terça-feira, 14 de outubro de 2008

0600) A carta traz o carteiro (19.2.2005)




Há uma expressão muito usada em inglês, “the tail that wags the dog”, o rabo que balança o cachorro. Usa-se muito para indicar qualquer caso em que o efeito produz a causa, ou o empregado manda no patrão, ou algo que devia ser um mero complemento acaba ganhando mais importância do que a parte principal. 

O livro Partículas de Deus de Scott Adams (o criador das tirinhas de “Dilbert”, de sátira ao mundo da informática) tem um episódio que ilustra de forma interessante este conceito. 

Nele, um entregador dos Correios leva um pacote até o endereço de destino, onde é recebido pelo dono da casa. “Trouxe este pacote para o sr.”, diz o carteiro. O homem retruca: “Você tem certeza de que foi você que trouxe o pacote? Pois eu acho que foi o pacote que trouxe você até aqui, porque sem esse pacote e esse endereço escrito nele você jamais teria vindo até a minha casa.”

É a mesma inversão que sempre me chamou a atenção nos versos iniciais do poema “Indicações”, de Carlos Drummond: 

“Talvez uma sensibilidade maior ao frio, 
desejo de voltar mais cedo para casa. 
Certa demora em abrir o pacote de livros 
esperado, que trouxe o correio.” 

Os coleguinhas de pendores mais gramaticais podem argumentar que se trata apenas de uma inversão, aceitável, da ordem normal da frase (“...que o correio trouxe”), mas este verso, escrito desta forma, me chamou a atenção para o fato indisputável de que, se os carteiros trazem as cartas do ponto de vista físico, são as cartas que trazem os carteiros num sentido mais amplo do termo.

Podemos visualizar essa dupla questão com mais facilidade se pensarmos numa imagem mais simples. Um homem viaja a cavalo. É ele quem leva o cavalo, ou o cavalo quem o leva? Mais uma vez temos as duas respostas, ambas verdadeiras. Ou um motorista que dirige um carro – o que dá um nível a mais à velha frase de pára-choque: “Dirigido por mim, guiado por Deus”.

Talvez isto possa nos ajudar a encarar a velha questão do livre arbítrio. Somos livres para decidir, ou Deus já decidiu por nós? Fazemos a nossa vontade, ou já está tudo escrito-nas-estrelas? 

Permitam-me os coleguinhas religiosos fazer uma comparação meio herética – o Livre Arbítrio Cósmico e o Futebol. 

Digamos que o Livro do Destino prevê tudo que vai acontecer, mas apenas numa escala “macro”, enquanto que nós temos a ilusão de estar fazendo o que nos dá na telha. 

O Livro do Destino, meus camaradinhas, diz qual vai ser o resultado da partida. Treze 3, Campinense 1. A correria, os esbarrões, o esforço, o esfalfamento dos jogadores, tudo isto lhes dá a ilusão de que são eles que estão decidindo os acontecimentos, mas na verdade o Livro do Destino está preocupado apenas com o placar final de cada jogo. Quem faz o gols, a que hora, de que jeito... são bobagens irrelevantes para o Grande Plano Cósmico. 

E é nessa dimensãozinha irrelevante que funciona nosso limitado livre arbítrio, que se define nossa vida, e que acontece nossa felicidade.





0599) O surfe e o hip-hop (18.2.2005)



A julgar pelo que a gente vê nas revistas, nos jornais e na TV do país, todo adolescente brasileiro pratica o surfe e escuta hip-hop. Estas atividades parecem ser o “default”, o padrão, o piso-base obrigatório para os 50 ou 60 milhões de adolescentes (não sei quantos são, tou chutando) do Brasil. É um daqueles raciocínios perversos em que se toma uma parte para representar o todo, mesmo quando esta parte é uma exceção. Juntam-se, aí, a imposição de modismos da indústria cultural, o desconhecimento prático do que é o país (e o desinteresse em conhecê-lo), a preguiça, e aquilo que eu chamo “a plausibilidade do clichê”. Todo clichê mental só gruda se for plausível. Se você disser que senhoras de 60 anos gostam de fazer tricô e ler Agatha Christie, todo mundo acredita sem questionar, porque é plausível, mesmo se não for verdade. Parece verdade, e, para 90% das pessoas, parecer verdade é o bastante.

