terça-feira, 22 de julho de 2008

0455) O momento de decisão (3.9.2004)



Ainda emocionado pela medalha de ouro do time de vôlei, voltei a ligar a TV durante a tarde para pegar o finalzinho da Maratona. Gosto de maratonas e de corridas-de-São-Silvestre, mais do que das provas de velocidade. Gosto desses esforços do tipo devagar-e-sempre, se bem que devagar não é bem o termo. Não me identifico muito com a explosão do “sprinter” que faz 100 metros em 10 segundos. Gosto mais do cara que é capaz de sustentar uma teimosia durante quarenta quilômetros, cinqüenta anos, esse tipo de coisa.

Surpresa! Quem está liderando é um brasileiro, Vanderlei Cordeiro de Lima. Lá vem ele, deixando para trás um pelotão de fundistas, inclusive aquele crioulo magro, o queniano Paul Tergat, que já conheço de outros reveions. Vanderlei vem com 40 segundos de vantagem! Fico aos pulos por dentro de casa. Já pensou? A gente encerrar a Olimpíada ganhando o ouro na Maratona, a prova mais tradicional de todas?

De repente... que é isso? Um sujeito maluco, fantasiado, invade o asfalto, abraça Vanderlei, empurra-o para fora da pista, derruba-o na calçada, no meio da multidão! Há um tumulto generalizado. As câmaras da TV se aproximam. Guardas e fiscais da prova estão tendo trabalho para separar os dois. Vanderlei está possesso: “Como é que pode! O cara me tirou da pista! Eu ia ganhar a prova!” Os fiscais, atarantados, falam nos walkie-talkies. Vejo flashes rápidos do público que espera no Estádio Panathinaiko, a consternação de todos ao contemplar pelo telão o enorme “salseiro” armado em torno da briga. Outros corredores perdem um tempo precioso tentando varar a multidão, que invadiu a pista. Minutos depois já temos flashes das autoridades do COB exigindo a anulação da prova – que aliás acabou sendo interrompida mesmo, devido ao tumulto. Aparece um novo flash com Vanderlei. Ele está nervoso, revoltado: “Eu ia ganhar. Todo mundo viu que eu vinha na frente. Não ganhei por causa do cara. Quero minha medalha!”

Não foi bem assim, não é, caro leitor? O mundo inteiro viu que Vanderlei perdeu uns 15 segundos desvencilhando-se do maluco, e voltou à corrida. Ele poderia perfeitamente ter “armado o maior barraco”, convocado testemunhas, chamado os advogados, pressionado o Comitê para que lhe desse ali mesmo a medalha, e mais uma polpuda indenização-por-danos-morais-e-materiais. Conheço uma porção de “desportistas” que fariam exatamente isto. Vanderlei, não. Perdeu tempo, perdeu pressão, e ficou meio desorientado – tanto que acabou ultrapassado pelos dois corredores que chegaram à sua frente; mas não parou, e creio que nem pensou em parar. Espírito olímpico? Bravura? Patriotismo? Acho que não. Acho que Vanderlei é acima de tudo um maratonista, e a lei do maratonista, menos do que chegar em primeiro, é mostrar que consegue completar a prova. Vanderlei tomou a decisão certa, na fração de segundo que teve para decidir. Que os deuses da Grécia o abençoem. E nos iluminem com seu exemplo.

0454) A violência na TV (2.9.2004)



Eu me preocupo muito quando vejo esses garotos de hoje diante da TV contemplando assassinatos, roubos de carro, assaltos à mão armada, explosões criminosas, chantagens, estupros, torturas, espancamentos. Não, não estou me referindo ao Jornal Nacional ou a Linha Direta: refiro-me aos desenhos animados que a galera de hoje assiste nas TVs a cabo. Muita gente me alerta de que isto é o começo do fim do mundo. Que estamos forjando uma geração de pit-boys. Que essa banalização da violência tende a torná-la irrelevante e a anestesiar os escrúpulos.

