sexta-feira, 11 de março de 2016

4073) Andrei e Kalina (12.3.2016)



(ilustração: Marc Chagall)

Os dois dizem ser russos de nascimento (Ele: “Minha infância foi em preto e branco. Descobri a cor quando vi o mar, com quatro anos.”), emigrados na infância (Ela: “Eu não lembro de nada, amorrr, me trouxeram vendidona, passiva, quando eu soube que existia já era brasileira”). Só vieram a se conhecer no Brasil, já brasileiros e cariocas ambos, numa festa da faculdade, onde se esbarraram (Ele: “Alguém esbarrou em mim e minha bebida derramou na roupa dela, e quando percebi estava tirando a roupa dela para que ela não pegasse um resfriado”), se apresentaram, se maravilharam um com o outro, se envolveram e não se largaram mais. (Ela: “O segredo de segurar um marido, amorrr, é um só em qualquer idioma.”) 

O pai de Andrei era engenheiro aéreo e ganhava um belo salário, além de uma nota preta com umas geringonças que ele e uns colegas inventaram. (Ele: “BT, grava o que eu tou te falando: Enquanto eu estiver no trono, o reino é de vocês. Não esqueça isso, e me cobre.”) A família de Kalina se estabeleceu no Nordeste, somente os pais dela que preferiram o Rio. (Ela: “Eles gostaram dessa sacanagem daqui, meu amorrr, eles gostaram de viver num lugar onde não se batalhava meses para chegar aos finalmentes, cê entende?”). Andrei era um cara enorme, terno, emotivo, mas podia ficar violento de um segundo para outro. (Ele: “O cara da mesa ao lado foi grosso com o garçom. Eu não pretendia dar aquele prejuízo ao dono do restaurante”). Os dois eram meio infiéis um ao outro, discutiam em altas vozes e meia hora depois estavam aos beijos (Ela: “A mulher tem que ter pose de rainha, inclusive quando está amassando os culhões de um sujeitinho que não presta, como esse meu, que nunca vai prestar, só se salva porque eu o amo.”).

Julian Jaynes, neurologista famoso, afirmava que os dois povos com maior tendência paranormal no mundo são os russos e os brasileiros, por motivos que ninguém sabe explicar (Ele: “Quando eu era menino era capaz de descrever um lugar apenas tocando com a ponta do dedo no nome dele num mapa”). Talvez isso tenha influído no encontro e no casamento deles dois. (Ela: “Encontro não, amorr, eu e ele estamos nos reencontrando depois de mil anos, porisso esse frisson, essa loucura”) Talvez todo caso de amor bem sucedido (são mais do que se imagina, e menos do que seria justo) possua (além dos elementos habituais de sexo, carinho, simpatia, gostos em comum) um pouco de paranormalidade, de metempsicose e vidas passadas, de telepatia, de clarividência, alguma Faculdade X que dormita em nossa mente e que é ativada pela presença daquela pessoa tão mais improvável entre todas, ou tão gritantemente inevitável e única.






quinta-feira, 10 de março de 2016

4072) Minhas leituras (11.3.2016)



(ilustração: Félix Vallotton)


Vejam o lado ruim e o lado bom de ter uma coluna num jornal. As pessoas publicam numa rede social (tipo Facebook) posts falando de literatura, música, cinema, etc. Publicam na rede e são lidos por milhares, dezenas de milhares, seja lá quanto cada um tenha. (Não se sabe: são números tão pouco confiáveis quanto os dos famosos livros numerados, dos famosos CDs numerados; nunca se saberá quantos foram feitos.) Já um sujeito que tem coluna no jornal se dirige de outro modo a esses seus leitores de ponto-de-ônibus.

Digressão: existe um Arquétipo do Inconsciente Jornalístico segundo o qual todo artigo de jornal é lido num ponto-de-ônibus, sob sol escaldante ou chuva torrencial, e tem que ser lido até o fim para pagar a tinta e o papel que o tornaram legível. Um livro é lido numa sala à meia-luz, com música suave ao fundo, um vinho, um momento-gurmê qualquer. O artigo de jornal tem que brigar com a fila do banco, a espera do busão, a contagem regressiva no dentista. Tem que se sobrepor a tudo isto.

