domingo, 9 de março de 2008
0130) O otimista (21.8.2003)
O otimista foi satirizado por Voltaire no Cândido, através do Dr. Pangloss, o sábio para quem qualquer coisa que acontecesse servia como prova cabal de que vivemos no melhor dos mundos possíveis.
Como Voltaire não deixou caco sobre caco deste patético personagem, o otimismo de hoje trocou de discurso, e em geral aparece associado a uma crença qualquer, seja ela política, religiosa ou científica. Um otimista típico de nosso tempo é o americano médio, que acredita na vitória pacífica do Republicanismo Protestante Militar.
No lado científico, há os que crêem que algo milagroso vai acontecer nos laboratórios e resolver todos os nossos problemas. Décadas atrás era a energia nuclear, hoje são a Biotecnologia e a Engenharia Genética.
Esses, no entanto, são os otimistas por atacado, aqueles que trabalham em escala macro, e podem se dar o luxo de passar a vida inteira acreditando numa Teoria, porque sabem que, daqui que ela seja provada ou desmentida, “ou morro eu, ou morre o rei, ou morre o burro”.
O otimista mais interessante como tipo humano é aquele que consegue manter esta atitude dentro da guerra de trincheiras, da carnificina de baionetas que é a vida cotidiana, onde parece que tudo conspira para nos convencer de que o mundo não foi feito para dar certo.
O otimista é, na verdade, um paranóico do Bem, um paranóico que acredita que o Universo inteiro conspira a seu favor. Ele é capaz de conceber as mais rebuscadas explicações para justificar sua fé em hipóteses pouco confiáveis.
O otimista estaciona o carro numa rua escura e bate descuidadamente a porta, sem travar. A gente avisa a ele para ter mais cuidado, e ele diz: “Ora, quem vai se dar o trabalho de roubar um Gol velho, com aquele Santana dando sopa ali na frente?”
O otimista começa a tossir, tem um pouco de febre, e em lugar de pensar se está com tuberculose ou com a Pneumonia Asiática, diz: “Foi aquele sorvete de ontem, ainda bem que só tomei um pouquinho e amanhã vou estar bom.”
O otimista ouve no “Jornal Nacional” que o Governo vai conceder um aumento de tanto por cento para a categoria dele; faz um cálculo rápido com lápis e papel, e no dia seguinte já compra um DVD no crediário. Faz compras pela Internet fornecendo o número do cartão de crédito, e se dizemos que tome cuidado, ele retruca: “Todos os dias circulam pela Internet 11 milhões de números de cartão de crédito. Por que me preocupar?”
Às vezes não resistimos, e ironizamos: “Ah, quer dizer que essas coisas só acontecem com os outros?” Ele responde: “Não necessariamente, mas acontece que eu só sou um, e os outros são seis bilhões. Então...” Contra uma lógica de ferro como esta, é difícil argumentar. Melhor deixá-lo em paz.
Afinal de contas, se metade do progresso tecnológico humano se deve aos preguiçosos (“deve haver uma maneira mais fácil de fazer isto”), todo o nosso progresso social se deve a estes curiosos personagens, que acham que alguma coisa pode dar certo num mundo errado como este.
0129) A música dramatúrgica (20.8.2003)
A melhor definição de literatura que eu já vi é do escritor Damon Knight. Dizia ele: “Uma história não é aquela porção de páginas com palavras impressas. Aquilo ali são as instruções verbais para criar a história. A história é o que acontece em sua mente enquanto você lê as instruções.” Tá dito tudo, não é mesmo? A literatura manipula palavras que, a rigor, são apenas sinais gráficos no papel. É uma atividade abstrata. Podemos achar que um filme também é um conjunto de instruções audiovisuais sobre como criar a história, mas aí já seria forçar a barra, porque afinal um filme nos impõe imagens e sons concretos. O mesmo se aplica ao teatro, aos quadrinhos, a às outras formas de arte narrativa. Somente a literatura é feita apenas de instruções verbais que precisam ser transcodificadas em nossa mente para gerar a história.
Escrevo: “um triângulo amarelo dentro de um quadrado azul”, e tenho certeza de que o leitor vê o que sugeri. Se pudéssemos enxergar a visualização feita por mil leitores (se é que tem tanta gente lendo esta coluna), teríamos mil pequenas variações desta imagem básica. Escrevo: “Uma rua deserta de madrugada, um carro que avança lentamente, de faróis apagados”. As variações podem ser incontáveis. Qual é a rua deserta? A Av. Presidente Vargas? A Quinta Avenida? A Maciel Pinheiro (de Campina Grande, de João Pessoa)? Uma rua abstrata? E o carro? É uma fusca, é um Gol, é uma Ferrari reluzente, um DKW-Vemag branco com teto preto? Tudo isto é possível, porque as palavras descreveram mas não especificaram. A arte da prosa e da poesia é essa oscilação entre o que é dito e o que é deixado à imaginação.
Surge daí a minha teoria de “música dramatúrgica”. (Meu negócio é teoria; não me peçam para praticar, dá muito trabalho) A música dramatúrgica é quando você usa a palavra e os efeitos sonoros para criar ambientes, ações, situações, personagens, etc., trazendo ao universo tão repetitivo da canção popular (o cantor cantando, o acompanhamento acompanhando, os vocalistas vocalizando...) algo da literatura escrita e da novela de rádio. Não tenho nada contra as canções tradicionais; passo o dia a escutá-las, mas por isso mesmo começo a matutar: Será que é só isso? Voz, violão, banda, orquestra? Por que não usar o CD para criar pequenas histórias em volta das canções, através de vozes, ruídos, efeitos sonoros, e todos os recursos que as antigas novelas de rádio nos davam?
