Há um belo poema de Carlos Drummond de Andrade onde ele
sugere, a certa altura, que gostaria de ver “um fim sem a injustiça dos prêmios”.
O que parece uma contradição. Que sentido tem chegar ao
fim de um processo e não receber uma recompensa qualquer?! Para que todo aquele esforço, então? Não faria sentido. O plantio tem que ser recompensado com a
colheita, e mais ainda: com a refeição no prato e o superávit no mealheiro.
Como imaginar toda a faina, toda a labuta desta vida
humana sem a promessa (melhor: sem a garantia!) de um Paraíso à nossa espera?
Nada neste mundo deveria acabar com um simples THE END,
e, se o fizesse, deveria ser como o THE END dos filmes americanos, que em nossa
infância estrumaram essa sede de triunfo e ressarcimento: um casal se beijando
aos pés do altar, um guerreiro erguendo a espada vitoriosa, o herói de retorno
à família que lhe acena boas-vindas na varanda.
Tem que haver um prêmio, mas esse conceito tão nobre acabou
sendo barateado, bastardizado, pirateado sem escrúpulos pelo conceito de disputa
pelo 1º, 2º, 3º lugares, medalhas de ouro, prata e bronze, esse tipo de coisa.
Quando eu fazia parte da organização dos Congressos de
Violeiros de Campina Grande, nos anos 1970, ficava escandalizado com a
ferocidade da disputa, com as mil e uma artimanhas dos cantadores para derrotar
os companheiros.
Mais de uma vez sugeri, com a minha cara abestalhada de
universitário de óculos: “Por que não transformamos o Congresso num festival não-competitivo,
em que todas as duplas se apresentam no palco do Teatro, improvisam sobre temas
sorteados, recebem maiores ou menores salvas de palmas de acordo com seu
desempenho, e a grana da premiação é dividida irmãmente entre todos?...”.
Ou seja, eu queria a Utopia drummondiana, que como toda Utopia
é muito bonita no papel, mas se reduz a pó no instante em que bota o pé na
calçada.
Os cantadores, todos mais velhos do que eu, botavam a mão
no meu ombro e diziam: “Rapaz, se disser que não tem disputa não vem ninguém. Deixa
eles se comerem uns aos outros. E que ganhe o melhor.”
É engraçado. Os cantadores de viola nordestinos parecem
rezar na mesma cartilha dos roteiristas do cinema de Hollywood, para quem toda
história tem que se basear num Conflito, porque se não tiver conflito não se
vende um só ingresso.
E faz um certo sentido, admito, porque na raiz da Cantoria
de Viola está o Desafio, está o confronto poético, está a cerimônia agonística
(Johan Huizinga) em que o representante da comunidade X precisa vencer o
representante da comunidade Y, e nesse confronto ambas as comunidades mobilizam
suas energias, seu entusiasmo, sua coesão emocional, sua engenhosidade criativa,
seu impulso superador.
(folheto da
editora Tupynanquim, para lançamento em breve)
É algo que nem mesmo o conceito moderno (de meados do
século 20) da Cantoria de Viola entre parceiros, não entre adversários,
conseguiu apagar.
E é algo que vigora em tudo neste mundo, desde o Nobel
até o Oscar, desde o Jabuti até a Copa do Mundo, desde a Palma de Ouro até o
Grammy Latino. Alguém precisa perder para que alguém possa ganhar – e para que
todo mundo queira concorrer.
E quando penso na “injustiça dos prêmios” drummondiana,
me questiono: um prêmio pode ser injusto? E me lembro de prêmios em que o premiado,
muito tempo depois, confidenciou: “Era melhor não ter ganho. Todo mundo disse
que eu ganhei sem merecer. Ganhei, mas
isso me fez mais mal do que bem.”
Acho que o primeiro grande impasse que se formou na minha
cabeça foi naquele Festival da Canção, no Rio de Janeiro, que na reta final se dividiu
entre “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, a grande vencedora, e “Caminhando”
de Geraldo Vandré, o grande sucesso injustiçado.
