sábado, 28 de junho de 2014

3537) Vilões do passado (28.6.2014)



Se um cara é um grande artista, estou falando de artista grande mesmo, será que somos capazes de perdoar qualquer coisa politicamente incorreta que ele tenha feito no seu passado? (Esse conceito de politicamente correto/incorreto, aliás, está se expandindo exponencialmente, o que é um perigo.)  Na lista dos escritores politicamente apedrejados sempre aparecem Ezra Pound que teve simpatias pelo fascismo, Louis-Ferdinand Céline que era antissemita, e meia meia-dúzia de espantalhos habituais, que, como Guy Fawkes, conhecem a fama e o opróbrio na mesma medida.

Por exemplo: os escritores franceses colaboracionistas, cúmplices dos nazistas que invadiram o país e o sujeitaram durante alguns anos vergonhosos.  A Resistência Francesa foi uma coisa notável, mas ao mesmo tempo fomos ensinados a não achar que era tudo assim tão simples.  Em Hiroshima meu Amor, de Alain Resnais, vemos a violência e a humilhação a que é submetida uma mocinha que fica amante de um soldado alemão. Precisava mesmo, fazer aquilo tudo com ela?

As lealdades políticas já serviram para inflar carreiras artísticas ou literárias. e no mundo da esquerda isto já foi visto muitas vezes. O Partido decidia investir em determinados artistas e sufocar outros. Em alguns casos, tudo dava com os burros nágua, os exaltados resvalavam para o Limbo, os reprimidos explodiam em girândolas de idiomas. Vitória do Mercado?  Não, porque o mercado, como sempre, apenas corria a faturar um sucesso pré-existente.

Talvez no futuro nossos bisnetos vejam a briga ideológica entre a França de De Gaulle e a França da República de Vichy como uma mera dissensão entre iguais. Iremos todos para a mesma vala comum, misturando nosso DNA ao dos sacripantas contra quem lutamos a vida inteira. Estávamos todos (considerarão nosso bisnetos, à luz dos “ismos” em voga) no mesmo barco, o Titanic. Da literatura que produzimos só virá a se salvar o que ela tiver de literário, porque politicamente nos olharão com a mesma incompreensão com que olhamos os cristãos europeus da Renascença ou os fetichistas da natureza.

Chegará um momento em que será irrelevante dizer que Jorge Amado, George Orwell e David Siqueiros eram de esquerda; deles só ficará o que era seu e de mais ninguém. Pouco importa a linha ideológica a que se julgassem pertencentes. Tudo isso retrocederá para segundo plano à medida que os séculos passarem e eles forem vistos com outros olhos. Pouco importa o que acreditaram. Quem pode dizer para quem rezava Shakespeare quando não estava escrevendo?  Do ponto de vista de quem o lê, faz diferença se Fernando Pessoa acreditava mesmo em Deus ou não?


sexta-feira, 27 de junho de 2014

3536) A palavra friquitício (27.6.2014)



Numa destas colunas, dias atrás, usei o termo “friquitício” e pedi desculpas a uma parte dos leitores, avisando que explicaria o significado. De fato tentei fazê-lo, mas ficou sobrando um parágrafo; resolvi trazê-lo para uma página nova, e um novo título. É o caso em que uma mera nota ao pé da página é capaz de crescer até tornar-se uma coluna adulta. Se alguém perguntar como estes meus textos se reproduzem, podem dizer que é por divisão celular.

Friquitício é manha, exagero, fricote. Uma reação exagerada a alguma coisa. “Vou fazer um curativo. Deixe de friquitício, foi só um arranhãozinho besta.”  Usa-se muito com pessoas que fazem uma encenação de sofrimento exagerado quando, por exemplo, têm que tomar uma injeção, ou quando um dentista tenta esmerilhar seu sorriso ou cavucar-lhe as profundidades.  Pode ter origem em fricote, agitação, cena, drama, e pode também estar contaminado de “fictício”: inventado, falso. “Essa menina está com um machucão fictício”, disse um dia alguém de vocabulário mais amplo, e os que estavam em volta guardaram aquela palavra mágica cujo significado perceberam parcialmente.