Então, vamos, em primeira mão. (Depois do jornal vai para o blog, depois vai para as redes sociais.)

1) “Autores que nunca li”: Leon Tolstoi, William Faulkner, André Malraux, Homero, Virgílio, Ovídio, Dante... A lista é heterogênea, mas lembro de muitas ocasiões em que pairava uma sensação de “ou lê Fulano ou não merece conversar com a gente”. 

2) “Não sinto vontade de ler”: Eu tenho umas birras literárias do tipo “jamais lerei Fulano”, mas são birras, podem ser juridicamente pisoteadas de acordo com minhas venetas. Posso ler qualquer autor; prioridades são outra coisa.

3) “Não conheço ninguém que tenha lido, mas eu amo”: eu poderia falar no poeta-cientista Miroslav Holub, mas quem mo trouxe foi mestre Régis Frota. Digamos então R. A. Lafferty, que nem o pessoal da FC conhece direito. 

4) “Último que li”: Good Omens (Terry Pratchett e Neil Gaiman). A saga do Anticristo como se fosse escrita por Douglas Adams e filmada pelo Monty Python.

5) “Leria tudo de novo”. Espero ainda reler por inteiro cada história que já li de Guimarães Rosa. 

6) “Autores que tocaram meu coração”: gente que me emociona até hoje, mas nunca entrou no cânone literário: A. J. Cronin (Anos de Ternura, A Cidadela), Giovanni Guareschi (as histórias do Padre Don Camilo e do comunista Peppone), Anne Frank, Conan Doyle, Maurice Leblanc.

7) “Todo mundo gosta, menos eu”: é o mesmo caso da pergunta 2. Em princípio, ninguém é indigno de mim como leitor. Não por falta de autoestima; é que um leitor também não deve se valorizar demais. Leitor tem que ser capaz de se misturar com qualquer gentona ou gentinha. 

8) “Uma indicação”: Raymond Queneau.





quarta-feira, 9 de março de 2016

4071) "Good Omens" (10.3.2016)



Produzir um romance escrito a quatro mãos por Neil Gaiman (o criador de Sandman) e Terry Pratchett (o criador de Discworld) é um pouco como conseguir uma turnê mundial de vários meses juntando duas grandes bandas de rock. A questão não é tanto se os dois têm talento, é como fazer para que as coisas que cada um sabe fazer melhor possam sobressair, e deixar impressão mais forte do que a impressão de tédio inevitavelmente produzida pelos longos períodos em que apenas uma faixa da audiência estará sendo satisfeita e subindo pelas paredes, e os 90% restantes do público estejam achando aquilo sem pé nem cabeça e perguntando: “Mas o que diabo isto está fazendo aqui, e com que função?”.

Este romance em parceria é uma recontação da história famosa de Damien (do filme Omen, a Profecia), o novo Anticristo, a quem cabia nascer na família de um cônsul norte-americano (deixando-o a um grau de acesso ao poder), protegido por um mastim infernal, e tornando-se o desencadeador do Armagedon. No romance picaresco de Gaiman/Pratchett, dá-se a obrigatória troca de bebês. Parece que nem a introdução dos clones no século 21 fez os roteiristas pararem de escrever sobre troca de bebês.  E o Anticristo vai parar numa família totalmente diferente.

O humor do livro, que envolve tudo quanto é categoria religiosa e hermético-oculta, é uma espécie de O Pêndulo de Foucault com material mais light mas com ambições dramatúrgicas mais amplas. Trata-se, afinal, do Fim dos Tempos, conduzido pelo Anticristo e pelos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Claro que há agentes do Bem e do Mal com variados motivos para sabotar o evento (“Não Vai Ter Armagedon!”). Por sorte, dois dos mais entusiasmados defensores da pecadora humanidade são um demônio (Crowley) e um anjo (Azirafale) que conviveram conosco tempo bastante para entenderem que a vida dos seres humanos de carne e osso é alguma coisa imensuravelmente mais complicada do que conceitos como o Bem e o Mal – vistos naqueles termos.

