e na precisão dos vocábulos-chave que emergem dessa prosa como a barbatana do tubarão emerge da água. 
 
porque o amor torna frágil tudo o que toca
e porque eu mesma não evitei que
tocasse meu corpo
meus ossos
minha respiração
meu sono
por isso temo por mim –
pelo risco de desabar a um
tremor de pálpebras
 
São imagens que espiralam numa temática de impermanência, de matéria rarefeita, e por isso sugerem talvez o rótulo de poesia feminina, poesia da sensibilidade. Não fosse essa sensibilidade mantida sob controle com as rédeas de um estatuto verbal de precisão uniforme, uma precisão longamente lapidada. 
 
um anjo, no quarto antigo –
desenhava a luz entrando da rua de tal modo
arranjava-a desde a inclinação do poste
e a travessia pela janela
e conduzia o pouso no meu
rosto cindindo-o em dois com tal zelo
que toda vez minha boca foi guardada à sombra 
 
Imagens do mundo feminino (ou pelo menos de polaróides súbitas de um mundo que mulheres povoam) criam esses fragmentos de narrativas. Parecem trechos disjuntos, colados uns aos outros, de filmes mudos onde vemos tudo mas temos de adivinhar todo o resto.  
 
as poetas da minha vida.  as costureiras com quem vivi. nas duas visões, mãos silentes, dorsos de ladra.
a manhã no papel, no musseline —
e no meio as pontas da mulher muda vagueando mãos, cumprindo-se inteira em equilibrar na boca crispada uma agulha levíssima 
 
 
 
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Absurdo coração
Tanussi Cardoso
(São Paulo: Patuá, 2026)
 
Destes três poetas, Tanussi é o que conheci e acompanho há mais tempo, porque se a “poesia independente” era de fato um carnaval fora de época, brincamos juntos em várias troças e blocos-de-bater-lata. Do Movimento de Arte Pornô aos recitais na Cinelândia, nos pilotis da PUC ou no Posto 9 em frente ao Sol Ipanema. Lá vem o bloco. Já passou. 
 
Era uma poesia hedonista, a daquela época, poesia cheia de bandeiras anárquicas e de provocações juvenis. Éramos chamados “poetas marginais”, o que para uma parte da imprensa era sinônimo de “poetas assaltantes, assassinos”. Nada mais equivocado: a poesia feita ali era uma poesia paz-e-amor, um happening cheio de bom-humor hippie.
 
MANHÃS EM SÃO PEDRO DA ALDEIA
 
Pássaros cantam quando acordo.
Não por mim, certamente,
nem para anunciar a alvorada
baixando sobre o azul da Lagoa;
nem para a chuva ou o Sol,
nem para o vento nas flores do Sudoeste.
Cantam pelo hábito da oração,
por ofício – assim como os poetas.
Por isso, mesmo nos acordes monótonos dos dias,
entoando a mesma melodia de alegria,
eles cantam 
 
Tenho computado, no que eu escrevo e no que escrevem meus companheiros de geração, a frequência do tema da velhice, da ausência dos que se foram, da aceitação da passagem do tempo. Pois é.  A vida nos dá os motes e a gente glosa. Para isto viemos. 
 
DO TEMPO QUE SE PASSOU NO FUTURO
 
Tenho saudade do futuro que foi ontem:
do sorriso de minha mãe brincando
em seu carnaval de sonhos;
do cantar de meu pai
bailando a tragédia dos tangos;
da beleza das irmãs
penteando filhos e espantos;
do grande amor que morreu
quando tudo era só encanto.
Tenho saudade do futuro que mora comigo
indelével e estranhamente vivo. 

A poesia como interrogação. A busca, tão paciente quanto impaciente, do significado disto tudo, talvez não uma resposta para todos os problemas, mas um idioma em que possamos formular melhor as perguntas. Porque sem elas talvez ninguém sequer percebesse que o mundo está nos percebendo. 
 
CRIATURA
 
Quem está dentro de mim?
Quem, o outro,
batendo portas,
abrindo janelas,
costurando sonhos,
enquanto penso ou durmo?
Há alguém me descosendo,
querendo sair,
pular para fora.
Quem é ele?
Quem, o desconhecido
sem nome
tentando me acordar? 
 
