sábado, 9 de junho de 2012

2892) Santuário (9.6.2012)


Matei três deles em combate leal, mas minha arma se partiu e o último conseguiu me derrubar, já exausto.  Quando voltei a mim estava com os braços amarrados às costas, enquanto ele me  puxava por uma corda, encosta acima, até a cratera. “Não quis ofender ninguém”, falei, mais uma vez, achando que não entendiam meu modo de pronunciar sua língua. “Não sabia que era um Santuário”.  Ele parou, recolheu a corda com rapidez, fazendo-me cambalear na sua direção, e me esbofeteou várias vezes. Era um homem enorme, e apesar de idoso devia ser muito mais forte do que eu. 

Continuamos subindo. Eu sabia onde estava. Tinha a idade em que a curiosidade satisfeita produz um intenso prazer, como se o simples fato de ter previsto uma coisa e ela de fato acontecer me transformasse numa espécie de Deus.  “Ouvi dizer que são eternos, que nunca morrem”, falei. “Não”, disse ele, e continuou, num tom de quem aceita algo sem compreendê-lo: “São como nós, só que seu arco de existência é muito mais amplo. Sua infância é longa, e sua velhice também. Assim como durante alguns anos nós precisamos ser protegidos de tudo, eles precisam de proteção durante alguns séculos, até se tornarem o que são.” 

Uma criatura com infância interminável, exposta, sujeita a ataques.  Isso não tornaria inteligente qualquer espécie?  Não é de admirar que quando ficam prontos nos pareçam onipotentes, avassaladores.  Uma criatura capaz de avaliar situações corretamente, prevenir-se, proteger-se.  Mas quando infantes não podem se proteger dos que além de inteligentes são curiosos, e além de curiosos são cruéis.  Eu não estava ali para constatar sua existência, que já era sabida.  Estava ali para matar um deles e levá-lo comigo, para provar que eram mortais como nós, que podiam ser observados, compreendidos, combatidos, derrotados.  Para mostrar que nenhum inimigo é um Deus.

O homem finalmente se deteve.  Sentou numa pedra à beira de um barranco e me puxou. Parei ao seu lado. A pedra da montanha se lascava bruscamente e descia, centenas de passos, numa face lisa e abrupta. Olhei para a cratera e vi aquela massa pulsante. A cavidade era feita de um calcário amarelado, e as formas pegajosas se aglomeravam em alguns pontos dela, como caroços numa romã. Arrastavam-se tateando, fugindo ao sol que reluzia em suas mucosas expostas, aninhavam-se uns aos outros para se proteger, cegos sob aquela luz.  Não eram dragões. Eram as criaturas vistas pelos primeiros que usaram essa palavra. Meu captor arrastou-me até um trecho, creio que a sudoeste. Abaixo, um manancial que escorria da rocha produzia um lodo espesso onde umas cem criaturas flutuavam. Ali ele me atirou.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

2891) Ray Bradbury 1920-2012 (8.6.2012)




(ilustração: John Sherffius)

Ray Bradbury escrevia bonito, e muitos leitores (e críticos) da FC dos anos 1950 se impacientavam ao perceber que ao invés de avançarem rapidamente pelo livro, virando página por página, estavam se detendo para reler e saborear um parágrafo especialmente rico em nuances de significado, inversões sintáticas, visualizações inesperadas, forte apelo sensorial.  Ele foi um dos primeiros estilistas da FC nos anos 1950, juntamente com Theodore Sturgeon, Cordwainer Smith e outros que não tiveram medo de escrever FC numa linguagem “poética”, esse terrível adjetivo que para muito escritor é o “beijo da morte”.

O estilo poético proporcionou a Bradbury, que começara sua carreira nas revistas mais baratas de “pulp fiction”, a chance de publicar nas revistas chiques dos EUA, revistas que pagavam bem e serviam como vitrine diante da “intelligentzia” literária.  Com isto ele abriu duas frentes de leitores, simultâneas – os intelectuais que liam “Collier’s” ou “The Saturday Evening Post”, e a rapaziada da FC que lia pulp magazines como “Planet Stories” e “Astounding Science Fiction”.  Manter e unir esses dois públicos foi uma das muitas façanhas desse autor que sempre soube assegurar a ampliação e manutenção do seu contingente de leitores: foi roteirista de Hollywood (“Moby Dick”, de John Huston), teve dezenas de histórias adaptadas para a TV e os quadrinhos, e escreveu numerosas peças de teatro.

