domingo, 19 de fevereiro de 2012

2797) A Vida e os Tempos de Tombstone Bill (19.2.2012)



Cap. 1 – De como o menino Bill Hazlitt, aos 7 anos, teve sua família assassinada por sicários a mando de um fazendeiro, e só escapou com vida porque fugiu para o milharal e se escondeu dentro do espantalho. 

Cap. 2 – De como Bill viajou a pé para a região de Tucson, onde moravam seus tios-avós, e ao chegar lá encontrou a fazenda ainda sendo incendiada pelos apaches.

Cap. 3 – De como Bill pegou uma carona num carroção que vinha de Phoenix, sem saber que ali viajavam dois escravos em fuga, motivo de uma emboscada que deixou o carroção em cinzas, os escravos enforcados e Bill sendo adotado pelo chefe da expedição punitiva, o dr. Jedediah Willoughby, que exibiu o garoto à população de Tombstone, descrevendo os maus tratos a que os réprobos o tinham submetido, mesmo com as veementes negativas do menino, o que levou a Sra. Willoughby, presidente da Associação de Mulheres Brancas Pela Paz e Pela Decência, a enfiar-lhe uma echarpe na boca.

Cap. 4 – Vertiginosa sucessão de malfeitos, delitos, crimes e transgressões que Bill praticou, sob o olhar complacente do dr. Willoughby e as recriminações de sua esposa, até se transformar aos 20 anos em Tombstone Bill, terror dos homens da lei e vertigem das donzelas locais.

Cap. 5 – De como T-Bill assaltou o Grand River Bank, em Boulder, Colorado.

Cap. 6 – De como T-Bill torrou o dinheiro todo no saloon ao lado.

Cap. 7 – De como T-Bill se apaixonou pelas coristas Mimi Dupont e Laura Clintwood, e levou as duas consigo enquanto se decidia.

Cap. 8 – De como T-Bill e as moças foram emboscados pela quadrilha dos Arlington Boys, e ele abateu seis inimigos e feriu onze para defender a honra de suas bem-amadas.

Cap. 9 – De como T-Bill e as garotas foram capturados e levados para o rancho dos Arlington, para que o patriarca, Big Bob, decidisse a melhor maneira de compensar aquele inesperado prejuízo.

Cap. 10 – De como Big Bob foi com a cara de T-Bill e decidiu dar-lhe a chance de jogar no pôquer a própria libertação.

Cap. 11 – De como T-Bill, numa noite que entrou para a História, ganhou não só a liberdade mas o dinheiro e a fazenda de Big Bob, tornando-se proprietário de cem hectares de terras férteis, mil cabeças de gado, líder de trinta capangas e marido de Mimi e Laura ao mesmo tempo (pra simplificar).

Cap. 12 – De como T-Bill invadiu Tombstone, desarmou as autoridades, cobriu o dr. Willoughby e esposa de alcatrão e penas, proclamou a cidade uma República Independente, proclamou-se (paradoxalmente) imperador sob o título de Tombstone I, e morreu engasgado com um osso de frango ao achar graça numa piada contada por Big Bob, que ele havia nomeado seu ajudante de ordens.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

2796) Dicionário Aldebarã III (18.2.2012)



O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres. Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura. Os verbetes abaixo foram recolhidos do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Ansins”: aqueles dias em que, sem motivo aparente, a casa de uma pessoa é visitada sucessivamente por dezenas de amigos e conhecidos que passam algum tempo e vão embora, dando lugar a novos visitantes.

“Temions”: painéis refletores que se usam nas cidades de Aldebarã para projetar a luz solar em recantos das ruas, das casas, etc. onde ela não bate ao longo do dia.

“Riggim”: a sensação de embriaguez causada por uma refeição qualquer ao fim de um jejum prolongado.

“Siltins”: as imitações, cada vez mais diluídas, de algo que teve importância ou fez sucesso no passado.

