sexta-feira, 15 de setembro de 2023

4982) Minhas Canções: "Meu Foguete Brasileiro" (15.9.2023)


Desde a adolescência eu vivo mergulhado em dois mundos aparentemente distantes, o da música popular brasileira e o da ficção científica. Primeiro como leitor e ouvinte, e depois como autor.

Muita gente me pergunta o que tem uma coisa a ver com a outra, e uma resposta que já forneci foi um artigo publicado na saudosa revista Isaac Asimov Magazine (Ed. Record), em que mostro como diferentes compositores da MPB (e do rock brasileiro, também) trataram os temas da FC. Temos Gilberto Gil (para mim o mais consistente e de cabeça mais “ficcientífica”), Raul Seixas, Caetano Veloso, Fausto Fawcett... Muita gente.

Temos a tendência a definir um gênero literário (cinematográfico, musical, etc.) a partir dos exemplos que conhecemos, e curiosamente às vezes tentamos atribuir ao gênero certas características das obras, que não são, em absoluto, típicas do gênero, e podem ser deixadas de lado.

Meu exemplo preferido é de quando me pediram um exemplo do ghost story brasileira e eu mencionei Dona Flor e Seus Dois Maridos de Jorge Amado, história de um morto que volta para fazer vadiagem com a própria viúva. Meu interlocutor queixou-se: “Mas isso não é uma ghost story... Não tem castelo em ruínas, não tem abadia gótica, não tem aparição noturna arrastando correntes...” 

Passei por experiência semelhante ao falar de músicas brasileiras de ficção científica e citar o clássico Eu Vou Pra Lua, gravado por Ari Lôbo: “Eu vou pra Lua, eu vou morar lá... Vou no meu Sputnik, do campo do Jiquiá”. O campo do Jiquiá ficava no Recife; era o lugar onde os zepelins ficavam atracados no auge da fama desses dirigíveis. A canção descreve uma ida para a Lua e lá o encontro com uma civilização que é uma versão satírica da nossa. Por que não pode ser ficção científica?

É o mesmo argumento que uso para defender esta minha simpática parceria com Antonio Nóbrega, “Meu Foguete Brasileiro” (no álbum Lunário Perpétuo, 2002). Na preparação do álbum, tínhamos feito um levantamento de temas e de estilos que podíamos abordar. Pensamos em fazer alguma coisa inspiradas nos cocos de embolada, e eu lembrei uma antiga canção de Manoel Serafim gravada por nossos amigos Cachimbinho e Geraldo Mousinho, “O Navio Brasileiro”, que tem o refrão:

Meu navio deu um tombo

que a proa abalou,

o mastro pendeu e tombou

lá no alto mar...



 

Confiram aqui a gravação:

https://www.youtube.com/watch?v=F1-yjP3hGiE&ab_channel=AcervoOrigens

 

É a descrição de um navio gigantesco, portentoso, que dentro de si contém máquinas fabulosas, edifícios, fazendas de gado, campos lavrados, residências, um despropósito de coisas de fazer inveja àquelas grandes embarcações dos EUA com não-sei-quantos andares, que fazem cruzeiro pelo Mar do Caribe.

O coco de Cachimbinho e Geraldo segue uma tradição, cujo antecessor mais provável é “O Avião Brasileiro” dos saudosos Antonio da Mulatinha e Dedé da Mulatinha, que vi cantar muitas vezes em Campina Grande. A professora Elizabeth Travassos (UFRJ) faz uma transcrição e análise do coco dos dois irmãos campinenses num artigo incluído em Ao Encontro da Palavra Cantada, org. Cláudia Neiva de Matos, Elizabeth Travassos e Fernanda Teixeira de Medeiros (Rio: 7Letras, 2006). 


Como os poetas já tinham lançado mão de avião e navio, só nos restou apelar para o foguete interplanetário, e acho que veio de Nóbrega a idéia de, em vez de usar o verso curto da embolada, usarmos o verso longo do “galope beira mar”. E logo veio o recurso de trocar o refrão final desse estilo (“cantando galope na beira do mar”) por “cantando galope e voando no ar”, visto que se tratava de uma espaçonave.

E fomos em frente, enfileirando situações utópicas e divertidas, na descrição desta super-espaçonave brasileira que sairia pelos arrabaldes do Sistema Solar, encontrando outros povos, fazendo trocas comerciais, desbravando novas paisagens.

É ficção científica? É, sim, mas em vez da ficção científica ufanista, desbravadora e colonialista (“a missão do Homem é civilizar o universo”) é uma ficção científica brincalhona, irônica, meio ingênua em suas imagens e meio madura ao lidar com essa própria ingenuidade.


 

MEU FOGUETE BRASILEIRO

(BT & Antonio Nóbrega – março-abril 2002)

 

https://www.youtube.com/watch?v=jHr3iojbb_s&ab_channel=AntonioN%C3%B3brega-Topic

 

1

Eu fiz um foguete de andar pelo espaço

igual um que eu vi pela televisão:

não sei se era coisa da França ou Japão

mas basta ver gringo fazer eu já faço!...

Mandei buscar logo cem chapas de aço,

latão, alumínio, ferro de soldar;

dez mil arrebites para reforçar

a parte de fora da infra-estrutura:

cem metros de longo, trinta de largura,

e dez de galope voando no ar.

 

2

Por dentro o foguete tem compartimentos:

setor de serviço, cabine da frente,

motor titular e o sobressalente

e pra equipagem mil apartamentos.

Canhões telescópicos mais de duzentos,

castelo de proa, sensor e sonar;

torre de comando, luneta, radar,

produto avançado da tecnologia:

pretendo acabá-lo e sair qualquer dia

cantando galope e voando no ar!...

