quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

3367) As máquinas mortais (12.12.2013)


(Robert Crumb)

Não são robôs musculosos, schwarzeneggerianos, armados de espingardas-doze. São, é claro, as maquininhas aparentemente benignas que usamos: notebooks, celulares, iPads, desktops, mainframes... Para o documentarista James Barrat, em seu livro Our Final Invention: Artificial Intelligence and the End of the Human Era, está se aproximando aquele momento que alguns escritores de FC chamam A Singularidade, quando as inteligências artificiais criadas pelo homem superarão a inteligência da nossa espécie. Pode ser um upgrade cósmico de integração a uma inteligência universal; mas pode ser o momento em que as máquinas simplesmente tomarão a decisão de nos descartar.

Um artigo de Greg Scoblete (http://bit.ly/1jtH1Yc) avalia com elas nos eliminarão: “Pensem no mundo de hoje. Vírus de computador viajam pelo ar. Nossas casas, carros, aviões, hospitais, refrigeradores, fornos, estão conectados a uma “Internet de objetos” que não cessa de se ampliar valendo-se da banda larga sem fio. Estamos cada vez mais integrando elementos eletrônicos aos nossos corpos. Vamos extrapolar essas tendências para 2040: a Super-Inteligência Artificial surgirá num mundo cada vez mais dependente do virtual, e vulnerável a ele.”

À inevitável pergunta: ”Mas por que essa Super-Inteligência iria querer nos eliminar?” Scoblete responde: “Computadores, como os humanos, precisam de energia. Numa competição por recursos energéticos as máquinas se preocupariam tão pouco em nos conceder acesso a eles quanto nós nos preocupamos com a próxima refeição de uma formiga.”

A preocupação procede, e o livro de James Barrar sugere um cenário interessante para a literatura. Para ele, no momento em que essa Super-Inteligência Artificial for criada, não teremos como controlá-la porque ela terá a tendência a se retroalimentar e aumentar exponencialmente sua própria potência e seu alcance. “O tempo necessário para que ela nos deixe tão minúsculos quanto as formigas pode ser uma questão de dias, se não de simples horas, depois de ser criada. Pior: os cientistas humanos podem nem perceber que criaram essa Super-Inteligência, até ser tarde demais para contê-la”.

E agora digo eu: já a criamos. Ela já existe. Ela já se exprime, numa linguagem digital balbuciante, mas onipresente. Ela produz, com o auxílio inconsciente de funcionários humanos, os programas de TV de hoje, os noticiários de hoje, os filmes de hoje, as crises financeiras de hoje. Para ela, os próximos 50 anos serão os 5 segundos de que precisou para provocar o suicídio coletivo dos ácaros que a criaram e que agora se tornaram desnecessários e incômodos. (Ela permitirá a publicação desta inútil denúncia.)


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

3366) A mãe do Estrangeiro (11.12.2013)



(foto: J. Henri Lartigue)

“Mãe morreu hoje. Ou pode ter sido ontem, sei lá.” É assim que eu traduziria, usando meu estilo pessoal de discurso, o famoso começo do romance O Estrangeiro de Albert Camus. Seria assim que o personagem do livro diria essas frases, se fosse eu. Claro que isso não vale para uma tradução literária, porque esta se destina ao público, e o tradutor não está ali para colocar seu discurso pessoal (sua forma espontânea de usar as palavras) à frente do discurso do personagem, do discurso do autor. Ele está a serviço de ambos.

Uma nova tradução em inglês do romance, de Sandra Smith, provocou discussões interessantes em The Guardian (aqui: http://bit.ly/1d3haBL), em que a tradutora, os jornalistas e os leitores comparam diferentes enunciações dessa frase. Não é uma discussão estéril, porque grande parte do encanto do livro reside na voz distanciada, alienada do narrador Meursault, um cara que se envolve nos acontecimentos como se não os entendesse por completo: a mãe morre, ele mata um homem, é condenado à morte, e o tempo todo descreve aquilo como se não fosse com ele.  Preservar esse tom embotado, não-envolvido, é essencial para o livro, e o tradutor deve se esforçar para mantê-lo.