Daí que parece plausível a noção de que o surfe e o hip-hop são os hábitos preferidos dos jovens urbanos brasileiros. A toda hora vemos a propaganda, as telenovelas ou as revistas para adolescentes insistindo nestas duas teclas. Já participei de dezenas de reuniões em que as pessoas diziam: “Para atingir o jovem, tem que falar a linguagem do jovem. Se a gente quer dizer ao jovem para usar camisinha, tem que dizer isso em ritmo de hip-hop”. Ou seja: o jovem é um sujeito tão burro, tão tapado, que só é capaz de entender uma única linguagem. Ao mesmo tempo, é um cara inteligente, porque a única linguagem que ele entende é uma linguagem que vem de outro país. Os redatores de TV e de publicidade estão projetando no jovem a sua própria preguiça mental, e a sua própria falta de disposição para sair do ar condicionado e passar alguns meses convivendo com diferentes grupos de jovens de verdade.

Estou usando o surfe e o hip-hop como amostra, mas vou logo avisando que nada tenho contra estas duas atividades em si. Porque uma outra distorção (reflexo contrário na anterior) é que se criou também a noção de que quem pratica surfe é burro, e quem pratica hip-hop é delinqüente. Eu acho o surfe uma das atividades mais saudáveis que existem no planeta. Quem me dera poder fazer aquilo uma vez por semana! Tem surfistas que ficam somente pegando onda 12 por dia, 365 dias por ano, e aí acabam ficando meio burrinhos. Mas, vamos e venhamos, se alguém ficar esse mesmo tempo somente lendo Física Quântica ou somente ouvindo Música Barroca, vai acabar meio burrinho também.

O hip-hop é uma cultura nascida dos bairros negros de Nova York; é a cultura dos excluídos da cultura oficial, a arte de quem não pode fazer arte, a voz de quem não pode falar. Como acontece com todo movimento de contestação, foi assimilado pelo mercado, transformado em via fácil de enriquecimento, e em clichê comodista para descrever pelo lado de fora uma comunidade que não se tem interesse (ou coragem) de conhecer por dentro.

0598) Blogs (17.2.2005)




Eu estava conversando com um grupo de amigos quando falei que tinha lido não-sei-o-que num blog, aí uma amiga minha disse: “Eu não acredito que você perde o seu tempo lendo essas coisas de menininhas adolescentes.” Eu falei: “Não, é um blog dum jornalista.” E outro falou; “Pois deve ser um jornalista muito desocupado – o cara tem tempo de fazer blog!” Isto tudo revela o tipo de preconceito de muita gente que ouve o galo cantar mas não sabe onde. Embora eu reconheça que existem hoje milhões de garotinhas adolescentes que fazem blogs para falar da briga que tiveram com o namorado, ou da sandália nova que compraram, ou do garoto com quem pretendem “ficar” na próxima festa.

Esses blogs na Internet estão substituindo aquelas agendas (cheias de adesivos, escritas com hidrocor); estão substituindo também os famosos livrinhos “Meu Diário” que tantas mocinhas já cultivaram, aqueles com uma fechadurazinha que qualquer mãe mais traquejada abre com um “biliro”. Mas é um grande erro imaginar que blog é apenas isto. Existem blogs literários onde escritores e críticos comentam livros. Existem blogs eróticos onde pessoas anônimas contam suas atividades e fantasias sexuais com um detalhismo que faria Henry Miller e Pierre Louys parecerem escritores evangélicos. Existem blogs feitos por escritores de ficção científica onde se debatem as possibilidades de novas engenhocas eletrônicas ou teorias cosmológicas. E assim por diante.