 

3

Botei no foguete diversas antenas

para captar raios infra-vermelhos.

Na parte de cima um sistema de espelhos

que amplia as imagens de estrelas pequenas.

Motores na popa que servem apenas

pra tudo aquecer, e pra refrigerar.

Movidos a pura energia solar

tem computadores, TVs virtuais:

mil inteligências artificiais

que cantam galope, voando no ar!

 

4

Maior do que tudo é a parte cargueira

que leva produtos de exportação:

tem saca de açúcar, tonel de carvão,

baú de café, tora de madeira.

Tem pano de lenço, tem palha de esteira,

xampu, querosene, bebida de bar,

rede de dormir, colchão de deitar,

cueca de seda, calcinha de renda...

Achando quem compre, não tem quem não venda,

cantando galope e voando no ar!

 

5

Na parte de cima da carga pesada

tem carro, trator, “caterpilha”, caçamba,

tem alegoria de Escola de Samba,

carro de bombeiro, mangueira e escada.

Tem locomotiva recém-fabricada

e tem ponte pênsil pronta pra instalar;

tem ônibus-leito, tanque militar,

caixão de defunto, navio de guerra...

Um pouco de tudo que existe na Terra,

cantando galope e voando no ar!

 

6

Merece destaque o setor do varejo,

com mercadorias de boa saída:

barraca de praia, caixa de bebida,

ganzá, cavaquinho, tantã, realejo...

Lagosta, siri, corda de caranguejo,

tem carne de sol e tem frutos do mar;

cordão de ceroula, produtos do lar,

catálogo novo, preço de primeira:

daqui do país, só não vendo a bandeira

que vai hasteada, voando no ar...

 

7

Depois que enchi os porões do foguete

com mil toneladas de mercadoria

pensei que de nada adiantaria

trancar-me sozinho nesse palacete.

Não sou sacerdote, nem sou um cadete,

não sou da igreja nem sou militar...

Sou só um poeta doidim pra casar

ganhar cafuné, um cheiro, um carinho...

O diabo é quem sai viajando sozinho

cantando galope, e voando no ar!

 

8

Olhei sem demora os mapas solares

dos meus alfarrábios de Astrologia

e vi que de fato eu precisaria

de ter companhia nos céus estelares.

Eu que planejava sair pelos ares

buscando planetas pra colonizar,

somente podia vir a povoar

os mundos distantes, sem ter empecilhos,

com muitas mulheres me enchendo de filhos,

cantando galope, e voando no ar...

 

9

Ainda por cima, era necessário

por uma bem simples questão de harmonia

que as raças humanas que eu espalharia

surgissem de modo bem igualitário.

Fiz logo um harém multi-milionário

nos seis continentes mandei contratar

as deusas mais belas que pude encontrar

e fiz delas todas as minhas mulheres:

café da manhã com seiscentos talheres,

cantando galope e voando no ar!

 

10

Criei no foguete diversos setores:

indústria, comércio, serviços, lazer.

Fazendas de soja pra dar de comer

aos meus tripulantes e navegadores.

Conjuntos de vilas pros trabalhadores,

e até “piscinão” com água do mar;

meu grande foguete é obra sem par

maior do que a China, melhor que o Japão;

tão belo de ver que parece o Sertão,

cantando galope e voando no ar!

 

11

Depois eu sentei no meu tamborete

puxei a lavanca, pisei no pedal,

subi pro espaço com força total

fazendo tremer o motor do foguete.

Passei bem por cima do Empire State,

da Torre Eiffel, Monte Palomar;

e vi pela tela se distanciar

a mancha azulada do nosso planeta...

Pensei: “Minha Nossa!  Aqui vai Tonheta,

cantando galope e voando no ar!...”

 

12

Fiz logo uma escala no chão marciano

vendi rapadura, comprei tungstênio,

enchi os meus tanques de oxigênio,

parti outra vez no começo do ano.

Passei por Saturno, passei por Urano,

cheguei lá no fim do Sistema Solar;

desci em Plutão, tomei banho de mar,

botei gasolina comum e azul,

segui com destino ao Cruzeiro do Sul

cantando galope e voando no ar!

 

13

Foi tanta viagem, foi tanta aventura,

foi tanta Demanda, foi tanta Odisséia...

Eu posso jurar à distinta platéia

que tudo isso foi a verdade mais pura.

Também teve um pouco de literatura,

história inventada para relaxar;

mas eu que não minto não quero falar

e o resto eu só conto aqui pra você

no próximo show, ou em outro CD,

cantando galope e voando no ar!

 

 

 

 

 




terça-feira, 12 de setembro de 2023

4981) Young Sheldon (12.9.2023)



 
Não assisto muitas sitcoms (“situation comedies”) na televisão. Não porque não goste, mas porque é algo como comer Batatas Pringle: de uma em uma você come uma caixa, e quando olha pela janela você percebe que agora é um septuagenário e ainda não leu A Divina Comédia.
 
Este argumento me saiu muito ao estilo de Sheldon, o personagem da sitcom The Big Bang Theory, cuja infância estou agora acompanhando via Netflix na série Young Sheldon (primeira temporada). É bastante pringle esse seriado, porque cada episódio tem menos de meia hora, e a narrativa é rapida, estilo vapt-vupt. Quando você menos espera o episódio terminou e você meio inconscientemente se permite saltar para o começo do próximo.
 
