segunda-feira, 15 de novembro de 2021

4764) A volta ao mundo de W. J. Solha (15.11.2021)

 


Waldemar José Solha, que se assina britanicamente W. J. Solha, está botando na praça mais um livro de poesia, desde vez pela Editora Arribaçã, de Cajazeiras. O livro tem um título intrigante: 1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite. Existe na literatura uma nobre tradição de títulos longos e complicados, que já vem de longe, e passa por nomes ilustres como o de David Foster Wallace e seu Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo.

 

Solha vem construindo esse seu ciclo de poemas-prosas desde Trigal com Corvos (Palimage, 2006), que comentei aqui:

 

https://mundofantasmo.blogspot.com/2009/03/0920-trigal-com-corvos-2622006.html

 

A este se sucederam: Marco do Mundo (João Pessoa: Ideia, 2012), Esse é o Homem (João Pessoa: Ideia, 2013), e Vida Aberta (Guaratinguetá: Penalux, 2019).

 

Esta pentalogia (por enquanto!) de poemas de Solha, em verso livre, vai se construindo como um tronco de árvore que à medida que se alonga de subdivide em galhos grossos que por sua vez vão de prolongando e se ramificando em galhos mais finos. A substância é a mesma mas em cada um deles (em cada galho, em cada livro; em cada ramo, em cada verso) adquire novas formas e se embebe de outra matéria. A árvore é uma só. O autor é um só, multifurcando-se em idéias que não param de jorrar, de uma mente que trabalha 24 horas por dia. (Não pensem que Solha “apaga” quando dorme.) 

 

A busca poética do autor, que já comentei neste blog, se faz através de um tipo de verso curioso, extenso, quase prosa.  

 

Verso que eu costumo chamar “o verso Whitman”, porque foi nos poemas de Walt Whitman (e de seus seguidores como Álvaro “Fernando Pessoa” de Campos, Allen Ginsberg...) que conheci este tipo de verso-quase-prosa.  Linhas extensas que avançam na direção da margem direita da página, esbarram nela. Às vezes retornam ao começo da margem esquerda, às vezes começam a se quebrar e se acumular em linhas que vão se superpondo no lado direito, até concluírem o que têm a dizer.

 

Sobre a dúvida terrível das aparências,

sobre a incerteza que há em tudo, de que estejamos nos iludindo,

de que talvez nossa confiança, nossa esperança, não sejam mais, afinal, do que meras especulações,

de que talvez a identidade no além-túmulo seja apenas uma linda fábula,

e talvez as coisas que eu percebo, os animais, as plantas, os homens, as colinas, as águas que cintilam e que escorrem,

os céus noturnos e diurnos, as cores, as densidades, as formas, talvez tudo isto seja somente (como sem dúvida o são) meras aparições, e a coisa real ainda está para ser conhecida.

(Walt Whitman, “Of the Terrible Doubt of Appearances”, em Folhas de Relva, trad. BT)

 

Ou na poesia beat de Allen Ginsberg:

 

Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura,

eu os vi famintos, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro ao amanhecer,

à procura de uma dose brutal,

hipsters de cabeça angelical, ardendo de desejo pela antiga conexão divina com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,

pobres, esfarrapados, com os olhos fundos, viajando sentados, de cigarro aceso, na escuridão sobrenatural de quartos sem aquecimento, flutuando sobre os tetos da cidade e contemplando o jazz...

(“Uivo”, parte I, trad. BT)

 

Ginsberg dizia que seus versos não se contavam por número de sílabas, mas pela capacidade pulmonar. Um verso durava a quantidade de palavras que ele conseguisse recitar a plenos pulmões antes de precisar tomar fôlego novamente.

 

Em Solha, esses versos quilométricos se alternam – por questões puramente rítmicas e de conteúdo, a meu ver – com versos curtíssimos, de uma linha só, criando estrofes como:

 

Falha das mitologias (da grega e hebraica à tupi-guarani), a de nos terem dito... coisas dignas de Dali:

que Deus teria feito o homem do barro,

como o oleiro faz o jarro

...e a vida,

em nós, teria sido inserida – por uma das generosidades divinas –

através de um sopro nas... narinas

ou a nós teria sido dado o fogo dos deuses, roubado,

...algo,

sempre,

à parte,

quando – noutra via – vemos que – por infinitos fatores – da geosfera (passada uma eternidade) se criou uma biosfera, de que surgiu a ...noosfera,

e o fenômeno humano – que se alimenta do que vem do Sol ... e do chão – é a própria Terra

a produzir... Ciência,

...a turbulência – incluindo guerra e tudo mais em que a humanidade “erra” – e Arte.

(1/6 de Laranjas..., págs. 26-27)

 

Acho que não é mero acaso a semelhança de tema e de métrica entre poemas assim. São poetas que tentam abarcar de uma só vez o mundo inteiro, ou uma época inteira, ou a totalidade de uma experiência humana neste breve piscar de olhos que é a vida – uma treva, um vislumbre, e a treva novamente.

 

O mundo é uma chuva constante de imagens e de idéias que o poeta registra sem parar. Tem um verso de Dante, que Ítalo Calvino cita em seu Seis Propostas Para o Próximo Milênio, ao discutir seu conceito de “Visibilidade”: “Chove dentro da alta fantasia” (“Poi piovve dentro a l’alta fantasia”, Purgatório, XVII, 25).

 

Calvino explica que “a imaginação é um lugar dentro do qual chove”, quer dizer, chovem imagens, chovem temas, assuntos, histórias, personagens, enredos, situações, idéias, associações de idéias... Chove assim, na mente dos poetas.


(Solha, no filme O Som ao Redor)


Como quando Solha relembra suas viagens de trem:

 

(...) ou,

fora da vida urbana,

na Estrada de Ferro Sorocabana,

entre os troncos e frestas em fila, em florestas de eucaliptos,

o sol – entre ecos de apitos – a correr ao fundo,

a vinte e quatro fotogramas,

fasciculados

por

segundo.

(pág. 14)

 

É o cinema da vida, metralhando os olhos ansiosos do jovem que se educa na marra, na fome insaciável de ficar-sabendo, nas enciclopédias em fascículos, nas sessões de cinema-poeira, nos discos de 78 rotações... Na própria vida de rapaz de classe-média-trabalhadora na distante Sorocaba, a quem um dia o concurso do Banco do Brasil oferece a possibilidade de se transferir para Pombal, no sertão da Paraíba, pra lá do fim do mundo, um lugar onde (parafraseando o que o poeta diz à página 16) “o chão alcança o horizonte e dá a volta por cima”.

