quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

4000) Problemas de escritor (18.12.2015)



Carlos Drummond de Andrade publicou em 1967, pela Editora do Autor (Rio), o curioso livro Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um Poema. Durante anos o poeta arquivou tudo que saía sobre seu poeminha da pedra, fosse a que pretexto fosse, e foi separando tudo em pastas. Os títulos de alguns capítulos dão uma idéia da variedade do material: “Reação pelo ridículo”, “Muita gente irritada”, “Popularidade, mesmo negativa”, “Os amigos da pedra”, “E os inimigos”, etc. Pena que seja meio difícil de obter, e não sei se foi reeditado.

Poucos poemas daquele século provocaram reações tão esperneantes. A pedra de Drummond tirou do sério muitos críticos. Deixaram-se perturbar demais pelo que o próprio autor considerava um poema interessante mas menor, quase uma brincadeira, por que estaria produzindo tanta raiva?

O momento auto-ajuda é você perceber que nem sempre a sua obra que vai ter impacto é sua epopéia de dois mil versos ou sua trilogia que engloba seis gêneros. Às vezes basta um pequeno escândalo estético desse tipo para fazer uma fama. Drummond impressiona pelo modo aparentemente tranquilo e equilibrado como descreve, transcreve e comenta o que disseram a seu respeito. Ele tem o ar kafkeano de um entomólogo examinando a si mesmo. Nesse livro ele republica também o poema em prosa “O Enigma” (Correio da Manhã, 1947; depois em “Novos poemas”, 1946-7), uma clara resposta ao poema da pedra, invertendo apenas seu ponto de vista narrativo.

O bombardeio massacrante dos articulistas que não gostaram da “pedra” é atenuado em parte pelos que a traduziram, a adaptaram, ou lhe deram variadas utilidades a título de homenagem. O poema mais famoso de Drummond virou um meme do seu tempo. Um meme cuja viralidade durou várias décadas e ainda não se esgotou de todo, porque hoje ou amanhã um cartunista do Norte ou um diretor de teatro do Sul vai lançar mão dele para produzir um efeito qualquer.

A pedra no caminho viralizou na administração pública, no esporte, na moda, no rádio; foi vítima de insinuações políticas e era citada nas propagandas. Virou, a julgar pelas centenas de notas e de matérias transcritas por Drummond, uma dessas coisas que você usa sem saber quem inventou e sem ligar a mínima para isso. Poucos poetas que tiveram inclinações modernistas deixaram de fazer algum tipo de paródia, citação ou homenagem a ele. Como se diz da massa de bolo e de alguns clubes de futebol (“quanto mais apanham mais crescem”), Drummond apanhou, certamente preferiria não ter que passar por aquilo, mas como não podia mesmo mudar nada parece que decidiu se divertir um pouco e dar risada de quem dele ria.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

3999) Os estrangeiros (17.12.2015)




Anthony Boucher é um nome familiar a quem conhece a literatura policial e de FC norte-americana de 50 anos atrás. Ele foi uma figura decisiva nos dois gêneros, como autor, editor, crítico, resenhador. Era um escritor católico, com formação latina que lhe permitia traduzir do espanhol e do português para o inglês. Philip K. Dick foi grato a ele pela vida inteira, pelo incentivo que recebeu. Foi ele quem traduziu e publicou (no Mistério Magazine de Ellery Queen) o primeiro conto de Jorge Luís Borges a sair nos EUA.

Entre 1942 e 1947, Boucher manteve uma coluna periódica no San Francisco Chronicle.  Em um artigo de 5 de maio de 1946, ele comenta duas traduções recentes para o inglês: O Homem que Via o Trem Passar de Georges Simenon e O Estrangeiro de Albert Camus (ambos traduzidos por Stuart Gilbert). Diz ele:

“Trata-se em essência da mesma história: a de um homem que não consegue aceitar em seu íntimo as convenções usuais da sociedade, mas apenas deixa-se levar por elas até que um assassinato, cometido quase por acaso, lhe dá a chance de explodir a moldura social”.  Boucher descreve Camus como “um jovem romancista com respeitável estatura filosófica e estética, que é uma das duas figuras-chave do curioso movimento contemporâneo francês do Existencialismo”. O ano era 1946 – ainda não era o Camus do Prêmio Nobel; era apenas mais um jovem escritor botando as unhas de fora.