Smith comenta que a frase original francesa (“Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas.”) tem sido traduzida de modo diferente por cada tradutor. Ela escolheu dizer: “My mother died today”, invertendo a ordem do original. Por que? Diz ela: “No francês, a ênfase vem muitas vezes no final da frase, quando em inglês é no começo. Achei que dizer ‘Today my mother died’ soaria meio desajeitado e não teria o mesmo peso.”  Smith também comenta as diferentes nuances que a palavra “mãe” tem em cada língua: “Escolhi “minha mãe” porque pensei em como uma pessoa contaria a outra que a mãe tinha morrido.  Meursault está falando diretamente ao leitor. (...) No resto do livro, usei “mama” porque soa como o “maman”, e também porque eu tinha consciência de que uma audiência britânica preferiria “Mum” e leitores americanos diriam “Mom”, e eu precisava de algo que funcionasse dos dois lados do Atlântico”.

São nuances de tratamento que entre nós se manifestam: mamãe, mãinha, mãe, minha mãe... Formas diretas de tratamento ou formas indiretas de referência que denunciam graus diferentes de intimidade, e mesmo origens geográficas. Tudo isto com uma frasezinha de nada, mas crucial para estabelecer um tom, uma voz narrativa, um personagem que se define pelo modo como escolhe (conscientemente ou não) falar. Não existe frase fácil. A que parece mais fácil é a mais traiçoeira. Em tradução, the book is never on the table.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

3365) A verdadeira cruz (10.12.2013)




Depois de muito foi-não-foi e muita enrolação, Seu Juca jogou a toalha e cumpriu a promessa de levar Dona Eunice para conhecer a Terra Santa. 

Foram os dois, e pense numa felicidade. Em Jerusalém conheceram os Passos da Cruz, o Santo Sepulcro, a Tumba de Davi. Seu Juca, respeitoso, tirava o chapéu vinte vezes por dia, e Dona Eunice se sentia a cada passo uma figurante da Bíblia.

Uma tarde, ao saírem do restaurante, foram abordados por um cavalheiro de terno com uma pasta de couro, que os saudou respeitosamente e perguntou: “Are you English?...” Seu Juca, lisonjeado, passou a mão pelo bigode e explicou em seu próprio inglês que eram de Campina Grande. 

O homem apertou a mão de ambos, sorridente, falou, gesticulou, e D. Eunice reparou que ele tinha um crucifixo ao pescoço e base nas unhas. O porteiro do restaurante começou a pedir que ele se afastasse mas Seu Juca o deteve com um gesto britânico. O homem abriu a pasta, tirou de dentro uma linda caixinha de madeira que abriu com cuidado e disse, devagar: 

– This is a piece of the Holy Cross. 

Seu Juca traduziu e D. Eunice arregalou os olhos.

Era um pedacinho de madeira, escuro, carcomido, do tamanho de um dominó. 

– A verdadeira cruz?! A de Cristo?! 

O homem assentiu e contou uma longa história da qual Seu Juca deduziu que ele descendia de um dos centuriões que vigiaram o Gólgota. 

– Será que é milagrosa? – murmurou D. Eunice, já fazendo planos. 

O homem sorriu com dentes de ouro e disse: 

– The miracle is in your heart, Madame. 

Num impulso, ela ousou perguntar: 

– Quanto quer por ela? 

O homem fechou a caixa, suspirou, falou uma algaravia difusa sobre uma esposa leucêmica e finalizou: 

– Fifty dollars.

Na voz de dólar Seu Juca sofreu um sobressalto atávico, e pela primeira vez notou que o terno do outro era cerzido, mas teve que explicar à esposa que não era quinze, era cinquenta, e já era tarde, D. Eunice tinha aberto a bolsa e puxado uma notona de cinquenta de um putufu que trazia dentro dela. Estava tão ansiosa que conseguiu entregar a nota com uma mão, pegar a caixinha com a outra e (aparentemente) afastar com a terceira o porteiro do restaurante, que fazia gestos de “aqui, não!”. 

