terça-feira, 8 de março de 2011
2496) Contraintes (5.3.2011)
“Contrainte” (con-TRÉNT): palavra francesa que pode ser traduzida como “restrição auto-imposta”. É quando um artista diz: “Proponho-me a fazer uma obra sem ultrapassar tais e tais limites, ou na qual será obrigatório proceder assim ou assado”.
Parece um convite à excentricidade, mas a verdade é que toda obra de arte principia por aí. Quem compõe uma música para cavaquinho só pode lidar com as notas que cabem num cavaquinho.
O crítico Rudolf Arnheim escreveu um dos melhores livros sobre a linguagem do filme, A Arte do Cinema, defendendo com brilhantismo a teoria de que a riqueza da linguagem cinematográfica decorre de suas limitações iniciais: ser mudo, ser em preto-e-branco, ter a imagem limitada pra um retângulo, etc.
Na literatura temos “contraintes” famosa como o formato obrigatório de muitos gêneros poéticos, como o hai-kai, o soneto, etc. E existem aquelas “contraintes” excepcionais, como a de Georges Perec e de Ernest Wright, que escreveram romances inteiros sem usar a letra “E”.
Fiquei sabendo agora de outra obra que para mim é prova da existência de mais um autor fora-de-esquadro. Trata-se do livro Never Again, de Doug Nufer (http://www.amazon.com/o/asin/0971248567/ws00-20), que parece ser a história de um jogador compulsivo que quer se regenerar. O livro tem uma “contrainte” que é coisa de maluco: como o título indica, o autor se compromete a não mais usar qualquer palavra que venha a aparecer no texto.
Ou seja, cada palavra só pode ser usada uma vez. Imagine a dificuldade de alguém para omitir as palavras mais comuns da língua (o, a, os, as, um, uma, uns, umas, de, em, para, que...).
O livro começa parecendo um livro normal: “When the racetrack closed forever, I had to find a job. Want ads made wonderlands, founding systems barely imagined”. (“Quando a pista de corridas fechou para sempre, tive que procurar um emprego. Anúncios de ‘procura-se’ projetavam fantasias, criando sistemas que mal se poderia imaginar.”).
Veja-se que logo no comecinho do livro o autor já queimou algumas palavras essenciais: “When”, “the”, “I”, “to”, “a”. E por aí vai.
Quando chegamos à página 4, o autor já descarregou todo seu suprimento de conectivos e palavrinhas curtas, e as frases vão ganhando um aspecto assim: “Tilt? Nodded acceptance unclogs processional drainpipe. Headtalk gestures convey protodocuments: workpass, memo allocating stingy directional information”. Lamento, mas não vou perder meu tempo tentando traduzir.
Uma regra como esta pode produzir boa literatura? Talvez não, mas a verdade paradoxal é que a literatura não tem como objetivo apenas produzir boa literatura. A literatura serve para sabermos os limites do que é possível fazer com palavras. “Boa literatura” é uma pequena fatia dessa pizza, a fatia que uma cultura, numa época qualquer, resolve considerar mais significativa ou mais deleitável que as outras. A Boa Literatura é um efeito colateral, e não o objetivo da literatura.
sexta-feira, 4 de março de 2011
2495) “Fuck” e o Rei da Inglaterra (4.3.2011)
(O Discurso do Rei)
O item mais recente na minha coleção pessoal de coincidências envolve o filme de Tom Hooper O Discurso do Rei, visto algumas noites atrás, e um livro que estive lendo naquela mesma tarde.
The Other Victorians, de Steven Marcus, é um estudo da moral mediana da Inglaterra durante a época da Rainha Vitória (aproximadamente a segunda metade do século 19) através de alguns textos básicos.
Entre os textos estudados por Marcus, está o gigantesco e anônimo livro pornográfico My Secret Life, um clássico da literatura subterrânea, de autor até hoje não identificado com certeza. Ao longo de milhares de páginas, o autor descreve com riqueza de detalhes as aventuras sexuais que teve (com prostitutas e mulheres do povo, de modo geral) ao longo de toda sua vida adulta.
