quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

3415) A Ordem e o Caos (6.2.2014)




As grandes batalhas cósmicas nos romances de Fantasia eram batalhas morais entre o Bem e o Mal.  Variam os sistemas éticos, mas a guerra é essa.  

Aqui, torna-se mais claro um equívoco que muitos moralistas, muitos autores e muitos leitores praticavam, e ainda praticam.  Dizem eles que a luta do Cosmos é para o Bem destruir o Mal.  Está errado.  O Mal faz parte da estrutura atômica e molecular do Bem. Deve se submeter ao Bem, e não a si próprio.  

O Bem não precisa destruir o Mal, aliás nenhum dos dois pode destruir o outro.  Eles têm um equilíbrio como o de cavaleiro e cavalo. O Bem doma o Mal.

Já outras fantasias mostram a batalha entre a Ordem e o Caos. Um trecho do Universo onde exista apenas Ordem (se isso é fisicamente possível!) é um espaço morto, e onde houver apenas Caos, idem idem.  

O mundo é um equilíbrio dinâmico constante entre milhões de sistemas físicos, químicos, biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, etc., interagindo, competindo, cooperando e se influenciando sem parar.  Um sistema estagnado, onde nada acontece, precisa de uma injeção de Caos para voltar à vida.  Um sistema totalmente aleatório, browniano, precisa produzir padrões de estabilidade e de Ordem, para se alimentar deles, captar sua energia, e reinvesti-la de novo.  É assim que as formas físicas crescem.

O Senhor dos Anéis é um misto dos dois. Uma história cheia de discussões morais, claro, onde J. R. R. Tolkien, embora não faça uma alegoria religiosa tão explícita quanto a que seu amigo C. S. Lewis fez na série Crônicas de Narnia, conta uma história de fundo moral. 

Tolkien dá a ela um interessante volteio narrativo: para destruir o símbolo do Mal, é preciso ir de encontro ao Mal, ir à borda do motor ígneo de sua energia, seu núcleo radioativo, a montanha-vulcão de Mordor.  É preciso ir ao coração das trevas. 

Essa luta é também uma luta entre a Ordem e o Caos. De posse do Anel de Poder, Sauron, o Homogêneo, transformará o Universo num “continuum” indiferenciado multidimensional com um buraco-negro no centro. Ele e seu Anel sugarão todo o Poder para esse centro-vórtice onde tudo colapsa em ausência, estendendo atrás de si um manto de entropia exponencialmente maior. 

O Mal é uma monocultura hegemônica. O Bem é feito de pequenas coisas sem objetivos maiores e com necessidades específicas. Hobbits, anões, ents, humanos, elfos, gigantes, cavalos, elefantes, árvores, frutas, as águas dos rios e assim por diante.  

O Bem é a cosmodiversidade. O Mal (Sauron) parece desejar uma Singularidade de pixels cinzentos, parece desejar uma Ordem superior, mas acaba criando o Caos por superconcentração.






quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

3414) O gato fantasma (5.2.2014)




Eu tenho um gato fantasma, que não existe e não está aqui, mas que mesmo assim caminha e se esquiva por entre minhas poltronas, meus livros empilhados no chão, minha cadeira de balanço.  

Às vezes julgo vê-lo como uma mera silhueta esgueirando-se entre uma porta e outra.  Já tirei todas as provas de sua existência para poder ter a certeza que tenho agora.  Ele existe, mas não é um gato desse mundo. 

Uma das experiências cruciais eu a fiz com meus próprios olhos, meio acometidos daquelas manchas escuras internas que dão a impressão de estarem flutuando no ar à nossa frente, só que próximas, desfocadas, boiando na lâmina aquosa do globo ocular, e é por isso que elas se mexem tanto, não como bichinhos que fervilham, mas como borrões flutuantes que os movimentos dos nossos olhos fazem ricochetear sem som de um lado para o outro, batendo, perdendo impulso, como petecas de badminton que são jogadas para longe e cujo voo, mal partiu, desfalece e míngua.  