No rádio, basta um zumbido profundo para dizer: estamos numa espaçonave. Basta um cloc-cloc de cascos para sugerir, a custo zero, um bando de jagunços ou de caubóis. Basta um fundo sonoro de grilos e araras para criar a Floresta Amazônica. Produções milionárias e gratuitas, para enriquecer a textura e o sentido das canções, trasformando-as em áudio-clips, em pequenas histórias que vão além do esquema “cantor + coro + acompanhamento”. Um CD sonoro é um universo de possibilidades, e mal arranhamos a sua superfície.
Escrevo: “um triângulo amarelo dentro de um quadrado azul”, e tenho certeza de que o leitor vê o que sugeri. Se pudéssemos enxergar a visualização feita por mil leitores (se é que tem tanta gente lendo esta coluna), teríamos mil pequenas variações desta imagem básica. Escrevo: “Uma rua deserta de madrugada, um carro que avança lentamente, de faróis apagados”. As variações podem ser incontáveis. Qual é a rua deserta? A Av. Presidente Vargas? A Quinta Avenida? A Maciel Pinheiro (de Campina Grande, de João Pessoa)? Uma rua abstrata? E o carro? É uma fusca, é um Gol, é uma Ferrari reluzente, um DKW-Vemag branco com teto preto? Tudo isto é possível, porque as palavras descreveram mas não especificaram. A arte da prosa e da poesia é essa oscilação entre o que é dito e o que é deixado à imaginação.
Surge daí a minha teoria de “música dramatúrgica”. (Meu negócio é teoria; não me peçam para praticar, dá muito trabalho) A música dramatúrgica é quando você usa a palavra e os efeitos sonoros para criar ambientes, ações, situações, personagens, etc., trazendo ao universo tão repetitivo da canção popular (o cantor cantando, o acompanhamento acompanhando, os vocalistas vocalizando...) algo da literatura escrita e da novela de rádio. Não tenho nada contra as canções tradicionais; passo o dia a escutá-las, mas por isso mesmo começo a matutar: Será que é só isso? Voz, violão, banda, orquestra? Por que não usar o CD para criar pequenas histórias em volta das canções, através de vozes, ruídos, efeitos sonoros, e todos os recursos que as antigas novelas de rádio nos davam?
No rádio, basta um zumbido profundo para dizer: estamos numa espaçonave. Basta um cloc-cloc de cascos para sugerir, a custo zero, um bando de jagunços ou de caubóis. Basta um fundo sonoro de grilos e araras para criar a Floresta Amazônica. Produções milionárias e gratuitas, para enriquecer a textura e o sentido das canções, trasformando-as em áudio-clips, em pequenas histórias que vão além do esquema “cantor + coro + acompanhamento”. Um CD sonoro é um universo de possibilidades, e mal arranhamos a sua superfície.
0128) Uma biografia de Guimarães Rosa (19.8.2003)
Existem umas 200 biografias de Machado de Assis, nenhuma de Guimarães Rosa. Por que será? Temos fascículos ou livros didáticos com resumos da vida do autor, e só. Precisaríamos de uma biografia pesquisada, trabalho profissional, como o de Fernando Morais sobre Assis Chateaubriand, os de Ruy Castro sobre Nelson Rodrigues e Garrincha, ou (para ficarmos num exemplo doméstico) o de Fernando Moura e Antonio Vicente sobre Jackson do Pandeiro.
Não que eu tenha ilusões de que biografias sirvam para revelar “quem foi, de fato, Fulano de Tal”. Toda vida humana, até a de Zezim das Couves, é irredutível a palavras. Sempre que leio uma biografia, fico pensando nos acessos de desespero e nas crises de depressão que o biografado teria, se lhe dessem a chance de voltar à vida e ler o que escreveram sobre ele. “Não foi nada disso!” seria com certeza seu desabafo mais frequente. Mas, paciência. Fazer o quê? Morreu, lascou-se. A vida continua, e a crítica literária também. E há um setor da crítica, que tem lá sua importância, onde se investiga a cronologia de uma vida em paralelo à cronologia da gestação e criação da obra.
A vida de Guimarães Rosa permanece em aberto, esperando quem sabe a vinda de um “brazilianist” que tenha o pique do destemido John Baxter, o cara que já biografou Luís Buñuel, Federico Fellini, Stanley Kubrick, Woody Allen e Steven Spielberg. Ou de Jeffrey Meyers, que já contou as vidas de Scott Fitzgerald, Edgar Allan Poe, Hemingway, D. H. Lawrence e Joseph Conrad. E o momento seria agora, em que muitos dos seus contemporâneos ainda estão vivos, além de familiares, como suas filhas Vilma e Agnes.
Tolkien, o autor de “O Senhor dos Anéis”, afirmou certa vez: “Uma das minhas opiniões mais sólidas é a de que o estudo da biografia de um autor é uma maneira totalmente inútil e falsa de abordar sua obra.” E ainda assim, a biografia dele escrita por Humphrey Carpenter é uma aula de como mostrar a relação entre vida e obra, sem as interpretações gratuitas ou as generalizações apressadas em que biógrafos mais ingênuos (ou menos escrupulosos) incorrem com facilidade. A biografia literária que Emir Rodriguez Monegal fêz sobre Jorge Luís Borges é, também, um primor de reconstituição do ambiente cultural e literário que formou o escritor. O biografado entra nela quase como um coadjuvante. O personagem principal é a Literatura, através dos escritos de Borges e do mundo literário de que ele fêz parte.
Guimarães Rosa foi médico rural e do Exército, trabalhou no antigo Serviço de Proteção ao Índio, foi diplomata na Alemanha nazista e na Colômbia, ajudou a demarcar as fronteiras do Brasil, flertou com o Ocultismo, estudou dezenas de línguas, ocupou numerosos cargos oficiais, teve uma vida bem documentada, correspondia-se com Deus e o mundo (no sentido real e no metafórico). Tudo isso se filtrou para os seus escritos, mas a história dessa complexa alquimia ainda está esperando para ser contada.