 

Carlos Drummond dizia, memoravelmente, que “a Vida, quando vai aos livros, é para voltar mais Vida ainda”. O mergulho eloquente e entusiástico de Solha nos livros, nos álbuns de gravuras, nos filmes, nas telas, é um testemunho de que essas coisas de Arte não nos afastam da realidade, a não ser quando é este o propósito de quem as usa. A Literatura nos devolve às coisas cruas e cruéis do mundo, como quando o poeta questiona os próprios Evangelhos:

 

(...) ao que pergunto,

sem delírio:

o que ...são ...as três horas ...desse martírio ...fecundo – pois pra “Salvar o Mundo” - ...ante as... vinte e seis... mil, viu?,

em que o câncer – corrosivo – atormentou e matou minha mãe,

...sem qualquer ...objetivo?

(pág. 53)

 

Qual o objetivo disto tudo? Por que tanta beleza, ao lado de tanto sofrimento inútil? Por que tantas vidas notáveis e produtivas, em meio a tantos milhões de vidas que aparentemente nada trouxeram para si e para ninguém? Por que tantos sistemas religiosos, políticos, estéticos, filosóficos, tentando explicar ou direcionar esse tsunami de corpos de carne e osso, bilhões deles, nascendo, agitando-se, entrematando-se, reproduzindo-se, desmoronando para adubar a terra, e no meio disso ainda tendo a capacidade de produzir tanta beleza---

 

(...) como foi o da transparência dos tecidos,

...esculpida ...em pedra,

com arte e...

perspicácia,

na Vitória de

Samotrácia.

(pág. 23)

 

Não sabemos. E tomara que ninguém jamais descubra, para que possamos continuar perguntando.

 

A consciência individual é este milagre de cada um de nós: uma coisica minúscula, seletiva, “destamanhinho”, um pentelhésimo de micróbio: mas é tudo que temos e tudo que somos, porque nenhum ser humano até hoje conseguiu sair de dentro de si mesmo.

 

A consciência coletiva é um segundo milagre, que nos permite entender algo que alguém escreveu a dez mil quilômetros ou há quatro mil anos. O milagre que nos permite não apenas ler o que o mundo nos diz mas também escrever sobre ele. Vivemos mergulhados numa ignorância protetora, não sabemos 99% dos processos que agora mesmo estão fervilhando atarefados dentro do nosso corpo (circulação, respiração, digestão, guerra do sistema imunológico contra os exércitos insones de vírus que tentam nos fazer naufragar).

 

(...) ou

se alguém,

de volta pra casa,

uma hora depois de sair,

sentisse,

de repente,

estar... mil e setecentos quilômetros à frente,

por causa da rotação da Terra...

(pág. 69)

 

Não, não sabemos. Vivemos num casulo de individualidade que nos escuda contra “o céu que nos protege”, que nos abriga contra “o som ao redor”, que nos mantém abençoadamente ignorantes de tudo que não somos capazes de abarcar, de conter, de comportar.

 

Por isto são importantes estes registros das coisas irrelevantes da vida concreta, de toda coisinha (como dizia Augusto dos Anjos) “tísica, tênue, mínima, raquítica”, porque quem quiser que sonhe com a permanência, mas para elas a sua glória é passar.

 

(...) o que o faz ...maior que aquele da foto em que se vê Nova Iorque e seu mundo ao fundo,

entre o rastro,

n’água,

de um barco – no primeiro plano – que acaba de passar,

e o de vapor,

que ele deixou

no ar.

(pág. 79)

 

Se nossa vocação fosse a permanência e a imortalidade, a morte seria a derrota, o fracasso; mas sabemos que não é assim. A nossa vocação é a passagem. É o fluxo, é o desfile. A Arte fica, e só fica porque nós passamos. O que salva nossas alegorias é que não somos um Bloco Do Eu Sozinho, somos uma “mocidade independente” que não desfila para “a injustiça dos prêmios”, mas para não deixar o samba morrer.

 



sexta-feira, 12 de novembro de 2021

4763) Sobre a série "Fundação" de Asimov - 2 (12.11.2021)

 

A série de TV baseada na obra Foundation de Isaac Asimov (David Goyer & Josh Friedman) começou com um primeiro episódio bastante bom, mas depois foi decaindo. Vi até o quarto ou o quinto, mas parei por enquanto e fui ver outras mil coisas. A vida é curta.
 
Já falei aqui sobre as mudanças étnicas e de-gênero que a série imprimiu aos personagens de Asimov. Não vejo problemas quanto a isso. Histórias como Fundação são histórias coletivas, pretendem narrar aquilo que chamamos de “um vasto painel”, onde as individualidades surgem apenas para ocupar um espaço e exercer uma função. Nada tenho contra. É uma forma de narrar como qualquer outra.
 
O primeiro episódio me atraiu porque evoca um “tropo” narrativo clássico na literatura: a chegada de um protagonista jovem e ambicioso a uma cidade (ou um reino, uma organização, etc) onde deverá se impor, lutar, sofrer, crescer, construir seu destino.
 
A série começa mostrando o contraste entre os planetas Synnax (aquático, semeado de palafitas, envolto em misticismo) e Trantor, a sede do Império, o planeta-cidade. Trantor é o personagem principal deste episódio de abertura. A imaginação de Asimov deu um retrato variado de seus múltiplos ambientes no livro Prelúdio da Fundação, 1988. E esta série introduziu dois elementos novos por sua conta e risco, e achei que se saiu bem.



O primeiro deles é a existência de um “elevador espacial” que liga o planeta a uma estação orbital ou coisa parecida. A utilização literária desses elevadores é geralmente atribuída a Arthur C. Clarke com o livro As Fontes do Paraíso (1979), embora Charles Sheffield tivesse publicado no mesmo ano The Web Between the Worlds, com tema semelhante.
 
É nesse elevador que a jovem matemática Gaal Dornick desce na direção da superfície, ao chegar em Trantor. Ela está cheia de tensão, de euforia, de consciência do desafio em que está mergulhando. Um pouco (imagino aqui com meus botões) como Bob Dylan desembarcando em New York aos 19 anos, ou o espadachim D’Artagnan adentrando a Paris onde irá conhecer três mosqueteiros.
 
São 14 horas de descida até a superfície de Trantor (elevadores espaciais são tubos verticais com cerca de 30 mil quilômetros de extensão), e toda esta sequência inicial não passa de uma preparação para o desfecho do episódio, quando um atentado a bomba explode o elevador, fazendo o “cabo” gigantesco desmoronar e chicotear o planeta, causando uma carnificina muito maior que a queda das Torres Gêmeas.
 
