sábado, 27 de agosto de 2011

2646) Um caso para Perry Mason (27.8.2011)



Para quem nunca ouviu falar, Perry Mason é o advogado-detetive criado por Erle Stanley Gardner ao longo de dezenas de romances policiais (82, para ser exato) que deveriam ser leitura de lazer obrigatória para todo advogado que se preze. Na adolescência, sonhei em me formar em Direito e fazer o que Mason fazia: dar um banho de esperteza no promotor, libertar o cliente (acusado de um crime) e de lambuja entregar à polícia o verdadeiro criminoso. Os romances de Gardner (cujos títulos sempre começam com “O Caso do...”) seguem uma fórmula precisa e obrigatória, com as variações mais inesperadas dependendo do cliente, do crime cometido e das complicações colaterais. Agora mesmo está me dando uma vontade enorme de reler “O Caso da Lata Vazia”, “... das Garras de Veludo”, “... da Morena Emprestada”, “... da Loura de Olho Roxo”, “... dos Peixinhos Dourados”, “... do Gorila Sorridente”...

Um dos aspectos mais fascinantes do crime é o fato de ele ser algo minuciosamente descrito, previsto e catalogado pela estrutura jurídica. E um tema eterno da literatura policial é um tipo especial de crime perfeito, o crime que todo mundo sabe que Fulano cometeu mas nada pode fazer, porque a lei não prevê aquele crime. Na Inglaterra, antes de 1548, um júri só considerava assassinatos que tivessem sido cometidos no condado de sua jurisdição. E houve casos de assassinos que feriam a vítima num condado e a transportavam para que morresse no condado vizinho; dessa maneira os dois elementos do assassinato (a agressão e o falecimento) ficavam dissociados e a lei “travava”.

Li uma vez no Mistério Magazine de Ellery Queen um conto (não lembro o autor, o título era algo como “Um Caso para a ONU”) em que um homem matava outro a tiros num voo EUA-Europa, e provava por a+b que não podia ser preso, porque ele era de uma nacionalidade, a vítima de outra, a companhia aérea de outra, e o crime fôra cometido sobre águas internacionais. No fim, a polícia o prendia por conspiração (ou coisa parecida), porque o planejamento do crime tinha sido feito em território norte-americano.

Surgiu agora um fato jurídico interessante nos EUA. O Parque Nacional de Yellowstone fica no Distrito de Wyoming, mas partes dele estão nos Estados vizinhos de Montana e Idaho. Se alguém cometer um crime nessa faixa, terá que ser submetido a júri popular e os jurados terão que ser convocados entre a população da região do Parque no Estado de Idaho, e essa população é zero. Um advogado esperto conseguiria anular todo o processo e libertar o criminoso. Quem chamou a atenção para isto foi Brian C. Kalt, professor de Direito em Michigan. Ele admite que seria possível, como no exemplo acima, alegar que o planejamento do crime havia sido feito noutra parte do país. (Uma discussão de todos os detalhes pode ser lida aqui: http://bit.ly/ppWJAG). Até agora, o único crime cometido dessa forma foi a morte de um alce, mas o sistema jurídico dos EUA está se mexendo antes que isto chegue aos ouvidos dos sucessores de Osama Bin Laden.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

2645) A poética da cadência (26.8.2011)



(Edward Thomas e Robert Frost)

Um artigo de Matthew Hollis em The Guardian comenta a amizade literária entre o norte-americano Robert Frost e o galês Edward Thomas, iniciada em 1912, quando Thomas, então um crítico literário influente em Londres, comentou com entusiasmo um livro (North of Boston) daquele poeta desconhecido, recém-chegado dos EUA. 

Os dois tornaram-se amigos e se corresponderam até a morte de Thomas na I Guerra Mundial, em 1917. Nunca li nada de Thomas (que depois da amizade com Frost tornou-se também poeta), mas esse livro tem dois dos poemas mais conhecidos de Frost: “The Road not Taken”, que fala das opções que temos de fazer constantemente ao longo da vida, e “Mending the wall”, em que dois vizinhos, meio cabreiros, trabalham juntos para refazer um muro de pedras que separa as duas propriedades. 

