terça-feira, 19 de maio de 2015

3817) "O Monstro das Sete Bocas" (19.5.2015)




Inventar uma história que ninguém nunca contou é a ambição de muitos escritores. Não direi que é impossível; mas é como inventar uma posição sexual que nunca foi tentada.  Se o cara conseguir, tem seu mérito, claro, mas estamos falando de duas atividades (literatura e sexo) onde a fruição importa mais do que originalidade. O objetivo da literatura é enriquecer o mundo mental do leitor, e não fazer o autor subir no ranking do que dá para medir.



Fui criado numa casa onde se contavam muitas histórias, e dos quatro filhos dos meus pais pelo menos dois foram inoculados com o vírus. Tem histórias, ouvidas na infância, que lembro até hoje.  Tenho medo de botar num livro e aparecer na mesma hora um crítico provando que acabei de plagiar Paulo Setúbal ou Francisco Marins ou Karl May. Todas as histórias já foram contadas a esta altura, mas como elas são milhões, há sempre um leitor que está lendo aquilo pela primeira vez – e é para ele, sempre, que escrevemos.



Minha irmã Clotilde Tavares lançou agora O Monstro das Sete Bocas (Ed. Jovens Escribas, Natal), um romance de histórias encapsuladas, umas dentro das outras. Um subgênero que vem das Mil e Uma Noites, através, creio, das Mil Histórias Sem Fim de Malba Tahan. Nesse livro, ela conta as aventuras de vários personagens que, a certa altura da própria Demanda, fazem uma pausa para “contar um acontecido”, uma historieta que ilustra algum princípio moral ou faz revelações sobre uma pessoa, sobre um lugar. Nessa dinâmica, o texto fica parecendo aqueles quadros barrocos onde há um quadro-dentro-do-quadro.


É assim que sabemos como D. Ana Francisca, mulher de Renovato, ficou cega; eles recebem em sua fazenda no Cariri paraibano a visita do poeta errante Samuel Romano, que lhes conta a história de Juvenal, que enfrentou o famoso monstro da Caverna das Sete Bocas, o que conduz Renovato e Samuel a uma nova aventura. No seu livro anterior desta série, A Botija (Editora 34, 2003), ela reconta (no meio do romance) a história do Pavão Misterioso. Neste, os personagens cruzam a certa altura o País de São Saruê. Existe uma continuidade inconsútil entre os reinos encantados do cordel e os feudos desencantados onde moram os leitores dos folhetos. O seu mundo é um só, entrar numa dessas histórias é entrar em todas. Estão ligadas por túneis antiquíssimos e em ótimo estado de conservação. É através deles que o mundo das histórias se comunica, se realimenta e se perpetua. Fica longe das vistas dos leitores, que trafegam pela superfície sem ver as passagens subterrâneas que fazem do rico palácio e da pobre cabana dois aposentos diferentes de uma só construção.

sábado, 16 de maio de 2015

3816) 5 teimosias (17.5.2015)










Lionel Shenanigan, 37 anos, irlandês, tipógrafo. Adormeceu uma noite, dormiu até tarde, ressonando saudável, feliz da vida. Começou a ter um sonho e decidiu que queria ficar morando naquele sonho. Fincou pé e não saiu. Os vizinhos deram estimulantes, cafeína. A família continua fazendo barulho, sacudindo ele, “pai, acorde, o senhor está dormindo há cinco dias”, e ele reagindo, “sai, sai, me deixa sonhando, se me acordarem eu dou-lhes uma surra que nenhum de vocês vai achar de novo o caminho de casa”.



São Cireneu de Éfeso (séc. VI d.C.). Criou uma argumentação, com retórica impecável, onde demonstrava a existência de Deus, e muitos estudiosos visitaram a abadia onde habitou, para debater com ele e tentar demonstrá-lo em erro. Da fórmula de S. Cireneu restam numerosas versões, todas incompletas, todas insatisfatórias. Ele a sustentou com três gerações de sábios da Cristandade, e suas últimas palavras foram: “Deus prefere a clandestinidade”.