Em 4 milhões de blogs pesquisados recentemente, mais de 60% pertenciam a mulheres. A revista Time chamou o blog de “um quarto só seu no século 21”, aludindo ao livro de Virginia Woolf A Room of One´s Own, em que ela defende o direitos das mulheres de terem um aposento para ler, pensar, escrever, longe do tumulto doméstico e familiar. A Internet possibilita colocar um texto à disposição de milhões de pessoas. A tecnologia da maioria dos portais que oferecem blogs é rápida e sem mistérios. Qualquer dona-de-casa que saiba mandar um email consegue achar um tempinho para sentar ao teclado, digitar por meia hora, dar um clique, e fazer com que seus desabafos ou seus devaneios fiquem expostos nos muros da cidade virtual, à disposição de quem por ali navega.

Blogs pessoais estabelecem um hibridismo curioso entre o íntimo e o público. Eu fico estarrecido com o grau de franqueza e de auto-revelação que vejo em alguns blogs. Maridos ou esposas confessam nos menores detalhes suas brigas domésticas, suas separações, seus conflitos. Homens ou mulheres contam nos mínimos detalhes as práticas sexuais pouco ortodoxas a que se entregam com seus parceiros, ou com gente anônima pegada na rua. Basta olhar o cabeçalho, no entanto, para perceber que esses “diários públicos” continuam íntimos e privados, porque não se sabe o nome do autor (é sempre um pseudônimo), e, se ele não quiser, nem sequer o país de onde ele escreve. É o máximo de exibicionismo unido ao máximo de privacidade: o melhor de dois mundos.

0597) “Meu tio matou um cara” (16.2.2005)



Alguns anos atrás a TV-Globo exibiu Luna Caliente, uma mini-série de Jorge Furtado que, com alguns cortes, poderia resultar num longa-metragem para cinema. Seria um dos melhores filmes policiais brasileiros. É a história de um cara (Paulo Betti) que comete um crime arrastado por uma mulher fatal (no caso, uma ninfeta diabólica) e começa a se enredar numa teia de mentiras mal-contadas e de testemunhas incômodas que precisam ser silenciadas. E o filme tem uma tintura de sobrenatural que o torna ainda mais arrepiante.

Não vi o primeiro longa de Furtado, Houve uma vez dois verões, mas o segundo, O Homem que Copiava é também uma espécie de filme policial: dois rapazes (Lázaro Ramos e Pedro Cardoso) se juntam para dar um golpe, e o primeiro crime acaba obrigando-os a cometer o segundo, o terceiro, e por aí vai. Na época, o diretor foi acusado de amoralismo, de fazer propaganda da transgressão e da marginalidade, num filme que era claramente destinado ao público adolescente. Parece que isto direcionou um pouco o enredo deste Meu tio matou um cara, onde o simpático trio de protagonistas (Darlan Cunha, Sophia Reis e Renan Gioelli) faz o papel de detetives, e procura esclarecer um nó de histórias mal-contadas que levou o tio de um deles à prisão por assassinato.

Na verdade, os méritos dos filmes de Furtado não estão no terreno da “mensagem” ou da “moral da história”. Eles mostram, por exemplo, casais interraciais, mas não discutem a questão, o que na minha opinião é um dado positivo. Não que não valha a pena discutir se um negro pode casar ou não com uma branca, ou vice-versa; mas é igualmente positivo dar uma situação assim como fato consumado, como uma coisa normal da vida, e ir adiante. É isso que o filme faz, com o mérito adicional de se passar em Porto Alegre, onde casamentos e namoros desse tipo devem ser bem mais raros do que em Salvador ou Recife.