Frost é um desses poetas sem muitas firulas, com uma linguagem simples, concentrada, que pode ser apreciada por um leitor estrangeiro (a maioria dos poetas em inglês eu não entendo nem com dicionário no colo).

Um parágrafo de Hollis (que é autor também de uma biografia de Thomas, Now all roads lead to France, 2011) merece atenção por exprimir uma idéia de poesia que nem sempre é bem compreendida. Diz ele: 

“Para esses dois homens [Frost e Thomas], a máquina que move a poesia não é a rima nem sequer a forma, mas o ritmo, e o órgão pelo qual ela se comunica é o ouvido que escuta, mais do que o olho que lê. Para Thomas e Frost isso acarretava uma fidelidade mais à frase do que à contagem métrica, aos ritmos da fala mais do que às convenções poéticas; uma fidelidade àquilo que Frost chamava de ‘cadência’. Se você já ouviu pessoas conversando por trás de portas fechadas, raciocinava Frost, você já deve ter reparado que é possível entender o sentido geral de uma conversação mesmo quando as palavras propriamente ditas são indistintas. Isto é porque as entonações e as sentenças com que falamos estão carregadas de sentido, formando um ‘significado sonoro’. É sobre esse significado, desencadeado pelo ritmo da voz que fala, que a poesia se comunica de maneira mais profunda. Thomas escreveu certa vez: ‘Um homem não pode escrever melhor do que ele fala quando alguma coisa o emocionou profundamente’”.

Acho que tudo isto deve ser considerado a sério quando falamos que a poesia tem influência oral, da fala, etc. Muita gente pensa que isto indica apenas que a poesia deve ser sempre coloquial, informal, descontraída, parecida com o modo desconexo e descuidado como falamos. Não é bem isso.

A poesia deve se aproximar da fala em todos os registros da fala, em todas as maneiras com que somos capazes de imprimir à fala (entre outras coisas) gravidade, tensão, emotividade, arrebatamento. Como se tivéssemos um telefonema de quinze segundos para comunicar algo muito importante a alguém, mas em compensação pudéssemos preparar o que dizer nesses 15 segundos durante o tempo que fosse necessário.






quinta-feira, 25 de agosto de 2011

2644) O Cão de Mauro Mota (25.8.2011)



Os leitores de poesia estão comemorando os cem anos de nascimento do poeta pernambucano Mauro Mota, falecido em 1984. MM foi um desses muitos talentos literários que conseguem uma consagração razoável em sua própria terra, virando inclusive referência obrigatória para as gerações futuras, mas nunca conseguem se tornar poetas de aceitação nacional, e anos depois de seu falecimento começam a ser meio esquecidos, o que é uma grande injustiça. São muitos casos assim: o mineiro Dantas Motta (Elegias do País das Gerais), o goiano José Godoy Garcia (Araguaia Mansidão), o carioca Moacyr Félix (Um Poeta na Cidade e no Tempo), e outros que, quando os li, pareciam-me pertencer ao primeiro time da poesia brasileira (um time bem amplo, por suposto). E hoje parece que ninguém sabe quem foram.

Mauro Mota tem uma série de sonetos (no livro Elegias) inspirados, ao que se diz, pela morte da esposa ainda jovem. São de uma extrema delicadeza de observação e de sentimento. Lembram poemas semelhantes de Alphonsus de Guimaraens ou de Cruz e Souza, registro impressionista de emoções profundas que se exteriorizam em minúsculos aspectos físicos. Uma feição, um gesto, um pedaço de vestimenta, uma atitude, tudo cercado pela fragilidade do corpo e pela inevitabilidade da morte. Mota foi também um poeta de extrema visualidade, a visualidade que percebe pequenos detalhes e faz surpreendentes associações de idéias. Lembro seu poema sobre o guarda-chuva como uma “grande rosa negra” que desabrocha nos dias de chuva, ou o poema sobre a bengala como uma árvore que é arrancada de novo toda vez que toca no chão.