Será que é? Pode ser. Não tenho certeza de nada. Me lembro apenas que passei a minha infância matando gente por dentro de casa, minha mãe preparando o almoço e eu entrincheirado na cozinha, rifle em punho, defendendo os batalhões do General Custer, fuzilando sem piedade os peles-vermelhas que queriam arrancar o nosso escalpo. Acho que me serviu foi de terapia, porque cresci, sou um cara pacífico, nunca atirei em ninguém. Pra completar, já li Enterrem meu coração na curva do rio e a Carta do Chefe Pontiac, e minha compreensão do problema indígena está bem melhorada.

Penso nisto diante das notícias da primeira execução pública de um condenado à morte na Índia nos últimos 13 anos. Dhananjoy Chatterjee, de 41 anos, foi executado no mês de agosto, depois de passar 13 anos no “corredor da morte”, pelo estupro e assassinato de uma adolescente. A execução teve intensa cobertura da mídia. Dias depois, um garoto de 14 anos chamado Prem Gaekwad amarrou uma corda ao pescoço e pendurou-se no ventilador do teto, morrendo asfixiado. O pai do menino disse tratar-se de um garoto muito inteligente; disse também que o garoto fez muitas perguntas sobre o modo como o criminoso iria ser executado. Uma semana depois, em Bengala Ocidental, uma garota de 12 anos morreu enforcada quando tentava explicar ao irmão mais novo como tinha sido a execução de Chatterjee. No mesmo estado, outro garoto de 10 anos escapou por pouco de outra “execução simulada”.

O meu palpite é de que as crianças sabem muito bem quando uma coisa é filme e quando uma coisa é pra valer. Não só a linguagem usada pela TV é diferente: eles vêem uma expressão diferente nos olhos e nos rostos dos pais. Eles sentem que a reação emocional da sua família e de toda a vizinhança é outra. Todo mundo comenta. Todo mundo toma partido. A morte daquele cara é mais real do que a de mil índios ou mil extraterrestres. É um ritual, é tratado como um ritual: ceias são interrompidas, as pessoas se agrupam diante da TV para ver o último boletim. Aos olhos de uma criança, o fato fica carregado daquela eletricidade emocional que elas e os animais domésticos são os únicos a captar. Desenho é desenho, mas quando uma morte é real as crianças percebem, e o modo como irão reagir vai depender do que cada uma tem na cabeça, vai depender do tipo de esclarecimento que recebem em casa.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

0453) Kafka e o Monstro (1.9.2004)



Acho que a maioria das pessoas, a esta altura, conhece pelo menos de ouvir falar a história de Franz Kafka intitulada A Metamorfose, que começa assim: “Certa manhã, ao despertar em sua cama de um sono inquieto, Gregor Samsa percebeu que tinha se transformado em um inseto monstruoso”. Para analisar e interpretar esta história os críticos já gastaram tinta que encheria um Açude Velho. Recentemente tomei conhecimento de uma carta escrita por Kafka em 25 de outubro de 1915 para seu editor, Kurt Wolff Verlag, em que ele diz:

“Prezado Senhor: O sr. mencionou recentemente que Ottomar Starke será o autor de ilustrações para A Metamorfose. Na medida em que conheço o estilo do artista, essa possibilidade me causou um pequeno e talvez desnecessário receio. Ocorreu-me que Starke, como ilustrador, poderia tentar desenhar o inseto propriamente dito. Isto não, por favor, não! Não quero impor-lhe restrições, mas apenas fazer este pedido devido ao conhecimento mais profundo que tenho da história. O inseto não pode ser representado. Não pode sequer ser visto à distância.”

