segunda-feira, 30 de novembro de 2015

3984) Os enganos da memória (29.11.2015)



Há uma história sobre um rapaz distraído que quando foi à Alemanha lhe pediram que levasse uma encomenda para uma tal de Dona Erda. Um mês depois, ele bateu à porta do chalé e perguntou por Dona Osta. 

Nossa memória é vulnerável a esses pequenos atos falhos, que segundo algumas teorias são todos propositais. Embora não sejam propriamente nossos. São das criaturas trancafiadas que existem em nós, invisíveis para nós, e que somos nós. Toda vez que a gente erra, um desses avatares está querendo nos dizer alguma coisa.

O Padre Massote, diretor e professor da escola de cinema da UCMG, era jesuíta, muito falador, discorria muito bem sobre tudo, porque lia muito e adorava cinema. Pertencia, a certa distância, àquela corrente mista de cineclubismo e igreja católica que no Nordeste teve também um papel tão importante. 

Massote exibiu para nós, seus alunos, Un Chien Andalou e L’Âge d’Or, dizendo: “Vocês têm que ver isso, porque Buñuel é um dos maiores do mundo, apesar do infantilismo ateu dele. Mas não amarra a chuteira de Antonioni”.

Uma vez ele estava falando, provavelmente sobre economia de linguagem, sobre sintetizar uma cena inteira numa imagem, e disse: “Você pode dizer tudo em uma simples frase. Drummond fez um poema para a cidade de Nova Friburgo que diz apenas: ‘Um cravo na lapela’”. 

Anos depois me caiu sob os olhos esse poema. O poema diz, na verdade: “Esqueci um ramo de flores no sobretudo”. É Nova Friburgo também. A memória emotiva de Massote não lhe faltou, nem a visual, porque ele apenas reduziu o que lembrava; e o que disse está essencialmente certo, poeticamente certo.

Quantas vezes já me pediram para contar a história de um filme que eu vi dez anos atrás e eu contei, mas pintando um filme novo por cima do que eu não lembrava? Era uma mentira? Talvez, mas não pelo prazer de mentir, e sim pela vertigem de inventar, e nem quem dela é capaz pode definir o mistério que tem.

O pensamento abomina o esquecimento, tal como se diz que a Natureza “tem horror ao vácuo”. É preciso preencher aquele não-espaço. E cada vez que a gente pensa num verso, numa melodia, num diálogo, numa lembrança da vida real, a gente está na verdade abrindo um arquivo, mexendo nele, e salvando, com alterações. Nossa memória pode até ter o Ur-documento de tudo, a memória-prima de cada recordação, um filminho total para cada momento “x, y, z” guardado até hoje num Fort Knox de segurança máxima nos subterrâneos da mente. Mas está soterrado por décadas de reedições dele mesmo, revistas e melhoradas. Toda lembrança é uma história de ficção baseada numa história real da qual se perdeu o registro.




domingo, 29 de novembro de 2015

3983) O inimigo de fora (28.11.2015)



No sábado era festa de São Gedeão, no domingo as cavalhadas; as festas mais populares ali em Aramoabe, no coração do Curimataú. Pois foi nesse sábado que a notícia caiu como um raio num trono de ferro. Epitacinho do Hotel anunciou ter recebido uma reserva para vinte pessoas, mais equipamentos e bagagens, a partir “de primeiro de março do ano que vem”. Como ainda estavam em junho, o assunto deu o que falar, rendeu mais do que as cavalhadas propriamente ditas, de onde era difícil tirar uma conversa nova. Nem Epitacinho tinha jamais recebido tanta gente numa carrada só como também nem sabia que era possível alguém reservar um hotel com semelhante antecedência.

No domingo, um hóspede atendeu por acaso o telefone do balcão (era de casa, morava no hotel há anos, sem pagar) e chamou Epitacinho: “Ei, Pita, é do Rio de Janeiro, os rapazes que vêm fazer o filme sobre São Gedeão”. Ele talvez tivesse esquecido tudo se Epitacinho não se precipitasse estrepitosamente de lá de dentro, esbarrando em móveis, para arrebatar o fone da mão dele. Bem feito. No outro dia, do renque da cavalhada à roda-gigante não se falava noutra coisa.