Meu poema preferido de MM é “O Cão”, que já na adolescência me impressionava pelo terror apocalíptico que era capaz de inspirar, o cão mítico que era o Cérbero da mitologia, o Cão dos Baskervilles que perseguiu Sherlock Holmes, o mastim infernal que farejava a trilha de Robert Johnson. Diz o poeta: “É um cão negro. É talvez o próprio Cão / assombrado e fazendo assombração. / Estraçalha o silêncio com seus uivos. / A espada ígnea do olhar na escuridão / separa a noite, abre um canal no escuro.” Um molosso infernal, místico, de dimensão ameaçadoramente noturna e subterrânea. Ele prossegue: “Cão da Constelação do Grande Cão, / tombado no quintal, espreita o pulo: / duendes, fantasmas de ladrão no muro.” Versos que me lembram aquele “soneto irritado” de Drummond: “Ninguém o lembrará: tiro no muro, / cão mijando no caos...”

O Cão de Mauro Mota é o cão da estrela Sirius da constelação do Cão Maior, um cão gigantesco que se ergue no céu e ocupa o espaço de horizonte a horizonte: “O latido ancestral liberta a fome / de tempo, e o cão, presa do faro, come / o medo e a treva. Agita-se, devora / sua ração de cor. Pois, louco e uivante, / lambe os pontos cardeais, morde o levante / e bebe o sangue matinal da aurora.” Um poema simbolista, surrealista, emblemático, alquímico? Não, sei, mas pra mim é poesia pura.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

2643) Meus gols de placa (24.8.2011)





(detalhe de foto de Gustavo Moura)

A convivência de uma vida inteira com o mundo do futebol (e a prática intensa de uma versão informal deste esporte, a famosa “pelada”, entre os 11 e os 16 anos) desenvolveu em mim o senso estético do jogo e o talento planejador. Sou autor de uma porção de gols de placa que nas horas vagas me deleito em repassar na memória. (Se bem que “memória” é um termo dúbio para designar algo que, mesmo tendo acontecido milhares de vezes, só aconteceu no meu modesto “teatro mental”).

Um dos meus favoritos é um gol em que estou na posição de centroavante, próximo à meia-lua da área e de costas para o gol. O zagueiro me acossa por trás, impedindo minha movimentação, e meu time vem em contra-ataque veloz. O armador lança a bola na minha direção. Quando ela chega aos meus pés, viro o corpo para a direita como se fosse rodear o zagueiro por aquele lado; e ao mesmo tempo desvio a bola para a esquerda, tirando-a do alcance dele. O zagueiro hesita, bloqueado por essa mensagem contraditória, sem saber se barra minha passagem por um lado ou se intercepta a bola pelo outro. É tudo que preciso para rodeá-lo por completo, apanhar a bola que o rodeou pelo lado oposto, romper de área adentro, e desviá-la do goleiro até o fundo das redes.

Gostaram? Tem mais. Tem um em que estou de frente para o gol, fora da área, e a bola vem quicando na minha direção. Quando o zagueiro fecha sobre mim, ao invés de tentar receber a bola com o pé eu a faço repicar novamente no chão, batendo e subindo; o corte dele passa direto, e quando a bola desce eu puxo para o lado limpando o lance e mando um petardo no ângulo, indefensável.

Outro dos que mais gosto é um em que estou dentro da pequena área, numa daquelas confusões pós-escanteio, de costas para o gol. O goleiro está às minhas costas, quase embaixo do travessão, e um atacante do meu time chuta rasteiro, na minha direção. Quando a bola vem chegando abro as pernas como que para deixá-la passar, mas no instante em que ela passa eu uso a face interna de um dos pés para dar um levíssimo toque, o bastante para 1) desviar a trajetória da bola, e 2) garantir que o nome que vai para a súmula é o meu.