Temos (todo leitor tem) uma capacidade inesgotável de imaginação para o monstruoso. O problema é quando um ilustrador, que também a tem, usa a sua, e acaba por bloquear e inibir a nossa. O pedido de Kafka é mostra de sua sensatez e de seu entendimento profundo de como funciona uma narrativa fantástica ou de horror. E me trouxe à mente o conto lovecraftiano de Jorge Luís Borges “There are more things” (em O Livro de Areia). Nele, o narrador descobre que a mansão que fôra de seu tio tinha sido alugada por um inquilino misterioso, que ninguém até então avistara pessoalmente. Uma série de indícios leva-o a crer que se trata de um ser alienígena e monstruoso. À noite, ele entra às escondidas na casa, quando o inquilino está fora, e descreve o que viu:

“Lembro agora de uma espécie de grande mesa operatória, muito alta, em forma de U, com cavidades circulares nos extremos. Pensei que podia ser o leito do habitante, cuja monstruosa anatomia se revelava assim, obliquamente, como a de um animal ou de um deus, por sua sombra.” Sugerir o Monstro por traços indiretos é mais eficaz do que descrevê-lo com precisão fotográfica: cada leitor julgará entrever (cada leitor, a cada nova releitura) o Monstro que seu medo e seu desejo lhe sugerirem.

No fim do conto, o protagonista prepara-se para deixar a mansão quando percebe que o inquilino monstruoso está de volta, e que a porta da rua fora deixada aberta. E o conto termina assim: “Meus pés tocaram o último lance da escada, quando senti que algo subia pela rampa, opressivo e lento e plural. A curiosidade pôde mais do que o medo, e não fechei os olhos.” A curiosidade sempre pode mais que o medo, e ambos são os maiores estímulos para a imaginação. O autor fornece a situação: nós fornecemos o Monstro, e ele sempre tem algo de nosso próprio rosto.

0452) Escalando o monte Olimpo (31.8.2004)



O futebol pode ser o esporte que mais nos apaixona: todo brasileiro (este “todo” é uma hipérbole, claro) sabe de cor a escalação da Seleção atual, e tem no bolso da camisa sua escalação preferida, que é muito melhor do que a do Parreira. Mas não é a Copa do Mundo o evento esportivo que nos define como povo. São os Jogos Olímpicos, onde participamos, como todo mundo, com o que temos de melhor em cada esporte. Por suprema ironia, nestes Jogos de Atenas ficou de fora justamente o nosso filho mais brilhante e mais mimado, o futebol masculino, que no Pré-Olímpico resolveu rebolar e usar salto alto, e acabou sendo substituído pelo futebol feminino, que, sabiamente, preferiu correr e calçar chuteiras.

Ganharam a prata, as meninas, e um dos indicadores do nosso fracasso como nação esportiva é o fato de que provavelmente continuarão todas desempregadas, treinando por conta própria, perdendo jogos decisivos para equipes mais preocupadas em finalizar jogadas para dentro do gol do que em “quebrar uma escrita que já dura tantos anos”, ou “mostrar por que somos o país do futebol”, ou “resgatar a auto-estima da mulher brasileira”, ou bobagens semelhantes que os cartolas e nós, da imprensa, vivemos repetindo.

Batemos pino no futebol, e vemos subir ao pódio o pessoal da vela, do iatismo. Vi um crioulo resmungar, diante da TV de um botequim, que mostrava a entrega de uma medalha a Torben Grael ou Robert Scheidt: “Agora danou-se, até no esporte eles estão tomando o lugar da gente.” Na cabeça desse indivíduo, certamente, há uma olimpiadazinha interna no Brasil entre ricos e pobres, e ele via com preocupação o fato de nossos ex-favelados estarem indo pro espaço nas eliminatórias, enquanto o pessoal de olho azul e sobrenome europeu singra como cisnes brancos as águas da vitória.

