sexta-feira, 28 de junho de 2013

3224) Eu me lembro - I (28.6.2013)






(armazéns de algodão na rua Miguel Couto)



Eu me lembro de barraquinhas do lado de fora do Mercado São José, no Recife, onde eu, aos 13 anos, via pilhas de revistas Suspense, X-9 e Meia Noite, mais altas do que eu. 

Eu me lembro de andar na beira do Açude Velho e um dia ver uma abertura na calçada e lá embaixo uma espécie de sala cheia de canos muito grossos, tubulações de ferro, instrumentos zumbindo. 

Eu me lembro do Beco da Fome no Rio de Janeiro e o meu prato preferido, “arroz com dois ovos fritos”. 

Eu me lembro de Crush e Grapette, de Kitut e Presuntada Wilson, de confeitos Gasosa, dos Drops Dulcora, “quadradinhos, embrulhadinhos um a um”.

Eu me lembro das quatro enormes cabeças de bronze que havia na Praça Sete, no meio da avenida Afonso Pena em Belo Horizonte. 

Eu me lembro dos animais empalhados na vitrine do Palacinho da Criança. 

Eu me lembro das antigas redes Entrelivros e Unilivros, no Rio, com balcões cheios de livros de ponta-de-estoque a preço de banana. 

Eu me lembro das folhas de plástico transparente e colorido que eram colocadas diante das TVs em preto-e-branco. 

Eu me lembro da campanha política para prefeito entre Severino Cabral “Pé de Chumbo” e Newton Rique “Mão de Seda”. 

Eu me lembro dos doces de leite cortados em forma de losango nos cafés de Belo Horizonte. 

Eu me lembro de quando algumas meninas do Estadual da Prata eram barradas na entrada porque estavam com sutiã preto sob a blusa branca.

Eu me lembro da estátua da “Samaritana” de Abelardo da Hora na Praça da Bandeira, em frente ao Correio. 

Eu me lembro da casa em forma de navio que havia na praia de Boa Viagem. 

Eu me lembro de quando Arlindo “Nova Seita”, pandeirista da Escola de Samba XV de Novembro, trouxe a bateria da escola para tocar dentro da casa da gente no Alto Branco. 

Eu me lembro do banheiro do Cine Paissandu, no Flamengo, com suas pias e privadas em louça toda negra. 

Eu me lembro da Festa da Mocidade no descampado onde depois virou a Rodoviária Velha e depois na Praça da Bandeira em frente às Damas.

Eu me lembro do incêndio da academia de artes marciais de Ivan Gomes, na Maciel Pinheiro. 

Eu me lembro do “galeto al primo canto” da Palhoça do Melo, no Recife. 

Eu me lembro da Rua do Catete esburacada e cheia de tapumes de ponta a ponta para as obras do metrô. 

Eu me lembro de quando o carro com Juscelino Kubitschek acenando passou diante da nossa casa na rua Miguel Couto, subindo rumo ao centro de Campina. 

Eu me lembro dos pirulitos de melaço, pequenos cones enrolados em papel de embrulho, enfiados nos orifícios feitos em tábuas quadradas, presas na ponta de um cabo que os vendedores levavam inclinado ao ombro como um fuzil numa parada militar.







quinta-feira, 27 de junho de 2013

3223) O colecionador maluco (27.6.2013)




(Marcelo Grassman)

Há uma frase de H. G. Wells capaz de intrigar qualquer leitor. Disse ele, no transcorrer de uma argumentação qualquer: “Um milionário maluco que encomendasse obras-primas apenas para queimá-las acabaria descobrindo não ser capaz de comprá-las”. Meu primeiro entendimento foi de que se um maluco comprasse quadros de Renoir e Van Gogh e os incinerasse, logo ninguém lhe venderia telas, para que não atrapalhasse o mercado. Ou talvez com um horror diante de tal crime, porque até contrabandistas e falsários têm amor à verdadeira arte. (Não é por desdém a ela que fazem o que fazem.)