“Yok-Dangs”: animais domésticos que alguns aldebarãs mantêm em casa para encher de cuidados e de carinhos. “Yok-Wimps”: animais domésticos que alguns aldebarãs mantêm em casa para encher de serviços pesados e maus-tratos.

“Hayands”: pequenas rolhas aromáticas que os aldebarãs colocam nas garrafas de bebida depois de abertas, proporcionando degustação mais sutil e variada das bebidas ali contidas.

“Bezzkoms”: poemas tradicionais em que a primeira palavra de cada linha deve começar pela mesma letra inicial da última palavra da linha anterior.

“Luinn”: o ruído musical que faz uma bacia ou vasilha metálica ao ser retirada de dentro dágua.

“Angrum”: a surpresa que temos ao encontrar por acaso uma pessoa que pensávamos já estar morta.

“Miklon-Lu”: espécie de louça, fabricada a partir da porcelana e da celulose, que é praticamente inquebrável e não faz ruído ao ser manuseada.

“Amdrupp”: roldanas artesanais, com cordas bem finas, que correm horizontal e verticalmente na parede externa dos edifícios, e servem para os vizinhos trocarem recados e pequenos objetos apenas indo à janela.

“Zendel”: a surpresa que temos ao perceber que duas pessoas de quem ouvíamos falar são na realidade uma só.

“Flinken-dy”: os ruídos confusos de gritos, vozes e outros barulhos que nos fazem perceber que alguma coisa anormal está acontecendo num lugar que não podemos ver.

“Liumphs”: conchas acústicas desmontáveis que os poetas ambulantes afixam às costas quando cantam ao ar livre.

“Allybess”: aves criadas no cativeiro e que, mesmo soltas da gaiola depois de grandes, só conseguem voar nas vizinhanças da casa onde cresceram.

“Colludrys”: combinação de alimentos inofensivos mas que, consumidos juntos, podem se tornar um veneno mortal.




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

2795) FC e linguagem (17.2.2012)



(William S. Burroughs)

As fórmulas para escrever bem são como as fórmulas para ser feliz. A gente lê, entende tudo, e fica na mesma. Por que? E por que motivo existem tantas oficinas literárias, cursos universitários de escrita criativa, e assim por diante? A multiplicação (e a variedade) das fórmulas mostra apenas que não existe uma fórmula, mas cada escritor ou crítico foi capaz de perceber uma atitude, um método ou um truque que foi de utilidade para alguém no passado. E o presente continua na mesma, porque o que ajuda alguém a escrever não é uma fórmula; talvez seja a combinação única de uma dúzia de fórmulas que se harmonizam com seu jeito pessoal de pensar e de trabalhar.

Richard Harding David (1864-1916) disse: “O segredo da boa escrita é dizer uma coisa antiga de uma maneira nova ou uma coisa nova de uma maneira antiga”. Pode-se substituir coisa por idéia, e maneira por estilo. Esta frase, curiosamente, ecoa o que dizem muitos teóricos da ficção científica, para os quais temática de FC e técnica vanguardista não combinam. Por que? Porque a dose de novidade na temática FC é muito grande, requer do leitor, a partir da página 1, que se familiarize com outro planeta, outra civilização, outros hábitos, outra tecnologia... Existe uma estranheza fundamental na matéria descrita, e se a essa estranheza soma-se algum tipo de estranhamento na linguagem, o leitor se vê duplamente perdido.

Claro que poderíamos questionar isto exibindo muitas obras bem sucedidas de FC que têm uma linguagem no mínimo anticonvencional, como os romances de William S. Burroughs, mas não consigo imaginar toda a FC do mundo sendo produzida com aquela linguagem. A linguagem padrão da FC tem sido o romance tradicional, que é narrativo, descritivo e digressivo. A montagem dos capítulos, a organização dos parágrafos, a pontuação, tudo isso em mais de 100 anos tem se mantido muito homogêneo tanto na FC mais comercial e ingênua quanto na FC mais intelectualizada e inovadora. A sintaxe do romance clássico se expõe e se oferece para ser contaminada pelas doses vertiginosas de novidade e estranheza da história a ser contada, das “dramatis personae” convocadas à ação (alienígenas na raiz da palavra) e dos ambientes que o leitor é forçado a criar em sua própria mente, porque não correspondem a nada que ele tenha presenciado.

