quinta-feira, 4 de junho de 2020

4586) Paulo Leminski comenta a atual conjuntura (4.6.2020)






(“Catatau”, 3ª. edição, Curitiba, Travessa dos Editores, 2004)


“Sempre se consegue pôr o que tenha que ser assim em palavras que a gente trazia aqui dentro, que não se sabiam lá, isto é, hoje não me consigo fazer entender.” (p. 125)

“Só porque uma coisa se assemelha a uma vizinha, o mais provável é que todas as demais coisas se pareçam com ela ou é mais provável que as ditas coisas difiram muito dela? Falamos de ambas as coisas, porém diferentes no modo de agir, iguais em tudo, menos em todo o resto e, como se isso não bastasse, ainda por cima, simples variantes de uma variedade maior: estamos falando de duas coisas diferentes sobre o mesmo assunto.” (p. 141-142

 “É assim que as coisas significam? Mas então papai mentiu, mamãe corrigiu errado, vovô voou, titio avestruza a cabeça no buraco do tatu.” (p. 200)

“De tanto fazer tudo fazer tanto, fez-se como tanto faz.” (p. 127)

“Interrompemos nossa programação para dar margem a um apelo. Babel, urgente. Precisa-se de um poliglota, paga-se regiamente. Agora só falta batizar de Baltazar o rei desta Babel, até os limites extremos de sua incompetência, quando será coroado, prêmio de serviços inadiáveis, administrando fatalidades.” (145)

“Alta a sombra das bandeiras sobre as covas rasas.” (p. 252)

“De qualquer forma, já que eu não me salvo, vou dar o máximo de oportunismos ao meu desespero.” (p. 76)

“Fedo sangrando, lacrimo, durmo, acordo e desmaio.” (p. 86)

“Mais carinho, trata-se do mundo, uma máquina cuja peça principal é minha cabeça!” (p. 148-149)

“O futuro vem de fora. Dentro está que é uma atualidade só.” (p. 244)

“Só continuar não basta: outros verbos mais capazes, conspirar, infiltrar-se!” (p. 242)

“Mas advirta que a tortura não deve chegar aos ossos, osso já não é gente.” (p. 129)

“O ladrão tirando quase tudo, e deixando tudo no lugar.” (p. 251)

“Ao desertor, os desertos!” (p. 173)

“Cartésio. Nosso homem em Brasília. Dizer que fui quase cartuxo, o fantoche.” (p. 251)

“Não tem cara de quem sabe o que diz, dirá assim só para não saltar a vez?” (p. 104)

“Atira e retira o tiro?” (p. 178)

“Chancela e depois cancela, isso cansa.” (p.148)

“O bicho de sete cabeças tem o entendimento meio mal distribuído.” (p. 114)

“Cara que brisa de Brasília baforou, nem quem me enfarofou.” (p. 131)

“A máscara está na cara, só não vê quem não usa!” (p. 105)

“Para bem entender, meia palavra não é de bosta nenhuma, bom entendedor faz o que bem entender.” (p. 132)

“Já, mas não ainda.” (p. 252)

“O passado, mais perto que o supunha” (p. 139)

“Vivemos procurando soluções apocalípticas para questões da alçada do bom senso.” (p. 240)

“Chegou mais rápido que uma coincidência.” (p. 254)

“Saber não basta, carece corromper, comprometer e ameaçar o que existe. Para isso, parece que esse mundo é bom.” (p. 87)

“Paz, pelo jeito, ninguém aqui está querendo, não está vendo?” (p. 134)

 “Quem for valente que se levante: ao vigilante só se surpreende suprimindo-o.” (p. 136)

 “O único subterfúgio é não se deixar envolver, e procurar refúgio num desses labirintos que vêm vindo aí com cara de poucos amigos: neste!” (p. 143)

“Adeus, capitão! Partam sossegados, intercederei por vós lá no céu, e apontou para o alto, donde em pleno gesto escorre o raio que o fulmina.” (p. 145)

“Ainda que me pergunte: caiu em si e não voltou pra o convívio alheio?” (p. 87)

“Algum tanto estive prestes, mediterrâneo entre um lugar comum e um posto avançado, a reanimar com acenos de alimentos uns restos de entusiasmos desfeitados pela intervenção de contratempos.” (p. 131)

“Como os vivos riem forte dos mortos!” (p. 183)

“Posso querer ir aí e falar isso, penso que sei mas falando substituo minha certeza pelos azares da comunicação.” (p. 138)

“Uns catiripapos, e a criatura fica parecida com a caricatura.” (p. 144)

“Por aqui, Alteza, cuidado a viga, o vigia não tem mais onde pôr os olhos senão conosco, juro que não conosco, pela luz que lá em cima nos alumiou, poupe-me o vexame, vê lá o que faz, assim não ingrassaremos em Praga a tempo de desvendar a defenestração impedir o trânsito e interromper a metamorfose, a ejaculação precoce e o enterro prematuro”. (p. 160)

“Amanhã cedo, todos nós, amanhecendo, nos conheceremos.” (p. 253)











segunda-feira, 1 de junho de 2020

4585) 10 desaparecimentos (1.6.2020)




1
Amélio Barata, português, 35 anos, escriturário. Desapareceu no Rio de Janeiro, onde morava. Foi visto pela última vez saindo de carro da garagem do prédio onde trabalhava, às 18:12 de um dia corriqueiro, e não se soube mais dele. Até que, em 1996, quase quinze anos depois, o carro foi identificado como um dos muitos carros semi-destruídos na explosão de um caminhão-gaiola que ia do Rio para São Paulo, capital. O próprio dono havia assinado os papéis do transporte, mas não apareceu nem pôde ser localizado no endereço fornecido. Depois deste sinal de vida, não houve mais nenhum.