Quando Mikhail Gorbachev visitou os EUA e foi recebido por Reagan na Casa Branca, os únicos convidados cujo nome ele indicou pessoalmente foram Ray Bradbury e Isaac Asimov, com a explicação: “São os autores norte-americanos mais conhecidos e mais amados na URSS, e os favoritos da minha filha”.  A FC tem esse espírito eliminador de fronteiras geográficas e políticas. 

Assim como Asimov, Bradbury não dirigia automóvel e tinha medo de avião. Melhor para nós, porque cada vez que ele ficava em casa escrevia um conto como “O pedestre”, “Um som de trovão”, “Encontro noturno”, “O anão”, “A terceira expedição”...  Como escritor de FC, Bradbury sempre teve uma atitude crítica contra a tecnologia, a mecanização, a cultura de massas. Seu romance mais famoso, “Fahrenheit 451”, é um terrível panfleto contra uma sociedade dominada pela propaganda e por “reality shows”. “As crônicas marcianas” não são a história de um triunfo, mas de uma colonização brutal, em que os terrestres destroem impiedosamente a civilização marciana.  Seu temperamento sentia-se talvez mais à vontade na fantasia tenebrosa (“dark fantasy”) onde ele foi o mestre de uma mistura peculiar entre o lirismo, o fantástico, o terror e o humor. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

2890) Ganhando a vida (7.6.2012)





Dias atrás fui ao cinema e na saída encontrei uns conhecidos que não via há tempos.  Fomos tomar um chope ali perto, falamos de cinema (ou melhor, de como todo filme de Woody Allen parece uma continuação do filme anterior, só que com outros personagens), de futebol (e concordamos que nossos julgamentos sobre um clube de futebol dependem mais do resultado do último domingo do que de um século inteiro de altos e baixos), de política (concordei diplomaticamente com todos os absurdos que ouvi) e finalmente de dinheiro.  Cada um se queixou das dificuldades econômicas do país, e cada um descreveu como estava se virando.

Romualdo, por exemplo, revelou que vive de ser fiador.  Como assim?, perguntei.  Ele explicou que os pais, precavidos, botaram no nome dele a casa que possuem.  Como no Rio a procura por fiadores que possuam imóvel é grande, ele virou fiador-de-aluguel para amigos e conhecidos, cobrando a “uma agenda” de gente uma quantia mensal que vai de 100 a 200 reais, conforme o valor. “Todos pagam”, disse ele, explicando ainda que para quem consegue um bom apartamento na Zona Sul tanto faz pagar 2.500 como 2.600 reais por mês.  E a inadimplência?, perguntei.  Ele deu de ombros e afirmou que tinha uma “reserva técnica” que até então não fora necessária.

Valdir, que tem vinte e poucos anos, ganha a vida como ressuscitador de dados.  Como assim?, perguntei.  Ele explicou que uma das coisas mais comuns hoje em dia é gente que tem arquivos importantes (orçamentos familiares, diários, relatos de viagens, TCCs e teses de mestrado, etc.) gravados em mídias que a maioria dos computadores de hoje não lê mais, como os famosos “floppy disks”, os disquetes de 3.5”, CDs gravados com softwares meio defasados (Wordstar... WordPerfect...) e assim por diante.  Como o sogro dele trabalha na “oficina digital” (setor de consertos) de uma grande empresa, ele tem acesso a variados de tipos de computadores 286, 486 e outras mídias jurássicas.  E na maior parte dos casos consegue recuperar os dados perdidos, atualizar seu formato e transferi-los para um pendraive ou outra engenhoca moderníssima.  “Tendo a certeza absoluta”, diz ele, “que daqui a 10 anos a mesma pessoa me virá com o pendraive pedindo-me que transfira os dados para a interface bioquântica que ela mandou implantar no cérebro”.

