terça-feira, 18 de dezembro de 2012

3059) A Vida e os Tempos de Tambarú Zumbiterrâneo (18.12.2012)




(by plaxma)


Cap. 1 – De como Tambarú Zumbiterrâneo só teve sua infância revelada publicamente quanto contava mais de 40 anos, portanto somente então se soube que foi uma infância igual a qualquer outra.

Cap. 2 – De como a primeira coisa insólita que ocorreu em sua vida foi quando aos 18 anos aproximou-se de uma batida de carro, viu um rapaz morto, percebeu que estava vivo, e nunca mais foi o mesmo.

Cap. 3 – De como ele pareceu adquirir uma consciência multidimensional e uma intuição ortogonal em relação ao mundo biológico, e tentou expressar isto através da obra de uma banda punk chamada Agulhas Negras. 

Cap. 4 – De como ele devorou toda a obra de Lovecraft durante uma hepatite, fez-se tatuar à medida que ia lendo cada capítulo do I-Ching, descobriu um sistema confiável para ganhar no pôquer, escreveu um manual astrológico inventado que vendeu assustadoramente bem, pagou micos em público por causa de bebuns e bumbuns, passou triscando numa gringa saradona que quase topa financiá-lo.

Cap 5 – De como certo dia abriu-se a janela de uma casa quase em frente ao bar e surgiu uma moreninha de peitinhos retesos numa semiblusa que se apoiou nos braços, cruzou-os, descruzou-os, deixou-se ver, cruzou o olho com o dele, ferrou-o em brasa e sumiu.

Cap. 6 – De como ele foi imediatamente bater à porta, chamou-a na calçada e num piscar de olhos estavam com tudo acertado, coisa rara nos dias de hoje. 

Cap. 7 – De como ela revelou talento para lidar com dinheiro, quando ele jamais tivera nem uma coisa nem outra, e logo os dois decidiram criar juntos um websaite com blog, uma revista em quadrinhos, um CD de raga-noir indiano fake e um husky siberiano chamado The Thing. 

Cap. 8 – De como eles espremeram até a última gota a esponja empapaçada do mercado alternativo dessa área temática a que chamavam “as mil e uma noites marcianas”.

Cap. 9 – De como eles ralaram, sorriram, brigaram, beberam, se desuniram, tergiversaram, faltaram com a mais elementar sensatez humana, traíram e se traíram, se arrependeram e se torturaram, trincaram dentes, continuaram.

Cap. 10 – De como um deles soube um dia o que é estar entre dez mil pessoas e ver todas elas à espera da sua palavra, do seu gesto.

Cap. 11 – De como outro deles encontrou, num momento de sombra, de silêncio, de solidão, alguma coisa que buscara a vida inteira. 

Cap. 12 – De como um cristal de dez milhões de anos se partiu, de como por um certo tempo parece que o céu não lhes sorriu, o apartamento foi desapropriado para deixar passar uma avenida inteira, e eles se despediram, para sempre, como amigos, o que também não é muito fácil de acontecer.



domingo, 16 de dezembro de 2012

3058) Bandeira e Sinhô (16.12.2012)






No curto espaço de dois anos, foram lançados no Rio de Janeiro dois livros que, usando um artifício histórico parecido, tentaram analisar o modo como no começo do século 20 o samba deixou de ser visto com preconceito e hostilidade pelas elites cariocas e passou a ser aceito como uma manifestação legítima da cultura popular, e mesmo como uma espécie de símbolo do povo brasileiro.

Em 1995, saiu O mistério do samba de Hermano Vianna, em que ele faz essa análise da aproximação entre os dois Rios de Janeiros a partir de um encontro famoso entre Gilberto Freyre (representante da cultura letrada, acadêmica, elitista) e Pixinguinha (representante da música popular mas com conhecimento suficiente para se ombrear com um erudito). Em 1996, André Gardel publicou o trabalho com que ganhou o Prêmio Carioca de Monografia: O encontro entre Bandeira e Sinhô, em que trata das crônicas de Manuel Bandeira em que este se refere ao sambista Sinhô, e os numerosos pontos de convergência biográfica, boêmia e poética entre os dois.