Matilde Castellani, dona de boate, 67 anos, em algum lugar do interior paulista. Viveu na Amazônia até os trinta, e foi de lá que trouxe um óleo rejuvenescedor, o qual talvez não fizesse efeito nas numerosas clientes a quem ela o vendia, mas fazia efeito nela, que explicava: “Com isso você só envelhece até os 50 anos, aí no ano seguinte você faz 51 mas seu corpo faz 49. Com mais um ano, sua idade é 52 mas seu corpo vai a 48... Eu estou com 67 e um corpo de 33.” Isso tinha uma lógica irrespondível, e lhe rendeu uma grana que deu para comprar a primeira das oito buates.



Sandinho, 8 anos, baiano de Salvador. Fastioso e cheio de luxos com comida, um dia a mãe perdeu a paciência no almoço e disse: “Você só levanta dessa cadeira quando terminar seu prato”.  Choque de vontades, braço-de-ferro entre dois gigantes turbinados, e 48 horas depois já havia van de TV na porta da casa e a aposta virou um reality-show que a cidade acompanhou em tempo real, até que representantes da Cúria Metropolitana, do Ministério Público e da Prefeitura costuraram um armistício que permitiu a ambos sair daquilo com a pose intacta.


Casmiro, 28 anos, camisa 10 e capitão do time do Paradaisinho, de Paradaisópolis. Na reta final do campeonato, reunião com comissão técnica, diretores, alguns amigos escolhidos a dedo, para a estrela do time se sentir à vontade. O veredito técnico: nos últimos oito anos e mais de quinhentos jogos, ele bateu onze pênaltis com o pé direito, e converteu nove; e bateu quarenta e oito pênaltis com o pé esquerdo, e converteu vinte e um. Casmiro deu razão a todos, pediu desculpas, e na decisão do campeonato, quando chegou sua vez na série decisiva, ele meteu o pé com toda confiança.




sexta-feira, 15 de maio de 2015

3815) "Os Outros" (16.5.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, neste sábado, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje, sábado 16, será exibido Os Outros(“The Others”, 2001), de Alejandro Amenábar, o mesmo diretor de outro curioso filme fantástico, Abre los Ojos (1997), depois refilmado nos EUA como Vanilla Sky (de Cameron Crowe).

As histórias de casas mal assombradas não devem ser uma exclusividade nossa. Acho que toda cultura, em geral, examina a hipótese da sobrevivência da alma humana após a morte. Uma primeira divisão, portanto, seria entre as culturas que não admitem nenhuma forma de vida após a morte (morreu, acabou) e as que a acham possível. Entre estas, haveria uma segunda divisão, entre as que acham que a alma vai embora para sempre, cumprir seu destino espiritual, e as que acham que a alma pode voltar em algumas circunstâncias, ou é por algum motivo impedida de abandonar seu ambiente físico.

É no meio desta última crença que podemos situar a origem das histórias de casas assombradas, porque na esmagadora maioria destas histórias a assombração consiste em variadas formas de resíduo espiritual de pessoas que viveram ou morreram ali, ou que de alguma forma ficaram presas àquele espaço.

Eu sou dos que não acreditam em nada disso, embora me disponha a mudar de opinião no dia em que eu vir alguma coisa convincente. (Sou um cientista. Cientista não discute com fatos. O problema é que certos tipos de fato só acontecem com quem não é cientista.) As histórias de casas assombradas são, para mim, metáforas da mente humana. Aquela casa é um crânio, um cérebro. É lá dentro que estão aparecendo coisas que se recusam a morrer, a ir embora.

Os Outros (The Others) é um filme tenso, primorosamente fotografado, e que usa os espaços internos da casa como o principal vetor de inquietação para o personagem, a câmera, o espectador; uma lição de clássicos como Os Inocentes (1961) de Jack Clayton ou Desafio ao Além (1963) de Robert Wise. A “casa nova onde a família vai morar” é um espaço hostil, misterioso, cheio de ameaças. Quando a câmera se põe em movimento por dentro dela, basta isso para produzir o aperto no peito. É um filme de suspense sobrenatural com uma reviravolta final do tipo puxada-de-tapete. Como se alguém estivesse avisando, aos céticos que duvidam dos fantasmas: “Os vivos precisam aceitar que os mortos estão entre nós, e aprender a conviver com eles”.





