domingo, 5 de agosto de 2012
2942) Pergunte não, bróder (5.8.2012)
(Louise Bourgeois)
“Sabe por quê? Porque quem menos pergunta mais vive. Perguntar é acender uma luz, e depois que essa luz acende ela fica acesa, e quando quiserem saber quem foi que acendeu, foi você. Está tudo lá. Pergunte não. É a luta entre a Nova Ordem Mundial e o Comando Universal dos Sete Poderes. Deduza, porque é melhor ficar vendo as ondas baterem nas rochas – ou outra metáfora, desde que seja essa a idéia. A idéia é que depois que a onda bate mil vezes na rocha você sabe como se comporta uma, e sabe que a outra pode surpreender. Pense nos bastidores das reuniões de cúpula nos hotéis sete estrelas (sim, existem!), nos conciliábulos madrugada adentro em salas à prova de gravação. A gente nunca pode tocar no assunto. É briga de espantar cachorro grande, altas corporações sem registro, governos transnacionais... Não, é melhor fazer de conta que não está lá. O problema (a solução) é que tanto quanto nas conferências em carne-e-osso quanto nas conferências web-online é sempre possível alguém ver sem ser visto, ficar sabendo sem ser percebido, colher as informações de que precisa sem que ninguém ao seu redor tenha a mais remota idéia de que aquela pessoa está ali com aquela finalidade. Os monstros, as aberrações, o barroquismo teratológico, tudo isso são bois de piranha para sorver a atenção alheia. Os verdadeiros Funcionantes estão indo direto onde importa, onde resulta, onde se traça e cristaliza o wireframe do futuro, e o resto é vinheta. Pergunte não. Pense numa conveniência de não perguntar! Tu quer ser o que? Um sem-teto sem-noção oferecendo rolete de cana aos membros da Guarda Vermelha durante o desfile militar de Pyong Yang? Desinfeta, véi! Os Lordes nem sabem que tu existe. Não precisa temer os Lordes. Quem existe pra cuidar de gente como tu são os Executores, da Divisão Tática do Departamento Estratégico (no Comando da Ordem Mundial) ou os agentes do Ministério do Know-How, da Central de Segurança dos Sete Poderes. Quem vai deletar você é o equivalente ao segurança do estacionamento do estádio de um time da Série D. Os Lordes seguirão suas vidas de ozimândias, de sibaritas high-tech. Não pergunte quem são os Lordes. Os Lordes são consequência de você, eles existem financiados pelo seu trabalho e pela sua ignorância monitorada via Internet e TV. Vá trabalhar, vá ver futebol, vá votar. Pergunte não, porque se alguém soubesse a resposta a essa pergunta deletaria essa resposta pelo bem da Humanidade. Quando chove canivete careca não vai à praia. Esqueça que o mundo existe, e o mundo esquece que você sabe ver, sabe ouvir, sabe falar. Pergunte não.”
sábado, 4 de agosto de 2012
2941) Nem todo elogio (4.8.2012)
Há quem venda a alma
e alugue o corpo por um elogio, mas um elogio pode nos trazer mais desgostos do
que satisfação. Nem vou falar no elogio que ilude ainda mais um iludido:
“Fulaninha, seu disco é ótimo, acho que tem tudo a ver você copiar a voz, o
cabelo e os arranjos de Amy Winehouse!”
Fulaninha embarca na conversa e dá com os burros nágua. Não, estou me
referindo a outras ramificações dessa arte tão escorregadia, a arte de falar
bem, tão complexa quanto a de falar mal.
Existe o elogio
equivocado, aquele que em que o crítico ou o amigo não entendeu absolutamente o
que você fez, e o elogiou por imaginar algo diferente. Ocorre muito quando a gente usa a
ironia. Um texto é lido por pessoas de
diferentes visões estéticas, políticas, etc. Às vezes a gente publica uma coisa
sarcástica, e surge alguém que leva o texto ao pé da letra e acha aquilo maravilhoso.