O livro de Hermano Vianna é mais conhecido, mas o de André Gardel faz também um retrato fascinante do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século 20. Naquele tempo, o samba horrorizava tanto quanto o baile funk horroriza hoje. Misturar-se com ele era sinal de grave contaminação plebéia. Bandeira se misturava; não sozinho, mas acompanhado de amigos como Jaime Ovalle, Villa-Lobos, Catulo da Paixão Cearense, Di Cavalcanti, todos eles mergulhados na boemia insone das madrugadas, das rodas de samba, dos cafés, dos bordéis, dos bares da Lapa.

Gardel faz uma aproximação cuidadosa e veraz da poética de Bandeira, maculada propositalmente pela “fala errada do povo”, pela musicalidade das ruas que entra pelas janelas abertas à noite; e do modo como Sinhô, que espertamento tornou-se o primeiro a gravar um samba, sabia estar presente na cidade inteira ao mesmo tempo, cantando, compondo, bebendo, conversando, divulgando seus trabalhos, tornando-se conhecido, angariando encomendas de sambas ou de marchinhas de carnaval.

Gardel assim descreve as figuras encarnadas pelos dois: “a erudição modernista com um pé na tradição poética do Ocidente e o outro nas vanguardas européias, e a cultura de massa popular em flerte com a indústria cultural, com um pé no folclore e o outro na contemporaneidade rítmico-melódica da música moderna urbana das Américas”.  Encontros como os de Gilberto Freyre com Pixinguinha e de Bandeira com Sinhô prefiguraram o que seria o século 20 – a lenta aproximação entre essas duas culturas, entre essas duas bandas de uma “cidade partida”, e entre os dois Brasis que esses artistas cautelosamente representam.


sábado, 15 de dezembro de 2012

3057) O Ladrão (15.12.2012)





(Ladrão de Casaca, Alfred Hitchcock)


Há algumas pequenas coisas de que um Ladrão não pode prescindir. Uma delas é uma corda que não se quebre nunca.  Claro que uma corda assim só existe em contos de fadas ou em folhetos de cordel; mas ele precisa ter uma corda fina, de seda talvez, que enrolada ocupe pouco espaço e esticada aguente muito peso. Nunca se sabe de que janela gradeada será preciso descer, pendido; nunca se sabe que dama da corte terá que ser com ela sujigada, conforme o ritual; nem tantas outras façanhas e peripécias possíveis de brotar neste mundo de pesos e de forças.

Outra coisa que um Ladrão de verdade precisa ter consigo é uma bússola.  Não literalmente uma bússola das que se compram em antiquários ou que são exibidas em cosplays steampunks. É a bússola mental, aquela infalível sensação de posicionamento em relação a quatro pontos relativamente fáceis de situar. Muitas vezes, ao fugir no labirinto dos becos, é essencial fazer sempre a melhor opção possível, saber que aquela é de fato a terceira entrada após a quarta esquina à direita, e não morrer numa das muitas armadilhas ali montadas.  Saber em que direção fugir se a coisa apertar, saber o melhor lugar de atacar quando o momento favorecer.

Um talismã talvez seja a terceira coisa, porque um indivíduo assim, mergulhado em atividades delituosas e emperigadoras, deve necessitar de algo que lhe sirva de proteção.  Um objeto magnetizado magnetizando tudo em volta. Uma couraça intrespassável feita de bênçãos pra dentro e maldições pra fora.  

Já que chegamos a níveis mais abstratos, nunca é demais lembrar que um Ladrão precisa ter princípios éticos e morais superiores aos do resto da humanidade, sem, no entanto, menosprezá-la. A natureza especialíssima dos seus talentos e da sua profissão ensina-lhe como se manter num patamar de respeito. Um Ladrão não é um larápio. Um Ladrão é alguém cuja profissão consiste em subtrair algo (um objeto, uma informação, etc.) de um lugar e levá-lo para outro. Dependendo da natureza da coisa a ser furtada e das proteções que a cercam, diferentes habilidades serão exigidas ao Ladrão. E a cada nova técnica dominada, crescem os juramentos e os ritos, para que seus saberes não possam ser usados para ajudar maus propósitos.

