terça-feira, 26 de junho de 2012

2906) "Blade Runner" 30 anos (26.6.2012)





Uma coisa fascinante no capitalismo é a capacidade que ele tem de nos fazer comprar a mesma coisa mais de uma vez. Ele cria em nós, primeiro, uma fascinação inesgotável por um produto; depois, nos ensina a fazer minúsculas, sutilíssimas distinções entre aspectos deste produto; em seguida, oferece-nos versões quase idênticas do produto, mas com diferenças suficientes para que digamos: “Quero todas duas!”. Ou todas três, ou trinta. 

Blade Runner (1982), foi um fracasso de bilheteria nos EUA, onde custou cerca de 28 milhões de dólares e rendeu 27. (Rendeu um pouco mais no mercado externo, mas em termos da contabilidade dos estúdios, que precisam de retorno rápido, isso não pesou muito.) Ao completar 30 anos, foi preparada uma caixa especial, custando cerca de 50 dólares, com nada menos de dez horas de cenas extras, e três versões integrais do filme.

Ao todo, existem cinco versões. Primeiro houve a versão original, exibida nos cinemas, e a versão internacional, que é quase a mesma, com a adição de algumas cenas de violência. Em 1992, o diretor Ridley Scott produziu a “Versão do Diretor” (“Director’s Cut”), removendo a narração em “off” e modificando algumas cenas, mas ainda assim não ficou satisfeito (ele é considerado um perfeccionista capaz de enlouquecer qualquer equipe), e em 2007 ele concluiu o chamado “Final Cut”, onde modificou tudo que achou necessário (inclusive chamando a atriz Joanna Cassidy para refazer, 25 anos depois, cenas que tinham sido feitas por uma dublê).  E existe uma quinta versão chamada “Work print”, que seria uma primeira edição do material filmado, com muitas cenas que foram excluídas depois. (Ao que parece, a caixa inclui as versões 1, 4 e 5.)

A cultura de massas é considerada o reino do descartável, do superficial.  Supõe-se que o espectador vê um filme, dá tchau e vai ver o próximo. Pertence ao mundo acadêmico essa disposição para examinar e comparar diferentes versões de uma obra. Quantas teses não já foram escritas comparando a versão em folhetim e a versão em livro de alguma obra de Dostoiévsky ou Dickens? Mas a tendência das últimas décadas é a de estimular a produção dessas versões, em primeiro lugar para vender as duas, é claro, mas com um efeito colateral: a criação de uma faixa crescente do público cada vez mais atenta a detalhes e a variantes. Isto é resultado do videocassete e do DVD, que pela primeira vez deram ao espectador comum a possibilidade de rever uma cena quantas vezes quisesse, parando, voltando, vendo de novo – uma experiência de espectador totalmente diferente da experiência passiva, meramente receptiva, do espectador tradicional do cinema.

domingo, 24 de junho de 2012

2905) "Tango de volta" (24.6.2012)





(Julio Cortázar)

Julio Cortázar foi um constante experimentador de formas narrativas, na estrutura aleatória e ziguezagueante de O Jogo da Amarelinha, na mescla de narrativa literária e notícias de jornal de Livro de Manuel, nos “almanaques” de estrutura verbo-visual como A Volta ao Dia em 80 Mundos.  Mas no interior de seus contos ele sempre estava testando novas maneiras de contar a história.  Uma de suas experimentações mais constantes é com o ponto de vista narrativo. Um conto narra uma história que acontece, mas, quem está contando a história?

“Tango de volta” é um dos contos de Queremos tanto a Glenda (1980, publicado no Brasil como Orientação dos gatos). É um conto narrado na 1ª. pessoa, e o narrador, como é de hábito em Cortázar, principia com um longo parágrafo aparentemente caótico em que salta de um ponto para outro entre informações desencontradas, referindo-se a pessoas como se imaginasse que já as conhecemos, comparando fragmentos de informações como se já as tivesse fornecido antes. A esse longo parágrafo segue-se outro que começa, paradoxalmente: “Como sou muito convencional, prefiro pegar desde o começo...”. Segue-se uma história em que uma argentina, Matilde, abandonou o marido no México e voltou a Buenos Aires, de onde forjou um atestado de óbito para dizer que era viúva, casou com um homem rico, teve um filho, e agora vê o primeiro marido rondando sua casa, namorando sua empregada Flora, tentando se infiltrar lá dentro.

