terça-feira, 31 de março de 2026

5228) A Réplica (31.3.2026)



(foto: Marco Haurélio)


À primeira vista, cabe-nos carpir sem remordimentos a conjuminância de sermos os únicos ambi-sinistros deste alvéolo. Qualquer outra objurgatória passará em broncas luzes por sobre a minuana.  
 
De fato, Bourdieu dixit: “O campo eletro-pragmático da discordância subliminar não é porositado pelo discurso: antes se queda hermético a si mesmo, e a todas as refrações do self”. São muitas as consonâncias linguodentais prontas a intervir nesse contubérnio, embora o neo-platinismo meio-campista se recuse a silhuetar predominâncias, ou mesmo prioridades implícitas. 
 
Eis o semieixo nodal do hemistíquio: ou destecemos a parassintaxe de nossas próprias anti-premissas, para conformá-las ao gargalo do esfíncter conceitual em voga (pace Bachelard e seus amanuenses!), ou só nos resta reordenar os brônquios de cada sofisma para a minuta alegre de um pré-intenso “retorno ao avatarismo”, tática de antemão auto-sabotada pela incapacidade de fugir ao empuxo gravitacional da estaca-zero. 
 
Colocado assim o solecismo pós-natal, parece óbvio que cada anelo de actância por parte do quase-ser tende a se esboroar na mera ventoinha febril das dissensões. Não nos adianta muito recorrer a Whitehead, visto que cada hipérbole altruísta apenas contribui para potencializar esse patético harakiri de um ser-em-si capaz de lipoaspirar o próprio logos. 
 
De fato, como desembestar os neurônios raquíticos de uma geração que se quis rasga-bandeira e se encontrou patafísica, que se arvorou em rompe-lâminas mas soçobrou nas rochas alcantiladas do mais índigo famalicão? 
 
Podemos tentar um reconsolo tácito na fórmula (ainda inexpugnada) de Derrida: “Cada Lacan é um canal, e cada fera de São Cristóvão é uma falsa Kristeva driblando a bilôla tangente”.  Foi para isto, para essa migalha de epifania, que repelimos a navalha de Occam e a vírgula de Oxford?! 
 
Neste impasse, ou em qualquer outro do mesmo bulevar beckettiano, ainda é possível propor um desarmistício provisório, uma terraplenagem de axiomas capaz de nos re-equacionar a pena e a lei, a régua e o compasso, as pastilhas-de-freio e as roldanas-do-contrapeso. 
 
Sim!  Que se aposentem os cartapácios, os calepinos, os alfarrábios, as versões beta-caroteno das bulas alfanuméricas. Que se recalcule o zero de cada um – e o um de cada zero. Terra arrasada – um remédio amargo para quem achou que era doce morrer no mar, e acabou se salgando no bacalhau de si mesmo. 
 
Os senescais da balbúrdia não prevalecerão, afirmou Philomena Cunk em seu maciço Tractatus Amphibologicus, do qual extraímos esta sonora epígrafe: “O absurdo-mudo da existência é um tatu que nenhum trator arrasta”. Nesse eclesiastes leigo-profano, são muitas as advertências compulsórias capazes de indicar o norte-por-noroeste para a migração de nossas carrapetas mentais. 
 
“O maniqueísmo furta-se à concessão fractal”, advertiu Benjamin de mala em punho, na rotunda hipnótica onde tergiversava. Ele sabia dosar a usucapião do inconsciente seletivo e a gambiarra nocional de Agamben, mas mesmo assim não conseguiu pavimentar uma saída honrosa-choque para seu próprio trauma-comprimido. 
 
E quem nos chancela essa polaróide pouco alentadora é o próprio Richard Feynman, ao preconizar: “Eu vi os melhores cérberos da minha geração indo latir de graça no portão do inferno alheio”. 
 
 





10 comentários:

Cassandra Véras disse...

deu a gota...

Cassandra Véras disse...

liuz ficou a ver navóides. um contenido proteúdo desses as tv não res produz.

Fabiano disse...

Atabalhoamentos do primeiríssimo vespertino do mês adentrado!

Anônimo disse...

Estive aqui para aplaudir. Sebo Lisboa

Leonardo disse...

Em bom paraibanês: Gastasse tudo que podia, cabra. Não deixasse uma palavra pra gente usar. Muito bom 😃

Anônimo disse...

Braulio, tu és o quelso do pental ganírio!

Getúlio Maia disse...

Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!, Braulio Tavares.
Era briluz e as lesmolisas touvas Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas, E os momirratos davam grilvos. Bravarte.
(Carroll e Campos, per seculum seculorum).

Anônimo disse...

Olha, para começo de conversa, a gente tem que aceitar que somos os únicos 'desajeitados' e perdidos aqui. Qualquer reclamação de fora vai ser ignorada, como vento passando. A verdade é que a gente se fecha tanto nas nossas discussões difíceis que ninguém mais se entende — nem nós mesmos. Tem muita gente querendo dar palpite com palavra bonita, mas ninguém quer admitir quem manda de verdade.
O problema central é este: ou a gente para de complicar o óbvio e aceita as regras do jogo atual, ou vamos continuar tentando voltar a um passado que nem existe mais — uma estratégia que já nasce errada porque não saímos do lugar. Do jeito que as coisas estão, qualquer tentativa de agir vira só briga boba e confusão mental. Não adianta citar filósofos complicados se a gente só usa isso para destruir a própria inteligência.
Como é que vamos dar um jeito na cabeça dessa geração que queria fazer revolução, mas acabou virando uma piada sem sentido? A gente tentou ser rebelde, mas quebrou a cara na realidade bruta. Para chegar nessa 'grande ideia', a gente jogou fora a lógica simples e até a organização básica!
Nesse beco sem saída, a única solução é dar um tempo na briga, baixar a bola e recomeçar do zero. Chega de livros velhos, manuais complicados e teorias que não servem para nada. Precisamos resetar tudo. É um remédio amargo para quem achou que a vida seria fácil e acabou se dando mal por conta própria.
A bagunça não pode vencer. O resumo da ópera é que a vida é um absurdo difícil de encarar e não tem 'trator' que resolva isso fácil. Existem muitos avisos por aí tentando nos guiar, mas até os gênios do passado se perderam nas próprias ideias e não acharam uma saída honrosa. No fim das contas, como dizem por aí: as mentes mais brilhantes estão perdendo tempo latindo em problemas que nem são deles.

Fraga disse...

Oi, Braulio,
ri do início ao fim com essa belezura de paródia do intelectualês.

https://bsky.app/profile/fragarf.bsky.social/post/3mijnlcvakk2k

(Ainda aguardo, esperançoso, sua resposta ao meu email.
Abração e admiração)

Braulio Tavares disse...

Fraga, seja bem vindo! Não tenho notícias suas há um tempão, e se tiver mensagem, mande de novo, porque não vi.