Não concordo, mas compreendo. As Olimpíadas têm que nos representar como povo, num corte vertical onde estejam presentes todas as camadas de gente que nos compõem. O problema é que elas refletem também nosso imenso conflito emocional, de gente que quer compensar seu complexo-de-inferioridade adquirindo um complexo-de-superioridade. Em Atenas 2004 ganhamos quatro ouros que compensaram a frustração de Sidney 2000. Naquele ano, publiquei no “Jornal da Tarde” de São Paulo um artigo em que dizia:

“Falta de patrocínio, excesso de patrocinadores, instabilidade emocional, paúra de novato, traumas de veterano, influência daninha do marketing, assédio invasivo da imprensa, falência do modelo neo-liberal – tudo já foi invocado para explicar por que motivo na hora H nossos atletas dão aro. Eu não gostaria de, na hora de cortar de encontro a um bloqueio, estar pensando na percentagem da cota, na revisão do contrato, na fogueira das vaidades, nas expectativas do fã-clube, na manutenção de uma escrita, na coletiva do aeroporto... Eu queria poder estar pensando apenas na bola, no tempo, no espaço, na rede, no olho, no braço.”

0451) A porta de entrada (29.8.2004)




Muitas vezes a gente se decepciona com um autor apenas porque tentou acessar sua obra pela porta errada. Nem toda porta serve como porta de acesso ao trabalho de um escritor (músico, cineasta, etc.). 

Meu total desconhecimento da obra de determinados figurões da literatura ou da filosofia se deve a este detalhe crucial. Inventei de ler o livro mais famoso, e acontece que ele era também o mais complicado. 

É o caso de James Joyce, por exemplo. Quem tentar se aproximar dele através de Ulisses vai dar com a cara na porta, e uma porta do tamanho da Muralha de Tróia. Leiam os contos de Dublinenses, meus camaradas. São pequenos quadros da vida cotidiana da cidade, com uma linguagem rica em visualização e sensorialidade, finura psicológica, olho fino e irônico para as convenções sociais. 

Depois, pode-se passar para o Retrato do Artista Quando Jovem, cuja linguagem é mais cheia de curtos-circuitos, e que introduz temas e personagens expandidos no Ulisses. O qual será um livro mais aberto, depois de lidos estes dois.

Guimarães Rosa é a mesma coisa. Milhares de incautos perderam-se na veredas do Grande Sertão, ou na ilusória brevidade dos contos de Tutaméia, que é justamente o livro onde a linguagem de Rosa está mais maneirista, mais rococó, mais churrigueresca. O melhor acesso é através dos contos de Sagarana, depois os de Primeiras Estórias e finalmente nas noveletas de Corpo de Baile (hoje desmembrado em 3 volumes).

Quando um autor fica famoso, publicam-se até os seus erros de mocidade, aqueles livros de aprendiz que o sujeito sempre se arrepende de ter escrito. O leitor que não o conhece fica perdido diante de uma estante inteira de títulos disponíveis, cada um dos quais descrito na contracapa como uma obra da maior importância. Sem saber a quem perguntar, o leitor faz um puxa-o-rabo-do-tatu com seus botões e acaba comprando um livro que se revela como o mais difícil, ou o mais chato, ou o mais irrelevante. 

Minha apreciação da obra musical de Frank Zappa ficou comprometida durante muitos anos pelo fato de que o primeiro disco que escutei foi Reuben and the Jets, que é uma sátira aos conjuntinhos pop. Fiquei perplexo: “Oxente, é esse o cara que chamam de gênio patafísico da vanguarda do rock?” Só tentei de novo dez anos depois. 

Imagino a decepção de quem tente conhecer Bob Dylan ouvindo o Self Portrait, Alfred Hitchcock assistindo Topázio, ou Agatha Christie lendo O mistério dos sete relógios.

A melhor porta de entrada para os Beatles, por exemplo, é Rubber Soul. O disco é uma bela amostra dos roquinhos mais bobos, das baladas irretocáveis (“Girl”, “Michelle”) e abre o caminho para a maturidade futura com “Nowhere Man”, “In My Life” e “Norwegian Wood”. 