A FC tende a ser (embora jamais o seja 100%) um caso de “uma coisa nova de uma maneira antiga”; e isto é parcialmente confirmado pelo seu inverso, a literatura vanguardista, que em geral aborda temas e cenários banais ou minimalistas, para que o impacto da linguagem não sofra a interferência de um impacto de conteúdo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

2794) K: The Game (16.2.2012)




(The Modern Word)

Recebi anteontem o pacote da TrialAndError Inc., contendo a versão 1.0 de K, o game mais badalado desta estação. Como de hábito, mergulhei direto na experiência do jogo em si, sem consultar o material preparatório. Faço isto porque um game deve se assemelhar à vida, na qual desembarcamos sem ter feito cursinho ou treinamento. E não me arrependi. 

Um exame perfunctório da caixa me deu a idéia de que o jogo se concentrava na obra O Processo, mas no momento em que penetramos naquele labirinto percebemos que (possivelmente) toda a obra de Kafka irá se recriar diante dos nossos olhos, nas ruas de uma Praga em tons alternados de azul-chumbo, sépia-ferruginoso, cinza-grão, mogno-em-chamas.

A peregrinação de Joseph K pelos corredores do poder não se dá sem uma série de confrontos físicos (os dois agentes que o perseguem são especializados em castigos corporais, nos quais o jogador incorre com frequência, aleatoriamente). 

Demorei um pouco até perceber que a morte por degola num terreno baldio é uma possibilidade recorrente neste jogo, e, quando ocorre, é habilmente sucedida por um despertar em que o jogador acorda sob a forma de Gregor Samsa. 

E necessita cumprir uma série de tarefas, e vencer uma série de obstáculos, até conquistar o direito de acordar de novo como Joseph K na manhã de sua detenção, e começar de novo.

O Castelo aparece como um labirinto transdimensional que exige do jogador o máximo de acuidade de vista, reflexos rápidos, perfeita coordenação motora, além da capacidade de travar um diálogo metafísico e consequente enquanto corre ao longo de corredores-moebius sem fim. 

Respostas erradas às perguntas dos prepostos do Conde de West-West aumentam a ambiguidade geométrica dos abismos em forma de fractal.

A sutileza e a indireção estão presentes no jogo: a fase Samsa é um game em primeira pessoa em que não vemos o inseto que somos (não há espelhos na casa), e temos que adivinhar (sofridamente) como ele se locomove, se alimenta. 

Na fase “Colônia Penal” (um dos castigos alternativos para K), não sabemos quais as frases tatuadas na pele do condenado, mas todos poderão lê-las e agirão de acordo (sem nos explicar nada). 

A Muralha da China é outro labirinto interminável, em que é preciso montar citações literárias como tijolos num texto coerente, até fazer surgir na Muralha alguma das portas que levam ao Castelo. 

É um jogo intensamente literário; obras dos autores favoritos de Kafka podem ser lidas ou consultadas nas onipresentes estantes. Um dos universos-de-imersão mais fascinantes e inesgotáveis que a indústria dos games nos proporcionou nesta década de 2050. Cotação: 5 estrelas.






quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

2793) Drummond: “Quadrilha” (15.2.2012)



(La Ronde, de Roger Vadim)


Acabou se tornando um dos poemas mais populares de Drummond. Do ponto de vista técnico é quase tão antipoético quanto “No meio do caminho”, o poema-símbolo do modernismo, que foi execrado e endeusado, sempre, além do que era necessário. “Quadrilha” é ainda menos poético, porque do ponto de vista técnico quase não usa a famosa quebra de linha que ficou valendo como sinalização universal de que aquele texto, rimado ou não, metrificado ou não, quer ser lido de outro jeito.