Li pouca coisa de Terry Pratchett, mas imagino que haja mais a mão dele do que a de Gaiman neste livro, cujos milhares de piadinhas satirizando a vida inglesa lembram muito a série Discworld. É uma forma leve de humor satírico e mordaz, como a série Mochileiro das Galáxias.  Foi também a estréia de Gaiman no romance, e certamente o ajudou a tentar a literatura. Nada de mau em ser roteirista de HQ, mas quando um escritor tem qualidades de romancista é sempre bom ver os resultados. Good Omens (1990) é divertido, mas Gaiman o superaria com facilidade depois, principalmente com Neverwhere, American Gods, Graveyard Book.








terça-feira, 8 de março de 2016

4070) Jorge de Lima (9.3.2016)



A prudência manda desconfiar de biografia escrita por amigo do biografado. Todo amigo é suspeito. Não porque tenda a “falar bem” do biografado. É porque teve envolvimento pessoal com aquilo. Já tem uma versão, e tem a sensação de que ela brotou de um consenso entre ele e o biografado. Todo amigo de um famoso, ao biografá-lo, ganha um pouquinho de tom de quem se julga meio dono dele, numa atitude de “eu sei disso, eu era amigo dele, estava lá e vocês não, vocês não podem questionar”.

É o que contamina às vezes livros como os de Robert Shelton sobre Bob Dylan, de Max Brod ou Gustav Janouch sobre Kafka, de Estela Canto sobre Borges, de Carlos Povina Cavalcanti sobre Jorge de Lima (Vida e Obra de Jorge de Lima, Rio, Correio da Manhã, 1969).  O autor era amigo de infância do poeta, ligado por laços de família, tiveram convivência constante na vida adulta. A vantagem é poder dar preciosas indicações sobre contexto, e confirmar detalhes. A desvantagem é ter de ferver no mesmo caldeirão a biografia escrita e a imagem pública que cultivava do biografado, seu compadre, seu parente até. Não digo isso para denegrir o esforço, mas para mostrar o quanto ele já começa em desvantagem, mesmo que pareça ser o contrário.

Jorge de Lima é autor de inúmeras coisas bonitas em poesia (O Grande Circo Místico) e prosa (nunca li seus romances), mas para mim é acima de tudo o autor de Invenção de Orfeu, uma espécie de Divina Comédia inspirada em André Breton e Georges Bernanos. Devia ser aberto ao acaso e lido, um poema por dia, aí quando o cara se tocar, enxerga o céu todinho.

Jorge e Murilo Mendes foram nossos grandes surrealistas, e pagaram caro por terem sido surrealistas cristãos, um oxímoro tão escandaloso quanto “dadaísmo greco-ortodoxo”. Resultado: em JdL e MM os cristãos se escandalizam com as libertinagens imagéticas do surrealismo, e com o eventual anarquismo erótico; e os surrealistas se entediam com a imageria cristã e as recorrentes fórmulas devocionais. Cristianismo e Surrealismo eram, quase cem anos atrás, talibanismos contrapostos. e não haveria de ser dois brasileiros que conseguissem fazê-los funcionar juntos, poeticamente. Pra mim, ambos conseguiram, mas quem sou eu?

Figura misteriosa, o Jorge de Lima de Povina, sempre solícito e generoso, ausente num “stream of consciousness” permanente. Um brasileiro que passou em branco pela política (deputado estadual em Alagoas, vereador no Rio), mas não pela Medicina. Há traços comuns de personalidade entre ele, Guimarães Rosa, Conan Doyle, outros escritores-médicos que se detiveram diante de um Umbral cruel e reconheceram haver ali um Corte místico entre dois mundos.



segunda-feira, 7 de março de 2016

4069) Karl May (8.3.2016)




Quando eu era pequeno eu via na vitrine da Livraria Pedrosa a coleção dele encadernada em marrom, e reconhecia títulos elogiados por Tio Cláudio ou Tio Stélio: Winnetou, Na Terra do Mahdi.  Karl May foi uma espécie de Julio Verne alemão, e há quem diga que era um dos autores preferidos de Adolf Hitler. Talvez não muito honroso para o autor, mas compreensível. May escreveu alguns ótimos livros de aventuras, e se eu os achei ótimos, por que qualquer outra pessoa não poderia achar? Não li esses dois aí em cima, mas Entre Abutres e Pelo Curdistão Bravio, de cujos enredos não recordo praticamente nada, eu tive na memória durante anos como os melhores dele.