A experiência consistiu de uma combinação de lâmpadazinha de bolso, espelhos e rebatedores de luz em pontos estratégicos da casa. A luz num certo feixe e num certo ângulo parecia realçá-los, então sempre que eu julgava ver o gato acendia a luzinha e zerava o foco no próprio olho, para ver se havia manchinhas-do-globo-ocular, cujos movimentos eu estava atribuindo a uma assombração.

Não duvido que numerosos casos de fantasmas entrevistos ou pressentidos (seu nome é Legião, porque são muitos) se devam a essas aberrações oftalmológicas, que fazem tal parte de nós que nem temos consciência delas. 

Mas o gato continuou a ser visto de relance: imiscuindo-se para dentro de um armário (que, ao exame, revelou estar sem gato algum); saltando à noite da pia para a geladeira; enrodilhado entre o teclado e o monitor aceso, e sumindo assim que entrei dois passos na sala; desarrumando à sua passagem os vasos de plantas no patiozinho de trás.  

Eu sempre estava perto, mas sempre olhando para outro lado. Quando o pressentia, virava-me, mas me restava somente uma réstia de sua passagem, o lance final de uma ausência que meu olhar descobria.

Como uma sombra sem corpo, ou uma linha negra solta no ar desenhando um gato, ou um fotograma borrado de um movimento de luz que a gente julga ver num aposento vazio.  

Nunca me derrubou um jarro, nunca me rasgou um livro, nunca fez porcarias pela casa afora, nunca morreu como os outros. Vive solto aqui na casa e não solto em lugar nenhum, e todos os dias me presenteia com fugas e esquivas e saltos de cavalo sobre o tabuleiro e teleportes instantâneos, por todos os lugares onde um gato de verdade passaria e onde nada passa mais.





terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

3413) Bowie e Burroughs (4.2.2014)





(foto: Terry O'Neill)


Em 1974, a revista Rolling Stone publicou um bate-papo entre o roqueiro David Bowie e o escritor William Burroughs, ocorrido no ano anterior, através do repórter Craig Copetas.  

Bowie estava no primeiro auge de sua carreira (que teve vários), após o lançamento do álbum Ziggy Stardust; Burroughs, já famoso por livros como Naked Lunch e Nova Express, estava superando uma das suas muitas fases de pindaíba, bebendo muito, escrevendo pouco. 

Os dois se conheciam mais de fama do que de obra. Bowie tinha lido Nova Express, Burroughs conhecia duas canções do outro (“Five Years”, “Starman”) mas tinha lido todas as suas letras. (A entrevista completa aqui, em português: http://bit.ly/1b88FE0, e no original: http://bit.ly/1lmyolJ). 

Bowie disse: 

Nova Express me fez lembrar de Ziggy Stardust, que pretendo transformar numa performance teatral. São 40 cenas, e seria legal que os atores aprendem todas elas de modo a que a gente pudesse misturá-las num chapéu, à tarde, e determinar a ordem em que seriam encenadas à noite. Peguei essa idéia de você, Bill... a de que tudo poderia ser diferente a cada noite.” 

Burroughs foi um defensor de numerosas técnicas para fazer o acaso interferir na criação e/ou apresentação de uma obra de arte, inclusive na literatura.

Falando do aspecto ficção científica do show, Bowie comentou a dificuldade de conseguir efeitos especiais para reproduzir um “buraco negro” no palco, e Burroughs comentou: 

“Sim, um buraco negro no palco daria uma despesa astronômica. E seria uma performance contínua, engolindo primeiro Shaftesbury Avenue, e depois o resto.”  

A FC e a arte de vanguarda eram dois territórios em comum entre artistas tão diferentes; foram também as interfaces que depois levaram Burroughs a trabalhar junto com roqueiras como Patti Smith e Laurie Anderson.

Bowie comentou, sobre novas mídias de então: 

“A próxima coisa é o videotape, e depois serão os hologramas. Nesse ínterim, vão ser criadas bibliotecas inteiras de videocassetes. Você não consegue gravar tudo que passa de interessante na sua TV. Eu quero poder escolher minha própria programação. É preciso criar software para isso. (...) A mídia ou é nossa salvação ou nossa morte. Prefiro achar que é salvação.”

