segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

0695) Não perdoaremos teu sucesso (10.6.2005)



De vez em quando, ao folhear os jornais (ou melhor: ao clicar através de suas telas) paro para ler alguma coisa sobre o processo de Michael Jackson, acusado de pedofilia. Tenho uma pena danada desse rapaz. Jackson era um daqueles menininhos chatos do Jackson Five, com cabelos de arapuá e vozes de “castrati”, que cantavam coisas adocicadas como “Music and Me” e “Ben”. Esta, curiosamente, é uma canção de amor de um rapaz para um ratinho, e foi composta por Alex North para a trilha sonora do filme Willard de Daniel Mann (1971), em que o dito rapaz, um sujeito meio sociopata, comunica-se mentalmente com ratos e os utiliza para vingar a morte de sua mãe (Elsa Lanchester), eliminando o cara que perseguiu sua família (Ernest Borgnine). É um filme tão impressionante que escrevi por causa dele o poema “Calafrio”, publicado em meu livro Sai do Meio que lá vem o Filósofo. (Foi refilmado em 2003, com Crispin Glover no papel título).

Sempre tive uma simpatia instintiva pelos desajustados, pelos excêntricos, pelos que não se encaixam. E sempre tive um medo mórbido de psicopatas, tarados e serial-killers, por saber que é muito tênue a linha que separa os dois grupos. Willard é um sujeito imaturo, inadaptado e com ódio à humanidade, e o fato de Jackson, então um garoto, cantar a música-tema do filme sempre me pareceu uma premonição do seu futuro. Jackson estourou pra valer nos anos 1980 com dois videoclips arrasa-quarteirão, no tempo em que video-clip era uma novidade estética, e não a burocracia obrigatória de hoje. “Beat It” e “Thriller” mostraram um Michael Jackson que ninguém esquece, compondo, cantando e dançando com uma fúria criativa que o fez quebrar todos os recordes.

Eu acho, no entanto, que nos EUA existe uma organização secreta composta de homens pálidos, gordos, milionários, com frios olhos azuis, que se reúnem às vezes na biblioteca de uma mansão, fumando charutos caríssimos e tomando uísque mais caro ainda, os quais ficam olhando para uma TV, mudando de canal, à procura de um negro que esteja fazendo muito sucesso. Quando o sucesso é grande demais, eles murmuram uns para os outros: “Não perdoaremos”. Daí em diante, é só uma questão de tempo. No primeiro vacilo, o reinado do crioulo cai por terra. O que está acontecendo com Jackson é o mesmo que aconteceu com Mike Tyson: um negro que se ofusca com a própria glória, perde a noção da realidade, e começa a cavar a própria cova. É tudo que os graves senhores de terno precisam para transferi-lo do “Hall of Fame” para a vala comum.

Jackson é um excêntrico, um maluco, sexualmente infantil, emocionalmente retardado, possivelmente um pedófilo. Deve ter cometido, por desajustamento e imaturidade, a maioria dos delitos de que é acusado. É uma das figuras trágicas de nossa época, porque nada nele foi “normal”, nada nele foi comum. Jackson é uma caricatura, uma exceção, uma colagem de distorções e exageros. É a cara do sistema que o produziu.

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