terça-feira, 6 de agosto de 2024
5089) A idade de ouro (6.8.2024)
sábado, 3 de agosto de 2024
5088) Leituras 2024 - parte 2
Em geral faço no fim do ano estes pequenos balanços de minhas leituras, mas desta vez vou fazer diferente. Até porque quando chega dezembro tenho dificuldade para evocar detalhes de livros lidos nos primeiros meses... Enfim, vai ser desse jeito.
“Um estranho tão familiar” de George Amaral (São
Paulo: Bandeirola, 2023)
Dentro dos estudos
sobre literatura fantástica, este ensaio de George Amaral usa o conceito de
“estranheza” para comparar as estratégias narrativas de diferentes gêneros
literários. Em capítulos claros e bem argumentados, vemos a “ostranenie” dos
formalistas russos, o “distanciamento brechtiano” no teatro, o “uncanny”
(“Unheimlich”) estudado por Freud, o “estranhamento cognitivo” com que Darko
Suvin definiu a ficção científica... Em todas essas formas, a tentativa de
“acordar” o leitor/espectador de sua modorra mental, fazê-lo ver algo familiar
como se o estivesse vendo pela primeira vez, fazê-lo perceber, por uma nova
contextualização (que no caso da FC pode envolver mudanças bruscas no Tempo e
no Espaço) a verdadeira dinâmica dos fatos.
“Giacomo Joyce” de James Joyce (Paris: Gallimard, 1973, trad. Yves Malartic)
Oscar Wilde dizia
ser capaz de resistir a tudo, menos a uma tentação; eu não resisti quando vi na
barraquinha de livros da Praça Afonso Pena esta tradução francesa da noveleta
romântica de Joyce, pelo preço bastante acessível de 3 reais. “Giacomo Joyce” é
uma narrativa compacta, cheia de um lirismo distanciado, com olhos de lince
para detalhes do ambiente e dos gestos humanos. Foi escrita entre 1911 e 1914, antes
que o autor embarcasse no gigantesco projeto do Ulisses, e conta a
paixão reprimida de um autobiográfico
professor de inglês, em Trieste, por sua jovem aluna judia. Mais que uma
narrativa é o registro impressionista de quadros sucessivos em que o professor
rumina consigo mesmo seu encantamento pela “flor inodora” com quem convive.
“Giacomo Joyce” já foi traduzido no Brasil por Paulo Leminski (Ed. Brasiliense,
1985) e por José Antonio Arantes (“Folhetim”, Folha de S. Paulo, 10-6-1984). É
um pequeno camafeu, comparado à catedral do Ulisses, cheio de delicadas
belezas e de surpresas intrigantes.
“Riacho escuro” de Marta Pessoa (Sete Autores, 2024)
A literatura
sertaneja se confunde às vezes com o gênero das “sagas familiares”, que se
pratica em todos os continentes. Histórias de uma família ao longo de décadas e
gerações; às vezes ao longo de séculos. Marta Pessoa (“Zignau”, “É Tempo de
Cuidar”) é sertaneja e conhece de perto o peso desses vínculos de sangue, cartório,
terras, lealdades, paixões e ódios. “Riacho Escuro”, seu primeiro romance,
começa com o desaparecimento do filho de um fazendeiro e vai entrelaçando, ano
após ano, uma rede de intrigas, vinganças, segredos e revelações. A prosa é
segura e precisa, a ambientação é fiel sem carregar nas tintas do
“nordestinismo”. Alguns dos segredos revelados são cruéis, mas como diria algum
personagem, cruel é a vida.
“Memorial do Esqueleto e Outros Contos” de Aldo Lopes de Araújo (Natal: Offset / Sebo Vermelho, 2024)
Aldo Lopes é
contista e romancista no mesmo tecido e no mesmo corte. Igualmente à vontade na
ambientação urbana e na rural, no realismo lógico e no realismo mágico, ele faz
do Sertão um terreno fértil para o insólito, o grotesco, o brutal. Neste seu
mais recente volume de contos, ele remexe no baú-sem-fundo das histórias de
assombrações, superstições, maldições de família, onde reescreve episódios incrustados
em nossa memória cultural, desde Machado de Assis (“Uns braços”) à Bíblia
(“Estátuas de Sal”, “Adeus, Deus”). “A maldição de Princeza” é um gótico
sertanejo arrepiante; “Memorial do Esqueleto” traz uma versão meio fescenina da
lenda do homem que vende o próprio esqueleto antes de morrer. Duas histórias
curtas têm uma concisão e um peso verbal admiráveis: a que abre o livro (“O
gancho do teu braço em meu pescoço”) e o que o encerra (“Arquivos dos
portais”).