Mas suponhamos que Hans Rottensteiler, pintor berlinense, falecido num sanatório após trinta e um anos de dissipação e ziquizira deixou apenas onze quadros, todos agora valorizadíssimos. E suponhamos que esses quadros remanescentes começassem a ser queimados, um a um, em circunstâncias inesperadas, valorizando proporcionalmente os quadros restantes... Para ficar óbvio que o criminoso é o que sobrar por último, com os quadros mais caros. (Embora este último se jure inocente e ansioso para se livrar dos quadros.)

Ou então que o verbo “encomendar” no enunciado não fosse a ordem peremptória de “Tragam-me um Toulouse Lautrec, dois Gauguins e um Francis Bacon!”. Fosse assim: o milionário contrata um muralista para pintar centenas de metros quadrados de superfície, com um projeto grandioso e uma execução impecável, apenas para ser queimado na noite da vernissage. Na hora combinada, todos subiriam para um belvedere, e o mural arderia em chamas. Câmaras e celulares seriam proibidos (e mesmo assim alguém filmaria).

Podemos também reinterpretar o “não poderia comprá-las” do final. Não poderia porque, devido às flutuações da Bolsa e à quebra da Lehman Brothers, nosso bom milionário hoje só tem de portentosas as dívidas. Mora num apartamento, sustentado por um industrial que se apiedou dele. Vive pelos restaurantes (tem uma mesada razoável de seus ex-sócios, todos aliás se deram muito bem na nova época) pedindo assinatura em listas de subscrição para que ele some três milhões de dólares e consiga comprar o Chagall que ambiciona ver arder.

Há um conto de John Crowley em que um homem constrói uma máquina do tempo e pode ir ao passado e trazer de lá apenas uma coisa, uma coisa que ele próprio possa carregar consigo. (Não vale uma pirâmide, portanto.) Ele vai à Guiana, e traz um selo, lançado no dia exato para onde ele viajou. É um selo único e valiosíssimo. O simples aparecimento de uma coisa tão frágil seria uma baita sacudidela num mercado. Não precisava ser a Mona Lisa: um retangulozinho de papel valendo milhões e ceifando vidas.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

3222) Genealogia 2013 (26.6.2013)




A lua cheia gerou jibóias paranóicas que infestaram os planetas circundantes. As jibóias geraram triângulos, sendo que cada um deles era uma catástrofe inteiramente evitável. Os triângulos geraram ametistas falsificadas para os brincos das embaixatrizes e das cafetinas. As ametistas geraram alfarrábios caducos e cada dia menos inteligíveis. Os alfarrábios geraram Trombômega, elefante grego especialista em elefoas, gregas ou não. Trombômega gerou muralhas ao seu redor, tão numerosas que ele sumiu até hoje. As muralhas geraram um cíclotron de madeira que acelerava carunchos e cupins. O cíclotron gerou um Minuto em forma de circunflexo, para o qual não se achou utilidade. O minuto gerou uma espingarda que atirou no que é vil e matou o que não é vil. O tiro gerou um trocadilho com gosto de pedido de socorro. O trocadilho gerou um chofer de lotação com curso de kamikaze em Hong Kong. O chofer gerou ovos de águia, urubu, borboleta. Os ovos geraram águias, urubus, mas nenhuma borboleta. As águias e os urubus geraram a hesitação. A hesitação gerou a brisa no oco das cavernas. A brisa gerou peixes oceanógrafos, centenários. Os peixes geraram bigodes sem rosto e sem linguagem. Os bigodes geraram um cogumelo metade fogo, metade fumaça. O cogumelo gerou sapos musculosos sob a epiderme dos incautos. Os sapos geraram círios fúnebres que sobreviviam aos seus fabricantes. Os círios geraram camas vazias e sonâmbulos exaustos. As camas geraram chuva interminável, fizesse ou não fizesse sol. A chuva gerou estradas sem raízes que viviam se mudando. As estradas geraram sepulturas abertas, devorando os passantes. As sepulturas geraram relvas espinhosas e ásperas como nervos secos ao sol. As relvas geraram gotículas de fumaça cor de ferrugem. A fumaça reverteu às chaminés e gerou as mãos de um homem trabalhando. As mãos geraram o resto do homem. O homem gerou flores que eram como olhos. As flores geraram relâmpagos para conversar. Os relâmpagos geraram imagens gravadas na abóbada celeste. As imagens geraram reflexos maiores nas abóbadas maiores que as cobriam. Os reflexos geraram Deus. Deus gerou o Diabo que se revoltou contra ele e gerou o homem. O homem se revoltou contra o diabo e gerou o Sangue, que não é o sangue invisível de nossas veias. O Sangue gerou um altar de gelo no meio de um deserto cercado de cidades por todos os lados. No altar se gerou uma adolescente de rosto sem memória, e o seu sexo, e o míssil intercontinental que a penetrou. E depois da apocalíptica explosão surgiu nas bordas da cratera, empoeirado, tonto, e com as calças pelo avesso, ele, o abominável homem dos trópicos, Trupizupe, o Raio da Silibrina. 