Sheldon é um dos meus personagens preferidos na televisão, uma espécie “do que eu gostaria de ser caso crescesse”. Ele tem a memória de um Funes O Memorioso, a objetividade de um Sherlock Holmes, o traquejo social de um Jerry Lewis e a empatia de uma maçaneta. Depois de anos de sucesso de The Big Bang Theory, o ator que o interpreta (Jim Parsons) teve uma idéia: por que não fazer outra série, contando a infância do personagem?


 

(Jim Parsons como Sheldon; Iain Armitage como o jovem Sheldon)
 
Sheldon, segundo os críticos, tem um comportamento com características de autismo (ou de “síndrome de Asperger”) e de personalidade obsessivo-compulsiva. Seus cacoetes são uma fonte permanente de humor nas histórias. Em Young Sheldon, aos dez anos de idade ele coloca em situações constrangedoras os pais, os irmãos, os professores e os colegas, pela sua mania  impassível de recitar respostas certas ou de fazer comparações despropositadas envolvendo a Física Quântica, a Astronáutica ou o Cálculo Diferencial. 
 
Todos os pais querem ter um filho brilhante, mas ninguém quer ter um filho cujo poder intelectual está na razão inversa de sua capacidade de conviver. Em Young Sheldon, o geniozinho  é de certa forma o eixo e o ponto de desequilíbrio de uma família assustadoramente comum. 



(Annie Potts, como a avó de Sheldon) 


Um episódio da primeira temporada mostra Sheldon e a avó Meemaw (a ótima Annie Potts, que sempre tem as melhores falas) assistindo um episódio de Star Trek. Sheldon, é claro, é fã de Mr. Spock, que ele vê como um modelo de inteligência, impassibilidade e invulnerabilidade emocional. Cabe à avó mostrar a ele que o herói dela na série é o Capitão Kirk, que tem mais jogo de cintura e é capaz de pequenas trapaças para conseguir o que quer. Com isso, ela ensina Sheldon a mentir e a trapacear – e de certa forma o liberta do automatismo. 
 
A série é divertida porque nos identificamos com a família de Sheldon – que não entende as fórmulas matemáticas e os conceitos científicos recitados por ele a qualquer pretexto. O garoto fica na condição de qualquer garoto-prodígio num contexto não hostil, onde a família tem afeto e admiração por ele e faz o possível para criá-lo “como um menino normal”. 
 
Sheldon, por sua vez, se encaixa naquela definição de Henri Bergson segundo a qual o humor nasce quando vemos uma pessoa se comportar de maneira mecânica, cega, repetitiva, sem atentar para o feedback que recebe do mundo à sua volta. Por outro lado, o fato de Sheldon não possuir um grande “simancol” no trato social o faz revelar verdades ocultas, abordar problemas que outras pessoas varrem para baixo do tapete, criticar “sem papas na língua” os defeitos que percebe em outras pessoas.



Young Sheldon é uma série-pipoca, divertida, que tem pontos de contato com outros trabalhos de maior espessura dramática. Desde o início me lembrei deste filme de Jean-Pierre Jeunet, um cineasta que aprecio muito: The Young and Prodigious T. S. Spivet (2013), onde um garoto também super-dotado manda um trabalho para o Smithsonian Institute (sem revelar a própria idade), e depois que o trabalho é aceito precisa fugir de casa (lá nos confins do Meio Oeste) para ir a Washington fazer a palestra (e aturdir de incredulidade os funcionários do Instituto).
 
Lembrei também da série O Gambito da Rainha (2020) de Scott Frank, com sua protagonista super-inteligente, fora-de-esquadro, meio antissocial, meio imprevisível.



E um filme talvez hoje esquecido, mas que na epoca me despertou muita atenção: Little Man Tate (“Mentes Que Brilham”, 1991), dirigido por Jodie Foster (ela própria uma criança excepcional) e que conta a história de um garoto super-inteligente e do cabo-de-guerra entre a mãe (que o adora, mas é uma mulher “simples”, e não sabe como cuidar dele) e a professora (que pode dar a ele um acompanhamento profissional).
 
Sheldon é uma versão bem-humorada desse problema – o que fazer com as crianças super-inteligentes, pontos-fora-da-curva. Trazê-las para a curva seria um desperdício, e além disso é impossível. É a curva que precisa diminuir a distância entre os dois.
 
 
 
 
 
 





sábado, 9 de setembro de 2023

4980) Uma mulher chamada James Tiptree (9.9.2023)


 
Nos anos 1960, um escritor misterioso chamado James Tiptree Jr. surgiu na ficção científica norte-americana, com uma série de contos inovadores, numa linguagem energética, calejada, cínica, que não recuava diante da violência. Demonstrava ter conhecimento direto dos bastidores do poder, da vida militar, do uso de armas e de tecnologias variadas. E, tendo uma escrita “máscula” e assertiva, demonstrava ao mesmo tempo um conhecimento surpreendente da psicologia feminina, e suas personagens mulheres geralmente eram protagonistas, tomando nas mãos as rédeas da narrativa. 
 
Tiptree não dava entrevistas, não telefonava, não comparecia às convenções de FC, não enviava fotos, fornecia escassos dados pessoais de si próprio, e comunicava-se apenas através de uma caixa postal no Estado da Virginia. Por outro lado, era um correspondente vibrante e dedicado, mandando cartas de dez ou quinze páginas para escritores e editores que sequer conhecia pessoalmente. Era um missivista compulsivo e envolvente, tal como Raymond Chandler ou H. P. Lovecraft. 
 
Seu nome começou a chamar a atenção por volta de 1968, ano em que saíram contos seus em revistas como Analog, Galaxy, Fantastic e If. Sua produção manteve-se constante a partir daí, e sua primeira coletânea de contos, Ten Thousand Light Years From Home saiu em 1973. Seguiram-se várias premiações importantes: o prêmio Hugo (1974, 1977), o Nebula (1973, 1976, 1977), o Jupiter (1977) e outros. 
 