A certa altura de My Secret Life, o autor conta seu envolvimento com duas garotas interioranas que foram fazer a vida em Londres, garotas gostosinhas mas incultas. E ele se diverte contando a obsessão de uma delas com o palavrão “fuck”, que ainda hoje é meio tabu no mundo de língua inglesa, tanto que costumam referir-se a ele como “a palavra com F” (“the F-word”). Diz ele (melhor não traduzir os palavrões, para manter o sabor do original):
A certa altura de My Secret Life, o autor conta seu envolvimento com duas garotas interioranas que foram fazer a vida em Londres, garotas gostosinhas mas incultas. E ele se diverte contando a obsessão de uma delas com o palavrão “fuck”, que ainda hoje é meio tabu no mundo de língua inglesa, tanto que costumam referir-se a ele como “a palavra com F” (“the F-word”). Diz ele (melhor não traduzir os palavrões, para manter o sabor do original):
“Quando estávamos os três juntos, ela sentava quieta junto ao fogo, e de repente dizia em voz alta para si mesma: Fuck. Lembro de como penteava o cabelo ao espelho, quando eu e Nell estávamos sentados, e de como ao seu jeito vulgar e rude, e sua voz esganiçada, ela dizia: Fuck, fuck, fucky, oh, fuck, fuck, fuck, fuck her and fuck him, and fuck, fuck, fuck”.
É a propriedade terapêutica e libertadora do palavrão, não é mesmo? A garota provavelmente era reprimidíssima em sua zona rural de origem, e talvez ficasse mais eufórica com a liberdade para dizer palavrões do que com a liberdade para fazer “ménage à trois” com a amiga e o cliente.
Que o diga o Rei George VI, que, incentivado pelo terapeuta, dispara num jorro interminável de “fuck” e “shit”, que aos poucos vão desinibindo seu aparelho fonador.
Diz o IMDB que o filme recebeu uma censura etária um pouco alta pelas 17 vezes em que a palavra “fuck” aparece, mas essa censura foi reduzida com a ressalva: “Contém linguagem forte num contexto de terapia da fala”. O que é bem diferente das centenas de vezes em que “fuck” e o onipresente adjetivo “fucking” aparecem em qualquer filme policial norte-americano, especialmente os de Quentin Tarantino.
Diz o IMDB que o filme recebeu uma censura etária um pouco alta pelas 17 vezes em que a palavra “fuck” aparece, mas essa censura foi reduzida com a ressalva: “Contém linguagem forte num contexto de terapia da fala”. O que é bem diferente das centenas de vezes em que “fuck” e o onipresente adjetivo “fucking” aparecem em qualquer filme policial norte-americano, especialmente os de Quentin Tarantino.
A verdade é que palavrões como “fuck” são, primeiro, um tabu verbal quase intransponível. Depois viram uma blasfêmia euforicamente libertária, inebriando o paciente até uma espécie de orgasmo fonoaudiológico.
E por fim o termo se empobrece (à medida que se multiplica), transformando-se num expletivo inócuo e cada vez mais vazio, um cacoete cansativo para quem está ouvindo os personagens martelando sem parar aquelas sílabas. Deixa de ser um Tabu do Proibido para se transformar num Tabu do Obrigatório.
quinta-feira, 3 de março de 2011
2494) “eXistenZ” (3.3.2011)

É assim que se escreve o título deste filme que David Cronenberg lançou em 1999. É algo bem da cultura hip-hop essa negócio de desobedecer à regra das maiúsculas e minúsculas, não é mesmo? Em todo caso, vi no IMDB que dois dos produtores do filme são húngaros, e que a palavra “isten” significa “Deus” naquele idioma. Vivendo e aprendendo.
eXistenZ é mais um mergulho de Cronenberg na zona crepuscular entre realidade física e pesadelo freudiano. Usando o pretexto de um videogame coletivo, ele mergulha os personagens num jogo de perseguição e assassinatos, no qual aparecem de vez em quando as imagens bio-teratológicas que são obsessão do diretor: objetos vagamente humanos, parecendo reconstruções em plástico de órgãos sexuais deformados. Os filmes de Cronenberg são pesadelos biológicos, onde a toda hora nos defrontamos com seres ou coisas que parecem objetos de uma sex-shop mórbida. Ou então um daqueles museus de ceras pretensamente científicos que visitavam nossas cidades quando a gente era pequeno, cheios de púbis de manequins com doenças venéreas.