terça-feira, 25 de junho de 2013

3221) Marcelo Grassmann (25.6.2013)




Ele talvez tenha sido o primeiro artista fantástico brasileiro da minha vida. Em revistas, catálogos e suplementos literários as suas gravuras sombrias e detalhistas chamavam a atenção pelo traço característico e pela temática surpreendente. A arte brasileira tem dois troncos principais, o experimentalismo formal e o realismo social. Grassmann viajava num mundo gótico só dele, um mundo com cavaleiros de alabardas e elmos ameaçadores, de dragões e ogros, de abantesmas sem nome.  Suas gravuras estavam repletas de avejões noturnos com bicos sequiosos, larvas, florestas impenetráveis, castelos e torreões. Lembro de ter visto aqui e ali comentários desdenhosos que elogiavam sua técnica mas o consideravam “pouco brasileiro”. Sua arte, no entanto, era tectônica: ia nas placas profundas onde repousam tanto o Brasil quanto a finada Atlântida e o fictício Zothique.

Faleceu no dia 21 de junho passado, aos 87 anos. Foi um grande desenhista, e a parte mais significativa de sua obra está em gravuras em pedra e metal. Deixo ao Google a informação sobre seus numerosos prêmios e distinções. O que nos atrai em sua obra é esse clima expressionista e simbólico, cheio de Templários, fantasmas, ogivas, mastins. Diz ele: 

“Embora formalmente a Renascença tenha me dado muito mais que a Idade Média, a Idade Média era mais carregada de coisas interiores, a meu ver, do que a Renascença, que já começava com uma preocupação formalista, de estilo, maneira, de como encarar as coisas, mais do que quais as coisas a serem encaradas. Os flamengos adoravam fazer o inferno, porque no inferno havia a proposta de milhões de fantasias. Bosch, por exemplo, parte para toda aquela loucura de figuras dentro de armaduras, meio peixe, meio gente, meio cômico e, no fundo, eu sofri influências importantíssimas dele. O mundo de Bosch é cheio de diabolismos, de fantasias, de coisas que não são de todo mundo. Já a China me deu duas coisas: um dragão e alguns diabinhos. Os etruscos me deram pouca coisa, os egípcios me deram muito mais, com suas zoomorfias religiosas”.

É curioso que numa época como a atual, em que a Fantasia Heróica vem conquistando tantos leitores no país (através de séries como “O Senhor dos Anéis”, “Game of Thrones” e outras) a obra de Grassmann estivesse meio esquecida. Porque ele descobriu esse universo meio século atrás, e o cultivou com sensibilidade estética e uma certa sensualidade, que corria paralela com os monstros, com o lado tenebroso.  Foi o nosso grande fantasista, criando uma obra pessoal, sombria, mas cheia de inventividade, retornando, numa espiral insistente, aos temas, paisagens e seres que mais o atraíam.


domingo, 23 de junho de 2013

3220) Não faça esforço (23.6.2013)




Às vezes, digo isto só para ver a reação das outras pessoas. Estamos num segundo ou terceiro andar, e na hora de ir embora pergunto: “Por que a gente não desce pela escada?”  Olhares de incompreensão. A reação é sempre tipo: “Mas por que descer pela escada, se temos o elevador?”.  Saímos de um boteco, no início da noite, rua cheia de gente, e eu digo: “Vamos em tal lugar”. Fica a cinco quarteirões. As pessoas dizem: “Vamos pegar um táxi”. Eu digo: “Não, vamos andando.” Elas: “Por que andando, se podemos pegar um táxi?”.

