(foto: Marco Haurélio)
À primeira vista, cabe-nos carpir sem remordimentos a conjuminância de sermos os únicos ambi-sinistros deste alvéolo. Qualquer outra objurgatória passará em broncas luzes por sobre a minuana.
De fato, Bourdieu dixit: “O campo eletro-pragmático da discordância subliminar não é porositado pelo discurso: antes se queda hermético a si mesmo, e a todas as refrações do self”. São muitas as consonâncias linguodentais prontas a intervir nesse contubérnio, embora o neo-platinismo meio-campista se recuse a silhuetar predominâncias, ou mesmo prioridades implícitas.
Eis o semieixo nodal do hemistíquio: ou destecemos a parassintaxe de nossas próprias anti-premissas, para conformá-las ao gargalo do esfíncter conceitual em voga (pace Bachelard e seus amanuenses!), ou só nos resta reordenar os brônquios de cada sofisma para a minuta alegre de um pré-intenso “retorno ao avatarismo”, tática de antemão auto-sabotada pela incapacidade de fugir ao empuxo gravitacional da estaca-zero.
Colocado assim o solecismo pós-natal, parece óbvio que cada anelo de actância por parte do quase-ser tende a se esboroar na mera ventoinha febril das dissensões. Não nos adianta muito recorrer a Whitehead, visto que cada hipérbole altruísta apenas contribui para potencializar esse patético harakiri de um ser-em-si capaz de lipoaspirar o próprio logos.
De fato, como desembestar os neurônios raquíticos de uma geração que se quis rasga-bandeira e se encontrou patafísica, que se arvorou em rompe-lâminas mas soçobrou nas rochas alcantiladas do mais índigo famalicão?
Podemos tentar um reconsolo tácito na fórmula (ainda inexpugnada) de Derrida: “Cada Lacan é um canal, e cada fera de São Cristóvão é uma falsa Kristeva driblando a bilôla tangente”. Foi para isto, para essa migalha de epifania, que repelimos a navalha de Occam e a vírgula de Oxford?!
Neste impasse, ou em qualquer outro do mesmo bulevar beckettiano, ainda é possível propor um desarmistício provisório, uma terraplenagem de axiomas capaz de nos re-equacionar a pena e a lei, a régua e o compasso, as pastilhas-de-freio e as roldanas-do-contrapeso.
Sim! Que se aposentem os cartapácios, os calepinos, os alfarrábios, as versões beta-caroteno das bulas alfanuméricas. Que se recalcule o zero de cada um – e o um de cada zero. Terra arrasada – um remédio amargo para quem achou que era doce morrer no mar, e acabou se salgando no bacalhau de si mesmo.
Os senescais da balbúrdia não prevalecerão, afirmou Philomena Cunk em seu maciço Tractatus Amphibologicus, do qual extraímos esta sonora epígrafe: “O absurdo-mudo da existência é um tatu que nenhum trator arrasta”. Nesse eclesiastes leigo-profano, são muitas as advertências compulsórias capazes de indicar o norte-por-noroeste para a migração de nossas carrapetas mentais.
“O maniqueísmo furta-se à concessão fractal”, advertiu Benjamin de mala em punho, na rotunda hipnótica onde tergiversava. Ele sabia dosar a usucapião do inconsciente seletivo e a gambiarra nocional de Agamben, mas mesmo assim não conseguiu pavimentar uma saída honrosa-choque para seu próprio trauma-comprimido.
E quem nos chancela essa polaróide pouco alentadora é o próprio Richard Feynman, ao preconizar: “Eu vi os melhores cérberos da minha geração indo latir de graça no portão do inferno alheio”.


10 comentários:
deu a gota...
liuz ficou a ver navóides. um contenido proteúdo desses as tv não res produz.
Atabalhoamentos do primeiríssimo vespertino do mês adentrado!
Estive aqui para aplaudir. Sebo Lisboa
Em bom paraibanês: Gastasse tudo que podia, cabra. Não deixasse uma palavra pra gente usar. Muito bom 😃
Braulio, tu és o quelso do pental ganírio!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!, Braulio Tavares.
Era briluz e as lesmolisas touvas Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas, E os momirratos davam grilvos. Bravarte.
(Carroll e Campos, per seculum seculorum).
Olha, para começo de conversa, a gente tem que aceitar que somos os únicos 'desajeitados' e perdidos aqui. Qualquer reclamação de fora vai ser ignorada, como vento passando. A verdade é que a gente se fecha tanto nas nossas discussões difíceis que ninguém mais se entende — nem nós mesmos. Tem muita gente querendo dar palpite com palavra bonita, mas ninguém quer admitir quem manda de verdade.
O problema central é este: ou a gente para de complicar o óbvio e aceita as regras do jogo atual, ou vamos continuar tentando voltar a um passado que nem existe mais — uma estratégia que já nasce errada porque não saímos do lugar. Do jeito que as coisas estão, qualquer tentativa de agir vira só briga boba e confusão mental. Não adianta citar filósofos complicados se a gente só usa isso para destruir a própria inteligência.
Como é que vamos dar um jeito na cabeça dessa geração que queria fazer revolução, mas acabou virando uma piada sem sentido? A gente tentou ser rebelde, mas quebrou a cara na realidade bruta. Para chegar nessa 'grande ideia', a gente jogou fora a lógica simples e até a organização básica!
Nesse beco sem saída, a única solução é dar um tempo na briga, baixar a bola e recomeçar do zero. Chega de livros velhos, manuais complicados e teorias que não servem para nada. Precisamos resetar tudo. É um remédio amargo para quem achou que a vida seria fácil e acabou se dando mal por conta própria.
A bagunça não pode vencer. O resumo da ópera é que a vida é um absurdo difícil de encarar e não tem 'trator' que resolva isso fácil. Existem muitos avisos por aí tentando nos guiar, mas até os gênios do passado se perderam nas próprias ideias e não acharam uma saída honrosa. No fim das contas, como dizem por aí: as mentes mais brilhantes estão perdendo tempo latindo em problemas que nem são deles.
Oi, Braulio,
ri do início ao fim com essa belezura de paródia do intelectualês.
https://bsky.app/profile/fragarf.bsky.social/post/3mijnlcvakk2k
(Ainda aguardo, esperançoso, sua resposta ao meu email.
Abração e admiração)
Fraga, seja bem vindo! Não tenho notícias suas há um tempão, e se tiver mensagem, mande de novo, porque não vi.
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