3814) Ser professor (15.5.2015)



Uma lojinha estreita, de uma porta só; uma tenda. Não a tenda “barraca de acampamento”, mas a tenda que é um quartinho instalado no rés-do-chão de um sobrado ou de um edifício de poucos andares sem elevador. Um pé-de-escada espaçoso e com pouca circulação de gente.  Em certa década, um rapaz de bigode preto começou a usar aquele espaço para prestar pequenos serviços de consertador de alguma coisa: sapatos, relógios, motocicletas, tudo que na vida humana precisa de manutenção e reparos. O mundo pisca um olho, e anos depois quem atende ali já é um velho de barba branca.

Ser professor é um pouco assim. (Claro que tem o outro lado, o rosto solar, a faceta operística, o viés peroratório do magistério. Quem não gosta de auditório cheio? Duzentos clientes, todos precisando de pelo menos meio ponto!) Mas tem o lado lunar do professorado, que é justamente o que na minha utopia (este é um conto de ficção especulativa) eu chamo o “professor de tenda”.

A tenda pode ser em qualquer canto. Centro da cidade, ou transversal da avenida principal do bairro. Ele está ali sentado, às três da tarde, botando meia sola num calçado qualquer, quando chega um casal de alunos, ele indica uns tamboretes, os dois sentam. Precisam fazer um trabalho, o assunto é tal e tal. O mestre escuta, a boca segurando os pregos que os dedos recolhem de um em um, enquanto ele martela a sandália feminina em decúbito. No último prego ele pigarreia, manda gravar, pronuncia meia dúzia de títulos, números especiais de revistas, edições específicas. Dá o email para acompanhamento da consulta. Erguem-se todos, ele busca a maquininha, a moça passa o cartão, guarda o recibo – hesita – sorri – tira um livro da bolsa: “O senhor podia assinar pra mim?”.  “Claro,” diz ele, abre o livro devagar, dá uma risada: “Você é como eu, não é? Lê sublinhando.”

Na parede desse professor há um quadro-negro tipo tabela, com a lista dos serviços, e a lista dos preços, que nunca sobem mais do que o necessário. Um metalinguístico calendário-de-oficina com Rose di Primo no auge. Um cartaz (original) de filme, renovado toda segunda-feira. Há um espelho com uma foto recente dele pregada bem no centro. Um alvará caligrafado por Steinberg. Um termômetro e um barômetro solidariamente lado a lado. Uma vitrine (o casal quase não se desgruda dali) com alguns manuscritos dele, e primeiras edições.  Uma telona digital, ladrilhada em quatro: noticiário via cabo, browser, canal Classimovies e uma fractal em loop, bem repousante. Um assum preto digital cantando preso noutra telinha. O diploma de professor emoldurado. A flâmula com o escudo do meu time do coração.




quinta-feira, 14 de maio de 2015

3813) "Ensaio sobre a Cegueira" (14.5.2015)



Este romance de José Saramago, de 1995, lembra O Dia das Trífides de John Wyndham, cuja tradução foi publicada em Lisboa em 1962, na Colecção Argonauta. Há quem lembre também “A escuridão”, conto de André Carneiro (1963), que incluí na minha antologia Páginas de Sombra (2003). Todas essas histórias de “a humanidade ficou cega” percorrem caminhos parecidos, às vezes previsíveis, inevitáveis, pois as situações são basicamente as mesmas.  O que importa é o que cada autor consegue extrair delas.

Saramago mostra uma cegueira que é branca. Não uma cegueira de trevas, mas de luz, que lembra o testemunho de Jorge Luis Borges: “O preto é uma das cores que fazem falta a um cego. (...) Para mim, que estava acostumado a dormir no escuro, foi bastante incômodo, por muito tempo, ter que dormir nesse mundo de neblina esverdeada ou azulada e vagamente luminosa que é o mundo do cego.”

