Hoje ele veio bater de novo aqui na minha porta. A culpa é minha, que em abril do ano passado comprei a ele um sagüim que sabia ler.
-- Ele só lê em português, mas está estudando outras línguas – tinha dito o misera, todo confiado, depois que fiz o teste.
-- Eu não preciso de ninguém que leia em inglês, português basta – respondi, mordendo a isca dele. Naquela época eu tinha mais dinheiro, entrava em qualquer conversa só pra ver no que ia dar . – Mas estou ficando velho e meus óculos não prestam mais.
-- Eu tenho um oculista caso o senhor precise – disse ele. – É meu sobrinho, recém-formado, tem um consultório em Del Castilho.
-- Não, obrigado – disse eu. – Aceita cartão?
-- Depende da bandeira.
Depende da bandeira o cacete, era cartão Visa, e pela cara dele, os dentes, a camisa puída, ele aceitava até cartão de visita. Mas era esperto, era do ramo, ganhou na conversa, e na hora de passar o cartão na maquininha eu já estava com Siegfried encarapitado no meu ombro esquerdo.
Sim, antes ele fez um teste. Não era dos mais difíceis, reconheço, e na verdade, pensando retrospectivamente, não passava de um número bem ensaiado entre ele e o animal. Ele desdobrou do bolso uma folha de papel toda amarrotada, com um texto impresso, abriu na frente de Siegfried, e mandou ler.
E ele leu, em voz alta, porque, pensando bem, ler para si mesmo, sem nenhuma manifestação externa, qualquer um lê, não é verdade?
Por exemplo, meu vizinho de apartamento, seu Natércio, passa a manhã inteira no sofá da recepção, com o jornal aberto, a testa franzida, e uma cara de quem fiscaliza a política internacional. Ele usa aqueles óculos pendurados ao pescoço com um cordãozinho verde e amarelo.
-- Bom dia, seu Natércio.
Ele olha por cima dos óculos e quando está de bom humor concorda, com um leve movimento da cabeça. Não me distraia, parece estar dizendo. Se eu me desconcentrar na leitura, o mundo vem abaixo.
Pergunte a seu Natércio se ele está lendo o Globo ou o Extra, duvido que ele saiba a diferença. Que aliás não é muito grande.
Pois bem: o bichinho lia em voz alta, grasnando com aquela voz fanhosa e fininha, voz que saía daquela laringe mais estreita do que uma caneta Bic. Não posso reproduzir aqui o texto, mas acho que eram salmos da Bíblia, que ele lia disciplinadamente, com aplicação. Fazia as pausas corretas tanto na vírgula quanto no ponto-parágrafo. Numa frase interrogativa, hesitava um pouco, creio que conferindo a pontuação final, e quando começava a dizer já se direcionava para a entonação correta. Em suma: não resisti.
-- Quanto é?...
O sujeito negaceou, fez preparativos psicológicos, acabou me propondo uma cifra que equivalia a três meses do meu aluguel, acabou deixando por um mês e meio, parcelado em quatro. Me entregou uma folha A4 plastificada, encimada pelo título CUIDADOS NECESSÁRIOS onde havia recomendações de alimentação, dormida, instruções de higiene; e um cartão de vacinação todo preenchidozinho.
Paguei, apertamos as mãos, ambos agradecemos, e ele foi para o elevador. Fechei minha porta devagar, esperando que ele se despedisse de Siegfried, mas a verdade é que o comércio estiola os sentimentos das pessoas. O povo hoje em dia só pensa em dinheiro. Somos números e nada mais.
E desde então tenho companhia, porque a verdade é que um velho de quase oitenta anos não pode morar sozinho. A gente precisa ter alguém com quem conversar, com quem reclamar da carestia e da temperatura, com quem desabafar diante da incompetência dos governantes e da inapetência dos governados. O mundo hoje em dia só pensa em política.
A vantagem-bônus de Siegfried (descobri logo no primeiro dia de convivência) é que ele era, sim, capaz de ler com correção qualquer tipo de texto; mas não falava por iniciativa própria, ficava na dele, modestamente, trepado numa prateleira ou no encosto da poltrona (logo selecionado como seu lugar favorito). Nada dizia. Nada perguntava. Nada comentava. Mas respondia, a seu modo, quando eu mandava um prompt qualquer.