Diz o poema: “João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém. // João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história”. Tornou-se popular porque esses minúsculos fragmentos da epopéia amorosa nos são intuitivamente familiares. Sabemos quem são, com outros nomes, essas pessoas que cumprem o destino comentado com certa amargura no mote de cantoria “No amor, tem um que ama / e um que se deixa amar”. Ou cantado com voz dolente e chorosa por Raul Sampaio: “Quem eu quero não me quer, quem me quer mandei embora...”

Se a primeira estrofe é romântica, a segunda é modernista pela irrupção do profano no sagrado, da banalidade da vida real sobre os sentimentos de quem quer que seja. Amar é um estado de espírito, um “verbo intransitivo” como sugeriu Mário; mas não importa quem ama ou quem é amado, a vida chega com seus conventos, seus Estados Unidos e tudo o mais. Boa noite, senhor amor, até a volta, tenho algo mais importante pra fazer.

O poema lembra também a peça de Arthur Schnitzler, Reigen (1897), que ficou conhecida como La Ronde após o filme rodado na França em 1950 por Max Ophuls (houve outra adaptação, por Roger Vadim, em 1964). É a história de encontros sexuais entre casais sucessivos: a prostituta e o soldado, o soldado e a criada, a criada e o jovem cavalheiro, o jovem cavalheiro e a jovem esposa, etc. A mecânica é diferente do poema de Drummond, mas em ambos existe a solerte sabotagem do amor como o casamento de duas almas predestinadas a se encontrarem, uma história escrita nas estrelas. No Modernismo, o amor é uma atividade social, uma forma de conhecer pessoas, uma fonte de curiosidade e de revelações. E uma fonte de banalidade e tédio, como ameaça ser a vida de Lili através de seu casamento com um sujeito indicado pelo nome de “J. Pinto Fernandes”. Este personagem que desce sobre o Romantismo como um golpe de cutelo era “Brederodes” na versão inicial do poema; ficou menos galhofeiro e mais arrepiantemente real.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

2792) Cinema de autor (14.2.2012)



(Terry Gilliam)
 

Num texto publicado por Filmmaker, the Magazine of Independent Film, um dos meus diretores preferidos, Terry Gilliam, dá seus conselhos (um tanto heterodoxos, felizmente) sobre a arte de fazer cinema. Comentarei alguns, principalmente aqueles de que discordo. (Conselho óbvio entra por um ouvido e sai pelo outro, não é mesmo? “Tenha boas idéias... Transmita segurança diante da equipe... Não estoure o orçamento...”). 

Gilliam é um dos autores que me levam ao cinema só para curtir a desbragada e irreprimível criatividade visual dos filmes que faz. Tudo nele é exagerado, barroco, delirante, cheio de coisas que dá vontade de ficar o tempo inteiro voltando a imagem e esquecendo a história só para curtir aquele quarteirão de casas impossíveis, ou aquele figurino cheio de deliciosos anacronismos, ou aquele monstro feito de papelão e pixels. Quantos diretores há, no cinema comercial de hoje, com a mesma verve visual e a mesma sem-cerimônia? Tim Burton, Jean-Pierre Jeunet e mais alguns poucos. 


Diz Gilliam: 

“Cinema de autor já era, o que vale agora é cinema de filtro. Ser um autor de filmes é o que a gente sonhava nos anos 50 e 60, quando a idéia do cineasta autor chegou neste planeta. E as pessoas continuaram usando esse termo, e o usam com meus filmes porque acham que eles são muito pessoais, então me dão todo o crédito e dizem que sou um autor. E eu digo que não; a realidade é que eu sou um filtro. Sei o que estou tentando fazer, mas tenho à minha volta uma porção de pessoas que são meus amigos e não acatam ordens e não me dão ouvidos, mas têm idéias próprias. E quando eles vêm com uma boa idéia, se é uma que se encaixa no que estou tentando fazer, eu a uso. Assim, o produto final é uma colaboração de uma porção de pessoas, e eu sou o filtro que decide o que entra e o que não entra no filme”. 