“Se um Viajante numa Noite de Inverno”, de Ítalo Calvino (1979; Círculo do Livro, s/data, trad. Margarida Salomão)
Este é um livro que
sozinho rende um ano de Mundo Fantasmo, e certamente voltarei a ele no futuro.
Calvino é um fabulador, bom contador de histórias, e consegue fazer um livro
cheio de conceituações sobre o ato de escrever sem torná-lo um livro chato.
Aqui, ele realiza seu sonho confesso de fazer um livro só feito de começos de
livros. Um casal de leitores se depara com um livro misterioso cujo meio-e-fim
estão sempre faltando, e cada vez que adquirem uma cópia se deparam com o
“começo” de um novo livro, que também não acaba. Calvino discute fake news (sem
usar esse termo – o livro é de 1979), literatura eletrônica, tradução,
picaretagens editoriais, idiomas em desaparecimento, a arte da narrativa... Um
livro para passar a vida relendo.
“Traduzir-me”, de João Batista de Brito e Sérgio de Castro Pinto (João Pessoa: Idéia, 2024)
Este volume feito a
quatro mãos é uma aventura tradutória de João Batista de Brito, crítico de
cinema com respeitável carreira e vários livros publicados. Ele fez uma seleção
de poemas de Sérgio de Castro Pinto, outro nome indiscutível nas letras
paraibanas, e os verteu para o inglês. Os versos de Sérgio, curtos, sintéticos,
extremamente concisos, parecem à primeira vista fáceis de traduzir. Ledo engano, diz João Batista, porque o jogo
de polissemias, que é uma das marcas características do poeta se esvai o tempo
inteiro na tradução, onde dificilmente se pode encontrar uma palavra que
contenha em si as mesmas duas faces. Ainda assim, o tradutor encontra caminhos
e produz versões agudas, sólidas. Falei que era um livro a quatro mãos mas
poderia dizer seis, porque um terceiro amigo se faz presente, o artista Flávio
Tavares, com uma série de desenhos inspirados (não sei se todos) nos poemas escolhidos.
O jornalista e poeta Astier Basílio assina o prefácio, o que torna este pequeno
volume um instantâneo da cultura da Paraíba neste começo de século.
“A exumação do corpo de Maria Saraiva de Araújo – Tramas e intrigas na Vila Nova de Pombal do século XVIII” de Jerdivan Nóbrega de Araújo (João Pessoa: Idéia, 2024)
A cidade de Pombal
é, na Paraíba, uma das que têm sua história, memória e cultura mais bem
documentadas, graças a um punhado de historiadores e memorialistas como
Jerdivan Nóbrega de Araújo, José Tavares de Araújo e Werneck Abrantes. Em
parceria ou isoladamente eles vêm cobrindo sem cansaço o passado histórico da
cidade, seja numa visão geral da evolução desta, seja no registro de fatos e
vultos específicos. “A exumação...” é
o relato fascinante de um possível crime ocorrido em 1784, com a morte de Maria
Saraiva, esposa do capitão-mor Francisco de Arruda Câmara, um potentado local
com muito poder e numerosos inimigos. Depois de sepultada a defunta, brotaram
boatos de que ela teria sido envenenada pelo marido, o que deu motivo para um
inquérito, a convocação de dezenas de testemunhas e a exumação do corpo da
suposta vítima. A reconstituição minuciosa feita por Jerdivan Nóbrega se apoia
na transcrição de documentos da época e na comparação de fatos e depoimentos
para extrair uma versão plausível dessa morte misteriosa, que já tem quase dois
séculos e meio. É uma mistura de reportagem de crime real e reconstituição histórica, mais um episódio
fascinante (às vezes brutal) e bem documentado do passado da cidade sertaneja.
terça-feira, 30 de julho de 2024
5087) A tradução digital (30.7.2024)
(capa: Lee Rosenblatt)
Estive em São Paulo num bate-e-volta para uma palestra no Congresso SINTRA 2024, o encontro do sindicato de tradutores e intérpretes do Brasil. Graças ao convite de Isabel Vidigal e Valéria Gauz, tive a chance de falar para uma platéia atenta e generosa mas, mais do que isto, acompanhei palestras e debates sobre as armadilhas e as loterias da tradução literária (com Marcelo Backes), o trabalho dos intérpretes simultâneos, a atuação dos intérpretes de línguas indígenas na Amazônia (num valioso depoimento de Jaime Mayuruna)... Para não falar nos encontros e reencontros com amigos e colegas de várias partes do Brasil.
sábado, 27 de julho de 2024
5086) A verdade dos fatos e a verdade dos sentimentos (27.7.2024)
Ted Chiang, autor de tantos textos brilhantes de ficção
científica, tem no livro Expiração
(Intrínseca, 2021, trad. BT) o conto “A verdade dos fatos, a verdade dos
sentimentos”, em que ele descreve dois mundos paralelos e suas peculiares
relações com a memória.