O homem agradeceu, fez menção de beijar-lhe a mão, ela ofereceu a que não segurava a bolsa; com uma saudação meio árabe ele os cumprimentou e sumiu na multidão. Seu Juca disse: 

– Nega, enrolaram a gente. 

Ela disse: 

– Tás por fora, essa caixinha aqui é de cedro-do-Líbano, lá no Shopping de Campina vi uma por 300 reais. E esse cavaco véi parece pedaço de cruz, quer apostar que eu mostro essa butina a Tia Teresa e troco por aquele notebook que ela não sabe usar?!  







domingo, 8 de dezembro de 2013

3364) Gronk (8.12.2013)





(by Raziel)
 
No meio de um sono inquieto, Váldson se vira, e naquele breve instante percebe um peso ao seu lado, e vê que Gronk subiu na cama mais uma vez. Não acredito, pensa ele, só me faltava essa. Suspira com resignação e estendendo o braço bate com os nós dos dedos na carapaça do outro. “Gronk, levanta daí, vai, acorda,”, diz ele. Gronk resmunga como quem finge estar dormindo, mas o resmungo foi pronto demais, está na cara que estava acordadíssimo. “Vai, vai, já falei que não é pra vir pra minha cama”, insiste Váldson. “É só um pouquinho,” murmura Gronk, fingindo voz de sono, “lá fora está frio”. “Frio coisa nenhuma,” rebate Váldson, “vai pro seu canto, isto aqui não é seu lugar.” “Deixa eu ficar, só hoje,” o outro pede. “Não, não. Desce senão eu vou buscar o spray.” “Calma, calma,” protesta Gronk, mexendo-se, transferindo-se pouco a pouco para o chão, “sem violência, onde já se viu”. Arrasta-se para fora do quarto. Váldson está cansado demais para trocar o lençol, limita-se a tirar a camiseta e bater no lençol, jogando para o chão as escamas, a areia.
Deita-se, põe um dos travesseiros sobre os olhos, mas quando está quase adormecendo começa a ouvir um ruído metálico, ritmado, irritante. Tenta se concentrar no sono mas o ruído insiste, fica mais forte. Ele pula da cama, desesperado. Gronk está deitado no chão do corredor, e com as garras dos pés está descascando a porta do armariozinho. “Mas o que é isso agora?!” “Eu falei que estou com frio.” “Com frio num calor desse? E precisa estragar a porta do armário?!” “Opa, nem vi. Minhas pernas estão tremendo de frio.” “Já pra área de serviço! Agora! Senão, já sabe!” “Você não passa de um burguês, um ditadorzinho que quer demonstrar poder em cima dum animal de estimação.” “Você nem é animal nem de estimação, você é um castigo que eu recebi. Não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei essa coisa na minha casa. Cai fora, vai!” 
 
Gronk volta a se arrastar, a cauda coriácea abanando para um lado e para outro,  batendo nos móveis enquanto ele cruza a cozinha e vai para a área de serviço. Váldson vai lá, olha: latas de conserva dilaceradas, pães roídos pela metade, livros jogados de qualquer jeito, se amassando. Gronk deixa o enorme corpo anelídeo tombar no colchonete e com as pinças agarra um volume de Douglas Hofstadter. “Se for pra lá de novo, já sabe, spray de álcool!” avisa Váldson, afastando-se. O outro resmunga: “Espero que seu filho esteja sendo bem tratado no meu planeta, melhor do que eu aqui.” “Dorme, e não enche o saco.” Váldson vai se deitar.
 
Faltam duas semanas para acabar o período do intercâmbio escolar, e ele não bota muita fé no futuro pacífico da Galáxia.
 


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

3363) Saber ouvir (7.12.2013)



Ford Madox Ford disse, referindo-se ao diálogo literário, algo que eu já vira nos meus tempos do cineclubismo, dos debates por questões estéticas ou políticas. Ele observou que as pessoas, na verdade, não escutam umas às outras, porque enquanto “A” está falando “B” prepara o que vai falar em seguida. Toda conversa, portanto, não é mais do que uma intercalação de monólogos fatiados.  

Essa idéia de Ford foi encampada por seu amigo Joseph Conrad, e está esmiuçada com mais minúcias em cartas e artigos dos dois, num livro (a edição Norton de Heart of Darkness) que não tenho agora à mão.

