domingo, 3 de agosto de 2008

0488) A luz e as trevas (12.10.2004)



(Van Gogh, "Noite Estrelada")

Como sou um cara de temperamento noturno, sempre me incomodei um pouco com a mania das pessoas de identificar as trevas com o Mal. A escuridão é sempre associada ao medo, à ignorância, ao perigo, à maldade, à tristeza. Entendo perfeitamente, mas, como ocorre com toda associação de idéias, ela também pode ser virada às avessas. Tomo como exemplo a frase de Emerson sobre o céu estrelado. Diz ele que se nunca pudéssemos avistar o céu noturno, e um dia de repente isto fosse possível, os homens ficariam deslumbrados e entoariam cânticos de louvor a Deus pela beleza de sua criação. Isaac Asimov inverteu esta plausível proposta em seu conto “Nightfall”, onde descreve um planeta num sistema de sóis múltiplos, onde, em virtude disto, nunca anoitece. Um dia, uma conjunção de órbitas faz com que um lado do planeta fique às escuras: ao ver as trevas infinitas e as estrelas faiscantes, o planeta mergulha no caos e no terror. E é uma possibilidade tão plausível quanto a outra.

Eu não troco uma noite estrelada por todos os sóis de verão deste mundo, e uma coisa que me incomodava muito no tempo da ditadura militar era a mania da MPB em compará-la à noite, e ficar falando “no dia que vai chegar”, “o sol que vai raiar”, “esta noite vai ter fim”... Meu amigo! Eu acho uma beleza, do ponto de vista visual, a aurora dedirrósea erguendo-se no Oceano Atlântico, mas, pela parte que me toca, o fim de uma noite é sempre uma má notícia.

Pois saibam os adeptos da Luz que a Luz é que precisa ser vista à distância. A Luz queima, a Luz mata, ou pelo menos queima e mata àqueles que, iludidos pelo seu brilho enganador, querem nela mergulhar. Perguntem às mariposas de Adoniran Barbosa! Luz é para a gente circular em volta dela, e não para mergulhar de ponta-cabeça como fazem as moscas de botequim naquele néonzinho azul onde se suicidam. Vejam por exemplo o caso de Lúcifer, o anjo da luz, que quis se transformar na Luz propriamente dita e como castigo acabou ricocheteando para o fundo das trevas. O sonho mais vão da Humanidade é tocar a Luz. Mas ninguém toca impunemente o Fogo; e não lembro de parábola mais bela dessa nossa ambição infantil do que o conto de Ray Bradbury “Os Frutos Dourados do Sol”, onde uma espaçonave vai até o Sol para colher seu fogo e trazê-lo à Terra.

“A luz assassinava demais”, diz Guimarães Rosa no Grande Sertão. Quem já teve as retinas crestadas pela fornalha nuclear que crepita no zênite sertanejo é capaz de ver na noite um Paraíso, nas trevas uma bênção divina. As trevas são como um sono para um corpo cansado, como o silêncio para ouvidos massacrados pelas cacofonias urbanas. Vivemos numa época cruel, pragmática, interesseira, onde o fazer é considerado um Bem absoluto comparado ao não-fazer; daí que palavras como “escuridão” e “silêncio” pareçam a negação da Vida, quando na verdade são a parte oásis dela.

0487) O dentista e a tortura (10.10.2004)



(cartum de MOA)




Houve um tempo em que eu tinha medo de dentista. Na infância e na adolescência, dei muito trabalho a Dr. Queiroga, Dr. Bandeira e “Meu Bom”. Depois de adulto, reconciliei-me com este aspecto meio masoquista da condição humana através dos conselhos sensatos e da persistência de Pedro Hamilton. Depois que vim morar no Rio, coube a Mônica Blumer fazer com minha dentadura o que Ezra Pound fez com a primeira versão de “The Waste Land” de Eliot: jogar fora o que não prestava, e deixar mais apresentável o restante. Hoje em dia vou à dentista com a mesma tranqüilidade com que vou ao barbeiro.

