terça-feira, 17 de julho de 2012

2925) Os reis e os tronos (17.7.2012)




Entre as numerosas críticas que tenho lido sobre Game of Thrones uma das mais ácidas e mais divertidas foi a de Laurie Penny no New Statesman (http://bit.ly/KqW2f6). 

Ela começa descrevendo a série como “um coquetel reluzente de estupros, sexo gratuito e ultra-violência”, depois opta por “uma saga cripto-medieval de monstros míticos, seios arfantes, intrigas palacianas e baldes de sangue”, e mais adiante vê sinais de uma “cultura de estupro racista misturando Disneylândia com Dragões”. 

Que o leitor não a leve a mal: ela gosta da série.  Mas, como todo crítico que se preza, ela sabe que não é porque a gente gosta de uma coisa que essa coisa é boa. 

Um crítico não é um sujeito que só gosta de coisas boas, é um sujeito capaz de ver com distanciamento as coisas que considera boas ou ruins.

Penny constata que a série retoma um mito persistente da nossa cultura: A Busca do Bom Rei, e seu subtema A Formação do Bom Rei.  Westeros é um continente meio medieval, com vários reinos submissos a um reino central, o do Trono de Ferro em King’s Landing. 

Todos esses reis têm doses variáveis de loucura, mania homicida, ambição descontrolada, ressentimento mútuo, etc.  Manter a lealdade de todos só é possível com subornos e ameaças.  

É um reino onde nobres idealistas como Ned Stark acabam demonstrando, à própria custa, a impossibilidade de se viver de acordo com os elevados preceitos da cavalaria. É preciso ser mais raposa que as raposas, mais serpente que as serpentes; é preciso mentir, trair, ameaçar, subornar, matar – com presteza e sem escrúpulos.

Num contexto assim, como encontrar o Bom Rei, o que consiga a síntese entre nobres ideais e prática eficiente, entre envergadura moral e habilidade política? 

Laurie Penny torce o nariz para o conceito de Bom Rei, herança de milênios de monarquia.  A qual (agora sou eu) foi substituída por séculos de repúblicas presidencialistas. Um presidente não é mais que um rei de paletó e com prazo de validade. É um símbolo, uma encarnação terrena de um poder divino (quem foi que disse que nosso Estado é laico?). 

Vivemos em busca do Governante Ideal, achando que é mais fácil encontrar um ser humano perfeito do que conceber uma forma de administração pública que não se baseie no carisma de um candidato e nas suas venetas depois de empossado. Daí o fato de que temos cada vez mais “atores” e menos administradores ocupando os cargos de Poder (com exceções, é claro.) 

Ainda vamos precisar de muita banda-larga até construir um sistema pelo qual o Povo governe a si mesmo, e então nossas eleições pseudo-democráticas nos parecerão tão anacrônicas quando as guerras feudais de Westeros.

domingo, 15 de julho de 2012

2924) O fogo de Prometeu (15.7.2012)

A Humanidade está se encaminhando para um destino pós-orgânico, como pregam os inúmeros centros Trans-humanistas espalhados pelo mundo. Abandonaremos o corpo biológico e faremos o upload de nossas memórias para ambientes eletrônico-virtuais, onde passaremos a existir em forma de pura energia, pura memória de bits-e-bytes. A FC explora essa idéia há décadas.  A Ciência se encaminha para lá.  Seremos os mesmos de hoje?  É claro que não, mas não sentiremos saudade. Afinal, não sentimos saudade de ser antropóides pulando de galho em galho. 

Esta é uma das funções das redes sociais, por exemplo: digitalizar nossa vidinha, nossas preferências, opiniões, venetas, linguagens emotivas. Hoje somos seres biológicos que postam no Twitter coisas como: “Aí, galera, estou comendo uma pizza de calabresa... Quem vai?!”.  Amanhã, seremos softwares postando a mesma coisa; o fato de inexistirem pizzas físicas será irrelevante, porque os outros softwares responderão: “U-hu! Tô tomando um vinho, e desejo bom apetite!”.  Para os nossos trinetos de silício, o mundo será apenas linguagem e eles não sentirão falta das nossos cinco sentidos. Serão uma ficção e viverão num mundo de ficção, sem referencial físico nenhum, mas como serão ficção não conhecerão nenhum outro mundo além do seu, e serão felizes – ou infelizes, dependendo de para onde suas ficções os levarem.