O núcleo de personagens principais se cria em torno do episódio inicial. Um homem fica cego ao volante; outro conduz seu carro e o deixa em casa, mas logo em seguida rouba o carro do que ficou cego, e mais adiante cega também. O “primeiro cego”, como passa a ser chamado, vai se consultar com um oftalmologista, e este consultório será o centro de propagação da cegueira, porque atinge os demais pacientes, todos com algum problema nos olhos: a rapariga de óculos escuros (como se trata de uma garota de programa, o termo português não destoa), o velho com a venda no olho, o menino estrábico.  Guiados pelas mulher do médico, que por alguma razão não cegou, são eles a constelação de luzes apagadas que iremos seguir até o capítulo final.

O livro não diz nenhum nome próprio: nem de pessoa, nem de lugar, nem de produto. É mais uma tentativa (tem havido muitas, ultimamente) de romance que evita dizer onde se passa. Ouvimos falar em prédios, consultórios, supermercados, quartéis, praças, e não vemos um nome sequer. Tudo que se conta neste livro (e que automaticamente visualizamos em Lisboa, por ser português o autor) poderia ter acontecido em Campina Grande.

Os primeiros cegos são trancafiados num manicômio desativado, e ali seguem-se episódios de sujeira e violência que lembram o Anjo Exterminador de Buñuel, lembram as memórias de campos de concentração. Saramago é um escritor de viés pessimista, chamado de “sal-amargo” por mais de um resenhador. O mais admirável é o modo como ele consegue tornar plausíveis, numa situação espantosa e desumanizadora como esta, os pequenos gestos de solidariedade dos seus personagens. As pequenas coragens, pequenas compaixões, compreensões e gentilezas: as últimas coisas humanas que se extinguirão.






terça-feira, 12 de maio de 2015

3812) O que é ser analfabeto (13.5.2015)



Um amigo meu passou uma semana no Japão. “Descobri o que é ser analfabeto,” disse ele. Pensou que tudo lá tinha letreiro em inglês, mas tem muito pouco. “É terrível você ficar olhando aqueles insetozinhos escritos, saber que aquilo significa alguma coisa, mas não ter nenhuma pista. Nunca senti tanta falta das linguagens ideográficas, como os hieróglifos, onde pelo menos a palavra passarinho parece um passarinho”. Ironia maior pelo fato de que o japonês começou como linguagem ideográfica, mas foi se sofisticando. Hoje, alguém pra ler precisa ser alfabetizado.

Viver numa cidade grande e não saber ler é como ser jogado no mar com os braços amarrados. Em “Um Assassino entre Nós" ("A Judgement in Stone", 1977), Ruth Rendell conta a história de uma empregada doméstica inglesa que, por motivos variados, nunca se alfabetizou e chegou à idade adulta sem que ninguém percebesse essa deficiência. Numa infância desorganizada pela guerra, Eunice Parchman trocou várias vezes de escola, interrompeu os estudos, e durante a adolescência seu objetivo não era mais aprender a ler, e sim esconder que não sabia. E (diz a autora) a vantagem de ser analfabeto é que o indivíduo adquire uma excelente memória visual e se força a ser capaz de lembrar de tudo. Povos inteiros fazem isto desde que o mundo é mundo.

Uma velha piada apócrifa diz que Rui Barbosa saiu de casa às pressas, esqueceu os óculos, e ao chegar à rua São Clemente perguntou a um homem humilde, na calçada, que bonde era aquele que estava se aproximando. O homem respondeu: “Desculpe, eu também não sei ler”. Quem não sabe ler geralmente alega “um problema na vista” e pede para alguém lhe repetir em voz alta bilhetes, recados, tudo. Aprende a distinguir os números, acostuma-se a reconhecer palavras nas placas e letreiros públicos, mas não conseguiria reproduzi-las com lápis e papel, se lhe pedissem. Vive (diz Rendell) “numa misteriosa e sombria liberdade feita de sensações, instinto, e ausência da palavra impressa”.