As pinças martirizam? A broca zune? A agulha magoa? Não importa: fico ali, todo herói, todo mártir, amarrotando entre os dedos o lencinho de papel, os olhos cravados no teto, fazendo de conta que não é comigo. Desenvolvi uma técnica meio Zen de me isolar das sensações corporais, as quais continuam presentes, mas meio distantes, como um barulho ouvido embaixo dágua. Li anos atrás um depoimento de um preso político que descrevia algo de semelhante que se passava em sua mente nas horas da tortura.

Comparar uma sessão de dentista a uma sessão de tortura é até covardia. Mas quando nos entregamos, voluntariamente indefesos, àquela invasão mecanizada de nossos recessos mais íntimos, precisamos da certeza de que tudo aquilo está sendo feito para o nosso bem. E é com essa fé que me apego: a fé na Ciência, que para os indivíduos da minha estirpe chega a tornar desnecessária a fé em qualquer outra coisa. Vai daí que, enquanto estou estirado naquela cadeira, obrigo-me a sentir uma exultação íntima com tudo que me acontece. “Ainda bem!”, penso eu. “Este sofrimento todo é para acabar com as coisas ruins que iam acontecer! Esta dorzinha chata é para evitar que eu sinta de novo o traspassar lancinante da Pontada, que uma vez, aos quinze anos, me derrubou ao chão, sem mais nem menos, quando eu descia numa tarde chuvosa a rua Getúlio Vargas, perto do Cine Avenida!...”

E o zunido aterrador da broca vira trilha sonora de um desenho-animado imaginário em que eu a vejo desmoronando enormes paredes de tártaro corrosivo, fustigando agregados de bactérias até desmontá-los por completo e precipitá-los nos turbilhões da saliva (“pode cuspir...”), esboroando trechos comprometidos pela cárie que nos minutos seguintes serão substituídos por um esmalte feito em laboratório, mais rijo, que talvez não dure para sempre mas que decerto me sobreviverá. Alternam-se minúsculas britadeiras e jatos dágua gelada, enquanto vejo com o olho da mente as placas de micro-organismos sendo fustigadas, varridas, até se diluírem em despojos microscópicos; vejo o dente original emergindo branco e puro como um seio de Vênus feito em mármore de Carrara; vejo o império da limpeza e da saúde me restituindo a paz do corpo e do espírito. Estou sofrendo; mas é pro meu bem. Eita que bom, achei pelo menos um departamento, na vida, onde essa frase se aplica.

0486) De onde vêm os personagens? (9.10.2004)



(túmulo de Eleanor Rigby)


Conan Doyle afirmava que a inspiração para criar Sherlock Holmes lhe veio do seu professor no curso de medicina em Edimburgo, Dr. Joseph Bell, que era capaz de olhar para um paciente e deduzir uma porção de informações sobre sua vida, a partir de detalhes sutis de sua aparência e comportamento. 

Esta característica do personagem lhe veio, dizia Doyle, por sentir que era preciso fazer o leitor acreditar nos poderes de observação do detetive: ”Está muito bem dizer que um homem é inteligente, mas o leitor quer ver exemplos disto”. 

É um pequeno detalhe como este que faz a diferença entre um escritor competente e um amador bem-intencionado. 

Quantos romances vemos por aí em que um personagem é descrito pelo autor como inteligente, mas em momento algum do livro vemos esta qualidade ser exibida – provavelmente porque o próprio autor não a possui.

Personagens podem ser inspirados em alguém que se conheceu profundamente, como é o caso de Doyle e Bell, mas podem surgir também de um encontro casual. Jorge Luís Borges imagina, em seu conto “Deutsches Requiem”, um penhorista londrino do século 16 que ao morrer pede perdão por suas culpas, “sem suspeitar que a secreta vindicação de sua vida é ter inspirado a um de seus clientes (que o viu só uma vez e de quem não se lembra) o caráter de Shylock”. 

Que tivesse bastado a Shakespeare um único e breve encontro para construir sobre um desconhecido todo o personagem de O Mercador de Veneza não nos admiraria. É mais freqüente do que se imagina.