Nas discussões de Jornada, nos debates, nas mesas-redondas, me acostumei a não olhar para o orador do momento, e sim para os que estavam discutindo com ele. Em sua maioria tinham aquela postura corporal meio contraída, de bote-armado, felino aguardando o instante de saltar sobre a presa; mas seu olho não era o olho vívido e consciente de quem recebe em tempo real as idéias emitidas pelo interlocutor, era o olho vidrado e ausente de quem está com 100% da luzinha vermelha do HD piscando em função de si próprio. 

Não estavam ouvindo, estavam verbalizando a plenas turbinas os argumentos que iriam desfechar sobre o outro no próximo minuto.

É, é difícil a gente ouvir o que o interlocutor diz. Nossos tímpanos captam a vibração das moléculas do ar, claro, mas achamos que isso basta. Discussões pessoais muitas vezes dão com os burros nágua por essa nossa incapacidade de perceber as palavras por trás dos sons, as idéias por trás das palavras, e as emoções por trás das idéias, porque é essa a hierarquia do discurso. 

A contraprova disso se dá quando estamos num país estrangeiro, de uma língua que desconhecemos, mas num ambiente fraternal, receptivo, com pessoas descontraídas e interessadas umas nas outras. Todas fazem um esforço (que não lhes custa muito, admito) para se entenderem. Nesses momentos, somos capazes de prodígios telepáticos diante de longas frases em alemão ou holandês.  Catamos uma ou outra palavra que imaginamos conhecer, e com que desenvoltura desenrolamos o resto!

Saber ouvir não é ceder os tímpanos, é ceder a retina, a pele inteira, a aura Kirlian e tudo mais que tivermos para captar as diferentes faixas de onda que o outro está emitindo. Sem isso não escutamos sequer um bom-dia.  

A literatura nos mostra pessoas dizendo umas às outras o que vai acontecer dali a duzentas páginas, e quando chega o momento percebemos que o outro escutou mas não ouviu, ou ouviu e não entendeu, ou entendeu mas não absorveu o que havia entendido. Todas as tragédias ocorrem quando as pessoas estão falando grego entre si.


3362) FC, fantasia e portais (6.12.2013)





Um Portal (“gateway”, em inglês) é uma abertura que liga dois universos diferentes, e visto assim parece uma coisa muito limitada. A questão é que universos são esses, e eles variam muito, se estamos lidando com ficção científica, horror, fantasia heróica, fantasia urbana, realismo mágico, humor absurdista... Alguns críticos dividem em dois grupos as histórias que envolvem portais. O primeiro seriam as fantasias de Portal propriamente dito: em nosso universo, personagens descobrem uma abertura que lhes dá acesso a um universo diferente. O segundo grupo seria feito do que Farah Mendelsohn chama de “fantasia intrusiva”: são as criaturas do outro universo que descobrem um portal para o nosso, e aparecem aqui, com resultados imprevisíveis.

A palavra “gateway” lembra ao leitor de FC a série homônima de romances de Frederik Pohl, em que a humanidade descobre naves à deriva, abandonadas, feitas por uma raça superior à nossa, naves com as quais é possível acessar outras regiões do universo. Outro portal famoso é o que Arthur C. Clarke abre para a passagem do astronauta Bowman em 2001, quando este descobre que o monolito é um aparente objeto mas na verdade é uma abertura no espaço-tempo. Coube a Clifford Simak, em Way Station, O Planeta de Shakespeare e vários outros romances, a idéia de um labirinto de portais cruzando a Galáxia como uma rede de metrôs, com guardiões secretos em cada “estação” ou entroncamento.

Na fantasia, temos desde o guarda-roupa em que os garotos chegam ao mundo de Narnia em O leão, a bruxa e o guarda-roupa de C. S. Lewis até o filme Salada Russa em Paris de Yuri Mamin, em que dois russos descobrem um acesso semelhante ligando São Petersburgo a Paris – neste caso, o portal liga dois “universos” metafóricos, países  socialmente diversos um do outro.  Mais ou menos como no conto de Julio Cortázar “O outro céu”, em que são as galerias dos prédios que permitem ao personagem entrar numa extremidade em Paris e sair na outra em Buenos Aires, ou vice-versa. No filme Orfeu de Jean Cocteau, como na Alice de Carroll, os espelhos são portais para outros mundos.