2
Deborah Winterslip, 43 anos, morava em Milwaukee (EUA) em 1971, e numa noite de sexta-feira estava com o marido recebendo dois casais de amigos para jantar, em seu apartamento. Enquanto os outros bebiam na sala ela foi à cozinha providenciar algo e demorou a voltar. O marido foi procurá-la, não achou. Ninguém na portaria a viu sair, os vizinhos não ouviram nada, não havia motivo aparente para que ela saísse sem dar explicações, nenhum telefonema inesperado, nenhuma discussão. Em 1983 ela foi encontrada sentada nos degraus de entrada no mesmo prédio, sem documentos, com a mesma roupa que usava naquela noite, envelhecida, doente, sem memória de nada.


3
Chad Evelyn, 48 anos, motorista de aluguel, caminhoneiro, nasceu no Arkansas, trabalhou em Detroit, passou alguns anos no México, voltou para a Califórnia, e de lá mudou-se para Austin, Texas. A última imagem que se tem dele é a de sua chegada no aeroporto local, com duas ou três malas. Não se sabe se alguém foi buscá-lo ou se pegou táxi. Desapareceu em algum vazamento do universo, desde a tarde de 28 de novembro de 1995. Oito anos depois, alguém usando seu nome escreveu uma série de cartas bizarras que foram publicadas na Seção de Cartas do American Statesman local, mas somente em 2011 isto chamou a atenção de um policial aposentado. Buscas foram feitas, sem resultado.

4
Zimbauê Sales, doméstica, 31 anos, do Recife, entrou para um grupo musical como percussionista e cinco anos depois estava tocando em festivais de verão na Europa. Viajava durante dois ou três meses, depois voltava para casa. Tocou com as principais bandas do Nordeste mas, fora ensaios e shows, estava sempre em casa cuidando das quatro filhas, que dividiam com ela todas as tarefas. Quando viajava, a mãe cuidava das filhas. Tudo estava bem até uma noite em Estocolmo em que ela parou de tocar, de repente, e ausentou-se do palco. A banda estranhou, mas teve que continuou tocando, e no final do show ela não estava no camarim, nem no teatro, nem no hotel, nem em Estocolmo. A banda voltou para o Brasil, depois de adiar a viagem por duas vezes. A polícia sueca continua investigando.


5
Julia Borges de Santana, 38 anos, escriturária, São Paulo. Após o encerramento de uma reunião na firma onde trabalhava, num sexto andar, todos desceram no elevador, menos Julia, pois a cabine estava muito cheia e ela disse: “Desçam vocês, eu desço em seguida”. Os colegas desceram, o elevador voltou a subir e eles ficaram à espera. O elevador desceu, novamente, mas estava vazio. Eles esperaram. Depois, dois deles subiram para ver a razão da demora. Não a encontraram, e a polícia também, nos meses que se seguiram. Revistaram o poço do elevador, todos os escritórios (que estavam fechados àquela hora, pois passava das 22:00), o pátio dos fundos, as laterais, a calçada. Julia nunca mais foi vista.

6
Homem não identificado, aparentando 50 anos, bem vestido. Entrou por volta das 16 horas numa livraria de livros usados em Montreal (Canadá). Depois de examinar as estantes durante cerca de meia hora, sem conversar com ninguém, ele levou dois livros ao balcão, pagou em dinheiro, recebeu o troco e antes de sair perguntou se poderia usar o banheiro, que ficava do lado de dentro do balcão. Entrou lá, e meia hora depois, como demorou a sair, o balconista bateu na porta, perguntando se precisava de alguma coisa. Sem resposta, a porta foi aberta, e não se viu sinal do cliente. O banheiro tinha apenas uma minúscula janela de basculante, por onde nem sequer uma criança poderia ter saído. O balconista não havia saído dali nem por um instante. Dois outros clientes estavam lá desde o momento em que ele entrou no banheiro. Os livros que ele comprou não foram encontrados. O balconista, nervoso, não lembra dos títulos.


7
Henry Leeworth, 46 anos, taxista, em Londres. Desapareceu ao dirigir o próprio táxi, com um passageiro no banco de trás, por volta das 19 horas de uma quinta-feira, em agosto de 1972, nas proximidades do Embankment. O táxi ficou retido num engarrafamento. O passageiro deu um cochilo de menos de um minuto (garante ele) e quando acordou o motorista não estava mais ao volante, embora o motor continuasse ligado. Ele imaginou que o outro tivesse descido para examinar os pneus. O motorista não voltou. Um guarda veio ver o que tinha acontecido, quando o tráfego voltou a fluir. O passageiro prestou vários depoimentos, todos idênticos, todos perplexos, nas semanas seguintes. A viúva (?) vendeu o táxi.