O leitor prevê mais uma das bem urdidas histórias de crime de Cortázar. (É engraçado, nunca vi nenhuma delas nas antologias de contos policiais. Rotularam o rapaz de “autor fantástico” e pronto, morreu aí.) Tudo é narrado numa “falsa 3ª. pessoa” do ponto de vista de Matilde, a esposa, e depois de duas páginas já esquecemos que tudo começara com um “eu”. O conto vai até um desfecho violento, e no último parágrafo sabemos quem é o narrador: é o médico ou enfermeiro que chegou à casa logo após o crime, e a história é extraída da empregada, Flora, levando-o a reconstituir tudo que se passou. Acontece que tirando o primeiro e o último parágrafo tudo se passa dentro da mente de Matilde. Pegando os fragmentos de fatos fornecidos por Flora, o narrador romanceia por conta própria o que teria se passado na mente da mulher, seus medos, suas culpas, sua paranóia. É um narrador não-confiável, porque, embora os fatos provavelmente sejam aqueles, o texto está cheio de conjeturas e adivinhações do que Matilde teria sentido e pensado, e que ele não poderia conhecer. É mais uma das muitas experiências de Cortázar sobre um”eu” narrador que nunca é o “eu” narrador da literatura convencional.

sábado, 23 de junho de 2012

2904) O roubo digital (23.6.2012)

















Um artigo de Stuart P. Green no New York Times (http://nyti.ms/KmnlTw) aborda a questão do download não-autorizado de músicas, filmes e livros do ponto de vista do tipo de transgressão que isso constitui.  Para Green, não se trata de furto ou roubo, e esta é a questão crucial.  É um problema de nomenclatura, nada mais, mas dentro do nosso sistema jurídico, e do nosso sistema informal de valores e conceitos, o nome com que tratamos uma ação influencia e direciona nosso exame e nossas decisões futuras.  Se já começamos uma discussão dizendo que a ação tal ou tal é um roubo, vai ser difícil propor, depois, uma maneira de legalizar ou organizar o modo como isso vai ser feito, já que é um “roubo”, uma palavra condenada de antemão.

Dois aspectos são importantes: 1) ao contrário do roubo, o download não priva o proprietário original de um objeto único que ele possuía e não possui mais; trata-se apenas do ato de copiar o objeto e levar a cópia para si; 2) são poucas as pessoas, entre as que fazem essas cópias, que se dariam o trabalho (ou teriam o dinheiro) de comprar o objeto original que o “proprietário” supostamente está oferecendo à venda.  Se as cópias se multiplicam gratuitamente, deve existir alguma maneira de usar essa multiplicação para gerar um pequeno resíduo de renda que, acumulado e multiplicado por milhões ou bilhões, crie um bolo a ser repartido entre os produtores dos objetos culturais.  Ao invés de cobrar 20 reais por disco e vender milhares, cobrar 1 centavo e vender milhões.  Ou cobrar um imposto único e redistribuí-lo, proporcionalmente à contribuição de cada produtor cultural.

Nosso conceito de comércio cultural (livros, filmes, discos) foi criado em torno da idéia de que: 1) é caro e trabalhoso copiar uma obra; 2) quem tem essa despesa e esse trabalho precisa ser recompensado por isso; 3) essa recompensa geralmente se dá através do direito de explorar comercialmente essas cópias escassas e preciosas.  No momento em que o item 1 perdeu o sentido, o resto começa a perder o sentido também.  Precisamos agora achar um novo conceito de comércio, baseado na idéia de que é facílimo e gratuito reproduzir cópias de livros, filmes e músicas.  Há um oceano de cópias sendo trocadas, oferecidas e aproveitadas gratuitamente, e não adianta considerar isso um roubo, porque daqui a alguns anos vamos chegar a uma sociedade onde, como a Itaguaí de O Alienista de Machado de Assis, 99% da população estará presa e somente 1%  nas ruas.  Quando a vida real, avaliada por um conceito, mostra 1% de regra e 99% de exceção, um dos dois precisa ser substituído. É mais sensato substituir o conceito.


sexta-feira, 22 de junho de 2012

2903) Zédantas (22.6.2012)




Estou lendo Zédantas segundo a letra I, publicado pelo Memorial Luiz Gonzaga (Recife, 2010), com a longa entrevista da D. Iolanda Dantas, viúva do grande parceiro do Rei do Baião. 