O primeiro é um futuro próximo em que as pessoas dispõem
de super-aplicativos de memorização, implantados na mente.
No segundo, narra-se o choque da chegada dos brancos
europeus a uma tribo indígena, com seus conceitos revolucionários, entre eles o
de que uma coisa só é verdadeira se for reproduzida sempre do mesmo modo.
No que podemos chamar “Narrativa A”, a história
futurista, foi inventado um sistema chamado “Remem”, que permite gravar e
indexar memórias de tudo que uma pessoa vivencia. Chamam a isso “bio-logs” – uma espécie de diário
áudio-visual com ações, conversas, cenas que a pessoa presenciou ou de que
participou. Como se cada cérebro tivesse uma câmara-com-gravador
permanentemente ligada.
São aquelas engenhocas maravilhosas da FC. Já
pensou?! Poder gravar tudo, acessar
tudo, consultar tudo?!
Milhões de pessoas, algumas da minha idade, mas em geral mais jovens do que eu, vêm mantendo bio-logs, diários biográficos de suas vidas, há anos e anos, usando câmeras pessoais que capturam continuamente vídeos de seu dia a dia. As pessoas consultam esses diários por uma grande variedade de motivos, desde o desejo de reviver seus momentos favoritos até descobrir a causa de alguma reação alérgica. (...)
O Remem monitora as conversas buscando referências a eventos passados, e exibe vídeos desses eventos no canto inferior esquerdo do seu campo visual. Se você diz a alguém “lembra-se daquele casamento em que você dançou a conga?”, Remem exibe o vídeo. Se a pessoa com quem você está conversando menciona “a última vez em que fomos juntos à praia”, o Remem exibe o vídeo. E ele não funciona apenas quando se está conversando com alguém: o Remem também monitora as suas subvocalizações. Se você lê as palavras “o primeiro restaurante chinês onde você jantou”, suas cordas vocais se movem como se você estivesse lendo em voz alta, e o Remem exibe o respectivo vídeo. (pág. 222-223)
Parece uma
beleza, inclusive porque nos permite esclarecer dúvidas, disputas,
esquecimentos... O narrador, porém, percebe logo que em termos de convivência,
isso pode estragar a vida.
Casais, por
exemplo. A todo instante ficam recorrendo aos bio-logs para determinar quem tem razão numa briga. E o narrador
expõe todo o sofrimento que tem na sua relação com a filha adulta, por causa de
“quem disse o quê, e como, e quando”.
E ele se pergunta:
Era este o limite onde a busca da verdade deixava de ser uma virtude intrínseca. Quando as únicas pessoas afetadas mantêm uma relação pessoal uma com a outra, há prioridades mais importantes, e essa busca detetivesca pela verdade pode se tornar perigosa. É mesmo importante saber de quem foi a idéia daquelas férias que se revelaram desastrosas? É mesmo necessário saber, num casal, qual dos dois é mais relapso em cumprir tarefas? Eu não era um especialista em casamento, mas sabia o que os conselheiros matrimoniais geralmente dizem: apontar culpas não é a resposta. Em vez disto, as duas pessoas precisam ter em mente os sentimentos uma da outra, e encarar em conjunto os seus problemas. (pág. 229)
A outra narrativa, a Narrativa B, é ambientada num
vilarejo da Tivlândia (uma região da Nigéria), que recebe as primeiras
investidas dos missionários europeus. Os personagens principais são o garoto
Jijingi, de treze anos, o ancião Sabe, chefe tribal, e o missionário Moseby.
Este último surge aos olhos dos nativos como um personagem meio cômico, por ser
desajeitado, pouco atlético; mas aos poucos vai revelando recursos que fascinam
Jijingi, principalmente o uso dos livros e dos papéis escritos.
O garoto entende a função daquilo e tempo depois está
aprendendo a ler e escrever.
