quinta-feira, 15 de março de 2012

2818) O 39 e o 24 (15.3.2012)



Um dos cacoetes do pensamento mágico é fazer associações de idéias entre duas coisas não-relacionadas, e, a partir daí, agir como se elas fossem uma só. Vêm daí os dois grandes princípios da magia. Na magia por semelhança, coisas com formato igual ou aparência igual são a mesma coisa, por isso fazer um bonequinho de alguém e espetar-lhe agulhas vai provocar dores naquela pessoa, Na magia por contato, qualquer coisa que esteve em contato íntimo com alguém mantém esse contato mesmo depois de afastada. Simpatias amorosas, p. ex., exigem, para fazerem efeito, uma cueca, uma raspa de unha, um cacho de cabelo da pessoa.

Um princípio menor, mas interessante, é o que faz associações desse tipo com números, o que é um problema sério, porque número é um negócio danado pra reaparecer no caminho da gente. Em chinês, por exemplo, o som do número “quatro” parece com o da palavra “morte”, daí que os chineses fazem verdadeiras ginásticas para evitá-lo. Muitos prédios na China, por conta disto, não têm quarto andar – como muitos nos pragmáticos Estados Unidos não têm o 13o.

Fiquei sabendo de uma ótima que ocorre com o número 39 no Afeganistão. Numa cidade qualquer havia um cafetão cujos serviços prostitucionais eram contratados através de telefones onde sempre aparecia o número 39. O 39 ficou com péssima reputação; há movimentos para não comprar carros em cuja placa ele apareça, casas com essa numeração, etc. O número é desagradável; dá azar. Nos colégios, alunos a quem cabe esse número são vítima de ridicularização e bullying. Recentemente, um encontro político oficial teve que pular o 39 ao enumerar os comitês de discussão técnica. O líder religioso Ataula Fawzi protestou energicamente: “Se as autoridades que representam o povo afegão atuam desta maneira diante da comunidade internacional, o que se pode esperar de um taxista ou comerciante iletrado?"

Ridículo? Nem tanto, amigos. É a mesma sina do número 24 em nossa cultura, que devido ao jogo do bicho ficou associado ao veado, e este (por motivos que nunca entendi) ao homossexualismo. O tempo todo vejo gente evitando o assento 24, o quarto 24, a senha 24... Ter esse número como símbolo do homossexualismo é uma coisa arraigada em nossa mentalidade de rua. (Diga-se de passagem, só homem dá atenção a isso, nunca vi uma mulher prestar atenção nesse número.) Na minha infância, um dos momentos culminantes do rito-de-passagem do primeiro dia de aula era a primeira chamada, quando aguardávamos, com excitação crescente, a quem caberia o número maldito, e consequentemente a vaia, os impropérios, as casquinadas escarninhas, o opróbrio, o vitupério, a desmoralização.

quarta-feira, 14 de março de 2012

2817) A máquina e as peças (14.3.2012)




Vi recentemente A Invenção de Hugo Cabret, filme que me trouxe de volta à obra de Martin Scorsese, diretor que admiro mas cujos últimos filmes não me dei o trabalho de ver. Hugo Cabret é uma homenagem ao cinema antigo e ao artesanato mecânico. Pensando no modo como ele mostra o lado humano das máquinas, lembrei destas dicas deixadas por ele numa entrevista, para os jovens cineastas.

“1) Escolha uma profissão pela qual você tenha um amor eterno, e mergulhe totalmente na sua arte. 2) Dentro da sua área de interesse, torne-se um historiador das conquistas passadas dos indivíduos que ajudaram a fazer a indústria evoluir. 3) Use os estilos e os padrões dos que praticaram esse ofício no passado e no presente, para formar uma base sólida”.