Não multiplicarei exemplos. Hora de teorizar um pouco. Grande parte dos planos-para-o-futuro que a gente faz está no mesmo limbo espiritual destes meus gols, tão caprichados. Antes de chegar na primeira ponte a gente está ensaiando como atravessar a décima. Estou com uma porção de golaços prontinhos, e ninguém me chama para entrar em campo! Gols roteirizados, sextilhas decoradas, piadas prontas, trocadilhos relâmpago... de nada adianta atulhar a memória com essas coisas se não mergulharmos no “Agora Bora Ver” do jogo, da cantoria, da vida real enfim. Algo me sussurra que meus golzinhos platônicos nunca serão registrados por nenhum garoto do placar, assim como nunca proferirei diante de uma platéia meu discurso de aceitação do Prêmio Nobel, que modéstia à parte ficou uma beleza.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

2542) O atoleiro do realismo (23.8.2011)



Numa discussão recente no websaite Metafilter, a propósito de um filme de Luís Buñuel, alguns leitores se queixavam de que o filme não fazia sentido, era inexplicável, etc. (O filme era Simão do Deserto, e querer encontrar a explicação dele é como querer fotografar o assunto da Terceira Sinfonia de Beethoven). Um leitor sob o pseudônimo de Kozad deu a seguinte contribuição ao debate: 

“Tenho uma teoria a respeito. Já ministrei aulas de apreciação cinematográfica e percebi que as pessoas têm dificuldade de apreciar uma narrativa que não esteja de acordo com um tipo determinado de ‘realismo’. Meus alunos gostavam de Psicose de Hitchcock, por exemplo, mas tiveram problemas com quase todos os outros filmes, por causa de uma certa teatralidade na interpretação dos atores e um certo tipo de convenções emocionais usadas por Hitchcock. Eles não eram capazes de fazer vista grossa a isso. Estavam demasiado habituados a uma maneira de ver filmes que implica em buscar deficiências e erros no modo como a ‘realidade’ é apresentada, e assim nunca se permitem fruir descontraidamente o filme do jeito que ele é. A mesma coisa ocorre quando as pessoas veem filmes feitos antes de 1970”.

O cinema de hoje, com sua obsessiva evolução técnica, produziu uma espécie de hiperrealismo epidérmico, que condiciona o espectador a um tipo de estímulo puramente sensorial. Os filmes de ação de hoje têm som Dolby Stereo, imagem digital de fenomenal nitidez, cortes bruscos, decupagem sequencial em que tudo se encaixa a-b-c-d-e... 

Esta linguagem é uma conquista importantíssima, mas assumiu uma tal hegemonia que deixa o espectador atrofiado em outros aspectos. O espectador é perfeitamente capacitado para assistir e assimilar um filme dos X-Men ou do Homem Aranha, mas não consegue assistir um filme de... Não, amigos, não direi um filme de Luís Buñuel ou de Jean-Luc Godard, não chego a tanto. O espectador do Homem Aranha não consegue assistir um filme de Charles Chaplin.

A experiência cinematográfica ideal deveria ser a exposição do espectador a diferentes estilos, ao modo de narrar de diferentes épocas, diferentes países. Modos de enquadrar, de contar histórias, modos de compor o ritmo narrativo, que em cada cultura evolui de modo ligeiramente diverso. 

Deveríamos cultivar a “filmo-diversidade”, a proliferação saudável de mil maneiras de usar a câmara, o roteiro, a mesa de montagem (ou ilha de edição). 

Se eu vivesse num país onde só passassem filmes de Godard, sairia pela rua em passeata com um cartaz “Queremos Homem Aranha!”. Porque precisamos de olhares diferentes para compor o nosso olhar. 