Ouvindo-o, ficamos sabendo tudo de que os caras são capazes, e qualquer outro disco não soará totalmente estranho. Nem sempre a melhor obra para se iniciar uma convivência é a primeira, ou a mais importante, ou a mais simples.





quinta-feira, 17 de julho de 2008

0450) Cuidado com os robôs (28.8.2004)



No mesmo dia em que assisti Eu, Robô de Alex Proyas liguei a TV à noite e um canal a cabo estava exibindo Minority Report de Spielberg. Por alguns instantes tive a sensação de estar revendo o filme anterior. A mesma metrópole futurista, prédios com aquela mesma textura mista de alumínio, vidro fumê e filtros óticos. Os mesmos carros reluzentes executando deslocamentos imprevistos. Os mesmos interiores assépticos, cheios de vidros e acrílicos. O mesmo protagonista problemático: um policial divorciado, com uma tragédia no passado, às turras com a corporação a que pertence, e forçado a agir contra a lei para desmascarar uma conspiração.

Seria injustiça dizer que o filme copia de uma só fonte. A primeira saída de Spooner (Will Smith) à rua não é menos do que um pastiche diurno das caminhadas de Rick Deckard em Blade Runner; até a cena da perseguição ao robô que parece ter roubado uma bolsa lembra Deckard perseguindo a andróide Zora (Joanna Cassidy). Os dois caminhões fechando o carro de Spooner no “minhocão” futurista parece uma tentativa de “pagar” a cena da perseguição dos carros em Matrix 2. O robô Sonny fala com o mesmo tom expectante e aveludado da voz do computador Hal 9000 de 2001, uma Odisséia no Espaço. A multiplicação final do exército de monstros idênticos lembra a horda de nosferatus calvos em Dark City, com a atenuante de que este filme foi dirigido pelo próprio Proyas.

Os filmes ficam cada vez mais parecidos porque sempre que um “produto” (é assim que os estúdios os chamam) obtém uma “boa resposta de mercado” os concorrentes, os colegas e os imitadores profissionais passam um pente fino nele, tentando descobrir o que o fez dar certo, e de que maneira é possível reproduzir esse mecanismo. Tais filmes são concebidos exatamente como se concebe um robô: analisando um aspecto do corpo humano (visão, audição, movimento, etc.) e tentando construir uma engenhoca que o reproduza.

Gostei de algumas coisas no filme de Prohyas. Não há uma só novidade, nem mesmo nos efeitos, que pelo menos para mim são um mero refinamento do que já vem sendo realizado. Em termos de roteiro, é banal, consegue ser mais banal até do que as histórias originais de Asimov, cujos “plots” sempre padeceram de um certo ar mecânico, com tudo planejado e raríssimas surpresas. Gostei, por exemplo, do comportamento insetóide dos robôs, que individualmente parecem delicados e até femininos como um computador Macintosh, mas em grupo assumem um ar de malignidade coletiva – e que lembra, em alguns momentos, a famosa cena do combate dos esqueletos de Ray Harryhausen no clássico Jasão e os Argonautas (1963). É mais perturbador ainda porque reconhecemos, nos seus movimentos, a mesma cadência de movimentos que vemos na maioria das computações gráficas. É como se eles fossem reais. Como se estivessem invadindo vários filmes ao mesmo tempo. Como se tivessem vindo para ficar.

0449) O ovo olímpico (27.8.2004)



Brasileiro adora contar com o ovo no asterisco da galinha. Ainda mais quando se trata da galinha-dos-ovos-de-ouro da glória olímpica. É engraçado comparar a empáfia brasileira com a empáfia norte-americana. Os nossos simpáticos irmãos do Norte se acham os donos do mundo em qualquer coisa. O campeonato de beisebol deles é chamado de “World Series”, mas tudo bem – afinal, quantos países jogam beisebol além dos EUA, Cuba e Japão? Faz um pouco de sentido. Não faz é no basquetebol. O nível da NBA americana pode ser impressionante, mas fora dos EUA sempre existiram escolas de basquete respeitadíssimas. Não importa: me lembro de que um dia desembarquei em Chicago e vi o aeroporto de Ohare totalmente decorado com faixas dizendo: “Saudamos os Campeões do Mundo!” Era o Chicago Bulls que tinha acabado de conquistar o campeonato americano.