Um certo esgotamento da fórmula (os exemplos são incontáveis) leva histórias mais recentes a propor idéias mais rebuscadas (e mais divertidas) como a de Quero ser John Malkovich de Spike Jonze, em que um portal conduz do interior de um prédio em Manhattan para o interior da cabeça daquele ator. Na Encyclopedia of Fantasy, John Clute observa que quando uma pessoa encontra um portal ela foi, num certo sentido, encontrada por ele. Os portais são armadilhas (boas, más, indiferentes) esperando alguém que os faça funcionar.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

3361) Vida de detetive (5.12.2013)



No capítulo 21 do romance O Longo Adeus, Raymond Chandler interrompe a história que vinha contando para mostrar um pouco do cotidiano do detetive Philip Marlowe. Até aquele momento, Marlowe está encrencado até o pescoço por causa de um crime aparentemente cometido por um amigo seu, Terry Lennox, que ele ajudou a fugir para o México quando a polícia o perseguiu pelo assassinato. Lennox era genro de um magnata californiano, e Marlowe, por lealdade ao amigo, e por não responder as perguntas da polícia, acaba passando alguns dias na cadeia.

De repente, a história se interrompe. E no cap. 21 Marlowe atende três clientes muito diferentes. O primeiro é um sujeito rude que cria um cachorro em casa e vem se queixar de que a vizinha está jogando almôndegas envenenadas no quintal para matar seu cachorro, que late toda vez que um carro passa na rua. O cliente quer que Marlowe passe o dia e a noite escondido no quintal até flagrar a vizinha em mais uma tentativa de envenenamento. Marlowe lhe diz que isso não é papel para um detetive.

O segundo cliente é uma mulher humilde, que mora numa pensão, e desconfia que sua companheira de quarto está furtando dinheiro de sua bolsa. “Mas o que a sra. quer que eu faça?”, pergunta Marlowe. E ela: “Telefone para ela e lhe dê um susto!  Diga que é detetive e que está de olho nela!”. Marlowe, com alguma dificuldade, se livra da mulher.

O terceiro cliente é um homem meticuloso, polido, reprimido, cuja mulher pela quinta vez limpou sua conta bancária e fugiu com outro cara para Honolulu. Ele oferece 200 dólares para que Marlowe a localize e traga de volta, e insiste: “Diga a ela que eu não ligo, só quero que ela volte”. Marlowe aciona uma agência de detetives em Honolulu, explica o caso, a mulher vem de volta e ele transfere o dinheiro para a agência que fez o trabalho, cobrando uma pequena taxa para si próprio, mais despesas (telegramas, etc.).

Qual a necessidade desses episódios, que ocupam seis páginas, e são irrelevantes para o enredo? Eles têm a função de proporcionar ambiente, pano-de-fundo para a ação principal. Detetives costumam ser contratados (nos livros) por milionários excêntricos ou louras voluptuosas. O leitor ingênuo pensa que isso é a rotina deles, e não é. Chandler se preocupa em proporcionar contexto, efeito de contraste. Para avaliar um caso, é preciso compará-lo com outras tarefas que estavam sendo oferecidas ao detetive na mesma época. Chandler tinha essa percepção de que a aventura principal deve ser grande, significativa, e ela só o é comparada ao feijão-com-arroz cotidiano, assim como se deve comparar um autor com os contemporâneos dele, não com os nossos.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

3360) Garrafa ao mar (4.12.2013)




Era um Mago conjurador dos mistérios do Oculto, capaz de refletir no mundo dos homens a luz do Sagrado. 

Não era todo-poderoso, no entanto; quando sua magia não cumpriu a contento as ordens de um Rei, foi exilado numa ilha deserta, que em seguida foi fechada com um selo mágico. Ali, ele tinha água, frutas, animais para caçar; mas jamais poderia fugir sem ajuda. 

