quarta-feira, 5 de agosto de 2015

3885) A luta da tradução (6.8.2015)



Traduzir é focar a atenção no texto e em tudo que existe por trás e em volta do texto. Traduzir é ler de verdade, ler pra valer. Paulo Henriques Britto já disse que só lê um livro quem o traduz, porque é forçado a parar, pensar a sério cada frase, examinar por todos os lados cada palavra para entender o que ela está fazendo ali. 


Pode até existir leitura dinâmica, mas não existe tradução dinâmica. Leitor é lebre, tradutor é tartaruga. Devagar e sempre.

Literatura é texto, e toda a carga expressiva da obra tem que estar nas palavras que serão impressas no papel. Mas a tradução não pode prescindir do contexto. Pra decidir sobre as palavras, muitas vezes é preciso ler outros livros do autor, biografias, estudos. Nem sempre é possível. Nem sempre é indispensável. Mas quando for o caso vale a pena. 

O tradutor tem a obrigação de conhecer o pensamento do autor (mesmo um autor estreante, ou falecido há séculos, ou desconhecido) melhor que o leitor, porque antes de ser parceiro do leitor ele é parceiro do autor.

O tradutor é um intermediário numa experiência alheia; ele está ali para aproximar o livro e o leitor, não pode se entusiasmar muito e “querer brincar também”. (O que, no caso, significa colocar na tradução coisas que não havia no texto.)  

Precisa de envolvimento no instante de ler (para absorver todas as nuances possíveis do texto, perceber todas as suas implicações, alusões, etc.), e distanciamento no instante de botar palavras no papel, para não extrapolar.

É preciso consistência. Se, no interior de um mesmo texto, você resolve traduzir “beach” por praia e “shore” por beira-mar, deve manter isso até o final. Às vezes o autor usa esses termos para distinguir áreas diferentes de uma paisagem maior que ele está visualizando. Mesmo que esses termos sejam sinônimos ou equivalentes, convém traduzir A por A1 e B por B1, sempre. 

Muitos livros exigem que a gente crie um glossário à parte, para manter essa continuidade.

Deve-se ter em mente o estilo e as preocupações específicas do autor. Um autor de estilo floreado, ornamental, exige uma tradução à altura, mesmo que o tradutor não goste de ler coisas escritas dessa forma. 

Um autor que usa muito palavrão não pode ter um tradutor pudico. Se no texto original há trechos numa terceira língua, é melhor mantê-los assim, traduzidos à parte. Se o texto é cheio de neologismos, pede neologismos equivalentes. Se o autor revela preconceitos isso deve ser mantido, não pode ser “corrigido” na tradução.

É bom manter o dicionário aberto ao lado. Quando o consultar, não o feche, deixe-o aberto naquela página. Talvez precise olhar de novo a mesma palavra daí a alguns minutos.









terça-feira, 4 de agosto de 2015

3884) A andróide sexy (5.8.2015)





Já falei aqui sobre o conceito do Uncanny Valley (O Vale do Estranho, ou da Estranheza), muito adotado quando se discutem reproduções animadas de seres humanos. O termo tem origem no famoso ensaio de Freud, Das Unheimlich ("The Uncanny", "O Estranho"), de 1919, onde ele examina “coisas, pessoas, impressões, eventos e situações que conseguem despertar em nós um sentimento de estranheza, de forma particularmente poderosa e definida”. Logo no início Freud cita um ensaio de 1906 de E. Jentsch, segundo ele a única abordagem prévia sobre o tema.



Diz Freud: “Jentsch tomou como ótimo exemplo ‘dúvidas quanto a saber se um ser aparentemente animado está realmente vivo, ou, do modo inverso, se um objeto sem vida não pode ser na verdade animado’; e ele refere-se, a esse respeito, à impressão causada por figuras de cera, bonecos e autômatos engenhosamente construídos.”  Foi certamente essa menção inicial que deixou essas criaturas artificiais, para muita gente, como os melhores símbolos do Unheimlich.