Nesse futuro, filmes como Prometheus de Ridley Scott, The Thing de John Carpenter e outros filmes de terror repugnante cumprirão um papel importantíssimo.  Eles são o pesadelo da carne. A lembrança da existência de criaturas feitas de uma matéria orgânica pulsante, quente, coberta de epiderme, mucosa e pelos.  Criaturas que não se comunicam, apenas atacam, devoram e digerem outras criaturas igualmente repugnantes. Os monstros de Ridley Scott  nos provocam engulhos de nojo diante daquela sua biologia moluscóide, surreal, cheia de ventosas, esfíncteres e baba pegajosa. 

No mundo de silício (onde seremos almas sem corpos, realizando por vias transversas a profecia de todas as religiões) seremos assaltados por pesadelos de imagens e palavras evocando essas texturas latejantes, úmidas, recheadas de vísceras.  Uma lembrança ancestral, reprimida, de um mundo centrado na alimentação, excreção e reprodução. Quando o fogo eletrônico incinerar nossos corpos, no futuro pós-orgânico, os pesadelos serão orgânicos, porque representarão o medo da regressão ao mundo onde se come e se é comido, onde se mata e se morre.  Os aliens, monstros híbridos de tigre e cthulhu, são a nossa herança para o futuro dos Sem Corpo.  Para que eles, também, não consigam dormir em paz.

sábado, 14 de julho de 2012

2923) Woody Guthrie, 100 anos (14.7.2012)




O Brasil comemora o centenário de Luiz Gonzaga, e fico imaginando que tipo de comemorações estará havendo nos EUA pelo centenário do Luiz Gonzaga deles, o grande Woody Guthrie.  

Assim como Gonzaga, foi um cara que viajou seu país de ponta a ponta, cantando a vida das pessoas simples nos campos de trabalho, nos sítios, nas praças, nas estações de rádio, nos comícios, nas festas.  

Gonzaga inventou o baião sintetizando elementos rítmicos, melódicos, instrumentais, poéticos.  Guthrie trabalhou dentro da canção folclórica de origem irlandesa ou escocesa, da música country tradicional, do forrozinho hillbilly que eles dançam até hoje, de um ou outro elemento negro do blues, das baladas em compasso ¾, e daquelas quilométricas canções narrativas em estrofes fechadas, que a canção em língua inglesa tanto aprecia. (E nós também – vide “Triste Partida”.)

Guthrie é menos conhecido pelas canções do que por ter sido o “poeta andarilho” que serviu de modelo a uma geração inteira de “trovadores hippies”: Bob Dylan, Phil Ochs, “Ramblin” Jack Elliott, etc.; e ter sido interpretado por David Carradine (o ator da série “Kung Fu”) no filme Esta terra é minha terra (1976), inspirado em sua autobiografia Bound for Glory (1943).  

Acho que há poucos CDs de Guthrie lançados no Brasil.  Nos tempos do vinil era ainda mais difícil encontrar alguma obra sua, e o que me salvou foram alguns elepês da biblioteca da ACBEU, na Vitória, no tempo em que eu morava em Salvador.

Ele foi o menestrel ambulante da América no tempo da Grande Depressão, pegando carona em trens, dormindo nos acampamentos dos sem-terra, metendo-se em agitações políticas.  No filme dylaniano Não estou lá, de Todd Haynes, seu nome é dado a um adolescente negro, fluente ao violão. 

Sua carreira de trovador brotou num ambiente idêntico ao de As Vinhas da Ira (livro de John Steinbeck, filme de John Ford).  Esquerdista por natureza, Guthrie escreveu em seu violão: “Esta máquina mata fascistas”, mas suas canções não são incendiárias, nem falam de revolução.  Em sua grande maioria são celebrações da vida simples das pessoas do interior (tal como em Luiz Gonzaga) e reafirmações da fé democrática fundamental dos norte-americanos.