Os dois temas preferidos de Cronenberg são: 1) a incerteza philipkdickiana sobre o que é real e o que é ilusão; 2) o horror e o fascínio pelos aspectos físicos do corpo (incluindo-se aí o sexo, a excreção, a gravidez e reprodução, a mutilação, a deformação, etc.). É como se Algo o chamasse o tempo inteiro para ir viver num universo puramente cartesiano e mental, um universo feito de idéias metafísicas e de computação gráfica, onde as coisas acontecessem de acordo com a imaginação e o desejo. E, ao mesmo tempo, um outro Algo o arrastasse de volta para um mundo incômodo onde existe a carne humana e suas necessidades fisiológicas, onde existem a doença, a dor e a morte, mas ao mesmo tempo existe o “desejo maciço e permanente”, como dizia Vinícius de Moraes, pela textura pecaminosa dessas partes pudendas, dessas regiões proibidas.
Transportar-se para um videogame é pular para uma região virtual onde podemos matar e ser mortos sem que nada de verdade nos aconteça. Mas, de que adianta?! Para que nossa mente possa estar ali, precisamos do maldito corpo, que precisa estar num quarto de hotel vagabundo, plugado no console de um jogo! Os filósofos medievais viviam devaneando sobre o corpo ser a prisão da alma. O mundo moderno parece acreditar que a mente cometeu algum delito e sua punição é ficar presa a um corpo.
E isso logo agora, no umbral do século 21, quando finalmente conseguiremos criar o projeto Trans-Humanista de transferir nossas mentes para uma realidade virtual em que elas não estejam presas, por cordões umbilicais pegajosos e úmidos, a esses corpos cheios de mucosas, esfíncteres, glândulas de secreção interna e externa, superfícies viscosas e cavidades pulsantes. Cronenberg é o cronista desse momento de transição, das últimas gerações de humanos que possuíram carne e osso, e as primeiras gerações dos que serão feitos apenas de zeros e uns.
quarta-feira, 2 de março de 2011
2493) Kadhafi (2.3.2011)

No dia em que escrevo, a insurreição popular na Líbia está comendo pelas beiras a ditadura de Muhammar Kadhafi. A situação me lembra a dos protagonistas do conto “Casa Tomada” de Cortázar, em que a mansão de um casal de irmãos vai sendo invadida por desconhecidos. Cada vez que um aposento é tomado, eles o trancam por fora e não chegam mais perto. O espaço em que vivem vai se tornando cada vez menor. Quando é tomado o último recinto, eles saem, trancam a casa por fora e jogam a chave no esgoto da rua. Kadhafi fará o mesmo? Morrerá heroicamente, como ameaçou, de cimitarra em punho, enfrentando os invasores? Ou fugirá num jatinho particular, na calada da noite, com os costumeiros bilhões de dólares, rumo ao aconchego dos spas capitalistas?
Hosni Mubarak, o ditador egípcio recém-defenestrado, era um ditador de outra natureza. Militar-burocrata, foi adquirindo com o passar dos anos um aspecto vulturino de vampiro ou de milionário insone que se alimenta de fígados de criancinhas. Se um dia filmarem sua vida, pena que Bela Lugosi não esteja vivo para interpretá-lo. Mubarak era o típico conspirador de bastidores (dos quais há muitos em nosso Congresso Nacional), um indivíduo aparentemente sem talentos e sem prazeres, uma máquina de produzir maquinações, um ambicioso capaz de juntar fortunas mas não de desfrutá-las. Um calvinista do Mal, em suma, um sujeito que se nega os deleites da vida pelo sacerdócio de infelicitar a vida alheia. (Não sei nada da vida desse sujeito; falo da imagem que transparece. Vai ver que é o maior farrista.)