Havia um certo consenso, na comunidade de FC, de que a discrição de James Tiptree era por ser ele um agente ou ex-agente da CIA (seus relatos pessoais indicavam isto) e precisava manter um low profile quando se envolvia em atividades profanas como a literatura popular. Havia consenso, também, de que se tratava de um homem, não apenas pelo nome. Robert Silverberg, um autor nem um pouco bobo, chegou a escrever, em 1975: 
 
Alguém sugeriu que “Tiptree” pode ser uma mulher, uma teoria que considero absurda, porque para mim existe algo de inelutavelmente masculino em sua escrita.
 
Depois, Silverberg confessou, numa carta pessoal: “Você não me enganou. Fui eu que enganei a mim mesmo.”
 
Sua identidade foi revelada em 1976. Tiptree mencionou casualmente que sua mãe havia morrido em Chicago. Seu correspondente Jeff Smith vasculhou os obituários, e conferiu os relatos de infância e juventude de “James Tiptree Jr.” com os textos sobre Mary Hastings Bradley, falecida aos 94 anos, escritora com vários livros sobre seus safaris na África ao lado do marido e da filhinha pequena. Jeff Smith escreveu ao seu amigo Tiptree: 
 
Meu caro Tip: OK, vou botar minhas cartas na mesa. Não se sinta obrigado a fazer o mesmo. Isto já deve ter chegado aos seus ouvidos, mas o fato é que está se espalhando um boato de que seu nome é Alice Sheldon.
 
Alice Bradley Sheldon admitiu a verdade; continuou usando o pseudônimo masculino para assinar seus livros, manteve a privacidade (recebia pouquíssimas pessoas). E sua vida anterior começou a ser mais conhecida.
 
Mary Hastings e seu marido Herbert Bradley (os pais de Alice) eram ricos, colecionavam objetos de arte, e eram fascinados pela África. Alice nasceu em 1915, e aos seis anos já acompanhava os pais em safaris, numa caravana com mais de 200 carregadores. Foram eles os primeiros brancos a alcançar as margens do Lago Kivu, entre Ruanda e o Congo, e fizeram as primeiras filmagens de gorilas em seu habitat.
 
A garota alternava momentos de pânico e de onipotência.
 
Se eu largasse alguma coisa no chão, já estava habituada a apenas bater palmas, e seis enormes canibais nus se precipitavam para recolher o objeto e me entregar de volta.


 
(Alice Sheldon na África, aos 6 anos) 

 
De volta a Chicago, Alice leu furiosamente durante a adolescência e início da vida adulta: Rudyard Kipling, Spinosa, William James, W. B. Yeats, Proust, Freud, Ibsen, Dostoievsky – e carradas de pulp magazines de ficção científica, que ela doou a uma biblioteca quando entrou para o Exército (WAAC, Women's Army Auxiliary Corps) em 1942, aos vinte e sete anos.
 
É grande a tentação de resumir aqui a vida de Alice, que casou com um militar (Huntington Sheldon, “Ting”), entrou com ele para a CIA em 1952, saiu de lá em 1955 e voltou para a vida universitária, onde se doutorou em Psicologia Experimental (1967).


 

A biografia de Julie Philips, James Tiptree Jr. – The Double Life of Alice B. Sheldon (St. Martin’s Press, 2006) é uma das melhores que já foram escritas sobre um autor de ficção científica. 
 
Ela revela a rivalidade entre Alice e a mãe (uma “escritora de verdade”, autora de livros sérios, elogiados pelos críticos), sua paixão pelo xadrez (consta que seu marido, Ting, apaixonou-se por ela ao ser derrotado num jogo de xadrez onde Alice estava com os olhos vendados), seu projeto de montar uma granja de aves (que só lhe deu prejuízo), sua mania de escrever aos autores que admirava (Ítalo Calvino lhe respondeu: “Uma carta como a sua é o melhor presente que um carteiro pode deixar na minha caixa. É para o leitor desconhecido que todo autor escreve, mas são raras as chances de encontrá-lo, mesmo por correspondência, e de descobrir que ele é uma pessoa tão bacana e tão espirituosa”). 
 
Tal como Philip K. Dick (com quem também trocou cartas), Alice era viciada em drogas permitidas, drogas de farmácia. Julie Philips relata (Cap. 36) que num período de duas semanas em maio de 1976 ela registrou em seu diário o uso de Seconal, fenobarbital, Dexedrine, Compazine, codeína, Percodan, Valium, Demerol e Numorphan. O desgaste da idade se abateu sobre ela e mais ainda sobre Ting, que era doze anos mais velho, e cuja condição de saúde se agravou aceleradamente. Ela falava aos amigos mais próximos sobre um “pacto de suicídio”. 
 
Em 1987, ela matou o marido e se suicidou em seguida, não sem antes avisar o advogado da família. Os dois foram encontrados na cama, lado a lado, de mãos dadas.
 
Alguns contos de James Tiptree Jr. já saíram no Brasil, na saudosa Isaac Asimov Magazine (Ed. Record), editada por Ronaldo di Biasi.
 
Agora, a Ímã Editorial, na sua coleção “Meia Azul”, lança o volume Mulheres Que os Homens Não Veem. O volume traz um prefácio da escritora e blogueira Lady Sybylla, a transcrição de trechos de cartas de Alice, e três contos dentre os melhores dela, traduzidos por mim: “Mulheres Que os Homens Não Veem” (“The Women Men Don’t See”, 1973), “Garota Plugada” (“The Girl Who Was Plugged In”, 1973) e “As Mulheres Que Morrem Como Moscas” (“The Screwfly Solution”, 1977, publicado sob o pseudônimo de Raccoona Sheldon).