O Brasil é o contrário. Tirando o bendito futebol, que anda numa fase boa (duas Copas e um vice nos últimos 10 anos), os vôleis e alguns esportes aquáticos, estamos entre os melhores em que, mesmo? Note a sutileza, leitor: não falei “somos os melhores”, e sim “estamos entre os melhores”, o que na minha modesta opinião exprime muito melhor a realidade do esporte. Ninguém “é o melhor” em coisa nenhuma. No esporte, o que existe é uma espécie de grupo de elite que vai de dois ou três até uma dúzia de competidores, todos mais ou menos num mesmo nível. Os resultados se decidem por detalhes: preparação técnica e física, inovações táticas, nervos no lugar, etc. Sem falar no Sobrenatural de Almeida, o personagem criado por Nelson Rodrigues, e que melhor traduz o elemento imponderável e imprevisível que tantas vezes decide uma competição.

O engraçado é que quando se trata da honra da pátria brasileira, parece que até o Sobrenatural de Almeida é barrado na porta. Vi numa TV, semana passada, o locutor anunciando eufórico: “E não percam, na próxima segunda-feira, a transmissão do ouro olímpico de Daiane dos Santos!” Pobre de Daiane, que treina 7 horas por dia. Parecia ser ela a única a saber que ao trilar do apito tudo é zerado, e você tem alguns segundos para tentar a perfeição pela milésima vez. De nada adiantam os resultados anteriores. Na véspera da final, ela disse: “Treinei, repassei a série toda, o joelho não doeu, estou bem. Agora, quando for na hora tem que sair tudo certo.”

Certa vez Zico comentou um fracasso da nossa Seleção: “Parece que eles não foram disputar uma medalha, foram buscar uma medalha.” Daiane foi disputar. Tinha vencido cinco competições seguidas, mas isto nunca garante que alguém vencerá a sexta. Resultados não se acumulam. O que se acumula (e é patético termos que reconhecer isto) é o nosso complexo de inferioridade de terceiro-mundistas, sempre esperando o salvador-da-pátria que vingue todas as nossas humilhações passadas. Peso demais para quem busca a perfeição em um minuto e meio.

0448) Deus e o gueto de Varsóvia (26.8.2004)




(a guerra no Gueto de Varsóvia)

Comentei nesta coluna o livro de Zvi Kolitz Yossel Rakover dirige-se a Deus, onde um judeu do gueto de Varsóvia registra seus últimos pensamentos antes de ser morto pelas tropas nazistas. Publicado em Buenos Aires em 1946, o texto curto de Kolitz conheceu uma imensa popularidade. 

A criação do Estado de Israel em 1948 acendeu, principalmente, na Europa, uma imensa discussão sobre o Holocausto e sobre aspectos da cultura e da fé judaica. A edição brasileira (Ed. Perspectiva, São Paulo, 2003) traz o texto original, um longo ensaio de Paul Badde sobre o autor, e um texto de Emmanuel Levina, “Amar mais a Torá que Deus”, de 1955.

No conto de Kolitz, Yossel Rakover está cercado pelos nazistas num sobrado do gueto, combatendo as tropas alemãs com o auxílio de coquetéis Molotov. Ao perceber que só lhe restam algumas horas de vida, ele escreve esse documento, onde pede contas a Deus pelos fatos terríveis que estão acontecendo. E afirma que, por mais que Deus abandone seu povo, ele continuará a amá-Lo, e a amar a sua Lei. É um documento emocionante, onde um indivíduo sozinho, ferido, encurralado, fica de pé e interpela Deus, pedindo-lhe uma explicação por ter abandonado o seu povo.

A história de Rakover me trouxe à memória um conto clássico de ficção científica: “Pois sou um Povo Ciumento” (“For I am a Jealous People”), de Lester del Rey (1954). 