Nada disto está no livro de Asimov, mas se é para interferir na história original, que seja assim, com ousadia criativa e efeitos visuais à altura. A propósito, Asimov, falecido em 1992, era um novaiorquino de coração, e se tivesse presenciado o atentado do 11 de setembro isso certamente iria se refletir na sua ficção.

 
Um artigo de Marcelo Musa Cavallari na revista Piauí de outubro passado cita um trecho da filósofa Donatella Di Cesare, em Grammatica dei Tempi Messianici, que diz:
 
“Se Deus ordenou a dispersão, a humanidade escolhe em seu lugar a concentração. Uma única metrópole, uma cidade mundial, tão grande quanto o mundo, uma cidade-mundo, marcada por uma torre que toque os céus, onde se fale uma única língua: este é o fim último, o resultado extremo do centralismo totalizante e totalitário que anima a empresa babélica.”
  
Essa contradição judaico-cristã entre dispersão e centralização está na raiz da série de Asimov, inspirada no Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon, que ele estava lendo na época. A cidade-mundo de Trantor é o centro de um império de 25 milhões de planetas. Como administrar um latifúndio destas proporções?
 
A segunda interferência de peso que ocorre neste capítulo inicial foca-se justamente no administrador-chefe, o Imperador Cleon. A série de Goyer & Friedman sugere que a dinastia imperial passou, a certa altura, a clonar o Imperador Cleon e administrar o Império através de triunviratos sucessivos em que Cleon se multiplica em três “irmãos”: Brother Dawn, Brother Day e Brother Dusk (“Aurora”, “Dia” e “Crepúsculo”), que são Cleon com aproximadamente 10 anos, 40 anos e 70 anos.



Não lembro de precedentes na literatura de FC mostrando triunviratos assim (provavelmente existem), mas a idéia funciona do ponto de vista dramatúrgico. Afinal, é o mesmo indivíduo, com a experiência acumulada dos anos, repassando para suas próprias “cópias” seus valores, seus julgamentos, suas avaliações políticas, suas estratégias.
 
Quando um “Brother Dusk” fica muito velho, entrega-se a uma eutanásia ritual, enquanto um novo clone-bebê é preparado, de modo que o império tem sempre um Imperador-ancião aconselhando o Imperador-adulto; e os dois instruindo um Imperador-criança nos segredos da governabilidade. (Que ainda será uma palavra mágica e um dogma no ano 12.000.)
 
E essa solução dramaturgicamente convincente acaba sendo um fator na ruína do Império, porque a mesmice se instaura, a dinastia “recusa-se a largar o osso” como se diz hoje em dia, e a insatisfação política dos sistemas solares da periferia acaba resultando em catástrofes como o atentado que derruba o elevador espacial.
 
Este bom primeiro episódio, contudo, mostra defeitos que vão se acentuado. Não existe uma vibração humana real por trás dos personagens, mesmo quando estão chorando, esbravejando ou discursando para multidões. Falta subtexto, ou seja, a história contada é tão vasta e complexa que mesmo quem já tem uma idéia detalhada daquele universo sente dificuldade em imaginar o que se passa naquelas cabeças.
 
Sobra para os atores, que se esforçam para impregnar de raiz humana personagens que não foram concebidos dessa forma.
 
Fundação acaba se parecendo com certas montagens teatrais de tragédias gregas: cenários monumentais onde pessoas vestindo togas compridas pronunciam frases bombásticas de braço erguido.
 
Acho que o problema é quando os autores de uma série a definem como “Um Épico de FC”. A palavra “épico” passa a se impor – e no inconsciente coletivo de roteiristas, atores, cenógrafos, etc, surgem filmes como Ben-Hur, O Manto Sagrado ou Os Dez Mandamentos.
 
“Épico”, no áudio-visual norte-americano, é isso.
 
São obras que partem da grandiosidade arquitetônica e das girândolas de efeitos visuais, e deixam por último os seres humanos. Esse é o erro. Eu vejo como “épicos” mais característicos da FC filmes tão diferentes entre si como Blade Runner (1982), Mad Max Fury Road (2015), Filhos da Esperança (2006), A Guerra dos Mundos (2005)... Em casos assim, a história humana vem na frente, e o resto, por mais dispendioso que tenha sido, é cenografia.
 
O cinema dos EUA está cansado de preconizar que o principal fator de sucesso junto ao público é: “uma história interessante acontecendo a personagens interessantes”. A identificação emocional com os personagens é uma coisa complexa, e não é tão fácil de se conseguir quanto parece. Em Fundação (Goyer & Friedman) essa identificação se perde porque uma história de proporções gigantescas fica mal-e-mal subentendida através de diálogos pomposos, e os atores e atrizes se esforçam em vão para dar densidade humana a personagens que o fim das contas são “only a pawn in their game”. 






terça-feira, 9 de novembro de 2021

4762) Seis desaparecimentos misteriosos (9.11.2021)



1
A Biblioteca Municipal “Silva Jardim”, de Iguaratuba (PA), tem duas salas conexas, ambas com estantes, mesas e cadeiras. Cada sala comporta no máximo 16 leitores sentados. Um garoto de 15 anos desapareceu da sala interna, quando não havia ninguém mais com ele. Esta sala tem apenas a porta de comunicação com a sala externa, e cobogós de ventilação, estreitos, a dois metros de altura. A sala externa se comunica com uma pequena cozinha e banheiro, além de ter duas portas para a rua principal da vila. Ali trabalha a bibliotecária em sua escrivaninha. D. Dolores Furtado, 43 anos, funcionária pública, que cuida da biblioteca há oito anos. Segundo ela, havia um grupo de jovens na sala interna, fazendo trabalhos escolares, quando chegou Domício Eleandro da Rocha, 15 anos, pediu um livro e sentou sozinho numa mesa da sala interna. Morava perto dali, e era frequentador habitual. Meia hora depois, o grupo retirou-se. Poucos minutos após a saída deles, ela olhou pela porta e viu o rapaz mergulhado na leitura, e as outras mesas vazias. Na sala externa, onde ficava a escrivaninha dela, havia apenas uma mesa ocupada. “Era segunda-feira, véspera de feriado, dia imprensado”, explicou ela, para justificar o pouco movimento. Meia hora depois, ao olhar de novo a sala interna, percebeu que estava vazia. Não havia a menor possibilidade do rapaz ter saído sem ser visto por ela ou pelas outros leitores da sala externa. O livro que ele pediu foi deixado em cima da mesa. Isto aconteceu há seis anos, e não se teve mais notícias do rapaz.
 