 
James Tiptree Jr. é um desses casos de pseudônimo que acabou se tornando, como os heterônimos de Fernando Pessoa, um personagem em si, um “Eu dramatúrgico” que brota no momento da escrita e serve ao autor como uma personalidade postiça, capaz de mobilizar toda a sua energia criativa, e de acessar redutos emotivos que normalmente ficam vedados no dia a dia. 
 
A “máscara masculina” serviu a Alice Sheldon para a criação de uma persona biograficamente verdadeira mas com um espírito inventado. Depois que sua identidade se tornou pública, Alice explicou às pessoas com quem se correspondia (principalmente Ursula LeGuin e Joanna Russ) que tudo que dissera de si mesma era verdade, menos o fato de ser homem. E depois que o segredo vazou, ela confessou ser incapaz de “psicografar” novamente a voz de James Tiptree Jr.  Foi como se ele tivesse desaparecido, e tudo que ela publicou a partir dali custou-lhe muito mais esforço e teve menos impacto.
 
Ainda assim, o “menos impacto” de Sheldon/Tiptree está muitos pontos acima da maioria da FC norte-americana, onde a maioria dos autores não tem, nem de longe, a experiência de vida que ela teve, quando começou a publicar FC aos 50 anos. Neurótica, empoderada, desafiadora, sofisticada, ela dizia que um pseudônimo masculino a poupava de ser chamada pela enésima vez de “a primeira mulher a...”
 
Experiência múltipla de vida e cultura literária produziram essa autora capaz de usar títulos como:
 
“Her Smoke Rose Up Forever”
“Your Faces, Oh My Sisters! Your Faces Filled of Light!”
“The Psychologist Who Wouldn’t Do Awful Things to Rats”
“Faithful To Thee, Terra, In Our Fashion”
“The Snows Are Melted, The Snows Are Gone”
“Love Is The Plan, The Plan is Death”
 
Uma autora que declarou, numa carta a um amigo:
 
Eu sou metade mulher, metade ser humano.
 


 
 
 









quarta-feira, 6 de setembro de 2023

4979) A Barbárie de Queimadas (6.9.2023)



 
Numa noite de fevereiro de 2012, na cidade de Queimadas (PB), um grupo de homens armados e mascarados invadiu uma casa onde rolava uma festa de aniversário com rapazes e moças, alguns deles de famílias consideradas importantes na cidade. A luz foi apagada, as pessoas foram amarradas e distribuídas pelos vários quartos. Seguiu-se uma série de estupros, espancamentos, ameaças. A certa altura, duas das mulheres foram arrastadas para uma camionete, que partiu em seguida. Na mesma noite, as duas foram encontradas, mortas a tiros. Eram Izabella Pajuçara, “Ju”, e Michelle Domingos. 
 
O caso ficou conhecido como “a Barbárie de Queimadas”, e assim continua a ser chamado pela imprensa. Em princípio, é um caso de violência e feminicídio semelhante a muitos outros que acontecem no Brasil.  O escritor e jornalista Bruno Ribeiro acompanha o episódio há mais de dez anos, e entrevistou mais de cem pessoas para escrever o livro Era Apenas Um Presente Para o Meu Irmão (Todavia, 2023). 
 
No dia seguinte ao crime, o mistério começou a ser esclarecido. O mentor do assalto foi Eduardo dos Santos Pereira, o dono da casa onde acontecia a festa. Ele convidou várias moças da cidade, de famílias amigas, que conviviam no dia a dia com ele e com seu irmão, o aniversariante Luciano. O objetivo era fingir um assalto (recrutando alguns amigos) e permitir que todos pudessem estuprar as moças. 
 
O livro de Bruno Ribeiro destaca esses pontos que diferenciam este crime da maior parte dos gang rapes que se vê por aí. O primeiro ponto é o fato de que criminosos e vítimas se conheciam, conviviam no ambiente de uma cidade pequena. Ou seja, mesmo com o uso de máscaras e balaclavas cobrindo os rostos, era provável que algum deles acabasse sendo reconhecido, mesmo com a casa sob blecaute; e foi o que aconteceu. 
 
Outro ponto é que no grupo de dez estupradores havia pelo menos três menores de idade, e alguns indivíduos (descritos pelas testemunhas como “bobões”) que poderiam servir de bodes expiatórios. Alguns declararam que só tomaram parte no assalto porque a intenção (de acordo com o mandante, Eduardo) era de “fazer uma brincadeira”, “dar um susto nelas”. A explicação final do cabeça do crime é justamente a que deu o título ao livro de Bruno Ribeiro. Ou seja, o aniversariante iria receber de presente a chance de “comer na marra” algumas moças bonitas da cidade. 
 
Apenas duas mulheres da festa não foram tocadas: as esposas de Eduardo e Luciano, que foram trancadas juntas num quarto e poupadas pelo grupo. 
 
Tudo desandou quando Izabella reconheceu Eduardo e começou a gritar seu nome. Outros homens foram reconhecidos, pela voz, ou por adereços pessoais. No dia seguinte, as primeiras prisões ocorreram durante o velório das duas moças, à medida que os assaltantes entregavam uns aos outros. 