Guthrie nasceu em 14 de julho de 1912 e morreu aos 55 anos, de uma doença nervosa degenerativa. Seu filho Arlo Guthrie é um dos grandes nomes do folk rock.  Sua obra continua a ser gravada e reverenciada, canções como “This land is your land”, “Pastures of Plenty”, “I ain’t got no home”, e seus numerosos “talkin’ blues”, aquele estilo de monólogo semi-cantarolado enquanto se rasqueia o violão, usado por Dylan, Arlo e tantos outros.










sexta-feira, 13 de julho de 2012

2922) Não dá pra ler tudo (13.7.2012)








O aumento exponencial de textos eletrônicos disponíveis e gratuitos causa uma euforia sem limites e um pessimismo sem volta. Centenas de milhares de livros, milhares de filmes, milhões de músicas!  Tudo ao alcance de um clique, de graça!  O único senão é o fato de que o dia continua tendo apenas 24 horas.  Nosso tempo de leitura é o mesmo de que dispunham os leitores do século 18, ou mesmo os leitores da Grécia Antiga (e mesmo eles certamente se queixavam de que “não dava pra ler tudo”).  Esse “não dá pra ler” é relativo, e não faz muita diferença. Digamos que eu conseguisse ler um livro por dia; seriam 30 livros por mês.  Se meu limite é esse, não faz muita diferença se estou deixando de ler 100 livros ou um milhão.  Leio trinta, e acabou-se.

A questão é: Que trinta?  Porque era mais fácil escolher trinta entre 100 do que trinta entre um milhão. Não teríamos desculpa para estar lendo algo a contragosto, porque teríamos acesso, se não a tudo, pelo menos a uma quantidade inesgotável de obras que de fato queremos ler.  Tem muitos leitores de bibliotecazinhas humildes do interior, mundo afora, que ficam relendo seus autores preferidos, ou avançando aos bocejos por entre obras que não lhes interessam, apenas porque não aparecem livros novos.

E como ter acesso a informações novas, a autores que ainda não conhecemos? Cory Doctorow (do saite BoingBoing) diz: “Twitter e blogs são a única maneira de administrar a enorme quantidade de material disponível. Sem isto, ninguém sairia de sua órbita de contatos sociais, ninguém trocaria idéias com os milhões de pessoas que conhecem outros milhões, os polinizadores que pegam uma informaçãozinha aqui e levam para acolá. Sem eles, a conversa morreria. Essas pessoas garantem que o que é realmente bom acabará chegando ao topo da pilha e ficando acessível”.

O dia continua tendo apenas 24 horas, mas por isso mesmo é preciso preenchê-las bem. O leitor não deve imaginar que os milhões de livros possíveis de ler já lhe pertencem, ou estão de alguma maneira a cobrar-lhe um posicionamento. O leitor deve se perguntar: Entre trabalho e outras atividades, hoje em terei meia hora para ler.  Ou duas horas, ou cinco, etc.  Vou preencher esse tempo com que?  Você não precisa ter um iPod com mil romances, basta ter um livro por perto, um livro que lhe interesse. (Tanto pode ser digital quanto de papel.) Se você pensar nos mil livros extraordinários que gostaria de ler, não vai sair do canto. Basta ter sempre coisas boas por perto, e todo dia pensar: vou ler o que?  O fato de haver 100 vezes mais títulos disponíveis não me obriga a ler 100 vezes mais, apenas me ajuda a escolher melhor.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

2921) Ciência vs. Fantasia (12.7.2012)



Nem sempre (ou melhor, quase nunca) é fácil traçar uma linha separando FC e fantasia, pelo modo peculiar como os elementos das duas sempre aparecem misturados. 

Arthur C. Clarke já afirmou que qualquer história onde se viaje mais rápido do que a luz é fantasia, e não FC, porque uma tal viagem é cientificamente impossível.

Há uma história de Ursula LeGuin (uma das primeiras que ela publicou) em que elementos dos dois gêneros estão misturados de um modo muito inteligente. 