Isso que Gilliam descreve, contrapondo ao cinema de autor, é justamente – no meu modo de ver – o cinema de autor. Um autor não é um ditador que dá ordens misteriosas, bate o chicote, e manda refazer a cena cem vezes. (Há autores assim – Kubrick, p.ex. – mas essa é uma distorção do conceito.) 

Tanto em movimentos fortemente autorais como a Nouvelle Vague e o Cinema Novo quanto nos momentos mais harmoniosos dos grandes estúdios de Hollywood (quando diretores, produtores e roteiristas concordavam em fazer o mesmo filme) o diretor não é um distribuidor de idéias de cima para baixo, mas um arregimentador de idéias em torno, um catalisador da criatividade alheia. (Mas Terry Gilliam conhece o mundo do cinema melhor do que eu, e pode até ser que o Autor Que Dá Chilique seja estatisticamente mais frequente.)







domingo, 12 de fevereiro de 2012

2791) O santo e o culto (12.2.2012)



É uma história tão espalhada por aí que pode ser considerada um mito menor. Uma narrativa cuja estrutura básica surge em diferentes culturas, em qualquer época: a vida de um sujeito cujas façanhas o tornam famoso e respeitado, e que um belo dia morre (geralmente na guerra) ou desaparece. Em torno de sua memória cria-se um culto que acaba tomando proporções inesperadas. Outro belo dia, o Herói, que na verdade não tinha morrido, reaparece. E vê com espanto (ele volta incógnito, sem que ninguém o reconheça) que está sendo cultuado de uma maneira totalmente equivocada. O futuro celebrizou uma pessoa completamente diferente de quem ele julga ser.

A novela Roque Santeiro (Dias Gomes e Aguinaldo Silva) utilizou esta situação básica, fazendo com que Roque (José Wilker), que é na verdade um espertalhão, se divirta com o culto que se criou em torno dele, endeusado como se fosse um santo. Esta parece ser uma narrativa muito presente na memória nordestina. Em Livro dos Homens, de Ronaldo Correia de Brito, acontece algo parecido: encontra-se no rio o cadáver de um homem, bem vestido, morto a facadas. Pessoas piedosas o sepultam, começam a rezar junto à cova do morto desconhecido. Isso se torna um hábito local, e daí a alguns anos aquela sepultura recebe enormes romarias de peregrinos. Um dia, alguém chega ali e descobre que a pessoa que está sendo adorada é um homem que cometeu um crime e que foi morto por vingança.

A ficção científica deu sua contribuição a este mito com Um Cântico para Leibowitz (1960) de Walter M. Miller Jr., e com Limbo (1952) de Bernard Wolfe. Neste, um cientista, Martine, é dado como morto durante uma guerra mundial. Seus manuscritos científicos, encontrados por amigos, tornam-se a base para a reconstrução do mundo futuro, onde a ânsia pacifista leva os homens a amputar os braços e pernas e substituí-los por próteses. Acontece que Martine está vivo; ele passara 20 anos perdido entre os selvagens de uma ilha remota, e quando consegue voltar para a civilização fica aterrorizado com o mundo que encontra. Fica mais surpreso, e furioso, quando descobre que esse mundo tem seus escritos (mal interpretados) como um verdadeiro Evangelho. O resto do livro é sua tentativa para destruir esse mundo do qual é o involuntário profeta.

Limbo é o único livro de FC de Bernard Wolfe, escritor que teve uma vida aventureira, tendo sido inclusive guarda-costas de Leon Trotsky no México, e é uma interessante retomada desse antigo tema. Todo culto a um morto é um mal-entendido, e em muitos casos é também uma traição a esse morto, que, se retornasse, não se reconheceria na imagem que fazem dele.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

2790) O charme das ruínas (11.2.2012)




Multiplicam-se na Internet os saites de fotos de lugares abandonados. São hospitais, hotéis, aeroportos, fábricas, colégios... Edifícios enormes e vazios, esquecidos, invadidos pelo mato, perdendo teto e paredes com a ação do vento e da chuva. 