Essa “terra de todos” que envolve rock/jazz, FC, arte de vanguarda, novas mídias e novas tecnologias é a origem de algumas das coisas mais interessantes que temos hoje. 

Pessoas como Burroughs e Bowie estavam no início desse processo, e a presença ubíqua de ambos na Web é uma mostra dessa afinidade de espírito.  Ele reúne o lado mais intelectualmente inquieto do rock, o lado mais lúdico da vanguarda e o lado mais aqui-e-agora da FC.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

3412) O trabalho de editar (2.2.2014)



(Ilustração: Mario Bag)

Um jovem autor teve seu primeiro livro recusado por uma grande editora, e veio se queixar: “Editores são mercenários, só querem publicar coisas medíocres que vendem muito, como Paulo Coelho ou 50 Tons de Cinza. Eles boicotam o autor novo.  O governo deveria obrigar as editoras a publicar os novos autores, porque é uma questão de interesse social, de promoção da cultura.”

Tudo errado, e vou dizer por que.  Editores não são necessariamente mercenários, embora muitos sejam, assim como escritores não são necessariamente beberrões, embora muitos sejam. Todo editor gosta de publicar coisas que vendem muito – porque vendem muito, não porque são (ou deixam de ser) medíocres. Alguns dos maiores best-sellers que já passaram pelas livrarias brasileiras foram assinados por Umberto Eco, Rubem Fonseca, Milorad Pavic (Dicionário Khazar).  Mas se eu fosse editor, gostaria dos medíocres que vendessem bem, porque isso me possibilitaria publicar os autores que vendem pouco (ou seja, a imensa maioria do total).

O governo não tem o direito de obrigar editores a publicar autores individuais. No máximo, o governo pode criar políticas de compras (para bibliotecas, escolas, etc.) direcionadas para determinado tipo de literatura, e com isto estimular a publicação de livros com esse perfil.

O que os autores jovens não entendem é que nenhuma editora é obrigada a publicá-los.  Eles acham que é uma obrigação constitucional, e não é.  É um acordo entre dois parceiros (editor e autor) para colocar um produto no mercado; se o produto é também uma obra de arte, o futuro dirá. (Todo autor acha que o livro que escreveu é uma obra de arte.) Não existe teste químico para decidir se um texto é obra de arte ou não.  É a sociedade quem responde, e dá respostas diferentes com o passar do tempo.  Se um editor não confia no livro a ponto de apostar nele seu dinheirinho, a solução é o autor ir bater noutra porta.

Uma editora é um empreendimento industrial/comercial. Se eu mandasse no mundo, todo pretendente a escritor passaria 6 meses de estágio numa editora, trabalhando ao longo de todo o processo de produção de livros: avaliação de originais, tradução, revisão, editoração, diagramação, impressão, empacotamento, distribuição, publicidade...  Quando ele fizesse isso, ia ver que: 1) imprimir 2 mil exemplares de um livro é uma coisa muitíssimo trabalhosa e cara; 2) só vale a pena fazer isso se o livro valer a pena para alguém, senão é um desperdício de dinheiro e de tempo de vida dos funcionários. Para não falar no tempo de vida do próprio escritor de banalidades.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

3411) 15 sertanejos (1.2.2014)




(foto: Fred Jordão)


Wilsinho Borba, 9 anos, Junco do Seridó: capricorniano, teimoso, bom ciclista, uma vez se perdeu numa rodoviária e foi parar em Natal, conta isso como grande aventura. 

José Manuel Leitão, 34 anos, Patos: dono de açougue, acompanha o Barcelona, é fã de Ivete Sangalo e do Molejo, noivo há 8 anos mas só casa quando a casa própria ficar pronta.  

Dona Selminha, 44 anos, Arapiraca: dona de restaurante, cuida de seis filhos, uma mãe doente, um marido descansado, e ainda canta no coral da igreja.  

Zildo Camarucim de Sousa, 28 anos, Milagres: pintor de lameiros nos caminhões da Rio-Bahia, noivo de uma professora, atualmente assistindo temporadas antigas de “Arquivo X”.  

Wilson Muribeca, 55 anos, Caruaru: dono de rede de lojas de eletrodomésticos, entrou e saiu da bebida, entrou e saiu da igreja, acaba de entrar para a política. 