É quase um sinônimo de “pantim”, palavra já comentada aqui: “Qualquer reação exagerada, artificial, ‘valorizando’ demasiadamente uma situação que não tem muita gravidade.” (Em http://tinyurl.com/m59zndo). Um fingimento, uma mentirinha, uma valorização no sentido que lhe damos no futebol: “Houve um esbarrão muito leve mas o atacante valorizou, caiu, está se contorcendo em dores...”

Friquitícios de toda ordem estão se sucedendo na Copa do Mundo. São habituais no futebol e se dirigem ao juiz, para induzi-lo à marcação de faltas. No grande futebol, com cobertura de TV, dirigem-se também às câmeras.  Hoje em dia, os jogadores são muito conscientes de estarem sendo filmados o tempo todo.  Erguem os braços para Deus, dizem palavras de ordem ou de fé de maneira exagerada para que o público possa fazer a leitura labial, exibem marcas de patrocínio de maneira fingidamente descuidada. E na hora do esbarrão, fazem o maior friquitício.

Tenho lido muita coisa sobre a Copa e observo que o que mais irrita os não-fãs de futebol é esse friquitício, esse pantim: “Ai, seu juiz! Ele me derrubou!”.  “Parecem um bando de mocinhas, de efeminados,” bradam leitores nos saites esportivos; “é revoltante a desonestidade e a cara-de-pau desses caras, que ganham salários milionários, e em vez de jogar ficam fingindo terem sido atingidos por um esbarrãozinho de nada, para conseguir punições para o adversário.”  E eu concordo.  No jogo de futebol, no campo, tem muita coisa chata, mas a mais chata é o friquitício.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

3535) Livros recusados (26.6.2014)






Em 2013, J. K. Rowling, autora de “Harry Potter”, publicou o romance policial The Cuckoo’s Calling, sob o pseudônimo de Robert Galbraith. O livro recebeu alguns elogios mas não esgotou a tiragem inicial de 1.500 cópias. Houve um vazamento, por indiscrição de uma das poucas pessoas que sabiam do segredo, e a imprensa investigou até comprovar que o livro era de Rowling. Na mesma hora, 140 mil exemplares foram impressos e vendidos num piscar de olhos.

É um assunto recorrente na imprensa cultural: o que aconteceria se um livro original de um autor famoso fosse submetido anonimamente a uma editora?  Foi o que aconteceu com Claire Chazal, apresentadora de TV francesa cujo romance L’institutrice fez grande sucesso em 1997. Em 2000 o jornal Voici enviou o texto do romance, atribuído a uma autora imaginária, a várias editoras, inclusive a Plon, que publicara o livro original. O título foi mudado para La maîtresse d’école, a ação foi transferida de Auvergne para a Lorena, e a personagem principal, que se chamava Jeanne Villard, teve o nome trocado para Charlotte Florange. Além disso, o parágrafo de abertura foi mudado – trouxeram para o início um trecho que no original aparecia mais adiante.  Foi o que bastou para que o livro fosse recusado, inclusive pela Plon, que publicou o romance original.

A revista explicou: “Queríamos demonstrar que os romances de autores estreantes que já são personalidades públicas recebem um tratamento especial que não é dedicado a um livro de estreante anônimo.”  O que me parece óbvio, aliás.  É o que eu faria se fosse editor.  Por que não investir mais num nome que já tem grande popularidade? O erro, no caso, é não haver na editora quem reconhecesse um livro publicado por ela mesma (e, nas outras editoras, ninguém capaz de reconhecer um romance de sucesso). Isso mostra apenas o quanto o trabalho editorial em grande escala é segmentado, fracionado, sem que A saiba o que está sendo feito por B.  Ninguém pode ler tudo. Ninguém tenta ler tudo.