A história se passa no interior dos EUA, quando a Terra está sofrendo uma invasão alienígena. Os invasores são ferozes, impiedosos, destroem tudo. O protagonista é um sujeito profundamente religioso que ajuda a população da cidade a combater, se entrincheirar, bater em retirada quando é preciso. Durante todo o tempo ele se indaga como é possível que Deus, que é tão bondoso, permita algo assim.

A certa altura, ele retorna durante a noite à cidade, que já está ocupada pelos alienígenas. Ele percebe que um grupo deles encaminha-se para a igreja local, e vai atrás. Consegue entrar na igreja às escondidas, e de lá observa espantado que os extraterrestres estão diante do altar, fazendo uma espécie de ritual. E de repente, surge ali uma Luz quase insuportável. 

Transido de horror e de deslumbramento, ele tem a revelação: é Deus que está se manifestando ali. Deus surge e se revela como nunca se havia revelado naquela igreja. E nesse instante ele entende que está acontecendo. Deus existe, sim, mas o Seu povo não somos nós, os terrestres. Deus fêz uma Aliança com aquele povo de outro planeta, e o autorizou a invadir a Terra e nos exterminar.

Não revelarei aqui o final da história (que envolve um desfecho teológico, não militar). Mas para mim existe um parentesco muito próximo entre essa aventura de FC e textos como o de Zvi Kolitz. 

Diante da vitória de uma abominação aparentemente permitida por Deus, muitos deixam de crer em tudo. Outros afirmam que é preciso crer em algo, e crer numa Lei de Deus acima do próprio Deus me parece de uma ousadia comovente.






0447) Yossel Rakover e Deus (25.8.2004)




“Nas ruínas do gueto de Varsóvia encontrou-se, enterrada sob montanhas de pedras calcinadas e restos humanos, uma pequena garrafa. Ela guardava o seguinte testamento, escrito por um judeu chamado Yossel Rakover algumas horas antes do aniquilamento do gueto.” 

Assim começa um dos mais inquietantes documentos literários judeus, Yossel Rakover dirige-se a Deus, publicado em setembro de 1946 no Ídiche Zeitung, diário israelita de Buenos Aires. 

Seu autor, Zvi Kolitz, nasceu em 1919 num vilarejo da Lituânia, de onde fugiu às perseguições anti-semitas em 1937, com a mãe e os irmãos. Vagueou pela Europa durante a Guerra, e depois de 1945 foi para a Argentina, onde participou do movimento pela criação do Estado de Israel, e escreveu este conto.

O texto (SP, Ed. Perspectiva, 2003) é atribuído a um judeu fictício durante a II Guerra: 

“Escrevo estas linhas no gueto de Varsóvia em chamas. A casa em que me encontro é uma das últimas que ainda não queima. Há algumas horas estamos sob um contínuo bombardeio de artilharia...” 

Sabendo que a morte é iminente, Rakover dirige-se a Deus, e pede-lhe contas sobre que está acontecendo. É um documento religioso impressionante, apesar de ser uma história fictícia. Rakover lembra os tormentos sofridos por Jó, no Antigo Testamento, mas afirma: 

“Mas não lhe peço, como Job, para que me esclareça sobre os meus pecados, para dessa forma eu saber por que mereci isso. Porque maiores e melhores do que eu estão firmemente convencidos de que não se trata mais, atualmente, de castigo por faltas cometidas. Aconteceu alguma coisa absolutamente peculiar e isso chama-se ´Hastores Ponim´: Deus velou a Sua face.”

Por que motivo Deus permite que isto aconteça? É uma das perguntas mais antigas do mundo, mas no contexto dos massacres da Europa nazista ela ganhou um novo significado. Rakover não pede piedade, não pede um milagre, não pede pela própria vida. Afirma seu orgulho em pertencer a um povo humilhado e perseguido, e lembra as palavras de um rabino: “Não existe nada mais inteiro do que um coração despedaçado”. 