O americano Brett Halliday, criador do detetive Mike Shayne (muito lido no Brasil nos saudosos livros de bolso das Edições de Ouro), conta que quando trabalhava nos campos de petróleo do México, na juventude, meteu-se numa briga de bar, levou uma garrafada na cabeça e foi salvo por um americano enorme, ruivo, de olhos cinzentos, que quebrou o bar inteiro e conseguiu tirá-lo de lá. 

Tempos depois, reencontraram-se por acaso num bar em Nova Orleans; o ruivo estava novamente bebendo conhaque Martell com gelo. Conversaram um pouco, mas antes que Halliday pudesse perguntar seu nome o sujeito viu dois tipos mal-encarados entrando pela porta da frente, e sumiu pela porta dos fundos – até hoje. Anos depois, Halliday criou Mike Shayne como uma reprodução exata do desconhecido, inclusive a bebida predileta.

Outros personagens vêm não se sabe de onde. Quando Lennon e MacCartney compuseram “Eleanor Rigby”, ficaram travados no nome da personagem – a mulher solitária que recolhe no chão o arroz jogado sobre os noivos após um casamento, e que guarda o próprio rosto num vaso perto da porta. 

Tentaram várias possibilidades, como “Miss Daisy Hawkins”, “Ola Na Tungee” e outros. Muitos anos depois, descobriu-se que no cemitério de Liverpool há o túmulo de uma Eleanor Rigby, esposa de Thomas Woods, falecida em 10 de outubro de 1939 aos 44 anos (há uma foto da lápide no livro A Hard Day´s Write, de Steve Turner).





0485) O Clichê do Clichê (8.10.2004)




A TV recorre o tempo todo ao clichê-do-clichê, ao xerox-da-xerox, ao recurso narrativo tão surrado e tão freqüente que acaba sendo a primeira idéia a vir à mente do autor.

Cuidado com a primeira idéia, meus camaradinhas. Geralmente, é a pior de todas. Ela chegou primeiro à sua mente porque você já viu cinqüenta cópias dela, e todas estão doidas para sair, tomar um pouco de ar fresco, visitar mentes alheias.

Na cultura-de-massas é assim: os autores copiam uns aos outros por comodismo, por medo de serem originais e não serem compreendidos, por pressa, por mera burrice, ou apenas porque viram aquilo muitas vezes e ficaram achando que “é o jeito certo de fazer”.

Dias atrás liguei a TV numa dessas novelas “de época” passadas no interior. Uma estradinha deserta, no meio do mato, e lá vem um sujeito a cavalo, cheio de alforjes ou caçuás. Ele está indo na direção de uma fazenda, e é um violeiro.

O que é que o roteirista e o diretor fazem para mostrar que é um violeiro, um tipo alegre, folgazão? Fazem o sujeito vir sorridente, encarapitando-se a custo na sela (e nota-se que o mais perto que o ator já chegou de um cavalo foi assistindo uma corrida no Jóquei Clube), dedilhando a viola, e cantando a plenos pulmões pelo mato afora.

Olhe, eu estou com esta idade e ainda hoje estou para conhecer um sujeito que toque viola ou violão, e que se disponha a cantar e tocar enquanto cavalga sozinho no meio das brenhas. Não existe. Não é plausível. E (pior de tudo) não é dramaturgicamente interessante.

Outro exemplo. Em cinema e TV, quando querem mostrar que um cara está bêbado, fazem-no beber na boca da garrafa. Meu amigo! Se tem uma coisa em que eu sou PhD é em bêbado. Entendo mais de bêbado do que de mim mesmo, e posso afiançar a todos os roteiristas de Hollywood e da Globo: em um milhão de bêbados você talvez ache um que beba na garrafa, que é pior de segurar do que um copo.

É a mesma coisa quando um soldado-de-polícia numa peça teatral nordestina chega num bar para prender um desordeiro. No teatro, ele diz o chavão clássico: “Teje preso!” Rapaz, eu nunca vi soldado dizer isso. O que ele diz é: “Bora lá fora, rapaz.”