Boucher lembra: “Camus se dedica à criação de um personagem extraordinário, um caixa de banco na Argélia cujas reações (ou ausência delas) apenas não são aquelas que a sociedade exige. Comentaristas do Existencialismo parecem dar a esse personagem um valor filosófico para além da literatura; mas ao nível do romance propriamente dito, é um retrato espantosamente bem executado de um indiferentista em estado puro.”

De fato, o jeitão à deriva do “estrangeiro” Meursault está somente um degrau acima de um indiferentista total, no caso o escrivão Bartleby, de Melville, que reagia a todos os pedidos para que fizesse não importa o que, dizendo: “Eu preferiria não fazer isto”. Meursault é meio que uma versão pop disso, porque tem namorada, toma cerveja com amigos, se preocupa com isso e com aquilo... Mas é como se a vida dele fosse ligeiramente irreal, sem propósito.

Boucher lembra que Camus trabalhou como leitor na editora Gallimard, que publicou o livro de Simenon em 1938. Não é exagero supor que Camus o leu e que foi um dos policiais “hardboiled” que ele diz ter querido emular quando escreveu O Estrangeiro, quatro anos depois: os livros (provavelmente) de Hammett e Chandler... Talvez se possa colocar Simenon nessa lista.



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

3998) "Retrato do Artista Quando Jovem Cão" (16.12.2015)




(Dylan Thomas, jovem)


Quando um cara faz um livro de memórias espera-se que ele comece do começo, passe pelo meio e acabe no fim. Claro que há talentos mais ambiciosos que querem ir além disto, com resultados variados. As memórias de Bob Dylan recolhidas em Crônicas, vol. 1 (2004) começam com a chegada dele em Nova York, fazem um ótimo retrato dos músicos boêmios do Greenwich Village de onde ele se catapultou para o sucesso, e depois começam a ricochetear para a frente e para trás, sem cronologia aparente, apenas uma coisa meio por associação de idéias. O que não é nada mau, se as idéias em si valerem a pena. Ele não diz um “A” sobre a criação dos seus grandes discos. Conta apenas os bastidores de estúdio de Oh, Mercy, álbum talvez imerecedor de tal prioridade.

Por que falei em Dylan? Acho que porque o Dylan que me lembrou esse aí foi o poeta Dylan Thomas com seu Portrait of the Artist as a Young Dog (1940). O título já é uma gréia com o Portrait of the Artist as a Young Man (1916) de Joyce, onde aparece o famoso personagem Stephen Dedalus. Um crítico observa que apesar disso é com Dublinenses (1914), do mesmo Joyce, que o Portrait de Thomas se assemelha. Tendo em mente, claro, que estamos comparando um galês e um irlandês. 

São dez histórias curtas que vão desde retratos da vida em família de um Thomas bem garoto até um Thomas jovem-adulto, trabalhando em redação, fumando, indo aos bordéis. Algumas histórias são narradas por ele na primeira pessoa, outras vezes é na terceira pessoa, referindo-se apenas a “o rapaz”, “o jovem”.  Em momento algum pode-se pensar que isto é uma autobiografia no sentido acadêmico. É uma reescritura livre de memórias compartilhadas mas não unânimes.

Quando Bob Dylan lançou em livro suas crônicas, publiquei uma intitulada “Bob Dylan sabe escrever”, porque achei o livro muito bem escrito, no sentido de que parecia escrito pela mesma pessoa que fez aquelas letras, deu aquelas entrevistas, etc.  Bem, Dylan Thomas também sabe, e os seus contos são até fáceis de ler, comparados aos seus poemas densos, alusivos, cheios de imagens surpreendentes. Mas o olho que capta aqueles parágrafos é o mesmo olho do poema.