O mais interessante dos filmes de Jorge Furtado é a fluência de seus roteiros, onde há sempre a voz do protagonista lembrando, contando e comentando tudo que acontece. A narração em “off” é muitas vezes usada para explicar ao público coisas que o roteirista e o diretor não conseguiram mostrar. Nos filmes de Furtado, este recurso faz a narrativa fluir mais rápida, com transições e reviravoltas bruscas, sem que o público perca o fio da meada. O ponto de vista de Duca (Darlan Cunha) é o olho crítico com que os adolescentes vêem e julgam os adultos. “Teu tio é um idiota,” comentam eles o tempo inteiro. Os jovens deste filme tem lá seus problemas, dão suas mancadas, mas não perdem os adultos de vista do começo ao fim. É diferente, por exemplo, de coisas como Malhação, um típico programa onde adultos escrevem sobre como os adolescentes se comportam estatisticamente, procurando “refletir o pensamento dos jovens”, ou seja, procurando ampliar e perpetuar todos os piores clichês da Zona Sul carioca sobre o jovem brasileiro em geral.

0596) O K, o W e o Y (15.2.2005)



O Brasil é o país das leis que não pegam. Se isso ocorre com as leis que regem nossa vida civil e interessam a todos (dinheiro, família, Código Penal, etc.), avaliem vocês as leis que regem a língua, uma coisa de que nossa sobrevivência depende tão pouco. Respeito a gramática, mas me permito discordar dela de vez em quando. As leis da gramática não são da mesma natureza que as leis da Ciência. Estas exprimem certas propriedades fundamentais da Natureza: o mundo é assim, e pronto, o jeito é a gente entender e se adaptar. As leis da Gramática, contudo, são leis que têm origem social, que têm origem no uso e na prática da língua pelas pessoas. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como dizia Camões, e as leis da língua podem muito bem mudar.

A Reforma Ortográfica baniu de nosso alfabeto as letras K, W e Y, consideradas estrangeiras. Foi o mesmo que banir a maconha, o candomblé ou o jogo-do-bicho, ou seja: não deu em nada. Essa reforma a que me refiro foi uma limpeza providencial no idioma, eliminando coisas supérfluas como as letras duplas mudas (“offerecer”, “ella”, etc.), o famigerado “ph” no lugar do “F”, etc. . Não há dúvida de que é um grande avanço escrever “tísica” em vez de “phthysica”. Se teve uma coisa que não colou, no entanto, foi o banimento dessas três simpáticas turistas.

Acho que cada pai e mãe, a certa altura do campeonato, passa por esta cena. A criança, já capaz de ler uma revistinha ou um livrinho, pergunta: “Pai, que letra é essa?” O pai: “É um dáblio.” A criança aponta para o quadrozinho-negro que tem o alfabeto, o ábaco e o mostrador-de-relógio: “Mas cadê?” O pai: “É porque é uma letra que não existe no Brasil.” Grave problema filosófico se instala no juízo do pirralho. Dias atrás resolvi dar uma checada no “Dicionário Houaiss”, o meu preferido. A letra “K” tem três páginas e meia de verbetes. A letra “W” tem duas. A letra “Y” tem meia. Parece pouco, concordo. Mas para quem não existe oficialmente, está de bom tamanho. E olhe que isto computa apenas as palavras iniciadas pela letra, deixando de lado sua incidência no interior da palavra.

Não, não quero deflagrar aqui um Movimento de Anistia Ampla, Geral e Irrestrita para as letras deportadas. Não quero que elas pulem as barreiras de nossa alfândega, favorecidas pelos ventos da globalização, e venham disputar o nosso mercado de trabalho, causando ondas de desemprego entre o Q, o U, o V, o I... Claro que precisamos de uma reserva-de-mercado para a mão-de-obra nacional, a qual precisa manter os espaços conquistados. Só peço é que essas letras deixem de ser consideradas não-existentes, percam esse status absurdo de imigrantes ilegais. Reconheçamos sua origem alienígena, cubramo-las de ressalvas e barreiras, mas que elas pelo menos sejam consideradas parte oficial do nosso alfabeto. Senão as crianças vão começar a perceber, desde muito cedo, que uma coisa é o que o Governo diz, e outra o que ele permite acontecer.