2
Em 1961, na Cidade do México, uma paciente de 60 anos, a sra. María Rosa de Burgos, foi hospitalizada com anemia e esgotamento nervoso. Deu entrada no fim da tarde, foi medicada e posta a dormir num apartamento particular do Hospital de Las Mercedes, enquanto sua filha Carmela voltava para casa a fim de buscar objetos pessoais. Durante cerca de 45 minutos a paciente ficou sozinha, sem a companhia de qualquer outra pessoa, embora a porta do quarto ficasse no começo do corredor, bem à vista da enfermeira-chefe por trás de seu balcão. Após a saída da filha ninguém se aproximou da porta até que uma das enfermeiras foi ver se estava tudo bem, e no lugar da paciente encontrou uma bebê de poucas semanas de vida, febril, sem fraldas, sem qualquer sinal de identificação. D. María de Burgos jamais foi vista novamente. A bebê desenvolveu uma infecção no dia seguinte e logo faleceu. Na época, não existiam as tecnologias genéticas de identificação. Não se sabe de onde veio a menina, nem para onde foi a paciente idosa.
 
 
3
A srta. Meriane Burgos Quinderé, 52 anos, 1,68m de altura, 85 kg de peso, solteira, desapareceu da casa de praia de sua irmã Valquíria, no litoral de Cascatinha (ES), num sábado à tarde. A casa, onde havia seis pessoas, ficava meio isolada em relação às casas mais próximas, mas permanentemente sob a vista do sentinela do forte histórico de Três Nações, a menos de trinta metros. Naquele dia, a família toda foi à praia, e voltou para casa para o almoço. D. Meriane, de maiô e calçando sandálias havaianas, entrou no banheiro principal para tomar banho e trocar de roupa. Notando a sua demora depois de vários minutos, a família chamou em vão e depois arrombou a porta. Foram encontrados no banheiro o maiô que ela usara no banho de mar, as sandálias com que viera, e a muda de roupa (dobrada, não mexida) que trouxera para vestir depois do banho. O banheiro tinha apenas a porta que foi arrombada e uma estreita janela com basculante, para ventilação, janela esta voltada na direção do Forte, cujo sentinela garantiu que não viu ninguém sair por ali, muito menos uma senhora sem roupa alguma. Mesmo diante da improbabilidade dessa hipótese, um dos sobrinhos da desaparecida conseguiu içar-se até a janela para tentar sair por ela, mas ficou preso na passagem e acabou caindo e quebrando o braço. A família ofereceu uma sólida recompensa a quem trouxesse informações, mas de nada adiantou.
 
4
Na noite de 3 de maio de 1997, um carro se deteve na cancela de acesso ao Condomínio “Sonho Azul” na Estrada do Joá (Rio de Janeiro). O guarda que abriu a portinhola notou que o motorista estava sozinho, era um homem corpulento, de rosto largo, trajando paletó, e que aparentava estar chorando. O homem anunciou: “Casa oito, Dra. Freitas”. O vigia pegou o interfone e maquinalmente ligou para a casa oito, e quando não teve resposta lembrou-se que a casa 8 estava fechada há dois meses. Quando olhou novamente, o carro estava vazio, e uma fila de veículos recém-chegados já começava a se formar por trás dele. O segundo vigia, que saíra para fumar a alguns metros dali, garantiu sob juramento que ninguém havia deixado o automóvel, que continuou com o motor ligado e as luzes acesas. Seguiu-se uma certa confusão até que alguém tomou a providência de desviar o carro para que os demais automóveis de moradores e visitantes pudessem entrar. O homem que dirigia o carro (alugado poucas horas antes na locadora Hertz do Leblon, sob um nome que se comprovou falso) nunca mais foi visto. Representantes da administração do condomínio informaram às autoridades que a casa oito estava desocupada há várias semanas depois que a única moradora, uma médica aposentada, se enforcara no terraço.
 
 
5
O voo 1146 da Southwest Airlines entre Austin (Texas) e Miami (Flórida) decolou no dia 14 de fevereiro de 1973 com 84 pessoas a bordo. O voo foi sem escalas e tranquilo, com pequenas turbulências ocasionais, comuns na região próxima ao Golfo do México. Depois que todos desembarcaram, as comissárias perceberam nos porta-bagagens as bolsas e sacolas de duas passageiras, mãe e filha, que vinham sentadas juntas numa das últimas fileiras. Ninguém se lembrava de tê-las visto desembarcar, embora uma das atendentes tivesse trocado algumas frases com elas durante o voo. As bolsas de ambas estavam com documentos, carteira de dinheiro e objetos de uso pessoal. Elas eram a sra. Millicent Hopkins, 60 anos, e sua filha Nathalie, de 31, que iam comparecer ao aniversário de um parente. Pessoas da família que estavam à sua espera em Miami pressionaram por todos os meios a companhia aérea, a polícia revistou o avião de ponta a ponta. As duas senhoras Hopkins jamais foram vistas novamente, e a companhia abafou o caso.
 
 
6
Em 8 de julho de 1972, após uma reunião no Sindicato dos Gráficos de Ribeirão Preto (SP), onde se decidiu pela manutenção da greve da categoria, que já vigorava há duas semanas, o sindicalista Pedro Faustino Gitarelli, 42 anos, residente em São Paulo, despediu-se dos companheiros à 01:30 da madrugada. Embora o hotel onde se hospedara naquele dia estivesse a poucos quarteirões de distância, os colegas o aconselharam a tomar um táxi, devido ao adiantado da hora. Ele embarcou num táxi estacionado nas proximidades, cuja placa não chegou a ser anotada. O hotel não registrou seu retorno nesse horário. Um parente veio, dias depois, recolher sua mala e objetos pessoais. Pedro Faustino nunca mais foi visto, nem se tem notícias do seu paradeiro.
 
 




sábado, 6 de novembro de 2021

4761) Eu me lembro - 23 (6.11.2021)



1.