Estive vendo dias atrás um documentário sobre Chico, na
Netflix, onde ele fala nesse episódio com a habitual gargalhada de bom humor,
recordando a vaia estrondosa que sacudiu o Maracanãzinho quando anunciaram o
prêmio para “Sabiá”. Todo mundo queria Vandré.
Lembro as discussões ferrenhas na minha turma de amigos,
quando a gente fazia “bacurau” madrugada afora na esquina de Olacanti (porque
era pertinho do apartamento da minha tia, onde eu dormia às vezes, e pertinho
da casa de Son e Marcos Agra, na rodoviária velha).
-- Quem tinha que ganhar era “Caminhando” – dizia um. –
Uma música contra a ditadura, levantou o público, todo mundo cantou junto.
-- Uma letra repetitiva, toda com rima em “ão” –
questionava outro. – “Sabiá” tem versos lindos: “vou deitar à sombra de uma
palmeira que já não há”. Poesia pura.
-- Poesia do tempo de Gonçalves Dias – rebatia alguém. –
Sabe o que é poesia em 68? “Nas escolas, nas ruas, campos, construções,
caminhando e cantando e seguindo a canção”.
-- É de fato um bom verso – concedia o primeiro. –
Conseguiu trocar “ão” por “ões”.
Eu sempre preferi “Caminhando”, até por ser uma canção de
dois acordes, algo que sempre desperta minha simpatia; e chegamos a tocá-la (como
número instrumental, prudentemente) quando fiz parte dos Sebomatos. Mas lembro
na época algumas entrevistas de Tom e Chico, quase pedindo desculpas por terem
ganho o Festival.
Alguma pessoa terá despertado mais antipatia no Brasil do
que a pobre da Gwyneth Paltrow, que tomou de Fernanda Montenegro o Oscar de
melhor atriz que o Brasil inteiro já dava como (merecidamente) ganho? A
coitadinha subiu ao palco toda balbuciante, dizendo que não esperava... (Todo
mundo que ganha um Oscar diz que não esperava, que foi uma surpresa, que não
preparou nada!)
Vi tempos depois uma entrevista com ela, em que dizia, no
fim das contas, que era melhor não ter ganho do que ganhar e todo mundo dizer
que ela não mereceu.
Um caso parecido se deu no futebol, no ano passado,
quando o ex-flamenguista Vinicius Jr., do Real Madrid, era tido por muita gente
como o vencedor antecipado da Bola de Ouro, o prêmio de melhor jogador do ano.
Vinicius é um grande jogador e pelo meu gosto pessoal receberia, sim, o prêmio
naquele ano (não no ano seguinte, em que ficou bem abaixo).
Acontece que Vinicius se envolveu numa série de episódios
de racismo com as torcidas, bateu de frente, rasgou o verbo, deu murro em ponta
de faca, recusou-se a baixar a cabeça... Resultado: atraiu para si as
antipatias de muita gente no futebol, desde os racistas propriamente ditos até
aqueles que abominam as polêmicas e sonham com prêmios “platônicos”, idealmente
técnicos, sem fatores extra-campo envolvidos.
E aí a Bola de Ouro acabou indo para Rodri, jogador do
Manchester City. Que virou no meio
futebolístico uma espécie de Gwyneth, alguém que “não esperava” – e, para
muitos, não merecia. Pior: foi apontado
por gente da imprensa como um premiado “fake”, um pretexto postiço para que o
prêmio não fosse para um jogador negro que bate de frente com o racismo.
Rodri é ótimo jogador. Na época, estava se recuperando de
uma contusão muito grave no joelho, o que causa em qualquer fã do futebol uma simpatia
e uma solidariedade automáticas. Ganhou o prêmio, foi lá receber, suportou os
aplausos. Mas, em algum momento, Rodri também deve ter pensado: “Eu acho que
mereço, eu sei que queria ganhar; mas não assim.”
Existem prêmios justos e prêmios injustos? Não sei, mas às vezes me lembro de Jorge Luís
Borges, o cara que durante a vida inteira sonhou em vão com o Prêmio Nobel: “Todo
sucesso é uma espécie de mal-entendido.”
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