sábado, 11 de outubro de 2008

0595) O charme de um dia nublado (13.2.2005)


(Bradley Schmehl, "Voice of the City")

Nada tenho contra o sol, contra esta cascata dourada de raios de fogo que parecem tornar o mundo inteiro mais colorido, mais vivo, mais vibrante de uma energia alegre e boa. Mas pergunto: por que motivo os Adoradores do Sol, essa multidão monoteísta que se acotovela nas praias e nas piscinas, é incapaz de reconhecer a beleza e a poesia de um dia nublado? O sol recorta contrastes lancinantes, fende o mundo com suas lâminas, e o deixa fatiado em placas de luz e de sombra. No dia nublado, a redoma de nuvens filtra e esbate esse brilho excessivo. O mundo fica tomado por uma luminosidade leitosa, espessa, macia. É uma luz que parece vir de todas as direções, que não projeta sombras, uma luz democrática e onipresente, a única capaz de mostrar o mundo como ele realmente é.

Nada tenho contra o Sol, repito. Admiro-o como admiro um leão, um tigre: ele lá e eu cá. Reconheço sua beleza e sua importância, mas francamente, não preciso da companhia dele o tempo todo. Tá liberado, companheiro! Vá aquecer os fiordes da Escandinávia, vá dourar os trigos da Suécia, vá bronzear Bjork. Eu por aqui vou indo muito bem, tomando banho-de-lua, como Celly Campello. O sol é um uísque-caubói duplo, e quem sou eu para negar seus méritos? Tem seus momentos, sem dúvida, mas para o correr normal dos meus dias prefiro um vinho suave, um crepúsculo roxo-lilás com nuvens e estrelas.

Gosto de “dias brancos” como os de Geraldo Azevedo & Renato Rocha, como gosto das “noites brancas” de Dostoiévsky. Gosto de ver a cidade trancada nesta caverna de claridade uniforme, ao abrigo daquela fogueira nuclear que nos cresta a retina e nos esturrica a pele. Gosto ainda mais do ar frio que geralmente sopra nesses dias, um friozinho gostoso que nos faz procurar o conforto de um casaco, e o calor aconchegante da companheira, porque tudo passa a ser pretexto para enlaçar-lhe a cintura, colar corpo com corpo, acelerar o sangue. É um ar fino, que clareia os pulmões; como se todos os Bancos do mundo tivessem desaparecido e deixado atrás de si apenas o ar condicionado, a única coisa que têm de bom.

Dêem-me dias brancos, dias nublados, dias propícios à meditação e à paz, ao cultivo das emoções tranqüilas e dos afetos prolongados, e à contemplação da Terra sem o clamor ensurdecedor das fornalhas do Sol. Dêem-me esses dias parecidos comigo, esses dias que vibram no meu diapasão contemplativo e sereno. Podem ficar com os outros – e isto me alegra duplamente, porque sei o quanto farei feliz a Humanidade, distribuindo-lhe dias ensolarados às mancheias. Mas guardarei para mim essas moedas de modesta prata, este céu com nuvens brancas de Chagall ou cinzentas de El Greco, este meio-dia no inverno da Serra da Borborema onde minha alma se formou, e onde aprendi que é possível haver no mundo beleza sem alarde, alegria sem frivolidade, e paz sem tédio.

0594) Arqueologia Midiática (12.2.2005)



Gosto de títulos bombásticos, e esse aí em cima me parece um bom começo de conversa. É essa a expressão que me vem à mente toda vez que estou precisando localizar imagens gravadas, porque a maior parte do meu arquivo de imagens está no formato VHS. Isto significa que tenho prateleiras e mais prateleiras de armários cheias de caixas de fitas. São camadas e mais camadas geológicas, com todo tipo de material, parte dele com milhões de anos de idade. Um sambaqui semiótico.