Um tipo que me
incomoda é o elogio que aproveita para falar mal de terceiros, ainda mais se
são meus amigos. “O livro de BT é infinitamente melhor do que as medíocres
tentativas de A, B ou C...” É o que
basta para o alfabeto inteiro ficar com raiva do meu livro. E muitas críticos
só sabem criticar assim, por exclusão – algo só é bom ao ser comparado a outra
coisa que o crítico acha ruim (e que ele às vezes não percebe ser bem melhor
que a obra que elogiou).
Nem deveria falar do
elogio sem substância, o elogio que nada diz a não enfileirar adjetivos, mas
esta é uma praga que parece residir no tipo de tinta usado na imprensa, então
cumpre combatê-la. Publico um conto, o
crítico X diz apenas que é “instigante, envolvente”. Já o crítico Y diz que é
“uma mistura, que não deu certo, da temática de Henry James com a prosa de
Machado de Assis”. Este último, mesmo não gostando, talvez tenha me mostrado
algo que eu não tinha percebido.
Existe um certo tipo
de elogio interesseiro que todos nós praticamos, conscientemente ou não. Consiste em louvar a brasa alheia trazendo-a
para perto da nossa sardinha. Faço um
mea-culpa, por exemplo, no que diz respeito à literatura fantástica e à FC. Muitas
vezes nós, militantes destas duas excentricidades, acabamos elogiando uma obra
que nem é tão boa assim, mas que nos parece boa porque vemos nela o mesmo tipo
de “persuasão” que cultivamos. O elogio é interesseiro porque não nos interessa
tanto o valor daquela ovelha desgarrada, o que queremos na verdade é engrossar
nosso rebanho.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
2940) Chris Marker (3.8.2012)
Faleceu dias atrás, aos 91 anos, o cineasta Chris
Marker, o autor de La Jetée,
talvez seu filme mais conhecido. Mesmo
na tribo dos cinéfilos há muita gente que o desconhece, porque Marker escolheu
aquela forma peculiar de invisibilidade que é a direção de documentários. E ainda por cima aqueles documentários que
jamais se enquadrariam numa programação tipo Discovery Channel ou National
Geographic. Marker foi um dos sujeitos que mexeram no software do documentário, tanto quanto Robert Flaherty, Jean Rouch,
Eduardo Coutinho. Em 2009 o CCBB do Rio de Janeiro exibiu uma enorme mostra de
quase toda sua obra, que nos deu a medida da variedade de seus interesses e da
quantidade de material que produziu.
Os filmes de Marker foram chamados de “ensaios
cinematográficos” e de fato eles são o equivalente aos ensaios literários que
misturam o relato jornalístico, a ilustração com pequenos episódios ficcionais,
a associação livre de idéias, o memorialismo, o humor, o panfleto, a análise. Marker faz isso com imagens (de arquivo, ou
registradas por ele mesmo), áudio, e principalmente através de narrações em
“off”, recurso que ele sempre usou de maneira muito pessoal e enriquecedora. A narração em “off” virou no documentário o
que alguns diretores chamam, com bom humor, de “o último reduto dos covardes”,
ou seja, quando o sujeito não sabe usar as imagens para passar uma informação,
ele joga a toalha e manda um locutor dizer. Mas nos filmes de Marker as
narrações fazem um contraponto incessante com as imagens, e em alguns casos
pode-se dizer que são dois fluxos paralelos, um de imagem, outro de som, que
parecem realizados um à revelia do outro, mas convergem e se misturam na mente
do espectador.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
2939) Escher-Lovecraft-Borges (2.8.2012)
A primeira obra de M. C. Escher que vi na vida, com uns 12 anos, foi a gravura “Escadaria” (1951), reproduzida numa revista, e que ocupou meu juízo por muito tempo. É um labirinto de escadarias verticais, horizontais e oblíquas, pelas quais se arrastam lagartos mecânicos feitos de partes articuladas (que ele chamava “wentelteefjees”, “bichos rolapé”).