São as duas moças que se enfurecem ao descobrir que têm o mesmo namorado, o jovem repórter começando a frequentar os inferninhos onde vão os jornalistas mais velhos, os dois garotos de mochila passando um fim de semana num lugar distante, os escritores amadores discutindo seus manuscritos... O olho do jovem Dylan Thomas era um cão farejador, que não perdia um detalhe, conferia tudo, e só trazia aos pés do leitor aqueles que deixavam implícita toda a verdade do resto.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

3997) Noel Rosa (15.12.2015)




(Noel Rosa, por Thiago Bertoni)


Pois é, Noel Rosa faz 105 anos. Noel e Adoniran Barbosa (ambos de 1910) falavam de um tipo de gente muito específico, o sujeito de certo nível que pelas contingências da vida está precisando dormir num banco de praça, porque foi desalojado do muquifo que habitava de graça. É um momento zen da vida humana. A vida é uma coisa diferente para quem só tinha o direito de se concentrar em duas coisas: o que eu vou comer hoje, e onde vou dormir a próxima noite.

“Eu, Mato Grosso e o Joca” são personagens de um que poderiam estar disputando o banco de praça de “O orvalho vem caindo”. Eu entendia que umas daquelas histórias se passavam em São Paulo, outras no Rio. Mas eu achava que conhecia os ambientes, de tanto ver as chanchadas no cinema. Tinha uma vaga idéia dos principais pontos de referência turística no Rio. Eu era um menino. Então vi numa revista Brasil Enigmista um artigo de alguém destacando e comentando versos de Noel Rosa. Reconheci algumas canções que volta e meia eram ouvidas no rádio. Tudo aquilo era dele.

Noel tem virtudes variadas como letrista, mas eu queria bater na tecla de sempre, a da letra que conta uma historinha. Ou letras que são praticamente um cartum em animação, como “Conversa de Botequim”, “Com que roupa”, “Três apitos”... São gifs animados em várias partes. Não é uma história com começo, meio e fim; é uma sucessão de flashes com parcial passagem de tempo, mais em uns, menos em outros. Flashes poéticos que às vezes contam mais sobre um pedaço da história humana do que um livro inteiro.

O freguês do botequim de Noel é como o Riobaldo de Rosa, uma voz incessante, reiterante, minudente e disposta a refletir em voz alta cada luz que lhe mandar a vida. Ele fala com o garçom como o jagunço falava com “o doutor”. Aliás, essa letra parece mais com o monólogo rosiano Meu tio, o Iauaretê, com Cacá Carvalho. Uma peça com apenas dois atores, um só falando, o outro só escutando, quase sem se mexer. No fim, um deles mata o outro. (No botequim o garçom não fala, mas escapa.)

Noel tinha uma riqueza de rimas que lhe permitia dizer uma coisa inesperada sem perder o fio da meada. Usava em suas letras modos de dizer da época, do momento, como qualquer compositor sempre fez.  Para Noel (imagino) bastava dinheiro no bolso, namoro engatando, uma turma boa com quem sair... Nesse ponto se parece a Castro Alves. O número de obras que cada um deixou é muito grande. O poeta baiano morreu com 24 anos; o compositor carioca com 26.  Me pergunto às vezes as obras que teríamos se Noel Rosa, nascido no mesmo ano que Adoniran Barbosa, tivesse vivido até a mesma idade dele.




sábado, 12 de dezembro de 2015

3996) O eu lírico (13.12.2015)




(ilustração: Mana Neyestani)


Existe uma discussão em curso, Brasil afora, sobre as pessoas de origem humilde que conseguem cursar uma universidade, mesmo sendo o que se chama de analfabetos funcionais. Sabem ler, sim. Mas aprenderam apenas a tarefa mecânica de identificar palavras. Não sabem o que aquilo quer dizer. Podem, se estimuladas, dar uma definição passável de cada uma daquelas palavras que rabiscam. Mas se alguém lhes perguntar o que significa um mero parágrafo de jornal sobre assunto que não dominam, terão balbuciantes dificuldades. Diante de um parágrafo da literatura ou da ensaística, naufragarão.