Há outros casos recentes, em que livros até de V. S. Naipaul (que havia ganho o Prêmio Novel poucos anos antes) tiveram título e nomes dos personagens trocados, foram oferecidos sob pseudônimo a editoras, e nenhuma se interessou em publicá-los. Surpreendente? Absurdo?  Para mim, não. A leitura de uma obra é sempre influenciada pelo nome que assina a obra. Mesmo que seja para elogiar um desconhecido ou espinafrar um monstro sagrado, a assinatura está sempre sendo levada em conta. Na nossa cultura em que a autoria é garantida por lei, registrada em cartório e recompensada financeiramente, o nome do autor faz parte do texto.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

3534) Terra Oca (25.6.2014)




Era uma vez um planeta (o nosso) que era oco. Alguma coisa nas suas convulsões geológicas o deixara assim, e a velocidade com que girava tornava possível haver oceanos, continentes e mares não apenas no exterior da sua crosta sólida, mas na face interior dela também.  O oco interno era iluminado por um sol central de intensidade, tamanho, massa e variação cromática ideais.

Foram os homens de dentro, que em sua expansão, povoaram pela primeira vez o mundo de fora, até então entregue a feras descomunais. Brotaram do Polo Norte e desceram rumo a terras mais quentes. Alguns morriam com facilidade ao se aproximarem delas, mas outros pareciam despertar, redobrar de vigor. Ali se fincaram, ali esqueceram o trajeto dos seus ancestrais remotos. Pensavam mais na sobrevivência do que em ficar recitando as crônicas históricas de um mundo que não conheciam e de cuja existência não faziam questão.

Acostumados ao sol unânime e central do mundo de dentro, eles estranharam o mundo de fora. O sol girava sem parar, erguendo-se no primeiro abismo e pondo-se no último. Um sol rodopiante, descontrolado, num mundo sem paredes.  E nas horas em que o sol sumia, vinham horas espantosas cheias de terrores e constelações. E a tentativa de justificar a presença daqueles pontos de luz através de esferas, dentro de esferas, dentro de esferas, cada qual girando sobre si própria.

Existem pessoas que preferem um sol único, fixo, inalterável em si mesmo, podendo apenas ser oculto por invernos inteiros, mas confiadamente ali, onde sempre esteve e onde sempre deveria estar.  Um mundo em forma de esfera fechada. O que dizer das crises filosóficas de gerações de escribas teologais da Terra de Dentro, no século em que emergiram do outro lado do Poço, e descobriram que estavam pisando a superfície de uma esfera aberta?

Guerras por dissensão quanto a um axioma qualquer de teologia topológica. Impérios se ergueram, impérios tombaram.  Podemos descrever essa fase apenas em termos coletivos. Não há como saber se algum daquele filósofos (inteligentes, mas sem o instrumental de que se dispõe hoje) chegou a intuir mentalmente uma física, astronomia, geometria, etc. que pudesse se aplicar àqueles dois universos, a Terra de Dentro e a Terra de Fora.  Porque o mundo é binário, bipolar, contrário-complementar, oposto-simétrico.  O mundo não é apenas circular, esférico, concêntrico, harmonioso e uno.  Existe em nós a consciência atávica da existência de um mítico Aqui-Lá, um mundo com sinal invertido ao nosso, um mundo-do-espelho, um mundo de uma esfera fechada por paredes de matéria, que é o mundo primordial de onde viemos, e para onde tudo voltará um dia.


terça-feira, 24 de junho de 2014

3533) Clichê obrigatório (24.6.2014)





(George Raft em Scarface)



Quando Billy Wilder estava tentando filmar Pacto de Sangue, adaptando o romance de James M. Cain (Double Indemnity, 1943), foi oferecer o papel principal ao ator George Raft. 

Começou a contar a história do começo ao fim, e Raft perguntava repetidamente: “E a que altura aparece a lapela?”.  Wilder não sabia que lapela era essa e contou a história até terminar. Raft se espantou: “Então não tem lapela?”. E ele: “Que diabo é lapela?”  Raft: “Aquela cena em que o bandido vira a lapela do casaco, exibe o distintivo, e mostra que é da polícia ou trabalha para o governo, enfim, é um cara do bem.”  Wilde confessa que nunca ouvira essa gíria. 

Todo clichê é um velho amigo nosso, a prova disso é ver o quanto ele é bem recebido quando se apresenta: com simpatia, quase com alívio. 

