quarta-feira, 2 de julho de 2014

3540) O passeio dos mortos (2.7.2014)



Conta-se que no ano de 1647 os habitantes de uma cidade na Itália (Venzone, na província de Udine) tiveram um dia uma surpresa macabra.  Escavações no cemitério local revelaram o corpo de um homem que resistira à decomposição, mesmo morto há muitos anos. Era (diz-se) um dos membros da família Scala, a mesma que estava patrocinando aquelas escavações e obras de reforma no cemitério. Deram-lhe o nome de O Corcunda, porque tinha a espinha fortemente curvada.  Logo alguém começou a dizer que o defunto era mágico, fazia milagres, etc.  Esse culto durou até 1797, quando a invasão das tropas de Napoleão atingiu aquelas bandas. Soldados arrancaram com faca pedaços do corpo e das partes do Corcunda, por terem ouvido dizer que eram afrodisíacas.

A explicação científica é que a rocha calcária, atravessada por centenas de correntes subterrâneas muito alcalinas, deixa o terreno propício à conservação dos tecidos, dependendo de outros fatores. Depois disso tudo, os habitantes começaram a praticar um ritual.  Num dia festivo e de homenagem, o morto é retirado do esquife, vestido com roupas e enfeites da moda do momento, e é trazido à luz do sol, até a viúva. Ela o conduz, passeia e conversa com ele, conta-lhe novidades, fala da saudade que sente; no fim, ele é levado de novo para a cripta. Em dias festivos, veem-se numerosas famílias passeando ao sol, entrecruzando-se nas alamedas ao lado dos seus mortos queridos.

As fotos no saite mostram (em preto e branco) uma espécie de pátio externo, e uma fila dupla de pessoas, o vivo mantendo de pé o morto, diante de si, às vezes tendo que usar as duas mãos para mantê-lo erguido. O sol é forte, faz com que os vivos contraiam o rosto, mas eles sorriem para a câmera, não demonstram estar horrorizados ou incomodados. Os mortos têm a cara devastada e arenosa de todas as múmias. Numa foto mais próxima, um homem de meia idade segura um corpo cujo rosto parece dizer “eu sou você amanhã”.

“Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.  É uma antiga inscrição nos cemitérios; serviu de título a um belo poema-documentário brasileiro.  Os mortos só não contavam com o imperialismo da vida, a ditadura da vida, essa força expansionista e dominadora que quer tudo manter dentro de si. É preciso trazer o morto à vida, dedicar-lhe um sábado de sol cheio de cerimônias e rezas, cachorros-quentes e bandeirolas, orações contritas, reencontro, ritual.  De nada adianta os mortos esperarem por nós, porque nós é que estamos invadindo seu reino, descobrindo e inventando a pedra-filosofal que um dia nos permitirá trazê-los de volta, intactos, saudáveis, conscientes, todos eles, ao mesmo tempo ou de um em um.


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