Um surto de patriotismo ofendido tomou conta de Aramoabe. Os cariocas estão pensando o que? Que o santo é deles? Na manhã da segunda, câmara de vereadores, clube de diretores lojistas, lideranças religiosas e sindicais, todos se deram as mãos. Epitacinho foi forçado a fornecer o fone de contato que recebera. Ligaram e quem disse estar do outro lado foi um tal de Douglas. Sim, era produtor de cinema. Sim, um filme sobre o santo. O melhor filme brasileiro do ano que vem. Vamos botar Aramoabe no mapa do mundo, das grandes produções internacionais.

Era no viva-voz; Simas de Seu Nô pulou mais para perto e bradou que Aramoabe era citada em duas enciclopédias brasileiras e uma fora, tinha seis agências bancárias e merecia mais respeito. Seguiu-se o que um jornal local, “A Trombeta”, chamou no dia seguinte de “balbúrdia” e o editorialista de “charivari”. Autoridades que usaram do receptor garantiram terem sido ofendidas em sua honra “pelo carioca ixperto”.

Telefonemas febris, um projeto arquivado na secretaria é trazido à luz e assoprado (“só preciso atualizar os valores”, garantiu o jovem e assustado diretor), verba liberada do fundo de perdidos e achados, o poço mais sem fundo da contabilidade. Vetos enérgicos foram telegrafados ao tal Douglas. Em poucos meses, o elenco começava a decorar os papéis, a equipe estava a postos, e Epitacinho, co-produtor-executivo, mandava uma caixa de uísque para o ator carioca que contratara para essa boa ação em nome do cinema brasileiro.




quinta-feira, 26 de novembro de 2015

3982) "Outro" de Augusto de Campos (27.11.2015)



Outro (Ed. Perspectiva, 2015), o novo livro de poemas de Augusto de Campos, é um dos mais visuais do autor, trazendo em cada folha dupla uma experiência de dissolução e recombinação do texto em efeitos de cores, formas, estruturas, desmontagens, paralelismos, alternâncias de imagem e função. Augusto foi um dos primeiros poetas que vi usar a antiga letra-set para compor cada poema numa fonte gráfica com letras diferentes. Agora, são efeitos visuais mais sofisticados, de textos que se entrelaçam, que giram em espiral. Tem muita gente que não gosta, mas eu acho bonita essa concretude que se dá à palavra, à letra, cravando-a com peso em cima da página. Como Paulo Leminski, que fazia fotografar e ampliar letras datilografadas até ficarem com 2 ou 3 cm de altura na página. Às vezes a fonte é tão rebuscada que ler as palavras vira uma decifração vagarosa e (im)paciente.

Muita gente aproveitou alguns efeitos do concretismo para fazer suas próprias experiências de desmontar e remontar os Legos das palavras, discípulos formais ou informais de Augusto, como Glauco Mattoso, André Vallias, Paulo de Toledo, Arnaldo Antunes, Tom Zé etc. Eu faço uma poesia completamente diferente da de Augusto de Campos mas ainda bem que isso não me impede de ver nessa poesia um caminho possível, entre tantos outros. Um dia podemos vir a ter uma prosa concretista no dia-a-dia, projetada em 3D à nossa volta, com blocos de textos surgindo soltos no ar como hologramas de lojas.

Há uma subdivisão do livro apenas com efeitos de imagens, trocadilhos ou rimas visuais comentadas. Um muito simples, mas eloquente, foi o que mostra andando lado a lado na rua dois homens de terno preto, em duas fotos muito conhecidas dos leitores de cada um. As fotos são emolduradas acima e abaixo pelas palavras: “passos em lisboa / anjos em pessoa”. Isso é um poema? Tanto faz se é poema ou não, para mim é um fragmento literário de impacto tão simpático quanto o de um cartum ou de uma foto artística ou qualquer outra forma pseudo-instantânea de arte.