Isso é uma vergonha? De jeito nenhum. É apenas uma erro de programação (ou uma programação propositalmente defeituosa, dirão os mais paranóicos). Nossa civilização precisa de gente assim, que sabe copiar coisas escritas sem entendê-las. Isso deve ter começado desde os tempos cuneiformes, um poeta analfabeto ditando, e um escriba bronco mas competente cravando as runas na argila. Exatidão no registro era mais importante do que entendimento próprio. Hoje não. Exatidão de registro existe a três por dois. O que falta são mentes com mais do que os dois neurônios necessários à alfabetização.

Isso não implica em zombar de quem não sabe ler, mesmo os supostos leitores sofisticados. Há gente com graduação universitária que atribui a Shakespeare ou a Nelson Rodrigues os sentimentos de uma frase dita por um personagem: porque não têm hábito de ir ao teatro, não entendem o jogo de idéias do teatro, e acham que toda frase escrita por um dramaturgo é como um editorial de jornal, um documento partidário, uma carta de intenções registrada em cartório.

As pessoas atacam uma atriz no supermercado porque não gostam da personagem dela na novela do horário nobre. As pessoas entendem mal o que leem. As pessoas têm a mais tênue percepção possível do mundo de teias-de-aranha narrativas em que vivem enredadas - pela TV, pelas revistas, pelos websaites de fofocas. As pessoas comuns (acho eu) têm uma idéia ainda mais esgarçada do que é o mundo real do que um adepto da Teoria Quântica.

As pessoas muitas vezes não percebem que um texto de um desconhecido (mesmo um desconhecido que seja famoso para milhões de pessoas) está ligado a outros contextos e envolve outros sentidos e comenta outros comentários. Enfim. É difícil pegar um jornalista finlandês recém-chegado ao Brasil e tentar explicar para ele nossos 500 anos de história, e a influência que eles têm na atual conjuntura política. Pois bem, o jornalista finlandês é cada um de nós, brasileiros. Não sabemos da missa um terço. O fato de a gente achar que sabe ler não significa que a gente entenda.




sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

3995) Noite de reencontro (12.12.2015)



As portas do bar se abrem para o frio da calçada, o asfalto molhado, as rajadas de água que os táxis projetam quando passam rasgando por cima das poças. Meu grupo sai pela porta aos empurrões, aos apertões, ao cambaleios, estamos eufóricos por estar juntos, quase todos falando ao mesmo tempo. Esse aqui, por exemplo, é Anexarzinho. É marceneiro, e não dirige carro. Tem pernas curtas; é aquilo que chamam de fração imprópria, vai ver que isso pesou. Não sabe ligar um Fusca. Por isso pra onde a rapaziada vai ele tem que arrumar lugar no carro de alguém.

O que é esse grupo falador com quem saio abraçado e meio ébrio? Somos uma turma da terceira idade, gostamos da confraternização e da boa música. Em nosso tempo, fazíamos um samba moderno. Nossa linha era o samba intimista, o samba existencial, com laivos de Cartola e de Nelson Cavaquinho, só que composto na estrutura de um samba-enredo, quer dizer, com uma estrutura de muitas partes, cada qual com letra e melodia próprias, como aqueles velhos sambas primordiais. Várias partes, um refrão recorrente. Em sambas-enredos, mesmo os fakes como os nossos, o material tem que ser variado. Samba de rua tem que ser feito pensando que aquele troço vai ser cantado durante horas, por alguém a pé, no meio da rua, à frente de cinco mil pessoas cantando junto.

Começam as despedidas, os abraços, as trocas de cartões, as admoestações finais, as gargalhadas cheias de bonomia. Uma banda onde a gente tocou por dez anos, trinta anos atrás. É como uma visita que chegou, tornou-se insuportável, mas voltou a ser do-coração depois que foi embora. Aí está Babosa, o vocalista, astro maior das quarentonas ainda no páreo. Agora usa colete. Vilto da Lanternagem é aquele, o do sete-cordas. O pandeiro, o gordinho, é o Gordo Eliézer, dublê de serralheiro e filho de santo.