O analfabeto que precisa esconder sua condição vive num estado permanente de alerta, porque de um instante para outro podem tentar obrigá-lo a decifrar alguma coisa; precisa de um repertório permanente de desculpas, evasivas. Acostuma-se a perguntar. Cultiva fama de distraído, esquecido. Conversa pouco, para que lhe façam menos perguntas. Diz Ruth Rendell: “O hábito de se isolar estava entranhado nela; não era mais consciente. Todas as fontes de calor humano e gestos de afeição e de entusiasmo tinham secado. O isolamento era algo natural agora, e ela não entendia que aquilo começara quando ela começou a se afastar da palavra impressa, dos livros, das coisas escritas à mão”. 



segunda-feira, 11 de maio de 2015

3811) Mario Quintana e Ray Bradbury (12.5.2015)



(Norman Rockwell, Looking out to sea, 1919)



Numa entrevista concedida a Edla Van Steen (incluída em Da Preguiça como Método de Trabalho, 1987) Mario Quintana dizia: “O que de melhor e de pior se publica atualmente nos Estados Unidos são as novelas de ficção científica. Entre elas, descobri as de um grande poeta, Ray Bradbury. É dessas obras que a gente gostaria de ter escrito.”  

Um elogio assim talvez baste para justificar minha tentativa de aproximação entre os dois escritores, que de fato têm muita coisa em comum. Bradbury é chamado por muitos “o poeta da FC” pela sua prosa rica de metáforas, o olhar lúdico com que descobre ângulos imprevistos em qualquer coisa, sua insistente fascinação com a infância. Sua obra lembra (mais do que a de Garcia Márquez) a frase de Garcia Márquez quando dizia: “Meu avô me contava histórias. Morreu quando eu tinha oito anos. Nunca mais aconteceu nada interessante em minha vida”.

Quintana (1906-1994) não tinha fôlego de ficcionista. Era bom prosador, como provam suas numerosas crônicas, suas ótimas traduções (Proust, Balzac, Virginia Woolf, Voltaire, Fredric Brown, etc), seus numerosos “fragmentos de almanaque”, uma forma específica que ele cultivou intensamente ao longo da obra. Sua aparente ingenuidade de menino tem muitos pontos em contato com Bradbury (1920-2012), inclusive numa certa rejeição aos aspectos mais invasivos da tecnologia. Ambos tinham fascínio por outros planetas, mas não por espaçonaves. Pelas perguntas da ciência, não por suas respostas.

Quintana dedicou ao norte-americano um poema (“Ray Bradbury”) em Esconderijos do Tempo (1980), dizendo que foi ele “o primeiro que, depois da infância, conseguiu encantar-me com suas histórias mágicas”. Fala (numa enumeração nostálgica que provavelmente deixaria Bradbury coçando a cabeça meio perplexo) no Menino Jesus, nas princesas, nos reis “heráldicos como cartas de jogar”, em São Jorge, em Dom Quixote, e depois finaliza:

Todo esse encantamento de uma idade perdida 
Ray Bradbury o transportou para a Idade Estelar 
e os nossos antigos balõezinhos de cor 
agora são mundos girando no ar. 
Depois de tantos anos de cínico materialismo 
Ray Bradbury é a nossa segunda vovozinha velha 
que nos vai desfiando suas histórias à beira do abismo 
-- e nos enche de susto, esperança e amor.

Não sei até que ponto o autor de O País de Outubro se agradaria em ser chamado de “Old Grandma”, mas os dois partilham a mesma sentimentalidade, a recusa ao materialismo, a lealdade para com o fraco e o pequeno, o humor negro sem crueldade, o jeito misto de menino e ancião, algo que ambos tiveram constantemente de uma ponta à outra da vida. 





sábado, 9 de maio de 2015

3810) O autor e o editor (10.5.2015)



(Pierre-Jules Hetzel e Jules Verne )