Kadhafi é, comparado a esse, um personagem divertido. É difícil não achar graça nas suas roupas extravagantes, nos seus óculos excêntricos que deixam Elton John no chinelo, na sua grandiloquência infantil. Entre o ditador soturno e o ditador exuberante, fico com este último. Seu histrionismo, se não atenua suas culpas, pelo menos sugere que ele é humano. E ao liberar a sua face burlesca ele nos lembra que o Mal não é monolítico – se fosse, simplificaria tanto os nossos dilemas éticos! O Mal é uma colcha de retalhos furtados às pressas, furtados dos variados tecidos que compõem a vida.
O ditador delirante foi, meio século atrás, um personagem típico da cultura latino-americana, basta ver as obras de Garcia Márquez, Miguel Ángel Astúrias, Glauber Rocha (Cabeças Cortadas), Alejo Carpentier, Augusto Roa Bastos, etc. O mundo árabe e o mundo muçulmano (os dois não são a mesma coisa) têm produzido uma grande literatura e um grande cinema. Será que já existem romances sobre essa leva de ditadores que, depois dos da América Latina e da Europa Oriental, começa a cair como dominós? Sujeitos fanfarrões e sanguinários, como Saddam Hussein ou Kadhafi, são irrecuperáveis como vultos políticos, mas a literatura, que redime tudo, que transforma lixo em arte, que transforma tragédias em redenção e mediocridade em alegoria, é a única força capaz de justificar a passagem desses indivíduos pela Terra.
terça-feira, 1 de março de 2011
2492) Almira Castilho e Moacyr Scliar (1.3.2011)

No mesmo dia, vejo na imprensa a notícia do falecimento de Almira Castilho (86 anos) e Moacyr Scliar (73 anos). É ruim começar o dia com duas perdas como estas. Talvez metade do Brasil não saiba de quem se trata, não seja capaz de reconhecer seus nomes ou suas fotos, mas o Brasil deve muito a ambos.
Almira conheceu o auge da fama nos anos 1950, quando foi casada com Jackson do Pandeiro, dividindo com ele uma carreira cheia de sucessos Brasil afora. Os dois faziam uma dupla engraçadíssima no palco, ele pequenino e arisco, ela grandona e aparentemente desajeitada (na verdade dançava bem). Os dois encenavam umbigadas e arrasta-pés, e Almira arregalava os olhos, balançava os quadris, fazia munganga... Era boa cantora, e ao que consta também compunha, pois aparece como co-autora de clássicos como “Chiclete com Banana” e outros. Vi-a, já com seus 80 anos, subindo ao palco com Silvério Pessoa no Fórum Junino de Aracaju, cantando, rebolando; e depois em mesa de restaurante contando histórias e dando risadas. Uma pessoa em paz com a vida, e que podia dizer, como disse em suas memórias o “bluesman” Honeyboy Edwards: “O mundo não me deve nada”.
Moacyr Scliar percorreu uma carreira mais discreta e mais estável, como é de praxe na literatura. Foi um dos escritores que se tornaram conhecidos na década de 1970, e nessa condição foi uma das referências literárias da minha geração, dos jovens de 20-e-poucos anos que estavam começando a escrever. E recomeçando a ler. (Quando você começa a escrever a sério, precisa aprender a ler de uma maneira diferente.) O gaúcho Scliar tinha duas condições que o particularizavam dentro de nossa literatura: era médico e era judeu. Esses dois universos a que pertencia não o limitavam (ele escrevia qualquer tipo de coisa, abordava qualquer tipo de assunto), mas forneciam, de forma intermitente, um precioso material de inspiração.
Acadêmico da ABL, ganhador de numerosos prêmios, Moacyr Scliar foi também um praticante da literatura fantástica, que já aparece em seus livros de contos mais antigos (O Carnaval dos Animais, Histórias da Terra Trêmula) e depois em seus romances. O Centauro no Jardim é uma alegoria da diáspora judaica, contando a história de um menino judeu que nasce com corpo de centauro; Cenas da Vida Minúscula retoma a lenda medieval do “homúnculo”, o ser humano criado em laboratório. Outras obras “triscam” pelo fantástico, pela alegoria, pelo realismo mágico.