Zédantas (ele gostava que seu nome fosse escrito assim) é autor de dezenas de canções eternas da música nordestina, como “A Volta da Asa Branca”, “Sabiá”, “Vem Morena”, “Forró de Mané Vito”, “Imbalança”, “Xote das Meninas”, “Acauã”, “Noites Brasileiras”,”Siri jogando bola”, “Derramaro o gai”, “ABC do Sertão”, “Samarica parteira”, “Riacho do Navio”... bem, são dezenas. 

Era sertanejo de Carnaíba (PE), e o Riacho do Navio cortava a fazenda de seu pai. Estudou medicina e clinicou no Rio de Janeiro, mas nunca deixou de pensar no sertão o tempo inteiro. Era extrovertido, contador de piadas, imitador de tipos, além de elegante e vaidoso – tinha mais de cem gravatinhas-borboleta. 

No Rio, foi muito amigo de Péricles (criador do “Amigo da Onça”), e de políticos como José Aparecido e José Joffily (que lhe deu de presente um violão).  Era considerado “a alma da festa” onde chegava, com suas piadas e suas músicas.

Quando viajava a Pernambuco, levava um gravador de rolo de 14 kg e trazia de volta para o Rio dezenas de fitas com cantorias, aboios, toadas e forrós, que usava como base para suas composições em seu apartamento na Av. Pasteur, onde acordava cedinho e ficava compondo, olhando a Baía da Guanabara. 

Tocava bem o violão, e o piano com dois dedos, mas tocava de ouvido e a esposa, que tinha estudado, passava as melodias para a partitura, para que ele não as esquecesse. 

O sucesso do baião o colocou em contato com políticos influentes; “Algodão”, p. ex., foi composta  por sugestão do então Ministro da Agricultura, João Cleofas (PE). Uma canção gravada por Marlene, “Piririm”, marca sua única parceria com o outro grande parceiro de Gonzaga, Humberto Teixeira. “Vozes da Seca” foi feito em resposta à campanha popular “Ajuda teu irmão”, para as vítimas da seca de 1953 no Nordeste.

Era médico obstetra, e por causa de dores nas costas tomou muitos remédios à base de cortisona (um medicamento novo na época), que prejudicaram sua saúde. 

Sofreu um ferimento no tendão de Aquiles em 1961, quando passava uns dias no sítio de Luiz Gonzaga em Miguel Pereira (RJ). Fez uma cirurgia que não resolveu o problema, e morreu um ano depois de insuficiência renal, no Hospital dos Servidores do Rio, no mesmo quarto onde tinha morrido José Lins do Rego. 

Foi enterrado no Recife, e seu último pedido foi ser sepultado “com uma cruz de madeira num pé de mororó e um bode lambendo a cruz”. Compositor de imenso talento, e sertanejo até o talo.






quinta-feira, 21 de junho de 2012

2902) O Manifesto Krashnavik (21.6.2012)