8
Colette Mazolle, 26 anos, estudante universitária, Paris. Mudou-se em outubro de 1998 para o apartamento que iria dividir com uma amiga no Faubourg St. Germain. As duas compraram alguns móveis, levaram malas e roupas e livros, e já estava tudo quase pronto para começarem a morar oficialmente. Colette foi ao apartamento pela manhã, para deixar a TV que os pais deram de presente, e voltou a sair. A amiga, Simone Mazzarello, 28 anos, saiu também para assinar documentos. Voltou duas horas depois para deixar lá algumas compras e viu que absolutamente tudo de Colette havia desaparecido: móveis, livros, roupas, papéis, objetos pessoais, artigos de higiene, a TV. Ninguém no prédio viu nada sendo levado embora (era um apartamento de terceiro andar, sem elevador). Não havia bilhete ou qualquer explicação, e Colette nunca mais foi vista.



9
Miranda Lethering, 6 anos, de Edinburgh. Desapareceu durante uma visita guiada a um museu de arte local, onde estava na companhia de mais dezoito coleguinhas e três professoras. A certa altura da visita, ainda no interior do museu, as professoras deram por falta da garota, que momentos antes estava admirando um sarcófago egípcio. Revistou-se o museu inteiro durantes horas, bem como as ruas vizinhas; o próprio sarcófago chegou a ser aberto naquela noite, por insistência das mestras, mas até hoje não se tem notícias da menina. Isto ocorreu em 1962.

10
Oito pessoas, homens e mulheres, com idades entre 22 e 67 anos, desapareceram durante um voo internacional direto, entre Nova York e Londres, em alguma data de novembro de 1993. O Boeing da BOAC decolou do aeroporto norte-americano com 185 pessoas a bordo e pousou na manhã seguinte em Heathrow com apenas 177. Durante o voo, os comissários percebiam de vez em quando alguma poltrona, antes ocupada, agora vazia, mas o avião tinha vários lugares desocupados e trazia mais de cinquenta componentes de uma orquestra, que mudavam de assento com frequência, para conversar. As oito pessoas desaparecidas não tinham relação com a orquestra: eram dois casais, e quatro passageiros que viajavam sozinhos. A presença de todos durante o voo foi confirmada pelos comissários. O voo era direto, sem escalas. Nada se soube deles daí em diante. A companhia aérea abafou o caso.











sexta-feira, 29 de maio de 2020

4584) "A thing of joy... is a beauty forever" (29.5.2020)




O grande poeta John Keats afirmou uma vez, num poema imortal:

A thing of beauty is a joy for ever.

Grosseiramente traduzido (traduzir é consertar um relógio-de-pulso com mãos de lenhador), seria algo como:

1) Uma coisa bonita é uma alegria eterna.

2) Uma coisa que contém beleza é uma alegria que nunca se esgota.

3) Basta uma coisa ser bela para ficar para sempre.

4) Toda beleza é duradoura.

Observem que a primeira frase acima é uma tentativa de real de tradução da frase em inglês. As outras três são desdobramentos, paráfrases, explicações. A gente encontra com frequência, em livros traduzidos, desdobramentos desse tipo, quando o tradutor chega à conclusão de que, em vez de tentar reproduzir a forma com que o autor disse algo, é mais jogo explicar ao leitor o que o autor quis dizer.

Às vezes o tradutor faz uma tentativa meio canhestra, prega ali um asterisco, vai lá no pé da página, explica ao leitor a dificuldade da tal da forma, e mostra “o que o autor quis dizer”. Essa prática é muito desaconselhada hoje em dia, principalmente em romances e obras de ficção em geral, “porque quebra o ritmo da leitura”.

E também porque um número grande de notas-de-pé-de-página passa subconscientemente para o leitor a impressão de que é um livro difícil, com muita coisa que precisa de explicações.

Eu acho melhor a nota de pé de página, que pode ser consultada apenas com um movimento dos olhos, do que a nota final, nas últimas páginas do livro. Tem livro que eu preciso ficar marcando a página-das-notas com uma caneta, porque de minuto em minuto preciso consultá-la.

Voltando à tradução em si: toda frase traduzida traz um componente de “É (suspiro), vai ter que ficar assim mesmo”. Poderia ser melhor. Deveria ser bem melhor! Mas o prazo de entrega já passou. Vai ter que ficar assim mesmo. Suspiro.

Traduzir é repetir, tentando grosseiramente reproduzir uma coisa bela, para termos a ilusão de que prolongamos sua existência.

Em cada formulação sucessiva que essa frase bonita recebe, ela perde algo, é claro. É inevitável. Cada passagem de uma língua para outra implica num desgaste, num dispêndio de energia, aumento de entropia, perda de qualidade.

Isso é compensado pelo fato de que agora, após a tradução, há mais uma coisa bonita no mundo. Era uma frase bonita em inglês; e ei-la agora bonitando em swahili, em iídiche, em castelhano.

Algum DNA da frase original é passado adiante, e é por isso que há sempre a necessidade de novas traduções, porque cada tradução é uma foto da nuvem. A próxima será diferente (a nuvem não é a frase: é a mente do tradutor ao ler a frase).

No verso acima, nessa tradução imperfeita que fiz, há algumas intenções questionáveis.

A thing of beauty is a joy for ever.
Uma coisa bonita é uma alegria eterna.

Quado uma frase tem, além de um sentido importante (não são todas que têm isso) uma musicalidade própria (idem), é conveniente dar uma pequena colher-de-chá a ambos. Como diria Jane Austen: razão e sensibilidade.