O suingue e o humor de Almira, a erudição e a simplicidade imaginativa de Scliar são como luzes distantes, que iluminam áreas diferentes de nosso ser coletivo mas parecem pertencer a mundos distintos. Almira terá lido algum livro dele? Moacyr terá assistido algum show dela? Talvez não, sei lá. Talvez sejam dois Brasis unidos apenas por uma coincidência do calendário, dois Brasis que poderiam se iluminar mutuamente. Como iluminaram a nós, os privilegiados que conhecemos os dois.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
2491) A moral da fábula (27.2.2011)
No final das fábulas de Esopo ou de La Fontaine, vem sempre aquela frasezinha curta que nos acostumamos a chamar de “a moral da história”.
O lobo bebe água no rio junto ao cordeiro, faz-lhe um monte de acusações e por fim o devora. Após o desfecho, vem uma “moral” tipo: “Quando um poderoso decide castigar um fraco, qualquer pretexto serve, e às vezes pretexto nenhum”.
Essas fábulas têm um propósito didático e moralizante, tanto que continuam a fazer parte da nossa literatura infantil. O lado moralizante não precisa de explicações – trata-se de implantar na mente dos pimpolhos princípios morais, éticos, etc. O lado didático é mais sutil e mais interessante. Trata-se de dizer, por um lado: “Qualquer episódio concreto pode ser interpretado sob a forma de conceitos abstratos”. E por outro: “Qualquer conceito abstrato pode ser ilustrado através de pequenas historietas aparentemente ambientadas num mundo parecido com o nosso”.
A História é uma ciência em que somos o tempo inteiro induzidos a passar do concreto para o abstrato.
Se nos deparamos com os registros de tráfico de escravos africanos durante 150 anos, podemos traçar um gráfico que ilustra as idas e vindas desse comércio e afirmar, por exemplo, que “do ano X ao ano Y o tráfico cresceu, mas do ano Y ao ano Z ele diminuiu”.
Mesmo conceitos tão óbvios quanto crescer e diminuir só podem ser formulados se tivermos registros confiáveis sobre as quantidades, ao longo de um período de tempo aceitável.
A passagem do abstrato para o concreto tem mais a ver com a literatura. Uma coisa é a professora perguntar ao pirralho: “Zezinho, quanto é 15 dividido por 3?”. Ou o guri estudou tabuada ou não vai saber responder. Mas ela pode criar uma pequena obra de ficção. “Zezinho, uma mulher foi ao mercado e comprou quinze chocolates. Ela tem três filhos, e, para que eles não brigassem, teve que dar a mesma quantidade a cada um. Quantos chocolates cada um deles recebeu?”.
Motivado por essa pequena tensão dramatúrgica, o guri é capaz de entender não só a possibilidade como também a importância de se dividir quinze por três; e faz a conta.
Grande parte da literatura nasce assim, de uma idéia abstrata que ocorre ao escritor enquanto ele fuma cachimbo (“A sociedade de consumo despersonifica os seres humanos, e faz com que eles vejam uns aos outros como meras mercadorias...”) e a partir disso ele começa a escolher personagens-função: este aqui vai ser o Capitalista Inescrupuloso, aquele outro vai ser o Trabalhador Ingênuo, esta vai ser a Companheira Solidária, aquela outra a Intelectual Egocêntrica...
O problemas das idéias abstratas é que não produzem narrativas que pareçam com a vida humana. Produzem alegorias, histórias em que os personagens são tão programados e previsíveis quando um zumbi de videogame.
(Os videogames, aliás, estão padecendo desse mesmo mecanicismo, que estraga as Utopias Proletárias, as Fábulas Cristãs e outras narrativas que nunca saem do abstrato).
sábado, 26 de fevereiro de 2011
2490) Drummond: “Poema do jornal” (26.2.2011)

A TV nos acostumou ao conceito de ver as coisas “ao vivo”. Copa do Mundo ao vivo era uma sensação, para quem antigamente escutava pelo rádio, e somente dias depois via as imagens (péssimas) na TV e tinha que esperar semanas ou meses pelo Canal 100. Mas a Internet nos acostumou ao conceito de “tempo real”, que é a mesma coisa, mas com uma distinção importante. A TV ao vivo dá uma sensação de imagem coletiva, compartilhada pelo mundo. A Internet em tempo real, por ser no computador, dá a sensação de que alguém está transmitindo aquilo só para mim. Lembro que na Guerra do Iraque, em 2003, passei uma madrugada inteira acordado, acompanhando no computador uma imagem “em tempo real” da invasão da cidade natal de Saddam Hussein, cujo nome agora me escapa. Num carro (ou num tanque?) a câmara percorria uma longa estrada, cruzava um portal, enfiava-se pelas ruas... E eu sem sono, acompanhando aquilo.