“Semley’s Necklace” (1964) conta a história de um povo humanóide num planeta remoto, que tem uma civilização meio artesanal (suas armas são espadas, lanças, etc.), e que monta cavalos alados, uma espécie de “pégasos” naturais do planeta. Um mundo de fantasia heróica, por assim dizer. Semley é uma jovem que por uma série de motivos precisa reaver um precioso colar que foi subtraído do seu povo e levado para um museu em outro planeta. 

Ela viaja até a base dos colonizadores, e insiste tanto que eles a levam ao planeta onde a jóia foi guardada, prevenindo-a de que a viagem é longa mas vai durar apenas uma noite. Ela consegue a jóia de volta, mas quando retorna para sua aldeia descobre que não se passou um dia inteiro, mas nove anos. Seu marido morreu na guerra, e sua filha pequena é agora da mesma idade que ela.  

É um conto que contrapõe duas civilizações, uma “medieval” e a outra tecnológica, e mostra o choque cultural de uma pessoa ingênua ao se deparar com os efeitos relativísticos de um voo espacial.  Jamais passaria pela cabeça de Semley, em sua cultura, que uma viagem pudesse durar uma noite num lugar e nove anos em outro. A ciência vale inclusive para os que a desconhecem.

Um divertido filme de FC é Viagem Fantástica (1966) de Richard Fleischer.  Nele, um cientista tem um coágulo no cérebro que precisa ser operado; a única maneira de chegar lá é miniaturizando um submarino com uma equipe de médicos e injetando-o na corrente sanguínea do paciente, para que o veículo chegue até o cérebro e a operação possa ser feita.  

O filme impressiona até hoje pelos efeitos especiais, excelentes para a época, mas tem uma falha fundamental. Um submarino com sua tripulação, mesmo com seu tamanho diminuído para uma fração de milímetro, continuaria pesando as mesmas toneladas que pesa, porque sua massa continua sendo a mesma – apenas os espaços intra-atômicos foram reduzidos (mais ou menos como um livro sem espaços em branco mas com o texto completo gastaria a mesma tinta para ser impresso).  

O próprio Asimov, autor da novelização, teve que aceitar essa premissa obviamente anticientífica, e ela contamina de fantasia toda a narrativa subsequente.








quarta-feira, 11 de julho de 2012

2920) "Prometheus" (11.7.2012)








O novo filme de Ridley Scott parece iniciar uma fusão entre os dois clássicos que ele dirigiu na FC (Alien, o 8. passageiro, 1979, e Blade Runner, 1982).  Os filmes ocorrem em diferentes universos, oriundos de autores não relacionados um ao outro, mas que Scott parece querer botar esses universos embaixo da sua própria asa.  Em ambos os filmes existiam andróides (chamados “replicantes” em Blade Runner) e parece ser este o elo entre as duas linhas ficcionais.  Em Alien e Prometheus não vemos a Terra, a não ser em duas cenas curtas no início do segundo filme, cenas em lugares desertos, que nada nos mostram da realidade urbana desse futuro. Uma Terra capaz de gastar um trilhão de dólares mandando uma nave a um planeta distante, para que dois arqueólogos confirmem ou não sua tese sobre a origem de humanidade. Será a mesma Terra cuja Los Angeles em 2019 produzia  replicantes?

Se as histórias vão se mesclar através do enredo, contudo, é menos importante do que o fato de que se mesclam através da temática.  A expressão “encontrar o seu criador” (“to meet thy maker”), usada em Blade Runner, é retomada insistentemente neste filme, só que desta vez não são os replicantes que querem um tête-à-tête com o engenheiro que os criou (Tyrell, da Tyrell Corporation) e sim os humanos que descobrem (ou imaginam ter descobertos) indícios de que a humanidade foi criada por uma raça de Engenheiros que veio de outra parte da Galáxia.

Blade Runner já questionava a frieza com que os humanos tratavam os replicantes, frieza e insensibilidade dignas de qualquer andróide.  O David de Prometheus é um andróide que trata os humanos com a polidez impecável e desdenhosa de um mordomo inglês administrando uma família nobre mas disfuncional; mas a executiva de carne e osso interpretada por Charlize Theron não é mentalmente menos andróide do que ele.  Ela e David confirmam a frase de Philip K. Dick de que alguém que não se preocupa com o sofrimento de uma criatura viva é uma máquina, mesmo que seja uma criatura viva.