“Este manifesto é escrito em nome de Istvar Morisev, tecelão de ofício, aldeão de nascimento, alfabetizado aos 71 anos, famoso por seu livro de memórias aos 75, rico aos 80, morto e reconciliado com o mundo aos 90. 
Em nome da luz do verde das encostas de Krashnavik na derradeira tarde do seu tempo de paz, quando um regimento inteiro de ‘kalliks’ em retirada devastou o vale, ateando fogo às cabanas depois de saqueá-las e martirizar seus moradores. 
Em nome da bacia de porcelana em que uma criança era banhada quando foi atropelada por um corcel de guerra pesando trezentas libras e coberto de armadura em couro, bacia que escapou milagrosamente intacta a esse perigo, tendo a criança, por outro lado, não resistido. 
Em nome do oficial que deteve o sabre que se erguia sobre o pescoço curvado daquele homem de bigode negro que tinha sido dado como morto por entre as ruínas fumegantes de sua casa, e mandou acorrentá-lo.
Em nome dos vizinhos de Morisev a quem coube sepultar sua família e guardar como relíquia a bacia de porcelana que pertencera aos seus avós. 
Em nome das marretas de ferro com que ele foi obrigado a quebrar pedras durante anos, longe do vale de Krashnavik, crendo que cada dia seria o seu último.
Em nome da chuva que o refrescou, do sol que o aqueceu, da comida insípida que o manteve vivo, das mulheres que nunca teve, do sono que o trazia de volta à existência, das trinta e oito voltas que o mundo deu em torno do sol e que um dia lhe trouxeram a liberdade.
Em nome do sargento subornado que uma madrugada o libertou às escondidas, dando-lhe sem explicações um cavalo, uma sacola de mantimentos e um papel com um nome e um endereço.
Em nome de Olenka, a professora de álgebra que, depois de anos de busca, assim o libertou e o acolheu em sua casa num subúrbio de Varna, e nos anos seguintes tornou-se sua filha adotiva, mestra e secretária.
Em nome do artesão anônimo que gravou a história da família Morisev na bacia de porcelana que Olenka comprara num antiquário, e cujas inscrições releu para ele, ao longo de muitas noites, fazendo-o chorar pela perda do filho e pela salvação da história.
Em nome dos dias de estudo e das noites em claro à luz de lâmpadas fracas, desenhando letras negras em papel branco e repetindo palavras em voz alta.
Em nome do livro em que contou sua história, a dos seus antepassados, e imaginou, descreveu e celebrou as muitas vidas que poderiam ter sido do seu filho atropelado pelos cavalos dos “kalliks”.
Em nome da arte da palavra, que não muda o mundo mas lhe dá feição e sentido, e é capaz de modificar o passado, eternizar o presente e multiplicar o futuro.”






quarta-feira, 20 de junho de 2012

2901) Tempo real (20.6.2012)




(ilustração: Gio MacCluskey)


"Tempo real". Esta é uma expressão curiosa, surgida, pelo que me consta, com a Internet.  Antes dela tínhamos milhões de coisas acontecendo em tempo real mas não nos sentíamos obrigados a dar um nome a isto. 

“Em tempo real”, na linguagem de hoje, significa um fenômeno qualquer em que transmissão e recepção sejam simultâneos, ou seja, a coisa acontece num lugar e é vista em outro no mesmo momento.  

(Se bem que nada é simultâneo, de acordo com a Física. Há sempre um intervalo, mas em termos da percepção humana é uma fração de segundo tão pequena que para efeitos práticos pode ser ignorada. Para tais grandezas, físicos e matemáticos usam o adjetivo “desprezível”, que sempre me pareceu meio insultuoso.)

Em tempo real significa aquela noite inesquecível em que o U-2 fez um show demolidor num estádio na Califórnia, e eu assisti o show em meu PCzinho no Rio de Janeiro, sentado na minha cadeira giratória, indo buscar cerveja na geladeira. 

Alguém pode argumentar que se o show tivesse ocorrido na véspera e eu o estivesse vendo 24 horas depois (ou 240 horas depois, etc.) minha impressão de ineditismo seria a mesma, e não discuto.  

Aí é que entram as sutilezas do Espírito do Tempo.  O prodigioso não é que a gente esteja vendo aquilo em tempo real, mas que SAIBA que está vendo em tempo real. O prodigioso não é a simples transmissão da informação, mas o pequeno triunfo psicológico que ela nos proporciona, aquela sensação de momentânea onipotência, a sensação de estarmos (a Humanidade inteira, ou pelo menos uma parte importante dela) envoltos num casulo telepático em que tudo nos acontece ao mesmo tempo aqui e agora.  Isto é precioso.

Talvez tenhamos sentido algo assim quando nos deparamos pela primeira vez com o telégrafo; com o rádio; com o telefone; com a televisão; mas isto nunca ocorreu com tanta intensidade. Quando estou num chat, tipo frase-vai, frase-vem, com algum amigo que está na Europa ou na Ásia penso: “Ora, isto não é mais extraordinário do que um telefonema”. 