Eu me lembro dos “jornais da festa”, que eram pasquins em formato tablóide, ou menor ainda, vendidos em Campina durante as festas de fim de ano. Cheios de propagandas pagas, de boa vontade, pelo comércio local, porque as tiragens eram grandes e todo mundo passava os jornais de mão em mão. Os que eu mais gostava eram “O Detetive” e “O Disco Voador”, por motivos óbvios, mas também lembro de “O Oião”, que tinha a imagem de um olho enorme. Ainda lembro de cor um versinho de pé-quebrado que fizeram com meu pai: “Nilo Tavares / parecendo o satanás / paletó lascado atrás / na festa”. Era a moda dos paletós com um corte vertical na parte traseira, que em Campina, evidentemente, dava origem a todo tipo de piada impublicável. E lembro uma décima que fizeram mangando de Zé da Guia, funcionário dos Correios e Telégrafos: “Ó monstro da estratosfera / ó sacatrapo de angola / ó boitatá, tatu-bola / ó cara de besta-fera / se Satanás que te espera / de ti não der logo cabo / há de dizer: ó quiabo, / Zé da Guia do Correio / é um bicho muito feio / termina criando rabo!”.


2.

Eu me lembro que quando conheci os gêmeos Rômulo e Romero Azevedo toda a nossa conversa era um desfilar ininterrupto de informações e todo tipo de detalhes sobre cinema, e eu ficava fascinado porque até então (eu tinha 16 anos, eles 14) nunca tinha conhecido ninguém que fosse mais nerd do que eu. Eles falavam alternadamente; quando um fazia um ponto-parágrafo e respirava, o outro pegava a frase no ar e prosseguia. E sabiam tudo de cor (ainda sabem). Naquele tempo os telefones em Campina Grande tinham quatro algarismos. O da minha casa era 3666, e eles disseram: “Eita, é a tripla Besta do Apocalipse”. Eu perguntei: “E o de vocês?” Um deles respondeu: “Um Cão Andaluz e O Manto Sagrado”. Precisei de alguns segundos para deduzir que era 2853.

 

3

Eu me lembro que com uns oito anos de idade eu gostava muito de desenhar, e tia Adiza me dava de presente cadernetas, e uns livros-razão de contabilidade, sem utilidade, cheios de páginas em branco. Uma vez eu peguei uma dessas cadernetinhas de bolso, onde há um quadrado referente a cada dia do ano, e onde tinha o anúncio de um feriado eu fazia a ilustração correspondente. “Carnaval” – eu fazia um palhaço, as curvas das serpentinas, os pontinhos dos confetes... “Descobrimento do Brasil” – eu rabiscava mal e mal uma caravela, com as velas enfunadas e uma cruz na vela grande. Aí embatuquei, porque chegou um feriado cujo nome era: PENTECOSTES. O que diabo será isso? Depois de muito pensar, desenhei um cara barbudo, com chapéu de cowboy, pendurado numa forca. Alguém viu aquilo e me perguntou por quê, e se eu sabia o que era “Pentecostes”. E eu respondi: “Isso parece o nome de um ladrão de cavalos”.

 

4

Eu me lembro do meu primeiro relógio de pulso, que era da marca “Lanco” e tinha ponteiros luminosos. Fiquei tão entusiasmado com esse pequeno prodígio científico que durante meses mantive o costume de, deitado para dormir, no quarto escuro, olhar o mostrador por baixo das cobertas, a todo instante, para ver se ele ficava aceso mesmo. Depois, já com mais de 20 anos, tive um da marca “Fortissimo”, cujo grande charme, a meu ver, era a ausência de acento agudo, o que o transformava aos meus olhos em relógio importado. Se brincar, ainda deve estar guardado, sem pulseira, em alguma das minhas caixas de traquitanas.

 

5

Eu me lembro que em 1968, o auge dos Beatles, a gente se reunia na casa de Jakson e Marcos Agra para ouvir um programa na BBC de Londres. Ouvir rádios estrangeiras era uma prática comum naquele tempo, porque, como diziam alguns locutores, “música não tem idioma e a arte não tem fronteiras”.  Eu sabia que a BBC era uma rádio londrina, mas era tão abestalhado que ficava surpreso com o fato de eles se darem o trabalho de ocupar um horário inteiro com um programa em português chamado “Iê-iê-iê na BBC” – na minha cabeça a BBC era uma rádio como a Rádio Borborema, tinha somente um canal de transmissão. Lembro da noite em que nos reunimos todos para acompanhar a primeira audição do “Álbum Branco” dos Beatles, lançado naquele dia. Era uma novidade atrás da outra, e a certa altura o locutor disse: “E agora uma canção de George Harrison, intitulada ‘Meu Violão Chora em Surdina’”, e eu pensei: “Vige que título cafona”.

 

 

 

 






quarta-feira, 3 de novembro de 2021

4760) A literatura fantástica no "Sgt. Pepper's" (3.11.2021)



Uma vez eu estava discutindo com uma turma sobre a enorme reviravolta que a ficção científica experimentou na década de 1960, na Inglaterra e nos EUA. Na Inglaterra houve principalmente o surgimento da revista vanguardista New Worlds, dirigida por Michael Moorcock, que divulgou a obra de autores importantes como Brian Aldiss, J. G. Ballard, Christopher Priest, M. John Harrison, John Sladek, John Brunner, Tomas M. Disch...
 
Comentei: “A FC estava presente em tudo, no cinema inglês, na cultura pop...”  E proferi a frase impensada, comprometedora: “A capa do Sgt. Pepper’s, dos Beatles, está cheia de escritores de ficção científica”.
 
Foi uma afirmação intuitiva, baseada na memória inconsciente, mas o rigor acadêmico me obriga a aboná-la com a observação empírica. A lista abaixo interpreta o termo “escritores de FC” no sentido mais amplo possível, incluindo personalidades cuja obra teve e tem algum tipo de influência no gênero, seja a influência pervasiva e difusa das grandes idéias, seja o contato com algum ícone específico.



Edgar Allan Poe (*) é um dos mais visíveis, até por estar bem no centro da fileira do alto. Poe é uma das figuras mais universais da literatura em inglês, todo adolescente leu alguma coisa dele. Do ponto de vista temático, está mais próximo dos gêneros “policial” e “horror”, mas ninguém questiona a importância que suas idéias tiveram para a FC. Escreveu sobre viagens de balão, viagens à Lua, o mito da Terra Oca, mesmerismo, hipnose, animação suspensa, fendas  temporais... Seu nome é citado por John Lennon na letra de “I Am the Walrus”.




Ao lado de Poe, na capa do disco, aparece o psicólogo Carl G. Jung. Suas teorias sobre arquétipos, sonhos e alucinações controladas, inconsciente coletivo e simbolismo influenciaram não apenas a literatura do mainstream mas também a literatura fantástica ocidental (Philip K. Dick era grande leitor de Jung). E coube a ele uma das mais detalhadas explicações psicológicas sobre o fenômeno dos discos voadores (Flying Saucers – A Modern Myth of Things Seen in the Skies, 1964).