Não que eu tenha ilusões de que biografias sirvam para revelar “quem foi, de fato, Fulano de Tal”. Toda vida humana, até a de Zezim das Couves, é irredutível a palavras. Sempre que leio uma biografia, fico pensando nos acessos de desespero e nas crises de depressão que o biografado teria, se lhe dessem a chance de voltar à vida e ler o que escreveram sobre ele. “Não foi nada disso!” seria com certeza seu desabafo mais frequente. Mas, paciência. Fazer o quê? Morreu, lascou-se. A vida continua, e a crítica literária também. E há um setor da crítica, que tem lá sua importância, onde se investiga a cronologia de uma vida em paralelo à cronologia da gestação e criação da obra.
A vida de Guimarães Rosa permanece em aberto, esperando quem sabe a vinda de um “brazilianist” que tenha o pique do destemido John Baxter, o cara que já biografou Luís Buñuel, Federico Fellini, Stanley Kubrick, Woody Allen e Steven Spielberg. Ou de Jeffrey Meyers, que já contou as vidas de Scott Fitzgerald, Edgar Allan Poe, Hemingway, D. H. Lawrence e Joseph Conrad. E o momento seria agora, em que muitos dos seus contemporâneos ainda estão vivos, além de familiares, como suas filhas Vilma e Agnes.
Tolkien, o autor de “O Senhor dos Anéis”, afirmou certa vez: “Uma das minhas opiniões mais sólidas é a de que o estudo da biografia de um autor é uma maneira totalmente inútil e falsa de abordar sua obra.” E ainda assim, a biografia dele escrita por Humphrey Carpenter é uma aula de como mostrar a relação entre vida e obra, sem as interpretações gratuitas ou as generalizações apressadas em que biógrafos mais ingênuos (ou menos escrupulosos) incorrem com facilidade. A biografia literária que Emir Rodriguez Monegal fêz sobre Jorge Luís Borges é, também, um primor de reconstituição do ambiente cultural e literário que formou o escritor. O biografado entra nela quase como um coadjuvante. O personagem principal é a Literatura, através dos escritos de Borges e do mundo literário de que ele fêz parte.
Guimarães Rosa foi médico rural e do Exército, trabalhou no antigo Serviço de Proteção ao Índio, foi diplomata na Alemanha nazista e na Colômbia, ajudou a demarcar as fronteiras do Brasil, flertou com o Ocultismo, estudou dezenas de línguas, ocupou numerosos cargos oficiais, teve uma vida bem documentada, correspondia-se com Deus e o mundo (no sentido real e no metafórico). Tudo isso se filtrou para os seus escritos, mas a história dessa complexa alquimia ainda está esperando para ser contada.
0127) O Catatau (17.8.2003)
O Catatau de Paulo Leminski (Curitiba, edição do autor, 1975; reeditado em 1989 pela Sulina, de Porto Alegre) é chamado de romance, por ser um texto em prosa com mais de 200 páginas. Afora isto, o livro assusta o leitor desprevenido.
“Era um povo tão preguiçoso que só falava palavras oxítonas e deixava para parábolas o que podia ter sido profecia.” (p. 192)
O livro é um parágrafo único, um monólogo interior cujo protagonista chama a si mesmo de Renatus Cartesius. É o filósofo René Descartes, que teria vindo ao Brasil com Maurício de Nassau.
“Que espécie de lugar é este que nos pergunta onde estamos?” (p. 112)
Em contato com a natureza tropical de Pernambuco, e com uma erva alucinógena fumada pelos nativos, entra num prolongado delírio.
“Fumar isto dá uma fome!” (p. 14)
E o livro se derrama, num dilúvio joyceano e concretista.
Leminski foi um dos melhores poetas minimalistas do Brasil – muitíssimo melhor, por exemplo, do que Oswald de Andrade, de quem era meio discípulo.
“Posso me enganar, o que ninguém pode é se enganar por mim.” (p. 21)
Foi também um dos nossos melhores teorizadores de poesia. Tendo sido professor de português e redator publicitário, tinha facilidade em dizer as coisas de maneira simples.
“As coisas só caem no esquecimento quando subiram muito alto no entendimento.” (p. 68)
Era um prodigioso fazedor de frases, e esta talvez seja a melhor coisa do “Catatau”: as incontáveis frases engraçadas, paradoxais, satíricas, absurdas, sarcásticas, líricas, de que o livro é composto.
“Antes adorava um deus maior que eu; agora, adoro uma brincadeira.” (p. 150)
Poliglota, tradutor de John Lennon e de poetas japoneses, parceiro musical de Caetano Veloso e de Morais Moreira, Leminski, que tinha sangue negro e descendia de polacos, sempre foi uma figura meio escandalosa na pacata Curitiba.
“O futuro vem de fora. Dentro, está que é uma atualidade só” (p. 192)
No Catatau, ele usa o choque cultural entre o racionalismo europeu e o surrealismo dos trópicos para falar também de suas próprias contradições.
“Senhores, mecenhores, não mereço tanto, tudo é efeito do sol na febre com fome!” (p. 66)
Tinha um temperamento polêmico, expansivo, capaz de imensa objetividade e de circunlóquios barrocos. “Catatau” é a obra que melhor exprime a catadupa linguística do seu pensamento.
“Faço tudo de que sei que não vou me arrepender, mas é que não me arrependo nunca do que fiz com essa determinação.” (p. 90)
Quase três décadas após seu lançamento, o Catatau mereceu análises de José Miguel Wisnik, Antonio Risério e muitos outros; um bom lugar para começar a pesquisá-las é o saite “Kamiquase” (http://www.elsonfroes.com.br/kamiquase/nindex.htm).