Os estudantes citados acima não querem a experiência cinematográfica em si, querem comparar o que estão vendo com o que lhes ensinaram que é o jeito certo de fazer. Que coisa terrível fizemos com a arte cinematográfica! Estamos criando um mundo cujo público consiste em alguns bilhões de críticos acadêmicos.








domingo, 21 de agosto de 2011

2641) Contracapa de mouse (21.8.2011)



& escravas brancas negociadas no câmbio negro & aquilo ali é um caso claro de motor possante e parafusos frouxos & tem casos em que a culpa é toda da vítima, o criminoso foi mero instrumento & um urso polar e um pinguim se olhando com desconfiança e pasmo & ainda vamos ver esportistas radicais surfando em lava de vulcão & ah se a cabeça da gente tivesse um antivírus de bloquear besteira & ainda não sei por que é que homem usa guarda-chuva e mulher usa guarda-sol & lutar contra o Destino é confirmá-lo; não lutar, também & passar do canibalismo à escravocracia é também uma maneira de evoluir & belo como o encontro fortuito entre um paraquedas e uma guitarra elétrica em cima de uma ilha de edição & a Contracultura faz com a Cultura o que o uísque faz com o gelo & só durmo com colete salvavidas, nunca se sabe & aos quinze anos fui abduzido por um grupo de alienígenas iguaizinhas a Barbarella & as mulheres supersticiosas não dispensam um pinguim na geladeira, um gnomo no jardim e um marido no sofá & a Terra não passa de uma moeda que levou um piparote de Deus e virou esfera & o destino de todo ser complexo é evoluir até tornar-se um ponto geométrico & um livro impresso é túmulo e sobrevida, é lápide de si mesmo e trampolim de megapossibilidades & a primeira máscara foi a careta, a segunda o sorriso & um rio tentando empurrar o oceano para trás & uma tribo habitando uma piscina vazia & as represas nada mais são do que um cofre de guardar correntezas & quanto mais o princípio é principesco, mais grotesco é o final & troquei minha bolsa de estudos por uma mochila & já bebi tanto café na vida que depois de morrer ainda vou passar uns dez anos acordado & uma lâmpada com uma vela acesa dentro & as folhinhas do calendário estão passando rápidas como fotogramas & quando o Governo começa a usar isqueiro para acender fósforo tem alguma coisa errada & ele é violão mas pensa que é guitarra & idéias e emoções são analógicas, linguagem é digital & um mágico tão seguro de si que usava como assistente uma sexagenária gorda & a água se evapora, se condensa, chove, se evapora, lavando a si mesma & só existe o demais porque existe o limite & é possível saber algo sobre um texto eliminando todas as palavras e deixando apenas a pontuação & canção para ninar robôs & ando me sentindo tão fantasmagórico que ontem caí através da cama & se eu fosse contar tudo ia ser um livro mais grosso do que alto & o eclipse do relâmpago & é típico das civilizações que sua autodestruição coincida com seu melhor momento & um anão subindo nos ombros de um gigante e contando a ele o que há por trás do muro & seria tão bom se já vendessem os chapéus com um cérebro dentro & escrever é construir uma ponte enquanto se avança por ela & dentro da gente existe algo que é uma mistura de monstro, motor e bomba-relógio & seja bailarina e eu serei tablado &

sábado, 20 de agosto de 2011

2640) Repassando, compartilhando (20.8.2011)



O escritor Damon Knight tem um romance de ficção científica chamado A for Anything (em português seria “Q de Qualquer coisa”) onde ele explora uma situação curiosa. Num mundo futuro, inventa-se uma máquina capaz de reproduzir com perfeição qualquer coisa, tipo uma super-xerox universal. Se botar ali uma moeda e acionar a máquina, ela produz uma moeda igual. Se colocar um passarinho vivo, ela produz um clone exato do passarinho, também vivo. Esse invento causa mudanças imprevisíveis na civilização humana.