Estes três princípios parecem uma descrição do filme Hugo Cabret: a luta dos personagens para consertar uma máquina que se quebrou, para encontrar uma informação que se perdeu, preservar coisas preciosas ameaçadas de extinção, descobrir a função de uma pequena peça aparentemente sem importância. Vemos também um filme que em plena sofisticação tecnológica do 3-D digital não deixa de nos lembrar que um recurso assim é tão ingênuo (e talvez seja tão duradouro) quanto o susto dos primeiros espectadores do cinema ao verem o trem se aproximando na tela. Scorsese faz paralelos explícitos das aventuras de Hugo com as acrobacias e “lições de abismo” de Harold Lloyd, com as aventuras ferroviárias de Buster Keaton.

Scorsese usou seu dinheiro e seu poder no cinema norte-americano para trabalhar pelo cinema antigo e pelo Cinema de Arte, independentemente de sua nacionalidade. Já vi várias entrevistas suas, por exemplo, colocando nas alturas um cineasta como Glauber Rocha – ou seja, alguém cujo cinema era praticamente uma destruição, uma vandalização do cinema de Scorsese. Sua empresa The Film Foundation (http://bit.ly/c8kc8h) tem restaurado dezenas de filmes que sofreram diferentes tipos de cortes, remontagem, deterioração, etc. Scorsese aconselha, em suas dicas: “Embora você deseje apaixonadamente criar uma obra que seja autenticamente sua, reconheça que você é apenas uma peça num grande quebra-cabeças. Sua obra é criada a partir dos que vieram antes de você. E as futuras gerações de criadores vão construir a obra deles em cima do legado que você lhes deixar. É como diz no filme o menino Hugo Cabret: “Eu percebi um dia que o universo é completo, não vem com peças sobressalentes. No universo não há nenhuma peça sobrando, tudo tem uma função. Isso me deu a certeza de que eu também tenho uma função no mundo, estou aqui para ser importante em algum aspecto”.

terça-feira, 13 de março de 2012

2816) Moebius (13.3.2012)




Faleceu dias atrás o grande Jean Giraud, conhecido como Moebius, um dos maiores quadrinhistas da minha memória afetiva. Conheci os desenhos de Moebius nas páginas da antiga revista Heavy Metal (que na França se chamava Métal Hurlant), e depois ele começou a pipocar no cinema, ou assinando séries próprias de histórias em quadrinhos. Meus preferidos são O Incal, com argumento de Alejandro Jodorowski, e A Garagem Hermética de Lewis Carnelian: space-operas que correspondem a um conceito proposto por Brian Aldiss, “barroco cinemascope” (“widescreen baroque”): tramas calidoscópicas em imagens gigantescas, fervilhantes de detalhes que vão do mais cientificamente plausível ao mais surrealistamente improvável. Paisagens urbanas captadas em alucinantes planos gerais repletos de personagens, gadgets, objetos, formas não-identificáveis, uma proliferação de detalhes cuja exuberância foi aprendida e expandida por outros desenhistas depois dele. Situações que mesclam folhetim e desenho animado, com personagens de romance-de-Legião-Estrangeira envolvidos em aventuras intergalácticas.

Moebius foi um desenhista capaz de começar uma história mostrando um astronauta numa paisagem bizarra... Está perdido... Aproxima-se um veículo... Descem três criaturas bizarras (cada uma diferente das outras)... Há um diálogo banal de motorista com caroneiro... Vão parar num bordel submarino ou num tiro-ao-alvo subterrâneo... E a história vai avançando meio sem propósito, meio sem enredo. Percebemos então (vi depoimentos confirmando isso) que Moebius desenhava a história quadro a quadro, sem saber o que iria acontecer no quadro seguinte. Isso dava a essas histórias um clima meio philip-k-dickiano, aquela sucessão de pequenos espantos diante do insólito, porque o próprio autor está se espantando com o que lhe vem à cabeça e à caneta.