Foi somente muitas aulas depois que Jijingi finalmente entendeu onde devia deixar os espaços vazios, e o que Moseby queria dizer quando falava em “palavra”. Não se pode saber, ouvindo, onde uma palavra começa e onde acaba. Os sons que uma pessoa faz quando fala são contínuos e sem separações, como o couro da perna de um bode; mas as palavras eram como os ossos por dentro da carne, e o espaço entre elas eram as juntas onde é preciso cortar quando se quer separá-las em pedaços. Deixando espaços ao escrever, Moseby estava tornando visíveis os ossos daquilo que falava. (pág. 233)
Ted Chiang pratica a famosa “prosa vidraça” elogiada por Isaac Asimov, a prosa transparente, com pouco enfeite, cristalina, precisa. E isso é necessário porque ele é um dos autores cujo pensamento tem ao mesmo tempo ousadia e clareza.
Como se viu na sua coletânea anterior História de Sua Vida e Outros Contos (Ed.
Intrínseca, 2016, trad. Edmundo Barreiros), cada história parte de uma
inesperada premissa fantástica, exaustivamente pensada e cuidadosamente
desenvolvida. Ele é um escritor de FC hard,
não porque carregue nas informações tecnológicas, mas porque obedece com
mestria ao método científico.
Enquanto isto, os personagens da Narrativa A estão às
voltas com o excesso de lembranças que o software Remem descarrega em suas
relações pessoais.
Todo tipo de relação se baseia na capacidade de esquecer e perdoar. Minha filha Nicole sempre teve uma personalidade forte: rebelde quando criança, abertamente desafiadora depois que cresceu. Ela e eu tivemos discussões furiosas durante sua adolescência, discussões que depois fomos capazes de deixar para trás, e agora temos uma relação bastante boa. Se tivéssemos o Remem, ainda estaríamos nos falando? (pág. 236)
E na Narrativa B, o jovem africano Jijingi começa a ter
pequenas decepções com a arte da palavra escrita, que já domina, quando vê a
transcrição datilografada de uma das histórias tradicionais da tribo, contada
por Kokwa, o melhor narrador do vilarejo.
A versão escrita da história produziu-lhe uma decepção que ele não esperava. Jijingi lembrava muito bem que quando começou a entender o que era a escrita, imaginara que ela lhe proporcionaria a visão de uma história sendo contada, tão vividamente como se estivesse ali. Mas a escrita não era assim. Quando Kokwa contava a história, ele não usava somente as palavras: usava o som de sua voz, os movimentos das mãos, a luz que brilhava em seus olhos. Ele contava a história com o corpo inteiro, e as pessoas a absorviam da mesma maneira. Nada daquilo era transportado para o papel: ali só era possível registrar palavras. E ler somente as palavras produzia apenas uma sombra da experiência de ouvir Kokwa em pessoa, como se alguém estivesse lambendo uma panela onde foi cozinhada a okra, ao invés de comer a okra propriamente dita. (pág. 239)
O conto prossegue até o fim fazendo esse paralelo entre
duas histórias de ambientação muito diversa, mas com um só tema: Quais as
modificações trazidas por novas tecnologias de preservação da memória (a
palavra escrita, o software “Remem”)?
Chiang mostra como a memória constrói ao mesmo tempo a
percepção do Eu e a percepção do mundo; e a memória não é fixa nem imutável,
pelo contrário – são inúmeros os casos em que a reinterpretação de um fato
passado produz uma reviravolta completa em nossas atitudes do presente.
E afinal, o que é a verdade? A lembrança dos fatos que registramos, ou a
lembrança das emoções que sentimos?
A certa altura, o vilarejo africano se envolve numa
disputa étnica. Surge uma dúvida sobre o clã a que eles pertencem, pois
apareceram versões conflitantes sobre fatos de muitos anos atrás. Jijingi e o
missionário discutem, cada um sem entender direito os conceitos do outro.
– Mas se Umem e Anongo prestassem juramento também, isso garantiria que eles também diriam precisamente o que aconteceu. Anongo só foi capaz de mentir porque não prestou juramento.
– Anongo não mentiu – dsse Jijingi. – Ele disse o que considerava certo, tal como Umem fez.
– Mas o que Anongo disse não era o mesmo que a testemunha disse.
– Mas isto não quer dizer que ele estivesse mentindo. – Então, Jijingi lembrou algo a respeito da língua dos europeus, e entendeu a confusão de Moseby. – Nossa língua tem duas palavras diferentes para o que na língua de vocês quer dizer “verdadeiro”. Existe o que é certo, mimi, e o que é exato, vough. Numa disputa, os envolvidos dizem o que consideram certo; eles falam mimi. As testemunhas, no entanto, juram dizer exatamente o que aconteceu; eles falam vough. Quando Sabe escuta o relato do que aconteceu ele pode decidir qual a ação que será mimi para todo mundo. Mas se os envolvidos não falam vough, isto não é considerado uma mentira, desde que eles falem mimi.