O que me fascinou primeiro foram esses monstrinhos articulados. Todo garoto adora monstros. Um dia, depois de olhar muito para os monstros, tentei entender o labirinto que eles percorriam, e fiz a pergunta fatal: “Peraí... onde é o chão?”. Perdi o chão e não o achei de volta até hoje.
Para Escher, aquelas centopéias-robô são apenas um ponto de referência de movimento, direção, orientação visual. O monstro é o espaço absurdo.
Nos contos de H. P. Lovecraft, o monstro surge como protagonista. Seu mundo é
um mundo organizado e racional no qual irrompe de repente a presença maligna de
algo impossível. É o mundo em que ele acreditava: um mundo com as obrigatórias
três (ou quatro) dimensões, onde o Tempo se organiza em passado-presente-futuro
e o espaço em norte-sul-leste-oeste. Um mundo onde existem os reinos
animal-vegetal-mineral; os cinco sentidos; os elementos químicos.
E nesse mundo geométrico, racional, brota
alguma coisa disforme, glóbulos de caos, tumor de formas, uma presença maligna
cuja existência põe em perigo todo o resto. Como numa teia de aranha, o
universo de Lovecraft é um desenho de Ordem que tem no seu centro um Monstro.
Nos contos de Jorge Luís Borges (os contos de FC-metafísica de Borges,
cuja obra é bem mais variada que a de Lovecraft) não aparecem muitos monstros.
(O mais notável deles é o de sua homenagem a Lovecraft, “There are more
things”, em O Aleph.)
Borges vai mais
fundo e, como Escher, interfere no software conceitual que nos orienta no
mundo físico. Seu espaço é múltiplo (Babel: hexágonos infinitamente ladrilhados
como num papel-de-parede) e desconexo (Tlon: produzido aleatoriamente pelas
mentes que o habitam).
Seu tempo não parece uma linha de metrô como o daquelas
FCs onde se vai e se volta num “tubo” inalterável; é um torvelinho browniano
onde não se cruza duas vezes o mesmo local. Cada ponto é ao mesmo tempo
zero-cartesiano, zênite, nadir, ponto-de-fuga no horizonte... Cada vez que os reinterpretamos assim, o
sentido da história muda.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
2938) Morcego da Madrugada (1.8.2012)
“Boa noite, galera. Aqui na emissora mandam a gente dizer bom dia. Mas o Morcego acredita que a madrugada pertence à noite, até os raios de sol virem estragar o nosso sonho ou cancelar nosso pesadelo, valeu? Acabamos de ouvir com Zé Ramalho ‘A dança das borboletas’ e em seguida ‘In-a-Gadda-da-Vida’ com o Iron Butterfly. E está na hora de mais uma ligação dos nossos ouvintes. Estamos na linha com Herbert... fala, Herbert. “Fala Morcego, é um prazer estar aqui nesse papo”. Herbert, tu mora onde? “Moro em Bodocongó, perto do campus”. Ok, você sabe como é; você vai pedir uma música e contar uma história que justifique esse pedido. “Certo, Morcego. A história é simples. No ano passado eu dei aulas num desses campus do interior. Eu passava dois dias lá e o resto da semana aqui. Dava aulas até as onze da noite e ia direto pra Rodoviária, pegava o ônibus pra vir dormir em casa em Campina, eram quatro ou cinco horas de viagem”. Mas no ônibus já rolava um cochilo, né? “Isso mesmo. Você fecha o olho ali e já vai botando o sono
terça-feira, 31 de julho de 2012
2937) "O Bandido da Luz Vermelha" (31.7.2012)
Para mim é um dos melhores filmes brasileiros de todos os
tempos, impressão que se manteve quando o revi agora, depois de mais de 20
anos. Os puristas ficarão zangados, mas
os puristas são como os turistas, não gostam de ver o lado sujo das coisas. Mario
Quintana disse que um crítico é um sujeito que ao ver uma bela tapeçaria dá a
volta para ver como ela é pelo avesso; alguns artistas são assim também.