Se eu fosse um crítico de traduções literárias (o mundo está cheio) e visse essa tradução aí em cima feita por outra pessoa, já começaria botando defeito. "E por causa".


("Endymion", manuscrito de John Keats)

Diria por exemplo, que dentro da linguagem elevada proposta pelo poema (que, por sinal, é “Endymion”, de John Keats), caberia muito mais o adjetivo “bela” (que tem conotação mais nobre, mais literária) do que “bonita” (palavra mais banalizada, mais corriqueira).

Diante da minha crítica, o tímido tradutor retrucaria:

– É verdade! Mas eu estava pensando no lado sonoro. “Bela” contém uma vogal “É” muito aberta, e seu aparecimento precoce no meio da frase diluiria o efeito de quando ela vai aparecer mais adiante, quando eu achar uma rima para a rima final, “for-É-ver”. Num caso assim, às vezes é útil preservar esse som, para que ele possa brotar com 100% de novidade na última silaba do verso. Por outro lado, para a expressão “of beauty” a palavra “bonita”, além de estar próxima do sentido, está próxima do som, que é mais ou menos “BÍU-te”, ou “bi-Ú-te”, fica por conta da inflexão que se queira dar.

Eu torceria o nariz diante do sotaque paraibano dele pronunciando seu “bíute”, bateria com desdém a cinza da minha cigarrilha egípcia, e diria:

– Ora, ora, meu caro, não me faça rir. Se você é tão preocupado com minudências sonoras, onde está o seu equivalente para “joy”, esse monossílabo de júbilo solar tão caro ao idioma de C. S. Lewis?

– De fato – concordaria o tradutor, inclinando-se nervoso para a frente, como fazem o tempo todo os personagens de Raymond Chandler. – Não me ocorreu nenhum sinônimo de alegria, felicidade, júbilo (como o sr. tão bem assinalou) onde explodisse esse “Ó”, tão visível quanto a bandeira do Japão.

– Seria o caso de ter desistido, pois não?... Digo: em respeito ao autor.

– Concordo, mas o autor está morto e o leitor está vivo, além de seu nome ser Legião, porque são muitos. O leitor, quando compra uma obra traduzida, sabe que está levando gato por lebre, ele exige apenas que o gato seja saboroso. Ele se contenta com um simulacro da obra original, porque sabe que é simulacro mesmo, e que se ele quiser de fato saber quem foi Homero não pode se queixar de Odorico Mendes.

– Não tergiverse. Responda meu questionamento sem dar a volta ao quarteirão.

– Já dei a volta e já estou no portão de novo – responderia ele, todo se animando. – Não dispondo desse “Ó”, raciocinei a crédito: deixei em suspenso e passei para a unidade semântica seguinte, “for ever”. E pensei: Que diabos, se é para manter alguma coisa sonora, é este som daqui que deve vir em primeiro lugar, é o fim do verso, é o som da rima, é o “plin” que fica no ouvido. O “ó” tem brilho próprio, não contesto, mas na unidade-verso ele está levantando para o “for ever” cortar, se me perdoa a metáfora voleibolística.

– Recuso-me a ter ouvido isso. Prossiga.

– Acho que “eterna” supre mais ou menos a função de “for ever”.  Mesmo tendo havido alguma perda. Em versos, em poesia, eu costumo pensar primeiro na sucessão das sonoridades fortes das vogais, e só depois nas consoantes.

– Por que?

– Tenho a impressão de que as vogais demoram mais no tempo. Imprimem pegadas mais fundas na memória subconsciente do leitor; mas pode ser que somente eu sinta assim. Em todo caso, eu diria que no verso do poeta dos rouxinóis existe a sequência sonora “IN-ÍU-ÓI-É”.  Impossível de preservar intacta em português. Eu tentei cobri-la com “Ô-Í-Í-É”.

– Por uma questão de misericórdia, nem vou tocar no problema das consoantes.

– Peço que não o faça, porque só me restaram o “B” de beauty e um resíduozinho na rima final.

– Muito pouco, e valha o oxímoro – eu diria com menoscabo.

– Sim, mas... Como dizia o ator Fernando Teixeira, diante de qualquer problema insolúvel: “Vou fazer o quê, chamar a polícia?!”

– Ha ha ha, essa foi boa – concederia eu, com uma risada condescendente, dando mais uma baforada do meu cachimbo de raiz de roseira.

O pobre do tradutor passaria a mão no cabelo, já meio apaziguado, ansioso para fazer uma média com um crítico tão seguro de seus fundamentos. E ofereceria:

– Aliás, o senhor não quer sentar aqui nessa poltrona?... Posso lhe oferecer um suco, uma água?... É um prazer ver surgir tão de repente, aqui no meu escritório, um representante da sua categoria.

– Não, obrigado – responderia eu. – Aliás, nem sei que vim fazer aqui, caí foi de paraquedas no seu juízo. E não sou crítico coisa nenhuma, acho que sou um Viajante no Tempo, porque estamos até agora no futuro do pretérito, não sei se você notou.

Isso quebrou o encanto, gargalhamos em uníssono, fomos juntos à geladeira, abrimos uma Skol, e brindamos dizendo: “Itaipava!”.









quarta-feira, 27 de maio de 2020

4583) Entrevistas Transcendentais: Agatha Christie (27.5.2020)




A chegada ao aeroporto de Londres foi tranquila, e a motorista que me mandaram era uma irlandesa cinquentona, sardenta, com duas turmalinas nos olhos. Trocamos algumas frases de cortesia enquanto cruzávamos os viadutos e os trevos de concreto armado, mas ao chegarmos à rodovia principal a viagem transcorreu em silêncio, enquanto o motor da Mercedes emitia uma nota contínua de violoncelo, e as verdes colinas do Devonshire deslizavam e sumiam à distância.