Outra obra inesquecível é Les Maitres du Temps (1982), desenhado por ele e dirigido por René Laloux, adaptando um romance de FC de Stefan Wul chamado, na edição portuguesa da Coleção Argonauta, O Vagabundo das Estrelas, uma bela história de aventuras e de paradoxo temporal. Moebius tem aquele charme indefinível de grande parte da FC francesa, que sabe misturar, à imaginação delirante da pulp fiction, questões políticas, metafísicas ou filosóficas, coisas que assustam os norte-americanos mas os franceses tratam com a naturalidade de quem saboreia um croissant. Os franceses (Moebius é simbólico disto) nunca levaram muito a sério a colonização da galáxia (que os EUA até hoje creem ser possível). Para Moebius, de maneira exemplar, a FC estava mais próxima de André Breton do que de Wernher von Braun.

domingo, 11 de março de 2012

2815) Os Vendilhões do Tempo (11.3.2012)





Será sempre assim em todos os lugares, em todas as eras? As mais nobres aspirações da Filosofia e da Ciência deverão sempre acabar se curvando diante da cupidez humana, da cobiça burra? Será que a única utilidade de nossas funções mentais mais elevadas é a satisfação de instintos rudimentares, sem a qual não sobrevivemos, ou, pior, sem a qual não somos felizes? 

Cruzo a Praça da Bandeira sem nada para fazer neste interminável domingo de sol. Desempregado, divorciado, sozinho, esnobado pelos falsos amigos, vivendo de dinheiro emprestado pela dona da pensão.

Na praça as cabines se enfileiram, e junto de cada uma um malandro de boné. Vou me aproximando e ouço o pregão. 

-- Um dia no Dilúvio, segurança total, local com abrigo!

Vou passando. 

-- Assassinato de Kennedy, chefia! Gramado, armazém ou coreto! Binóculo grátis!. 

Penso nos quatro Prêmios Nobel sucessivos para as equipes de Weinsberg, Nakamura, De Sotto; na revolução que poderíamos ter realizado nas interpretações da História, num entendimento mais profundo das dinâmicas sociais, no contato tete-a-tete com homens e mulheres de um estofo moral e intelectual superior ao nosso. 

Ao invés disso, o que criamos? Esse varejo insuportável de vans temporais, de táxis-bandalhas que não fazem outra coisa senão costurar o “continuum” com o ir e vir de analfabetos funcionais que pensam estar se tornando mais alguém pelo simples fato de poderem passar algumas horas na corte de Luís XIV (sem entender uma palavra do que se conversa lá, diga-se de passagem, e sem suportar a fedentina) ou de ver Carlos Gardel cantando ao vivo numa biboca de esquina, só para voltarem a Campina Grande e dizerem que ele “está cantando cada vez melhor”.  

Foi para isto que demos um nó-moebius nas leis da natureza? Que sacrificamos a evolução natural do mundo civilizado, ficando assim como estamos hoje, congelados num eterno presente, marcando passo, deixando de ganhar centímetros de futuro simplesmente porque temos disponíveis milhões de léguas de um passado ininteligível para visitar?

Chego na ala do comércio estatal. O gordinho de camiseta anuncia: 

-- Batalha dos Guararapes! Programa educacional! Traga a família inteira, inclusive a sogra, nunca se sabe o que pode acontecer! 

Pra que serve meu PhD em Fractalismo Quântico? O mundo virou um camelódromo de turnês instantâneas, turismo dos sem-noção. Suspiro, paro na última cabine, uma mulher magra berra no megafone: 

-- Duas horas no Baile da Ilha Fiscal! -- Pergunto quanto, ela diz: -- Dois trilhões e meio de brasilreais, tá na promoção! 

Conto minhas moedas, estendo para ela: 

-- Se eu não quiser voltar, não insista.










sábado, 10 de março de 2012

2814) Policiais e detetives (10.3.2012)




(Agatha Christie)

O romance policial evoluiu em dois troncos paralelos, que têm pouco a ver um com o outro. De um lado, a linha intelectual, onde o assassinato é um enigma que precisa ser resolvido pela inteligência de um detetive que, em geral, não faz mais do que olhar a cena do crime, conversar com os suspeitos, pensar bem muito e depois dizer quem foi (autor típico: Agatha Christie). Do outro lado, a linha ativista, em que o detetive interroga suspeitos de modo anticonvencional, vai pra cama com as suspeitas, dá porrada a torto e a direito, e no fim esbarra por acaso com o criminoso e o executa a tiros (autor típico: Dashiell Hammett).