O clichê não é questionado porque quem cria as histórias parte do princípio de que o público já viu aquilo, e quando vir de novo, reconhece sem problemas.

Pouco importa se é uma simplificação mal-feita, se é uma bobagem, se é um preconceito. O clichê nos dispensa do esforço de criar, assim como um preconceito serve justamente para não discutirmos um assunto.

Um diretor estrangeiro comentou certa vez que há três tipos de cena que o cinema brasileiro faz mal: cena de bêbado, cena de briga e cena de sexo. Talvez porque sejam três situações em que existe uma enorme massa acumulada de clichês. Diretor e atores, para se livrarem do drama de ter que criar, desistem de recorrer a si próprios e a sua própria vivência, e seguem o caminho mais fácil: copiar a cópia.




sexta-feira, 1 de agosto de 2008

0484) O Homem do Fuzil (7.10.2004)



 (Agatha Christie)

Toda criança tem um amigo imaginário; vai ver que todas têm também um inimigo imaginário. Agatha Christie conta em suas memórias que um dos seus pesadelos mais constantes durante a infância envolvia um personagem que ela chamava O Homem do Fuzil. Era uma espécie de soldado francês, com chapéu de tricórnio e um mosquetão antiquado ao ombro. Aparecia nos momentos mais inesperados: quando a família estava reunida para o chá, ou quando as crianças brincavam no jardim. De repente, a pequena Agatha começava a sentir uma inquietação crescente. Olhava em volta, e acabava vendo-o sentado à mesa, ou caminhando na direção delas, na praia. Ele se aproximava, com os olhos fixos nela, e eram olhos de um azul muito pálido. Ela acordava gritando; “O Homem do Fuzil! O Homem do Fuzil!” Ela não temia que o homem disparasse o fuzil, que era apenas uma parte de sua indumentária, como o chapéu ou as botas. Era a simples presença dele, e seu olhar cruel, que a amedrontava.


Com o passar dos anos, o pesadelo foi se sofisticando, e o Homem do Fuzil passou a fazer aparições mais sutis. Diz ela: “Algumas vezes estávamos sentados ao redor de uma mesa de chá, eu olhava para um amigo ou para um membro da minha família e, de repente, tinha consciência de que não era Dorothy, ou Phyllis, ou Monty, ou minha mãe, ou qualquer outra pessoa. Nesse rosto familiar, os pálidos olhos azuis encontravam-se com os meus. Era o Homem do Fuzil.”


É um pesadelo notável para uma garota de cinco anos, mas é mais notável ainda quando refletimos em quem essa garota se tornou. Agatha Christie está entre os autores que melhor exploraram um tipo de história que os analistas do romance policial chamam de “cozy mystery” (“mistério aconchegante”), ou de “country house murders”. São histórias geralmente ambientadas numa casa de campo (ou mais raramente casa de praia) onde um grupo de pessoas amigas se reúne para passar um feriado ou fim-de-semana, e ali, no meio daquele ambiente tranqüilo, acaba acontecendo um assassinato.


O “cozy mystery” é tipicamente a descrição de como a harmonia num círculo de pessoas amigas, ou numa família, é rompida subitamente por um crime brutal. Segue-se uma investigação, no curso da qual o detetive (geralmente Hercule Poirot) começa a desvendar segredos, conflitos, ódios reprimidos, ressentimentos acumulados, e começa a perceber que todo mundo ali poderia ter motivo para matar a vítima. Ele vai reunindo as pistas, confrontando os depoimentos, e o livro culmina com uma sessão em que todos os suspeitos são reunidos numa sala, com a presença da polícia. Ali, Poirot faz uma reconstituição de como o crime foi cometido, elimina de um em um os suspeitos, até que o funil vai-se estreitando, e ele aponta o verdadeiro criminoso. Porque mesmo num ambiente de aparente harmonia um parente nosso, ou um amigo da família, de quem menos se suspeitava, pode ser O Homem do Fuzil. 