A casa era a das fotos que eu já conhecia. Desci, enquanto o carro dava a volta rumo à garagem na parte traseira. Toquei a campainha e me preparei para encarar um típico mordomo christiano, de porte cavalheiresco e rosto impassível. Mas foi a própria Dame Agatha que veio abrir a porta, o que me desmontou.

– Ah – disse ela sorrindo. – O jornalista brasileiro! Você é mais jovem do que eu pensava. Entre, por favor.

Somente naquele instante percebi o quanto estava nervoso. Apertei-lhe a mão com brevidade; os olhos azuis dela entraram nos meus, me reviraram pelo avesso, avisaram-na de que poderia ficar tranquila. Fui conduzido a uma sala de estar discreta e antiquada, e daí a alguns minutos estávamos sentados, tendo diante de nós aquela instituição inglesa que sobreviverá ao afundamento da Ilhas Britânicas: uma bandeja de chá.


BT– Sempre imagino que a senhora colhe os assuntos para alguns dos seus livros prestando atenção aos objetos mais banais que há numa residência.

AGATHA – Os críticos literários gostam de ver simbolismo em tudo. Se num livro um cão estava cochilando no jardim e de repente levantou a cabeça, eles acabam achando que isso indica a presença de Anúbis, o deus egípcio da morte. Ora... talvez o autor tenha querido dizer apenas que o cão ouviu uma pessoa abrindo o portão, ou coisa parecida.

Claro que eu aprecio lendas: Anúbis, Gilgamesh, Ishtar... Claro que algumas relações podem ser feitas pelo subconsciente. Mas quando escrevo estou preocupada com as relações reais entre pessoas, lugares, objetos... Um cálice pode aludir ao Santo Graal? Sem dúvida, mas meu interesse é saber se cabe nele a dose de bebida suficiente para diluir um veneno específico... (suspira)  Bem, não posso me queixar. Pior seria se ninguém se interessasse pelo que escrevo.

BT– A senhora fez sucesso com relativa rapidez. Seus primeiros livros são muito fluentes, em termos de enredo e de tipos humanos.

AGATHA – A escrita só se conquista depois de muita prática, mas oh, claro, eu tenho uma afeição grande por aqueles livros, embora nunca os releia, para não achar defeitos. Tenha em mente que foram escritos por uma moça que ainda não sabia se era capaz de escrever ou não. Naquele tempo... ah, não gosto de usar essa expressão, mas, enfim... naquele tempo uma mulher publicar um livro era algo como pedir a palavra num auditório onde só houvesse homens. E eu sempre fui tão tímida! Ainda bem que para escrever eu podia imaginar que estava escrevendo só para mim, e que nenhuma pessoa iria ler aquilo com hostilidade, ou com galhofa. Quando penso que vou ser lida assim, fico bloqueada, não consigo produzir mais uma linha. Então guardo o caderno, vou ver se o jantar está sendo bem encaminhado, ou alguma outra coisa que me distraia o espírito.

BT – Qual o seu livro favorito entre todos que escreveu?

AGATHA – Ah, essa pergunta é tão banal... Tem certeza de que quer uma resposta?

BT – Eu concordo com a senhora. Acontece que quem a sugeriu foi o editor do jornal que me trouxe aqui.

AGATHA – Então vou respondê-la, para você não se prejudicar. Digamos que eu tenho um carinho especial pela minha Autobiografia. Sabe, quando escrevemos um romance estamos dentro de uma espécie de sonho controlado. Eu considero meus romances bastante realistas, e tudo o mais, mas eles têm só um pouquinho da minha realidade pessoal. Nesse livro, em que pude falar de mim, senti uma espécie de alívio. Ainda acho que poderia ter escrito o dobro.


BT – Pode ter certeza de que a imensa maioria dos seus leitores aprecia esse livro muitíssimo, tanto quanto eu. Embora, é claro, ninguém queira abrir mão de Hercule Poirot. Como é sua relação com ele, hoje?

AGATHA – Eu seria ingrata se não dissesse que Monsieur Poirot tem toda minha afeição, não concorda? A verdade é que ele entrou muito inesperadamente na minha vida, como aquele visitante que se hospeda em nossa casa-de-campo para passar uma temporada de férias e acaba morando ali por trinta anos. Eu não me planejei para que fosse assim, mas nunca tive uma oportunidade, para não falar num motivo forte, para mandá-lo embora. Ele tem seus cacoetes, mas é um cavalheiro de verdade, algo cada vez mais raro. E tem uma inteligência admirável.

BT – E Miss Marple? Para muitos de nós, ela é ainda mais simpática do que M. Poirot, quando mais não seja pelo fato de que é mais frágil, parece ter menos recursos...

AGATHA – Oh, ela tem imensos recursos, não se engane. Todas essas senhoras são mais perceptivas do que parecem à primeira vista, e sabem se valer de séculos de dissimulação e de estratégia como forma de defesa. Sim, são frágeis, é fácil acabar com elas, é fácil livrar-se delas, mas não é fácil enganá-las.