E finalmente um Ladrão deve admirar antes de tudo a arte pela arte, a arte por si mesma e só por si, a história bem contada, o golpe bem aplicado, a ilusão bem explorada, o alarme foi dado, e foi ouvido, pôs-se lá o castelo em pé de guerra, e quando tudo passou, cadê o cofre? O cofre sumiu. A informação foi acessada, se multiplicou, se viralizou. Nada é segredo diante de um Ladrão, nada é sagrado ou imunizado contra a sua mão.



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

3056) "Holy Motors" (14.12.2012)





Foi o filme mais desconcertante e provavelmente o melhor que vi este ano; não sei se muitos leitores terão chance de vê-lo, porque está em cartaz numa das salinhas menores do Estação Botafogo. Dirigido pelo francês Leos Carax, Holy Motors é uma sucessão de cenas bizarras amarradas por uma estranha lógica, como acontece em filmes de Buñuel, David Lynch ou Emir Kusturica. Não é bem um filme fantástico – com poucas exceções, as coisas bizarras que mostra poderiam acontecer em nosso mundo, pois não violam as leis naturais. Mas qual a probabilidade de um sujeito entrar num café atirando, matar (aparentemente) um executivo de terno que está numa mesa com amigos, ser morto (aparentemente) pelos seguranças da vítima, e depois ir embora como se nada tivesse acontecido?  É Buñuel puro, e lembra aquela antiga frase de André Breton, de que o ato surrealista mais simples seria empunhar um revólver e sair pela rua alvejando pessoas a esmo.

Ao longo de um dia e uma noite, Oscar (Dennis Lavant) percorre Paris dentro de uma limusine branca cujo interior é um camarim com espelhos, luzes, figurinos, maquiagem, etc. Ali dentro ele troca de rosto, de cabelo, de roupa – e desce (depois de estudar um dossiê de informações) para “encontros” que em geral são cenas surrealistas, insólitas. A cada novo encontro, o espectador fica se perguntando qual o propósito daquilo tudo, até porque as outras pessoas envolvidas dão mostras de serem, também, atores interpretando papéis para aquela situação específica.

O filme de Carax é uma reconstrução onírica da vida de um ator de cinema ou de teatro, o tempo inteiro mudando de “persona” e adaptando-se a situações que não foram criadas por ele, mas nas quais ele deve se encaixar, dando seu suor e seu sangue. (Oscar “morre” pelo menos três vezes nesses encontros.) A permanente imprevisibilidade do filme é amarrada por um conceito nítido, embora bizarro (sabemos desde cedo que estão previstos, ao longo do dia, vários daqueles episódios), e evita que a história se dilua na gratuidade do “ah, qualquer coisa pode acontecer”. As coisas que acontecem a Oscar não são quaisquer coisas, não são escândalos “pour épater les bourgeois” nem violências para excitar os turbinados. São alegorias de momentos da vida, ou de estados de espírito, que só se revelam através do cinema ou do teatro. Momentos recriados com a vida e o sangue desse ator exausto e incansável, que percorre a cidade cumprindo rituais de amor, de assassinato, de absurdo, de travestismo, de celebração das pequenas coisas da vida, e lembrando o quanto a vida é inexplicável quando vemos apenas um dos seus fragmentos acontecendo.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

3055) "Caçada Humana" (13.12.2012)





Este filme de Arthur Penn, de 1966, nunca foi prestado atenção pela crítica. (Eis um exemplo de linguagem informal que os gramáticos abominam.) Teve a má sorte de vir entre uma obra-prima alegórica demais (Mickey One) e um sucesso arrasador (Bonnie e Clyde), de modo que todo mundo o esqueceu. Ele manipula algumas situações clássicas, sendo a mais visível delas O Xerife Indefeso – aquelas situações em que todo mundo numa cidade está cúmplice de uma barbaridade qualquer, e a única voz da razão, mesmo sendo voto vencido, é o xerife local  No presente caso, Marlon Brando, fazendo seu habitual personagem ético e durão, num casamento solidário, sólido, com a bela Angie Dickinson.