As pessoas que se recusam a subir e descer escadas de prédio (escadas claras, espaçosas, seguras, em 99% dos casos) e a andar meia dúzia de quarteirões são as mesmas pessoas que se preocupam com o colesterol ou o pulmão, ou que se queixam de que estão dez quilos acima do último ultimato que deram a si mesmas. Essas pessoas, claro, são as mesmas que acabam gastando uma bela grana para ir (de carro) a uma academia e passar a tarde andando numa esteira que não vai para lugar nenhum.

Essa psicose de evitar pequenos esforços físicos é um dos exemplos (que não me ouçam os psicanalistas!) do espírito de autodestruição do ser humano.  O impulso de Tânatos, o impulso da morte. Temos com a morte uma relação meio impudente e imprudente. Como sabemos que é inevitável, não ficamos à espera: metemos os pés e vamos ao encontro dela, dizendo: “E aí, vai encarar”?  É a única explicação possível para essa insidiosa autodestruição.

O sujeito que inventou o controle remoto de TV provavelmente causou a morte de uns 150 milhões de pessoas devido a doenças cardiovasculares. Aquele exerciciozinho de levantar do sofá e ir girar botões na TV vinha até então prolongando a vida útil de muitas artérias. Dizem os humoristas (com razão) que a mola propulsora da ciência e da tecnologia é a preguiça humana, a intuição de que deve haver uma maneira mais fácil de fazer qualquer coisa. Mais fácil significa geralmente uma maneira que nos poupe de fazer esforço físico. Não canso de ficar perplexo diante das idiotices que são inventadas em nome disso. Escova-de-dentes elétrica (para poupar o movimento do braço)... Lâmpada do teto com controle remoto...

Parece que existe todo um setor da engenharia destinado a estudar nosso cotidiano e descobrir quais os movimentos físicos que podem ser substituídos por uma maquinazinha que produza o mesmo efeito e possa ser comprada em doze vezes no cartão. As pessoas preferem as escadas rolantes às escadas de verdade, queixam-se o tempo todo de que precisam fazer atividade física, mas nunca têm tempo e ainda não acharam a marca de tênis mais adequada.







sábado, 22 de junho de 2013

3219) Roubo no Baile de Gala (22.6.2013)





(Ladrão de Casaca)


É uma figura dramática que talvez não se encaixa em todos os gêneros, mas que traz muita animação a alguns deles. Essa situação (uma das 7, ou 36, ou 100 situações dramáticas essenciais, dependendo do autor) pode variar muito de ambientes, mas sua estrutura principal é assim: num local fechado (hotel, palácio, prédio público) está havendo uma cerimônia ou festa especialíssima, com muitos convidados, e alguém vai se valer disso para tentar um golpe ousado e profundo contra os organizadores. Basta pensar nos salões chiques da Riviera Francesa onde Cary Grant, em Ladrão de Casaca de Hitchcock, revivia o mito daqueles ladrões de jóias por quem se apaixonavam todas as socialites, um pessoal tipo Raffles, Arsène Lupin, Simon Templar (“O Santo”), Irving Le Roy, etc.

Não tem que ser um roubo; e tanto podemos estar torcendo pelos donos do baile quanto pelos assaltantes. Este último caso me lembra “A Dança dos Vampiros” de Polanski, aquele minueto-quadrilha num salão todo espelhado em que só os intrusos disfarçados de vampiro se veem (no pior momento possível) como as únicas imagens refletidas.