Um livro recente de William Butcher (Jules Verne inédit: les manuscrits déchiffrés, Lyon, ENS, 2015) mostra o resultado de anos de pesquisa nos manuscritos de Jules Verne. Na segunda metade do século 19 Verne foi o autor mais popular da França e um dos mais populares do mundo. Ao conhecer o editor Jules Hetzel, sua carreira tomou um rumo definitivo. Juntos os dois conceberam uma série de livros, sob o título geral de “Viagens Extraordinárias”, em que romances de aventuras serviriam de pretexto para passar informações científicas para leitores jovens, num momento histórico em que a política, a economia e a ciência trabalhavam em conjunto para expandir mundo afora o domínio europeu. A relação Verne/Hetzel é sempre citada quando se fala de projetos editoriais a quatro mãos; e o editor francês teve um papel importante no desenvolvimento do “romance científico” de sua época, tal como Hugo Gernsback e John W. Campbell teriam no meio século seguinte, na pulp fiction dos EUA.

O estudo de Butcher parece confirmar algo que vem sendo discutido há anos: Hetzel interferiu com mão pesada na escrita de Verne, forçando o autor a dirigir-se a um público pequeno-burguês, doméstico, adolescente, dando ênfase nos livros ao aspecto educativo e de formação do caráter, e extirpando tudo que pudesse ser polêmico ou desagradável. A prova mais evidente disso é sua recusa em publicar o distópico e sombrio Paris no Século XX, que Verne lhe apresentou em 1863 e guardou no cofre após a recusa. (O livro só foi publicado em 1994.)

Uma resenha de Nicolas Bareit (aqui: http://lectures.revues.org/17836) comenta os cortes promovidos por Hetzel em longos trechos e capítulos inteiros dos manuscritos que Verne lhe apresentava. Com 138 reproduções de páginas manuscritas, desenhos, esquemas, resumos, etc., o livro mostra o processo de trabalho do autor e permite comparar seu primeiro texto com o texto final publicado.

Outros estudos têm elogiado o trabalho do editor em enxugar a prosa abundante de Verne, o excesso de detalhes técnicos que ele (como todo autor que pesquisa a fundo) teve trabalho para recolher e não queria deixar de fora. Agora, lança-se nova luz sobre o outro lado. Um membro do grupo Le Club des Savanturiers, no Facebook, comentou: “Os capítulos suprimidos e as passagens inéditas revelam um Nemo heróico, um Fogg criminoso, uma Aouda despida, um Axel grande amante, um Strogoff altamente politizado. Em uma palavra: o Jules Verne existente antes do trabalho editorial geralmente iníquo de Jules Hetzel. Os leitores, incluindo-se aí os críticos, conheceram apenas um Verne leve, censurado, mutilado na própria carne".




sexta-feira, 8 de maio de 2015

3809) "Santa Sangre" (9.5.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, neste sábado, haverá debate comigo e o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje, sábado 9, será exibido Santa Sangre (1989) de Alejandro Jodorowsky, cineasta brotado na onda do cinema underground dos anos 1970, os chamados “midnight movies”. Jodorowsky é uma figura arlequinal nas artes, tendo se envolvido com literatura, teatro, cinema, quadrinhos; foi parceiro de Moebius e de Fernando Arrabal. Na ficção científica é conhecido pelo seu projeto frustrado de adaptar o romance “Duna” de Frank Herbert, que não resultou em filme, nunca decolou, mas foi uma certa injeção de ambição imaginativa no gênero, pelo menos na Europa.

Dentre os seus filmes oficiais, El Topo (1970) é um faroeste iniciático, A Montanha Sagrada (1973) é uma jornada-do-herói controlada por um duende metalinguístico, e Santa Sangre é um melodrama mundo-cão, grotesco e surpreendente, uma mistura de filme-de-terror-B-mexicano baseado em pulp-fiction estilo “weird menace”. Tem pontos de contato com um certo tipo de cinema “udigrudi” que se fazia no Rio e São Paulo na época. Um cinema meio sujo, anárquico, e que mesmo numa das raras superproduções só produz na pindaíba. Filmes pululantes de marginais, artistas de circo, fanáticos religiosos, bandidos excêntricos, militares, padres, políticos, mutilados, anões, deficientes físicos... Tipos inquietantes, meio caricaturais. Violência física, mas esfriada pela imprevisibilidade do enredo.