A poesia de Augusto e dos seus colegas concretistas é um cabo-de-guerra permanente entre fragmentação e discursividade. Comparado ao seu irmão Haroldo, já falecido, Augusto é de um laconismo extraordinário. As Galáxias de Haroldo têm os mesmos jogos de sonoridade do Concretismo, só que diluídos numa prosa caudalosa e aliterada, de onde Caetano Veloso tirou a letra de “Circuladô de Fulô”.  Augusto só é loquaz quando senta-se à mesa de tradutor, de investigador cheio de teorias, de defensor ardoroso do talento alheio. O tradutor seria capaz de recriar um livro inteiro da Bíblia, mas o poeta escreve um hexagrama e pronto.




quarta-feira, 25 de novembro de 2015

3981) A cegueira do expert (26.11.2015)





Um especialista vê certas coisas com uma nitidez absoluta, à custa de não enxergar outras que estão até mais próximas. São como as câmeras fotográficas que focam num detalhe e deixam todo o resto do ambiente num borrão de contornos difusos. 

A mente do especialista funciona como certos exames clínicos. Você pega uma amostra de sangue e quer saber se o paciente tem a doença X. Coloca alguns reagentes, etc., e tem o resultado. O paciente pode até ter as doenças Y e Z, mas como o exame não estava buscando essas duas ele “passa batido”, sem percebê-las. A busca é específica, direcionada, cega para todo o resto.

Na coletânea Blackwood’s Tales of Treasure, um capítulo fala de garimpeiros de ouro que acham minério de prata mas não o reconhecem, pois não era o que estavam buscando. Eles largam tudo e vão embora. 

Do mesmo modo, muitas descobertas científicas são feitas meio por acaso em cima de dados ou materiais já recolhidos por outras pessoas, que, no entanto, foram incapazes de olhar aquilo com o olhar correto. 

Thomas S. Kuhn, em A Estrutura das Revoluções Científicas (Ed. Perspectiva, 1982) exemplifica com o caso do átomo de hélio visto por um químico e um físico eminentes. “Para o químico, o átomo de hélio era uma molécula, porque se comportava como tal desde o ponto de vista da teoria cinética dos gases. Para o físico, o hélio não era uma molécula porque não apresentava um espectro molecular”.

Einstein dizia que a ciência do seu tempo precisava mais de perguntas novas do que de respostas certas. As perguntas velhas eram sempre respondidas corretamente. O que fazia falta era uma maneira nova de olhar os fenômenos – justamente o que Einstein fez, com menos de trinta anos. 

Jacob Bronowski, em seu ótimo Ciência e Valores Humanos (Ed. Itatiaia/EDUSP, 1979, trad. Alceu Letal) refere o caso de um alpinista que resolveu escalar o Everest não pelo lado que mais conhecia, o norte, mas pelo lado sul, que era familiar ao seu guia.

Diz ele: 

– À medida que subíamos o vale, vimos no topo a linha divisória principal de águas. Reconheci imediatamente os picos e as depressões que nos são tão familiares do lado norte. (...) É curioso que Angtarcai, que conhecia essas características do outro lado tão bem como eu, e tinha passado muitos anos da sua infância a pastorear bois selvagens neste vale, nunca os tenha reconhecido como tais; nem mesmo hoje, salvo quando os indiquei a ele. 

É como uma moeda, que parece algo totalmente diferente olhada por um lado e pelo outro. Quando estamos condicionados para reconhecer ou para procurar somente uma coisa, corremos o risco de não achá-la se a imagem avistada não for a que esperávamos ver.












3980) "Número Zero" (25.11.2015)



Este romance mais recente de Umberto Eco é quase uma continuação de O Pêndulo de Foucault (1988), livro que achei muitíssimo saboroso mas que decepcionou muitos leitores, os quais, ao que parece, esperavam algum tipo de continuação de O Nome da Rosa (1980). O Pêndulo mostrava um grupo de editores pouco escrupulosos envolvidos com conspirações esotéricas: o romance deste ano mostra um grupo de jornalistas pouco escrupulosos envolvidos numa conspiração política. Eco está com 83 anos. Enquanto o livro mais antigo tinha (na edição em inglês que possuo, tradução de William Weeaver) 533 páginas, o mais recente (na edição da Record, tradução de Ivone Benedetti) tem 207. É menos divertido, menos barroco, menos delirante, mas o bom-humor, a ironia e a enciclopédica prosa do autor estão lá.