Mas telefonemas são uma comunicação um-a-um, e a Internet nos proporciona isto multiplicado por multidões incalculáveis. E reparem bem na poesia do nome.  Todo tempo é real, não é mesmo? Quando leio uma peça de Ésquilo, foi real o momento em que foi escrita, é real o momento da leitura, bem como é real o intervalo de 2.500 anos que nos separa.  Hoje, porém, temos um real simultâneo, e não um real esgarçado no tempo. 

Como se o fato de outros seres humanos estarem pensando na mesma coisa no mesmo instante tornasse essa coisa mais espessa, mais socialmente verdadeira, mais humanamente real.  E, em última análise, é isso mesmo que acontece.

    


terça-feira, 19 de junho de 2012

2900) Harry Stephen Keeler (19.6.2012)



(esquema de uma "webwork" de Keeler)

Existem artistas que a gente admira mas não curte, e artistas que a gente curte mas não admira. Há grandes romancistas cuja prosa nos entra por um ouvido e sai pelo outro sem que o sismógrafo do cérebro sofra o menor estremeço. E há romancistas que reconhecemos serem menores, romancistas a quem obviamente faltam certos requisitos, mas que nos despertam um fascínio permanente.  

É o caso de um dos grandes excêntricos da literatura dos EUA, Harry Stephen Keeler (1890-1967), autor de uma obra gigantesca, disforme, muitas vezes canhestra, de vez em quando brilhante, com rasgos estilísticos que fariam encabular um ginasiano e com enredos de uma complexidade que faz Thomas Pynchon parecer um minimalista. Bem – comparar com Pynchon não adianta, porque Pynchon é um keeleriano sem os defeitos de Keeler.  Digamos: Balzac.

Keeler criou um processo, chamado de “webwork”, para compor seus enredos complicados, com dezenas de personagens, centenas de situações entrecruzadas, pistas falsas, confusões de identidade, coincidências e anti-coincidências (=quando algo que deveria acontecer não acontece). 

Escreveu quase 100 romances, e olha que o romance típico dele não tem menos de 400 páginas (muitos, por alguma razão, são traduzidos em Portugal). Mantinha um gigantesco arquivo de recortes de fatos estranhos, bizarros, inesperados, que usava em suas narrativas de crime e de FC. 

Sua homepage (http://bit.ly/bWvEZl) dá exemplos de sua prosa saborosa, inusitada, meio desconexa, em romances como O Enigma da Caveira Viajante, O Rosto do Homem de Saturno, O Caso dos 16 Feijões, O Mistério do Periquito de Madeira, O Homem que Mudou de Pele, etc. Sua volúpia fabulatória não tem paralelo, bem como seus extraordinários sistemas de criação de enredos.

Falei que não admiro Keeler? Falei mal. Poderia dizer, como o Conselheiro Acácio, que admiro suas qualidades mas não seus defeitos. E a verdade é que os defeitos (a prosa muitas vezes canhestra, as situações improváveis e forçadas, os personagens que não parecem pessoas mas meras funções para desencadear peripécias) só são considerados como tal num sistema de valores que visa à produção de uma prosa produzida noutro nível de realidade.  Criticamos Keeler com instrumentos feitos para medir Balzac (que aliás era combatido, em sua época, por críticos que usavam instrumentos pré-Balzac). 

A editora independente Ramble House imprime seus livros por demanda (http://bit.ly/9KpjZy); suas frases inimitáveis podem ser seguidas no Tweeter através de @HarrySKeeler. Era um homem obsessivo, trabalhador incansável, e fundou um império habitado por ele só.







domingo, 17 de junho de 2012

2899) Drummond: "Moça e Soldado" (17.6.2012)





Dizem os que conheceram Carlos Drummond que ele era um desses paqueradores meio tímidos, que ficam circulando pela rua, de olho nas moças que passam.  Não sei se isso é verdade ou se é uma auto-sugestão das testemunhas, influenciadas pelos inúmeros poemas em que o autor se descreve fazendo exatamente isto. Circular pelas avenidas cheias de gente, sempre de olho atento nos atributos das moças em volta, seguindo esta ou aquela no mesmo passo, é uma grande Arte; ainda mais quanto o poeta é mineiro, casado e não tem intenção de fazer assédio, de incomodar, de abordar moças na rua.  Ele não quer “nada além de uma ilusão”.