Rogério Sganzerla tinha 22 anos quando fez este filme em 1968,
com uma equipe minúscula e pouco dinheiro, filmando em preto-e-branco no meio
da Boca do Lixo de São Paulo. Era um contestador do Cinema Novo que, segundo
ele, tinha se “aburguesado”, deixara de ser um cinema de esquerda,
revolucionário, e estava seduzido pelos elogios da crítica européia e pelos
prêmios nos Festivais. Sganzerla seguiu a receita criada (ou aperfeiçoada) por
Glauber Rocha, “uma câmara na mão e uma idéia na cabeça”, e nota-se em seu
filme muitas pequenas influências (inevitáveis, aliás) dos dois grandes filmes
de Glauber até então, Deus e o Diabo... e Terra em Transe. Alguns detalhes, no entanto, são
essenciais. Sganzerla não toma uma
atitude de esquerda; sua crítica à sociedade é o que hoje chamaríamos de
“atitude punk”, o chute-no-pau-da-barraca, o niilismo. A frase-lema do filme é: “Quando a gente não
pode fazer nada a gente avacalha; avacalha e se esculhamba”. Tanto o governo militar quanto o Partido
Comunista discordavam, com veemência.
Cheio de escracho e de improvisações, O Bandido... tem
cenas que, se descritas ao pé da letra em twitters, poderiam compor um poema
meio surrealista. Seu ponto forte é a
semi-incoerência narrativa (cada cena, no estilo Godard, tem pouco a ver com a
anterior), espertamente costurada por um casal de locutores tipo “A Polícia nas
Ruas”. É o modelo Cidadão Kane: a reportagem jornalística “fake” fornece um
fio de continuidade para cenas que se unem por justaposição, são por
consequência.
domingo, 29 de julho de 2012
2936) As histórias da Pixar (29.7.2012)
Contar
histórias no cinema é diferente de contá-las no papel, até porque no papel o
texto precisa dizer (ou deixar subentendido) tudo, e no cinema grande parte
disso fica a cargo da expressão facial e da voz dos atores, dos movimentos de
câmara, do visual, da direção de arte...
E o escritor do cinema pode se concentrar no que (para o cinema) é o
essencial da arte de contação de histórias: quem são os personagens, e o que
acontece com eles.
Emma
Coats escreve para a Pixar, uma das produtoras mais eficientes na narrativa de
cinema de animação (Toy Story, Monstros, Procurando Nemo, Wall-E, etc.).
Ela compôs uma lista de dicas sobre narrativa que são muito úteis, talvez não
para quem quer escrever um romance tipo Vidas Secas, mas para quem quer
escrever um filme como os da Pixar (e algo me diz que no Brasil tem mais gente
querendo esta segunda hipótese do que a primeira). Comentarei alguns.
Coats
diz: “A gente admira mais o esforço de um personagem do que os seus sucessos”.
Isto é a medula do espírito norte-americano na literatura, cinema, auto-ajuda,
tudo: não desista, vá em frente, não se deixe abater, não desista nunca, no fim
vai dar certo. Funciona bem para o público dos EUA, impressiona fora, mas não é
uma verdade psicológica tão universal quanto parece.
Coats
sugere um esqueleto narrativo universal: “Uma vez havia _____. Todos os dias,
_____. Um dia, _____.Por causa disto, _____.
E por causa disso, _____, Até que finalmente _____”. Aí estão as formas
básicas da narrativa simples: situação, interferência, enfrentamento das
interferências, solução – de preferência, ao invés de um retorno ao ponto
inicial, a chegada a um equilíbrio mais complexo, numa nova situação, melhorada
por tudo que aconteceu.