Leminski publicou romances, poesia, ensaios, traduções de Walt Whitman, William Blake, John Fante, Samuel Beckett. Morreu de cirrose em 1989, aos 44 anos.
“Vício, forma mais violenta de estar vivo: bom senso e boa sensação, incompatíveis!” (p. 48)
0126) O rap e o repente (16.8.2003)
Dias atrás fui ver um show de de Berna Ceppas, um cara que faz música computadorizada. “Música eletrônica” é música dançante que toca em boate. Música computadorizada é música para nerds como eu ficarem sentados, vendo num telão uma montanha-russa de imagens picotadas e aleatórias, ao som de loops & samples, enquanto no palco alguns sujeitos pilotam computadores, mesas de som e outras engenhocas, criando um sincronismo entre improviso visual e improviso sonoro.
O show tinha a participação especial de Negone, um “rapper” carioca. E de um instante para o outro o show de transformava. Depois de 50 minutos de som na caixa e imagem no telão, sem que nenhum dos artistas no palco desse outro sinal de vida a não ser mexer em controles, sobe no palco um cara com um microfone que vai até a platéia e pede que lhe emprestem documentos. Ele pega carteiras de identidade e de motorista, começa a ler os dados e a improvisar em cima: “Essa aqui é Luciana, nasceu em 74, veio hoje no teatro, pra me ver improvisar... É aqui que eu vou dizer, é aqui que eu vou falar... Ela nasceu no Rio, é garota carioca, gosta de comer pipoca, quando toma guaraná...”
A platéia vem abaixo. O show, que era musicalmente ótimo, ganha uma dimensão humana que não tinha antes. O espectador sente-se parte do show, vê seu nome e seus dados sendo usados como pretexto-de-rima pelo poeta. Todos riem, todos gostam, e vinte minutos depois, quando o poeta devolve os documentos e encerra sua canja, os aplausos são entusiasmados.
Eu passei minha adolescência vendo Dedé da Mulatinha e Colombita cantarem pelas ruas de Campina; vi duplas como Cachimbinho e Geraldo Mouzinho, Caju e Castanha, fazerem esse toma-lá-dá-cá com a platéia. O Nordeste é mesmo privilegiado. Uma coisa que os negros norte-americanos transformaram em moda nos anos 1980 já era praticado nos sertões da Paraíba em 1880. Não vou entrar aqui na lenga-lenga de que basta ser americano para fazer sucesso. Isso é coisa já sabida.
O rap e o repente não são concorrentes: são irmãos, filhos do Capitalismo Europeu com mães diferentes. Podem até torcer o nariz um para o outro, no reencontro, mas ambos sabem quem são, e se tiverem a chance de conviver, acabarão se aproximando e se entendendo. O gesto do improviso criativo pode tirar a secura e a frieza da música tecnológica, criada a partir de bases e de colagens sonoras improvisadas. Um ótimo exemplo é o show do DJ Dolores, onde a música computadorizada prepara o terreno para Maciel Salu improvisar décimas, aboios ou solos de rabeca. Música high-tech e música folk podem se enriquecer mutuamente. Qualquer platéia admira um improviso feito sobre um assunto que ela entenda. Cachimbinho & Cia. não precisam abandonar o pandeiro e aderir à eletrônica. O formato antigo continua. Mas pode surgir um formato novo, desde que surja para valorizar o improviso, o repente, o verso feito na hora, que é o grande diferencial desta Arte Maior.
O show tinha a participação especial de Negone, um “rapper” carioca. E de um instante para o outro o show de transformava. Depois de 50 minutos de som na caixa e imagem no telão, sem que nenhum dos artistas no palco desse outro sinal de vida a não ser mexer em controles, sobe no palco um cara com um microfone que vai até a platéia e pede que lhe emprestem documentos. Ele pega carteiras de identidade e de motorista, começa a ler os dados e a improvisar em cima: “Essa aqui é Luciana, nasceu em 74, veio hoje no teatro, pra me ver improvisar... É aqui que eu vou dizer, é aqui que eu vou falar... Ela nasceu no Rio, é garota carioca, gosta de comer pipoca, quando toma guaraná...”
A platéia vem abaixo. O show, que era musicalmente ótimo, ganha uma dimensão humana que não tinha antes. O espectador sente-se parte do show, vê seu nome e seus dados sendo usados como pretexto-de-rima pelo poeta. Todos riem, todos gostam, e vinte minutos depois, quando o poeta devolve os documentos e encerra sua canja, os aplausos são entusiasmados.
Eu passei minha adolescência vendo Dedé da Mulatinha e Colombita cantarem pelas ruas de Campina; vi duplas como Cachimbinho e Geraldo Mouzinho, Caju e Castanha, fazerem esse toma-lá-dá-cá com a platéia. O Nordeste é mesmo privilegiado. Uma coisa que os negros norte-americanos transformaram em moda nos anos 1980 já era praticado nos sertões da Paraíba em 1880. Não vou entrar aqui na lenga-lenga de que basta ser americano para fazer sucesso. Isso é coisa já sabida.
O rap e o repente não são concorrentes: são irmãos, filhos do Capitalismo Europeu com mães diferentes. Podem até torcer o nariz um para o outro, no reencontro, mas ambos sabem quem são, e se tiverem a chance de conviver, acabarão se aproximando e se entendendo. O gesto do improviso criativo pode tirar a secura e a frieza da música tecnológica, criada a partir de bases e de colagens sonoras improvisadas. Um ótimo exemplo é o show do DJ Dolores, onde a música computadorizada prepara o terreno para Maciel Salu improvisar décimas, aboios ou solos de rabeca. Música high-tech e música folk podem se enriquecer mutuamente. Qualquer platéia admira um improviso feito sobre um assunto que ela entenda. Cachimbinho & Cia. não precisam abandonar o pandeiro e aderir à eletrônica. O formato antigo continua. Mas pode surgir um formato novo, desde que surja para valorizar o improviso, o repente, o verso feito na hora, que é o grande diferencial desta Arte Maior.