Um clichê narrativo (“Acho que seria melhor dar uma olhada no porão para tirarmos qualquer dúvida”) é reencontrado com a mesma alegria de quando voltamos a um boteco simpático onde já fomos bem recebidos.  

Ou, mais rigorosamente, é recebido como algo sobre o qual já pensamos e que por isso achamos legal não precisar pensar de novo.

Comecei ontem a ler um romance qualquer e me dei de cara com dois bons exemplos.  

Um nobre sobe na charrete ou tílburi (é século 19) e diz ao seu cocheiro que siga para a rua tal. O cocheiro diz, nervoso: “Mas, senhor!  Foi lá que...” E o nobre o interrompe: “Silêncio!  Faça o que estou mandando!”  

Eu já vi essa cena dezenas de vezes, com Peter Cushing ou Vincent Price ou Basil Rathbone insistindo em ir, na calada da noite, ao local do crime, ao local de assombração, ao local do feitiço.

Em outra cena o personagem chega à casa de alguém e enquanto espera fica olhando um quadro na parede, e o descreve.  O parágrafo é cortado por um diálogo: “Gostou? Foi pintado por Fulano de Tal” – e o dono da casa aproxima-se por trás dele. 

Lembrei desta cena porque eu mesmo já a escrevi tintim por tintim, e só o fiz porque a lera mil vezes antes, ou a vira na tela do Babilônia ou Capitólio.

Esses pequenos efeitos narrativos, um dia, resolveram o problema de um escritor que precisava sugerir uma idéia ou dar dramaticidade a uma entrada em cena. Funcionaram, e funcionaram tão bem que continuam funcionando até hoje, nas mãos de qualquer um. 

Em geral, um clichê fica tão bem impregnado na nossa memória que acaba brotando no mais indesejável dos momentos, ou seja, quando começamos a escrever. Nesse momento crucial, o jovem autor precisa ter autodistanciamento e boa memória. 

E precisa ter por perto uma pessoa com credibilidade bastante e aproximação bastante para poder lhe dizer: “Velho, tire esse negócio aí, isso é o maior clichê.”







domingo, 22 de junho de 2014

3532) Ser soldado (22.6.2014)



Acho que a maioria dos soldados tornam-se soldados, pelo menos em desejo e fantasia, por volta dos cinco ou seis anos de idade.  Se bem me lembro, nesse período tudo que o camarada sonha na vida é ser tranquilizadoramente coletivo, e assim ser grande, ser forte, ser capaz de ser brutal, poder ver o medo nos olhos de quem o avista, poder empunhar aqueles instrumentos terríveis cheios de raios e trovões.  O menino quer ser um Deus atemorizante e invulnerável. Só o soldado é assim.

Ser soldado não é ser preparado apenas para matar, mas também para controlar o medo de morrer. Mais do que um poder sobre a morte, ser soldado implica num poder sobre o medo.  Uma das cenas mais vibrantes de um episódio recente de Games of Thrones ((HBO, cuja 4a. temporada terminou há poucos dias) é quando um gigante inimigo consegue arrombar a entrada de um túnel numa fortaleza, e cinco soldados da Guarda Noturna entram no túnel para detê-lo. O monstro é gigantesco, e quando se aproxima eles, aterrorizados e de armas em punho, gritam juntos o juramento que fizeram ao se alistar ali: “A noite está chegando, e minha vigília vai começar! Ela não chegará ao fim antes da minha morte! Eu nunca terei esposa, nunca possuirei terras, nunca terei filhos!  Nunca usarei coroa, e não conquistarei glórias! Eu viverei e morrerei no meu posto! Eu sou a espada da escuridão! Eu sou o sentinela no alto da muralha! Eu sou o escudo que protege os reinos dos homens! Eu dedico minha vida e minha honra à Guarda Noturna, nesta noite e em todas as noites que virão!”.  E partem para a batalha desigual.