Diz
ela: “Defina o final da história antes de imaginar a parte do meio. É sério.
Todo final é complicado, e você deve preparar o seu desde logo.” Ao escrever um conto, sem compromisso, você
pode correr o risco de improvisar tudo enquanto escreve (eu faço isto o tempo
inteiro). Num filme de 100 milhões de dólares que vai ser visto por 100 milhões
de pessoas, não se pode correr esse risco. Tudo tem que se encaixar.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
2935) Surrealismo católico (28.7.2012)
(Jorge de Lima e Murilo Mendes)
Em matéria de oxímoro,
ou de paradoxo, o título deste artigo merece um prêmio. Quem tiver alguma familiaridade com o
movimento surrealista que surgiu em Paris nos anos 1920 deve lembrar o seu
espírito violentamente anti-clerical. Os
Surrealistas, que planejavam dar poderes totais à mente humana, livre de todos
os tipos de censura e de coerção, certamente combatiam a igreja da época, um
mecanismo de lavagem cerebral só comparável ao dos partidos políticos. O cinema de Luís Buñuel, com suas provocações
permanentes à igreja (L’Âge d’Or, Viridiana, etc.) levou para as grandes platéias
o que estava entranhado na poesia de André Breton ou de Benjamin Péret. Creio que foi Péret quem escreveu certa vez:
“Andando pela avenida tal, cruzamos com dois padres que vinham em sentido
contrário ao nosso. Diante de tal provocação, não tivemos escolha senão
agredi-los”.
É engraçado, porque os
dois mais famosos e respeitados poetas surrealistas brasileiros são dois
cristãos que soam bastante sinceros, até pelas crises e dúvidas que os acometem
(cristão que nunca tem dúvidas terríveis é porque não entendeu o
Cristianismo). Jorge de Lima (1895-1953)
e Murilo Mendes (1901-1975) jamais ousariam, como Péret, dar uns cascudos no
vigário. Os dois eram amigos, foram
contemporâneos de geração dos surrealistas franceses, mas sua poesia foi (ou
veio) em outra direção. Jorge de Lima
publicou em 1952 seu poema-livro Invenção de Orfeu, que na maior parte do
tempo é de uma imagética surrealista como poucos brasileiros conseguiram, e
numa estrutura épica que poucos surrealistas franceses tentaram, se é que algum
tentou. Murilo Mendes foi também picado
por esses dois mosquitos concorrentes, a religião católica e a revolução
surrealista. São dois softwares que
parecem se inviabilizar mutuamente, mas nestes dois poetas o surrealismo serviu
menos como uma visão do mundo e mais como uma maneira de tratar a linguagem, de
manipular a linguagem através de um certo desregramento imaginativo, alimentado
pelo inconsciente e logo mantido sob controle.
2934) "O Torreão" (27.7.2012)
Este
romance de Jennifer Egan, lançado agora pela Ed. Intrínseca, tem uma estrutura
narrativa inesperada que só vai se revelando aos poucos, misturando duas
histórias que soam incrivelmente reais embora uma dela possa ser fictícia. Em princípio, estamos acompanhando a viagem
de Danny King, um “hipster” de Manhattan, a um país da Europa Central, para
onde seu primo Howard o convidou com a proposta de trabalhar na restauração de
um antigo castelo e transformá-lo num hotel de luxo. Danny e Howard são amigos
de infância, mas na adolescência houve um episódio traumático entre os dois,
que enche Danny de culpa e de incerteza, porque ele não sabe ao certo as
intenções do primo (que agora é riquíssimo, e que ele não vê há muitos anos) ao
chamá-lo para aquele lugar remoto.