0125) Os emoticons (15.8.2003)
Quem troca mensagens pela Internet conhece, mesmo que não costume usar, os emoticons, aqueles simpáticos sinais que indicam a intenção emocional da frase ou fazem comentários brincalhões ao próprio texto. Os emoticons também são chamados de “smileys”, aquela carinha básica que é um círculo com dois pontos (os olhos) e uma leve curva (a boca sorrindo), e que é um ícone americano tão típico quanto o poster do Tio Sam (“I Want You”) ou o logotipo da Coca-Cola. O primeiro emoticon foi criado em 19 de setembro de 1982 por Scott Fahlman, numa mensagem para o “bulletin board” da Escola de Ciências da Computação da CMU (Carnegie Mellon University). Fahlman sugeriu os dois emoticons básicos: o que exprime satisfação: :-) e o que exprime desapontamento: :-( O texto desta mensagem original, e o relato do trabalhão que deu para recuperar esta relíquia paleozóica dos primórdios da computação, está em: http://research.microsoft.com/~mbj/Smiley/Smiley.html
Parecia que a coisa ia acabar aí, porque há pouco espaço para variações, mas o fato é que a imaginação humana não tem limites, principalmente quando o sujeito trabalha em escritório e tem um monte de coisas chatas pra fazer. Hoje há centenas de emoticons à solta pelas telas e teclados do mundo. Fazem parte da “linguagem internética”, o código informal posto em prática pelos usuários da Rede. Também fazem parte desta linguagem as abreviaturas que usamos em nossos emails. Pq vc n vem k, pra gt conversar? abs, bt. Há abreviaturas bem mais esotéricas do que estas. Vendo jovens conversando em chat, confesso que às vezes não entendo uma palavra. Outra característica da linguagem internética são os acrônimos, ou siglas que resumem uma expressão mais longa: vai pra pqp, seu fdp.
O interessante é que os emoticons não precisavam da Internet para existir. Os sinais utilizados para criar a maioria deles já existiam nos teclados das paleolíticas máquinas de escrever que usamos desde o século passado: dois pontos, ponto e vírgula, parênteses, aspas, barras, várias letras e acentos... Por que somente com a Internet alguém pensou em usá-los para fazer figurinhas? Podem existir mil razões, mas vou sugerir uma: Era uma situação nova. Vocês não avaliam o bem que uma situação nova faz à criatividade mental. A linguagem datilografada (a burocracia, a correspondência, o jornalismo, a literatura...) estava fossilizada por décadas de manuais de redação e estilo, cursos de datilografia do tipo “asdfg”, regras e mais regras. Quando um sujeito sentava à máquina, estava cheio de implantes mentais sobre como devia usar aquilo. Mas, quando juntaram os velhos teclados aos novos monitores eletrônicos, criou-se uma carga de visualidade diferente daquela do papel em branco. Era um espaço ainda sem dono, ainda a ser desbravado. As msgs tinham que ser curtas, era preciso descobrir, mesmo brincando, mesmo por distração, novas maneiras de abreviar, de sugerir. Um belo dia... heureca! ;-)))
Parecia que a coisa ia acabar aí, porque há pouco espaço para variações, mas o fato é que a imaginação humana não tem limites, principalmente quando o sujeito trabalha em escritório e tem um monte de coisas chatas pra fazer. Hoje há centenas de emoticons à solta pelas telas e teclados do mundo. Fazem parte da “linguagem internética”, o código informal posto em prática pelos usuários da Rede. Também fazem parte desta linguagem as abreviaturas que usamos em nossos emails. Pq vc n vem k, pra gt conversar? abs, bt. Há abreviaturas bem mais esotéricas do que estas. Vendo jovens conversando em chat, confesso que às vezes não entendo uma palavra. Outra característica da linguagem internética são os acrônimos, ou siglas que resumem uma expressão mais longa: vai pra pqp, seu fdp.
O interessante é que os emoticons não precisavam da Internet para existir. Os sinais utilizados para criar a maioria deles já existiam nos teclados das paleolíticas máquinas de escrever que usamos desde o século passado: dois pontos, ponto e vírgula, parênteses, aspas, barras, várias letras e acentos... Por que somente com a Internet alguém pensou em usá-los para fazer figurinhas? Podem existir mil razões, mas vou sugerir uma: Era uma situação nova. Vocês não avaliam o bem que uma situação nova faz à criatividade mental. A linguagem datilografada (a burocracia, a correspondência, o jornalismo, a literatura...) estava fossilizada por décadas de manuais de redação e estilo, cursos de datilografia do tipo “asdfg”, regras e mais regras. Quando um sujeito sentava à máquina, estava cheio de implantes mentais sobre como devia usar aquilo. Mas, quando juntaram os velhos teclados aos novos monitores eletrônicos, criou-se uma carga de visualidade diferente daquela do papel em branco. Era um espaço ainda sem dono, ainda a ser desbravado. As msgs tinham que ser curtas, era preciso descobrir, mesmo brincando, mesmo por distração, novas maneiras de abreviar, de sugerir. Um belo dia... heureca! ;-)))
0124) A arte do trocadilho (14.8.2003)
(Ilustração: Brock David)
O trocadilho é um desvio verbal em que uma palavra é alterada, ou mais de uma palavra são justapostas, de modo a fazê-las assumir novos sentidos, por associação sonora.
Há inúmeros tipos e variadas técnicas de trocadilho. A qualidade de um trocadilho deve ser medida, a meu ver, pela relação complexidade/simplicidade. Um bom trocadilho tem uma idéia complexa, mas é rapidamente entendível; e vice-versa.