Os personagens de Número Zero são aqueles jornalistas calejados, cínicos, meio fracassados, que topam escrever qualquer coisa desde que descolem a grana do aluguel, da gasolina e da geladeira. O jornaleco é financiado por um comendador de interesses onipresentes e de envolvimentos escusos, que monta o pasquim para servir de instrumento de pressão e chantagem contra seus adversários políticos. Colonna, o narrador, é um desses teclado-de-aluguel, tão conhecidos por quem é do ramo, ansiosos para que alguém lhes faça uma proposta indecente. Ao entrar na redação acaba tendo um caso com Maia, uma redatora jovem e meio perdidona. Juntos, os dois acompanham a investigação de um terceiro personagem, Bragadoccio, que está aos poucos levantando uma concatenação meio fantasiosa de fatos históricos poucos relevantes mas que podem resultar na mais sensacional revelação política da Europa pós-II Guerra Mundial.

Eco trabalha, nesses romances, no subgênero das  “Fantasias da História”, em que fatos universalmente conhecidos recebem novo contexto através da invenção ficcional. Autores como Tim Powers, Kim Newman, Thomas Pynchon, Salman Rushdie, Stephen King, Don DeLillo e outros usam extensivamente, cada um com suas fórmulas, essa mistura de fatos documentados e interpretações imaginárias. É o terreno da paranóia e das “teorias da conspiração”. Bertolt Brecht (cit. por Ernest Mandel, Delícias do Crime) descreveu assim o processo: “Por trás dos acontecimentos que nos são narrados, suspeitamos de outras ocorrências sobre as quais não fomos informados. Estas são as verdadeiras ocorrências. Somente se soubéssemos poderíamos entendê-las. Somente a História pode nos informar sobre essas ocorrências verdadeiras – pelo menos até o ponto em que os atores não conseguiram mantê-las em total segredo. A História é escrita após as catástrofes”.




segunda-feira, 23 de novembro de 2015

3979) Eu me lembro 7 - BH (24.11.2015)



(Edf. Niemeyer, Belo Horizonte)

Eu me lembro dos doces de leite cortados em forma de losango que a gente comprava no balcão dos botequins. Eu me lembro de quando tiraram as cabeças dos políticos que ornavam a Praça Sete e as colocaram no Parque, junto a uma quadra, onde o pessoal chutava e a bola rebatia nas cabeças das estátuas. Eu me lembro que numa sala da Escola de Cinema havia rolos e mais rolos do copião de “Terra em Transe”, de onde cansei de cortar fotogramas, e vinte anos depois a imprensa do Rio ficou sabendo desse material e celebrou a descoberta.

Eu me lembro que havia um consenso entre os estudantes da Católica que o melhor bandejão era o da escola de Arquitetura da Federal, que ficava numa esquina da rua Paraíba. Eu me lembro dos militantes da TFP andando pela cidade, erguendo seus estandartes vermelhos com leões dourados e bradando nos megafones. Eu me lembro da placa onde está escrito: “Da vida social / na porfiada liça / ao lado do dever / e ao lado da justiça.”

Eu me lembro do dia em que Chacrinha foi fazer uma palestra no diretório dos estudantes e disse que as chacretes eram “escolhidas a dedo”. Eu me lembro da sala de projeção da Escola de Cinema, que ficava no subsolo do edifício e era chamada A Cinematoca. Eu me lembro do meu desnorteamento inicial quando eu pensava que as ruas do centro eram paralelas, e às vezes as ruas iam se distanciando à medida que a gente avançava numa delas.

Eu me lembro das estátuas na prefeitura, na Av. Afonso Pena, dos três homens suportando colunas sobre os ombros, às quais dediquei um poema (ainda estão lá). Eu me lembro que o primeiro filme que vi na cidade foi “Romeu e Julieta” de Zeffirelli, no Cine Acaiaca. Eu me lembro que antes de ir morar em BH eu vi na Enciclopédia Barsa uma foto do Edifício Niemeyer, e ao chegar lá descobri que a Escola de Cinema ficava bem em frente dele. Eu me lembro da minha confusão ao descobrir que os mineiros chamam mungunzá de canjica.