O conceito de Uncanny Valley foi criado para indicar principalmente essa zona crepuscular em que andróides ou bonecos nos dão a impressão de pessoas reais e isso nos produz uma sensação de inquietação, desagrado, ou até repulsa. É diferente de quando vemos uma representação pictórica perfeita: elogiamos a técnica, dizemos que “parece uma pessoa”, mas em nenhum momento aquela tela nos inquieta ou ameaça. Autômatos ou bonecos, no entanto, envolvem uma representação completa do corpo humano, inclusive gestos com as mãos, expressões faciais, sorrisos, o modo de piscar os olhos. E isso produz a sensação do Unheimlich.



No Japão existe uma convenção, o Wonder Festival, para exibição de andróides desse tipo. Na convenção de fevereiro passado, o laboratório A-Lav exibiu Asuna, uma andróide que imita uma garota de 15 anos, sorri, move os olhos. (Aqui: http://tinyurl.com/q55hk67). A impressão de realidade é aumentada pela textura da pele, que é macia e flexível (embora fria).


Não vai demorar muito a produção (que deve começar na clandestinidade) de amantes cibernéticas que sejam um misto entre as atuais bonecas infláveis e andróides como Asuna. A FC prevê há muitos anos essa criação de bonecas do prazer (como a Pris de Blade Runner, interpretada por Daryl Hannah). Mulheres biônicas que não reclamam, não discutem e obedecem as ordens de maridos autoritários ou inseguros. A bem da verdade, é bom admitir que os equivalentes masculinos não devem demorar a entrar também no mercado. Muitos humanos realizarão o sonho utópico do sexo atleticamente satisfatório e sem perguntas, sem confidências, sem indiscreções.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

3883) Esperando Godot (4.8.2015)




(Leonard Cohen)


Há livros onde nada acontece, a rigor: o tempo parece ter parado, a vida dos personagens se arrasta devagar – porque eles estão à espera de algo. Algo que está marcado, profetizado, ou meramente intuído em sonhos ou devaneios. Algo situado no futuro e do qual eles se aproximam a cada segundo. 

Está vindo. Não precisam fazer mais do que ficar imóveis e esperar o encontro. O tempo é o rio que os leva.  Não precisam remar. Enquanto esperam estão avançando, mesmo lentamente, rumo ao encontro que marcaram ou que foi marcado para eles.

A Fera na Selva (“The Beast in the Jungle”, 1903) de Henry James é uma noveleta naquele estilo introvertido e verbalmente brilhante do autor. Ele narra o reencontro entre um homem e uma mulher. Ela o reconhece logo, ele não, e se surpreende quando ela lhe pergunta: “E então? Já aconteceu, o que você esperava?”. 

Só então ele lembra que os dois tinham sido apresentados alguns anos antes e que revelou a ela seu segredo: a vida inteira ele teve a sensação de que alguma coisa formidável ia lhe acontecer, mas não sabia o que seria: “Alguma coisa, fosse o que fosse, jazia à espera dele, por entre os desvios e as curvas dos meses e dos anos, como uma fera agachada no meio da selva”.

A espera de John Marcher é a mesma de tantos outros personagens de James: solteirões, sóbrios, circunspectos, educadíssimos, presos a rituais e convenções, vendo a vida passar na janela. 

Seu tema musical poderia ser uma canção como “Waiting for the Miracle” de Leonard Cohen (“Eu estou à espera, dia e noite / não vi o tempo passar / perdi metade da vida. / Houve uma porção de convites / e alguns foi você quem me mandou; / mas eu estava esperando o milagre, / esperando o milagre chegar”.) 


"Waiting for the Miracle":
https://www.youtube.com/watch?v=D1EDKvXRKd0


Pode ser a história de um amor irrealizado, mas é mais do que isso, é a percepção de todos os tipos de espera que temos de aprender. Esperar pelo improvável, pelo que foi garantido (prometido, jurado, contratado) mas não se sabe se vai acontecer ou não. 

Ou esperar pelo desconhecido, como o Godot que os dois vagabundos de Samuel Beckett esperam na beira da estrada em Waiting for Godot. E como tudo na vida é travessia, talvez o que sobrevém aos vagabundos no transcorrer da peça acabe sendo mais interessante e crucial do que a chegada de um Godot talvez indiferente e sem muita coisa para dizer.