Algo parecido foi essa varinha de condão que a cultura digital nos presenteou: a possibilidade de com um único clique tirarmos uma cópia, ou 200 cópias, ou 2 mil cópias de um mesmo documento. Com que volúpia as pessoas recebem uma foto colorida, enternecedora, de uma galinha maternalmente amamentando seus pintinhos, e a reenviam para todos os 1.500 contatos de sua caixa de mensagens! Com que simplicidade de esforço elas criam mensagens em grupo entre 180 pessoas, de modo que cada comentário é clicado no “Responder a Todos” e segue instantaneamente para os 179 incautos, mesmo que o comentário seja apenas “kkkkkkkk”, ou “A-do-rei!” ou “Concordo!”! Como é rápido receber os clichês lenda-urbana de sempre (adolescente desaparecida, corrente de Santa Inocência, recado de Bill Gates, proposta de negociata bancária da viúva de um ex-ministro de Uganda, etc.) e seguir o conselho (já internalizado psiquicamente) de “repassar para todos”!

O Facebook adicionou, ao verbo “repassar”, o seu equivalente “Compartilhar”. Para poupar esforço, já que o processo não é tão simples quanto o da caixa de email, introduziu há pouco o sistema de digitação automática, em que a gente nem precisa escrever o nome completo de cada pessoa. Basta colocar “Bra...” e, presto! O Facebook completa o nome do futuro e indefeso recebedor. Isto desencadeou uma febre compartilhante. As pessoas se inebriam com a própria generosidade e compartilham tudo: videoclip de Lady Gaga, entrevista de deputado do DEM de Roraima, foto sensual de participante de A Fazenda, gol de placa em jogo da série C da Venezuela, lista dos “Cem Melhores Tiros de Revólver do Faroeste Italiano”... Gente que não compartilharia um misto quente com um sudanês faminto compartilha pixels e megabytes com a prodigalidade de recém-usuário do novo toque de Midas.

A Digitolândia é o parque de diversões dos indolentes, daqueles que, como dizia Drummond, “querem mudar o mundo, desde que para isto não seja preciso mover uma palha”. Vão um passo além, claro, e movem a palhazinha imponderável do cursor, que não é sequer uma varinha mágica, é mais leve ainda, um asterisco mágico que flutua no universo retangular do monitor, portulano do Novo Mundo onde tudo é de graça e sem esforço. Estou reclamando? De jeito nenhum. No instante em que em digitar o ponto final deste artigo, presto! Repassei, compartilhei com um bilhão de incautos do presente e do futuro.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

2639) Drummond: “Jardim da Praça da Liberdade” (19.8.2011)



Os poetas parnasianos viviam uma versão chapa-branca do Brasil, envoltos num ufanismo cuja melhor tradução é o famoso verso de Olavo Bilac, primor de patriotismo histérico: “Pátria, latejo em ti!”. A gente manga dessas coisas (eu, pelo menos) mas precisa reconhecer que são fases necessárias para a formação de um conceito de nação. A primeira coisa que o colonizador incute no juízo do colonizado é que aquilo ali não presta, é inferior, que não vale a pena defender aquelas matas atlânticas ou jazidas de diamantes; mas quando a maré política se inverte é preciso reverter essa lavagem cerebral. A literatura e os demais discursos verbais nos fornecem argumentos e justificativas para que a gente sinta tais e tais coisas. Hoje em dia, por exemplo, a defesa do meio ambiente é uma questão de tal importância que mesmo os argumentos idiotas em seu favor são males menores, pois ajudam muita gente a dar atenção ao problema. No tempo dos parnasianos, a República foi na verdade a verdadeira Independência, um abrir-os-olhos para a existência de um Brasil administrado pelos brasileiros. O ufanismo pomposo e grandiloquente de Bilac era melhor do que o complexo de viralata dos 400 anos anteriores.