(Neste momento, um grupo de crianças tagarelas irrompe na sala, e todas se calam instantaneamente ao constatar a presença do visitante. Ms. Christie as chama para perto, apresenta-as – são netas ou bisnetas, não entendo muito bem, porque são meninas muito lindas, muito brancas, com sorrisos encantadores; vieram mostrar-lhe dois ou três livros que acharam na biblioteca da casa, e pedir-lhe conselhos de leitura. Ms. Christie ergue e me mostra, com um sorriso cúmplice, uma capa dizendo Nursery Rhymes. As garotas agradecem, fazem na minha direção uma pequena mesura bem ensaiada e retiram-se envoltas num silêncio que se desfaz em alacridade quando chegam ao corredor.]

BT – Uma das coisas que mais me chamavam a atenção em seus livros era a utilização de cantigas infantis como mote, como ponto de partida para uma história de crimes tenebrosos.

AGATHA – Nós aprendemos muito cedo que a infância é um jardim de terrores. Devo ter sido uma menina muito medrosa, e desde cedo tive uma consciência muito clara de que os seres humanos são capazes de maldades terríveis entre si. Toda criança sabe disso, mas em geral elas têm medo de comentar com os pais. Comentam apenas os temores que já viram alguém comentar, porque acham que estes devem ser um assunto permitido.

BT – Isto inclui o assassinato, sem dúvida.

AGATHA – Claro. Durante boa parte da minha infância tive pesadelos com uma figura ameaçadora, um criminoso que era capaz de entrar no corpo de qualquer pessoa da minha família para me fazer mal.

BT – O Homem do Fuzil.

AGATHA (sorrindo) –  Vejo que lembra desse detalhe. Era uma espécie de soldado napoleônico que minha imaginação infantil produziu, com chapéu de tricórnio, mosquetão... Ele não atirava em ninguém, mas tinha olhos malignos e sempre que eu o “avistava” sentia um pânico controlado. Depois ele deixou de aparecer pessoalmente, mas seu olhar surgia nas pessoas. Muitas vezes olhei para minha irmã e vi que quem me fitava com os olhos dela era o Homem do Fuzil.


BT – Não deixa de ser uma forma de personificar um sentimento para tê-lo sob controle.

AGATHA – Sim, os psicólogos modernos são capazes de correr rios de tinta em torno disso. Mas, sim, era tudo muito próximo, quando eu era menina: medo, família, infância, violência, a guerra... Um assassino sem corpo que de repente brotava no olhar de alguém à minha volta. Tornar-se adulto é ir ficando coberto de camadas protetoras. Esquecemos o quanto uma criança se sente nua, desprotegida, vulnerável diante de qualquer possibilidade de violência física.

BT – Um personagem por quem tenho uma certa parcialidade é Parker Pyne, o homem da observação cuidadosa e da experiência bem comparada.

AGATHA – Gosto dele, mas é um modelo limitado, jamais me teria proporcionado dezenas de romances inteiros, como Poirot. Até que tentei fazê-lo viajar, mas nunca o senti muito à vontade quando longe do seu escritório, e do seu pequeno exército de assistentes, não muito verossímeis, talvez, mas enfim... A vantagem de Poirot é que ele é um homem cosmopolita, conhece pessoas influentes, e ao longo dos anos é natural que haja muita gente que se sente devedora dele, não acha? Convidam-no, levam-no a visitar lugares pelo mundo... Então é tão normal encontrá-lo no Cairo quanto no Surrey. Gosto de viajar e gosto de imaginar histórias em lugares que eu talvez conheça melhor do que o leitor, mas me divirto tentando descrevê-los como me convém.

BT – Lembro-me de quando era bem jovem a surpresa que tive vendo fotos de suas viagens. Especialmente uma foto sua numa escavação arqueológica, e outra com uma prancha de surf.

AGATHA – Os leitores imaginam às vezes que nós não fazemos outra coisa senão escrever e dar entrevistas. Minha autobiografia foi escrita em parte para preservar recordações de pessoas queridas e de momentos felizes, mas também para mostrar que uma escritora é também uma dona de casa,  e uma mulher como qualquer outra, só que é uma dona de casa que escreve. Não direi todas, mas muitas donas de casa poderiam escrever, se o meio em que vivem as estimulasse para isso. Eu enfrentei preconceitos, mas tive também amigos que me encorajaram, e paguei-lhes tributo em meu livro.

BT – A verdade é que sempre sabemos pouco a respeito dos nossos autores preferidos. A leitura dos romances nunca nos satisfaz, principalmente quando se tornam tão importantes para nós... Não acha que essa curiosidade é justa?

AGATHA – Numa certa medida, sim; não esqueça que também sou leitora, tenho meus autores preferidos, minhas curiosidades, minhas fantasias a respeito deles. E sempre procurei ser atenciosa com os que me leem. Meu livro de memórias foi escrito para eles, em primeiro lugar...

BT – Sou um deles.

AGATHA – Fico feliz que seja, porque há moços e moças da imprensa que vêm aqui conversar comigo e começam o diálogo perguntando quem sou, e o que fiz de tão importante para ser entrevistada.


BT – Que é isso. A senhora é talvez a escritora mais famosa do mundo.