Moseby, visivelmente, desaprovava isto.
– Na terra de onde eu venho, todo mundo que depõe numa corte tem que jurar que vai falar vough, inclusive os querelantes. (pág. 250-251)
O que é a verdade? Nossa verdade pessoal está sempre
carregada de emoção, sentimento, vontade, desejo, recusa. A memória pessoal não
é objetiva nem imparcial. Lembramos as coisas do jeito que nos parece certo,
principalmente no que precisa de interpretação. “Ele reagiu de forma muito
agressiva.” “Ela age com indiferença.” “As pessoas aqui me tratam de maneira
distante.” “Fiz tudo que era
necessário.”
Os psicólogos fazem uma distinção entre memória semântica – o conhecimento de fatos gerais – e memória episódica – a lembrança de experiências pessoais. Estamos usando complementos tecnológicos para a memória semântica desde a invenção da escrita: primeiro livros, depois as ferramentas de busca. Por outro lado, historicamente temos resistido ao emprego desses auxílios no que diz respeito à memória episódica; são muito poucas as pessoas que mantêm diários pessoais ou álbuns de fotos, comparadas às que possuem livros. (pág. 243)
E o personagem de Ted Chiang, checando memórias afetivas
de infância com sua família, comenta:
Ao discutir o papel da verdade numa autobiografia, o crítico Roy Pascal escreveu: “De um lado existe a verdade dos fatos, e do outro a verdade dos sentimentos do autor, e a área em que as duas coincidem não pode ser indicada por antecipação por nenhuma autoridade externa”. Nossas lembranças são autobiografias privadas, e aquela tarde com a minha avó aparece com destaque na minha “autobiografia” devido aos sentimentos que estão associados a ela. E se uma filmagem me revelasse que o sorriso de minha avó era de fato um sorriso artificial, que na verdade ela estava aborrecida porque sua costura não estava saindo bem? O que é importante para mim nessa lembrança é a felicidade que está associada a ela, e eu jamais quereria colocá-la em risco. (pág. 245)
quarta-feira, 24 de julho de 2024
5085) A exceção e a regra (24.7.2024)
https://www.elfikurten.com.br/2016/03/joao-guimaraes-rosa-carta-ao-consul.html
É preciso, e isto tem muita importância, destruir o sistema das restrições, das regras. Esse sistema não tem que ser rígido, ele tem que conter um elemento de jogo... É como se diz: tem que ranger um pouco. Ele não tem que ser completamente coerente, é preciso que haja um clinâmen – algo que aparece na teoria de Epicuro sobre os átomos: ‘O mundo funciona porque, no seu início, existe um desequilíbrio’. Segundo Paul Klee, ‘o gênio é um erro no interior do sistema’”.
domingo, 21 de julho de 2024
5084) "Entrevistas Transcendentais": Federico Fellini (21.7.2024)
Caminho na direção da entrada, pensando que daqui a dez mil anos este estúdio estará sendo desenterrado. Arqueólogos da humanidade futura tentarão encontrar algum sentido na profusão de artefatos primitivos que encontrará lá dentro: dragões, sofás, cavalos de madeira, bebedouros, barcos, câmeras, holofotes, espadas, animais mecânicos, camarins, esqueletos, castelos inacabados.
FF – Não se preocupe. Nesta fase inicial quem menos trabalha sou eu. Os marceneiros estão pondo de pé uma estação de trem, que não sei ainda como vou usar. Ou melhor: tenho uma cena pronta na cabeça, a chegada de um personagem, de madrugada, a uma cidade desconhecida. Não sei ao certo o que vai lhe ocorrer, mas ele desce para tomar um café ou comprar um jornal, distrai-se, e o trem parte sem ele.
FF – Depois... não sei. Enquanto estiver filmando isto, mandarei construir um hospício. Talvez ele se lembre de que seu pai está internado ali e resolva fazer-lhe uma visita. Alguns dos meus filmes nascem assim, de pequenos episódios que vão se juntando. O importante é ter as idéias com um mínimo de antecipação, para que os técnicos possam trabalhar: marceneiros, figurinistas...
BT – Ao longo de sua carreira, seus enredos foram se tornando mais episódicos, menos articulados, e talvez menos previsíveis.