-- Siegfried, e a eleição que vem por aí, você acha que a democracia tem chances?...
-- Nunca mais.
(Estou brincando, é claro. Piada de intelectual. O que ele disse foi: “Não senhor”.)
Nas primeiras horas após a aquisição mergulhei num raro frenesi de atividades domésticas. Separei um canto na área de serviço (que felizmente é bem ampla, parece um terraço), improvisei ali, com caixas de papelão vazias, um pequeno habitat: quatro cubos sem quarta-parede, superpostos dois a dois, forrados com jornal e panos-de-chão recém-lavados. Botei pratinho, bandeja com frutas, lixeirazinha do lado (onde ele juntava as cascas e caroços depois de comer, algo que me maravilhou mais do que a leitura dos salmos de Davi). Panelinha com água, e um canequinho de ágata que antigamente eu usava para tomar cachaça, e que ele ignorou solenemente.
Foi um dia atarefado e feliz. Velho morando sozinho já é uma monotonia; pior ainda quando é um velho que lê e maratona séries o dia inteiro. Interrompi a terceira temporada de Dark Winds, a sexta de Jovem Sheldon, a terceira de A Diplomata, a quinta de Black Mirror, a terceira de Slow Horses... Passei aqueles primeiros dias numa espécie de lua-de-mel zoológica com aquela inesperada aquisição.
Claro que refiz os testes de leitura. Não sou um papalvo, não sou um mané. Sempre considero a possibilidade de estar sendo feito de otário por alguém mais esperto do que eu – alguém cujo nome é Legião, porque são muitos.
-- Siegfried, leia isto aqui.
Sentado no braço da poltrona, ele espichava o pescocinho para a frente, no gesto inconsciente de todo míope (gesto que ele rapidamente copiou de mim, o que me enterneceu), e lia.
Outra coisa que me encantou foi que ele apontava com o dedinho indicador as palavras, à medida que as dizia em voz alta, e aquilo me garantiu que ele estava lendo mesmo.
Ler o papel fornecido pelo vendedor poderia ser mero treino, não é verdade? Mas quando abri ao acaso meu Invenção de Orfeu ele se saiu muito bem, se descontarmos o fato de que antes da sexta estrofe ele anunciou: “Vi”, e que depois pronunciou errado um adjetivo pouco usual. Quantos universitários de hoje em dia seriam capazes de fazer melhor, pergunto eu?
É inverno, acostumei-me a ficar na cama, embaixo dos edredons, com o laptop ligado, e Siegfried lendo alto, postado diante da telinha, numa pose de aborígine rezando diante de Uluru.
E hoje de manhã ele estava me lendo Memórias do Cárcere (são quatro volumes, não tenho paciência), quando a campainha tocou. Levantei-me praguejando e fui atender.
Era o cara. Estava mais magro, a camisa mais puída. Forçou um sorriso falsamente satisfeito ao me avistar.
-- Olha ele aí, um dos meus melhores clientes! – exclamou, cheio de blandície. – Vim lhe trazer uma novidade, à sua escolha.
-- Não, obrigado – respondi, só olhando. – O que eu tenho já chega.
Percebi a enormidade do problema. O cara trazia uma pasta de couro para documentos, vestia um casaquinho de nylon mais aprumado. Mas trazia sagüins agarrados aos ombros, às pernas, ao cinturão, num relance calculei por alto em uma dúzia deles.
-- Estes aqui leem francês, respondem perguntas, dão conselhos, extraem raiz quadrada, explicam mapas... Estão tendo muita saída, e me lembrei do senhor. São, perdoe a expressão, uma Inteligência Biológica Coletiva.
Os sagüins se agitavam, pulavam inquietos para o chão e dali pulavam de volta às ilhargas do sujeito, olhavam para todos os lados com aqueles olhinhos pretos de catita, me acenavam com mãozinhas trêmulas.
-- O senhor leva três e só paga dois.
Pois é, não se recusa uma oferta irrecusável. E não me pergunte qual deles está redigindo isto aqui.

Nenhum comentário:
Postar um comentário