Senão, a espera é a vida de John Marcher: “seu pequeno emprego de funcionário público, os cuidados com seu modesto patrimônio, com sua biblioteca, com o jardim de sua casinha no campo, com as pessoas de Londres cujos convites sociais ele aceitava e retribuía”. Uma vida à espera, uma espera que acaba proibindo que o esperado aconteça.






sábado, 1 de agosto de 2015

3882) Traduzir e escrever (2.8.2015)



(ilustração: David Vela)

Um autor escreve e revisa seu texto sabendo que é ele a última pessoa na fila. É ele quem dá a última palavra, quem bate o martelo em todas as decisões textuais. Ninguém vai comparar o texto dele com outro. Já um tradutor sempre sabe que o que está botando no papel vai ser lido como O Livro por todos os que não podem ler o original; mas há um contingente capaz de (e às vezes disposto a) esquadrinhar os dois textos frase por frase, just in case.

O tradutor muitas vezes tem um certo entusiasmo pelo original. Por admirá-lo demais quer dar o melhor de si, acha que vai arrasar, e às vezes força a mão. Outras vezes ele não liga muito para aquele autor ou aquele tipo de livro e relaxa, manda um primeiro rascunho e vai cuidar de outra coisa. O tradutor ideal não pode ser nem starry-eyed nem blasé. Traduzir é simples, é um pouco como fazer aquelas manobras aéreas em comemoração de feriado: basta ficar olhando o avião à sua esquerda e pra onde ele for você vai.

A tentação de melhorar o original é grande. Muitas vezes a gente, mesmo quando está apenas lendo, percebe escolhas verbais toscas por parte do autor, ou frases incoerentes, confusas, partes não revisadas que destoam do resto da própria página onde estão. Deve o tradutor corrigir o que o autor não corrigiu, e cuja importância no conjunto não é grande coisa, ou transcrever o que o autor achou satisfatório?

Falo aqui de um tradutor que vai ser pago pelo trabalho, e que aceitou na boa, ou escolheu, o livro que vai traduzir. Ruim é traduzir contra a vontade, ou por um dinheiro irrisório, ou para não perder o emprego ou o cliente. Eu acho que traduzir um texto que se detesta deveria constituir um círculo à parte dentro do Inferno de Dante, não seria nada muito grave, afinal, mas ia ser a última parada antes do começo das torturas físicas.

Toda tradução tem escorregadas, tem topadas, tem quebradas de cara de todos os tamanhos e sob todos os tapetes. Mas mesmo um mico que a gente paga pode ser suplantado quando o artista recupera rápido a firmeza anterior. Traduzir é simples, é como pilotar Fórmula-1, você pode até capotar, desde que caia em pé e continue rodando.

Às vezes é legítimo o tradutor tornar-se amigo do autor morto ou incessível, sempre respeitando o grau de loquacidade ou de casmurrice de cada um. Basta que seja capaz de imaginar esse autor a ponto de trazê-lo à vida, como evocava Roquentin o Marquês de Rollebon. E que ele e o autor tenham batalhas estilísticas brigadas pra valer, e recompensadoras. E que no final o finado autor erga as mãos para o alto e diga: “Tudo bem, bota isso mesmo e vamos em frente, que vem coisa muito mais complicada por aí”.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

3881) "Paris Interzone" (1.8.2015)






A “capital literária do mundo”, Paris, recebeu uma leva de escritores dos EUA no entre-guerras (Hemingway, Miller, Gertrude Stein, etc.) e outra após a II Guerra Mundial. Esta última é o foco do livro Paris Interzone – Richard Wright, Lolita, Boris Vian and others on the Left Bank 1946-1960 (1994) de James Campbell, jornalista escocês autor de uma biografia de James Baldwin, um dos personagens do livro. Campbell acompanha os escritores negros expatriados em Paris, onde encontravam ambiente para a discussão política e literária, além de serem tratados com um respeito que não tinham nos EUA. Richard Wright (Native Son), Chester Himes (Cast the First Stone), William Gardner Smith (South Street), o cartunista Ollie Harrington e James Baldwin, que na época trabalhava em seu primeiro romance Go Tell It on the Mountain.