Um rapaz dessa cidadezinha texana fugiu da cadeia e parece estar voltando à cidade, acusado de assassinato. Os cidadãos respeitáveis locais (uns sujeitos bêbados e armados) decidem abatê-lo, para se divertir. Durante um dia e uma noite, a cidade ferve com essa perseguição e emboscada (porque a própria vítima vem ao encontro dos que querem pegá-lo). A esposa e o maior amigo dele tentam salvá-lo. O presidiário é Robert Redford, a esposa é Jane Fonda, o amigo é James Fox. O pai do rapaz, o milionário local, é o ator E. G. Marshall, fazendo aqui um texano com uma inquietante semelhança com George W. Bush. Há numerosos atores coadjuvantes que arrasam, como o casal do marido babaca Robert Duvall e a esposa periguete Janice Rule.

Arthur Penn é por algum motivo um diretor pouco lembrado dos anos 1960, e um dos melhores. Revi agora Caçada Humana, em DVD, numa versão de 2:13 horas, maior do que a que vi originalmente. Não tem o ritmo de metralhadora frenético dos filmes de hoje, mas tem uma narrativa bem amarrada pelo roteiro de Lillian Hellman, a namorada de Dashiell Hammett (eita, que as feministas vão espernear). A violência interiorana (hoje tão visível em David Lynch, nos Irmãos Coen) é descrita de forma exemplar. Os principais vilões são sujeitos cujo nome a gente não lembra mais, assim que o filme acaba.

Cidadezinhas em pé de guerra contra uma vítima indefesa (ou assistindo passivamente sua perseguição) aparecem em Fúria (Fritz Lang, 1936), Matar ou Morrer (Fred Zinnemann, 1952). O Xerife Indefeso teve uma excelente recriação em Assalto à 13a. Delegacia com Ethan Hawke (Jean-François Richet, 2005). Multidões são facilmente mobilizáveis para linchar criminosos, principalmente num sábado à noite, numa cidade onde nada interessante acontece.  Cabe às vezes aos xerifes a tarefa paradoxal de defender um criminoso contra a fúria dos cidadãos pacatos. É um ponto de partida interessante para discutir lei, justiça, crime e violência.



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

3054) O homem dourado (12.12.2012)




(Philip K. Dick)


Jorge Luís Borges perguntou-se certa vez por que motivo somos capazes de lembrar um fato ocorrido 50 anos atrás e não somos capazes de prever outro que acontecerá daqui a dois minutos, e que, teoricamente, estaria muito mais próximo. 

Este é, como muitos outros paradoxos do argentino, uma crítica sutil à maneira incorreta de formular um problema.  

Borges indica que se insistirmos em enxergar o Tempo como uma espécie de Espaço (com direções tipo frente-trás, cima-baixo, direita-esquerda) estaremos sujeitos a uma infinidade de paradoxos, porque esses tipo de visualização não se aplica necessariamente ao Tempo. (H. G. Wells, em seu famoso capítulo inicial de A Máquina do Tempo, contribuiu muito para enxergarmos o tempo dessa forma.)

No conto “O homem dourado” (em Realidades Adaptadas, Ed. Aleph) Philip K. Dick fala do jovem Cris Johnson, um rapaz de 18 anos meio autista - não fala, não se comunica, não dá trabalho à família, vive apenas olhando tudo à sua volta, e de vez em quando desaparece (e reaparece dias depois) sem dar explicações. Ele é um mutante, e seu super-poder consiste em adivinhar o futuro. 

Cientistas preparam complicados testes em que uma porção de aparelhos disparam sobre ele, num recinto fechado, e ele se desvia de todos os tiros. Ele sabe onde o tiro vai ser disparado, e apenas se afasta.

Johnson vive mentalmente num presente mais amplo, que se expande para o futuro, e não para o passado. Ele parece (ao contrário da frase de Borges) não lembrar o que aconteceu no passado, e ter uma visão muito clara do que acontecerá nos próximos segundos ou minutos. 