Muitos ainda guardam resíduos da presença humana: roupas nas gavetas, quadros e fotos nas paredes, objetos pessoais ou equipamento técnico deixados em cima da mesa. 

É como se de um instante para outro todas as centenas de pessoas que moravam ou trabalhavam ali tivessem se evaporado, e o edifício, subitamente oco, iniciasse seu processo irreversível de deterioração.

Num texto antigo neste coluna (http://bit.ly/wyYHSF) escrevi sobre os fotógrafos que visitam esses lugares e captam o seu charme decadente. Um lugar em ruínas é um espaço humano esvaziado de seu conteúdo humano (do ponto de vista físico – as pessoas), e que por isso mesmo torna precioso qualquer conteúdo humano (=cultural) remanescente. 

Uma boneca de criança no chão de um hotel cheio de gente é apenas um boneco perdido que precisa ser devolvido à dona; a mesma boneca no corredor de um hotel desabitado e invadido pelo mato ganha um ar de tragédia irremediável.

Caetano Veloso observou, numa canção, que “no Brasil tudo ainda é construção e já é ruína”. Vemos num Ciep inacabado, tomado pelas ervas daninhas, um pedaço do futuro (o Ciep que iria ser concluído e estaria cheio de crianças) e do passado (em algum momento do passado o Ciep “morreu” e quedou-se entregue a si mesmo). 

Usa-se bastante hoje (inclusive na ficção científica) o termo “heterotopia”, ao que parece proposto por Michel Foucault, para designar espaços/lugares contraditórios, onde vigoram leis diferentes das que vigoram no espaço urbano comum. Um hospital é uma heterotopia; um hospital abandonado e em ruínas o é duplamente. A presença humana é ressaltada pela ausência de humanos, deixando apenas pistas espalhadas.

Como o Hotel Overlook de O Iluminado (Stephen King, Stanley Kubrick) cada uma dessas fábricas, desses aeroportos, quartéis, essas construções parecem saturadas de presenças invisíveis. E pela ameaça da intrusão do fantástico no cotidiano. Assemelham-se aos navios como o “Mary Celeste”, que são encontrados à deriva, com tudo intacto, mas sem o menor sinal dos passageiros e tripulantes. 

Cada um desses prédios nos dá o vislumbre do que será um dia nosso planeta, quando a primeira nave alienígena pousar aqui. Observarão nossas enormes construções vazias e perguntarão: “O que aconteceu com eles? Por que se extinguiram tão depressa, justo quando tinham nas mãos uma tecnologia capaz de resolver todos os seus problemas?”.








sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

2789) Endeusando livros (10.2.2012)




A imprensa está alvoroçada com a aproximação da noite do Oscar, quando os coleguinhas acompanham a premiação da Academia e se envolvem em deblaterações sobre quem merecia mais a estatueta X – se era o milionário Y ou a prima-dona Z. Impressionante como o mundo leva a sério esses prêmios. Repetidas vezes, em palestras e debates, vem gente me perguntar: “Você disse que o filme Tal é bom. Se é, por que não ganhou o Oscar?”. E olhe, não é preconceito meu contra a indústria cultural norte-americana, ou melhor, é preconceito sim, porque se o meu conceito de cinema bater de frente com o conceito deles a nuvem de fumaça vai ser enxergada lá em Hiroshima; mas tenho o mesmo preconceito com o Prêmio Nobel de Literatura (não dou palpite nos demais, não entendo), que é concedido por um grupinho de velhotes fora da realidade, e de vez em quando cai na cabeça de um bom escritor pelo simples fato de que (felizmente) o mundo é cheio de bons escritores, e muitos deles contam com boa assessoria de marketing. A relação do Oscar com o cinema e do Prêmio Nobel com a literatura é a mesma que os colunistas sociais mantêm com a população de uma cidade.

