quinta-feira, 18 de outubro de 2012

3007) A glória secreta (19.10.2012)




(Saul Steinberg)


Fala-se que no Oriente há uma cordilheira de montanhas de calcário escavadas por dentro, formando uma colmeia de galerias. Vive ali um povo frugal e contemplativo. Seus poetas diferem dos de outros lugares pelo fato de que não escrevem: compõem  suas obras mentalmente, às vezes em silêncio, às vezes em voz alta. Exploradores e turistas europeus já foram admitidos às câmaras internas onde eles vivem sem jamais saírem, alimentados e mantidos pela comunidade.

Lord Gregson informa, em Journeys Through the Lands of the Sun, que foi conduzido ao longo de um corredor por um guia que lhe recomendava silêncio. Os corredores cavados na pedra são baixos, e um europeu precisa curvar-se para atravessá-los. No fim, numa câmara circular com uns seis metros de diâmetro, via-se uma esteira simples, onde um homem estava sentado. Quando Gregson entrou, ele se servia de água de uma bilha, num caneco de barro. Gregson e o guia se sentaram; o homem não pareceu dar pela sua presença. Ficou concentrado, as mãos pousadas sobre os joelhos, e depois de meia hora fechou os olhos e recitou uma longa sequência de frases que deixaram o guia emocionado. Ele explicou depois a Gregson que o homem tinha contado o reencontro entre um homem e seu cavalo. Os dois haviam se perdido numa batalha, muito tempo atrás, e nesse dia o cavalo, reconhecendo o guerreiro no meio de um curral cheio de gente e animais, galopou até ele e se ajoelhou aos seus pés.

Criam histórias assim, para si e para ninguém, ou melhor, para os curiosos (em geral crianças e velhos) que se dão o trabalho de visitá-los. Não têm o direito de escrever, porque escrever seria partir o fio de inspiração que liga o poema ao poeta. O poema (diz aquele povo) pertence ao corpo do poeta, nasce nele, deve morrer com ele. Fala-se que algumas tribos, mais radicais, cortam a língua dos poetas para que nem mesmo a palavra falada quebre esse vínculo.

Isso nos lembra de um dos Buendía de Garcia Márquez, que esculpia peixinhos de ouro delicadamente ourivesados, durante meses, e quando terminava uma dúzia derretia todos e recomeçava. Lembra também o que escreveu Arthur Machen em A glória secreta, quando fala que Cristóvão Colombo, ao descobrir a América, deveria ter jogado ao mar seus tripulantes, voltado sozinho para a Europa e fruído em silêncio, até morrer, seu maravilhoso segredo. E nos permite pensar em civilizações antigas cujas principais conquistas tenham sido do pensamento e do espírito, e cuja existência desconhecemos porque deixaram poucas ruínas físicas, assim como tantos animais invertebrados não deixam fósseis que comprovem sua passagem pela Terra.



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