Eram tribos de tuaregues no deserto, caçadores esquimós na Lapônia, árabes de metrópoles exóticas, pele-vermelhas na rota do Oeste. Karl May tinha a mesma mentalidade catalográfica de Verne, mas sua geografia era de gabinete e de biblioteca, onde ele escrevia mediante mapas e livros de referência. A verossimilhança ajuda, mas não é disso que se trata, é de ter histórias de fato aventurescas para contar. Além de Verne, May é do time de Rafael Sabatini, Stevenson, Kipling, até mesmo Conan Doyle e Wells, com histórias movimentadas de homens rudes envolvidos em missões, conflitos, perseguições, vinganças, libertações, ajustes de contas. Em ambientes exóticos, meticulosamente pesquisados e com muitas fichas para transcrever.

Enquanto lia os seus livros (que acho que saíam pela Melhoramentos) minha imagem dele era o rosto barbudo de Karl Marx, porque sempre que eu procurava um no dicionário dava de cara com a foto do outro. 

Já confundi também Orson Welles e H. G. Wells, até por conta das obras de ambos sobre os marcianos.  Os dois “quase parentes”, em 1940, se cruzaram numa mesma cidade (San Antonio, TX) e gravaram um programa de rádio (YouTube e arredores). O inglês pergunta ao colega mais jovem como é o filme que ele está realizando, Orson diz: “É um novo tipo de filme, com um novo método de apresentação, e alguns novos tipos de experiências técnicas, e novas maneiras de narrar um filme”.

Como seria Karl May filmado por Orson Welles?  Talvez não pelo Welles jovem, genioso, encharcado de hubris até o talo, que dirigiu Kane, mas por aquele senhor histriônico, charuto em punho, muito culto, grisalho contador de histórias “tongue in cheek”. Talvez um Winnetou do velho showman Welles virasse o Lemmy Caution de Alphaville, que em Godard é um espectro brechtiano do “polar” original.  Mas história de aventuras é sempre uma história que o leitor precisa levar a sério, precisa de plausibilidade (e cada narrativa coloca esse sarrafo numa altura diferente).





sábado, 5 de março de 2016

4068) Os cantos coletivos (6.3.2016)



Uma vez um jornalista meio esperto questionou um músico da banda Sepultura, perguntando: “Você acha que as platéias conseguem entender as letras das canções que vocês estão urrando?”  E ele disse: “Rapaz, quem vai num show da gente já sabe aquilo tudo de cor”. Disse bem, porque quando estou vendo um show realmente grande, com som de estrondar, uma das coisas que mais gosto é de cantar a plenos pulmões. Não para ser ouvido. Canto pelo prazer de cantar, que faz tanto bem ao corpo e à mente quanto dançar. Nem toda música é para berrar junto, claro. Mas a música-de-berrar-junto tem propriedades terapêuticas que são só suas.

E mais uma coisa. Eu diria que 90% das pessoas no mundo são bastante desafinadas. Não, digamos: dois terços. Não, digamos: mais da metade.  Enfim, os desafinados devem ser maioria, e quando largados ao seu próprio entusiasmo para puxar um parabéns-pra-você acabam, como disse Torquato Neto, desafinando o coro dos contentes. Mas essas pessoas num show de rock podem se esgoelar em “Jumpin’ Jack Flash” ou num show de samba com “Foi um Rio que Passou na Minha Vida” sem pagar mico algum, porque o som é ensurdecedor e o cara pode até dar uma viajada, e achar que aquilo que está saindo das caixas de som é ele que está emitindo.

Experiências de campo, conduzidas em condições de rígido controle, me provaram que em mesa de bar, bloco de carnaval e torcida de futebol para cada 100 pessoas cantando basta haver umas 20 ou 30 de gogó possante e afinação segura. Essas pessoas puxam o canto sustentando um padrão tonal contínuo, e as vozes mais semitonantes acabam meio que se aglomerando à sua volta. Se esses 20 ou 30 pararem juntos, desanda tudo. Fiz a experiência.