Um dos sintomas da Modernidade é a contemporaneidade com os fatos através da telecomunicação. O primeiro sinal disso na obra de Drummond é o “Poema do jornal”, do livro Alguma Poesia, onde essa idéia explode logo nas primeiras linhas: “O fato ainda não acabou de acontecer / e já a mão nervosa do repórter / o transforma em notícia”. Por um lado, é o triunfo da tecnologia, da capacidade de integrar as vidas pessoais à comunicação global. Por outro, é o conúbio duvidoso entre o crime e a notícia, porque a simultaneidade entre os dois é tão grande que desperta a nossa desconfiança. Se o sujeito estava tão presente ao fato, por que não o impediu? Continua Drummond: “O marido está matando a mulher. / A mulher ensangüentada grita. / Ladrões arrombam o cofre. / A polícia dissolve o meeting. / A pena escreve”.
Vejam que maravilhosos anacronismos, rupturas do espaçotempo. Os gerúndios se amontoam, tudo acontece no tempo presente: o crime, o grito, o arrombamento, e enquanto isto quem escreve não é o teclado do notebook, é “a pena”, a boa e velha pena abastecida em tinteiros do século 19. Modernidade e tempo-do-onça comem e bebem na mesma mesa, na poesia modernista. Será que Drummond escrevia com uma pena? Será que no tempo dele caneta-tinteiro era high-tech? (Aliás, vale registrar que o anglicismo “meeting”, na linguagem da época, era o que hoje chamamos de “manifestação” ou “ato público”).
O poeta encerra dizendo: “Vem da sala de linotipos a doce música mecânica”. Os linotipos, ao que parece, entraram em nossa imprensa por volta das décadas de 1880-90. Eram high-tech, quando “Alguma Poesia” foi impresso. Imagino que Drummond terá experimentado a mesma sensação que eu sentia aos 15 anos quando descia à oficina do jornal em que trabalhei e via aquelas máquinas imensas, sentia o cheiro de chumbo derretido, e escutava o estralejar contínuo das pequenas linhas-de-tipo sendo compostas. Aquilo era quase ficção científica; hoje seria, no máximo, uma nostalgia steampunk.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
2489) “O Discurso do Rei” (25.2.2011)

O arrastão do Oscar acaba me levando todo ano para ver alguns filmes que não me tirariam de casa em condições normais de temperatura e pressão. O que acaba sendo uma boa coisa, porque se deixarem um cinéfilo entregue ao seu próprio gosto ele vai se restringindo e se especializando cada vez mais. Em breve se limitará a ver somente um gênero, depois só um diretor, depois um único filme, depois uma única cena... Não, melhor deixar-se de vez em quando carregar pelo gosto alheio e dar uma checada no mundo lá fora.
O Discurso do Rei de Tom Hooper (diretor que nunca vi mais gordo) acaba sendo um exemplar agradável daquele gênero que Hollywood talvez tenha criado, O Antagonismo Inicial Que Resulta Em Amizade Profunda. O provável (e depois efetivo) Rei da Inglaterra, George VI, é gago. Como vai poder se dirigir ao seu povo, agora que inventaram o maldito rádio, onde o sujeito tem que falar ao vivo, não pode receber os benefícios de uma edição que suprima seus vacilos? (É curioso ver como os personagens de 1930 pronunciam com reverência e fascínio a palavra “wireless”, num tom que só retornaria com a Internet, 70 anos depois.) Ele contrata um especialista meio informal que é uma mistura de fonoaudiólogo, psicólogo e treinador de futebol. O especialista dá um sacode no Rei e deixa-o em condições de discursar.