Ainda na fila do alto, entre as figuras da capa do disco, o segundo personagem da esquerda para a direita é Aleister Crowley, o famoso mago inglês que durante décadas aprontou rituais escandalosos de ocultismo e magia ritual nas Ilhas Britânicas e fora delas (em Lisboa, envolveu-se num episódio bizarro com Fernando Pessoa, numa história que até hoje não foi bem contada). Chamava a si mesmo “A Besta do Apocalipse” (outros o chamaram “O Besta do Apocalipse”) e influenciou gerações de escritores de romances fantásticos. Somerset Maugham o usou como modelo para o tenebroso Oliver Haddo, o vilão de O Mágico (1908). Também influenciou inúmeros roqueiros crédulos, de Jimmy Page a Raul Seixas.



Na segunda fila de baixo para cima temos um peso-pesado, Aldous Huxley (*), o autor de clássicos como Admirável Mundo Novo, A Ilha (ficção utópica), O Macaco e a Essência (futurismo absurdista?) e outros. Huxley estava no auge de sua fama póstuma (morreu em 1963) quando o álbum saiu.

 

Logo em seguida, um pouco mais abaixo, aparece Dylan Thomas, o maior poeta do País de Gales e um dos maiores da língua inglesa. Uma parte menos conhecida de Thomas é sua prosa, embora o Retrato do Artista Como Jovem Cão (1940), uma brilhante coletânea de contos semi-autobiográficos, seja reeditada com frequência. Thomas escreveu numerosos contos de índole onírica, ocasionalmente macabra ou fantasmagórica. Uma boa seleção deles é The Collected Stories (New York: New Directions, 1984).

 

E logo ao lado dele temos a figura de Terry Southern, cuja interface mais notável com a ficção científica é o roteiro que fez para o Dr. Fantástico (1964) de Stanley Kubrick. Ao que se comenta, o romance original (de Peter George) era sério e com final otimista. Coube a Southern ajudar Kubrick na criação de um roteiro histérico, satírico, iconoclasta e de final comicamente apocalíptico. Era essa a praia de TS, que depois teve também alguma participação no roteiro de Barbarella (1968) de Roger Vadim.



Mais adiante nessa mesma fileira, intrometendo-se sobre a sobrancelha de Marilyn Monroe, está o inquestionável William S. Burroughs (*), autor de Naked Lunch (1959). A ficção de Burroughs é uma mistura de experimentalismo da vanguarda, delírio surrealista com forte viés alucinógeno (poucas pessoas escreveram sobre drogas com tanta franqueza e conhecimento de causa) e pulp fiction espacial absorvida na adolescência. Neste último aspecto, ele é uma influência reconhecida por William Gibson, J. G. Ballard, Philip K. Dick e outros.



Outro inquestionável, quase no fim dessa fila, no lado direito, é H. G. Wells (*), um autor que dificilmente deixaria de ser lido por jovens ingleses imaginativos como Lennon e McCartney principalmente. (Dizem que na elaboração das listas de sugestões para a capa desse álbum George Harrison se limitou a indicar alguns gurus indianos, e Ringo Starr disse: “O que vocês botarem eu concordo." )



Descendo um pouco e indo para a esquerda, aparece outro nome de peso, Oscar Wilde. É o criador de um dos fantasmas mais simpáticos do gênero terrorífico, o protagonista de O Fantasma de Canterville, que já traduzi para a Casa da Palavra, com as belas ilustrações de Romero Cavalcanti. E Wilde criou uma das mais poderosas imagens do “duplo” na literatura com o clássico O Retrato de Dorian Gray (1891), a brilhante narrativa decadentista de um indivíduo que é capaz de desviar a velhice, as doenças, os males do corpo, para um ponto afastado de si (a pintura que o retrata).



Por cima da cabeça de Ringo Starr aparece esse rapaz que nunca foi autor de ficção-científica, mas está aí simbolizando (para mim) um clássico do gênero. Johnny Weissmuller foi um dos melhores Tarzans do cinema, e certamente um ídolo da geração dos Beatles, que estão 1 degrau geracional acima de mim (9-10 anos em média). Ele nos faz lembrar, é claro, do grande Edgar Rice Burroughs, cujos livrinhos da Coleção Terramarear devorei na juventude; ainda tenho alguns deles, os mesmos exemplares comprados por volta de 1964, 1965, quando as guitarras da beatlemania já soavam em nossos ouvidos. Vale lembrar também que o autor foi o criador das aventuras marcianas de John Carter, que são pura FC pulp.



E chegamos finamente ao lado direito com Lewis Carroll (*), o autor das Aventuras de Alice no País das Maravilhas / Alice através do espelho. Aqueles livros que sobrevivem a qualquer adaptação para o “público infantil”. São literatura fantástica, isso ninguém pode negar; e como Carroll era um grande conhecedor e investigador da Matemática e da Lógica, seus livros são cheios de adaptações de postulados, teoremas, leis ou mecanismos dessas disciplinas das quais as Ciências da Matéria tanto necessitam.
 
Muito bem, então. Talvez a capa não esteja “cheia de escritores de ficção científica” propriamente ditos. Dos onze personagens listados acima, apenas cinco aparecem na The Encyclopedia of Science Fiction, e estão assinalados com um asterisco (*). Os demais, nos entanto, alargam, aos meus olhos de leitor, o universo cultural de onde brotaram esses quatro rapazes. Quando peguei no vinil de Sgt. Pepper’s pela primeira vez, nem Bob Dylan eu sabia quem era. Rastrear essas figuras me levou uma vida inteira, e só consegui neste século graças à Beatles Encyclopedia de Bill Harris (Hyperion, 1993) e à Wikipedia. Os Beatles, nessa capa, criaram uma constelação temática que ilumina o próprio conceito de FC.
 



 
 






sábado, 30 de outubro de 2021

4759) A mescalina de Jean-Paul Sartre (30.10.2021)



 

Um dos livros mais conhecidos sobre a questão das drogas alucinógenas e das chamadas viagens psicodélicas é As Portas da Percepção (“The Doors of Perception”, 1954) de Aldous Huxley. Este livro geralmente é publicado em conjunto com O Céu e o Inferno (“Heaven and Hell”, 1956), que é uma espécie de continuação; são dois textos curtos, complementares.
 