Os desafinados também têm um coração, e fazem no canto coletivo a sua terapia. Os sem ritmo também. Não havendo percussão de instrumentos, são as vozes que ditam sozinhas o tempo e o andamento, indo ao fluxo natural das frases cantadas, sem uma marcação fixa. Wagner Tiso declarou certa vez que tinha dificuldade em estabelecer uma marcação rítmica constante nas canções de Milton Nascimento, porque a voz, a melodia e as frases seguiam apenas seu próprio formato, sem parecer se encaixar num “metrônomo” externo a elas. Isso é coisa do canto religioso, que muitas vezes amolda sua cadência às longas caminhadas dos romeiros, ou dos cantos de trabalho, que se amoldam aos movimentos repetidos do corpo.  Já emissões vocais como a do aboio prescindem de ritmo, sua vocação é alongar-se, prolongar-se em notas longas entre as quais se intercalam sílabas de canto, escandidas com muita intensidade e pouca pressa.




sexta-feira, 4 de março de 2016

4067) Os ilustradores (5.3.2016)



Meu pai colecionava dicionários, mantendo aliás uma competição ferrenha com Átila Almeida, professor de matemática da UFPb e pesquisador de cordel. Dois dos seus pais-dos-burros preferidos eram o Lello Universal (que ele tinha na edição pequena, e eu décadas depois consegui na grandona) e o Dicionário Prático Ilustrado de Jayme de Séguier, que era como um amigo íntimo da família. Depois de muito manuseio ele resolveu encadernar o Séguier, separando-o em dois volumes. O que me parece até hoje um sacrilégio, mas ele gostava por isso mesmo, porque era prático.

Havia neles pranchas de página inteira mostrando só peixes, ou só armas de fogo, ou só bandeiras, ou só esportes, ou só flagelos da natureza. Outras mostravam um ambiente vasto, uma paisagem repleta de pessoas, animais, plantas, utensílios, veículos... A legenda: “Austrália” ou “Floresta Tropical”.  O ilustrador compactava num único quadro a óleo o DNA simbólico daquele país ou paisagem.

Walter Benjamin (“Livros Infantis Antigos e Esquecidos”, 1924) diz: “No final do século XVIII, aparecem livros ilustrados com a seguinte característica: uma grande variedade de coisas, que não têm entre si qualquer afinidade figural, são impressas numa única página. São objetos que começam com a mesma letra: amora, âncora, agricultor, atlas. Os vocábulos correspondentes são traduzidos em uma ou várias línguas estrangeiras. A tarefa do artista era semelhante à do desenhista barroco quando combinava objetos alegóricos numa escrita visual (...)”.

Eram aqueles retratos pintados por Arcimboldo: homens e mulheres feitos de frutas, de pássaros, de flores. Lembra também o delírio do “pirado” Ceferino de Cortázar (Rayuela), uma classificação das coisas do mundo pelas suas cores, o que faz o narrador comentar: “Que realidade deslumbrante (ou não) lhe mostrava cenas onde os ursos polares se moviam, em imensos cenários de mármore, entre jasmins do Cabo? Ou corvos em ninhos sobre um monte de carvão, com uma tulipa negra por cima...”

Regras tão belas como rimas, que são regras tão arbitrárias quanto qualquer outra. Um único conceito, arrebanhando elementos até então nunca aglomerados juntos sob um mesmo critério. Algo como os monovocalismos de Georges Perec ou de Christian Bok. Seres de uma só cor, de uma só vogal, de uma só inicial, de um só país, de uma só religião... (Não sei por que, estes últimos têm um peso específico realista demais, movedor-de-engrenagens demais.) Borges chamou a ordem alfabética de desordem alfabética. “Nesta imagem, tudo está ordenado por um só critério, um máximo divisor comum, pode ser uma letra, pode ser uma mesma história, pode ser uma cor.”





quinta-feira, 3 de março de 2016

4066) As ondas gravitacionais (4.3.2016)



Um dos maiores desafios para os cientistas que trabalham em regiões avançadas do conhecimento é explicar aquilo em linguagem comum. Não só para o famoso “leitor mediano” dos jornais. Falo em justificar projetos e justificar pedidos de verbas diante de administradores, políticos ou burocratas cujo conhecimento científico é dos mais rarefeitos.