Vários eram investigados pelo FBI por atividades políticas (Wright tinha sido membro do Partido Comunista dos EUA), mas Campbell se detém nas discussões literárias e raciais. Esses autores brigavam entre si por divergências literárias, paranóia de estarem sendo espionados ou inveja do sucesso ou das amizades uns dos outros. E todos tentando publicar em inglês na França.

Surge aí o outro eixo do livro: as revistas vanguardistas da época, em língua inglesa. Periódicos como Merlin, que entre 1952-54 publicou Beckett, Sartre, Miller e outros, Zero, Points e a Paris Review, que se tornou a mais famosa. No meio delas surge Maurice Girodias, divertida mistura de espertalhão e bon-vivant, dono da Olympia Press, que publicou inúmeras obras pornográficas e livros “malditos” como Os 120 Dias de Sodoma (Sade), além de lançar as edições originais de clássicos como Lolita (Nabokov), Naked Lunch (William Burroughs), A História de O (Pauline Rèage), Plexus (Henry Miller) e outros.

Em torno disto tudo, Campbell evoca as presenças de franceses como Boris Vian (entusiasta do jazz, da FC e do romance policial dos EUA), Sartre (que Vian chamava “Jean-Sol Partre, autor de La Lettre et le Néon") e Albert Camus, além do eterno expatriado Nabokov. Um momento crucial da literatura francesa, como sempre questionada, estimulada, sacudida e enriquecida pela literatura dos estrangeiros que vão para Paris em busca dos cafés, da bibliotecas, do liberalismo nas idéias. Alguém já disse que Paris é o melhor lugar do mundo para ser um escritor pobre, porque os prazeres mais refinados e mais exclusivos que ela oferece são gratuitos. Paris Interzone, no recorte que faz do tempo e do espaço, mostra a importância dessa segunda explosão norte-americana na literatura parisiense.



quinta-feira, 30 de julho de 2015

3880) O ator que ninguém vê (31.7.2015)



Não é que a gente não o veja, se bem que em algum caso muito específico possa chegar a isso. É que a gente não o enxerga a ponto de poder reconhecê-lo de cara limpa. Os atores que interpretam papéis como o de Freddy Kruger em A Hora do Pesadelo ou o de Jason em Sexta Feira 13 têm as caras dos seus personagens. Sempre que vi a foto desses atores, seus rostos se diluíram em redundância e anonimato. Nem sei como se chamam; para mim são vidas humanas destinadas a animar arquétipos malignos.

Lembrei agora de Darth Vader, um daqueles vilões cujos rosto nunca vimos, a não ser em alguns segundos de um terrível clímax. Pouca gente sabe que o ator que emprestou voz e movimentos a Lord Vader é aquele mesmo coadjuvante marombado que, em Laranja Mecânica de Kubrick, empurra a cadeira de rodas do escritor inválido, Patrick McGee, depois deste ser espancado pela gang de Alex. O nome dele está perto e longe, a dois cliques de distância. Trabalhou em dois grandes sucessos do século, e a maioria das pessoas não sabe que o viu duas vezes.

Jason e Vader não se revelam porque usam máscaras, mas alguns efeitos são ainda mais radicais. Quem é aquele ator que faz o Gollum de O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson? Não faço idéia, embora tenha lido extensas matérias descrevendo as trucagens utilizadas para dar movimento ao personagem. O ator ganha ingressos para a première do filme, e tudo o mais, mas não sei se os moleques dele são capazes de apontar: “Lá está papai!”.

Quando vi pela primeira vez O Homem Elefante de David Lynch eu já tinha visto alguns filmes com John Hurt, ator de quem sempre gostei. Ninguém faz melhor do que ele o papel de um underdog, um escorraçado, um cagado-da-coruja, um cara cuja razão de vir ao mundo é passar por algo terrível: ele é o Winston do 1984 de Michael Radford, é o cientista em cujo peito explode o Alien em O 8o. Passageiro. Não o reconheci como o homem elefante do título por causa do bolo-de-noiva de maquilagem que foi obrigado a receber. Por mim, qualquer outro ator teria produzido o mesmo resultado. (Sim sei que não; mas sentimos a ausência de um rosto.)