Um grande financista disse uma vez que onde existir uma necessidade humana existirá uma oportunidade para se ganhar dinheiro. Uma sociedade cada vez mais complexa aumenta exponencialmente essas oportunidades. Por que me maravilho com isto?  Talvez porque eu ganho a vida exatamente como milhões de pessoas ganhavam cem, duzentos anos atrás.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

2889) O repórter robô (6.6.2012)


(ilustração: Mark Allen Miller)



Sempre me perguntam como consigo redigir um artigo por dia. Mal sabem que recorro aos serviços da Narrative Science, empresa de Chicago (http://www.narrativescience.com/) cujos softwares redigem matérias jornalísticas a partir de bancos de dados. Os programas da NS já conseguem produzir relatos sucintos e precisos de 10 ou 15 linhas sobre jogos de beisebol da Little League norte-americana (uma espécie de campeonato nacional de juniôres, como se diz aqui). Segundo a revista Wired de maio, na matéria “The Rise of the Robot Reporter” (http://bit.ly/JXNvKq), a história começou em 2009, com um software simples: “Eles colocaram os dados, o placar e um resumo minuto-a-minuto, e em 12 segundos o programa citou exemplos de 40 anos da Liga Profissional, redigiu uma sinopse da partida, escolheu a melhor foto e escreveu a legenda”. A equipe de 30 pessoas da NS conta com “meta-escritores” que produzem os templates de texto, ou seja, as frases a serem usadas para exprimir as ocorrências do jogo, depois dos dados serem interpretados.

Diz Steven Levy, autor da matéria, que softwares desse tipo podem extrair significado de quantidades gigantescas de dados; finanças e esportes são duas áreas especialmente propícias para isto. Há muito otimismo na empresa, para quem “qualquer pessoa que precise verbalizar e explicar grandes quantidades de dados pode se beneficiar deste serviço. (...) Há muita gente disposta a pagar para converter todas aquelas informações confusas em alguns parágrafos legíveis que ressaltem os pontos principais”. Outras empresas estão entrando neste ramo ainda recente, como a Automated Insights (ex-Stat Sheets) da Carolina do Norte.  O custo de produzir esse tipo de informação é tão baixo que torna-se rentável até mesmo redigir relatórios específicos para um único cliente.

A NS pensa em ampliar seus serviços até para áreas de lazer como os videogames, produzindo, p. ex., sinopses de sessões de World of Warcraft, cujos jogadores teriam acesso a um resumo detalhado do jogo, uma narrativa que soaria como se um jornalista os tivesse acompanhado ao longo da aventura. David Rosenblatt, na NS, diz: “A Internet gera mais estatísticas do que qualquer outra coisa que já tenhamos visto, e a nossa companhia se dedica a transformar estatísticas em palavras”. O artigo de Levy considera que algoritmos e repórteres poderão trabalhar lado a lado no futuro, seja com os computadores interpretando dados e pessoas redigindo os textos finais, seja com repórteres humanos entrevistando pessoas e formalizando os dados que depois serão transformados em textos pelos softwares. As possibilidades, como sempre, são infinitas.

terça-feira, 5 de junho de 2012

2888) "Game of Thrones 2" (5.6.2012)




A temporada 2 de Game of Thrones encerrou-se com dois episódios bem diferentes. O 9, “Blackwater”, mostrou o cerco de King’s Landing pela esquadra de Stannis Baratheon: a aproximação dos navios, a batalha em mar, a batalha em terra, o triunfo final dos defensores.  Obedecendo a uma unidade de tempo e de espaço que acho ser rara em séries desse tipo, o episódio se pareceu mais com um filme do que com uma série (e a gente diz isso como antigamente dizia: “nesse momento, o filme fica parecendo uma peça teatral”).  No episódio 10, “Valar Morghulis”, a ação voltou a se multiplicar pelas várias aventuras simultâneas. Gente caiu e gente subiu ao poder. Longe dali, pouca gente se importava.