(Este texto está incluído no livro A Arte de Olhar Diferente, São Paulo, Editora Hedra, 2012.)




0483) O jipe abandonado (6.10.2004)



Sempre que me detenho a pensar sobre os mistérios do funcionamento da mente humana (ou seja, umas dez vezes por dia) me vêm à mente dois extremos. Um deles é a denúncia desesperada de Raul Seixas, de que só usamos dez por cento de nossa cabeça animal. Coitado de Raul, que danou-se a tomar tudo quanto lhe aparecia pela frente, pensando que estava a desbravar os noventa por cento restantes, mas estava de fato era bombardeando os dez que tinha. O outro extremo é o otimismo sem limites de Colin Wilson, cujos personagens lêem um livro do filósofo Husserl e ganham um tal nível de consciência dos próprios poderes que são capazes de fazer a Lua girar usando a força mental (não, não estou exagerando, leiam Parasitas da Mente).

O que me vem à lembrança nessas horas é um episódio que li certa vez numa revista. Um grupo de antropólogos estava estudando uma tribo africana. Depois de encerrados os estudos (ou talvez, mais realistamente, depois de consumida a verba do Governo), voltaram para casa e deixaram nas proximidades da tribo um jipe velho que não valia a pena trazer de volta. Mal os cientistas partiram, a tribo apossou-se festivamente do veículo, que para eles era um símbolo dos poderes mágicos do homem branco.

Acostumados a ver o jipe indo e voltando, os índios fizeram de tudo para pô-lo em funcionamento, tentando repetir os gestos que tinham visto os brancos fazendo. Sem sucesso, claro; o motor estava batido, o tanque vazio. Depois de muito tentarem, um pajé mais prático sugeriu puxarem o jipe com uma junta de bois, o que foi feito. Daí em diante, em todas as ocasiões festivas o cacique, o pajé e seus assessores se empoleiravam no jipe, e a junta de bois dava dez voltas com ele em torno das cabanas, sob os aplausos da tribo inteira.

Tudo muito bem, mas eles sabiam que faltava alguma coisa. O jipe estava muito pesado e exigia muito dos bois, porque, misteriosamente, as rodas estavam emperradas, e se recusavam a girar como faziam antes. Vai daí que um belo dia, quando o passeio festivo estava se cumprindo, um índio mais curioso começou a mexer na alavanca do freio-de-mão, e de repente – Shazam! Abracadabra! As rodas foram liberadas, giraram com facilidade, o jipe ficou levíssimo e veloz. O descobridor deve ter sido promovido a cacique, ou no mínimo a Ministro Chefe da Casa Civil. E daí em diante o jipe não parou mais de circular.

Pois é assim nossa relação com a mente. De vez em quando descobrimos algo que parece, por fim, nos dar acesso a todas as suas possibilidades. Não importa o quê: hipnotismo, meditação, LSD, implantes cibernéticos, Método Silva de Controle Mental, cientologia, Prozac, não importa. Acreditamos ter finalmente transposto o umbral das portas da percepção, acreditamos ter-nos tornado, por fim, iguais aos deuses. Mas estamos tão iludidos quanto os nossos aborígines rebocando um jipe que nunca vai funcionar direito.

0482) Lições de abismo (5.10.2004)




(ilustração para Viagem ao Centro da Terra)


Há um episódio na Viagem ao Centro da Terra de Julio Verne que me pareceu enigmático quando o li pela primeira vez aos 12 anos. 

Neste livro, o Prof. Lidenbrock e seu sobrinho Axel encontram um velho pergaminho onde está indicada uma passagem para o centro da Terra, através de um vulcão extinto na Islândia. Os dois empreendem a viagem, no capítulo 8 passam por Copenhague, e ao passear pela cidade o Professor percebe o campanário da igreja de Vor-Frelsers-Kirk. Resolvem subir até o alto. 