Eu me lembro das linhas de ônibus Circular 1 e Circular 2, que faziam percursos inversos, e quebravam o maior galho. Eu me lembro de quando comi a primeira feijoada no Maletta e achei estranhíssimo colocarem laranja dentro do feijão. Eu me lembro da Rádio Cultura, cuja vinheta (“Cul-tura!”) se erguia no meio da música quando a gente menos esperava. Eu me lembro de uma viagem no inverno, quando o ônibus fez uma parada em Itabirito e eu vi pela primeira vez minha respiração produzir uma fumacinha como no cinema. Eu me lembro de Darlan Richard, um hippie cabeludo que vivia pelas ruas, cantando: “Cara ou coroa, palitinho ou par-ou-ímpar... Meus pés ‘tão sujos, mas a consciência limpa!”




sábado, 21 de novembro de 2015

3978) Como comprovar o mundo (22.11.2015)




(ilustração: Wendy MacNaughton)

O filósofo Markus Gabriel (autor de Why The World Does Not Exist, http://tinyurl.com/nk9yge6) reconhece a dificuldade em provar conceitualmente que o mundo existe, embora isso nos pareça óbvio.  Se bem que nem tanto. Qualquer passagem por um estado alterado de consciência, pela aplicação de drogas ou por algum surto psicótico, mostra que mesmo a solidez material do mundo se evapora com facilidade. 

O filósofo reconhece que nossa mente nunca poderá abarcar 100% do mundo real, mas sugere que ela trabalha com “campos de sentido” que são “domínios finitos de conexões significativas” e que a superposição desses campos, em nossa mente, produz uma impressão de espessamento da realidade. Nunca teremos uma certeza de 100%, mas a maioria de nós maneja uma percentagem que dá para tocar o barco.

É algo parecido com certas funções matemáticas que, quanto mais avançam rumo a um limite, mais lentamente passam a avançar, de modo que esse limite provavelmente jamais será atingido. Mas mesmos os micro-avanços ou nano-avanços dessa fase final já são alguma coisa, e na verdade não precisamos de uma certeza absoluta para viver. Só quem precisa disso são os filósofos; é requisito da profissão. 

Às vezes questionamos nossa certeza sobre o Mundo Real invocando aqueles sonhos que nos dão uma impressão intensa de realidade. No meio do sonho, temos a mais completa certeza de que aquilo está acontecendo mesmo. É uma certeza mental tão grande que produz resultados físicos sem estimulação física, como pode atestar qualquer pessoa que tenha experimentado um orgasmo durante um sonho erótico.

Acontece que nossa certeza no sonho é um “campo de sentido” limitado, que exclui o mundo material à nossa volta. Dormindo, acessamos a biblioteca-de-babel do nosso Inconsciente, mas o que ganhamos em intensidade perdemos em amplitude. 

Acordados, a proporção se inverte. Passamos a atuar num conjunto muito amplo de “campos de sentido”, o qual inclui nosso corpo, os cinco sentidos, nossa casa, outras pessoas, coisas, o universo material. E temos todo o direito de afirmar, como afirmo agora, que essa realidade é mais próxima de alguma “realidade última do mundo” do que o universo solipsista da minha mente adormecida. (Literariamente, acho o mundo do sonho mais verdadeiro, mas esta é outra questão.)

Dizer que duas coisas (eu e o mundo, p. ex.) existem significa, para mim, que as duas estão num mesmo plano de interação, onde algum tipo de influência mútua é possível. 

Como dizia Ariano Suassuna, se você e uma onça faminta estiverem num mesmo plano de interação, não fique pensando que o filósofo Kant não o autoriza a atestar que a onça é verdadeira: corra!




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

3977) Música e contexto (21.11.2015)



Muitas obras de arte tornam-se beneficiárias ou vítimas de um contexto qualquer, e passam a ter um significado diferente do que tinham. Uma canção, muitas vezes, é vinculada a um contexto que seus autores absolutamente não previam, e vê-se arrancada de seu significado original, passa a significar outra coisa. Uma canção meio obscura que é usada num programa de sucesso, por exemplo, acaba ficando o resto da vida associada ao significado que ganhou ali. 