Diz uma cientista: 

“Ele tem um presente mais amplo. Mas seu presente se encontra à frente, não atrás. Nosso presente está relacionado ao passado. Somente o passado é certo, para nós. Para ele, o futuro é certo. E provavelmente não se lembra do passado, não mais do que qualquer animal é capaz de lembrar o que aconteceu.”

Cris Johnson vê o Tempo como um conjunto de cenas muito próximas e nítidas que vão se desdobrando e se ramificando em outras, cada vez menos nítidas à medida que são mais distantes, mas as cenas mais próximas, do futuro mais imediato, brilham com clareza. As cenas se tornam mais claras quando se tornam mais prováveis, e depois de acontecer, desaparecem. 

“A única coisa que lhe era desconhecida era a que já deixara de existir. De modo vago e obscuro, perguntava-se de vez em quando para onde iam as coisas depois que ele passava por elas”. 

É um mutante, por certo, mas num certo sentido é a prefiguração das nossas futuras gerações, cada vez mais vulneráveis a um Presente que não cessa de aumentar e de exigir toda sua atenção.










terça-feira, 11 de dezembro de 2012

3053) Diário de Classe (11.12.2012)




(Isadora Faber)


Houve um bafafá danado, de julho pra cá, por causa da página “Diário de Classe”, inventada por Isadora Faber, uma menina  de 13 anos. Ela criou a página do Facebook para reclamar dos problemas e dos defeitos da escola municipal onde estuda, em Santa Catarina. Pra quê que ela fez isso?!  Choveram reclamações, críticas, ameaças. A avó da menina foi atingida por uma pedra; ela própria foi intimada a prestar depoimento em uma delegacia, porque uma professora a acusou de calúnia e difamação.

A verdade é que ninguém gosta de ver divulgados os seus malfeitos, sejam ações desonestas ou simples negligências. No caso da escola da menina, não acho que os problemas sejam muito diferentes do que se vê na maioria das escolas, públicas ou particulares: orelhões quebrados, fios elétricos desencapados, falta de professores... Cada escola tem problemas diferentes, que no fundo são um só: falta de dinheiro ou má aplicação (por incompetência, descaso ou desonestidade) do dinheiro disponível.  Quem quiser conferir, procure no Facebook a página “Diário de Classe”.

Como tanta coisa na Internet, o página se multiplicou (diria um redator das antigas) “como fogo num rastilho de pólvora”. “O Globo” de domingo diz que já existem mais de cem páginas diferentes, criadas por outros estudantes, nos mesmos moldes. Isto é bom? É ruim? Como sempre acontece quando se bota uma tecnologia na mão de uma multidão, pode servir pra tudo. Estudantes moleques podem querer “trollar” a própria escola postando fotos tiradas em outros lugares e dizendo que foi lá. Alunos relapsos podem agredir a imagem de professores exigentes, por vingança. Alunos podem se sacanear uns aos outros postando fotos ou informações comprometedoras.

Ou seja: os riscos são os mesmos de quando foram inventadas as inscrições cuneiformes ou os hieróglifos egípcios. Qualquer nova maneira de multiplicar uma informação pode ser usada para o bem e para o mal.  O lado bom é que a Internet e as redes sociais, que tantas vezes são acusadas de servirem apenas de vitrine para narcisismos e irrelevâncias, mostram que podem ser também um instrumento de vigilância, de cobrança, de denúncia, etc., principalmente numa área crucial como a do ensino.

A educação federal, estadual e municipal (além das escolas particulares!) vem sendo sucateada há décadas. Se a Internet e as redes podem ajudar a pressionar os governos e as escolas privadas para que atenuem a catástrofe, tanto melhor. Nenhuma tecnologia é melhor ou pior do que o uso que lhe é dado. Os adolescentes estão mostrando que conhecem bem o funcionamento das redes sociais, e que sabem utilizá-las de uma maneira inesperadamente adulta.



domingo, 9 de dezembro de 2012

3052) A tecno-telepatia (9.12.2012)





Os cientistas trabalham duro, e a sério, para encontrar algum meio tecnológico de produzir a telepatia, aquilo que a gente se refere brincando como “transmimento de pensação”.  Há pouco tempo, o canadense Scott Routley, que está em estado vegetativo, teve seus pensamentos comunicados através de aparelhos de ressonância magnética. Isto não quer dizer, claro, que ele se comunicou verbalmente, mas que a atividade de certas áreas do seu cérebro foi mapeada e depois “traduzida” para dar uma idéia do que ele estava pensando.  Ou, pelo menos, de que apesar da imobilidade ele permanece consciente. (Este é um dos dramas de pessoas em estado de coma – dá muito trabalho provar se estão conscientes ou não.)

