Kafka
é chamado de “o Profeta do Absurdo” ou coisa parecida, e isso é bom, porque
distingue espécies diferentes de Absurdo. Vou falar de duas variantes deste
conceito, que eu chamaria de O Absurdo Monstruoso e O Absurdo Existencial.
Para
o primeiro, vou usar como exemplo uma faixa do Surrealismo (movimento que tem
uma comprida interface com o Absurdo), e para o segundo a obra de Kafka, que no
presente sentido engloba um mundo literário onde estão autores como Albert Camus,
Samuel Beckett, Jean Genet, Eugene Ionesco e outros.
No
Absurdo meio gratuito do Surrealismo, coisas incoerentes são justapostas de
modo premeditadamente caótico, para produzir um choque de novidade, de
inesperado. As pinturas de Salvador Dalí são um bom exemplo disso.
Dalí,
inclusive, popularizou a tal ponto essa técnica que se tornou uma espécie de
símbolo mundial do Surrealismo, desbancando o verdadeiro criador, alma e
cérebro do movimento, André Breton.
E
vulgarizando a palavra a ponto de “surrealista” ser usado hoje, pelo menos no
Brasil, como sinônimo de qualquer coisa que não faça sentido. Nas transmissões
de futebol a gente ouve: “é um decisão surrealista do técnico tirar Fulano pra
botar Sicrano”. Salvador Dalí foi o Andy Warhol do Surrealismo. Um talento real
administrado por um oportunismo voraz e infalível.
Se
o Absurdo de Dalí é assim, o de Kafka é o contrário. No seu mundo, poucas
coisas literalmente fantásticas acontecem: o homem transformado em inseto de A Metamorfose é uma exceção. Kafka
explora um absurdo lógico de um mundo aparentemente igualzinho ao nosso, mas
onde tudo tem uma lógica perversa, prolixa, contraditória, inesgotável.
O
absurdo de Kafka não é o da ausência de explicações, mas o de sua proliferação
incessante, o que faz com que percam todo sentido. Seu absurdo não tem o charme
do de Dalí, dos panos de pratos com estampa da Persistência da Memória ou mousepads com a mulher das gavetas, as
belas girafas incendiadas, os elefantes pernilongos.
(Salvador Dalí, A tentação de Sto. Antonio)
No
mundo 1, o surrealista, cada passo nos faz saltar para uma paisagem diferente,
um universo diferente. No mundo 2, o de Kafka, cada passo nos faz caminhar sem
avançar, como se andássemos numa esteira rolante que vem ao nosso encontro e a
paisagem fosse sempre uma só.
O
mundo surrealista, se encarado como pesadelo, é o mundo alucinatório do
esquizofrênico, onde coisas impossíveis e terrificantes acontecem com
verossimilhança total. Já o mundo de Kafka é o mundo da depressão, onde nada
acontece a não ser algo meio indiferenciado, mas envolvente, paralisante,
diluidor de contornos e esvaziador de substâncias.
O
personagem kafkeano começa os trabalhos insurgindo-se contra o Absurdo,
batalhando pelos seus direitos, protestando contra os abusos. Esperneia,
esperneia, mas aos poucos o Absurdo o conquista e sua revolta vai amainando. No
final, ele se ajoelha e oferece o pescoço à faca do executor.
Nesse
sentido Kafka antecede Samuel Beckett e seus personagens passivos, inertes, que
se desgastam em pequenas ações ridículas e discursos irrelevantes.
A
imagem (no sentido de “impressão mental deixada por uma experiência intelectual
intensa e já finda”) de O Processo, é
a imagem de um labirinto burocrático de milhões de leis que ninguém entende por
completo: nem os processantes, nem os processadores, nem os processados. Todos são
vítimas em alguma medida, principalmente estes últimos, quando são pequenos funcionários
que vivem em casas de pensão.
(ilustração: Landis Blair)
Em A Metamorfose, a sensação matinal de acordarmos num mundo monstruoso onde todo mundo diz que é normal e que o monstro somos nós, e nós concordamos.
Em
O Castelo, a existência de poderes
estabelecidos há séculos, invisíveis, inacessíveis, uma força talvez já morta
mas onipresente.
Em
A Colônia Penal, o fato de que a
tecnologia mais sofisticada existe para servir ao Poder, e que os
transgressores do Poder entenderão na dor da própria carne aquilo que o
protagonista-vítima de O Processo não
chegou a entender: o teor do seu crime e da sentença que o condenou.
O
que é monstruoso no mundo de Kafka são as relações simbólicas e as atitudes
pessoais. Daí que criaturas e objetos fantásticos sejam raros: a máquina da Colônia Penal, o inseto pensante da Metamorfose, as enigmáticas bolinhas
saltitantes de “Blumfeld, um Solteirão”,
a Estátua da Liberdade empunhando uma espada em América...