Em casos assim o ator serve ao personagem desaparecendo dentro dele, deixando que somente o personagem seja visto e aplaudido, como um Homem da Meia Noite que percorre as ladeiras de Olinda sem que a multidão se pergunte quem carrega aos ombros aquela marmota. O ator tem às vezes a humildade de sumir nos corredores e nos sótãos do personagem, perder-se ali, mas encontrar o lugar secreto onde é possível, esquecido de todos, percebido por ninguém, tocar as emoções do personagem como quem toca um piano num terraço escuro.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

3879) Gótico Sulista (30.7.2015)




(foto de William Faulkner)

Lendo artigos sobre a primeira temporada da série True Detective, ambientada na Louisiana, cheguei ao chamado “Southern Gothic”. 

O “Gótico Sulista” é o nome dado a um certo viés literário de autores do Sul dos EUA como William Faulkner, Flannery O’Connor, Harper Lee, Barry Hannah, Zora Neale Hurston, etc. 

Um artigo do escritor MO Walsh (aqui: http://tinyurl.com/otpjtx3) faz um balanço do que seria esse subgênero, que aqui e acolá, à mercê dos inesperados de cada autor, roça pela literatura fantástica. É gótico pelo fatalismo, pela visão quaderniana do mundo como uma caatinga áspera e pedregosa sob um sol assassino. (Há um gótico noturno e um gótico ensolarado – como o gótico-mangue de Anne Rice, que pode ser tropical sem deixar de ser tenebroso.)

Walsh diz que os autores do gótico sulista sabem do que estão falando: conhecem a terra, sua cultura, seu modo de ser. Não são alguém que escolheu aquela região pelo exotismo; eles nasceram e viveram ali. Seus personagens são considerados grotescos pela crítica, mas, segundo Walsh, 

“... embora sejam personagens deformados ou intolerantes ou violentos, nas mãos de um escritor sulista são descritos com empatia e verdade. (...) Isto não é ser grotesco. É uma vida dura e um trabalho duro, e esses personagens apenas mostram cicatrizes visíveis daquilo que muitos de nós carregamos em nosso íntimo.”

A relação com a literatura oral é forte no Sul; esses autores “estão ligados pela tradição oral de contar histórias na varanda, e se deleitam com a construção de frases fora do comum.”  O mesmo quanto à presença da violência nas obras: “Todos os romances [desse grupo] envolvem situações-limite. (...) As vidas das pessoas estão em jogo, tanto quanto a vida dos leitores desde o momento em que acordam até o momento de fechar os olhos.”

Walsh finaliza dizendo que a história cruel, violenta e socialmente injusta do Sul produziu personagens como o pobre diabo (“underdog”), personagem sulista por excelência, que sempre acha que está fazendo a coisa certa mas vê o mundo voltar-se contra ele. 

E cita a frase do advogado Atticus Finch em O Sol é Para Todos: “O fato de que já fomos derrotados cem anos antes do nosso nascimento não é motivo para achar que não podemos vencer.”

O Sul dos EUA é muito comparado ao Nordeste brasileiro: uma região agrária, com grandes proprietários de terra, com escravos, que aos poucos ficou para trás de outra região, mais industrializada, mais moderna, mais urbana. O grande escritor é o que capta a vibração dos dramas específicos de cada uma e as utiliza para contar histórias que assinalam como uma marca dágua a psicologia de uma cultura.







terça-feira, 28 de julho de 2015

3878) O cordel da Inglaterra (29.7.2015)



O cordel não é nordestino nem brasileiro. A produção de livrinhos minúsculos, contando histórias curtas e vendidos por quase nada, existiu na Europa muito antes de Leandro Gomes de Barros, na década de 1890, começar a imprimir e vender folhetos-de-feira no Recife. Na Inglaterra, os livrinhos eram chamados “chapbooks”, e eram muito parecidos com nossos folhetos. Duas diferenças principais: 1) o folheto nordestino é quase sempre em verso, e no chapbook inglês predominava a prosa; 2) no Nordeste usa-se uma ilustração (xilo, foto, etc.) apenas na capa, enquanto os chapbooks ingleses têm gravuras ilustrando o corpo do texto.