O espírito de um trocadilho está no som, e não na grafia das palavras, mesmo quando ele é comunicado por escrito.
Um caso de trocadilho involuntário foi o que vi uma vez numa enorme livraria: uma senhora entrou e perguntou ao funcionário “onde era a seção espírita”. Pela cara perplexa que ele fêz, é claro que ouviu “sessão”. Foi um trocadilho involuntário de parte a parte.
Grandes trocadilhistas são Guimarães Rosa, Paulo Leminski, Glauco Mattoso, Oswald de Andrade...
O melhor tratado científico sobre o trocadilho é O Chiste e suas relações com o Inconsciente, de Freud. Como a quase totalidade dos exemplos é em alemão, a necessidade de traduzir e explicar a múltipla significação de algumas palavras tira um pouco do prazer da leitura, porque o bom do trocadilho é o pequeno susto quando percebemos que estávamos “lendo errado”, e que existe um duplo sentido naquela frase.
Perguntaram uma vez a Emilio de Menezes: “Qual é a diferença entre o homem e a mulher?”, ao que ele respondeu: “Eu não concebo.” A sutileza surge neste caso do duplo sentido de uma palavra, e não da junção de duas.
Misturando duas, temos o chamado “portemanteau”, ou cabide, onde se “pendura” uma palavra na outra, misturando-as. Quando Carlos Drummond usou a palavra “monstruário”, estava seguindo uma regra básica do trocadilho: fundir duas palavras usando a parte mais característica de cada uma. O trocadilho entre “mostruário” e “monstro” é quase inevitável, e daí decorre uma coisa interessante do trocadilho: ele é mais uma descoberta do que uma invenção. É uma associação entre palavras que estão ali, disponíveis, esperando apenas o instante em que alguém perceba que é possível juntar aqueles dois termos.
Já vi discussões e brigas intermináveis sobre “Fulano que furtou a idéia de Sicrano”, quando para mim era evidente que não houve furto: a idéia estivera lá a vida toda, à vista de quem a pudesse ver.
O melhor trocadilho é o que é feito num repente, de improviso. Uma vez minha mãe pegou uma maçã na mesa e reclamou que ela estava com uma banda estragada, e eu falei: “Pois é... Metade má, metade sã.”
Outra vez, fui no Bar Canarinho, na feira, ver uma cantoria com Lourival Batista, que andava apoiado num bastão. Uma daquelas mocinhas de minissaia perguntou: “Seu Louro, pra que essa bengala?”, e ele disse: “Isso é coisa pra quem não gala bem...”
O trocadilhista é como Romário, tem que estar sempre pronto, porque o passe perfeito, ou a furada do zagueiro, pode surgir a qualquer instante.
0123) Os pobres (13.8.2003)
Falei dias atrás que os ricos são generosos. Mais generosos ainda são os pobres, e não falo dos mendigos ou miseráveis; falo dos pobres, os que conhecem a angústia e a responsa de possuir alguma coisa. Um rico pode dar-nos de presente uma BMW ou uma casa de campo sem que isto abale o seu saldo médio; já um pobre, quando reparte seu almoço, está nos dando metade do que tem. A concentração de valor nas posses de um pobre é uma coisa que até assusta, porque um pires quebrado talvez só possa ser reposto no ano que vem, e se o leite que está no fogo derramar, babau. Um cara que mora num barraco nas Malvinas está, do ponto de vista dele, mais cercado de preciosidades insubstituíveis do que o zelador do Louvre.
A literatura de esquerda contribuiu muito para criar uma imagem idealizada dos pobres, através da repetição de verdades parciais como “todo pobre é explorado”, “todo pobre é honesto”, “todo pobre quer melhorar de vida”, e assim por diante. Pobre não é tão simples assim; até por uma questão de loteria genética, qualquer pobre é tão complexo e contraditório quanto um playboy de F. Scott Fitzgerald ou uma marquesa de Proust. Seria extremamente educativo se pudéssemos criar um Museu da Imagem e do Som só com depoimentos de brasileiros de esquerda que, nas décadas de 1960-70, largaram seus apartamentos de classe média para trabalhar junto ao Povo, e acabaram descobrindo que o Povo não era nada do que tinham imaginado nos livros.
Os ricos, quando querem aventura e adrenalina, vão escalar o Vesúvio ou caçar rinocerontes em Uganda. O pobre produz a mesma adrenalina encarando o transporte, o batente, o patrão, as contas no fim do mês. Uma vez eu conversava num táxi sobre esses assuntos gerais – falta de grana, falta de trabalho, despesas acumuladas – e o taxista disse: “Pois olhe, nesses últimos dez anos eu só conheci duas situações: cabeça dentro dágua, cabeça fora dágua, cabeça dentro dágua de novo...” Vida de pobre é uma decisão de campeonato por dia. São três horas de ida, oito de trabalho, três horas de volta, e ao adormecer ele pensa: “Obá! Nem fui demitido hoje!” Enquanto ele mantiver a cabeça fora dágua, tem todos os motivos para comemorar.
O sujeito que se mantém honesto quando pobre dificilmente deixa de sê-lo se enriquecer; por isso a indústria da propina e do suborno é tão maléfica quanto a da droga. Subornar um guarda com 10 reais é como levar uma mulher para a cama por 10 reais; depois que ela aceita, daí para a frente é só questão de discutir preço. O cara embolsa a grana, mas deixa de ser pobre, começa a virar miserável. O miserável é o pobre que perdeu os valores, perdeu o rumo, perdeu o sentido, o planejamento, a esperança. Um miserável é como o time que percebe que perdeu a decisão do campeonato, e agora só pensa em acabar o jogo com um sururu. Um miserável é capaz de matar para tirar um real de alguém. Um pobre não; mas é capaz de morrer pra defender o derradeiro real que traz no bolso.