Duas das histórias secundárias ganharam força, e acabam sendo duas investidas de dois gêneros diferentes contra um terceiro que está no poder.  Game of Thrones é uma fantasia heróica de configuração medieval, como as obras de Tolkien e tantas outras. É fantasia no sentido de que decorre num mundo imaginário onde não existem as nações da Terra, as religiões da Terra, as referências da Terra. Dentro dessa estrutura, deverão ganhar força na temporada do ano que vem duas “invasões genéricas”: a espada-e-feitiçaria através de Daenerys, a lourinha dos dragões; e o horror através dos Caminhantes Brancos, os zumbis de além-Muralha.

O seriado tem personagens que na tela, mesmo talvez não tão bem esmiuçados quanto no livro, parecem plausíveis e às vezes surpreendentes, pela malícia do seu pensamento e pela ocasional nobreza de suas ações. A intriga cortesã e todo o xadrez das traições políticas são bem armados, embora alguns personagens ainda sejam muito de-uma-nota-só.  O anão Thyrion perdeu poder mas ganhou respeito entre as tropas, o que nas histórias de conspirações militares sempre ajuda. Robb Stark, o imperador do Norte, tinha provado ser melhor general do que se esperava, e agora vai ter que provar que é marido. A guerreira Brienne está conduzindo Jaime Lannister, numa situação meio sargento-getúlio, rumo a um destino ignorado, porque antes disso pode um matar o outro, ou podem acabar se casando. Os dragões de Daenerys virão aquecer uma possível situação de calmaria, assim que Lannisters, Greyjoys, Starks etc. consigam um naco suficiente do que estão querendo; aí, sai a parafernália Tolkien e entra a de Anne McCaffrey.  A menina Arya viverá mais aventuras dickensianas nas senzalas dos castelos, antes de empunhar a espada e abrir caminho até o rei Joffrey.  E vem por aí uma ameaça de além da Muralha, que vai mostrar um problema de verdade e a enorme infantilidade e irrelevância do jogo dos tronos e do choque dos reis.

domingo, 3 de junho de 2012

2887) Uma xícara de café (3.6.2012)




Sempre que alguém me pergunta coisas positivas (“Como você se mantém tão jovem?”, “Como você consegue escrever um artigo por dia?”, etc.) dou sempre a mesma resposta: “Café”.  É bem verdade que respondo o mesmo quando me perguntam se sou viciado em alguma droga, porque de todas as drogas que já experimentei o café é a única que preciso tomar diariamente para não me transformar num bagaço de ser humano, desorientado e trêmulo.  Meio litro por dia, no mínimo; às vezes um litro inteiro.  Faz bem.  Tonifica, energiza, dá um upgrade nos neurônios e uma sacudidela no sistema neuro-vegetativo.  Com algumas ressalvas.  O café não pode ser muito forte: um “espresso” pequeno, desses que a gente toma no balcão, equivale a uma xícara grande das que faço em casa.  Para ser tomado quantitativamente, o dia inteiro, o café precisa ser um pouco diluído.  Se eu tomar 2 ou 3 espressos ao longo de uma hora, a sensação é de gastura e sobrecarga.

Tudo isto me vem à mente quando descubro, através do inestimável saite BoingBoing, um estudo (http://bit.ly/JkGKav) publicado neste mês de maio no “New England Journal of Medicine”, assinado por cinco cientistas, sendo quatro deles PhDs. (Como o leitor sabe, artigo científico é como samba-enredo de Escola, nunca tem menos de quatro autores). O artigo se intitula “Association of Coffee Drinking with Total and Cause-Specific Mortality”.  Trocado em miúdos, ele informa que foram estudados entre 1995 e 2008, nos Institutos Nacionais de Saúde (imagino que seja algo como o INSS de lá) um total de 229.119 homens e 173.141 mulheres na faixa etária de 50 a 71 anos, sendo excluídos do exame pacientes que já tivessem doenças mais graves como câncer, doenças cardíacas e derrames cerebrais.