Em termos de estilo e linguagem, é um filmão tão tradicional quanto os ambientes por onde circula: Palácio de Buckingham, Abadia de Westminster... Não sei se é fiel à “verdade histórica”, porque antes dele eu só conhecia os fatos muito por alto. O roteiro é cruel com o Rei Edward (que abdicou em favor de George) e com a desquitada norte-americana Wallis Simpson, pelo amor de quem ele renunciou ao trono. O retrato que o filme faz dela, especialmente, é de uma acidez impressionante. Tudo para contrapor melhor os temperamentos de Edward (expedito, resoluto, mas que baqueia diante de uma sirigaita) e de George (tímido, tartamudo, mas que se ergue à altura da situação quando necessário). Como dramaturgia emocional, funciona. A verdade histórica (seja lá qual for) acaba de ser recoberta por mais uma espessa camada de fantasia coletiva.
Colin Firth (o Rei) se sai muito bem, mas eu gosto mesmo é do ator Geoffrey Rush, com um personagem mais cheio de nuances do que o Rei, irreverente, pouco ortodoxo, mas também com suas limitações e pontos-cegos. Firth faz uma interpretação heróica de um personagem tecnicamente difícil (não é brincadeira gaguejar com espontaneidade, quando não se é gago) mas unidirecional. Rush pega um personagem que ninguém conhecia, ajudado por um roteiro perceptivo (a relação dele com a mulher e os filhos, mesmo pouco explorada, é bem interessante) e o enriquece. Nos filmes em que um especialista cura um problemático, em geral o especialista fica meio na sombra. É virtude do roteiro e de Rush que neste caso seja (pelo menos para mim) o contrário.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
2488) “O Retrato de Dorian Gray” (24.2.2011)

As sincronicidades são as rimas da vida real. Estão para ela assim como a simetria está para as artes visuais. No cinema temos dois tipos de rima. Podemos cortar entre imagens parecidas com idéias diferentes: em Viridiana, Buñuel corta de uma coroa de espinhos para um disco tocando na vitrola; em 2001 Kubrick corta de um osso flutuando no ar para uma nave flutuando no espaço. Ou podemos cortar entre imagens diferentes com idéias parecidas: Hitchcock corta de um casal na cama para um trem entrando num túnel.
Costumo ler livros e ver filmes sem planejamento, mas sem dúvida existe um impulso subterrâneo me levando a procurar obras que, quando justapostas, produzem uma fagulha. A fagulha do presente caso foi produzida pelo fato de, enquanto estou relendo O Médico e o Monstro de R. L. Stevenson ter assistido o DVD de O Retrato de Dorian Gray de Albert Lewin, adaptando o livro de Oscar Wilde. Estes dois textos são clássicos do romance fantástico vitoriano e são, por assim dizer, duas variações sobre o mesmo tema. Algo que poderia ser expresso no antigo slogan da série O Sombra, de Maxwell Grant: “Quem sabe o Mal que se oculta no coração do homem? O Sombra sabe”.
Em ambos os casos, um respeitável cidadão britânico mantém uma fachada de indivíduo exemplar enquanto se dedica a prazeres indescritíveis e crimes imperdoáveis. No livro de Stevenson, ele o consegue através de uma poção que o transforma fisicamente em outra pessoa, um corpo físico que corresponde a uma parte de sua mente onde habitam os “baixos instintos”. No de Wilde, essa divisão é simbólica: Dorian Gray pratica os piores excessos e ao longo dos anos permanece jovem e belo como sempre, ao passo que é seu retrato quem envelhece e decai. Há certamente outras obras com perfil semelhante, mas eu diria que, principalmente no mundo de língua inglesa, estas duas novelas tão curtas criaram o padrão para as histórias de dualidade entre virtude aparente e pecado oculto.