Como sempre, os dois mais velhos estão afastados dos demais, mergulhados em altas discussões em voz baixa. Dinaldo Granja, o batera mais confiável do lado de cá do Beco das Garrafas, e o cavaquinho Diélson, irmão dele. Dois quengos finos, finos. Músicos de mão cheia, faziam direção musical, faziam tudo, cuidavam das finanças da banda. Ainda hoje, todos os direitos autorais e conexos nos chegam pelas mãos deles dois, pela razão-social que eles criaram. Ninguém guarda mágoas de ninguém, certo? A banda acabou, a vida continua, cada qual hoje tem seu ganha-pão. Podemos considerar uma vitória dos bons sentimentos o fato de ainda estarmos fazendo esse teatro de que somos amigos só porque estes paparazzi daqui desta rua, que Deus os conserve, são os únicos que continuam acreditando em nós.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

3994) "Crítica Syllyrica" (11.12.2015)



Alguém já disse que a melhor maneira de criticar, digamos, uma pintura a óleo seria produzir uma segunda pintura a óleo que fosse uma crítica da primeira. Professores de belas-artes pegam o desenho de um aluno e o copiam, mostrando como corrigir cada pequeno erro. Glauco Mattoso, em sua nova coletânea de sonetos, Critica Syllyrica (São Paulo: Lumme Editor, 2015) usa um método parecido. Ele pega sonetos famosos ou obscuros da poesia brasileira, e produz um soneto paralelo que lhe serve de crítica. Não que ele corrija o soneto do outro, não que tente refazê-lo “certo”: o soneto mattosiano é um comentário, geralmente sarcástico, ridicularizando aqueles modismos insuportáveis, o linguajar pomposo, as imagens clichê, etc.

A metalinguagem já faz parte dos métodos mattosianos desde o Jornal Dobrabil (1977-1981), a primeira publicação gay-concretista-anarquista-sadomasoquista-coprofágica da poesia brasileira. Paródia, pastiche, imitação, avacalhação, todos esses métodos desconstrutivos já estavam presentes naquela folha datilografada que acompanhei ao longo dos anos. Depois que o glaucoma reduziu drasticamente suas atividades datilografistas, Glauco dedicou-se à composição de sonetos, sendo provavelmente o recordista mundial do gênero.

Critica Syllyrica está todo vazado na “ortographia antiga”, uma opção radical do poeta, a quem parece não agradar essa sucessão de reformas mexendo em coisas sagradas como o hífen e o trema. Comentando o soneto “Risonhas Flores” de Sylva Alvarenga, ele diz: “Das epochas tentou Sylva Alvarenga / os themas amorosos por na flor. / Tentou, pois todos tentam, mas amor / não vive só de flores: há pendenga”. O livro reproduz, face a face, o soneto original e o soneto-crítica, onde Glauco, fiel ao personagem, reclama com frequência da hipocrisia dos poetas ao se dirigirem às “amadas”, e explicita as perversões sexuais que provavelmente jaziam encobertas nos versos castos dirigidos às “virgens puras” daquele tempo.

Crítica metalinguística como esta o poeta já tinha produzido ao reescrever o romance A Pata da Gazela (1870) de José de Alencar como A Planta da Donzela (Rio, Lamparina Editora, 2006), onde as sutilezas fetichistas e sadomasoquistas do original são exibidas e ampliadas. O mesmo que faz agora, com sonetos de poetas consagrados e poetas menores. Definição que ele contesta, ao comentar Amaral Ornellas: “Questiono si ‘menores’ elles são, / talvez um tanto obscuros. Mas fallar / pretendo, tambem, delles. Exemplar / é o caso deste Ornellas, de encheção.” Não escapam sequer os maiores, como Bandeira, Drummond, Bilac, Augusto dos Anjos ou Vinicius. A verdadeira sátira não perdoa ninguém.




3993) "Rubber Soul" (10.12.2015)



Estamos celebrando os 50 anos do lançamento de Rubber Soul, o disco que tornou-se uma esquina na carreira dos Beatles. Foi quando eles pararam de fazer shows e se fecharam nos estúdios, cujos recursos estavam começando a descobrir. Há versões diferentes do álbum na Grã-Bretanha e nos EUA. No Brasil, a versão que foi lançada (a que ouvi até furar) era a que abria no lado 1 com “Drive My Car” e fechava com “Michelle”, enquanto o lado B abria com “What Goes On” e fechava com “Run For Your Life”. É a essa edição que me refiro quando falo no disco.