AGATHA – Há certos números anunciando isto, mas não quer dizer muita coisa. Já aprendi que, se acumularmos números sobre tudo, acabamos achando alguns que confirmam qualquer opinião nossa. O mundo não para, surgem novos leitores a todo instante, novos escritores. Tenho uma consciência bem clara de que a fama de um autor tende a diminuir com a passagem dos anos.  Um escritor só é famoso entre pessoas que leem, e lamento perceber que esse número está diminuindo. O número de alfabetizados cresce, mas o de leitores de literatura não faz senão diminuir. Mas não posso me queixar, não é mesmo? Tenho mais leitores que uma grande parte dos meus colegas, sei que sou lida, amada, lembrada... O que mais podemos querer?

BT – Poder continuar escrevendo, talvez.

AGATHA  - Ou, melhor ainda, acreditar que continuarei escrevendo mesmo depois que não esteja mais aqui. Sabe, não sou uma pessoa religiosa, pelo menos não tanto quanto muitos da minha família. Desde menina, no entanto, imaginei que mesmo que não houvesse dentro de cada um de nós uma alma imortal, havia sem dúvida um espírito cuja existência nos sobrevive, capaz de ser evocado com palavras. Você deve lembrar um dos meus livros onde brinco com a existência de bruxas, pessoas que fazem encantamentos rituais... Para elas, é tudo pretexto para um crime, é claro, e no meu caso, pretexto para uma história. Mas quando lemos Shakespeare, não estamos mantendo viva uma parte daquela mente tão privilegiada? Talvez não a pessoa dele, que já morreu e se desfez, mas algo que ele prezava muito, tanto que dedicou a vida a isso: seu humor, seu conhecimento de nossas fraquezas e nossas forças, seu entusiasmo para com o heroísmo de que somos capazes às vezes, seu desprezo pela vilania, sua paixão... Não creio, ou pelo menos creio apenas formalmente, numa alma imortal como as religiões aconselham. Creio nesse outro tipo de alma, presa em palavras, e que pelas palavras se propaga.

BT – E que revive, a cada leitura, a cada vez que aquelas palavras são repetidas em voz alta...

AGATHA – Ou mesmo quando lidas à noite, em silêncio. Ou mesmo quando outros dramaturgos, que ali beberam, produzem versos e inventam personagens que poderiam ter sido criados pelo mestre. Para que dele sobreviva algo. Para que seu modo de ver e de sentir não morra. A pessoa deixa de existir, mas ela ficaria feliz se soubesse que suas palavras, e sua maneira de criar histórias, não desapareceu de todo.

Finalizamos o chá, recusei o convite sincero para jantar, pois naquela mesma noite tinha marcado um jantar com meu editor londrino, e no dia seguinte voaria até Paris para encontrar Monsieur Leblanc. Ela despediu-se de mim com o mesmo sorriso, e aquela formalidade inglesa tão ansiosa para agradar, tão consciente da distância que impõe às pessoas; disse-me (todos dizem) que sempre teve vontade de conhecer o Brasil.

No caminho de volta a Londres, vim revisando as provas do meu livro Fanfic e pensando como os círculos continuam a se expandir na água mesmo depois que a pedra repousa no fundo.




(Nota necessária: esta série de "Entrevistas Transcendentais" é composta por textos imaginários. Eu não entrevistei essas pessoas.)   

Augusto dos Anjos:

Julio Cortázar:

Philip K. Dick:






segunda-feira, 25 de maio de 2020

4582) Janelas Indiscretas (25.5.2020)




(ilustração: Laurent Durieux / laurentdurieux.com)


Durante este período de quarentena coletiva muita gente descobriu que tem janelas, que tem vizinhos, que tem curiosidade malsã pela vida alheia.

Pior: que não lhe resta outro remédio senão ficar voyeurizando o dia a dia de quem surge naquelas janelas, naqueles jardins, naqueles terraços. Ficar brechando, como se diz em Campina Grande.

Alfred Hitchcock construiu o hino mais sofisticado ao voyeurismo com o filme Janela Indiscreta (“Rear Window”, 1954), em que James Stewart faz o fotógrafo novaiorquino L. B. Jeffries, que, por estar com a perna quebrada no gesso, fica imobilizado à janela, olhando o pátio dos fundos do seu prédio, que dá para os fundos dos prédios vizinhos.

É verão, o que leva todo mundo a erguer as persianas e escancarar as janelas – menos, é claro, o casalzinho de jovens recém-casados que passa o dia de persiana abaixada, e quando o rapaz se debruça ali para fumar um cigarrinho rápido é logo convocado de volta ao leito pela respectiva.

O pianista tentando compor uma música, sem conseguir... a dançarina gostosinha cercada de admiradores... o casal que deita na varanda para curtir um ventinho... a solteirona de coração solitário precisando de companhia...


Jeffries está prestando atenção nos vizinhos possivelmente pela primeira vez, porque é um daqueles fotógrafos internacionais que passam meses fora de casa, cobrindo insurreições populares no Zimbábue ou registrando safaris no Serengeti. Seis semanas com a perna no gesso o levam a descobrir, nos fundos do seu prédio, um mundo igualmente fascinante e perigoso.

Um casal que vive às turras... certa madrugada ouve-se um grito... pelo dia seguinte inteiro as persianas ficam abaixadas... a mulher não é mais vista... vê-se o marido embrulhando facão, serra... saindo de madrugada, embaixo de chuva torrencial, com uma mala metálica, voltando, saindo de novo... que coisas, ou que partes de coisas, ele está levando naquela mala?