Por isto há tantos mal entendidos quando alguém diz: “Você me sugere algum livro policial?”. É preciso saber do que o outro gosta, porque em ambos os subgêneros há coisa muito boa e muita coisa ruim. Por exemplo: hoje em dia a crítica não suporta nem as elucubrações intelectuais de S. S. Van Dine nem a truculência de Mickey Spillane.

Alguns autores corajosos tentem de vez em quando misturar os dois tipos de narrativa. Philip Marlowe, o detetive de Raymond Chandler, faz o tipo inteligente e durão. O que impede de classificá-lo totalmente na linha dos intelectuais é o fato de que as histórias de Chandler são mais realistas do que as de Agatha Christie, ou seja, são histórias desorganizadas, em que as pessoas praticam atos meio gratuitos, esquecem-se de algo, interferem sem querer nas ações dos outros, de modo que deduzir os crimes cometidos por elas envolve sempre uma margem enorme de pressuposições, de raciocínios incompletos e argumentos tipo “não sei por quê, mas só pode ter acontecido assim”.

Quanto mais intelectualizada uma história policial, ou seja, quanto mais amarradinha for a narrativa em termos de pistas, oportunidades, deduções e explicação do crime, menos realista ela é, porque as coisas raramente acontecem assim na vida real. Ler livros sobre crimes reais é sempre muito educativo para comparar com esse tipo de literatura, porque na vida real os crimes são mal-feitos, mal planejados, mal executados, feitos de improviso, no calor do momento e dos acessos de fúria. Por outro lado, os crimes planejados e executados com precisão requerem para isto uma mente patologicamente fria, intelectual. O romance policial intelectualista tem expandido nestas últimas décadas um subgênero importante: romances onde os detetives precisam reconstituir e entender a personalidade de um serial killer. O serial killer tornou-se o vilão preferencial dos nossos tempos. Uma figura composta, em partes iguais, de inteligência excepcional, egoísmo, sadismo, desprezo patológico pela vida humana.

sexta-feira, 9 de março de 2012

2813) A mão de tinta (9.3.2012)




(Ezra Pound, por Wyndham Lewis)


Existe hoje um frenesi de novidade, de originalidade, de ter que estar todo dia fazendo alguma coisa pela primeira vez. Não nego a importância da primeira vez. Tudo tem que nascer em algum ponto, tem que começar em algum ponto. Mas a segunda vez é tão importante quanto a primeira. 

Lembram daquele lugar comum da crítica, “o segundo disco (filme, romance) é mais difícil de fazer do que o primeiro”? Se é mais difícil (e muitas vezes é mesmo) é porque essa segunda vez pede alguma coisa que a primeira não pôde dar, e não poderia.

Muitas coisas na cultura são como a pintura de uma casa, onde geralmente não basta dar uma mão de tinta, tem que dar depois a segunda, a terceira. À tinta não basta estar ali, precisa estar ali com mais peso, mais espessura, não só para não largar, como também para que sua luminosidade e sua cor sejam vistas com mais firmeza. 

(Não sabemos, mas quando vemos uma parede bem pintada vemos essas várias camadas sobrepostas de cor, umas através das outras, porque a luz as atravessa e se reflete várias vezes simultâneas por entre elas.) 

A segunda mão de tinta vem para salvar a primeira, a terceira vem para salvar a segunda. Como o tempo deixamos de perceber que são muitas, parecem uma só, e a intenção é esta.

De modo parecido, nas artes e nas culturas as coisas têm que ser ditas muitas vezes e por muitas vozes. Quanto mais pessoas aderem a uma nova forma de dizer, mais espessa e mais visível ela vai ficando, muito mais do que se tivesse se limitado à contribuição daquele criador solitário. 

O que seria a Bossa Nova se tivesse tido apenas João Gilberto, o Cinema Novo se tivesse tido apenas Glauber Rocha, o baião se tivesse tido apenas Luiz Gonzaga? Cada artista que se deixou contaminar pela obra destes e criou sua própria obra seguindo seus passos deu uma mão de tinta a mais no que estava sendo feito.