Prometheus deve elementos aos filmes já citados mas também a 2001 de Kubrick (sinais achados na Terra remetem expedição a um planeta distante) e a Missão: Marte de Brian de Palma (montanha oca, estatuária colossal, tempestade de areia, nave soterrada, fecundação dos oceanos terrestres com DNA alienígena). É o próprio DNA do gênero que Ridley Scott está mais uma vez dissecando e recombinando, e em termos de perfeição técnica e ousadia visual ele está mais próximo de Kubrick do que de De Palma.  Esta primeira metade da sua nova narrativa justifica a expectativa pela segunda.

terça-feira, 10 de julho de 2012

2919) Anderson x Sonnen (10.7.2012)








Sábado passado, a luta UFC 148, em que o brasileiro Anderson Silva derrotou o norte-americano Chael Sonnen no 2o. assalto, deu a bilheteria mais alta na história desse esporte: 7 milhões de dólares de ingressos, sem contar os lucros de patrocínio e de transmissões na TV aberta e em pay-per-view. A publicidade foi incrementada pelas entrevistas e declarações de Sonnen, que, derrotado na primeira luta, soltou o verbo contra o brasileiro (e contra o Brasil).  Nos dias antes da luta, falava-se: “Não vai ser uma luta, vai ser um massacre”, ou então “Não vai ser uma luta esportiva, vai ser uma briga entre dois caras que estão cheios de ódio um pelo outro”. 

Nem tanto.  Sonnen atacou mais no primeiro assalto e Anderson se defendeu com perfeição. No segundo foi a vez do brasileiro ir para cima e nocautear o outro.  Fez mais ou menos como seu time, o Corinthians, fez nos dois tempos contra o Boca Juniors semana passada.  No final, Anderson (que cultiva a imagem “bom rapaz”) puxou para perto de si um Sonnen contrafeito (ele cultiva a imagem “bad boy”), falando ao microfone que aquilo era apenas um esporte, que nada tinham um contra o outro, etc.

Temos milhões de anos de luta gravados em nosso DNA, e poucos séculos de esporte. O esporte é luta sublimada, esvaziada de raiva real, transformada num ritual simbólico onde se confrontam as respectivas habilidades (futebol, tênis, natação, basquete, tudo).  As lutas tipo box e luta-livre, no entanto, são esportes ainda perigosamente próximos da selvageria primitiva. Deslizam com facilidade para o terreno da raiva, do impulso matador, predador. 

E o público oscila entre as duas experiências. Uns (eu, por exemplo) querem o jogo, a luta violenta mas sem raiva, em que depois do fim os lutadores se abraçam, o perdedor parabeniza o vencedor, que por sua vez o elogia, e depois vão comer churrasco juntos. Mas existe uma parte do público a quem esse fingimento incomoda.  Eles querem briga de verdade.  Não querem essa “hipocrisia” de dois caras quebrando a cara do outro e depois dizendo-se amigos.  Querem ter certeza de que está acontecendo alguma coisa de verdade, de que aquela luta exprime um conflito real entre minha raça e a sua, meu país e o seu.

É como nos velhos tempos da Cantoria de Viola, quando o cantador-de-fora tentava humilhar o cantador-local dentro do seu reduto, e o outro tentava defender a honra de seu vilarejo. Quando Sonnen insultou o Brasil em suas entrevistas, estava tentando recuperar esse espírito de briga-de-verdade. Algumas pessoas (basta lembrar Mike Tyson) só brigam bem quando estão sentindo raiva.  Sonnen, pelo que foi visto, nem assim. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

2918) "Memorial de Aires" (9.7.2012)