Vai ser difícil produzir comunicação de um cérebro para outro baseando-se em nosso processo de formação de palavras e frases e em nossa memória verbal. É um processo muito subjetivo, muito impalpável.  Mais fácil estabelecer algum tipo de código, como o código Morse, para que o telepata envie a mensagem letra por letra, como no telégrafo. Ademais, como serão estabelecidas as ligações pessoa-a-pessoa? Não faz sentido encontrar uma maneira de transmitir pensamentos mas não conseguir direcionar esses pensamentos para uma pessoa específica. Qualquer pesquisa deve levar em conta a transmissão e a recepção.

A telepatia não vai ser como uma conversa telefônica, onde duas pessoas, num mesmo canal, falam alternadamente e podem até falar ao mesmo tempo sem deixar de ouvir com clareza o que o outro está dizendo. Com o pouco que sabemos sobre o processo de verbalização dos pensamentos (pensar nas palavras sem pronunciá-las) não há como imaginar, agora, uma tecnologia capaz de tornar esse processo algo compartilhável à distância. O maior empecilho a esse tipo de telecomunicação não é o meio (que são as ondas de rádio), é o fato de que não sabemos como as idéias verbais se formam e “são salvas” em nossa mente.

Ao invés de um “telefonema mental”, talvez a telepatia tecnológica venha a se parecer com os torpedos, mensagens de texto construídas letra a letra e enviadas de uma vez só. Haveria dois níveis sucessivos a serem ativados por concentração mental. No primeiro, a pessoa poderia compor, de letra em letra, sua mensagem, e a “salvaria” de algum modo. Em seguida, ativaria um código que a colocaria em contato com o destinatário, e em seguida algo equivalente à tecla “send”, “enviar” – e só então a mensagem seguiria, via ondas de rádio, para o seu destino. O que não acho possível são aquelas longas conversas telepáticas das histórias de FC, que mais parecem duas pessoas desocupadas matando o tempo com um telefonema.



sábado, 8 de dezembro de 2012

3051) Piadas modernistas (8.12.2012)




(Manuel Bandeira)


Uma das coisas com que o Modernismo mais incomodou a cena literária de sua época foi o seu recurso à brincadeira, à galhofa, à paródia e à sátira.  

Poetas de todos os tempos fizeram isso, mas traçavam um limite entre isso e a arte poética. Olavo Bilac e Guimarães Passos produziram centenas de versinhos satíricos, jocosos, maliciosos; mas não permitiram que eles fossem incluídos em seus livros “sérios”. 

A poesia era uma espécie de templo onde só se entrava vestido a rigor. A poesia moleca, pornográfica, maledicente, descalça, suja, essa tinha que dormir na calçada. Não tinha direito ao teto de um livro.

Manuel Bandeira conta em suas memórias como ele e os amigos se valiam de suas colunas em jornal para incomodar os poetas (e os críticos) partidários da pomposidade, da gravidade, da oratória vazia que na época era considerada o espírito poético mais autêntico. 

O jornal A Noite lhe pagava 50 mil réis por semana para colaborar na seção “O Mês Modernista”, onde Bandeira propunha, entre outras coisas, a tradução de poemas brasileiros em linguagem moderna.

Ele dá como exemplo estes versos de Joaquim Manuel de Macedo: 

Mulher, irmã, escuta-me: não ames. 
Quando a teus pés um homem terno e curvo 
jurar amor, chorar pranto de sangue, 
não creias, não, mulher, ele te engana! 
As lágrimas são galas da mentira 
e o juramento manto da perfídia.