É por isto que os chamados movimentos estéticos (Cubismo, Nouvelle Vague, Surrealismo, Folk-Rock, Expressionismo, etc.) se impõem com mais solidez na História. São compostos de um gesto inicial de um Inventor (no sentido que Ezra Pound usava: o que cria formas novas de fazer) e de gestos consecutivos de Mestres (o que não inventa, mas consegue fazer aquilo talvez até melhor do que o Inventor). 

Quando a crítica se queixa de que “todo mundo agora está indo na onda de Fulano” pode até exprimir um descontentamento legítimo diante de obras medianas e pouco inventivas, mas não deve fechar a porta a essas novas contribuições. Quem vai ajudar a fixar na memória do tempo a obra de Fulano são aqueles que tentaram suplantar Fulano num momento em que todos estavam mergulhados num impulso único pelo novo.






quinta-feira, 8 de março de 2012

2812) Dickens e os piratas (8.3.2012)




Este ano, comemoram-se os 200 anos de nascimento de Charles Dickens, que talvez tenha sido, no auge da carreira, o escritor mais popular do mundo. Dickens escreveu folhetins que emocionavam milhões de leitores, descrevendo a vida das classes pobres inglesas. Seu estilo era vívido, coloquial, comunicativo, e ao mesmo tempo cheio de riquezas barrocas e de trechos meio delirantes. Sua imensa popularidade tem sido lembrada com relação a assuntos da literatura atual. Uma matéria de Simon Watts no saite da BBC (http://bbc.in/xIsGIL) lembra a primeira turnê de Dickens pelos EUA, em 1842, quando ele passou cerca de seis meses viajando pela América do Norte, fazendo conferências e leituras públicas de suas obras, sendo recebido em banquetes, etc.

Foi uma passagem turbulenta. Apesar dos bailes e das homenagens, Dickens decepcionou-se várias vezes com a grosseria dos norte-americanos, seus hábitos à mesa, seu comportamento em geral, como o hábito de mascar tabaco e cuspir em qualquer lugar. Um dos aspectos mais polêmicos da visita foi a tentativa do escritor de resolver os problemas de pirataria das suas obras. Naquele tempo, não existiam acordos editoriais internacionais, e os livros de Dickens vendiam milhares de exemplares nos EUA em edições piratas. Dickens tentava abordar o assunto em suas palestras, enfatizando a necessidade de uma lei de direitos autorais.

Dickens tentava proceder com tato. Afirmou que uma lei anti-pirataria ajudaria aos autores norte-americanos tanto quanto a ele próprio, e disse que “eu preferiria receber a admiração afetuosa dos meus semelhantes do que amealhar montanhas de ouro”. Dickens percebeu, pelas multidões que acorriam às suas conferências, e pela enorme cobertura dos jornais à sua visita, que se naquele país houvesse pagamento de direitos autorais pelos seus livros ele poderia facilmente duplicar o seu faturamento. Mas a reação era irritada. O “New York Courier and Enquirer”, o jornal mais popular da época, disse: “Estamos mortificados e entristecidos pelo fato dele ter praticado tamanha indelicadeza e impropriedade. Toda a imprensa do país estava pronta para fazer sua louvação, mas ele insistiu junto aos presentes para que não apenas fizessem honra ao seu gênio, mas também para que se preocupassem com sua bolsa”. O clima não foi desanuviado quando se tornaram bem claras, para os entrevistadores, as posições pró-abolicionistas de Dickens, para quem a escravidão negra era desumana e absurda, opinião que ele desenvolveu nos últimos capítulos de “American Notes for General Circulation” (1842), seu livro de comentários sobre a viagem.

quarta-feira, 7 de março de 2012

2811) O Poço do Dinheiro (7.3.2012)




Existem dois tipos de mistério, o mistério sobrenatural (que envolve espíritos, almas, etc.) e o mistério natural (que se reduz ao mundo da matéria). Este segundo tipo se divide em mistérios fantásticos e mistérios realistas. Os fantásticos incluem coisas que, se confirmada sua existência, mudariam nossa visão do mundo (sem envolver nada espiritual): o monstro do Lago Ness, a Atlântida, por exemplo. Os mistérios realistas envolvem apenas segredos, enigmas, etc., nada que mude nossa visão das ciências; são os mistérios históricos. Quem foi Kaspar Hauser? Quem era o Prisioneiro da Máscara de Ferro? Quem foi o Embuçado que avisou os inconfidentes mineiros que seu plano fôra descoberto? São fatos isolados, específicos, cuja solução em nada alteraria os paradigmas da Ciência humana.