Foi neste disco que os Beatles lançaram sua cítara indiana (“Norwegian Wood”) e sua própria versão da guitarra com distorção (“Think For Yourself”, gravada em novembro), logo depois que os Rolling Stones lançaram “Satisfaction” em outubro, com o famoso riff de Keith Richards.

Aqui no Brasil uma coisa que deve ter contribuído para a popularidade do álbum são as versões brasileiras que tiveram muito sucesso, como as de Ronnie Von para “Girl”, de Renato e Seus Blue Caps para “You Won’t See Me” e “Run For Your Life”, dos Golden Boys e de Agnaldo Timóteo para “Michelle”.

Em termos de letra, de imageria poética, “In My Life” é o primeiro elo de uma corrente nostálgica que se prolongaria tanto na “Penny Lane” de McCartney quanto no “Strawberry Fields” de Lennon. Ian McDonald diz que a psicodelia britânica era acima de tudo um retorno à infância. Uma infância talvez imaginária, mas feliz.

Lennon já disse detestar canções como “Run For Your Life”, e não sei como seria recebida hoje em dia uma canção dizendo “Olhe aqui, garota, prefiro ver você morta do que lhe ver com outro cara”. Lennon, como qualquer teddyboy de sua geração, era metade machista metade inocente. Depois, na sua fase feminista em Manhattan, ele depreciava a letra, a canção inteira. Mas a mente ciumenta daqui é a mesma de “Jealous Guy” anos depois, o que muda é o tratamento que o ciúme recebe. E só um sujeito reconhecidamente famoso por seu sarcasmo e cara-de-pau, como Lennon, teria crédito para dizer anos depois: “Eu estava inseguro, pensei que você talvez não me amasse mais”. “Run For Your Life” é um rockinho bobo mas seu refrão é muito bom, e ela já foi explorada em desenhos animados, etc.

E de fato essa música não é a cara dele, a cara dele é “Nowhere Man”. Talvez a gente nunca saiba com certeza, mas Lennon afirmava que essa música era uma espécie de estalo-de-Vieira ou maçã-de-Newton dele, quando ele descobriu que podia transformar numa canção uma coisa real que estava sentindo. Foi quando ele começou a considerar a letra algo mais do que uma roupa para que a música não saísse desfilando nua por aí.




quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

3992) Cinco eufemismos (9.12.2015)



Correu como fogo em pólvora, naquela manhã, na vizinhança, a notícia de que Doutor Hercílio tinha uma rapariga. Alguém ia passando e o viu saindo da casa dela às 7 da manhã, despedindo-se com um beijinho, e veio de táxi trazer a notícia para Dona Iolanda. Minha mãe soube, foi na casa da pobre vizinha oferecer os préstimos. Na hora do almoço meu pai perguntou: “Que zum-zum-zum é esse na calçada, essa risadaria, todo mundo falando em Hercílio?”  Minha mãe, muito dignidade-ofendida, trouxe a terrina de feijão e informou: “Descobriram que ele tem um contróle lá no bairro do Jeremias”.

Insone e com a cabeleira em desalinho, o cantor irrompeu no apartamento do seu empresário, brandindo demonstrativos bancários quentinhos do forno. Onde estavam suas economias, seus investimentos, suas poupanças? Onde estava a confiança que tinha depositado no amigo? Onde estava a grana dele, afinal? O outro engoliu e seco e disse: “Tua grana está dando a volta ao mundo, qualquer dia ela volta pra casa.”

O delegado ouviu dos envolvidos e de testemunhas o relato de que Chico de Janjão chegou em casa e flagrou a mulher conversando com dois evangélicos de Bíblia em punho, caiu de pau enxotando a dupla, que se escafedeu com escoriações leves, e descontou o resto em cima da pobre da dona Do Carmo, que exibiu às autoridades os três dentes partidos, olho roxo, boca lascada, braço destroncado, chumaço de cabelo arrancado à força. O delegado lavrou auto de infração acusando Chico de Janjão de “atitude inconveniente”.