A literatura de esquerda contribuiu muito para criar uma imagem idealizada dos pobres, através da repetição de verdades parciais como “todo pobre é explorado”, “todo pobre é honesto”, “todo pobre quer melhorar de vida”, e assim por diante. Pobre não é tão simples assim; até por uma questão de loteria genética, qualquer pobre é tão complexo e contraditório quanto um playboy de F. Scott Fitzgerald ou uma marquesa de Proust. Seria extremamente educativo se pudéssemos criar um Museu da Imagem e do Som só com depoimentos de brasileiros de esquerda que, nas décadas de 1960-70, largaram seus apartamentos de classe média para trabalhar junto ao Povo, e acabaram descobrindo que o Povo não era nada do que tinham imaginado nos livros.
Os ricos, quando querem aventura e adrenalina, vão escalar o Vesúvio ou caçar rinocerontes em Uganda. O pobre produz a mesma adrenalina encarando o transporte, o batente, o patrão, as contas no fim do mês. Uma vez eu conversava num táxi sobre esses assuntos gerais – falta de grana, falta de trabalho, despesas acumuladas – e o taxista disse: “Pois olhe, nesses últimos dez anos eu só conheci duas situações: cabeça dentro dágua, cabeça fora dágua, cabeça dentro dágua de novo...” Vida de pobre é uma decisão de campeonato por dia. São três horas de ida, oito de trabalho, três horas de volta, e ao adormecer ele pensa: “Obá! Nem fui demitido hoje!” Enquanto ele mantiver a cabeça fora dágua, tem todos os motivos para comemorar.
O sujeito que se mantém honesto quando pobre dificilmente deixa de sê-lo se enriquecer; por isso a indústria da propina e do suborno é tão maléfica quanto a da droga. Subornar um guarda com 10 reais é como levar uma mulher para a cama por 10 reais; depois que ela aceita, daí para a frente é só questão de discutir preço. O cara embolsa a grana, mas deixa de ser pobre, começa a virar miserável. O miserável é o pobre que perdeu os valores, perdeu o rumo, perdeu o sentido, o planejamento, a esperança. Um miserável é como o time que percebe que perdeu a decisão do campeonato, e agora só pensa em acabar o jogo com um sururu. Um miserável é capaz de matar para tirar um real de alguém. Um pobre não; mas é capaz de morrer pra defender o derradeiro real que traz no bolso.
0122) As máquinas literárias (12.8.2003)
(Retrato de Poe, por John Helfrich)
Em 1841, Edgar Allan Poe publicou o conto “Os assassinatos da Rua Morgue”, onde o detetive Dupin esclarecia um crime misterioso: duas mulheres barbaramente assassinadas num apartamento cujas portas e janelas estavam todas trancadas por dentro. Não havia sinal do assassino. Por onde ele teria entrado e saído?
O conto de Poe teve enorme sucesso, principalmente pelos métodos de raciocínio usados pelo detetive, o qual acabaria anos depois inspirando a Conan Doyle a criação do detetive mais famoso de todos, Sherlock Holmes, cujo modo de pensar imita o de Dupin.
Em 1895, H. G. Wells publicou “A máquina do tempo”, história de um cientista que construía esta máquina e viajava para o futuro remoto, onde passava por uma porção de aventuras e depois retornava a Londres para dar seu testemunho sobre o futuro da humanidade.
Até então, histórias de pessoas que viajavam no Tempo usavam sempre meios não-científicos: um sonho, uma poção mágica, uma sessão hipnótica, um distúrbio mental... Coube a Wells ter a idéia de uma máquina, e da teoria por trás dela, a qual deu origem ao termo hoje tão comum de “quarta dimensão” para designar o Tempo.
O livro de Wells é um clássico da ficção científica, tendo sido adaptado várias vezes para o cinema, uma delas no ano passado.
O que estas duas narrativas têm em comum? Elas foram tão imitadas que acabaram virando sub-gêneros.
Hoje em dia, histórias de máquinas do tempo se tornaram tão comuns quanto histórias de espaçonaves. Desde o seriado de TV “Túnel do Tempo” até filmes recentes como a série “Exterminador do Futuro”, essas histórias fazem parte do vocabulário da literatura e do cinema.
Do mesmo modo, histórias de crimes em aposentos trancados de onde o criminoso desaparece misteriosamente são um popular sub-gênero da literatura policial. Em sua pesquisa bibliográfica a respeito (Locked Room Murders, 1991), Robert Adey relaciona um total de 2.019 histórias que usam variantes deste artifício.
Um gênero literário nada mais é do que um conjunto de convenções, temas, situações, etc., que têm poder de atrair a imaginação dos autores e a curiosidade dos leitores. Alguma coisa nos crimes de quarto fechado e nas máquinas do tempo exerce esse tipo de sedução.
Poderíamos ampliar muito esta lista: a situação romeu-e-julieta (amantes pertencentes a grupos inimigos) é outra que já foi explorada por todo mundo.
Seria curioso se neste século surgissem novos sub-gêneros a partir de outras obras.
Por exemplo: têm surgido cada vez mais narrativas cujo elemento central é um manuscrito misterioso (ou livro sobrenatural) que é procurado por todos, e que deixa um rastro de tragédias ou epifanias atrás de si. Em obras de H. P. Lovecraft, Jorge Luís Borges, Garcia Márquez, Umberto Eco, Arturo Pérez-Reverte, Rubem Fonseca, esta interessante idéia começa a florescer. Uma boa idéia literária gera uma reação em cadeia, e um século depois nasceu um novo gênero.
O conto de Poe teve enorme sucesso, principalmente pelos métodos de raciocínio usados pelo detetive, o qual acabaria anos depois inspirando a Conan Doyle a criação do detetive mais famoso de todos, Sherlock Holmes, cujo modo de pensar imita o de Dupin.