O modernismo introduziu a ironia na poesia brasileira, a capacidade de ver-se com olho crítico mas sem complexo de inferioridade. Até então, nossos poetas viviam num internato católico; de 1922 em diante, foram soltos na rua e ganharam emprego de motoboys, com uma única instrução: “Te vira”. No livro Alguma Poesia, Drummond contempla o “Jardim da Praça da Liberdade”, aquela paisagem ao mesmo tempo parnasiana (pela superfície bucólica que tenta aparentar) e modernista, por ser um artificialismo que denuncia a si próprio (“Bonito demais. Sem humanidade. Literário demais.”). Ele ironiza o paisagismo ingênuo (“rosas geométricas”, “jardim tão pouco brasileiro”, “a terra não sofreu para dar essas flores”) e expõe o contraste entre a sugestão de natureza presente em qualquer jardim e o círculo de ferro do conservadorismo em perpétua sentinela (“jardineiros oficiais”, a “moldura das Secretarias compenetradas”, a “prefeitura vigilante”).

Para quem não conhece, a Praça da Liberdade fica diante do palácio do governo mineiro, cercada pelos prédios austeros da secretarias. Agora, tudo está sendo transferido para o novo Centro Administrativo, a meio caminho do aeroporto de Confins. Para mim, que morei e estudei ali ao lado, era o lugar de passeio de fim de tarde entre gramados e palmeiras, num oásis de natureza artificial cercado por um cinturão do Poder político (e, na época, da ditadura militar). As ironias de Drummond para com essa praça (que ele certamente amava tanto quanto eu) exprimem esse novo patriotismo cheio de auto-crítica. Um patriotismo século 20, mesmo que já no século 21 grande parte dos brasileiros ainda esteja encalhada no complexo de viralata ou no orgasmo perpétuo do ufanismo nacionalista.


2638) Os ricos são diferentes (18.8.2011)



A pesquisa foi publicada na revista Current Directions in Psychological Science, por Dacher Keltner e colaboradores. O objetivo era examinar pessoas de diferentes classes sociais na tomada de decisões baseadas em empatia, compaixão, altruísmo, solidariedade social, etc. A conclusão foi que os ricos têm uma experiência de vida que os induz a ter menos empatia, menos altruísmo, e a serem em geral mais preocupados consigo mesmos. Já os pobres mostram um comportamento mais impregnado de união social e compaixão. Eles interpretam melhor os sentimentos alheios, têm mais empatia e estão mais dispostos a dar algo a quem precisa.

Nos vídeos gravados pelos pesquisadores, as pessoas mais ricas geralmente mantêm uma atitude distraída, checando o tempo inteiro seus celulares, rabiscando num papel, evitando contato visual com o interlocutor, enquanto que as pessoas de menor poder aquisitivo encaram as outras de frente e fazem sinais mais frequentes com a cabeça indicando que estão entendendo o que lhes é dito.

Os pesquisadores consideram que a atual guerra política nos EUA, envolvendo impostos, teto de endividamento e as práticas atuais do mercado de capitais têm sua origem na “ideologia do interesse próprio” das classes mais ricas. Os ricos acham que o sucesso econômico, político e pessoal se deve a comportamentos individuais e a uma boa ética de trabalho. Pelo fato de não reconhecerem a importância de conexões familiares, dinheiro e melhor educação, eles tendem a desdenhar a ajuda do governo em seu sucesso e opõem-se vigorosamente a financiar esse governo com impostos. Para Mark Wilhelm, economista da Indiana University, a maioria das pessoas é capaz de responder com rapidez quanto pagou de impostos no ano passado, mas poucos seriam capazes de calcular o quanto se beneficiaram do governo – dirigindo em estradas federais, tomando remédios produzidos através de pesquisas financiadas pelo governo, ou usando invenções de pessoas que foram educadas em escolas públicas.