Ele admite não entender a vontade de Deus, mas afirma: 

“Creio no Deus de Israel, mesmo que ele tenha feito de tudo para que eu não acredite Nele. Creio em Suas leis, mesmo que eu não possa encontrar justificativa para os Seus atos. Eu O amo. Mas amo ainda mais a Sua Torá. Mesmo que eu tenha estado iludido com Ele, continuarei a observar a Sua lei.”

Crer que a lei de Deus está acima de Deus é, para mim, um salto filosófico de primeira grandeza. É crer que existe uma Ordem superior no universo, e que, se Deus às vezes é insondável e ininteligível, essa Ordem não o é. E é só por acreditar nela que Rakover, em seu desespero final, recusa-se a afastar-se de Deus: 

“Isto não te valerá de nada! Fizeste de tudo para fazer-me duvidar de Ti, para que eu não creia em Ti. Mas morro exatamente como vivi, com uma fé inquebrantável.”








0446) O robô e o corpo-objeto (24.8.2004)



Um robô é uma criatura metálica, de forma vagamente humana. Um clone é um ser humano normal, criado em laboratório a partir de células de um único indivíduo. Um andróide é uma criatura artificial (pele e ossos sintéticos, cérebro eletrônico) que por fora parece idêntica a uma pessoa. Um cyborg é um misto de ser humano e robô; em geral, um ser humano com próteses enxertadas (neste sentido, o pirata com olho de vidro, mão de gancho e perna de pau é um proto-cyborg).

A verdade é que todos nós estamos nos transformando em cyborgs, desde o sujeito idoso que usa uma dentadura postiça até as pessoas que precisam recorrer a membros mecânicos, marca-passos cardíacos e máquinas de hemodiálise. Conheço várias pessoas que não podem funcionar ou sobreviver sem a porção-máquina que possuem.

No filme Eu, robô de Alex Proyas os robôs são programados para tarefas manuais ou repetitivas: trabalhos domésticos, coleta do lixo, transporte de encomendas, etc. Exercem o papel tradicional de “escravos cibernéticos” que a ficção científica sempre lhes designou. Parece que temos um software antropológico embutido em nossa cultura, e devido a ele precisamos sempre de escravos mansos, obedientes e estóicos para fazer os trabalhos que desprezamos ou que nos cansam demais. O robô é o escravo no futuro politicamente correto.

A série de contos sobre robôs de Isaac Asimov tem como personagem principal a doutora Susan Calvin, a cientista mais assexuada da história da ficção científica. No filme, Bridget Moynahan a interpreta de modo muito próximo à concepção de Asimov. Há uma cena, contudo, que pode ser considerada a única cena erótica do filme, quando ela vai ao apartamento do detetive Spooner (Will Smith) e ele lhe confessa que possui um braço mecânico. Ela pede para tocá-lo, e ele concorda. Ela apalpa sua mão, seu antebraço, o braço, o ombro, as costelas... Ao tocar numa das costelas, ele se retrai um pouco e diz: “Ooops, aqui já sou eu.” É uma cena perversamente erótica, e é pena que o filme não pudesse ou não quisesse explorar mais essa área (afinal, ele se destinava ao público adolescente e não podia correr o risco de uma censura por faixa etária).

O fato de que a dra. Calvin, tão puritana, excita-se sexualmente com robôs nunca foi tão bem ilustrado, com o dado adicional de ela ser branca e o policial-cyborg ser negro. Ademais, a erotização das próteses corporais tem uma longa história. A perna mecânica de Catherine Deneuve em Tristana (Buñuel) é um objeto de desejo que ilustra essa fascinação fetichista pelo corpo-objeto, o corpo-coisa, tratado como um instrumento de prazer e nada mais. As andróides de Blade Runner são criadas como objetos sexuais, assim como o robô-gigolô de Inteligência Artificial. Por trás disso jazem fantasias eróticas como a do criador que se apaixona pela criatura (o mito grego de Pigmalião e Galatéia) e a da submissão total da pessoa amada.