Um dos mais interessantes é o que Rupert Furneaux chamou, em seu livro Grandes Mistérios da Humanidade, o Poço do Dinheiro. Em 1795, alguns rapazes descobriram em Oak Island (uma ilhota em Nova Escócia, na costa do Canadá) o que parecia ser uma escavação circular, como um poço soterrado. Iniciaram então uma “busca ao tesouro” que durou o resto das suas vidas, atravessou os séculos 19 e 20, e continua até hoje (veja o saite: http://www.oakislandtreasure.co.uk/). Toda a engenharia contemporânea não foi capaz de chegar ao fundo desse poço onde já foram encontrados vários tipos de artefatos (o que é de se esperar) e numerosas camadas protetoras de madeira ou de pedra indicando que quem enterrou algo ali cercou-se de enormes precauções para que aquilo não fosse descoberto. Talvez já se tenham gasto milhões de dólares na escavação desse poço, mas cada vez que se vai mais fundo ele é inundado pela água do mar (que fica próximo) por um “sofisticado sistema de túneis protetores”.

O que diabo pode haver ali? Talvez dinheiro dos piratas ou dos revolucionários do século 18. As teorias mais delirantes falam no Santo Graal, na Arca Perdida da Aliança, nos segredos dos Templários, e até (não estou brincando) na prova de que as peças de Shakespeare foram escritas por Sir Francis Bacon. A teoria mais cética diz que aquilo é apenas um sumidouro, uma terra alagadiça que desmorona sobre si mesma sempre que é escavada, e que engoliu artefatos dos antigos pioneiros ou de marujos que fizeram ali algum ponto de apoio provisório. O Poço do Dinheiro é um mistério natural (ninguém sugeriu explicações espirituais) e realista, porque o que quer venha a ser encontrado dificilmente mudará nossa visão do mundo. A menos que seja uma antecâmara para a cripta submarina em R’lyeh, onde Cthulhu prepara, sonhando, o seu retorno à Terra.

terça-feira, 6 de março de 2012

2810) A canção brechtiana (6.3.2012)




(Bertolt Brecht)

Em seu livro Crônicas, Vol. I, Bob Dylan conta o impacto que as canções de Bertolt Brecht tiveram sobre ele. Dylan chegou à obra de Brecht através de sua namorada Suze Rotolo (que aparece abraçada a ele na capa do álbum The freewheelin’ Bob Dylan), a qual era filha de pais esquerdistas e participava intensamente das agitações políticas da época. 

Suze era desenhista e fazia parte da equipe de um espetáculo com as canções de Brecht e Kurt Weill. Dylan (na época com 21 ou 22 anos) começou a ver os ensaios, viu a montagem após a estréia, e ficou literalmente bouleversado com o tipo de letra de canção feito por Brecht – e que ele adotou para si. (Diz ele: “Woody Guthrie nunca tinha escrito canções como aquelas”.) 

A grande iluminação (diz ele na parte final das Crônicas) foi ao ouvir “Pirate Jenny” (que, entre outras consequências, inspirou “Geni e o Zepelim” de Chico Buarque, em sua “Ópera do Malandro”). (Há mil versões da canção de Brecht no YouTube.)

A impressão que ele teve ao ouvir a música: 

“Era uma canção surpreendente. Uma letra em doses concentradas. Ação do começo ao fim. Cada frase caía sobre você de uma altura de três metros, saía pela rua afora e em seguida vinha outra, como um soco no queixo. E retornava sempre aquele refrão fantasmagórico sobre o navio negro, refrão que vinha, cercava tudo e deixava a letra inteira retesada como uma pele de tambor. É uma canção má, cantada por uma pessoa cruel, e quando ela termina de cantar, não há mais uma palavra a dizer. Ficamos sem respiração”.