Para uns, ser soldado evoca, de cara, a “licença para matar”, o apelo ao carcará sanguinolento que habita o inconsciente de toda pessoa civilizada.  Para outros, evoca a nobreza de mandar e a de obedecer.  Para outros ainda, a diluição-em-pixel numa estrutura maior, onde é possível obter anonimato e paz.  Para outros, há um trabalho a ser feito, alguém precisa fazê-lo, então que o faça bem feito, não importa a que custos ou sacrifícios. Para outros, é a escada mais curta para um trono.

Game of Thrones mostra soldados que quebram seus votos por causa de uma mulher. Soldados que correm o risco da morte, e mais, da desonra, mas não quebram a palavra dada.  Soldados que ganham todas as batalhas e perdem a guerra. Soldados pusilânimes em tempo de paz e heróis em campo de batalha.  Soldados cruéis que dos outros só esperam a crueldade.  Soldados que têm somente a mais vaga noção de por quê estão lutando, mas já que estão ali para lutar, tornam a luta em si a coisa mais importante de suas vidas, algo que faz valer a pena enfrentar a morte.


sábado, 21 de junho de 2014

3531) Tradução pessoal (21.6.2014)



Um tradutor de verdade é um homem preso.  Ele está preso a duas bolas-de-ferro-com-correntes que nem Janis Joplin seria capaz de arrastar. Em primeiro lugar, está preso à aceitação da existência de algum tipo de pacto supervisionador de tudo que ele irá colocar no papel. Pra ser mais exato, o tradutor é um homem preso a dois pactos.

O primeiro pacto é com o autor: “Prometo dar o meu sangue para que o leitor do seu livro em português tenha uma experiência estética que se equivalha à experiência dos que o leram no original; e que essas duas experiências distantes tenham tantos pontos de semelhança que dois leitores de duas versões possam conversar entre si uma tarde inteira e trocar impressões sem lembrar que leram livros diferentes, em línguas diferentes.” O segundo pacto é com o leitor, e é um pacto que pode ser, de um jeito meio irreverente, reproduzido como: “Comerás um gato, mas com um sabor-artificial-de-lebre no capricho.” Porque mesmo a melhor tradução não é a real coisa. a coisa-em-si.

O tradutor se resigna a vir atrás, a ser o “second best” , a ser o “quase-perfeito”, a tentar (tentar! conseguir é outra façanha!) acompanhar o original como a sombra acompanha um corpo em movimento. Isso é o que toda tradução tenta.  É possível? Não há como (estatisticamente) a frase brasileira acompanhar a métrica da frase inglesa, mas existe uma sensação mais ampla de ritmo, de arcos de ascensão, pico e descenso.  Dependendo do autor (porque há muitos onde essa precaução, infelizmente, é desnecessária) é preciso prestar atenção à sua música, tanto quanto ao seu sentido. Há uma certa música, nem que seja na sucessão de estruturas rítmicas bem amplas, recorrentes. E os breques, o muro de pedra.

Numa entrevista, Garcia Márquez diz mais ou menos que é preciso primeiro encontrar e depois manter a voz narrativa daquela história, e que muitas coisas que são ditas não têm grande importância factual, estão ali apenas para manter o ritmo hipnótico do tom e da cadência da voz que foi escolhida.

Esta é mais uma dificuldade para o leitor, e para o tradutor, que é leitor ao quadrado. Encontrar uma voz equivalente; mas equivalente exatamente a quê?  Se alguém for retraduzir Cem Anos de Solidão daqui a cem anos, em chinês, o que conseguirá passar para o lado de lá?  Talvez a saga e a tragédia dos Buendía passe, mas quem era aquela voz que contava tudo?  Será mantida no mesmo grau de distanciamento e intimidade?  Como reproduzir em chinês as mesmas nuances de entonação, de preferência vocabular, de rudezas gramaticais?  Dizer tudo o que foi dito, e dar a impressão de que o está dizendo pela primeira vez.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

3530) Mistério do futebol (20.6.2014)




(cartum de Matt Diffee)

Que mistério tem o futebol? (Cada um ponha nesse nicho o esporte de sua fatalidade.) Que mistério ele tem para alterar a tal ponto nossa pulsação cardíaca, e digo mais, nosso controle sobre a nossa própria mente?  Por causa de futebol vi cidadãos pacíficos tresloucados, homens honestos fazerem um-em-pé-e-quatro-rodando num instantezinho de distração de alguém (“sofri um pênalte!”), amores se desfazerem, famílias se desmancharem, vizinhanças virarem praças de guerra conflagradas.