Um dia, caminhando ao longo da praia para calcular a extensão da ilha, o Mago encontrou os destroços de um navio naufragado, onde havia baús com centenas de garrafas. Ele, que não bebia, teve uma idéia.

Passou a esvaziar e lavar as garrafas; e dentro de cada uma dela (por falta de material de escrita) arrolhou um pequeno “djinn”, materializado por suas forças. Um pequeno gênio rudimentar que conseguia apenas pedir socorro. E passou a jogar as garrafas ao mar. 

No começo, os djinns eram criaturinhas frágeis, meros girinos de gênios, que, uma vez aberta a garrafa pulavam para fora e choravam, apontando na direção da ilha. Com o tempo, ele os foi aperfeiçoando. Fez medições astronômicas, e as garrafas que jogava às ondas levavam dentro de si figurinhas humanas que diziam a latitude e a longitude aproximada da ilha onde estava preso.

O que pensava conseguir? As garrafas eram muitas, mas o mar é imenso. Era possível que alguém as achasse? Que as abrisse, e que se pusesse ao mar para ver de onde vinham? Quem abre uma garrafa achada nas ondas sabe que ela contém algo precioso, um último gesto desesperado de quem foi exilado do mundo.

Logo o Mago estava tão entretido com a criação de gênios, cada vez mais complexos e mais fortes, que sua própria salvação passou a ter importância secundária. Criou gênios que inventavam canções quando eram libertados. Criou gênios falastrões, que contavam mentiras, e no meio das mentiras a história verdadeira do Mago e o local da ilha. 

Gênios generosos, que concediam treze desejos ao seu libertador e esqueciam de pedir socorro para o Mago. 

Gênios malévolos que subjugavam, torturavam e matavam seu salvador. 

Gênios filósofos capazes de seduzir com sua oratória multidões inteiras.

Os anos se passaram e o Mago ia sentindo o mundo cada vez mais longe, cada vez menor. A vontade de ir embora dali foi sumindo. Cada garrafa que ele jogava ao mar e via se afastar boiando era uma pequena vitória para ele, era como se ele próprio se libertasse de novo a cada vez. 

Cada dia, de acordo com seu humor, com o clima, com a inclinação do momento, ele criava e jogava ao mar um novo gênio para dar trabalho ao mundo, gênios capazes de ressuscitar pequenos animais, capazes de escrever poemas, de provocar tsunamis, capazes de partir um coração.



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

3359) As duas Lolitas (3.12.2013)



O artigo, de Galya Diment, saiu no número de dezembro do New York Magazine, mas o vi na publicação online Vulture (em: http://vult.re/I7E5CF). Vejam só se não deixa a gente com a orelha na frente da pulga.

No final de 1953, a editora da revista The New Yorker, Katharine White, recebeu uma carta de Vera, a esposa de Vladimir Nabokov, avisando que o marido tinha terminado seu romance mais recente e queria mostrar-lhe o texto, para possível publicação de um ou dois capítulos na revista. Uma forma de publicidade muito comum no jornalismo literário, ainda hoje. Mas ela se recusava a mandar o manuscrito pelo correio, porque “algumas coisas tinham que ser explicadas pessoalmente.” 

O livro em questão era Lolita, que Nabokov queria publicar sob pseudônimo, pois sua posição como professor (e russo, ainda por cima) o deixava numa situação frágil para publicar um romance que poderia ser acusado (como acabou sendo) de apologia ao amor pedófilo. 

White não leu o livro. O ano de 1954 foi de idas e vindas do manuscrito a editoras que o elogiavam e recusavam. Ninguém queria se envolver com o que o autor alegava seu “o melhor livro que já tinha escrito em inglês”.

Nesse vai-e-vem o livro foi parar na mão de Edmund Wilson (autor de O Castelo de Axel), amigo de Nabokov, que, contra suas instruções, o deu a ler para vários amigos. Entre eles (é Galya Diment quem supõe) talvez estivesse Dorothy Parker (1893-1967), a poetisa e escritora (Big Loira, etc.) sobre quem já escrevi nesta coluna. 