Os pesquisadores estabeleceram critérios para avaliar riscos de mortalidade (por exemplo, pacientes mais velhos, ou que fumavam, foram classificados como de maior risco).  E descobriram uma relação inversa entre o consumo de café e a mortalidade, tanto a mortalidade por causas específicas (cardíacas, respiratórias, ferimentos e acidentes, diabetes e infecções, menos por câncer) quanto a mortalidade em geral, incluindo todas as causas.  Os cientistas concluem: “O consumo do café apresentou uma relação inversa com a mortalidade total e a mortalidade por causas específicas.  Se isto é uma relação causa-e-efeito ou apenas de ordem associacional, não pôde ser determinado pelos nossos dados”.  Com tantas más notícias que a TV vive nos dando, mostrando que tudo faz mal, não custa nada comemorar esta, não é mesmo?  Adivinha o que eu vou fazer agora.

sábado, 2 de junho de 2012

2886) "Zero History" (2.6.2012)



(foto: hdesbois)

Nos últimos dez anos recrudesceu a discussão sobre a posição dos romances recentes de William Gibson dentro da ficção científica.  Depois de duas trilogias futuristas, Gibson mergulhou num mundo que é visivelmente equivalente ao nosso, sem futurismo, sem elementos fantásticos, sem nada que viole as leis da natureza ou que nos transporte para um mundo diferente.  Isto é FC, se a definirmos como “a literatura que enfoca as mudanças produzidas em nossa vida pela ciência e pela tecnologia”. Uma definição incompleta, claro, mas que serviu para muitos autores clássicos e deve servir também para o “poeta noir do ciberespaço”. O qual, meio a sério, meio brincando, já disse que seus livros eram FC porque a ação transcorria “cinco minutos no futuro”.

Se é assim, “Zero History” (2010) deve ser o primeiro livro na história da FC que tem como tema central a fabricação de jeans. Só que não é um jeans comum.  Os personagens do livro vivem caçando uma marca “cult” de jeans, “Gabriel Hounds”. São calças, casacos, etc., fabricados não se sabe por quem, comercializados de maneira artesanal, sem divulgação, usando táticas quase de guerrilha. Neste sentido, assemelha-se ao “McGuffin” usado por Gibson em “Reconhecimento de Padrões” (2003): um filme misterioso feito não se sabe por quem e distribuído de forma anônima e clandestina pela Internet.

O que torna especiais os Gabriel Hounds?  Além do fato de serem tecnicamente impecáveis, eles são algo que têm personalidade própria pelo simples fato de não estarem carregados de personalidade alheia, de não parecerem com nada.  Diz alguém: “É uma questão de atemporalidade.  Uma questão de pular fora da industrialização da novidade.  Algo que vai num código mais profundo”.  Essa novidade às avessas, esse paradoxo zen, se assemelha a “The Footage”, o filme “cult” do outro romance, que fascina a protagonista Cayce Pollard porque é algo que não tem marca, não tem logo, não tem ferro em brasa marcando, não tem assinatura, não tem local, não tem data.  O contrário da moda e da publicidade.

OK, não há alienígenas nem espaçonaves, mas o que Gibson faz é uma ciência do presente, uma ciência da cultura, da percepção, dos universos simbólicos que criamos e que nos manipulam de volta. Dentro da Mídia Ambiente que nos impede de ter idéias próprias (podemos apenas reagir às idéias dela), os Gabriel Hounds e a Footage são o inominável, um produto da cultura (ambos exibem técnica impecável) mas que não foi apropriado pela Hidra de Dez Milhões de Cabeças.  Eles exprimem não só uma possibilidade de linguagem pré-Babel, mas de uma literatura que não tenha gênero, rótulo, griffe, etiqueta costurada.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

2885) A cela solitária (1.6.2012)



(foto: James Nizam)


Minha cela mede menos de dez metros quadrados. É tão pequena que a conheço de cor; é tão grande que a cada dia que passa conheço-a um pouco mais.  

Dentro dela existe apenas o bloco retangular de cimento em que durmo, um bloco maciço, sem espaços ocos onde eu possa guardar... o que?  Veneno?  Um rádio transmissor?  Uma metralhadora? Uma caneta, um caderno?  O que imaginam eles que um homem trancafiado pelo resto da vida é capaz de guardar, se lhe derem um lugar onde fazê-lo?