Não precisa ser um baile. Pode ser uma coroação, ou um casamento real. Quando todas as atenções do mundo estão voltadas para um acontecimento central, nítido, ensaiado, agendado, pré-pesquisado por todos... Que melhor momento para se infiltrar e aplicar um golpe no coração do adversário? Novelas, folhetins, filmes B, todos gostam dessas situações em que pessoas ricas e poderosas precisam manter as aparências de normalidade enquanto uma invasão plebéia está se processando. Uma situação que só o surrealismo poderia condensar numa única imagem: aquela de L’Âge d’Or de Buñuel, quando no meio do baile surge uma carroça cheia de operários bêbados que atravessa o salão inteiro sem ser percebida.

Casais que acertam uma fuga conjunta (ou um encontro erótico de meia hora) durante uma festa num palácio. Ladrões de jóias, ladrões de corações femininos. Agentes seguindo um suspeito num baile de máscaras. O atentado com atirador de elite na hora da coroação ou no “sim” do casamento. Arsène Lupin, o Ladrão de Casaca, era especialista nessas infiltrações na festa alheia, essas intrusões do espírito saltimbanco e pick-pocket do povo dentro de um regabofe de ricos despreparados para lidar com malandros autênticos. O dinheiro dos potentados, que pensam somente em enriquecer e em acumular mais e mais, pertence por justiça poética àqueles que querem ver as riquezas circulando, exibindo sua energia torvelinhante, mercurial. Acumuladores de riquezas não são merecedores delas. Tranquem todas as entradas e saídas, mas não vai adiantar.



quinta-feira, 20 de junho de 2013

3218) A rua pegando fogo (21.6.2013)




(foto: Rodrigo Motta)

Movimentos políticos de rua têm de tudo. Jovens preocupados com o futuro do país em que viverão um dia suas velhices (pensem nisto agora, amigos). Velhos relembrando os bons tempos da “revolução no ar”. Baderneiros e vândalos. Hippies, hipsters, ripongas, ripadores de animê. Tímidos que jamais soltariam um berro daqueles na Av. Rio Branco se estivessem sozinhos. Agentes de extrema-direita e de extrema-esquerda infiltrados. Gente descontente com os partidos. Militantes ingênuos para quem o único partido sem políticos corruptos é o seu.

Muitos que estão ali são meros curiosos, satisfeitos em participar de um momento fora do comum, porque terão uma história para contar no dia seguinte: “Olha, ninguém me disse: eu estava lá...”. Entre aquelas dezenas que erguem cartazes  e faixas, você vai encontrar lado a lado duas pessoas que, se parassem para acertar os ponteiros, passariam quatro anos discutindo sem chegar a um denominador comum. Mas erguem os cartazes, protestam, cantam hino, andam lado a lado, e cada um deles acredita que está indo na direção certa. Podem até estar.

Manifestação tem skinhead, aposentado, marqueteiro, universitário jubilado, balconista, comerciante, batedor de carteira, vendedor de picolé, trotskista, keynesiano, sadomasoquista, evangélico, flanelinha. Tem modelo-e-atriz, manicure, perua, piranha, filhinha da mamãe, filhinha do papai, socialite, socióloga,  feminista, doméstica, filósofa, poetisa, cobradora de ônibus.  Todos tentam, num momento assim, encontrar um movimento coletivo que lhes dê a sensação de serem um só, sem ao mesmo tempo desbastar as arestas de individualidade que os definem.

Em toda manifestação alguém vai depredar um prédio público ou um banco particular. Alguém vai queimar latas de lixo ou carros estacionados. Se a manifestação fizesse isso o tempo inteiro, ia se desmoralizar. Mas (vejam só as ironias da nossa civilização!) os carros incendiados e as vidraças partidas doem mais fundo nas autoridades do que as palavras de ordem ou as reivindicações ordeiras. Autoridades são zumbis. Enquanto puderem fazer de conta que estão mortas, fá-lo-ão. Um milhão de vozes bradando uma queixa justa podem ser ignoradas; mas a pira de labaredas consumindo símbolos civilizatórios  como carros ou placas da Fifa é algo que os horroriza na sua medula mais íntima. Eles veem que o Poder não os blinda por completo, e que para aquela multidão nem o que é mais sagrado merece respeito. E em homenagem a esse símbolo sacrificado em holocausto (“Queimaram carros!  Por que não queimam um sem-teto?!”) eles admitem que a Rua é real. E sentam para negociar.