Da súmula do jogo Hamburguense x Laranjal, pelo árbitro Moziael Ribeiro Júnior: “Aos trinta minutos da etapa complementar, seguindo-se a uma altercação entre os atletas Mariano Paulo de Amorim e Salim Raia, houve a invasão de campo por dirigentes e reservas de ambas as equipes, e no alvoroço subsequente o presidente do clube local, o deputado Anastácio Baruque, aplicou as mãos espalmadas de encontro ao meu peito, nas quais esbarrei e acabei perdendo o equilíbrio e caindo para trás, o que pode inclusive ter dado ensejo a versões tendenciosas que podem querer me indispor com a supracitada autoridade.” 

Nininha Dez-Reais estava na calçada de sempre, de minissaia, checando o zapzap sob a luz do poste, quando parou um carro novinho com um senhor grisalho ao volante. Ela encostou na janela, os dois trocaram sorrisos calejados, num flerte protocolar de trinta segundos. O cliente explicitou sua intenção de que o ato amoroso fosse praticado, por assim dizer, por vias diversas das convencionais. Ao que Nininha se empertigou, receosa, e mandou essa: “Doutor, o senhor me desculpe, mas comigo é só no organismo.”




segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

3991) "Partido Alto - Samba de Bamba" (8.12.2015)



Nei Lopes, sambista de talento, é também um pesquisador de tudo que diz respeito ao samba, à história da cultura negra do Rio de Janeiro. Anos atrás encontrei seu livro O Negro no Rio de Janeiro e sua Tradição Musical (Pallas, 1992), onde ele compara certas formas e estruturas do samba de partido alto com outros gêneros de improviso popular. Essa obra saiu depois, muito aumentada e enriquecida, como Partido Alto – Samba de Bamba (Pallas, 2005).

O partido alto é o grande território do repente no Rio de Janeiro, uma cidade onde cantoria de viola e coco de embolada são praticados quase exclusivamente por nordestinos. Há diferentes tipos de estrofe, de refrões, etc., que não são catalogados tão rigidamente quanto os gêneros da cantoria do Nordeste. Uma forma frequente, p. ex., é, após todo mundo cantar o estribilho, alguém cantar uma quadra, e outro produzir uma quadra que sirva de resposta, após o que cantam todos o estribilho e tudo recomeça.

No livro de 2005, Anescarzinho do Salgueiro comenta para o autor: “Partido alto, hoje, o tema do partido é um e o verso é outro, quando não era isso, o partido-alto exatamente era partido do tema, o tema em si é o quê? Era o estribilho. Se o estribilho fala de amor, os versos é tirar partido do amor nos versos. Partido-alto é tirar partido do tema.” 

Olha o parentesco de espírito. Porque essa noção de “tirar partido do tema” corresponde a vários preceitos da cantoria, como pagar o verso bom do companheiro dizendo outro no mesmo “sentido”; ou glosar um mote (submeter-se a um tema imposto), ou pegar na deixa (fazer uma menção sonora, com a rima, ao verso deixado pelo outro). Tirar partido, sempre, do que foi proposto, às vezes com pouquíssimo tempo para pensar.

Um verso que gostei foi “Como letra na cabeça / como letra no jorná... / Você pra cantar imagina / eu canto sem imaginar.”  O que quer dizer isso?  Talvez alguns cantadores tenham memória visual, como eu, e quando estão cantando um trabalho decorado lembrem (como eu lembro) a imagem do caderno ou da folha impressa. Isso explica o olhar meio vidrado e inexpressivo de alguns cantores. Estão vendo na cabeça a letra impressa como num jornal. É como se ele dissesse: Você inventa o verso à medida que canta, eu não, o verso me vem inteiro e eu canto, é só ler como se fosse uma lauda escrita.

Pode-se, por exemplo, fazer um estudo comparativo dos truques criativos (e mnemônicos) usados por cantadores do NE, partideiros do RJ, calangueiros de MG, emboladores, poetas improvisadores de diferentes regiões e culturas. Veríamos como certos truques de memorização são mais universais, ou mais únicos, do que se pensa.