Primeiro sobem uma escada em caracol interna, depois passam para outra escada análoga, que sobe em espiral pelo lado de fora da torre. (Há um belo simbolismo oculto nesta espiral que parte do interior para o exterior, rumo ao alto.)

Chegando lá em cima, Axel está apavorado, tomado pela sensação de vertigem: 

“Abri os olhos. Entrevi por entre o fumo das chaminés as casas deprimidas, como se tivessem ficado esmagadas numa queda. Por cima de nós perpassavam nuvens desgrenhadas, e, pelo efeito de ilusão óptica, pareciam-me imóveis, enquanto o campanário e nós corríamos com vertiginosa rapidez.”

Verne nunca foi um bom prosador ou estilista, mas tinha, como poucos escritores, a intuição da imagem forte, inesperada, misteriosamente inesquecível. Esta torre imóvel que parece ser arrebatada a toda velocidade através do espaço é uma das imagens mais fortes do livro; e ele a complementa fazendo o Prof. Lidenbrock dizer a Axel: 

“Olha, mas olha bem! É necessário tomar lições de abismo!”.

Sempre achei fascinante que um indivíduo que se prepara para mergulhar nas entranhas da terra achasse necessário, como estágio preparatório, subir ao cimo de uma torre altíssima. Há nisso um simbolismo psicológico (subir às alturas é um modo de mergulhar nas profundezas do Inconsciente), mas há também um dos traços que fizeram de Julio Verne o autor de obras fundadoras, obras que alteraram nossa relação física e mental com o mundo. 

Num artigo de 1906, Anatole Le Braz dizia: 

“Verne nos trouxe a poesia do espaço, o frêmito do infinito. Comparemos o mundo sem limites a que ele nos conduz com o mundo que nos é pintado pelos romances habituais. No romance moderno predomina o ar da sala-de-visitas, do quarto, da alcova; é um ar abafado. No romance de Verne, é o ar livre, o ar virgem, o ar que nunca foi respirado. Quando o lemos, sentimos passar através dos nossos pulmões grandes sopros de ar que vêm das profundezas do ilimitado.”

Grande parte da rejeição que algumas pessoas têm à ficção científica deve-se a isto. Há pessoas (e nada tenho contra elas, entendo perfeitamente) que só se sentem à vontade no interior de um ambiente que conhecem, que controlam. Essas pessoas não têm o senso da aventura, nem mesmo sentadas em sua poltrona de leitura. 

A ficção científica nos arrebata para outros espaços, outros tempos, e essas pessoas sofrem de vertigem. Uma vertigem conceitual, que as faz recuar diante das lições de abismo.





0481) Kabul contra 007 (3.10.2004)



O primeiro filme de James Bond que vi foi Moscou contra 007, e fiquei fã. Li todos os livros, vi todos os filmes. Só parei quando, na era Roger Moore, foi ficando cada vez mais inverossímil, ou eu mais realista. Tudo que eu queria na época da Bondlatria era ter 10% daquela auto-confiança, e pegar ao menos uma daquelas mulheres (eu não saberia o que fazer com duas). Jamais imaginei, no entanto, que a vida de um agente secreto de verdade fosse daquele jeito. O próprio cinema já nos mostrava exemplos mais amargos do submundo da espionagem, como O Homem que veio do Frio, e mesmo os que tinham algo hollywoodiano, como Ipcress – Arquivo Confidencial, que revelou ao mundo Michael Caine, estavam a léguas de distância do delírio high-tech e high-society que eram os filmes de 007.

Hoje, vejo nos jornais o desespero inútil dos melhores Serviços Secretos do mundo diante do neo-terrorismo islâmico. Depois do 11 de setembro, li uma entrevista de um alto funcionário da CIA onde ele comentava assim o atentado: “O que me humilha, em primeiro lugar, é que nós não teríamos condições logísticas de praticar um ato como aquele, se quiséssemos. Em segundo lugar, mesmo que tivéssemos as condições, não teríamos a ousadia.” Nos jornais desta semana, vê-se que as condições logísticas até para rastrear os passos da Al-Qaeda são as mais precárias: faltam tradutores confiáveis em árabe, e fala-se em 500 mil horas de gravações sigilosas da Al-Qaeda que não puderam ser transcritas pelo FBI, o qual parece estar mais para Johnny English do que para James Bond.