A imprensa divulgou com alarde, há pouco tempo, uma descoberta relativa às ondas gravitacionais. Isso sempre me intrigou. Eu sempre admiti que a luz (ou melhor o fenômeno eletromagnético) pudesse ser visto tanto como uma manifestação de ondas quanto de partículas em movimento. Os cientistas diziam que as duas coisas, mesmo confirmáveis pela experiência, eram mutuamente excludentes. Ou era uma, ou era a outra. Como nos domínios da FC a gente está sempre a uma página de uma revelação portentosa, deixei a questão em aberto.

Ondas gravitacionais (ou as partículas gravitacionais, ou “grávitons”, com que a FC também já brincou), contudo, são outra coisa, se aceitarmos que a gravidade é mesmo uma curva no espaçotempo, a deformação produzida nele pela presença da matéria. Como captar isso e traduzi-lo para repórteres e para adolescentes que leem Asimov e Clarke? Scott Hughes, na London Review of Books (http://tinyurl.com/zddxsfu), explica a certa altura o que houve:

“Numa galáxia distante, muito tempo atrás, um par de buracos negros, cada um com mais de trinta vezes a massa do nosso Sol, entraram em órbita um em volta do outro. Durante as próximas centenas de milhões de anos, ondas gravitacionais geradas pelo seu movimento os fizeram girar em espiral, devagar a princípio, mas depois ganhando velocidade, chegando cada vez mais perto, até estarem rodopiando mais depressa do que as lâminas de um liquidificador. Acabaram colidindo, já a um terço da velocidade da luz, emitindo uma última rajada de ondas gravitacionais, antes de amainar e recolher-se à vida pacata de um buraco negro comum.”

A dinâmica das ondas gravitacionais fica registrada em nossos medidores. Pela Relatividade Geral, o tom (pitch) e a força da onda mudam, se a fonte proceder assim ou assado. Escutando o LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory) podemos dizer (diz Hughes) que um sistema é bem pesado, porque o sinal se encerra numa vibração inferior à do Dó mediano do piano. Se o sistema fosse mais leve (com menos massa) as ondas terminariam em nota mais aguda. Ele comenta que a astronomia sempre foi uma ciência visual, tudo que se fazia era analisar imagens. Agora, a vibração sonora é uma metáfora aceitável para comparar as novas leituras dos novos aparelhos. Ora, direis, ouvir estrelas.





quarta-feira, 2 de março de 2016

4065) A vingança do careta (3.3.2016)





Existe um gênero de narrativa que poderíamos chamar “Bandidos Negligentes Ofendem Sem Querer Pai-de-Família Pacato Transformando-o Numa Verdadeira Máquina De Matar.” Acho que já vimos muita gente nesse tipo de papel: Charles Bronson, Lee Marvin, Mel Gibson, Walter Matthau, Sylvester Stallone, e por aí vai. É uma narrativa que sempre promete. A vingança é um prato que se come frio, e é o melhor exemplo de violência auto-justificada no universo da Literatura da Crueldade. Um malfeito grave, sofrido tempos atrás (principalmente em contexto de covardia, contra pessoas indefesas, etc.) justifica qualquer requinte sádico capaz de ocorrer ao Pai-de-Família Pacato para aplicação nos culpados. Opção que ele nunca descarta.

Uma faísca disso que me apresentaram recentemente foi o romance de Jean-Patrick Manchette, Le Petit Bleu de la Côte Ouest (1976). Nele, Georges Gerfaut é um francês de trinta e poucos anos, casado, duas filhas pequenas, caretão, executivo. Uma noite ele retorna de uma viagem de negócios e vê na estrada um acidente banal, com um dos automóveis fugindo às pressas e o outro se espatifando fora da estrada. Ele desce, traz para seu carro o passageiro único do carro acidentado, visivelmente ferido e em choque. Gerfaut deixa o homem na emergência de um hospital na vila mais próxima, mas só então percebe que ele tinha sido baleado. Era uma execução, na qual ele se meteu sem querer. O homem baleado acaba morrendo, mas nesse ponto a narrativa passa a acompanhar os dois pistoleiros que estavam no outro carro. Eles conseguem identificar quem ajudou a vítima (alguém havia anotado a placa de Gerfaut).