Mafalda Santos Ubaim, 37 anos, Tabira: professora, aposentadoria precoce por depressão, quatro livros de poemas escritos em seguida.  

Agenor Torquato de Medeiros, 75 anos, Água Branca: viúvo, astrônomo amador, matemático diletante, tem pronta uma teoria dos ciclos da seca nordestina, mas as autoridades recusam-se a ouvi-lo desde o tempo da Sudene.  

Zig Martins, 52 anos, Afogados da Ingazeira: tem, pela ordem, três cavalos de raça, uma moto importada, uma camionete importada, uma esposa que ele adora e quatro filhos que são sua existência. 

Sebastião Belarmino Monteiro, 66 anos, Taperoá: agente fiscal, filhos criados, casa construída, tem 3 mil discos de vinil e a obra completa do Trio Irakitan e de Altemar Dutra.  

Álvaro Bonfim dos Santos, 37 anos, Crato: dentista, espírita, juntando dinheiro para dar a volta à América Latina de moto repassando dicas dentárias básicas para a população.

Natércio Alves Manhães, 61 anos, Sertânia: barba branca, chamado “Papai Noel” pelos colegas, pode ser velho, mas foi o primeiro taxista local a instalar GPS.  

Jane Maria das Mercês Sinfrônio, 44 anos, Pombal: filha de Iansã, tatuada, garçonete do “Dogão da Madruga” no Posto 24 Horas, conhecida dos motoristas como Jane Rainha.  

Padre Abelardo França Escobar, 41 anos, Solidão: anda pelas estradas vendo os transeuntes, os caminhantes, e pensando que está na Galiléia, e quando isso acontece a Bíblia inteira se materializa e se justifica aos seus olhos.   

Walícia Seberg Freitas, 18 anos, Imaculada: não consegue se decidir se gostaria de casar com um pecuarista, um funcionário federal ou um vocalista de banda.  

Diana Resende da Silva, 9 anos, Cajazeiras: usa rabo-de-cavalo, adora nachos com guacamole, adora bonecas de pano, assiste Chiquititas, quer ser bailarina clássica quando crescer.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

3410) A Lolita de Dorothy (31.1.2014)




Falei há pouco tempo aqui (http://bit.ly/1bzHeCW) sobre um suposto plágio que Dorothy Parker teria cometido sobre a Lolita de Nabokov. Diz-se que ela teve acesso ao manuscrito, antes do livro ser publicado, e publicou na revista The New Yorker seu conto “Lolita”, onde ela fala de uma mãe viúva, uma filha desajeitada e um bom partido que se oferece como possível maridão.  

Li o conto; mais do que um plágio (como plagiar em dez páginas um romance de trezentas?) é um desses furtos casuais que os escritores fazem tantas vezes. “Gostei desta situação, esqueçam o resto, vou usar somente isto.”

O conto (aqui, no Scribd: http://bit.ly/1elNtLc) é sobre uma mulher prestes a perder o prazo de validade, e sua filha canhestra e antissocial. Aparece na cidade um tal John Marble, desassossegando os corações. A cidade inteira cai aos seus pés. John Marble escolhe quem? A desajeitada, angulosa e tímida Lolita, para desespero das rivais e mortificação ainda maior de sua mãe, que também estava no páreo.  

Diferentemente de Nabokov (que fala de homens o tempo inteiro), Dorothy fala somente das mulheres, numa história onde o homem é mero adereço, mero “prop” de estúdio, um dummy, um dildo, um dublê, uma função proppiana.  O contrário da história de Nabokov, que é uma explosão de testosterona míope, uma história trágica da derrota recíproca de dois machos em luta, enquanto a ninfeta é mero catalisador, desencadeia as catástrofes e as atravessa incólume sem nem se dar conta delas.

Charlotte Haze, a mãe da Lolita nabokoviana, se lesse aquele livro (se fosse capaz de ler aquele livro) nem saberia que era um daqueles personagens. Quando muito ficaria surpresa com a coincidência de nomes próprios e de alguns fatos externos.  Mrs. Ewing, a mãe-viúva da Lolita de Dorothy, vê a filha sem graça ser pedida pelo homem-sensação e consegue, como tantas heroínas femininas, destilar sua revolta com o destino, ser mãe-modelo, casá-la com John Marbles e ficar olhando as nuvens.