Antes da invasão do Afeganistão, em 2002, vi um comentário na imprensa que me deu pena. Um figurão de Washington dizia: “Na Guerra Fria contra os soviéticos, era muito fácil encontrar pessoas fluentes em russo e dispostas a espionar os russos nas principais cidades da Europa Oriental. Seriam funcionários públicos, técnicos, etc.; iriam se hospedar em hotéis razoáveis, ou viver em conjuntos habitacionais, enquanto colhiam informações sigilosas. Para espionar o Talibã, contudo, é preciso falar uma meia-dúzia de dialetos árabes, e estar disposto a viver coberto de andrajos, morando numa caverna, comendo bode torrado.” Como os americanos, ainda por cima, não gostam de bode torrado, é fácil sentir o drama.

A espionagem de hoje se parece cada vez menos com um livro de Frederick Forsyth, John Le Carré ou Ken Follett. Depois que a guerrilha islâmica entrou no mapa, ninguém mais quer ser espião. Antigamente, o sujeito se encantava com 007 mas se conformava em ser algo parecido com Ken Philby, o agente duplo britânico que entregou o ouro à URSS e refugiou-se lá. Hoje em dia, Ken Philby está tão irreal quanto Bond ou Napoleon Solo, “o Agente da UNCLE”. Quem quiser ser espião tem que respirar poeira no Triângulo Sunita, beber água com cistosoma nas cisternas afegãs, dormir numa gruta, e pior é que o bode de lá não pega nem uma letra pro do Bananal.

0480) Agatha Christie e o medo (2.10.2004)


(Agatha e seu marido Max no Iraque)

Em sua autobiografia (que é um dos seus melhores livros, se não o melhor de todos) Agatha Christie discute de vez em quando alguns temas ligados à literatura policial, entre eles o do medo. Embora seja mais famosa por seus romances detetivescos (como os que têm como protagonistas Hercule Poirot e Miss Marple), ela escreveu também romances de crime e suspense, impecáveis, dos quais o mais conhecido deve ser O Caso dos Dez Negrinhos. O que há de mais interessante na saudosa Mrs. Christie é que era uma mulher inteligente, intuitiva, perspicaz, mas sem muita sofisticação conceitual. Vendo-a discutir literatura, história da Inglaterra ou a vida de uma dona-de-casa, estamos diante de alguém que pensa com sutileza e originalidade, mas em momento algum transforma isto em linguajar pseudo-filosofante.

Ela relata que, na infância, uma das coisas que mais lhe causavam medo era a brincadeira da “irmã mais velha”, uma irmã fictícia, que ela imaginava ser louca, morar numa gruta, e ser sósia de sua irmã mais velha, Madge. A brincadeira consistia em Madge mudar de voz no meio de uma conversa e dizer: “Agatha, você sabe quem eu sou, não é? Sou Madge. Você não está pensando que eu sou outra pessoa, não é?” A mudança na voz... a mudança no olhar... alguns pequenos gestos... e isto bastava para que Agatha, com cinco anos, tivesse certeza de que não era Madge que estava ali, mas A Irmã Mais Velha. E saía correndo, aos gritos. Depois, comentava ela: “Por que gostava tanto da sensação do medo? Será que habita em nós algo que se rebela contra uma vida com excessiva segurança? Será que é necessária à vida humana a sensação de perigo? Necessitamos instintivamente de algo a combater, a superar, como se fosse uma prova que quiséssemos dar a nós próprios? Se tirássemos o lobo da história de Chapeuzinho Vermelho, alguma criança gostaria dessa história?”