Quando comecei a usar TV a cabo, há oito ou dez anos, me deslumbrei com as infinitas possibilidades de montar um arquivo “com todas as coisas que eu gostava”. Aí, danei-me a comprar fita virgem e a gravar tudo que aparecia. Na véspera eu pegava a revista, olhava a programação e assinalava o que tinha de bom. No dia seguinte ficava num pé e noutro, trabalhando no computador e controlando o video-cassete, pra ver se a gravação estava indo bem.

Vai daí que hoje tenho aqui, absolutamente inutilizáveis e inexibíveis, filmes policiais americanos, jogos do Flamengo, gols da rodada, reportagens sobre a Paraíba, especiais sobre Ciência ou ficção científica, entrevistas, talk-shows, “Globo Repórter” sobre assuntos que me interessavam, musicais, curtas de animação, retrospectivas de fim de ano. Tenho todos os jogos do Brasil na Copa de 94. Tenho pilhas de filmes daquelas coleções “Clássicos do Cinema”. Tenho fitas com copiões de filmes de amigos meus. Tenho pilhas, com metros de altura, de fitas VHS com material de pesquisa de que precisei para este ou aquele trabalho. E morro de pena de jogar isso no lixo.

Alguns vou ter que jogar, porque já estão cobertos pela glacê branca e mortífera do mofo, e aqui chegamos ao objetivo deste artigo. Manter registros históricos é essencial, mas só tem sentido quando podemos mantê-los mesmo, pra valer. De nada adianta ter uma biblioteca de antigos pergaminhos se não conseguimos salvá-los do mofo e dos cupins. Por outro lado, meu video-cassete está quebrado, e mesmo que eu queira ver uma fita dessas agora, não posso. E em breve não vão existir no Rio técnicos que consigam consertar um video-cassete. Vai virar uma profissão em desuso, como a de calígrafo-de-diploma.

Ao atravessar essas camadas geológicas de informações preciosas, e agora inacessíveis, sinto um abalo profundo numa das minhas convicções mais sinceras, a de que é preciso preservar a Informação e o Conhecimento. Eu já tenho mais informações do que posso acessar. É impossível registrar tudo. É impossível guardar tudo. E é impossível voltar a ver o que foi registrado. O problema de um arqueólogo da mídia é que ele vai fazer suas escavações na esperança de encontrar cacos de cerâmica, pontas de flechas, jóias, crânios, tabletes de argila com inscrições, moedas. Mas basta ele pegar uma fita mofada, com a caixa partida, para ele ver que o Passado não existe mais. Foi dissolvido pela Entropia. Virou areia.

0593) Os holofotes e os bastidores (11.2.2005)




São dois universos, e cada um tem sua flora e sua fauna. Mal comparando, são opostos e complementares como o Dia e a Noite. Há quem habite apenas um, e há quem transite entre os dois. 

Os termos que usei talvez sugiram em excesso o mundo do teatro, da música, do show, da política. Mas em todas as atividades humanas existem essa cara e essa coroa, essa vitrine onde se expõe e esse porão onde se trabalha.

Há quem prefira um, e quem prefira o outro. Eu, por natureza e temperamento, prefiro o porão e os bastidores. É onde se trabalha melhor, onde as coisas são feitas a sério, onde são criadas as obras que perduram. Tudo que conhecemos da arte da Grécia Antiga ou da Renascença foi produzido nos bastidores, na calada da noite, no recolhimento das oficinas e dos ateliês. 

Quando estou aqui, sentado no sofá do meu quarto-dos-livros, olho para estas estantes e penso que cada livro destes, cada uma destas páginas, só veio ao mundo porque teve uma noite em que o cara, em vez de sair com os amigos, ficou em casa escrevendo.

O parágrafo acima parece uma opção pública, uma profissão-de-fé ideológica em que eu tomo o partido de A contra B. Calma, leitor: me acompanhe e vamos em frente, porque o mundo não é tão simples. 