“Moça e Soldado” é um dos poemas do seu livro de estréia (Alguma Poesia, 1930) em que ele se dedica a esse esporte. “Meus olhos espiam / a rua que passa. / Passam mulheres, / passam soldados”.  O detalhe cinematográfico do poema é a angulação voltada para baixo, rumo às pernas dos passantes: “Meus olhos espiam / as pernas que passam. / Nem todas são grossas... / Meus olhos espiam. / Passam soldados. / ...mas todas são pernas.”  De olhos baixos, o poeta se livra de cruzar os olhos com as possíveis ofendidas, e aproveita para avaliar o torneado das pernocas.  No “Poema de 7 faces” que abre o livro, ele já se perguntava: “Pra que tanta perna, meu Deus?”.

O poema faz o paralelo constante entre as “moças bonitas feitas para namorar” e os “soldados barbudos feitos pra brigar”.  A época era de conflagração política, e aquelas ruas deviam ser de vez em quando invadidas por soldados, ora desfilando, ora de folga. E o poeta compara as pernas que passam marchando ao som de “tambores e clarins”, e as pernas que simplesmente passam.  Passam para brigar, e passam para namorar; e Drummond conclui com sua melancolia recorrente: “Só eu não brigo. / Só eu não namoro”.  Essas duas provas de masculinidade lhe são vedadas; ele inveja os soldados, deseja as moças, mas pressente que os dois existem num mundo mais saudavelmente animal do que o dele.

Este espírito de paquerador peripatético seria mais bem descrito por Drummond em seu livro seguinte, Brejo das Almas, no poema “O procurador do amor”, onde ele diz: “Meu olhar desnuda as passantes. / Às vezes um bico de seio / vale mais que o melhor Baedeker”.  Baedeker eram os famosos guias turísticos do começo do século, publicados na Alemanha, muito ricos em informação. Ele diz: “O andar, a curva de um joelho, / vinco de seda no quadril / (não sabia quanto eras pura), / faço a polícia dos ‘dessous’”. O termo francês tanto se refere à parte de baixo quanto às roupas íntimas femininas. Que o poeta flâneur não perdia de vista nem de imaginação.

sábado, 16 de junho de 2012

2898) Manipulando textos (16.6.2012)



Vejam só que episódio mais pulga-atrás-da-orelha. Philip Howard é um blogueiro que mora na ilha de Ocracoke, na Carolina do Norte. Talvez eu esteja comprando gato por lebre, e ele seja apenas mais uma farsa ou pegadinha internética; mas dessa suspeita nenhum de nós, que somos de carne e osso, escapa. Então, suponhamos que ele existe mesmo e que no seu blog relatou uma estranha descoberta (http://bit.ly/L5d9wk).

Philip estava lendo Guerra e Paz de Tolstoi, livro que pode ter mais de mil páginas, dependendo da edição. Para a mão não cansar, Philip comprou um e-reader Nook, fornecido pela cadeia de livrarias Barnes & Noble. A certa altura ele leu uma frase com um verbo estranho. A frase era: “"It was as if a light had been Nookd in a carved and painted lantern...." Mais ou menos: “Era como se uma luz tivesse sido ????? numa lanterna entalhada e com pinturas...”. Ele não entendeu essa palavra “Nookd”, mas aquilo se repetiu outra vez, e outra. A repetição confirmou sua suspeita inicial: em todo o texto daquela tradução a palavra “kindle” (que por acaso é a marca do e-book da Amazon, maior rival da B&N) havia sido substituída por “Nook”, a marca do seu próprio leitor eletrônico. Isto é mais ou menos como você abrir um e-book de História do Brasil e ver que todas as vezes que o nome de Vasco da Gama aparece ele está substituído por Flamengo da Gama.