O colchonete de espuma é trocado quase diariamente (quase: não são tão organizados quanto imaginam ser), não para meu conforto, mas para evitar que eu... que eu o quê? Arranque pedaços dele, coma-os para me suicidar por engasgamento?  Que eu escreva nele uma mensagem com tinta invisível?  

Sou um homem de 77 anos, de mãos vazias e pés descalços.  Eles não sabem o que sou capaz de fazer, e trocam os colchonetes.

Minha refeição é enfiada pela portinhola rente ao chão: um prato e uma caneca sem asas, ambos de alumínio, sem talheres.  

Tenho que comer com as mãos (que limpo depois na roupa – trocada duas vezes por semana). Quando há galinha, vem desossada.  Para que eu não degole com a simples lasca de um osso as duplas de carcereiros que se revezam à porta de ferro?  Quem sabe?

Escrevo.  Como escreviam os poetas de milênios atrás: escrevo mentalmente, contando-me histórias, reconstituindo minha vida e as batalhas que travei, celebrando a pele e o perfume das mulheres sequiosas que me amaram.  

Aperfeiçoo o passado e celebro o futuro.  Concebo e aplico novos esquemas métricos, novas simetrias da rima.  Componho epopéias com tamanha intensidade que algum espírito (não duvido) sonhará com elas um dia e, sem as entender, as confiará finalmente ao papel.

Cuido do planeta como uma mulher cuida de sua própria casa: tentando entender suas necessidades e desejos.  

Ao longo dos anos, um paralelogramo de luz, projetado pela janela gradeada e inacessível, se desloca e se deforma ao percorrer as paredes.  Fui marcando os seus pontos mais altos e mais baixos, o extremo a que chega no fim de cada solstício, antes de retroceder rumo ao extremo oposto. 

Fiz isto com marcas de unhas, sutis, que parecem pequenos pedaços descascados na tinta, por acaso.  Só eu enxergo e reconheço a área por eles delimitada. Se meus carcereiros percebessem o que quer dizer, apagariam tudo, raspariam a tinta, pintariam de novo, mesmo sem saber o significado daquilo.  

“Por precaução”, diriam eles. Eu afirmo que o fazem por medo, esse enorme medo que nasce da ignorância e da insegurança de qualquer milhão de homens quando enfrentam um único homem que são incapazes de compreender.






quinta-feira, 31 de maio de 2012

2884) O primeiro filme (31.5.2012)



O nosso mestre João Batista de Brito relembra, em sua coluna no Contraponto, o primeiro filme que viu na vida - na verdade, um episódio do seriado A mulher tigre. E pergunta aos leitores: Qual o seu primeiro filme?  

Difícil responder. Não lembro “um” filme.  Tenho uma meia dúzia de títulos que guardo na memória como “experiências fundadoras”, como diz o pessoal da psicanálise. 

Um dos mais antigos é O Mundo em Perigo (“Them!”) de Gordon Douglas, história de formigas gigantes que raptam duas crianças. Me identifiquei com elas, e lembro ainda hoje a sensação de repulsa ao vê-las escondidas no meio das larvas do formigueiro.



Houve também o King Kong original, que vi no Cine Avenida, levado por Maria de Severina, que era uma espécie de governanta, cozinheira e faz-tudo lá em casa.  O gorila e os dinossauros me impressionaram, mas não tanto quanto a primeira imagem da ilha, na chegada do barco, quando vemos aquela muralha imensa, e o capitão comenta que ninguém sabe quem a construiu, ou o que existe por trás dela.  



Teve também O Ladrão de Bagdá com Sabu (dirigido por Alexander Korda), cujos efeitos especiais ainda hoje são notáveis; apropriei-me de algumas de suas imagens para o meu romance árabe, A Máquina Voadora

Outro que nunca esqueci foi O escudo negro, com Robert Taylor, filme ambientado na Guerra dos Cem Anos e que durante muito tempo me fez ser fã dos ingleses e detestar os franceses.  Havia também os seriados, e o mais antigo que me lembro era A Sombra do Escorpião, uma daquelas séries escuras e fragmentadas de estúdios como a Republic.  E os onipresentes faroestes. 