Começam aí dois movimentos contrários, como o ir e vir de um pêndulo ou da katana de um samurai. No primeiro, mais longo, os dois assassinos “fecham” sobre Gerfaut, para eliminá-lo, e quase o conseguem. Gravemente ferido, ele é dado por desaparecido pela família, mas vai se recuperando dos ferimentos num esconderijo remoto, com a mesma paciência de Augusto Matraga. Quando fica bom, é localizado, e aí começa o movimento inverso: ele passa a perseguir seus perseguidores.

Jean-Patrick Manchette (1942-1995) era um fã de jazz (como Gerfaut) e do “roman noir” norte-americano. Seus livros são chamados de polares (=romance policiais, na França) existencialistas. Este romance foi traduzido ao inglês, primeiro como 3 to Kill e depois como West Coast Blues; foi adaptado em novela gráfica por Jacques Tardis (2005), e no cinema por Jacques Deray (1980). É um daqueles enredos acidentados e cheios de solavancos de Bruno Fischer ou David Goodis, impregnados do absurdo de Albert Camus.



terça-feira, 1 de março de 2016

4064) "O Santo Sujo" (2.3.2016)



Lendo sobre o Modernismo brasileiro, conheci o nome de Jayme Ovalle como sendo o parceiro musical de Manuel Bandeira na canção famosa “Azulão”, uma pequena peça de melodia dolente e versos nostálgicos, que entrou no repertório de numerosos intérpretes do canto lírico. As leituras se ampliaram, e o nome de Ovalle começou a pipocar por toda parte. Não se encontra por aí um só livro dele, um só disco, mas todo mundo concorda ter sido ele uma espécie de anjo inspirador da boêmia modernista do Rio de Janeiro.

A biografia O Santo Sujo - a vida de Jayme Ovalle (Cosac Naify, 2008), de Humberto Werneck, tem uma pesquisa cheia de surpresas pitorescas, e a prosa rica e precisa do colunista do Estado de São Paulo. Werneck faz surgir a imagem de Ovalle como um escritor que não precisava de livro, poeta que esnobava poemas, músico para quem as canções eram mero efeito colateral da música, alguém capaz de inspirar a todos mas sempre deixando para depois a grande obra que parecia destinado a criar. Não muita coisa: vinte ou trinta canções líricas, um volume de poesias. Deixou, acima de tudo (como o Almotásim de Borges), seu reflexo nos que o cercavam, e o brilho desse reflexo nos permite imaginar a luz própria da pessoa.

Era grande fazedor de frases. “O câncer é a tristeza das células”, “o chato é o verdadeiro psiquiatra”, “a morte é a única coisa nossa; nosso nascimento, por exemplo, pertence aos nossos pais”. Não era um intelectual, era um intuitivo, místico, cheio de tiradas brilhantes, como um menino que presta atenção a tudo. Rezava muito, chorava com facilidade, apaixonava-se dia sim dia não. Era arquiteto de complicadas teorias estéticas, um terno sedutor de mulheres e um inflamado enfeitiçador de homens.

Era em imitação a Ovalle, diz-se, a mania de Vinicius de Moraes pelos diminutivos: “o poetinha, o uisquinho, o beijinho”. Vinicius foi um que, ainda jovem, se deixou fascinar pela maneira ovalliana de ser e de viver, a qual não impediu o “santo sujo” de ter sido a vida inteira um impecável e assíduo funcionário da Alfândega. Era na madrugada, onde florescem os talentos boêmios, que Ovalle desabrochava nas mesas de bar ou de cabaré, nas reuniões literárias onde era profanamente reverenciado por Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Aníbal Machado, Di Cavalcanti, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos... A lista é longa e cobre várias décadas. Um desses amigos, Dante Milano, assim o descreveu: “Tudo o que pretendia fazer era prodigioso, mas não se dava ao trabalho de realizar. Não podia, não havia tempo. Cada dia para ele era um novo dia diferente, cada noite era outra noite; um momento para ele era uma existência total”.