Esta
história vai se misturando aos poucos com a história de um presidiário nos EUA,
Ray, que está fazendo uma oficina de escrita criativa na cadeia e começa a
botar uns olhos compridos na direção da professora, Holly. Não vou esmiuçar
aqui o modo como essas duas histórias se misturam, porque este é um dos truques
principais do livro, que é escrito com um controle e uma alegria imaginativa
raros hoje em dia. A crítica o
classificou como “romance gótico”, pela presença central do castelo e do seu
Torreão cheio de mistérios. A incursão
de Danny King pelo castelo reproduz a incursão de Jennifer Egan pelo gênero
gótico: uma pessoa moderna, conectada, penetrando num ambiente com séculos de
existência e de história acumulada.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
2933) "Rage in Rio: The Game" (26.7.2012)
"Na década de 2030, empresas gigantes da Informação criaram o projeto Game Forever, um novo conceito de games de imersão ou de gerenciamento, mesclado ao de ação e aventura, e de informações em tempo real.
"Sob a influência da franquia GTA (Grand Theft Auto), a SuperWorld Games cresceu teve uma ascensão meteórica na década de 2020, graças aos títulos que lançou naquele estilo.
"Operando na China, com equipes de milhões de desenhistas adolescentes trabalhando fanaticamente numa atividade que eles consideravam divertida a ponto de ser viciante, a SuperWorld lançou numerosos jogos de hit-and-run ambientados em metrópoles do mundo inteiro: Mumbai, Durban, Istambul, Kingston, Moscou, Rio de Janeiro...
"Durante a produção deste último foi fechada a parceria com o
Google Earth, passo natural para a atualização constante dos cenários dos
jogos, primeiro em ritmo anual, depois mensal.
"O governo brasileiro queria incentivar o turismo, e entrou na jogada. O Censo 2030 foi realizado, no Rio de Janeiro, com um esquema high-tech em que os recenseadores não apenas colhiam os dados dos habitantes de cada residência como também filmavam com microcâmaras 3D o interior da casa e seus moradores, para produzir avatares idênticos.
"Os resultados foram remetidos para as oficinas da SuperWorld espalhadas pela China, e o resultado em 2033 foi a reprodução virtual, 3D, de todo o Rio, por dentro e por fora, no que se tornou o videogame mais vendido de todos os tempo (61 milhões de unidades na primeira semana): Rage in Rio.
"O governo brasileiro queria incentivar o turismo, e entrou na jogada. O Censo 2030 foi realizado, no Rio de Janeiro, com um esquema high-tech em que os recenseadores não apenas colhiam os dados dos habitantes de cada residência como também filmavam com microcâmaras 3D o interior da casa e seus moradores, para produzir avatares idênticos.
"Os resultados foram remetidos para as oficinas da SuperWorld espalhadas pela China, e o resultado em 2033 foi a reprodução virtual, 3D, de todo o Rio, por dentro e por fora, no que se tornou o videogame mais vendido de todos os tempo (61 milhões de unidades na primeira semana): Rage in Rio.
“Foi uma grande emoção quando, após instalar o jogo e configurar meu carinha com a aparência de um primo meu, saí caminhando pelo aterro do Flamengo, tomei sorvete, comentei o resultado do Fla-Flu (real) da véspera, e recebi respostas condizentes...
Li as manchetes dos jornais: eram as do dia. Fui até meu prédio, onde pedi ao porteiro (era Severino!) que anunciasse minha visita. Um dos meus filhos me recebeu à porta. Sentei no sofá. Minha esposa (mais jovem do que hoje) trouxe-me um suco de laranja. Daí a pouco eu (nessa época tinha barba) vim até a sala receber o visitante.
Respondi perguntas (corretas, atualizadas) sobre minha família no Nordeste. Folheei livros, e vi em todos o texto correspondente. Era eu, era minha própria família vivendo sua vida eletrônica... Sujeita à invasão de um jogador mal intencionado, tal como na vida daqui de fora.
A esperança do governo, anunciada em cadeia nacional, é que facilitar a violência virtual possa diminuir a violência de carne e osso. Esperemos que dê certo. Enquanto isto... burilo avatares”.
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