Muito bem. Encerrada a diatribe, vamos ao assunto. Concorre este ano ao Oscar este curta-metragem charmoso e delicado, The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore (http://tireotubo.blogspot.com/2012/02/curta-metragem-indicado-ao-oscar-que-e.html). É um filme de animação de técnica mista, com menos de 15 minutos, sobre um rapaz que, arrebatado de sua casa por um furacão, vai parar num lugar remoto onde os livros são criaturas vivas, que não falam mas se comunicam com ele de modos variados. Inspirado (ao que se diz) pelo tufão que destruiu a cidade de Nova Orleans, o curta é uma parceria entre o ilustrador William Joyce e o animador Brandon Oldenburg, ambos da Louisiana.

É um filme feito por quem ama os livros, para quem ama os livros. Quem não gosta de livros vai vê-lo com o mesmo misto de tolerância e desinteresse com que nós observamos as pessoas que colecionam flâmulas de time de futebol ou moedas antigas. À medida que o tsunami digital (ou, em vista da origem do curta, o Katrina digital) se ergue e invade ruas, cidades, corações e mentes, o livro vai sendo cada vez mais cultuado como objeto mítico, como símbolo, como uma mistura de criatura viva e de semideus que tem todas as respostas. Talvez o mundo digital, ironicamente, transforme o livro, daqui a um século, no objeto de um culto religioso. Estarão cobertos de inscrições sagradas como os hieróglifos egípcios, que ninguém consegue ler mas admite que contém verdades transcendentais.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

2788) A criação inconsciente (9.2.2012)



(Jon Kuta, "Schizophrenia")

Em sua palestra na revista eletrônica Edge (http://bit.ly/vmEGf8), o biólogo Mark Pagel comentou: “Eu gostaria de sugerir que os nossos processos criativos estão bem próximos de ser uma coisa aleatória. Nossos cérebros podem estar funcionando num nível subconsciente, criando idéias o tempo todo, o tempo inteiro, sem parar, e outra parte da nossa mente subconsciente está testando essas idéias. E aquelas que acabam se infiltrando em nossa consciência podem ser as que aparentam estar bem formadas, mas isto é porque elas podem ter passado através de um filtro, juntamente com uma porção de outras idéias randômicas, antes de chegar ao nosso consciente”.

Já deve haver por aí um mapeamento desse processo. Acompanhamento elétrico da atividade cerebral, mas nada que nos faça dizer com segurança coisas como: “Neste momento, ele estava à procura de um advérbio para completar uma frase”, ou “Ele está visualizando a rua em que mora e tentando imaginar se o trânsito vai estar bom, quando voltar para casa à noite”. Ainda não chegamos a esse ponto, mas não chega a ser impossível.

A atividade criadora, no entanto, parece ser permanente nos andares do cérebro feitos da Matéria Escura do universo. Einstein, Poincaré, Galileu, Kékulé, Descartes e outros já tiveram revelações inesperadas, caiu-lhes do céu a resposta que buscavam longamente a um problema científico ou matemático. O sujeito maltrata o juízo durante semanas ou meses em busca de uma resposta, e nada dela aparecer. Aparece quando ele está subindo num trem ou dormindo. Por que? O trabalho inconsciente, a preparação febril de dezenas de respostas que são avaliadas por um processo intermediário, exigente, paciente, que só deixa passar até a consciência aquelas idéias que lhe parecem ter algum potencial.

Chamar esse processo de “inspiração artística” idealiza sua natureza e dá a entender que ao artista basta esperar pelo inconsciente. Ora, o processo é aleatório, mas passa por muitos filtros. O inconsciente é preguiçoso e desorganizado. Botá-lo pra trabalhar pra gente demanda um bocado de esforço, porque ele só quer trabalhar para si mesmo. Essas iluminações repentinas só acontecem a quem está virando noite, fazendo serão, quebrando a cabeça em busca de uma resposta. A resposta, que parece cair do céu, sobe à superfície no meio desse caldo borbulhante de combinações, associações de idéias, hipóteses meio absurdas, tudo isso comparado, descartado, resgatado, escolhido, trazido à consciência. “Inspiração” é o resultado de muito trabalho duro. Não é por ser inconsciente que é menos trabalhoso. O inconsciente funciona melhor sob pressão.