Bruno Ribeiro é autor de romances como Febre de Enxofre (Penalux, 2016), Glitter (Moinhos, 2019) e Porco de Raça (Darkside, 2021). O livro sobre a Barbárie de Queimadas ganhou o Prêmio Todavia de Não Ficção e faz um poderoso contraponto à sua ficção áspera, de prosa crispada e tensa, sobre a violência que perpassa o espírito do nosso tempo. 
 
Um aspecto interessante é que por volta da metade de Era Apenas Um Presente... já foi descrito o crime, já lemos os depoimentos dos envolvidos, já aconteceram as prisões e os julgamentos, as sentenças já foram proferidas. Temos a impressão de que o livro termina ali. O que resta para contar? 
 
Daí em diante começa a investigação do que rodeou o crime; do que o favoreceu; do que conduziu àquele estado de coisas; do que veio depois. Eduardo, o líder, foi condenado a 106 anos de prisão. Em novembro de 2020, ele fugiu andando, pela porta, do presídio de segurança máxima PB1, em João Pessoa. O escândalo dessa fuga fez estremecer novamente todos os fios que convergem para o crime de 2012. Lealdades de família, troca de favores, influência política, proteção, pesados subornos, tudo é discutido no ambiente dos advogados, dos jornalistas, dos policiais, dos defensores dos direitos humanos. 
 
O livro mostra essa rede tensa de relações sociais baseadas no dinheiro, na violência, na influência política, no machismo e na certeza da impunidade. Algumas pessoas, na época, chamaram os estupradores de Queimadas de “imbecis” por terem acreditado que um crime tão mal executado poderia passar impune. Na verdade, não houve tanta preocupação em esconder a identidade dos assaltantes. Os que estavam à frente tinham certeza da impunidade, e sabiam que, mesmo presos, dariam um jeito de escapar. 
 
Bruno Ribeiro deixou o romancista de lado e ligou o aplicativo-jornalista para fazer o levantamento minucioso das histórias, versões e interpretações de dezenas de pessoas. Na última parte do livro, ele traz a narrativa para o presente e descreve, numa tensa narrativa em tempo real, a visita que fez à Rocinha, no Rio de Janeiro, e as cervejas que tomou no bar do pai de Eduardo – o bar onde muita gente, inclusive a polícia, acha que Eduardo está escondido até hoje. Nesse momento, depois de tantas páginas de compilação e recapitulação de momentos passados, o romancista emerge com a habilidade de mostrar o momento presente: um galeto servido na mesa, a troca “casual” de frases com os parentes do criminoso, a presença de homens que bebem numa mesa afastada, uma ida ao banheiro, uma música que toca... 
 
É em ambientes assim que os crimes são gestados? Talvez, porque a possibilidade do crime permeia tudo, como uma umidade relativa do ar que está sempre presente e invisível, e a qualquer momento, em qualquer lugar, pode se concentrar em tempestade. 
 
Como diz o autor: 
 
“Quando se estuda crimes no Brasil, pode-se dizer que aquele que suja as mãos é pego, mas quem o mandou sujar as mãos, não. Há sempre uma parte que nunca é agarrada, algo movediço, alheio aos nossos esforços. No caso da Barbárie, o julgamento foi uma resolução clara do caso, resolvido até com certa destreza. Mas as raízes do crime, tudo que existiu para fazê-lo acontecer e, não só ele, mas tantos outros casos de feminicídio que foram praticados e ainda acontecem em Queimadas, parece ficar na escuridão, abafado. A resolução de grandes crimes é sempre uma metonímia: uma narrativa que nos entrega mais um pedaço que o todo.” (pág. 188)
 





domingo, 3 de setembro de 2023

4978) Quatro mentiras do bem (3.9.2023)




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D. Hosana Silveira, 61 anos, dona de casa, foi até a feira livre de um bairro próximo, numa sexta, à procura de alguns ingredientes para o almoço de sábado. Fez as compras habituais em algumas barracas de vendedores já conhecidos, mas na última, a de melancia, teve uma decepção. “Tive um problema e só recebo amanhã,” explicou seu Arnaldo, alto, bigodão de ponta, prestativo. “Que pena,” disse ela, “meu cunhado vem almoçar com a gente amanhã, e ele adora”; mas comprou  algumas frutas menores e despediu-se. Depois que guardou tudo em casa, lembrou-se de uma quitanda perto da praça onde vira melancias tempos atrás. Foi, arriscando; e deu sorte, porque havia, e ela comprou logo duas, para se garantir. No dia seguinte, passava um pouco do meio dia quando tocaram no portão, e ela saiu e deu de cara com seu Arnaldo, retirando do bagageiro de uma moto uma sacola grande. “Quem me ensinou sua casa foi Seu Dão, o do peixe.” Afastou as duas alças da sacola e revelou duas enormes melancias. “Trouxe logo duas, pra garantir,” disse todo animado. “Meu Deus do céu, seu Arnaldo,” exclamou D. Hosana. “Salvou meu almoço! Quanto é?...” 
 