Philip comenta: “Alguém na B&N – um funcionário de 20 anos? o Diretor Geral? – tinha programado essa substituição”. Certamente (digo eu), sem dar atenção a incidências inesperadas (e mudanças indesejadas) de outras palavras. Deve-se ter sempre cuidado com a melíflua sugestão informática: “Substituir tudo”. Metade dos meus cabelos brancos com revisão de textos devem-se a ofertas deste tipo. O problema maior, no entanto, diz Philip, é não sabermos até que ponto o texto pode ter sido manipulado.  Se eu nunca li o livro, se eu não conheço a obra de Tolstoi, não sei ler em russo...  Que tipo de segurança, de confiança, posso ter a respeito da autenticidade daquilo que estou lendo?

Até parece que foi o livro eletrônico que inventou esse tipo de insegurança, mas devem ter sido a Arte da Cópia, primeiro, a Arte da Tradução, depois, e a Imprensa, por fim. Como podemos confiar na honestidade moral e intelectual (para não falar na competência técnica) de milhões a quem coube entender, traduzir, examinar, copiar?  Cada vez que uma informação passa por uma mente humana ela é refratada, como a luz passando através da água. O livro eletrônico e seu “substituir tudo” são apenas a ampliação desse risco antigo, e a introdução de novos dilemas cruciais de ordem técnica.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

2897) Primeiríssimas Estórias (15.6.2012)








Antes de estrear em livro com Sagarana, em 1946, Guimarães Rosa já tinha escrito outras obras que depois não quis publicar.  Uma delas foi o volume de poemas Magma, de 1936, com o qual chegou a ganhar um concurso, e que só foi oficialmente publicado em 1997. Estes 61 anos são um intervalo longo demais para um livro aparecer? Pois prestem atenção neste outro, que saiu no ano passado pela Nova Fronteira: Antes das Primeiras Estórias, organizado por Janaína Senna, reunindo contos publicados entre 1929 e 1930, ou seja, um intervalo de 82-83 anos entre publicação em periódico e publicação em livro.

Em meu livro A Pulp Fiction de Guimarães Rosa (Ed. Marca de Fantasia, João Pessoa, 2008) analiso estes contos que Rosa publicou, quando tinha 21-22 anos, em O Jornal e na revista O Cruzeiro. Minha primeira informação sobre eles veio de um artigo publicado por Ivan Teixeira no Estado de São Paulo (26.9.1992). Na Biblioteca Nacional, no Rio, consultei os originais, copiando longos trechos com lápis de grafite, para poder escrever o meu comentário. Agora os quatro contos saíram na íntegra pela Nova Fronteira, com um prefácio elogioso de Mia Couto.

Qualquer leitor de Guimarães Rosa e qualquer admirador da literatura fantástica sairá enriquecido da leitura destes “contos de aprendiz”, que mostram o escritor mineiro, ainda verde, vivendo aquele momento quântico em que um rapaz inteligente e devorador de livros pode se transformar tanto num imitador da literatura alheia quanto num autor capaz de reinventar a literatura.  Rosa era um sujeito vaidoso. Todo mundo que escreve é vaidoso, mas alguns têm a vaidade dos perfeccionistas, para quem nada do que produzem está à altura de sua genialidade, e acham que precisam retrabalhar ainda mais o texto. São sinais evidentes disto o fato de que ele rejeitou Magma (um bom livro de poemas) e estes contos, onde passa do gótico (“O mistério de Highmore Hall”) para o “weird” (“Tempo e Fatalidade”), e da fantasia heróica ("Makiné”) para o regionalismo exótico (“Caçadores de Camurças”). Sem falar que passou cerca de oito anos retrabalhando os contos de Sagarana até achar que mereciam publicação. Os contos experimentais de Rosa talvez desagradem àqueles que têm em mente um Guimarães Rosa monolítico, categorizado, decifrado por fim. Eu gosto deles porque suas influências juvenis modificam e enriquecem a obra posterior, revelam camadas de sensibilidade e de prosa que, em retrospecto, vemos estarem presentes nos sertões futuros. O passado pode ser modificado quando uma nova descoberta nos traz novas revelações, e Guimarães Rosa ainda não disse tudo que veio dizer.