A única imprudência de Dorothy Parker foi dar à sua garota o mesmo nome da garota que vira no original datilografado de Nabokov.  Custava nada ter chamado a menina de Peggy Sue?  Seria menos literária por isso?  O caso todo é típico dos pedidos de empréstimo que autores fazem a idéias alheias, tipos alheios, estilos alheios, temas alheios, situações alheias.  Todo mundo faz isso.  O desafio é mostrar que o elemento pedido emprestado rendeu muito melhor no nosso texto do que no alheio. Ou pelo menos não ficou a lhe dever.  Talvez ela tenha deixado o nome “Lolita” como derradeira pista do que aconteceu, porque sem esse nome talvez nenhum de nós percebesse.








quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

3409) Não vai doer (30.1.2014)




Não sei se a parteira disse isto quando me puxou pelos pés (pois rezam as crônicas de família que eu nasci com os pés à frente, e talvez se deva ao esforço final para extrair minha cabeça a curiosa conformação craniana que ainda hoje conservo, e que minha mãe descrevia como “o casco de um cavalo” em relevo, como se um alazão tivesse dado um coice de dentro para fora da minha moleira, ou, como disse meu pai, “ele tem um burro no lugar que seria do juízo”), mas como havia ela de não dizer isto, quando é a primeira coisa que se deve dizer aos filhos nossos e alheios? Não vai doer, não doerá nem agora nem nunca, pode ir em frente de olhos fechados e peito aberto. Abra as narinas, os pulmões, o ar não vai doer, a luz também não; isso que você acaba de sentir é uma lâmina de fogo. Aprenda a andar, a falar, a ouvir, porque nada disso vai doer.

Não ligue para os joelhos ralados, o tornozelo torcido, a unha levantada, a mão desmentida, o cotovelo esfolado, o olho roxo, o lábio partido, a pele escoriada. A infância é indolor, basta entender que ela é rápida, mesmo que dure uma eternidade e meia. Nada na infância dói, nada doeu, tá vendo só, um sopro e a dor passa, um sopro e a vida passa, basta soprar que tudo vai embora, tudo se acaba antes de doer, chega-se a um limbo onde não há o que doa, e cada pessoa terá que fazer essa escolha entre a dor e o nada, entre o tudo e o nada, entre o ser e o nada, entre o ser e o não-ser, entre a dor do prazer e o nada-haver.

Difícil equacionar essas generalizações para um menino olhando o primeiro patinete, a primeira bola Drible, a primeira hora-do-recreio em território inimigo. A primeira bebedeira em campo minado. A primeira moça, o terrível primeiro não, o não-menos-terrível primeiro sim, a primeira impersonação das paixões alheias no seu real. Não vai doer, bradam os estatutos do adolescentes e a Constituição de 1988. Não vai doer, diz, quando o vulto se inclina de instrumento em punho, a voz arfante do torturador. Não dói, dizem as promessas sorridentes da ciência que recebe chapa branca e tarja preta. Não vai doer no seu bolso, prometem as euforias da Bolsa. Não vai doer, você é de metal, diz o iceberg ao Titanic.

Não dói. A civilização tem seus distritos industriais fabricando anestesias, senão ninguém dormiria devido aos uivos. É preciso dizer que não dói, quando sabemos que vai doer mesmo que não doa. É como a árvore que desaba mas não soa, ninguém há para ver, ninguém para lhe escutar, e somente onde não há ninguém onde doer também não há – o que temer. É só querer acreditar, é só decidir, porque ou não-vai-doer ou não há.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

3408) Auerbach em Istambul (29.1.2014)



Mimesis de Eric Auerbach (a edição brasileira é da Perspectiva, São Paulo, tradução de George Bernard Sperber) é um clássico dos estudos literários. Sua leitura equivale a um curso de literatura completo.  