O samba de Luiz Bandeira “Na cadência do samba (Que bonito é)” (http://tinyurl.com/p8gmb7w), que era usado nas famosas coberturas de futebol do Canal 100, na gravação da orquestra de Waldir Calmon, acabou se tornando uma espécie de hino não-oficial do futebol no Brasil. Onde quer que essa música venha a soar, todo mundo (ou pelo menos quem viveu aquela época, como eu) pensa logo em futebol.

“In the Hall of the Mountain Kings”, de Edvard Grieg (aqui: http://tinyurl.com/bjn7348), da ópera “Peer Gynt”, ficou definitivamente associada ao filme de terror depois que foi usada na trilha sonora de “M, o Vampiro de Dusseldorf” de Fritz Lang. Soando aquelas notas, brotarão de nossa memória dezenas de situações de perigo ou ameaça que essa musiquinha inocente, sem querer, veio a sublinhar.  

O mesmo vale para a famosa “Cavalgada das Valquírias” de Wagner (http://tinyurl.com/nxgb76l), que teve muitas utilizações no cinema, nenhuma tão marcante quanto a da cena dos helicópteros bombardeando o Vietnam com napalm em “Apocalipse Now” de Coppola. 

E nem vou me deter muito no “Pour Élise” de Beethoven, que por percursos insondáveis acabou virando em nossas cidades o tema musical do caminhão do gás.

Claro que há canções que são feitas quase que propositalmente em função de um contexto não-musical, não-estético, mesmo que satisfaçam a esse requisito (=sejam boas canções).  É o caso de canções políticas, engajadas, feitas com uma certa intenção de se colar a esse contexto: clássicos tipo “Caminhando” de Vandré, “Blowin’ in the Wind” de Bob Dylan, “Le déserteur” de Boris Vian e outras. São canções que pretendem se beneficiar de um contexto social onde o autor tem quase certeza de que a música terá imediata repercussão. 

O curioso é quando essas associações de idéias são criadas aleatoriamente, recobrindo a música, principalmente a música erudita de séculos atrás, de um contexto que jamais passaria pela cabeça dos seus compositores. Imagino a surpresa dos autores de “Assim falou Zaratustra” ou de “Carmina Burana” se vissem a multiplicidade de contextos a que suas composições são associadas hoje em dia, simplesmente pelo impacto melódico e sonoro que produzem.








quinta-feira, 19 de novembro de 2015

3976) O mundo não existe (20.11.2015)



Why The World Does Not Exist é o título irresistível de um livro do filósofo Markus Gabriel (Polity Press) resenhado aqui: http://tinyurl.com/nk9yge6

Discutir a existência das coisas parece ao leigo uma falta-de-ocupação às custas do erário (muitos que o fazem ganham salários em universidades públicas). Mas há uma questão sutil. Se formos incapazes de provar com rigor filosófico a existência do mundo, algo que nos parece tão óbvio (ou “evidente por si mesmo”), como poderemos provar verbalmente a existência de fenômenos mais controvertidos? Descartes tentou ressetar esse problema com seu “Penso, logo existo”, mas ele é como uma árvore podada que logo volta a crescer. 

Na verdade, não queremos saber se o mundo existe, e sim se dispomos de ferramentas filosóficas confiáveis para provar se alguma coisa existe ou não. Markus Gabriel comenta: 

“Seria esquisito se alguém, em resposta à pergunta ‘Ainda tem manteiga na geladeira?’ respondesse dizendo: ‘Sim, mas tanto a manteiga quando a geladeira na verdade não passam de uma ilusão, uma construção humana. Na verdade, nenhuma das duas existe. Na melhor das hipóteses, não temos como saber se existem ou não. De qualquer modo, bom apetite!”.

Isto me lembra uma comparação divertida de Ariano Suassuna (a quem esses questionamentos filosóficos não eram estranhos). Discutindo a afirmação de Kant de que não podemos afirmar a existência de algo exterior a nós, Ariano dizia:  

“É muito fácil discutir se aquele jasmineiro, se a imagem daquele jasmineiro, corresponde ou não ao real. O jasmineiro está quieto, no canto dele. Mas eu garanto que, se fosse uma onça que entrasse aqui, nem Kant iria perguntar se por acaso se tratava de uma correspondência com o real.” 