FF – Sim. Penso que fui mais literário na primeira metade de minha carreira, preocupava-me muito com a história, a verossimilhança dos pequenos acontecimentos, a verdade emocional dos personagens... Isto vinha na frente. Depois creio que fui me afastando da literatura e me aproximando da pintura, ou das histórias em quadrinhos, e descobri o prazer de contar muitos episódios curtos, sucessivos, mas sem a obrigação de obedecer a um arco mais amplo. Não faço isto por deliberação, é espontâneo. São duas maneiras legítimas de narrar. Existem outras.
FF – Sim, isto acabou se tornando o principal clichê a meu respeito, para muitos produtores, críticos, etc. Aparece um anão soprando bolhas de sabão, e eles gritam: “Felliniano!...” Aparece uma mulher gorda na janela, escovando os dentes, com os seios enormes de fora, e gritam: “Felliniano!...” Não nego que tudo isto me fascinava quando garoto. Sou fiel a este fascínio, ainda filmo para recapturar o maravilhamento dos meus dez anos diante de coisas assim.
FF – E talvez seja uma imagem que me é muito cara, que me lembra inclusive tempos da juventude, quando não tinha dinheiro, não tinha trabalho, andava de madrugada meio sem destino, outras vezes saindo de um trabalho que entrava pela noite... O que quer? O mundo é feito disto, multidões ruidosas e coloridas durante o dia, e durante a madrugada pessoas sozinhas caminhando devagar, sem pressa de chegar a lugar algum... Quando vejo uma rua com todas as portas e janelas fechadas, à luz dos lampiões, ela me parece uma mente adormecida, e tudo que acontece ali é como um sonho... A madrugada é o espaço do sonho, porque todos dormem. A rua deserta é uma rua que só existe em nós, e para nós. Por isso também me seduz a névoa, a neblina de Rimini, que envolvia as casas, as torres, os edifícios... tudo ficava suspenso no interior dessa nuvem branca, que a luz dos postes elétricos mal conseguia atravessar.
FF – Sim, embora o cinema de Don Luís seja, de certo modo, mais ácido e menos sentimental do que o meu; tenho consciência disso. O que nos aproxima talvez seja o horror ao moralismo, à hipocrisia. O moralismo, no fundo, não passa de uma tentativa de humilhar alguém para afirmar a nossa própria superioridade. Talvez isso tenha origem no fato de que tanto eu quanto Buñuel somos latinos, emotivos, passamos parte da juventude sob o peso de regimes totalitários, e da lavagem cerebral promovida pela Igreja. Com isto, adquiri um grande desprezo pelo moralismo, porque os que se dizem moralistas não se preocupam com nenhum valor moral elevado, e sim com a possibilidade de acumular poder para si mesmos quando humilham e condenam os demais. Só pensam em si, como o homem que só dá uma esmola se houver alguém olhando. E no fundo têm todos essa visão tribunalesca do mundo, uma corte onde eles investigam, interrogam, julgam, condenam ou perdoam... Não é assim que vejo a vida.
FF - Meus filmes são castos. Raramente mostro uma cópula, ou nudez exagerada. Há exceções motivadas pelo tema, como em Casanova, mas o sexo ali é coreográfico, performático, não se destina a excitar alguém. Nos meus filmes há sexo, mas como um aspecto da vida. É isto que os moralistas não me perdoam. O escândalo da La Dolce Vita não tinha a ver com nudez ou intercursos sexuais. Minhas orgias são desajeitadas, amadorísticas... A sensualidade, por outro lado, aparece na cena da Fontana di Trevi, uma cena de pessoas vestidas dos pés à cabeça, e que mal se tocam. É a água que fornece o erotismo. Os moralistas entenderam (sabe-se lá como) o quanto a água é erótica.
FF – Quero mostrar quem eles são, mas todos nós estamos mais próximos uns dos outros do que imaginamos. Existem pessoas essencialmente malignas, no mundo, mas são raras nos meus filmes. O que mostro, geralmente, são pessoas movidas por impulsos contraditórios, ou por desejos mais fortes que seu bom senso, ou pelo medo que nos amesquinha, ou por situações em que se metem e não conseguem voltar atrás... Roubam, enganam, trapaceiam, porque é o que lhes parece mais fácil no momento, o atalho mais curto para obter o que pretendem, e são um pouco como crianças, sempre acreditam que ninguém está vendo, e que no fim escaparão impunes.