Saudades, ausências, partidas, o Rio parece cada vez mais populoso e mais vazio, cada vez mais barulhento e sem música. E mesmo assim enquanto poetas tiverem corpo ninguém poderá lhes tirar o prazer de um copo dágua, de uma sombra no verão, de um sol no inverno. E a revelação permanente da presença física do mundo. 
 
CONSUMO
 
Usar uma roupa nova
não é só o mero ato de vesti-la.
É uma pele sobre a outra pele.
O entendimento das texturas,
a tessitura da nudez leve e macia,
quase sensual, quase fogo.
Cada movimento do tecido sobre o corpo
é como a água limpa sobre um rio desgastado.
As peles se aprendem, se deslizam, se enlaçam,
-- pernas, braços, peitos, coxas, sexos -- 
e se renovam.
Feito amantes reconhecendo suas partes.
Feito santos vestindo seus pecados. 
 
 
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Mudar é um enigma só para plantas (trinta anos de poesia)
André Ricardo Aguiar
(Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2025)
 
Este livro é uma dessas benditas coletâneas que os poetas fazem às vezes, no estilo de “The Best of...” ou “Greatest Hits” ou “Nova Antologia Pessoal”. Me deu a chance de reencontrar poemas de André que eu julgava esquecidos, e de conhecer material de algum livro anterior que me passou em branco. 
 
André é um curtidor das formas curtas; o conto, a crônica, o poema vapt-vupt. Nenhuma experiência humana consegue escapar a essas pequenas iluminações capazes de recortá-la num segundo e segurá-la viva para sempre na memória. 
 
EXPERIÊNCIA
 
Tão minério o amor
tão funda a mina
que o funda.
Tão mineiro o amor
quieto, granada mansa
ao adormecer.
E saímos com os bolsos cheios
de perdas
preciosas. 
 
Ninguém subestime a imaginação visual dos falsos desatentos, dos distraídos no mundo da lua, dos que para nos verem melhor olham em outra direção. Eles passam pelas paredes transparentes do mundo como os gatos (esses inevitáveis gatos) atravessam com soberania seus túneis de invisibilidade. 
 
BOLHA DE SABÃO
 
A bolha de sabão é um pequeno planeta
muito delicado. Não o invada.
Vejo que os continentes
não vão durar muito. O mesmo se dá
com os mares finíssimos.
Sua atmosfera de roupa lavada
tem um clima instável ao tato.
Talvez a população da bolha sequer se mova
em ondas migratórias, ou o pequeno
planeta, ploft, teria drasticamente
finda a sua geologia
etérea.
Um deus criou este mundo num sopro. 
Já começou outro.
 
Eu discuto às vezes com os amigos essa nossa fixação-científica de estar sempre questionando “o fazer literário”. Quando me reclamam isto, penso que somos como aqueles pintores antigos que faziam dezenas de auto-retratos. Não é por interesse em nós mesmos, é a ansiedade de saber o que viemos fazer aqui. E então sentamos, e fazemos de novo. 
 
ARTESANATO
 
Precisa elidir o pássaro
retirar-lhe as vísceras
sugar o que resta de céu.
Com fúria de artesão
e um bisturi finíssimo
esculpir o canto só osso.
O que sobrar é a flauta. 
 
Já os cinéfilos são uma seita sorrateira e mansa, uma gente sem pecado cujo maior prazer é ver o sol nascer retangular, é escutar o tremido prazeroso da fita de celulóide vibrando nas engrenagens do projetor, e saber que se aquele milagre mecânico é possível então nada mais deve parecer inalcançável. 
 
CINEMA, OU UMA HISTÓRIA ALTERNATIVA DO AMOR
 
Não fomos ao cinema
para provar que o amor é uma sala escura
a idéia era ver o filme apesar de nós
e não contrapor cada fotograma da vida real
para que a exibição fizesse sentido
e daí que fez aquele silêncio universal
e a luz explodiu – e outros, do outro lado
da sala, viveram o que queríamos
embora numa velocidade que só fazia sentido ali
entre quatro paredes e um amor suspenso
como um vampiro tirando uma folga
da luz.
 
Não só alquimia, não só jardinagem: a poesia se parece com a culinária, uma arte delicada e distraída, tanto esforço para produzir algo que será destruído daqui a alguns minutos. E para isto viemos. 
 




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