Basta-me parar a caneta por alguns minutos e fazer um balanço autobiográfico para constatar que não, que o que me atraiu mesmo, a vida toda, foram as luzes da ribalta, o auê dos camarins, a badalação dos bares, a curiosidade da imprensa, o cio desnorteado das tietes. 

Por mais que a gente opte por escrever à meia-noite na água-furtada à luz de uma vela, não é aí que se esgota o processo, e sim no retintim de coquetéis no lançamento, e na espera ansiosa da primeira resenha num jornal.

Coço a cabeça, tentando resolver esta grave contradição filosófica (“se A é diferente de B, não se pode ser A e B ao mesmo tempo”). Meu recurso é abandonar de vez esse bitolamento aristotélico e recorrer ao Taoísmo, ao símbolo visual do Yin-Yang. 

O círculo onde uma gota preta e uma gota branca se entrelaçam, cada qual tendo em seu núcleo um circulozinho da cor oposta. São assim as coisas do mundo, tudo está entrelaçado ao seu oposto, tudo, no momento em que mais se expande e amadurece, expande e amadurece também um grãozinho minúsculo de seu próprio contrário, de seu próprio reverso.

Tudo que foi produzido nos bastidores gregos e renascentistas foi feito para os holofotes, para as vitrines e as platéias, para o deleite de uma corte e o deslumbramento respeitoso da Multidão. 

Foram épocas em que tudo deu certo. Épocas em que as pessoas que faziam a Vanguarda entenderam que para fazer Grande Arte podiam se valer também do Mercado, e as pessoas que faziam o Mercado entenderam que podiam perfeitamente investir na Vanguarda e sair ganhando com isto. Cada qual via no outro um sócio, e não um adversário. O que realizaram juntos se cristalizou em Tradição.





0592) Viva a Ecologia Musical (10.2.2005)


(Mário de Andrade, por Di Cavalcanti)

Uma das profissões que eu mais admiro é a de etno-musicólogo, esses sujeitos que saem de mundo afora, registrando manifestações musicais de comunidades obscuras, e encontrando formas de música que ninguém sabia que existiam. Por exemplo: qualquer dinamarquês ou suíço que desembarque na Paraíba e dê de cara com Zabé da Loca. O problema com a etnomusicologia é que vendo o nome assim ninguém deduz o que é, pode até pensar que tem a ver com pesquisa de vulcões. Sugiro então a criação do termo ECOLOGIA MUSICAL, cujo significado é mais intuitivo, e tem a grande vantagem de poder entrar sob a rubrica “ecologia”, que anda na moda, para conseguir verbas das multinacionais e dos órgãos do Governo.

O melhor trabalho de Ecologia Musical deste começo de ano é o CD duplo Responde a Roda Outra Vez, um projeto de Carlos Sandroni, patrocinado pela Petrobrás. A pesquisa procurou reconstituir o trajeto de uma missão cultural enviada ao Nordeste em 1938 por Mário de Andrade, então Chefe do Departamento de Cultura de São Paulo. O resultado dessa Missão são 33 horas de gravações, mais fotos, filmes, etc., hoje disponíveis no Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro. A equipe de Sandroni visitou grande parte das cidades onde a Missão de 1938 fez suas gravações, e chegou mesmo a reencontrar pessoas que tinham participado da primeira gravação. É emocionante pensar que houve uma mulher gravada pela Missão de 1938, aos 20 anos, e que voltou a cantar neste disco, aos 86.

Pretendo falar de novo no disco depois que ouvir direito (são 57 faixas, minha gente), mas cabem aqui alguns comentários sobre essa história de Ecologia Musical. Sou totalmente a favor do esforço de preservar plantas, árvores, flores raras, assim como bichos de todo tipo, sejam insetos amazônicos, peixes do Pantanal ou micos da Mata Atlântica. Nada contra, mas esse espírito protecionista poderia ser alargado para incluir, além da Natureza, o mundo da Cultura. A Cultura, produto do Homem, é um subproduto da Natureza. Um Rembrandt vale tanto quanto um gato.