Em 1895, H. G. Wells publicou “A máquina do tempo”, história de um cientista que construía esta máquina e viajava para o futuro remoto, onde passava por uma porção de aventuras e depois retornava a Londres para dar seu testemunho sobre o futuro da humanidade.
Até então, histórias de pessoas que viajavam no Tempo usavam sempre meios não-científicos: um sonho, uma poção mágica, uma sessão hipnótica, um distúrbio mental... Coube a Wells ter a idéia de uma máquina, e da teoria por trás dela, a qual deu origem ao termo hoje tão comum de “quarta dimensão” para designar o Tempo.
O livro de Wells é um clássico da ficção científica, tendo sido adaptado várias vezes para o cinema, uma delas no ano passado.
O que estas duas narrativas têm em comum? Elas foram tão imitadas que acabaram virando sub-gêneros.
Hoje em dia, histórias de máquinas do tempo se tornaram tão comuns quanto histórias de espaçonaves. Desde o seriado de TV “Túnel do Tempo” até filmes recentes como a série “Exterminador do Futuro”, essas histórias fazem parte do vocabulário da literatura e do cinema.
Do mesmo modo, histórias de crimes em aposentos trancados de onde o criminoso desaparece misteriosamente são um popular sub-gênero da literatura policial. Em sua pesquisa bibliográfica a respeito (Locked Room Murders, 1991), Robert Adey relaciona um total de 2.019 histórias que usam variantes deste artifício.
Um gênero literário nada mais é do que um conjunto de convenções, temas, situações, etc., que têm poder de atrair a imaginação dos autores e a curiosidade dos leitores. Alguma coisa nos crimes de quarto fechado e nas máquinas do tempo exerce esse tipo de sedução.
Poderíamos ampliar muito esta lista: a situação romeu-e-julieta (amantes pertencentes a grupos inimigos) é outra que já foi explorada por todo mundo.
Seria curioso se neste século surgissem novos sub-gêneros a partir de outras obras.
Por exemplo: têm surgido cada vez mais narrativas cujo elemento central é um manuscrito misterioso (ou livro sobrenatural) que é procurado por todos, e que deixa um rastro de tragédias ou epifanias atrás de si. Em obras de H. P. Lovecraft, Jorge Luís Borges, Garcia Márquez, Umberto Eco, Arturo Pérez-Reverte, Rubem Fonseca, esta interessante idéia começa a florescer. Uma boa idéia literária gera uma reação em cadeia, e um século depois nasceu um novo gênero.
0121) O cinema espiritual (10.8.2003)
(ilustração: Saul Steinberg)
Não sei se quem o batizou foi o mestre Wills Leal, mas foi nas páginas de “Cinema & Província” que o Cinema Espiritual Paraibano começou a existir para mim e para todos da minha geração.
O Cinema Espiritual, no sentido estrito, é um fenômeno das “adegas tropicalistas” pessoenses de meados dos anos 1960. Digo pessoenses porque nessa época, se em João Pessoa já se sonhava em fazer cinema, em Campina o pessoal ainda não tinha nem pegado no sono.
Havia algumas tentativas, como A Feira de Machado Bittencourt; mas João Pessoa era aos nossos olhos uma verdadeira indústria, um dos pilares do Cinema Novo: Aruanda, Romeiros da Guia, Cajueiro Nordestino, A Cabra na Região Semi-Árida...
Estes filmes, contudo, eram o Cinema Material, eram o cinema paraibano que o Brasil inteiro veio a conhecer, e que mereceu há poucos anos uma tese de mestrado do ator José Marinho: Dos Homens e das Pedras – o Ciclo do Cinema Documentário Paraibano, 1959-1979 (Editora da Universidade Federal Fluminense, 1998).
São filmes de verdade, que milagrosamente chegaram a ser realizados numa época em que as dificuldades financeiras eram as mesmas de hoje, e as dificuldades técnicas incomparavelmente maiores.
O Cinema Espiritual era outra coisa. Pretendentes a cineasta reuniam-se em mesas de bar, ou em “bacuraus” noturnos pelas ruas da cidade, e durante horas a fio descreviam minuciosamente os filmes que pretendiam fazer.
Ficavam, como diz Wills, “rodando fitas na cabeça”: “Abre o filme com um cara andando pela calçada, entrando num prédio. A câmara sobe numa grua até o quinto andar, entra pela janela, segue pelo corredor...”
Ninguém tinha nem câmara, quanto mais grua; mas isso nunca impediu ninguém de sonhar. Em pouco tempo os cineclubistas campinenses tinham pegado o espírito da coisa, e as madrugadas da Praça da Bandeira já viam mais filmes do que as tardes do Capitólio.
Hoje, quando o Cinema Material paraibano vive um dos seus melhores momentos, não custa nada dar ao Cinema Espiritual a importância devida.
Ele não faz parte da História do Cinema, porque cinema se faz com câmara, película, projetor. O Cinema Espiritual é uma atividade literária, é um sub-conjunto da Literatura Oral.
Seu objetivo não é necessariamente o de passar pelo sofrido parto das verbas, dos projetos, das lentes e dos celulóides. É um gesto criativo borgiano, uma vez que Jorge Luís Borges criou o sub-gênero da “crítica do livro que não foi escrito”.
Ninguém pode deixar para ter idéias somente depois de feita a captação de verbas. Imaginar em voz alta filmes que nunca serão feitos é uma respiração natural da mente criativa. É uma forma de Literatura Oral que basta-se a si mesma, que não precisa transformar-se em atos e fatos, e neste sentido pertence ao mesmo universo das plataformas de governo, das profecias dos astrólogos, das juras de amor e das resoluções de Ano Novo.
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