Markus Gabriel afirma: 

“Se pensamos no mundo, o que entendemos é algo diferente do que queremos entender. Nunca podemos entender o mundo em sua totalidade. Ele é, em princípio, grande demais para ser abarcado pelo nosso pensamento. O mundo, em princípio, não pode existir, porque ele não pode ser encontrado no mundo”. 

O filósofo encontra uma maneira de compensar essa impossibilidade de abarcar o mundo total.  Diz ele que o que existe de fatos são “campos de sentido” onde percebemos as coisas, que são “um domínio finito de conexões significativas”. 

Esses campos de sentido (em alemão Seinfelde, num trocadilho com o sitcom da TV Seinfeld) podem abarcar infinitas coisas, inclusive, diz ele, coisas que são reais apenas porque pensamos nelas (existem, mas no plano das idéias): “elfos, bruxas, armas de destruição em massa em Luxemburgo e unicórnios no lado oculto da Lua vestindo uniformes da polícia”.




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

3975) Palavras raras (19.11.2015)



Reunião de condomínio é sempre um saco. Eu só vou quando convocado oficialmente pelo síndico. Aí é mais um-saco ainda, tipo ontem. Se queixaram do som alto, do entra-e-sai durante a noite, da saia curta de A, do cabelo rasta de B, o trelelê de sempre.  A madame do 205 ergueu o dedo no ar, discursou, falou que era um absurdo, que alguma providência tinha que ser tomada, e por aí foi. Quando terminou eu fiz uma cara compungida e falei: “Está bem, está bem, afinal de contas estamos numa gerontocracia.” Ela entreparou, ajeitou o cabelo e disse: “Obrigada.”

Dona Lurdes ficava de vez em quando em pé de guerra quando via o Dr. Aurélio gastando demais com ternos caros, uísques importados, e principalmente sua coleção de jogos de xadrez de marfim, de jade, de pedra-sabão. Ele ria, dizia que tinha direito àquilo, ganhava bem. Uma vez ela disse: “Você só compra isso para se gabar diante dos amigos.” Ele respondeu: “Meu amor, todo homem tem direito a um sonho na vida.” Ela disse: “Aurélio, pare de tergiversar.” Os olhos dele se arregalaram e ele a abraçou, exclamando: “Sabia que eu sou doido por você?!”

Era um debate entre estudantes, com revindicações à reitoria, críticas à grade curricular, e tudo o mais. A certa altura um rapaz de cabelo ruivo encaracolado pediu a palavra e disse: “Temos que marcar posição, precisamos reunir massa crítica para exercer pressão, mas me preocupa ver que os nossos colegas, em sua grande maioria, permanecem abúlicos.”  Houve um breve e interminável segundo de assimilação, mas logo um rapaz de barba preta ergueu a mão no ar e disse: “Não somente abúlicos, estão todos catatônicos.” Foi o começo de um boa amizade.

Quando alguém visitava a casa de Filipinho, e os pais dele sentavam de roupa trocada, fazendo sala, havia sempre um momento em que alguém olhava o retrato do avô dele na parede, com seu uniforme. Perguntavam quem era, a mãe de Filipinho explicava que era o pai dela. “Ele era oficial do exército?”, perguntavam sempre. E a mãe dizia, num tom meio casual: “Sim, ele era anspeçada.”  Filipinho não lembrava de alguém jamais ter perguntado o que era. Ele mesmo não tinha.

Estávamos tomando umas e outras na ampla varanda do apartamento de Vasco Teixeira, o conhecido publicitário. A conversa girava em torno de dinheiro. Um falava nos investimentos bancários, outro confessou ter conta na Suíça, “coisa pequena, por enquanto, mas coisa honesta”, outro mencionou mercados futuros e bolsa Nasdaq. Alguém perguntou: “E você?”  Eu dei um gole e falei: “Eu vivo do meu estipêndio.” Deu um branco geral, tela-azul em todo mundo. Vasco acabou perguntando: “Mais uísque, alguém?...”