É o que chamam de “o romance crepuscular de Machado”.  A viuvez do protagonista deste romance é a mesma do escritor, a viuvez sem filhos, que aliás é um dos temas centrais do livro, tanto quanto o amor entre dois jovens que (a julgar pelo narrador) parecem ter sido feitos um para o outro.  Reli agora esse livro, se é que o li todo aos vinte e poucos anos.  Dele só me lembrava que nele não acontece nada.  Aqueles chás contemplativos de fim de tarde entre uma porção de gente com cabelos brancos e roupas pretas européias.  O mundo descrito por um introspectivo. E os personagens realistas de Machado mantêm pelo menos um elo em comum com os personagens de folhetim: parecem amarrados a um destino de ferro.  Os personagens do melodrama eram pessoas desesperadas que veem a vida ser destruída por forças que elas não conseguem sequer imaginar; os personagens realistas veem sua vida destruídas por eles mesmos.  Profetizam, contemplam, descrevem, choram, celebram, rememoram a própria destruição.  Mas não a evitam.  Estava escrito.

A expressão “estava escrito” sugere a imagem de algo gravado com cinzel no mármore ou escrito a laser no metal.  Comparada à palavra falada, a palavra escrita parece ter um peso de infalibilidade.  O Memorial, que é um diário mantido pelo Conselheiro Aires entre 1888 e 1889, é o contrário da palavra impressa.  Mal nos dá conta do que acontece no país, quanto mais no mundo.  O Conselheiro, diplomata aposentado, sexagenário, sujeito caladão e observador, vem a conhecer uma jovem viúva, e fica meio balançado para o lado dela.  Aproxima-se dela, que é meio filha adotiva de um casal idoso e sem filhos, os Aguiar.  O Conselheiro escreve comentando que sabe que após sua morte alguém vai ler aquelas páginas. Conta-nos a história de como um outro meio filho adotivo dos Aguiar, o jovem Tristão, voltou de Portugal (onde morava há muitos anos).  Tristão e Fidélia (a jovem viúva) são o casal de filhos quie os Aguiar nunca tiveram. O Conselheiro frequenta os saraus, conversa, ouve os jovens tocando piano, e de volta a casa lamenta não ser músico. Seu espetáculo é aquele casal que parece se aproximar por uma fatalidade simétrica do destino humano.

Há algum reflexo biográfico em três casais: os Aguiar, os jovens Tristão e Fidélia, e o narrador e sua irmã Maria Rita.  Machado tinha enviuvado há poucos anos, e não acho que teve irmã.  Maria Rita é meio fofoqueira, é um pouco a irmã do Dr. Shepard, o narrador não confiável de O assassinato de Roger Ackroyd (1926) de Agatha Christie.  Brás Cubas, Dom Casmurro, Aires: todos três parecem corresponder a um arquétipo oracular que um escritor produz para si próprio, o da velhice a sós.

domingo, 8 de julho de 2012

2917) O poeta Ronaldo (8.7.2012)








Ronaldo Cunha Lima foi de uma geração de poetas boêmios, uns com um pé na advocacia, outros com um pé no jornalismo, todos com um olho na política.  Uma geração que incluiu Palmeira Guimarães, Raimundo Asfora, Orlando Tejo...  Eu os conheci primeiro pelas histórias contadas por meu pai, poeta boêmio de uma geração mais velha, que via essa rapaziada com admiração e bom humor.  O poeta boêmio é aquele que não escreve pensando na Literatura Brasileira, escreve para si mesmo e para as pessoas que o cercam.  A poesia é reflexo da vida, parte da vida, não tem sentido se lida em separado. 

Esses poetas faziam sonetos impecáveis em cinco minutos, pegando como deixa uma frase que alguém soltou na mesa do restaurante. Neste sentido, se assemelham ao cantador repentista.  Essa geração que nomeei acima conviveu muito com os repentistas, porque a escada que dava acesso à Rádio Borborema ficava entre o Café São Braz e a Sorveteria Flórida, numa cidade que não existe mais, ou que a cada dia existe menos.

Depois de adulto, eu próprio passei a conviver com Ronaldo, que, longe da política (era um ex-prefeito cassado) vivia no Rio de Janeiro, advogando, e doido por um pretexto para vir passar uns dias em Campina Grande.  Esse pretexto, da minha parte, foi o Congresso de Violeiros, em cuja organização eu trabalhava, e onde Ronaldo várias vezes fez parte do júri ou da comissão de seleção de assuntos, a convite nosso.  Fornecia motes românticos, apaixonados, falando de amor e saudade, e que quando caíam no sorteio para uma dupla bem inspirada induziam glosas de grande popularidade junto à platéia feminina.