O DVD que revi agora tem um Making Of mostrando como aquele gigantesco cenário foi todo construído de verdade, são varandas de verdade, salas de verdade. Para ter altura suficiente foi preciso rebaixar o chão – o nível do solo é o apartamento de Jeff, e o pátio embaixo foi construído no lugar onde havia um porão.




A história original de Cornell Woolrich é muito diferente do filme. Foi publicada em 1942 no livro After Dinner Story, onde o autor usou seu frequente pseudônimo de “William Irish”. Começa assim (trad. minha):

Eu não sabia o nome de nenhum deles. Nunca ouvi suas vozes. Nem sequer os conhecia de vista, propriamente, porque seus rostos eram pequenos demais para que eu reconhecesse suas feições àquela distância. Mas eu poderia ter construído uma tabela com o cronograma de suas idas e vindas, seus hábitos cotidianos, suas atividades. Eles eram os moradores das janelas dos fundos que me cercavam.

O conto, mesmo sendo de um dos meus autores preferidos, nem de longe é tão bom quanto o filme. Primeiro, ele se concentra no crime, e esses figurantes, no livro, somem depois da primeira página; foi o roteiro de John  Michael Hayes que deu personalidade, história própria e cognomes a cada um deles.

Em segundo lugar, o cara do conto não tem enfermeira nem namorada. Hitchcock trouxe o talento de Thelma Ritter (aquela típica coadjuvante hitchcockiana a quem cabe ser o olho mais lúcido de toda a trama, e ter as falas mais mordazes) e a presença mesmerizante de Grace Kelly, uma dessas mulheres que se disserem “venha cá” o cara vai.

No conto há um diarista, Sam, que prepara comida para Jeff e o substitui nas incursões externas que o filme transfere para Grace Kelly; e há o detetive, mais ou menos na mesma função em ambos.

E um detalhe: no conto, vemos Jeff o tempo inteiro sentado à janela, pedindo a Sam para ir ali, ir acolá, e não sabemos por que. Somente no último parágrafo, à guisa de “final surpresa”, ele revela que está com a perna no gesso. Essa surpresinha só serve para tornar a história implausível durante 99% de sua extensão -- o leitor se pergunta o tempo todo por que o cara não sai dali. Deve ter sido a primeira coisa que Hitchcock resolveu mudar, e revelar a perna-no-gesso desde o início.

Comentando para François Truffaut (em Le cinéma selon Hitchcock, 1966) a multitude de pequenos dramas revelado pelas janelas traseiras dos apartamentos, Hichcock diz:

Do outro lado daquele pátio há todo tipo de conduta humana, um pequeno catálogo de comportamentos. Era absolutamente necessário fazê-lo, senão o filme não teria interesse. O que se vê na parede do pátio é uma quantidade de pequenas histórias, é o espelho, como você disse, de um pequeno mundo.
(Cap. 11, trad. BT)

Essa “quantidade de pequenas histórias” me traz à mente uma outra obra que não tem nada a ver, e tem tudo, com o filme: o romance A Vida Modo de Usar (1987) de Georges Perec (trad. Ivo Barroso). Nele, Perec parte da visualização de um edifício de dez andares com dez apartamentos por andar, visto de frente e sem a parede que tapa a visão desse observador externo.


A visão sugerida por Perec se assemelha a um tabuleiro de xadrez posto em pé, com 10 x 10 casas. Cada casa é um apartamento, visto do outro lado da rua (e sem parede atrapalhando). E o trabalho que o autor se propõe (seguindo regras complicadas demais para comentar aqui) é contar a história do que acontece nesse cem apartamentos – pois ele não é um mero observador (como o de Janela Indiscreta): é o Autor Onisciente, ele conhece aquele povo todo, sabe a história de todas as suas familias, suas aventuras e desventuras, sabe o que pensam, o que guardam em cada gaveta.



Perec não parece ser grande fã de Hitchcock. No romance, há uma menção muito en passant ao diretor no capítulo LXXV, e é ao filme Os Pássaros. Não há menções a Hitchcock no Cahiers des Charges de la Vie Mode d’Emploi (Paris : Zulma, 1993); e na biografia de Perec por David Bellos aparece apenas uma menção rápida, meramente biográfica, do dia em que Perec foi com uma namorada assistir Intriga Internacional (na França, La Mourt aux trousses).

Na adolescência (segundo Bellos), quando morava com seus tios em Blévy, Perec era leitor assíduo da edição francesa do Alfred Hitchcock’s Mystery Magazine e do Ellery Queen’s Mystery Magazine, além das versões de revistas de ficção científica como Galaxy e The Magazine of Fantasy and Science Fiction.

O autor francês cita algumas imagens que o inspiraram no seu romance, mas não o vi falando de Hitchcock. Ele cita um desenho do mestre Saul Steinberg:


Cita também a tradição das “casas de bonecas” dos artesãos da Europa, obras variadíssimas que se encontram em muitos museus:



Em todo caso, para mim existe uma afinidade total de espírito entre Janela Indiscreta e A Vida Modo de Usar: um cenário visto de longe mas visto em sua totalidade, e o entrecruzamento dos dramas daquelas pessoas que vivem lado a lado, que se conhecem, que se ignoram, que se relacionam, que se esbarram ao acaso, e o fato de que provavelmente cada uma delas se julga no centro de uma tela de cinema que é só sua.