Foi escrito quando o autor, durante a II Guerra, estava refugiado em Istambul. Já o comentei aqui (http://bit.ly/L9LZwE); é uma leitura atenta e detalhada de textos clássicos (Montaigne, Shakespeare, Homero, a Bíblia, Virginia Woolf, etc.) onde Auerbach vai de frase em frase desmontando e revelando as intenções, as técnicas e os efeitos obtidos pelo autor, além do “espírito da época”, o caldo cultural em que cada um estava mergulhado.

Um artigo de Kaya Genç na L. A. Review of Books (http://bit.ly/1aAC5Qz) mostra que Auerbach teve acesso à biblioteca de um mosteiro, em Istambul, graças a uma carta de recomendação do Cardeal Angelo Roncalli, o futuro Papa João XXIII. E ela comenta que os artigos acadêmicos publicados em turco por Auerbach no pré-guerra precisam ser retraduzidos hoje, porque o turco dos anos 1930 é ilegível para a população moderna. (E a gente preocupado com o português!)

A façanha intelectual de Auerbach foi produzir uma obra erudita, de literatura comparada e análise textual minuciosa, num livro de 500 páginas sem notas de rodapé, sem bibliografia. Ele próprio admitiu, no Epílogo, que se tivesse podido pesquisar à vontade todas as referências necessárias, talvez nunca tivesse chegado a escrever o livro.

Vejo amigos e colegas arrancando os cabelos porque a bendita Tese ou a famosa Dissertação estão empancadas enquanto eles “releem Barthes completo”, ou sei lá quem.  Nada contra ler Barthes; mas a produção intelectual acadêmica é de um imenso defensivismo, auto-protecionismo. O autor está se calçando de argumentos alheios para se defender, preemptivamente, das críticas dos seus pares: “faltou isso, ignorou aquilo...”  E as notas avalizadoras estão para o texto como os volantes estão para um time de futebol.

Eu sempre digo (a eles e a mim): dê uma de Auerbach em Istambul. Não precisa fazer uma varredura (ainda mais agora, de Google em punho!) em tudo que se publicou sobre o tema. Escreva com o que você sabe, escreva com o que você é.  Melhor do que se proteger contra as críticas é entrar de idéias novas em punho e fazer os críticos recuarem, e são eles que ficarão na defensiva. Uma afirmação intelectual sem fundamento é condenável; pelos mesmos motivos é condenável o acúmulo indefinido de fundamentos sem a coragem de fazer afirmações.  Teorizar é afirmar. Se o que você acha que conhece é insuficiente para embasar suas afirmações, não seja acadêmico.  Venha ser ficcionista.







terça-feira, 28 de janeiro de 2014

3407) Lima Barreto: o Motim (28.1.2014)



“O cocheiro parou. Os passageiros saltaram. Num momento o bonde estava cercado por um grande magote de populares, à frente do qual, se movia um bando multicor de moleques, espécie de poeira humana que os motins levantam alto e dão heroicidade.  Num ápice, o veículo foi retirado das linhas, untado de querosene e ardeu. Continuei a pé. Pelo caminho a mesma atmosfera de terror e expectativa. Uma força de cavalaria de polícia, de sabre desembainhado, corria em direção ao bonde incendiado. Logo que ela se afastou um pouco, de um grupo partiu uma tremenda assuada. Os assobios eram estridentes e longos; havia muito da força e da fraqueza do populacho naquela ingênua arma. E por todo o caminho, este cenário se repetia.”

Não são as manifestações de 2013 no Rio e nas capitais; é o Rio de Janeiro, sim, mas o de um século atrás, o Rio da Revolta da Vacina de 1904, que Lima Barreto transformou na “Revolta do Calçado” no romance de 1909 Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Existe, na sucessão das gerações humanas, uma certa recorrência de padrões, uma certa semelhança de procedimentos, talvez porque só quando estamos envolvidos numa ação intensamente coletiva (um jogo de futebol, um show de rock, uma manifestação de rua) sejamos capazes de, sintonizados com a multidão, acessar uma memória coletiva que existe em todos e só emerge numa multidão de verdade.