Os ricos tendem ao isolamento, consideram que todo seu sucesso se deve a si próprios, e que não faz sentido dividi-lo com mais alguém. Os ricos não são propriamente egoístas, são voluntariamente desatentos, e desse modo incapazes de fazer a ligação cognitiva entre necessidades e recursos. Enquanto isto, a distância entre os mais ricos e o resto da população continua a aumentar nos EUA, onde 80% da riqueza do país é controlada por cerca de 20% de sua população.

Os ricos são cruéis? Talvez nem tanto. Como qualquer um de nós que se julga em boa situação, eles acham que merecem tudo que têm, e talvez merecessem até um pouco mais. Seu índice de normalidade é o seu próprio nível de vida. Muitos deles até se dispõem a dar 1 milhão a uma instituição de caridade, desde que essa decisão seja sua, mas chiam e esperneiam se o governo os obrigar a doar mil dólares para gente por quem eles não se interessam nem um pouco.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

2637) A história de Zé Francisco (17.8.2011)



Eu devia era checar com os descendentes de Zé Francisco os detalhes desta história, que para mim já se despregou da mera biografia e ascendeu ao reino das lendas. Vai ela aqui, e quem conheceu o “santo” que reconheça (ou não) o “milagre”. 

Zé Francisco morava em Alagoas, nos anos 1940, e quando começou a Grande Guerra houve um alvoroço total. O mundo pegava fogo; havia até mesmo europeus ou brasileiros filhos de europeus que embarcavam de volta para a Europa, para defender seus respectivos países. 

O Brasil, pelas manobras de Vargas, demorava a entrar no conflito. Acabou entrando; e Zé Francisco saiu de sua cidadezinha de Alagoas para vestir a farda e lutar no “front”.

Fusão para poucos anos depois. Campo de batalha numa floresta italiana. Uma tropa alemã está sitiada numa casa, no meio de um vale, e os brasileiros a cobrem de rajadas de metralhadora. Zé Francisco é um deles. Depois de um fogo mais cerrado, eles começam a perceber que a maioria dos alemães morreu, mas no andar de cima há pelo menos um sobrevivente, bem municiado, que continua a defender o posto. Zé Francisco pede aos amigos que o cubram, disparando contra as janelas de cima, enquanto ele sai das árvores e corre até a casa, para entrar pela porta e dar cabo do alemão.

Botam o plano em prática. A fuzilaria é intensa enquanto Zé Francisco corre, protegendo-se, até a porta da frente. 

O tiroteio para. Ele empurra a porta e entra. Vê corpos de alemães caídos por todo lado; e uma escada que sobe até um alçapão que dá acesso ao andar de cima. Zé Francisco se encaminha para ela, pé ante pé, vai subindo. 

Chegando lá no alto ele ergue o fuzil e, com a ponta da baioneta, começa a levantar a tampa do alçapão. Quando a levanta por completo, o que vê? Vê a boca enorme de uma metralhadora apontando para seu rosto, e, por trás dela, o rosto do alemão que empunha a metralhadora, pronto para disparar. E quando os seus olhos se cruzam, o alemão exclama, assustado: “Zé Francisco! O que é que você tá fazendo aqui, homem de Deus?!!!”.

Sei que a história não é exatamente assim, velhos, mas este é o segredo da literatura: usar a imaginação quando a memória nos falta, e usar a memória quando nos convém. Todos os grandes episódios da História são contados dessa maneira, desde a Grécia clássica e a Roma Antiga até a Revolução Francesa e o Descobrimento do Brasil. 

O alemão entrincheirado naquela casa morava em Alagoas e era um dos que tinham voltado à Pátria para vestir sua farda e defender seus ideais. Pelo que me lembro (daquela frase em diante a história perde nitidez e interesse, pela parte que me toca), o alemão foi preso e Zé Francisco foi avalista de sua sobrevivência durante as semanas seguintes, de modo que tudo acabou bem para todos os envolvidos. 

Mas a mera possibilidade de um encontro como esse nos faz exclamar como Riobaldo Tatarana: “Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande.”