E
tem o Odradek, uma criatura imaginada por Kafka no conto “Preocupações de um
Pai de Família”(1919) e incluída por Jorge Luís Borges em sua antologia O Livro dos Seres Imaginários.
Na
tradução de Carmen Vera Cirne Lima:
Seu aspecto é o de um carretel de linha, achatado e
em forma de estrela, e a verdade é que parece feito de linha, mas de pedaços de
linha, cortados, velhos, emaranhados e cheios de nós, de tipos e cores
diferentes. Não é apenas um carretel; do centro da estrela sai uma hastezinha e
nesta se articula outra em ângulo reto. Com a ajuda desta última de um lado e
um dos raios da estrela de outro, o conjunto pode ficar de pé como se tivesse
duas pernas.
(O odradek, por Jeff Wall)
Descrito
assim parece um desses brinquedos artesanais, não um ser vivo, mas ele é ser
vivo mesmo, que aparece de vez em quando na casa do narrador:
Muitas vezes, quando cruzamos a porta e o vemos lá
embaixo, encostado ao balaústre da escada, temos vontade de falar-lhe.
Naturalmente não se fazem a ele perguntas difíceis, mas sim o tratamos – seu
tamanho diminuto nos leva a isso – tal uma criança. “Como te chamas?”
perguntam-lhe. “Odradek”, diz. “E onde moras?” “Domicílio incerto,” responde, e
ri, mas é um riso sem pulmões. Soa como um sussurro de folhas secas.
Já
o conto “Blumfeld, um solteirão” (em A
Muralha da China), fala de um funcionário burocrático na virada-de-século,
que por um lado é primo legítimo do Joseph K. de O Processo, e por outro lembra o Bartleby de Melville. Ou aquele
personagem advocatício e paternal de Um
Conto de Duas Cidades, de Dickens, cujo nome não me ocorre agora.
Foi
Marcos Agra quem primeiro me chamou a atenção para o fato de que na história de
Blumfeld, um burocrata pacato que corta um dobrado com dois ajudantes
absolutamente inúteis e improdutivos, as duas bolinhas são uma espécie de
transcrição dos dois empregados. Para quem não leu o conto, que é curto e
inconclusivo: Blumfeld descobre que atrás de si há sempre duas bolinhas pulando
alternadamente no chão, como duas bolas de pingue-pongue (o exemplo é meu).
Se
ele se vira para a porta, as bolinhas pulam com velocidade e se postam às suas
costas. Depois de algumas manobras, o que faz ele? Dá um jeito de abrir a porta
do armário, afastar-se, virar-se de costas para ele (obrigando as bolinhas a
pular diante do armário), e ir recuando, empurrando as bolinhas para trás, e
então trancá-las dentro dele.
Isso
é interessante porque ouvindo falar na aridez metafísica do mundo de Kafka a
gente pode perder essas interferências no aparente realismo literário. As
bolinhas se comportam como partículas subatômicas, reagindo à presença humana.
Lembram também um desses objetos conceituais que só a Ficção científica pode
oferecer: os discos de metal dos irmãos Strugatsky em seu livro Stalker (ou Roadside Picnic; este detalhe não aparece no filme de Andrei
Tarkovsky).
O
que são? Dois discos que se comportam como se fossem um. Digamos A e B. Parecem
dois pratos de metal, daqueles de bandinha do interior ou circense. Estão
sempre à mesma distância e à mesma posição relativa. Ergue-se deles um nas
mãos, e o outro se eleva, eternamente paralelo, solto no ar. São baldadas as
tentativas de separá-los, de afastá-los. Uma parede de chumbo, interposta
entre elas, não corta essa relação invisível.
Subentende-se
que o objeto existe numa dimensão a mais do que a nossa. Para nós, os dois discos
são dois objetos, dois seres. Para eles, são trechos de algo ultradimensional
que cruza nosso mundo naqueles dois pontos.
Voltando
a Kafka: as bolinhas saltadoras de “Blumfeld” até que colaboram com a maneira
científica, comportando-se de forma regular, revelando continuidades de
resposta, permitindo previsão e controle. Blumfeld prevê o comportamento delas
a ponto de dar um migué e transferi-las para dentro do armário. Quando ele
senta na cama, esbaforido, é que percebe que se sair dali começa tudo de novo.
Como
falei acima, o Monstro é raro em Kafka: é o Absurdo Existencial que predomina,
a recorrência de situações que, mais do que ameaçadoras, são inquietantes por
si sós. O terror que provocam não é o de que a nossa vida vai ser extinta, é o
de que a vida, como um todo, seja inexplicável.
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