No futebol o atleta faz uma amputação de si próprio, proibindo-se de usar suas extensões mais prestas e mais acostumadas ao uso: braços, mãos, dedos.  Correr sem-braços atrás de uma bola que quica e é chutada, podendo tocar nela só com os pés e a cabeça, parece tortura inventada num campo de concentração grotesco.  Se a beleza da imagem do cinema decorre da limitações do retângulo do “frame”, a beleza do balé futebolístico vem desses braços e mãos que, não podendo colidir materialmente com a bola, viram ectoplasma, asas invisíveis, viram lemes, hélices ou remos de que se vale o atleta em cada um dos voos curtíssimos de que é capaz. 

Viram coice de cavalo, rabanada de baleia. Talvez venha dessa amputação a impaciência das cotoveladas no adversário que assedia, uma reação que o nosso Leonardo celebrizou na Copa de 1994 e que nesta de agora eu já vi duzentas vezes. O braço vive nervoso, não pode fazer nada, a adrenalina é grande e o calor é um inferno, esse braço precisa descarregar em alguma coisa.

O esporte bretão é um xadrez e um balé.  O balé da cortada que faz o adversário passar deslizando e batido, o balé do voo de tantos metros para dar só o toque de cabeça necessário para o gol, o banho de cuia, o drible da vaca, o elástico, a pedalada, o gol de letra, o gol chorado, o gol do meio da rua. O balé é o jogo dos jogadores, é o duelo entre a técnica de cada um. O xadrez é o jogo dos técnicos, o duelo entre táticas.

E tem outra dimensão extraordinária do esporte, é sua estrutura dramatúrgica, organizada em disputas específicas com resultados numéricos claros e consensuais. É como um video-game.  Campeonatos, torneios, pontos corridos, mata-mata, tudo servindo de grade para o lado-humano, os craques e os supertimes que surgem, assombram, brilham, e passam.  O futebol nos dá uma certeza de resultados que a vida, essa sim, nos nega sempre. Em campo, a vitória pode ter sido injusta, mas é unanimemente aceita e vira fato. Um a zero é um a zero em qualquer idioma, raça, cultura ou religião. A clareza da disputa dá sustentação às sagas heróicas cuja história está contada naqueles jogos que quem viu não esquece jamais.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

3529) Gêneros literários (19.6.2014)



Num artigo na revista Locus (2003), Gary K. Wolfe (um dos melhores críticos de FC em atividade) fez uma comparação entre três dos melhores romances da época: The Years of Rice and Salt de Kim Stanley Robinson, Coraline de Neil Gaiman e The Scar de China Miéville. O ponto de vista dele é expresso nessa frase: “Não é que os livros pertençam a determinados gêneros, eles derivam desses gêneros”.  O livro de Robinson é uma espécie de FC, o de Gaiman uma espécie de terror, o de Miéville uma espécie de fantasia.  Não poderiam (diz Wolfe) ter sido escritos, nem serem lidos, sem a conexão com esses gêneros. Mas nenhum deles pode ser plenamente assimilado somente em termos dos gêneros.

A grande maioria das discussões literárias (para não falar nas outras) nunca chega a lugar nenhum porque parte de premissas inadequadas.  Essas premissas são os termos que usamos na discussão e que nunca questionamos.  Vemos todo mundo discutir o assunto naqueles termos, e achamos que está certo, que essa é a única maneira de pensar a respeito.  E não é.  Podemos propor (como fez Wolfe) uma maneira diferente de enxergar o problema.

A expressão “pertencer a” contamina qualquer argumentação. Condiciona nossa maneira de falar sobre as coisas, de descrever as relações que a gente vê entre elas. “Pertencer”, além de indicar posse, indica uma relação hierárquica, impõe uma polaridade tipo superior/inferior.  Se a obra “pertence” ao gênero X, então pra todos os efeitos o gênero comanda a obra, a obra tem que obedecer às leis dele e às exigências dele, e, como não se pode servir a dois senhores, quem “pertence” a um gênero não pode pertencer ao mesmo tempo a outro.