O medo pode vir dessa capacidade de estranhamento, de distanciamento, de olhar algo que nos é familiar e ver naquilo uma presença ameaçadora. Este processo mental é o reverso de outro que busca nos apaziguar, transformar o estranho ou ameaçador no familiar, no que está sob o controle da consciência. Agatha relata também a história divertida de um de seus netos, Matthew, que certa vez ela viu, aos dois anos de idade, descendo uma escada sozinho. Com medo de rolar pelos degraus, ele se agarrava à balaustrada, descia um degrau de cada vez, murmurando baixinho: “Este é Matthew... ele está descendo a escada...” É uma ilustração nota-dez do nosso processo de racionalização, de olhar-de-fora algo arriscado para assumir um mínimo de controle sobre o que ocorre. E ela diz que todas as vezes que precisava participar de eventos públicos, apesar de sua timidez, murmurava para si mesma: “Esta é Agatha... ela é uma escritora famosa... vai dar uma palestra...” E isto a tranquilizava. Um dos nossos maiores medos é o medo daquilo que nossa mente não consegue dominar.

0479) Elites versus Povão (1.10.2004)



(Obama em Berlim, julho 2008)

Elitista é um sujeito que acha que uma nota de dez vale mais do que duas de cinco; populista é o sujeito que acha que é o contrário. Millôr Fernandes disse certa vez que toda a discussão ideológica entre esquerda e direita poderia ser reduzida a uma disputa básica: a Esquerda acha que quem deve governar é a maioria da população, e a Direita acha que quem deve governar é uma minoria. As palavras de Millôr não eram estas, estou parafraseando, mas acho que a idéia era por aí. O pior nesta discussão é que ambas as posições parecem estar certas.

Vejamos a Direita. “O Povo não sabe o que quer. O Povo é uma massa bestializada, uma horda de gente embrutecida, gente reduzida ao egoísmo-de-sobrevivência daqueles a quem sempre foi negado tudo, e que quando têm qualquer vislumbre de possibilidade são capazes de pisar no pescoço da mãe para agarrar-se a essa migalha. O destino das massas poderia ter sido outro, se lhes tivessem sido dadas as devidas chances, mas não foi isto que ocorreu. A população é analfabeta, animalizada, incapaz de entender o mundo em que vive; e só porque é maioria vamos entregar-lhes as rédeas da Cultura e da Civilização? Na-na-ni-na-não!”, dizem os Elitistas. “Quem manda aqui sou eu, que me preparei a vida inteira para isto, e não essa sub-raça.” Como negar que existe lógica por trás deste argumento?

Já a Esquerda pensa o contrário. “Massas animalizadas? Que papo é esse, cara-pálida? O que eu vejo são massas organizadas, conscientes, trabalhadoras. Entrem no lar humilde de um operário e vocês vão ver façanhas espantosas de honestidade e caráter. De previdência, prudência e realismo na administração de bens escassos. De planejamento a longo-prazo, de valorização de conquistas alcançadas como muito suor e muita persistência. Tudo bem, também existe um lumpen-proletariado sem a menor desqualificação: os mendigos, os marginais, os desajustados. O Povo, contudo, é outra conversa. O Povo conhece nosso país muito melhor do que os tecnocratas e os políticos que estão encastelados em suas torres-de-marfim. Qualquer dona-de-casa entende mais de economia do que o Ministro da Fazenda.” Soa familiar?

Os dois discursos nos soam familiares, porque, apesar de não terem a mínima relação com a realidade, são ouvidos o tempo inteiro. São mera retórica de editorial e de palanque. Não são um exame verdadeiro do que são as Elites e o Povo, e do que determina suas ações. “Elite” e “Povo” são noções abstratas que devem ser usadas com muita economia. Botar nelas uma inicial maiúscula e passar a usá-las como nome próprio, tratá-las como se fossem uma pessoa, é um perigo. Nenhum desses conceitos se refere a uma entidade única e de comportamento uniforme. Personalizá-los (“a Elite é egoísta...”, “o Povo é alienado...”) é cobrir com camadas de papo-furado uma imagem que já não é das mais fáceis de enxergar. É pouco científico. Toda vez que eu fizer isto, puxem-me as orelhas.