A experiência de Huxley ficou famosa, em grande parte, pelo respeito de que o escritor era cercado em vida. Huxley vinha de uma família ilustre de cientistas e literatos, e era considerado um dos grandes intelectuais de seu tempo. Um romancista de idéias, algo bem típico da literatura inglesa; muito respeitado e muito acompanhado pela imprensa.
 
Muitos livros seus já foram traduzidos no Brasil: Contraponto (edição original, 1928), Sem Olhos em Gaza (1936), O Macaco e a Essência (1948), O Gênio e a Deusa (1955), A Ilha (1962), Também o Cisne Morre (1939), A Arte de Ver (1942) e outros.
 
Ele havia abordado a questão das drogas em seu romance clássico Admirável Mundo Novo (“Brave New World”, 1932) em que sugeriu que as sociedades totalitárias do futuro não recorreriam à violência (muito desgastante), mas às drogas apaziguadoras. Em resumo, ele propunha substituir o chicote pelo chiclete. Basta olhar em volta e a gente percebe que funciona. (Huxley imaginava a droga sendo produzida e administrada pelo Estado, e não previu o modo bestial como ela de fato se instalou entre nós; mas não se pode prever tudo.)
 
Huxley voltou ao tema depois, com o romance utópico A Ilha (“Island”, 1962), em que as drogas eram usadas de forma igualmente utópica, ou seja, como um caminho para a transcendência. Talvez seja aqui que ele aplicou de movo mais organizado as suas observações e conclusões após sua experiência com a mescalina, feita em maio de 1953 na sua casa na Califórnia (ele era um inglês “transplantado” para os EUA), na companhia de sua esposa Maria e do psiquiatra Humphry Osmond.
 
Essa experiência mostra bem o lado apolíneo de Huxley, um intelectual sério, metódico, humanista, de cabeça aberta a novas idéias mas sempre com uma tendência britânica ao formalismo social e à necessidade de tornar cada experiência pessoal sua algo útil para a comunidade acadêmica e para a espécie humana como um todo.
 
A experiência de Huxley foi precedida por tentativas de muitos outros escritores. O poeta Antonin Artaud provou a mescalina (e não só ela) nos tempos em que andou pelo México.
 
O escritor Henri Michaux foi outro que experimentou as viagens lisérgicas, e seus escritos deram origem a um filme importante, Images du Monde Visionnaire (1964, 34 minutos), dirigido por Eric Duvivier.  O filme procura reproduzir certos efeitos visuais subjetivos, o que não é nada fácil. (Lembro de um amigo cineclubista que dizia: “Infelizmente, você não pode fazer uma câmera sentir o efeito do LSD.”)
 
Michaux se decepcionou um pouco e disse que mesmo num filme com enormes recursos técnicos e muito dinheiro isso seria impossível:
 
As imagens teriam que ser mais deslumbrantes, mais instáveis, mais sutis, mais mutantes, mais intangíveis, mais trêmulas, mais atormentadas, mais retorcidas,  infinitamente mais carregadas, mais intensamente belas, mais aterrorizantemente coloridas, mais agressivas, mais idiotas, mais estranhas.
 
O filme pode ser visto aqui na UbuWeb (“o YouTube da Vanguarda”):
 
https://www.ubu.com/film/michaux_images.html
 
Uma experiência que acho importante para a literatura, mas que não é tão comentada quanto a de Huxley, é a de Jean-Paul Sartre, que com menos de 30 anos e ainda escritor inédito fez-se administrar mescalina em 1935, no centro hospitalar universitário Saint-Anne, onde o próprio Antonin Artaud foi paciente durante algum tempo.
 
Sartre tomou a mescalina na companhia de seu colega, o Dr. Daniel Lagache. (É curioso que, tal como fez Huxley, nos momentos de maior solenidade conceitual, o pessoal da ficção gosta de se fazer acompanhar do pessoal científico.) Na época ele estava estudando “a fenomenologia da imaginação”, e os efeitos da droga fizeram-se sentir durante meses. Ele experimentou surtos da “sugesta” (paranóia de estar sendo seguido, de ver monstros, etc.).
 
O pequeno mas útil Sartre: Vida e Obra (José Álvaro Editor, 1967) de Luiz Carlos Maciel refere esse episódio. Acho que foi também nele que vi uma menção curiosa: Sartre tinha alucinações em que via a cabeça gigantesca de um gorila espreitando-o na janela do apartamento onde morava. A ser verdade, imagino que se tratasse de um eco do filme King Kong (1933), sucesso daquela época. 
 
Esta experiência psicodélica coincidiu com os anos de elaboração de A Náusea (1938), seu livro de estréia. O livro tem como protagonista e narrador o escritor Antoine Roquentin, que, passando por uma crise, começa a ter a percepção muito intensa de que as coisas que o cercam existem independentemente de estarem sendo percebidas pela sua consciência. (A maioria das pessoas admite isso como verdadeiro, mas muito poucas o sentem.)
 
Roquentin caminha pela cidade e contempla os passeios dominicais dos pequeno-burgueses de Bouville, a cidadezinha onde está morando. Vê seus rituais pomposos, suas roupas, suas conversas banais, e tem a sensação apavorante de que tudo aquilo é um mundo de mentira, de cenografia, de encenação, uma espécie de “matrix” ou de “truman-show” cuja irrealidade só ele percebe.
 
Enraivecido, ele tem vontade de agarrá-los, sacudi-los, fazer com que percebam a Existência crua, muda, indiferente à consciência humana, por baixo de tudo aquilo. O impulso do personagem se alimenta da bad trip do autor:
 
E se alguma coisa acontecesse? (...) Pode ocorrer a qualquer momento, talvez agora mesmo; os presságios são visíveis. Por exemplo, um pai de família pode sair para passear e avistar na calçada alguma coisa como um trapo vermelho, sendo arrastado pelo vento. E quando esse trapo estiver bem próximo, ele vai ver que é um pedaço de carne apodrecida, suja de poeira, que avança aos rastos, aos pequenos pulos, um pedaço de carne torturada que rola pela sarjeta expelindo jatos de sangue. Ou então uma mãe irá olhar a bochecha de uma criança e dirá: “Mas o que é isto... uma espinha?”, e verá como aquela carne incha, e se racha, e se abre, e de dentro daquela fenda brota um olho, um olho que parece estar rindo. Ou então as pessoas sentirão algo que parece uma carícia roçando seus corpos, como aqueles juncos que na água dos rios acariciam os corpos dos nadadores. E perceberão que suas roupas são criaturas vivas. E outro indivíduo vai perceber que dentro de sua boca há uma coisa que a arranha. E se aproximará do espelho, abrirá a boca: sua língua terá se transformado numa enorme centopéia viva, que agita as patas e arranha o seu céu-da-boca. Ele tenta cuspi-la para fora, mas a centopéia é uma parte do seu corpo, e ele terá que arrancá-la com as próprias mãos. E começarão a surgir coisas por toda parte, coisas para as quais será preciso inventar novos nomes: o olho de pedra, o grande braço tricorne, o artelho-muleta, a aranha-mandíbula.
(Capítulo “Mardi à Bouville”, trad. BT)
 