E podemos, agora sim, dividir as obras em dois tipos. O primeiro é o das que aceitam pertencer, sim, a um gênero, aceitam seguir as fórmulas do gênero, porque é no universo do gênero que querem fazer sucesso e alcançar a fama e a fortuna, não necessariamente nesta ordem. O segundo tipo é o das obras que não querem “pertencer” a um gênero, querem nascer dentro dele e nutrir-se dele, mas ao fim e ao cabo querem afastar-se dele, derivar tendo-o como porto de decolagem. Ir embora do gênero levando algo dele consigo, assim como Severian foi embora de Nessus.

Nenhuma opção é melhor do que a outra; nenhuma garante que o resultado literário será superior. Quem determina isso é o indivíduo. Mas é um erro dizer que qualquer obra pertence a um gênero. Asimov, Clarke, Heinlein, todos tinham orgulho de pertencer ao gênero da ficção científica.  Kim Stanley Robinson,  Neil Gaiman e China Miéville escrevem como quem quer na verdade “derivar” dele; e não veem nenhum problema nisso.


quarta-feira, 18 de junho de 2014

3528) Relíquias (18.6.2014)




Nos livros de capa-e-espada ou de aventuras de cavalaria apareciam com frequência (geralmente numa cena de rua, de feira, cheia de pessoas anônimas) os vendedores de relíquias. Um cacho de cabelo de São Fulano, uma unha de São Sicrano, um retalho do lençol com que São Beltrano se cobria...  

As pessoas mais pobres pagavam, apertavam a relíquia de encontro ao peito e saíam tomadas por um otimismo devastador.

Um cronista desabusado comentou: 

“Na Europa, nos últimos cinquenta anos, já foram vendidos pedaços da verdadeira cruz de Cristo em tal quantidade que daria para construir com essa madeira uma esquadra inteira de navios. ‘Cravos da verdadeira cruz’ são tão numerosos que dariam para crucificar um país inteiro.”  

E no entanto as pessoas compravam, e compram ainda hoje, as relíquias mais diversas. Não me refiro a imagens e símbolos em geral, mas à relíquia de caráter único, que esteve ligada à pessoa do santo de maneira muito próxima ou muito significativa. Ou uma parte do corpo dele.

Curiosamente, a ciência moderna produziu sua própria cultura de relíquias. Há indivíduos que ao morrer deixam sêmen congelado para poderem fecundar mulheres cem anos depois de mortos.  Outros deixam amostras de sangue, de cabelo, de tecidos: para que ali se conserve o seu DNA e, num possível futuro, alguém possa produzir um clone que seja para eles uma ressurreição parcial. 

(Isso funcionaria mais para os descendentes do que para ele. Os bisnetos poderiam se auto-iludir: “Meu bisavô está de volta!”, mas ele saberia que não era o mesmo.)

Recolher DNA de amostras humanas para produzir um clone de alguém é uma idéia recente, mas quem nos garante que já não estava presente na antiguidade.  Podemos imaginar uma rede secreta de viajantes no Tempo que eventualmente, no meio dos seus contatos com os “nativos”, aconselham: “Guardem relíquias das pessoas importantes. Guardem amostras do sangue num frasco, guardem cabelo, unhas, crânios, tecidos mumificados, tudo que puder ser preservado, e que seja autenticamente daquela pessoa.  Um dia isso terá utilidade.”

E podemos imaginar também a existência de corredores transversais no tempo, ligando universos paralelos e contíguos, fazendo com que relíquias de um sejam contrabandeadas para outro. 

Isso justificaria a piada do sujeito que vê num museu um esqueleto adulto com a placa “Esqueleto de São Francisco” e um esqueleto de criança com a placa “Esqueleto de São Francisco aos cinco anos”. O mercado transdimensional de relíquias está de vento em popa. 

Por exemplo, um bilionário russo de outro universo está colecionando esqueletos de Bin Laden.