FF – São castigos que na verdade não procuram ter efeito moral, “vejam como o vício será punido!”... Não, é apenas para mostrar de que modo eles se metem nas enrascadas, porque têm uma percepção defeituosa da vida, são egoístas como crianças mimadas, nunca acham que podem estar errados, e geralmente estão. E qualquer um de nós passa de vez em quando por vexames desse tipo. Com menor gravidade, espero. Eu próprio já meti os pés pelas mãos tantas vezes! Não, eu não seria capaz de roubar a bolsa de Cabíria, com todas as suas economias dentro, mas sou capaz de imaginar o que se passa no espírito sombrio daquele indivíduo. Daí aquela longa cena, antes do roubo final... Estão à beira do barranco, ao entardecer... ele já sabe o que fará... está em plena tragédia... por isso nada diz, não faz um gesto, enquanto ela ainda está vivendo a própria fantasia.
FF – O adultério tem a ver com a vaidade do homem que, com ingenuidade semelhante, nunca acredita que pode estar errado. Ele sempre acredita que a mulher jovem com quem conversa está tremendo de desejo por ele mas é obrigada a manter uma aparência virtuosa. Não é diferente da mocinha ingênua de Abismo de um Sonho, que larga o marido numa situação bem constrangedora, para perseguir o galã das fotonovelas; tanto ela quanto o sedutor vivem uma fantasia tão intensa que não conseguem perceber a realidade.
FF – Se as emoções fortes são verdadeiras, as sutilezas irão aparecer, principalmente no cinema, porque estamos no domínio da câmera, da iluminação e do ator, e nenhum diretor tem domínio total sobre todos estes elementos, ao mesmo tempo. E nenhum diretor necessita desse domínio. Temos que buscar a verdade emocional da história antes de tudo, e o resto virá por si só. E não me refiro simplesmente ao lado mais externo das emoções, o riso, o choro, a raiva, a paixão... Mas às emoções profundas, que nos movem, que nos impelem a agir deste ou daquele modo... Isto é um trabalho fascinante para quem escreve, quem dirige, quem interpreta... No momento de uma cena forte, de um close-up, há mil sutilezas que é preciso permitir que brotem, sem que o roteirista ou o diretor as tenham que prever, necessariamente. O momento principal do cinema é quando o diretor diz: “Ação!... Tudo que acontece antes é mera preparação, e o que acontece depois é acabamento.
Dito isto, respondo: sim, gosto de situações exageradas, até meio absurdas, gosto de emoções grandes demais. Não sou um retratista, sou um caricaturista.
FF – Gosto de rostos que parecem máscaras, porque sinto neles uma verdade maior do que naqueles rostos pálidos, plácidos, organizados, que se parecem todos uns aos outros... Estes são os rostos da nossa era, a era das máquinas, em que tudo parece feito de acordo com a mesma fôrma. Gosto do que é único, e o que é único geralmente nos parece extravagante ou bizarro. Em todo caso, gosto de compor com os rostos. Nos meus primeiros filmes tive que aceitar às vezes os atores que as circunstâncias me impunham, mas meu desejo era sempre compor um personagem: um rosto, uma roupa, um ambiente, uma voz... Muitas vezes o ator tinha o rosto que eu queria mas a voz não tinha nada a ver, eu era forçado a encontrar alguém que tivesse a voz adequada e fazer a dublagem.
FF – Mas sim! É uma técnica como qualquer outra. Em algumas cenas só me veio à mente o que os personagens estariam falando quando vi a cena na moviola, sem som, e pela expressão do rosto deles uma certa troca de palavras me veio à mente. Não funciona em toda cena, é claro, pois existem aquelas onde os atores precisam estar dizendo coisas específicas, ou a história não faria sentido. Mas em outras...
FF – Tenho impaciência com quem fica tentando provar que o que passa na tela é uma mentira. Mas claro que é uma mentira! A arte é uma mentira, uma invenção, um sonho... Fiquem eles com a verdade deles, podem ficar de pé na sala e gritar que as ruas são feitas de papelão, e que as balas são de festim. Há gente que vai para o cinema com um cronômetro ou um binóculo para encontrar o que eles chamam de “erros” – para ver se os movimentos das mãos de um instrumentista correspondem aos sons que se ouve na banda sonora.
Eu não filmo para gente assim. Filmo para gente capaz de olhar um ator e não se perguntar de quem é aquela voz. É uma composição, é como usar uma tela transparente, com projeção ao fundo mostrando o Monte Olimpo ou o fundo do mar. É claro que é um truque!