2
Bittencourt Juvino da Mota, 70 anos, metalúrgico aposentado, colaborador de semanários e tabloides trabalhistas, conhecido como “Bité do Sindicato”, intelectual auto-didata, amante dos livros e da música popular brasileira (“mas só a autêntica”), um auto-proclamado marxista-leninista, que rompera aos 19 anos com os pais ao se proclamar ateu e perseguidor de Papas, costumava de vez em quando tomar uma cervejinha de leve no bar do colega Damásio , lembrando os velhos tempos. Certa noite estava lá, perto da hora de fechar, quando elevou-se dos fundos do bar um alarido de choros femininos. “É a filha da cozinheira que o menino está com febre,” explicou Damásio, “não tem nem uma semana de nascido”. Os dois foram até o quarto dos fundos. Sentada na cama, uma moça magrinha de cabelos desgrenhados segurava ao colo um bebê minúsculo envolto num trapo, enquanto uma mulher idosa murmurava, debulhando um terço. A mocinha ergueu para os dois homens um rosto de lágrimas escorrendo. “Seu Damásio, o bichinho vai morrer pagão!”  Bité aproximou-se, tocou no peito arquejante do bebê, viu como os olhos já meio que se reviravam. Viu uma caneca de lata junto do filtro, derramou ali dois dedos de água, pegou na asa dobrando o indicador esquerdo, mandou que todos se afastassem. Perguntou o nome do menino; era Natanael.  Mergulhou o indicador direito no líquido, e fez o traçado regulamentar na testa que ardia em febre, dizendo: “Natanael, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.” Todos murmuraram: “Para sempre seja louvado.” E a mocinha beijou a mão de Bité. 
 
3
Hélio  Fernando de Sousa, 54 anos, comerciante em Patos (PB), acompanhava com vibração a campanha da Seleção Brasileira na Copa de 2014. Apesar das performances pouco convincentes do time de Felipão, ele estava confiante no Hexa, conforme dizia a sua esposa Dona Rute e a todos os amigos. Em 7 de julho, ao voltar para casa às pressas (tinha esquecido uma pasta de documentos que precisava apresentar no fórum) perdeu o controle da direção, colidiu em dois outros carros e espatifou o seu Pálio de encontro a uma árvore. Gravemente ferido, foi conduzido à UTI de um hospital local, onde permaneceu sedado. Dois dias depois, mesmo com seu estado se agravando, recuperou a consciência e reconheceu Dona Rute, perguntou que dia era. “Já teve o jogo Brasil x Alemanha?”, perguntou. Dona Rute, que na véspera assistira taciturna o jogo inteiro, na esperança de um dia comentar os detalhes com o esposo, disse que sim. “O Brasil ganhou?...” disse ele. E ela respondeu, com um sorriso: “Ganhou de dois a zero.” “Eu sabia,” disse ele, e fechou os olhos. Minutos depois mergulhou num coma profundo do qual nunca veio a retornar. 
 
4
Leila Gonçalves, 28 anos, recepcionista, não cabia em si de felicidade após seu casamento com Djalma “Dêja” Antunes Ferreira, 33 anos, professor da rede pública. A grana era curta mas o amor não tinha mais tamanho, porque os dois tinham gostos e temperamentos harmônicos, conversavam muito, e estavam naquela fase inicial do casamento em que a alma se abre para o universo e o corpo só pensa numa coisa, que aliás estava mais que satisfatória para ambos. Leila era boa de receitas e gostava de cozinhar de vez em quando para ele (por questões de agenda e horário, durante a semana os dois comiam no trabalho). Certo fim de semana, Dêja acordou no bom humor de sempre e extraiu dela a promessa de que ficaria deitada até que ele a chamasse à sala. Quando o fez, ela se deparou com a mesa posta, uma terrina de arroz, outra de salada, outra de batatas, e uma travessa com dois enormes e suculentos bifes. Cobriu-o de beijos, sentaram-se, comeram, e a certa altura ele disse: “Seja honesta, seja amiga. Ficou bom?” Ela, que até então mastigara em silêncio, ergueu para ele dois olhos puros e límpidos de mulher apaixonada e disse baixinho: “Môzinho, está delicioso.” 
 
 




quinta-feira, 31 de agosto de 2023

4977) Os monstros do Loch Ness (31.8.2023)



 
Desde que eu me entendo por gente existe uma busca constante pelo famoso Monstro do Loch Ness, uma espécie de criatura aquática pré-histórica que se diz existir nesse lago da Escócia. Dezenas de pessoas dizem que já o viram, mas isto não prova a existência de nada. Algumas pessoas o fotografaram, mas isto nunca foi prova, mesmo no tempo dos filmes de celulóide e de negativos que podiam ser periciados. Depois da invenção do Photoshop, e, agora, com a famigerada Inteligência Artificial, fotos do monstro vão pipocar por todos os lados. O que também não serve de prova para coisa alguma.
 
A foto mais famosa do monstro (a do início deste texto) foi tirada em abril de 1934 pelo médico londrino Robert K. Wilson. É tão famosa quando a foto do Pé Grande (ou “Sasquatch”) – na verdade um fotograma de um curto trecho de filme captado em 1967 no norte da Califórnia por Roger Patterson e Robert Gimlin. As acusações de fraude são muitas, é claro. Vendo um monstro, quem resistiria a fotografá-lo? Não o vendo, quem resistiria a forjar uma foto? Vendo a foto, quem resistiria a questioná-la? E la nave va.



(O sasquatch)

 
Neste ano de 2023 foi desencadeada uma nova busca ao monstro do Loch Ness, ou “Nessie”, desta vez usando barcos com hidrófonos (que captam o som num meio líquido) e drones térmicos, que fotografam a água de cima para baixo, registrando imagens dos objetos com diferença de temperatura. “Nessie” deve ser o mais famoso dos criptídeos (animal cuja existência é suposta, mas não comprovada). Buscas deste tipo criam uma situação ambígua. Descobrir o monstro (vivo ou morto) não seria uma maneira de extinguir a curiosidade, a atração, as polêmicas?


 
Uma característica interessante do Loch Ness é a sua extensão. Ele é uma faixa de água estreita e comprida, num comprimento de cerca de 56 quilômetros por 2 ou 3 km de largura, e com uma profundidade máxima de 220 metros. A água é pouco transparente, devido às características do solo em volta. Ou seja – há uma série de circunstâncias físicas tornando a busca mais fácil ou mais difícil, conforme o ponto de vista.
 