Dylan, um mero praticante, faz uma perfeita análise teórica do método de Brecht. 

“Comecei a desmontar a canção, tentando entender o que a fazia funcionar, o que a tornava tão eficaz. Tudo nela era aparente e visível, mas a gente não percebia muito. Tudo estava pregado na parede, mas você não podia ver a soma total das partes, a não ser que esperasse até o fim. Era como Picasso pintando Guernica. (...) Era a forma, a associação livre dos versos, a estrutura, o desprezo pela previsível certeza dos padrões melódicos que lhe davam um sentido mais sério, uma aresta cortante. Tinha também um refrão perfeito para os versos. Comecei a perceber como poderia manipular e controlar essa estrutura e forma específicas, que eu percebi ser a chave para dar a ‘Pirate Jenny’ sua solidez e seu poder extraordinário”. (...) Comecei a brincar com esse formato, tentando dominá-lo – tentando escrever canções que transcendessem as informações dentro de si, os personagens e o enredo”. 

Brecht ensinou a Dylan que uma canção é apenas o resumo de um filme inteiro (=de uma cena inteira de uma peça) que aconteceu na cabeça do compositor.






domingo, 4 de março de 2012

2809) ETs e presidentes (4.3.2012)



(Dwight Eisenhower e um alien grey)

Entre as mil teorias da conspiração que fervem de mundo afora uma das minhas preferidas é a de que a Humanidade já comprovou há muito tempo a existência de extraterrestres e a sua presença na Terra, mas os governos não divulgam essa informação por motivos variados. Ou por um motivo só: existem coisas que a plebe rude não precisa saber. Essa hipótese vai a reboque de casos como o de Roswell, do Triângulo das Bermudas, da Área 51 e outros. Nessas áreas teriam ocorrido os contatos iniciais entre os humanos e os ETs; dali em diante, tudo rolou sob sigilo absoluto. O governo dos EUA, os militares e as grandes empresas (possíveis beneficiárias da importação de know-how interplanetário) seriam os únicos a saber de tudo. Há muitos outros casos, é claro, mas esses são os mais famosos, inclusive porque a mídia dos EUA os considera um chamariz infalível para vender livros, tablóides e DVDs.

Foi divulgado agora um depoimento de Timothy Good, ex-assessor de Dwight Eisenhower, presidente dos EUA de 1953 a 1961. Segundo ele, “o ex-presidente teria se encontrado com seres de outro planeta, na base aérea do Novo México, em 1954, na presença de agentes do FBI”. O encontro teria sido marcado por meio do envio de mensagens telepáticas, como informa o jornal britânico Daily Mail. Eisenhower, um militar durão que teve um papel importante na II Guerra Mundial, o que o levou à presidência, era também um sujeito com um lado místico. Acreditava na vida em outros planetas, e isto contribuiu para que desse apoio ao programa aeroespacial do país. Segundo Good, o ex-presidente se encontrou com aliens de aparência nórdica e depois com outros que diziam pertencer ao grupo chamado "Alien Greys" (seres de corpo acinzentado e aparência ameaçadora). Para encobrir os encontros na época, o governo informou que o ex-presidente estava em uma viagem de férias em Palm Springs, na Califórnia. Segundo o ex-assessor, autoridades do mundo inteiro vêm há décadas mantendo contatos com extraterrestres.

O que alimenta essas crenças todas? Para mim é uma questão de lógica. Se eu próprio fosse presidente e meu país fizesse contato com extraterrestres, a última coisa que eu faria seria comunicar isto à população. Uma revelação desse porte não provocaria apenas um caos social, mas uma total desorientação de propósitos, uma perplexidade, uma celeuma, e isso iria desviar a população dos seus afazeres. É cruel dizer isto, mas a gente sempre acha que certas verdades só podem ser acessadas por uma elite de escolhidos, e a grande massa tem que se consolar com uma versão pacificatória e chapa-branca. Se eu penso assim, que dirá o presidente dos EUA.