A política chamou o boêmio de volta. A política é um destino grego ao qual não se desobedece. O que mais marcou as campanhas de Ronaldo, e que vive até hoje na memória dos que as assistiram, foram seus discursos em redondilha, naqueles versos simples de rimas exatas que o povo reconhece tão prontamente, porque faz parte de nossa memória cultural. Improvisador fluente, familiarizado com os truques dos repentistas, Ronaldo era capaz de versificar a propósito de tudo que estivesse ao alcance do olho: o garçon que demorava, a gravata torta de Fulano, o uísque com gelo demais, a TV ligada, o casal na mesa vizinha.

Augusto dos Anjos foi o poeta que marcou sua carreira.  Bastava abrir o livro ao acaso e ler uma linha qualquer: Ronaldo dizia de imediato as linhas seguintes.  Isto lhe valeu a fama num programa de TV e provavelmente o fez ganhar um sem-número de apostas.  A aposta maior, claro, era fazer da poesia o bálsamo em cada purgatório, o salva-vidas em todo naufrágio, o brinde em cada triunfo, e o espelho na manhã seguinte.

sábado, 7 de julho de 2012

2916) Marte Um (7.7.2012)








Um grupo de holandeses malucos está tentando criar um projeto espacial mais ousado do que o das sondas marcianas e da estação espacial.  A idéia é mandar para Marte uma expedição tripulada, que lá deverá construir uma base, onde todos eles habitarão até o fim de suas vidas, sabendo que sua volta à Terra não está prevista. Tudo que lhes acontecer no outro planeta será visto como um reality show por países da Terra inteira. Pensa-se de início num custo de 6 bilhões de dólares, que, comparados às cifras das primeiras páginas dos jornais de hoje, são até uma soma modestíssima.

O dono do projeto é Bas Lansdorp, de 35 anos, dono de uma companhia de energia eólia. Ele ainda está em busca de patrocinadores para o projeto, que se chama “Mars One”. A idéia é treinar os astronautas durante dez anos, e mandá-los para Marte em 2023. Será arriscado?  Será desumano? Será lucrativo? Só se sabe fazendo, assim como (admite Lansdorp) o treinamento não pode se comparar, ainda mais no aspecto psicológico, ao indivíduo vivendo uma situação “agora é pra valer”. 

Luís Buñuel pensou numa possibilidade parecida. Comentando o misterioso enclausuramento dos comensais em O Anjo Exterminador, ele disse que o filme dele não pode se comparar nem ao famoso quadro de Géricault A Jangada da Medusa (náufragos amontoados numa balsa) nem a “um filme de ficção científica sobre quinze astronautas numa espaçonave perdida pelo espaço”.  Porque o que distingue essas histórias é que os personagens estão fisicamente impedidos de escapar, mas no filme de Buñuel nada os impede, além das coisas que pensam; sua barreira é mental.  Em Marte, será física.

Talvez o projeto de Lansdorp tenha um aspecto buñuelesco. O mundo (este mundo) está preso numa sala de visitas, num coquetel ou jantar-de-gala interminável, enquanto a cozinha pega fogo, os quartos se deterioram, e o mato bravo toma conta do jardim. Como na festa dos burgueses em L’Âge d’Or, em que uma carroça de camponeses bêbados cruza o salão de baile, sem que ninguém dê o braço a torcer percebendo-a, continuamos em plena Ilha Fiscal. Só falta mesmo é criar um reality show interplanetário, uma mistura do Show de Truman com Robinson Crusoe em Marte.

Nada impede, também, que o reality vire, sei lá, uma série policial. Digamos que um dos “marcianos” enlouqueça e, mostrado pelas câmaras para toda a Terra, mas não para a Base, a história se tornará um mistério policial, tipo “dez negrinhos” morrendo em contagem regressiva. Uma espécie de thriller de suspense onde um bilhão de espectadores, impotentes para interferir, verão o criminoso executando os colegas um por um, sem que ninguém possa avisá-los.