Por que? Porque em agosto Dorothy publicou em The New Yorker o conto “Lolita”, a história de um homem de trinta anos que se envolve com uma mulher adulta e sua filha adolescente, que tem esse nome. Coincidência? Foi essa a pergunta que Nabokov fez numa carta à editora da revista, a qual, rabugenta, respondeu que se havia plágio talvez fosse dele imitando a história de Dorothy Parker.

A questão só não foi adiante porque no mês seguinte a Lolita de Nabokov saiu por fim, por uma editora parisiense, e a polêmica instantânea que despertou fez Nabokov se concentrar em outra frente de batalha. Mas há de fato indícios de que, através de Edmund Wilson, Dorothy Parker teria lido, em parte ou no todo, o romance de Nabokov e teria pegado uma caronazinha na idéia dele, embora haja muita diferença, claro, entre uma história curta e um livro de 400 páginas. 

Que ela, aliás, resenhou positivamente quando ele saiu nos EUA em 1957, dizendo: “É no plano da escrita que Mr. Nabokov transforma o livro numa obra de arte. Seu domínio da linguagem é absoluto, e seu Lolita é um belo livro, um livro notável... está bem, está bem – um grande livro.”


Continua aqui:

domingo, 1 de dezembro de 2013

3358) Pobre tangerina (1.12.2013)




Quando estou muito cheio de problemas, tenho um remédio que é tiro e queda. Começo a me preocupar com os problemas dos outros. Antigamente eu escolhia problemas distantes, como a fome na África e a questão israelense-palestina, mas tenho o cacoete literário de entrar na pele dos personagens, e aí começava a perder o sono de novo. Tudo ficava demasiado real. O que fazer? Fechar o foco, pensei; pensar num problemazinho pequenininho, focado em plano-de-detalhe, sem nenhuma escala catastrófica para me aperrear. E de preferência (volta aqui, agora de um jeito positivo, o cacoete literário) um problema que não existe. Um problema inventado por mim mesmo.

Foi o que fiz ainda agora, indo ao supermercado, com a cabeça latejando de preocupações variadas, insolúveis; como dizia Drummond: “nenhum problema resolvido, sequer colocado.”  Já com o carrinho pela metade, parei diante do balcão de tangerinas. Não há nada melhor, para o calor do Rio, do que tangerina gelada.  Peguei algumas, vi uma bem bonita, madura, e quando fui colocá-la no saquinho vi, do lado oposto ao que eu tinha olhado, uma mancha escura do tamanho de uma uva. Mancha de má aparência, meio afundada, se desmanchando. Um ponto focal de deterioração. Coloquei a tangerina de volta, mas nesse instante as outras (minha mente é assim, tipo desenho animado) começaram a se manifestar.

“Ele não te quis! Ele não te quis!” gargalhavam em uníssono para a desprestigiada, em tom escarninho. “Tu é feia!”  Percebi que no mundo das tangerinas existe também aquela planilha de critérios que nos ajudam a distinguir entre Angela Merkel e Audrey Hepburn. E me insurgi contra aquele erro de avaliação. “Nada disso,” pensei na direção delas, “ela é bonita, só está com uma mancha esquisita na... bem, na circunferência.” “Rá rá rá rá!” explodiram as outras, e o bullying recrudesceu. A tangerina em questão nem me olhava. Rejeitada, humilhada, ficou ali exposta à galhofa alheia.

Quando me afastei, não estava gostando nem um pouco desse desfecho. E, já que minha mente é meio desenho animado, voltei atrás, reescrevi a cena. Ao colocar a tangerina de volta, as amigas rolaram a abraçá-la. “Escapaste, irmã! Ele não vai te despedaçar com os dedos nem estripar com os dentes!” “Obrigada,” dizia ela feliz, entre lágrimas de sumo. “Vocês torceram por mim!” E elas: “Terás mais umas horas de vida até que alguém te leve, irmã, e, como sabes muito bem, cada hora de uma tangerina equivale a 20 anos humanos! Uma vida longa e feliz te espera!”  Esse impressionante resultado me acalentou o coração, e durante as horas seguintes fui (nada me custa imaginar) tão feliz quanto ela.