Não se trata de pegar um cântico folclórico e colocá-lo num Museu, embora isso possa ter sua utilidade. No mundo da cultura popular (os folguedos, os cantos, os autos, as danças dramáticas, as danças de roda) os adultos jovens criam, os velhos (que são eles mesmos, meio século depois) passam adiante. Existe uma criação quase permanente, mas ela só existe em cima da repetição ritual do que foi aprendido. Quando você não registra e não passa adiante, impede a criação futura. Para usar uma metáfora agrícola, bem ao gosto do pessoal que mexe com isto, o Passado fertiliza o Presente para o Futuro poder brotar. Assim, quando a gente defende a preservação da Nau Catarineta, dos Teatros de Mamulengos, dos Cantos de Farinhada, e coisa e tal, não é por saudosismo do passado-que-já-se-foi, ou por estar com pena dos velhinhos. É para que a criança de hoje possa também criar, quando crescer.

0591) Quero ficar em teu corpo (9.2.2005)



A escritora novaiorquina Shelley Jackson lançou um projeto de Literatura Conceitual intitulado “Skin” (pele). Quem chamou de Literatura Conceitual não foi ela, fui eu, e se o termo não existe, solicito à Academia Brasileira de Letras que recorte este artigo e o consigne em seus compêndios, garantindo-me a paternidade do rótulo. Assim como na Arte Conceitual não se trata de saber pintar ou esculpir, mas de ter uma idéia abstrata e saber articular materiais concretos que a exponham, na Literatura não se trata de saber escrever bem, mas de criar um texto ao qual acontece alguma coisa, e essa coisa que acontece é mais significativa do que aquilo que o texto diz.

“Skin” é um conto com 2.095 palavras, e cada uma delas será entregue a um voluntário, que se apresentará à autora e assinará um contrato. Concluídas as formalidades, o voluntário deverá tatuar a palavra em qualquer parte do corpo, e enviar uma foto à autora, como comprovante. A partir daí, esta pessoa passará a ser considerada aquela Palavra específica (e não um simples “portador” da palavra). Mesmo que a tatuagem venha a ser apagada, ou destruída de algum modo, isso não pode reverter essa condição. (Há uma série de outras condições, que não vêm ao caso. Quem quiser participar, escreva para: shelley@drizzle.com, ou olhe em: http://ineradicablestain.com/skin.html).

O texto completo do conto será conhecido apenas pela autora e pelos 2.095 participantes, os quais se comprometem, por contrato, a jamais revelar o seu teor. Participantes poderão, se quiserem, entrar em contato uns com os outros e revelar quais as Palavras em que se tornaram. A história jamais será publicada, mas existe a possibilidade de que seja publicado um livro a respeito do projeto, com fotos de alguns participantes (mas não fotos das Palavras tatuadas), material de imprensa, artigos, etc. Diz o regulamento: “Somente a morte das Palavras poderá eliminá-las do texto. À medida que as Palavras forem falecendo, a História irá mudando; quando morrer a última Palavra, a História também morrerá. A Autora fará o possível para comparecer ao funeral de suas Palavras”. Em setembro de 2004, havia 1.780 pessoas inscritas, faltando 315 para fechar o projeto.

Uma questão: é possível considerar como obra literária um texto que nós, aqui “de fora”, não poderemos ler em sua totalidade? Duas mil e poucas pessoas lerão o texto, sob juramento de segredo. Este público é suficiente? Outra questão: este procedimento se assemelha menos ao da criação e fruição de uma obra de arte do que às formalidades de admissão numa fraternidade ou sociedade secreta. Há um segredo conhecido apenas por um número fixo de participantes. Há uma cerimônia iniciatória e a imposição de uma “marca” física no novo membro. Há o pacto de silêncio. Pode parecer besteira, mas eu ainda acho mais interessante do que mandar um milheiro de tijolos pra Bienal.