“Da sacada do jornal,” diz Isaías Caminha, “eu pude ver os amotinados.” (Não, ele não fará menção à máscara de Guy Fawkes nem aos Black Blocs. Mas vejam que olho futurista o do escritor.)  “Havia a poeira de garotos e moleques; havia o vagabundo, o desordeiro profissional, o pequeno burguês, empregado, caixeiro e estudante; havia emissários de políticos descontentes. Todos se misturavam, afrontavam as balas, unidos pela mesma irritação e pelo mesmo ódio à polícia, onde uns viam o seu inimigo natural e outros, o Estado, que não dava a felicidade, a riqueza e a abundância.”

E ele explica: “O motim não tem fisionomia, não tem forma, é improvisado. Propaga-se, espalha-se, mas não se liga. O grupo que opera aqui não tem ligação alguma com o que tiroteia acolá. São independentes, não há um chefe geral nem um plano estabelecido. Numa esquina, numa travessa, forma-se um grupo, seis, dez, vinte pessoas diferentes, de profissão, inteligência, e moralidade. Começa-se a discutir, ataca-se o Governo; passa o bonde e alguém lembra: vamos queimá-lo. Os outros não refletem, nada objetam e correm a incendiar o bonde.”  Em 1909 não havia redes sociais, celulares, TV ao vivo, Rádio AM.  A tecnologia está sendo absorvida pelo modo-de-ser da multidão, e não o contrário.


domingo, 26 de janeiro de 2014

3406) Ler por prazer (26.1.2014)



Eu geralmente leio por prazer, o prazer antecipado de quem compra um livro já prevendo que vai gostar (pelo autor, pelo tema, etc.). Quando essa expectativa não se confirma, largo o livro e pego outro. Se não estou gostando, não forço. Isto não se aplica, é claro, às leituras de trabalho. Se quero um conto de Fulano numa antologia minha, geralmente leio um livro inteiro dele, 15 ou 20 contos, para escolher o mais adequado. Nem todos são bons, mas meu interesse ali é conhecer melhor Fulano, “sentir a mão” dele como escritor, avaliar suas qualidades e suas limitações.

Jorge Luís Borges tem um texto famoso sobre o prazer de ler, repetido em numerosas coletâneas.  Diz ele: “Fui professor de literatura inglesa por vinte anos na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e sempre aconselhei a meus alunos: se um livro os aborrece, larguem-no; não o leiam porque é famoso, não leiam um livro porque é moderno, não leiam um livro porque é antigo. Se um livro for maçante para vocês, larguem-no; mesmo que esse livro seja o Paraíso Perdido – para mim não é maçante – ou o Quixote – que para mim também não é maçante. Mas, se há um livro maçante para vocês, não o leiam: esse livro não foi escrito para vocês.”

É engraçado, porque eu digo o contrário. Borges não falava no contexto brasileiro de hoje. Talvez seus alunos fossem obrigados a ler Sêneca e Ovídio no original, sem poder criticá-los.  Hoje, porém, a situação é outra. Os jovens são desestimulados ao esforço intelectual e empurrados para um entretenimento sem fim.  Deveria aparecer um Borges que lhes dissesse: “Galera, vocês estão fazendo poupança com dinheirinho de Banco Imobiliário. Quando precisarem, nada terão. Esse entretenimento passa sem deixar marcas, a não ser a resposta automática diante de clichês e de situações já conhecidas... E esse cansaço-prévio mental diante do novo, do diferente, do difícil.”

Não há resultado sem esforço, e a inteligência não brota espontaneamente, tem que ser cultivada pelo uso. Borges se preocupava com aqueles jovens argentinos que queriam, por exemplo, fazer teatro, mas seus professores os obrigavam a aprender grego para ler Ésquilo no original, senão não entenderiam o texto. Hoje, jovens montam Brecht ou Shakespeare sem os ler, leem adaptados para a linguagem moderna, uma diluição, uma versão resumida e mutilada “para ficar ao alcance de vocês”.  Fazem o teatro descer até o jovem, e com isso o jovem nunca subirá até o teatro. Sem esforço não há resultado. O prazer de ler não é uma adrenalina instantânea, é uma conquista, uma vitória pessoal de cada leitor sobre a própria insegurança e a própria preguiça.