Bandeira propôs esta “tradução em caçanje”: 

Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você 
e te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
se ele chorar 
se ele se ajoelhar 
se ele se rasgar todo 
não acredita não Teresa 
é lágrima de cinema 
é tapeação 
mentira 
CAI FORA.

Está tudo aí: o processo de desinflação, de esvaziamento da linguagem inchada e grandiloquente. Bandeira comenta, anos depois: 

“Piadas... (...) Por essas e outras brincadeiras estamos agora pagando caro, porque o ‘espírito de piada’, o ‘poema-piada’ são tidos hoje por característica precípua do modernismo”. 

Bandeira, Drummond, Mário de Andrade fizeram poemas assim (Oswald não conta, porque quase que só sabia escrever assim), trazendo para o espaço sagrado do Livro de Poemas a fala bárbara da rua, o caçanje, a gíria, o brasilês. 

E trazendo junto o estado de espírito correspondente, o tratar das mulheres de igual para igual, sem o endeusamento melodramático que os parnasianos achavam imprescindível. 

Hoje, quase cem anos depois, essa discussão continua existindo. Não vai deixar de existir tão cedo. É o cabo-de-guerra entre linguagem elaborada versus linguagem espontânea. Ao longo das décadas, mudam de teoria, de sotaque e de dicção, mas a tensão entre as duas é eterna.





sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

3050) Décio Pignatari (7.12.2012)




(Décio Pignatari, entre Haroldo e Augusto de Campos)


A morte de Décio Pignatari (1927-2012) deixa Augusto de Campos como o último sobrevivente (após a morte também de seu irmão Haroldo) da trinca concretista paulistana que realizou aquele fenômeno chamado por um grande jornal, com involuntária propriedade, de “O Rock-and-Roll da Poesia”. O Concretismo foi um movimento literário pra ninguém botar defeito. Teve militantes denodados, adversários de peso, polêmicas explosivas, sempre emergindo à tona ao fim de cada década. Ainda hoje há quem o odeie, porque os “três poetas de Perdizes” eram polemistas capazes de demolir (ou pelo menos trincar) uma reputação literária com um artigo de jornal cheio de provas irrefutáveis, e de reduzir a pó um poema mediante um adjetivo bem encaixado. Arranjaram desafetos pela vida afora. Quando achavam que um texto era uma porcaria diziam isso sem meias palavras.

Apesar da imensa contribuição que trouxe para nossa crítica literária e para a teoria poética, o Concretismo tornou-se antipático por causa dessa atitude de “donos da verdade” que os membros da trinca adotavam de vez em quando. Como acontece com quem funda um movimento, eles parecem ter acreditado em algum instante que toda a literatura e toda a poesia do mundo tendiam a se tornar aquilo que eles estavam descobrindo. Todo sujeito que cria uma nova maneira de ver as coisas pensa que está zerando a história do pensamento. Não está.

Pignatari tem ensaios brilhantes sobre comunicação, linguagem, jornalismo, poesia, propaganda, etc.  Teve a sorte de realizar seu trabalho intelectual mais maduro durante o florescimento dos cursos universitários de Comunicação, onde sua obra foi muito adotada e estudada – nem sempre com discernimento, é claro, mas a culpa nesses casos nem sempre é do autor. Suas coletâneas de textos (Contracomunicação, Informação. Linguagem. Comunicação, Semiótica & Literatura) são utilíssimas ainda hoje. Neste último, em vários capítulos ele analisa do ponto de vista semiótico a obra de Edgar Allan Poe, mostrando as sonoridades e correspondências ocultas por trás dos nomes dos personagens e das funções estruturais de textos como “O Corvo”, “Berenice”, “A Queda da Casa de Usher”, etc.

Pignatari foi uma das grandes mentes modernistas brasileiras, “modernismo” compreendido aqui como um movimento estético típico da cultura industrial, cultura de massa, envolvendo poesia, design, artes gráficas... Um modo de ver a linguagem, e principalmente a poesia, que ajudou a arejar um ambiente literário pomposo e vazio, em que os temas só eram entendidos em seu aspecto sentimental, e a forma poética só era encarada em suas funções ornamentais e exibicionistas.