FF – Mas, quem não gosta? Amadureci como artista escrevendo roteiros de quadrinhos à imitação de Alex Raymond e de Lee Falk, quando o governo fascista proibiu a importação das tirinhas. Eu escrevia, e um colega imitava o traços daqueles artistas, de quem ainda espero receber o perdão. Sim, escrevi Flash Gordon, escrevi Mandrake, mas colocar isto numa tela de cinema envolve outras questões. Tudo nasce da minha admiração pelo insólito, o grandioso, o despropositado... Sou um homem de Rimini, e Nova York para mim é uma metrópole interplanetária, uma construção cenográfica suspensa no tempo e no espaço, como aquelas cidades envoltas em cúpulas transparentes que viajavam pelo Sistema Solar. Sempre fui fascinado pelo mundo impossível criado pelos americanos. Ali, já assisti, numa tela gigantesca, uma projeção de “Satyricon” num daqueles “Square Gardens”, depois de um concerto de rock, com dez mil jovens fumando haxixe e fazendo o amor, e acho que nesse momento a Roma Antiga e a Roma Futurista dialogaram e se fundiram uma à outra, com uma pequena ajuda de minha parte.
FF – Às vezes, mas em geral tenho um certo incômodo, como se estivesse mostrando algo muito íntimo para uma multidão de desconhecidos, que facilmente podem me achar ridículo ou patético. O verdadeiro prazer está no ato de filmar. O grande momento do cinema é o dia de filmagem, à frente desse exército quixotesco que é toda equipe de cinema, com sua confusão, suas brigas, sua cumplicidade, seus mexericos, seus erros, seu perfeccionismo... Seja no estúdio ou na rua, um dia de filmagem é sempre um mergulho num mar desconhecido, para trazer de volta alguma coisa que nem sempre é o que buscávamos. Descobri isto através de Rossellini, nos meus primeiros trabalhos de cinema, pórque até então eu era um homem de gabinete, da escrita, do desenho, da produção de revistas ou de programas. E ao acompanhar as primeiras filmagens, principalmente em Paisà, percebi que o momento da filmagem era como um happening, como uma obra de arte efêmera que valia por si só, embora tivesse como propósito a realização de um produto que iria ser exibido meses depois.
FF – E quanto menos se falar sobre isto, melhor.
FF – Sim, mas é o que lhe falei, para mim não existe fronteira entre o que aparece na tela e o que está por trás da câmera. A fronteira existe apenas como uma abstração, uma convenção, tal como as fronteiras da vida real – se excetuarmos esses horríveis muros de pedra ou de arame farpado separando os países. A câmera pode apontar apenas numa direção, mas o cinema existe em 360 graus, é um círculo em que tudo se confunde.
FF – A palavra vem daí, círculo, circo, um espaço que inclui artistas, personagens e público: os que fazem, os que aparecem na tela e os que assistem. São espaços diferenciados mas contínuos, e vivem em função uns dos outros. Quando apareço filmando nos meus próprios filmes não estou posando de vanguardista, nem “quebrando a quarta parede”, estou sendo até meio saudosista, lembrando de um passado longínquo em que a arte era feita nas ruas, nas praças, no meio do povo, sem essa distinção artificial imposta pela indústria e pelo comércio artístico. Não sou contra o comércio, inclusive porque vivo dele, mas não podemos manter viva uma parte desse espírito?
FF – Filmar em equipe exige uma capacidade de sonhar coletivamente. Sempre me surpreendo quando digo, por exemplo, “preciso de um balão colorido que se eleva no ar levando consigo dez pessoas”, e dias depois tenho nas mãos não só o balão como as pessoas, dispostas a subir nele somente porque essa idéia maluca me ocorreu! É diferente da relação que temos com certos financiadores incapazes de entender a imaginação. Querem explicação para tudo, exigem cortes no orçamento... A cena tem que mostrar uma mulher que chega ao consultório médico, e quando entra vê dois médicos gêmeos, vestidos iguais, por trás da mesa. O produtor lê isso, faz uma marca na página e pergunta: “Mas, por que dois gêmeos?... Não bastaria um?...” É com esse tipo de questão que a gente tem que lidar o tempo inteiro, é de enlouquecer.
A assistente entrou já faz algum tempo, espera junto à porta, muito compenetrada, em seus óculos, seu cabelinho curto, sua minissaia. Séria como o mármore, que raramente sorri; tem idade para ser neta de Federico, e olha para ele com um olhar de mãe. Ele percebe, faz-lhe um sinal de positivo, ergue-se, eu também me levanto, abraçamo-nos, ele me agradece: “Grazie, trouxe-me belas lembranças, não deixe de ver o filme!..” O filme é A Viagem de Mastorna, um percurso calvinesco de um homem que perde o trem e se perde na estação, no mundo, e se maravilha com o mundo, e não quer mais voltar para o que havia antes.