Há uma verdadeira indústria local em torno dos avistamentos do monstro, e isso nos remete a uma coisa curiosa. As aparições da Virgem Maria em localidades como Lourdes (1858), Fátima (1917), La Vang (1798), Zeitoun (1968) são fatos que desencadeiam reações muito parecidas. Alguém vê (ou imagina ter visto) algo extraordinário. A notícia se espalha, multidões acorrem, a imprensa aproveita, os céticos ridicularizam, os crentes se encolerizam e acreditam cada vez mais...
 
E enquanto isto há um saudável aquecimento da indústria hoteleira local, dos restaurantes, dos postos de gasolina, das lojas de souvenires, dos postos de venda de produtos relacionados ao fenômeno – quadros, imagens, bonecos, panfletos, fotos, bonés, camisetas e por aí vai.



 
Fatos deste tipo lembram um conceito proposto por Kurt Vonnegut Jr. em seu livro Cama de Gato (“Cat’s Cradle”, 1963). É o conceito de “wampeter” – que, ao que eu saiba, nada tem a ver com o trêfego jogador Vampeta, ex-Corinthians e Seleção Brasileira.
 
Em seu livro, Vonnegut descreve uma religião bizarra, o “bokononismo”, organizada em torno de conceitos bem curiosos. Bem ao estilo do autor de Matadouro Cinco, são conceitos cheios de crítica corrosiva ao funcionamento do nosso mundo.
 
O wampeter precisa ser entendido em função de outro conceito, o karass, que ele explica logo nos capítulos iniciais do livro (Cama de Gato, Ed. Aleph, trad. Livia Koeppl):
 
Nós, bokononistas, acreditamos que a humanidade é organizada em equipes, equipes que realizam a Vontade de Deus, sem nunca descobrir o que estão fazendo. Bokonon chamou equipes como essas de karass (...). “O homem criou o tabuleiro de xadrez: Deus criou o karass”. Com isto ele quer dizer que um karass ignora fronteiras nacionais, institucionais, profissionais, familiares e de classe social. Tem a forma tão livre como a de uma ameba. (pág. 12)
 
No capítulo 24, ele explica:
 
Isto me leva ao conceito bokononista de wampeter.
 
Um wampeter é a base de um karass. Não existe karass sem wampeter, Bokonon diz, assim como não existe uma roda sem eixo.
 
Um wampeter pode ser qualquer coisa: uma árvore, uma pedra, um animal, uma idéia, um livro, uma melodia, o Santo Graal. Seja o que for, os membros do karass giram em torno do seu wampeter no caos majestoso de uma nebulosa espiral. É evidente que as órbitas dos membros do karass que estão em volta do wampeter em comum são órbitas espirituais. São as almas que giram, não os corpos. (pág. 58)
 
O monstro do Loch Ness é um wampeter, uma hipótese que atrai para si a vida e os esforços de dezenas de milhares de pessoas, talvez mais, mobilizadas para demonstrar sua existência ou sua não-existência. Nesse grupo heterogêneo cabe todo tipo de gente, desde os fanáticos que fazem disto uma religião até cientistas de bom senso tentando estabelecer a verdade dos fatos, e gente com dinheiro sobrando, tempo livre, e disposição para embarcar em alguma aventura divertida.
 
É possível (longinquamente possível, arrisco-me a supor) que haja algum ser pré-histórico no Loch Ness, ou se não pré-histórico pelo menos algum tipo raro de criatura volumosa e assustadiça. A busca por ela é algo mais justificável, por exemplo, do que a demanda dos defensores da Terra Plana. Ainda não podemos afirmar com certeza que “Nessie” não existe, então faz sentido investigar se ela é real ou não. Por outro lado, a redondeza da Terra foi comprovada de muitas maneiras. Que wampeter meio absurdo é este, que mobiliza tanta gente?



(O Lago Ness)
 

As pessoas precisam girar em torno de uma idéia, um projeto, um objetivo (=um wampeter), entre outros motivos pelo fato de que nossa sociedade se interessa por pessoas que agem assim. Vendo no streaming alguns documentários sobre terraplanistas, observei mais uma vez um padrão recorrente. Um número considerável deles são pessoas com certa segurança material (dinheiro herdado, ou profissões confortáveis) mas sem um objetivo mobilizador de suas energias, e muitas vezes com uma certa angústia de invisibilidade social, aquele pavor de “não ser ninguém”.
 
No momento em que se tornam parte de um karass e dedicam-se a um wampeter (um wampeter extraordinário, polêmico, fora do comum) essas pessoas saltam para outro patamar social. Ficam famosas. São convidadas para participar de convenções, seminários, mesas redondas; recebem bilhetes aéreos e vouchers de hospedagem; dão entrevistas para jornais e emissoras de TV; envolvem-se em polêmicas que do dia para a noite fazem a Web pegar fogo com acusações, questionamentos, desmentidos, solidariedades, traições... 
 
Em suma: por causa do wampeter que cultivam, esses John Does, esses Zé Ninguéms tornam-se pessoas importantes, e os mais espertos chegam mesmo a faturar uma boa grana.
 
O monstro existe? A Terra é plana? No fim das contas, isso é irrelevante. Existe a busca pelo monstro, existe a “demonstração” da idéia terraplanista, e é isto que faz mover a engrenagem de discussões, artigos, programas, debates, teses, documentários, notícias. O fenômeno de um karass em torno de um wampeter tem a forma de uma rosquinha, um “donut”, um toróide. O centro é vazio, sim, mas tudo que gira em torno dele é real.