Os chapbooks eram vendidos também nas ruas e nas feiras. A imagem tradicional do vendedor europeu o mostra trazendo ao pescoço, presa por uma tira, uma daquelas “bandejas” de madeira cheia de livrinhos, apoiada à barriga. É um utensílio que no Brasil se usa para vender balas e chicletes no cinema. Cordelistas europeus dos anos 1700 ou 1800 andavam na rua como os nossos “baleiros”, apregoando seus folhetos.  Daí vem o nome francês, “littérature de colportage”, “literatura carregada ao pescoço”.

Já falei aqui sobre a coleção de cordéis de Samuel Pepys (ver: http://tinyurl.com/qxuvle7). Uma das minhas fontes de consulta preferidas é Chapbooks of the Eighteenth Century de John Ashton (Skoob Books; a edição original é de 1882). É uma antologia por amostragem, onde o autor coloca pequenos trechos de cada folheto para dar uma idéia do texto e das ilustrações. O livro tem 486 páginas e material de 103 folhetos, com centenas de ilustrações (foi daqui que tirei quase todas as ilustrações do meu livro Os Martelos de Trupizupe, 2004).

O material inglês tem muitos temas em comum com o nosso cordel: histórias maliciosas, aventuras de valentões, celebração de guerreiros famosos, aventuras picarescas, histórias moralizantes, relatos de crimes de grande repercussão, etc. Todo esse varejo de notícias reais, semi-reais e inventadas que os franceses chamam de “fait divers” encontrou lugar nos folhetinhos populares antes de vir a ocupar um espaço mais nobre em revistas e jornais dos 1800.  Nos folhetos, conviveu com os poemas populares, as baladas celebrando crimes e eventos extraordinários, a versificação de contos tradicionais, etc., matéria poética que no Brasil veio a constituir o corpo principal dessa gigantesca indústria de livros baratos e perecíveis.

O cordel é o livro dos que não podem imprimir nem comprar livros. Não é uma invenção nossa: a nossa invenção é o Romanceiro Popular Nordestino, conjunto de poemas que encontrou seu veículo ideal nos folhetos de cordel durante o século 20.



segunda-feira, 27 de julho de 2015

3877) Começos perfeitos (28.7.2015)



Um websaite (aqui: http://tinyurl.com/ousgv8o) escolheu os seus cinco melhores começos de romances FC e fantasia. E lembrava aos leitores que talvez cada um de nós não possa escrever um romance de fantasia perfeito, mas uma frase inicial perfeita é algo ao alcance de muitos. Soman Chainani cita boas aberturas de livros dos quais não tenho referência, como The Magicians de Lev Grossman (“Quentin fez uma mágica. Ninguém percebeu.”), The Voyage of the Dawn Treader de C. S. Lewis (“Havia um rapaz que se chamava Eustace Clarence Scrubb, e ele era quase merecedor disso.”), Feed de M. T. Anderson (“Fomos à Lua para nos divertir, mas acabou que a Lua era um saco.”) 

Por que são bons? (Para esse tipo de análise, não precisam ser “Os Melhores”, conceito desnecessário.)  No de Grossman temos dois fatos enunciados em duas frases diretas como duas machadadas vindo de direções opostas. No de Lewis, muito da espirituosidade da frase deve residir nas ressonâncias desse nome tão pomposamente britânico, que poderia talvez aparecer nos livros de Rowling ou de Dickens. O de Anderson, falando da Lua, lembra os contos de Berilo Neves e seus passeios interplanetários (“—Onde estás? – Em Saturno. Traze-me uma cesta de framboesas de Teresópolis. Em Saturno, não há framboesas.”), mas tem também uma tintura cínica, blasê, e lembra os “spacers” saltando de cidade em cidade, planeta afora, em Samuel Delany (“Aye, and Gomorrah”).