Santa Sangre tem momentos daquele dramalhão com ressonâncias freudianas que se vê em Nelson Rodrigues ou em Buñuel. Deste, principalmente, tem aquele gosto pelo excessivo, pelo gótico, pelas imagens bizarras sem explicação. Tem alguma coisa daquele exagero mórbido do teatro de Grand Guignol ou de algum dos vários tipos de teatro da crueldade (ou da violência) que foram tão praticados naquela época.

A certa altura o filme faz lembrar o conto de Maupassant, “O artista”, em que um atirador de facas num circo confessa ter vontade de matar a esposa, que o acompanha no número, mas diz que não consegue “errar”. O cinema de Jodorowsky é muito referencial, cheio de alusões, citações, homenagens, paródias a Fulano ou Sicrano. Mas quando ele emula Hitchcock, não é de uma maneira previsível, como acabaram se tornando os filmes de Brian de Palma, onde a referência fica sendo a razão de ser da cena. Jodorowsky insere a referência, mas não é nela que a cena está focada.


quinta-feira, 7 de maio de 2015

3808) O polvo (8.5.2015)



(foto: Sebastian Niedlich)

Um fato insólito ocorreu mês passado no Laboratório de Biologia Marinha da cidade de Devon, na Inglaterra. Uma assistente do laboratório, Diana Rubin, 28 anos, estranhou o fato de que, ao abrir a porta às 6 da manhã (ela era geralmente a primeira a chegar, para controlar os índices de um dos trabalhos que estava pesquisando) encontrou o chão molhado e percebeu a ausência de peixes ou crustáceos de um dos vários tanques de espécimens que ficavam numa extremidade do salão. As escrivaninhas, o material de escrita, os arquivos, tudo o mais estava intacto. Quando o fato se repetiu, câmeras de segurança foram instaladas, enquadrando inclusive as portas e janelas. A luz foi deixada acesa. Certo dia, checando as imagens ao chegar, Diana teve um susto.

Numa das laterais do laboratório havia um grande tanque, com um polvo dentro. O tanque era fechado por uma tampa circular metálica, de rosca. Mesmo à distância, foi possível perceber que a certa hora da madrugada, o polvo se aproximou da tampa, por dentro, aplicou as ventosas dos tentáculos à superfície interna da tampa, desenroscou-a, continuou a segurá-la com um tentáculo e esgueirou-se pela abertura de uns trinta centímetros de diâmetro, forçando para fora seu corpo esponjoso, borrachudo, cheio de cartilagens. Deslizou para o chão, deixando um rastro molhado, foi até um tanque aberto, recolheu alguns peixes, trouxe-os consigo, escalou o tanque, voltou para dentro dágua, voltou a enroscar a tampa pelo lado de dentro e fez sua refeição. Tudo não durou mais que dois ou três minutos.

Diana Rubin pediu providências. A direção do laboratório a ignorou. (Ela era uma bolsista recém-chegada do interior, não tinha amigos influentes.) Os colegas a quem denunciou o fato riram-se dela, recusaram-se a ver as gravações. Durante dois dias, Diana falou com meia dúzia de cientistas, e o único que concordou em ver as imagens disse que eram de má qualidade, que aquilo só seria aceitável se fosse filmado de perto, com uma câmara digital de boa definição. Brincando, sugeriu que se ela provasse o que dizia conseguiria uma promoção e um aumento.

Na manhã seguinte, pesquisadores chegaram ao laboratório e viram o corpo de Diana Rubin caído no chão, tendo ao lado uma câmara espatifada. Seu pescoço estava partido, cheio de marcas roxas. Poças de água no chão. O polvo estava em seu tanque, parecia adormecido. Ao lado do cadáver, via-se uma caneta e um bloco de anotações, todo molhado, onde era possível ler em garranchos:  “mim matei”, em letras de imprensa trêmulas, que pareciam de criança, pareciam de alguém que está começando a se auto-alfabetizar.