Mais do que filmes específicos, no entanto, o que continua latente em minha memória é o conjunto de impressões sensoriais dos filmes daquele tempo. Zapeando na TV, vejo um faroeste besta dos anos 1950: paro, fico assistindo durante 10 minutos só para saborear aquele granulado de imagem P&B ou aquelas cores meio pintadas. A música, sempre uma orquestra que parece estar tocando no estúdio ao lado, meio distante, meio abafada mesmo quando estridente. Barulho de porta, barulho de tiro, motor de foguete, zumbido de raio desintegrador... tudo é diferente. 

São coisas muito específicas e que não existem mais, e toda vez que as escuto ou enxergo elas fazem ressurgir o menino intacto dentro de mim. Cada instante que vivemos pode ser evocado integralmente e se impor ao presente, desde que a gente produza os estímulos certos, forneça as senhas. O passado é uma janela que não se fechou, foi apenas minimizada e precisa somente de um clique para se abrir de novo, em sua glória rudimentar, com uma voz gritando “aiô, Silver!”.






quarta-feira, 30 de maio de 2012

2883) A lei de Yog (30.5.2012)


 

A lei de Yog foi formulada por James D. MacDonald, e obteve seu nome a partir de Yog-Sothoth, um dos mais terrificantes e ominosos seres do panteão de Divindades Diabólicas criado por H. P. Lovecraft.  A Lei de Yog consiste em apenas uma premissa: “O dinheiro flui na direção do escritor”.  E é de uma grande importância num contexto em que alguns editores e agentes “espertos” faturam grana às custas de escritores inéditos e ansiosos, para quem seria um presente do céu ver seu nome na capa de um livro de verdade ou seu conto numa antologia. (Eu sou macaco velho, publico há 40 anos, e garanto que essa emoção nunca se esgota.)

Existe uma expressão em inglês para a qual não temos equivalente: “vanity press”, que seria algo como Edições Vaidade.  É quando um sujeito tem tanta vontade de ser escritor (ou melhor: de ser considerado escritor) que acaba publicando às suas próprias custas as coisas que escreve.  Muita gente faz isso, e não há nada desonroso nessa prática. Os grandes poetas brasileiros, por exemplo (Manuel Bandeira, Drummond, etc.), publicaram seus primeiros livros pelas Edições Vaidade, em tiragens de 200 ou 300 exemplares que eram quase totalmente distribuídas entre parentes, amigos e colegas de repartição. Acontece que há gente que descobre esse filão e resolve ganhar dinheiro com ele. Talvez o melhor retrato literário desse tipo de golpe seja o de Umberto Eco em O Pêndulo de Foucault, em que uns espertalhões enchem o bolso de grana às custas daqueles nobres italianos doidos para posar de literatos, que gastam tudo que têm para publicar seus volumes de poemas ou suas crônicas de família.  

Onde entra a lei de Yog?  Ela diz que isto está errado, e que a atividade editorial honesta é uma em que o editor entra com a grana e o autor com o texto; e o dinheiro (a percentagem previamente combinada, em geral 10% do preço de capa) flui na direção do autor. Qualquer esquema que exija desembolso de grana por parte do autor (diz ele) tem alguma coisa errada. Há pessoas que cobram para avaliar originais, cobram para sugerir mudanças, cobram para levar o livro a uma editora... Há também a figura do agente literário, que recebe uma percentagem dos direitos do autor para representá-lo.  Como em tudo no mundo, há os bons e os maus agentes. Há agentes que praticamente criam uma carreira profissional para um autor, e agentes que sanguessugam seu dinheiro, fazendo promessas intermináveis que nunca são cumpridas.  Quem se comporta assim está indo de encontro à Lei de Yog, e automaticamente se candidata a uma visita noturna de Yog-Sothoth, que o conduzirá à caverna submarina onde há choro e ranger de dentes.