A Náusea é geralmente considerada como um ataque violento à pequena burguesia francesa do entre-guerras, ou como uma ilustração romanceada de algumas proposições filosóficas dos existencialistas. Acho que tem também um lugar dentro da literatura sobre os efeitos das drogas e a exploração literária dos estados alterados da consciência. Um romance que ajudou a desbravar uma trilha por onde avançariam, anos depois, autores como William Burroughs, Hunter Thompson e Philip K. Dick.
 

 








quarta-feira, 27 de outubro de 2021

4758) Videogames, o cinema do futuro (27.20.2021)



Dias atrás tive um excelente papo online, de mais de duas horas, com o jornalista e professor Rômulo Azevedo e a jornalista e pesquisadora de cinema Maria do Rosário Caetano. Os dois são meus amigos de longa data, e foi um papo descontraído (e desconstruído) sobre a “Sétima Arte”.
 
Para quem se interessar, o link está aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=-ngq81cUEEk
 
No final, Rômulo contou uma das muitas histórias impagáveis da família dele (e de seu irmão gêmeo Romero). Os dois viraram cinéfilos, porque o avô e o pai eram donos de cinema em Santana do Ipanema, em Alagoas.
 
Quando o avô inaugurou o Cine Ipanema, naquele próspero município sertanejo, a população compareceu em massa na primeira noite. E na segunda. Só que na segunda Seu Zé em vez de entrar e ver o filme que trouxera, ficou fumando na calçada. Aproximou-se um conhecido:
 
– Oxente, Seu Zé!  O cinema é seu, e o senhor não vai ver o filme?
 
– Já vi ontem.
 
– Mas hoje o filme é diferente. Ontem foi um faroeste, hoje não é um filme policial?
 
– E então? Não é a mesma coisa? Uns caba correndo, dando tiros uns nos outros...
 
A história está completa aqui, no blog de Romero: https://memoriacineipanema.blogspot.com/
 
(Ser gêmeo tem essa vantagem – enquanto um fala, o outro escreve.)
 
A visão simplista do avô dos gêmeos sempre me pareceu hilária. Porque corresponde à visão primitiva que os próprios irmãos Lumière, inventores do cinema, tinham sobre essa maquininha de imaginar. Para eles, a máquina em si era o mais interessante. O fato de ela poder mostrar as pessoas correndo e dando-tiro umas nas outras. O assunto em si não tinha interesse nenhum.
 
Quem eram aquelas pessoas? Por que se perseguiam umas às outras? Por que davam tiros? Quem matou? Quem morreu? Ora, tanto faz.
 
O tempo mostrou como os Lumière estavam enganados. Tão enganados quanto Thomas Edison, seu concorrente na América. (Edison tinha inventado um cinema onde as pessoas botavam o olho no visor de uma maquininha e o filme passava lá dentro.) 

Edison não inventou o cinema, mas inventou o disco de vitrola – e achava que aquela voz gravada serviria para ajudar no estudo de idiomas. Não lhe passou pela cabeça que dali surgiria a indústria trilionária da canção popular.
 
É a velha história – a gente semeia vento e colhe energia eólica.
 
Existe algo parecido, agora em 2021, com a indústria dos videogames. Porque eu acho que o videogame está para o século 21 assim como o cinema estava para o século 20. A mesma explosão tecnológica, a mesma rapidíssima evolução ao longo das primeiras décadas. E a mesma incompreensão – porque os adultos pensam que aquilo é diversão de adolescentes, e porque os intelectuais pensam que é diversão de gente burra. Pode ser. Mas é a arte do futuro.
 
O escritor Tom Bissell, um aficionado, diz que a linguagem e a técnica do videogame evoluíram, no decorrer de vinte anos, “das inscrições rupestres à Capela Sistina”. Nem mesmo o cinema evoluiu tão depressa (em vinte anos, foi de Méliès a Griffith, o que não deixa de ser também uma façanha). 

 
Qual é o problema com os videogames? Para mim é simplesmente desinformação. E o desdém, o menosprezo, que essa desinformação acarreta.
 
As pessoas pensam que videogame é “uns caba correndo e dando tiro uns nos outros”. A mesma idéia que Seu Zé Francisco tinha sobre os filmes que exibia em seu cinema. Isso é muito irônico, quando pensamos que o mundo dos games é tão variado quanto o do cinema. Como explicar a uma pessoa que na vida só viu meia dúzia de “filmes de carro explodindo” que existem, além desses, filmes contando histórias de amor?  E filmes engraçados? E histórias de dramas familiares? Ela não vai acreditar.
 
Os videogames criaram um conjunto formidável de técnicas narrativas, todas elas baseadas na alternância entre “material pronto” e “material interativo”. A interatividade é o seu pulo-do-gato. O videogame é um filme semi-pronto onde você penetra, e onde quem faz o filme andar é você.
 
Todo mundo tem obrigação de gostar disso? Não. Assim como ninguém tem obrigação de gostar de Stanley Kubrick ou de Oscarito. O que acontece é que sempre tem gente pra gostar de alguma coisa, e também o fato incontestável de que a cada geração que surge o interesse pelas “Artes Interativas” é maior.

 
Aqui no blog já publiquei uma série de “sinopses fictícias” para tentar mostrar que variados universos literários e cinematográficos, já existentes, podem servir de inspiração para a criação de videogames. Com histórias onde possam aparecer eventualmente cenas de luta ou de batalha, mas que isso não impede a criação de tipos humanos, a profundidade psicológica, o retrato de um meio social...
 
O cinema fez esse trajeto. Por que o game não poderia fazê-lo?
 
CyBorges:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/02/2477-cyborges-game-1122011.html
 
Macondo, The Game:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/11/2727-macondo-game-30112011.html
 
Grande Sertão: The Game:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/04/2541-grande-sertao-game-2742011.html
 
…e outros. As possibilidades, como sempre, são infinitas.