Somos tentados a dizer que isso é a cara da Londres vitoriana, mas os exemplos contemporâneos mostram que a coisa vai mais longe. Talvez os mais conhecidos sejam Psicopata Americano (livro de Bret Easton Ellis, filme de Mary Harron) e Clube da Luta (livro de Chuck Palahniuck, filme de David Fincher). Em ambos, um sujeito extremamente comum e enquadrado no mundo corporativo desenvolve uma segunda personalidade agressiva, sádica e impossível de controlar, um “monstro do Id”, instinto puro, auto-gratificação pura. Nestas obras ficamos sabendo em detalhe quais os atos escabrosos praticados pelos modernos Dr. Jekyll e Dorian Gray, atos que a discrição da época não permitia aos escritores mostrar de maneira gráfica, explícita. Ainda somos vitorianos. Mesmo na mais permissiva das sociedades, ainda existe espaço para a cisão da personalidade entre um “cidadão acima de qualquer suspeita” e um monstro – ou, como disse Olavo Bilac, “um demônio que ruge e um deus que chora”.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
2487) “A Mulher que Enganava a Lua” (23.2.2011)
Por obra e graça de Glauco Mattoso, que conhece minhas idiossincrasias literárias, chegou às minhas mãos este livro fora-de-esquadro, de autoria de A. Dari, publicado em São Paulo, 1984.
A edição é avara em informações, mas a foto na quarta capa deve ser do autor – um sujeito de seus 30 e poucos anos, moreno claro, cabelo preto, nos fundos de uma casa ou apartamento, sorridente, abraçado a um cãozinho.
Não li o romance ainda, que é uma espécie de ode ao “eterno feminino”, e se inicia com um preâmbulo laudatório, cujo primeiro parágrafo transcrevo a seguir:
“Revestida de uma divindade milenar, de natureza fugitiva e universalmente perseguida, a mulher, retilínea em suas atitudes, deixa-se flutuar em seu enigma, arrasta a sua existência a decantar a sua sensualidade e, ainda que as décadas ligeiras imprimam em suas faces as marcas indeléveis que inibem a vaidade, ela persiste em querer as ternuras pré-fabricadas”.
Não pense o leitor que todo o livro é um prolongamento desse enunciado; há personagens, há ação, como neste trecho, colhido meio ao acaso, na página 79:
“Às duas e dez daquela manhã cinzenta, apática e emburrada, peguei Kelvia pela cintura e a levei para visitar algumas vitrinas. Segui em curtas passadas pela Regent Street. Lembrei-me de que ali em 1978 eu vi a minha imagem refletida numa vitrina e atrás dela desfilava sem pressa Jadranka e sua secreta fantasia. Um minicab inquiriu: ‘Awaiting a taxi?’ Disse que preferia caminhar”.
Bom, se não percebeu ainda, aqui vai: A Mulher que Enganava a Lua é um livro escrito sob “contrainte”, sob uma limitação voluntariamente estabelecida pelo autor. No caso, é um livro em que não aparece a letra “O”.
Eu sou fascinado por essas façanhas, e acho um prodígio que o sujeito faça um livro com (no presente caso) 141 páginas, onde o “O” não apareça uma vez sequer. Lembro o exemplo clássico de Georges Perec, que fez um livro (La Disparition, 1969) sem usar a letra “E”.
Mas Perec e sua editora dão um migué, um drible de corpo, nas restrições. Na edição da Gallimard, que tenho em casa, o texto é impresso em tinta preta mas os “complementos” são impressos em vermelho, e neles aparecem o nome do autor e outros detalhes que não prescindem da letra E (como o nome do selo da editora, Denoël).
No livro brasileiro, amigo, a lei é jagunça. A letra O não aparece nem por decreto. Vejam estas informações técnicas:
“A. Dari – C.P. 19.217 – S. P. – Capital – É vedada a réplica textual, parcial e integral, sem a prévia anuência de A. Dari – Aplicáveis as penas da lei – Printed in Brazil”.
Cada informação destas é uma profissão de fé: “serei fiel à regra que criei...” Este é o verdadeiro espírito de quem escreve sob “contrainte”. Até Perec, em seu livro de 318 páginas, teve que fazer pequenas concessões!
Glauco me avisa que o mesmo cara publicou um livro sem a letra “A”, que já comecei a caçar. O único problema é saber como o autor conseguiu assiná-lo.
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