Um comentarista do saite lembra o início de um livro de Peter S. Beagle: “The unicorn lived in a lilac wood, and she lived all alone.”  Há um curioso problema de tradução nessa linha. Poderia ser “O unicórnio vivia num bosque de lilases, e ela vivia ali sozinha”.  O inglês precisa definir o gênero feminino da palavra usando “she”, mas nós podemos esquecer o “ela” e dizer: “O unicórnio vivia num bosque de lilases, e vivia ali sozinha”. A revelação-surpresa do gênero é diferente em português. Existirá a forma “a unicórnia”?  Isto é matéria para os gramáticos. No caso, a opção seria “A unicórnia vivia num bosque de lilases, e vivia ali sozinha.” O “sozinha” já não estaria dando a informação de gênero, mas serve como uma confirmação, dissipa a dúvida dos leitores mais incrédulos.

E o começo de um livro de Pamela Dean: “Edward Fairchild, Príncipe da Floresta Encantada, Comandante da Borda do Deserto, Amigo dos Unicórnios e Monarca do País Secreto desejou estar bem longe dali.”  Um pouco da mesma ironia usada por C. S. Lewis no começo citado aí no alto.  O mesmo contraste, nos dois exemplos, entre as maiúsculas pomposas das primeiras partes e as enunciações puramente mentais das segundas.


sábado, 25 de julho de 2015

3876) A chacina aleatória (26.7.2015)



(Jean-Luc Godard e câmera)

Na semana passada, houve mais uma chacina aleatória nos EUA, desta vez em ambiente militar em vez de estudantil. Ainda não sei se houve motivação religiosa ou política, ou se foi um mero surto. Surto é hoje uma dessas palavras-ônibus que podem ser atribuídas a mil coisas. Podemos considerar que o resultado da doutrinação religiosa ou política também é uma espécie de surto psicótico, planejado e desencadeado por alguém.

Imaginei um conto a respeito de uma dessas matanças, do sujeito calmo que um dia pira e sai abatendo todo mundo, aquilo que chamam de “going postal”. Quando a matança se dá no lugar onde o criminoso trabalha, ou onde estudou quando jovem, está clara a motivação pessoal, envolvendo rancor, frustrações, mau ambiente com as demais pessoas, uma combinação de coisas. Outra possibilidade é a matança ocorrer num local simbólico (igreja, tribunal, etc.) ou que atrai muita gente (eventos esportivos, shopping centers, clubes, praças, etc.), nesse caso tem-se como quase certo que o assassino não sabe precisamente que pessoas está matando.

No meu conto, depois da chacina descobre-se numa rede social qualquer a última postagem do criminoso antes da hecatombe (onde ele se matou no final): “Peço perdão a todos e às suas famílias, não é nada pessoal.”  Claro, não é nada pessoal. É a respeito de um Deus falso e um Deus verdadeiro, ou de um partido do Bem e um partido do Mal.  Quando estão envolvidos conceitos dessas proporções, uma vida humana parece valer bem pouquinho.

Um cara mata 15 pessoas por causa da fé ou por causa da ordem do partido. Talvez ele sinta que essa missão superior avaliza ou neutraliza tudo quanto ele faça. O fato de ser missão já basta para lavar as mãos de quem a executa, “estava obedecendo ordens”, “je ne suis pas responsable”, “estava escrito”, “apenas cumpri a lei”. Talvez o que sinta seja apenas o prazer da missão bem cumprida. É diferente do matador ressentido que quer sair em todos os noticiários, ou o que sente de fato um tipo de epifania, de iluminação maligna.

Mais temível do que o matador ideológico é esse matador absurdo, que executa o ato gratuito tão louvado pelos surrealistas. André Breton disse que o ato surrealista por excelência seria sair à rua empunhando uma arma e atirar em quem achasse pela frente.  Luís Buñuel explorou variantes dessa idéia, uma espécie de terrorismo absurdista, mistura de Ionesco com Billy the Kid.  A Nouvelle Vague herdou o ato surrealista e o misturou com o romance policial “noir” norte-americano, onde vida e morte são gratuitas, e onde vigora um certo tipo de existencialismo, mesmo sem usar esse nome.