quarta-feira, 11 de novembro de 2009

1358) Gerúndios e eufemismos (21.7.2007)



Não sou o primeiro, e tomara que não seja o último cronista a falar sobre o mal do gerundismo que vem tomando conta da nossa língua. Refiro-me ao uso desnecessário de verbos auxiliares introduzindo uma forma do verbo principal no gerúndio. Em vez de dizer “Eu vou lhe telefonar amanhã”, a criatura diz “Eu vou estar lhe telefonando amanhã”. É um vício que acomete principalmente as secretárias, as telefonistas, as moças do tele-marketing e assim por diante. Contaminação de uma das piores pragas que assolam este país: o inglês mal traduzido. Transplantam para o português uma concatenação de verbos totalmente desnecessária. E vejam lá, eu nem estou sendo muito exigente. Bem poderia dizer que o certo, certo mesmo, é “telefonar-lhe-ei” amanhã – mas eu não sou doido. Uma forma assim, típica do português, é inacessível ao Q.I. desse pessoal. Mais fácil do que o português correto é o inglês mal traduzido.

Nesse procedimento patético existe um outro aspecto sutil e bem intencionado. Certa vez liguei para uma empresa onde eu precisava fazer um pagamento, acertei os detalhes, e no final da ligação a moça perguntou: “Então o senhor vai estar fazendo o pagamento amanhã?” Percebi que a intenção dela era uma intenção eufemística, ou seja, ela queria usar uma forma amenizada, suavizada, para não parecer agressiva. Provavelmente a intuição dela lhe disse que pareceria muito brusco perguntar: “Então o senhor vai pagar amanhã?” Seria uma maneira direta demais de usar esse verbo tão nu, tão explícito; seria uma ida-aos-finalmentes sem preliminares e preparações que suavizassem o processo. “Estar fazendo” é uma forma diluída de “fazer”.

Isto me parece ter lógica, porque no dicionário das secretárias e telefonistas em geral vale uma lei não-escrita, a da atenuação compulsória. (Digo não-escrita por desinformação; vai ver que existem dezenas de manuais ensinando isto, todos eles vendendo mais do que meus livros.) Deve-se sempre, no trato telefônico, utilizar essas formas suavizadas. Uma telefonista nunca nos pede para “esperar”: é sempre para “aguardar”. Por que? Porque “esperar” é a forma mais simples, mais popular, mais direta. Lembra o jeito despachado e um tanto rústico com que o Povo se trata; é preciso colocar um sinônimo que seja classe-média-alta. E aí as telefonistas dizem “aguardar”, e não “esperar”. “Enviar”, e não “mandar”. “Retornar”, e não “voltar”. “Recordar”, e não “lembrar”. Evitam os verbos demasiado crus, demasiado diretos, que dizem sem rebuços o que querem dizer; e privilegiam os verbos de tom mais diplomático, mais rodeativo, que dão à linguagem telefônica um leve toque de pseudo-sofisticação. Entendo tudo isto, mas entendam também meu imenso desânimo quando a secretária do médico me pergunta: “O senhor vai estar vindo?” Essa junção de verbos incompatíveis só me passa a imagem de um sujeito caminhando sobre uma esteira rolante que desliza na direção contrária.

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