(OBS. texto escrito na 4a-feira, 19 de junho, após o pronunciamento conjunto de Alckmin & Haddad)



3217) Escrever pensando (20.6.2013)






Os neurocientistas afirmam (http://bit.ly/10GJfrT) que quando a gente escreve estimula mais áreas do cérebro (lobo frontal, lobo parietal, sistema de ativação reticular, etc) do que quando está apenas lendo, ouvindo ou falando. O ato de escrever a mão ou num teclado mobiliza diferentes áreas motoras e sensoriais. E isso contamina o que se passa pela nossa mente. Por isso se diz aos escritores profissionais: não fique pensando, escreva; não fique só imaginando, escreva; não queira ter a história toda pronta na cabeça antes de escrever. Porque quando chegar o ato de escrever, você vai estar pensando, em termos práticos, com um cérebro mais amplo do que o cérebro que pensava antes. Treino é treino, e jogo é jogo.

Não sei quanto aos cientistas, mas como escritor eu vejo assim. Digamos que você está escrevendo uma história de um casal que, viajando à noite numa estrada deserta, tem um problema no motor do carro. Discutem --- devem esperar socorro?  Sair andando à procura de uma casa próxima? Se eu estou deitado na rede imaginando a cena, tudo fica num plano vagamente mental de imagens visuais superpostas, antes, depois, fragmentos de diálogos semi-imaginados, ocupando uma área relativamente limitada do cérebro. Mas é diferente se enquanto imagino a cena total eu estou escrevendo.

“—Puxa vida, disse Sandra, você quer que a gente saia andando nesse escuro? – Meu amor, disse Fernando, melhor do que ficarmos aqui no carro, numa estrada onde não passa ninguém, porque na última meia hora a gente não ultrapassou nenhum carro. – Mas é uma estrada, disse Sandra, cedo ou tarde vai passar alguém. Mas quando ela disse isso Fernando já tinha partido a passos largos, e ela, mesmo engolindo a raiva, tirou as sandálias altas e o seguiu”.

Escrever isso ativa (através das mãos e dos olhos) centros motores que não são ativados pelo mero devaneio, e daí começa um feedback em que esses centros começam a xeretar o texto e dar palpite. O diálogo acima foi improvisado agora, em meio minuto; eu pensava em escrever apenas as falas, e de repente me vi fazendo Fernando meter o pé na estrada e a mulher segui-lo, com esse detalhe que eu não antevira (mas para mim plausível) de tirar as sandálias de salto alto.

Envolver o corpo na escrita é um segredo que alguns resolvem ditando em voz alta para um gravador ou uma secretária; outros, escrevendo em pé (Hemingway), outros escrevendo à mão num caderno; outros, usando a máquina de escrever como se fosse um piano de ragtime. Falar em voz alta. Gesticular. Caminhar pelo escritório. Ativar os cinco sentidos, a percepção espacial, a coordenação motora. Eles nos ajudam a imaginar melhor.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

3216) O Inominável (19.6.2013)





Dá pra pensar em dois escritores mais diferentes do que H. P. Lovecraft e Samuel Beckett? Eu diria até que a zona de intersecção entre o universo de leitores de um e de outro é bastante estreita. 

Pode até haver gente que tenha lido alguma coisa de um e alguma coisa do outro, mas gente que conheça bem (e admire) a obra de um e de outro é uma arquibancada meio vazia.


“Estávamos sentados sobre um arruinado túmulo do século 17, ao fim da tarde de um dia de outono no velho cemitério da cidade de Arkham, e estávamos especulando sobre o Inominável”. 

Assim começa um conto de Lovecraft, “The Unnamable” (1939). Expressões como inominável, indizível, sem fala, etc são frequentes no terror lovecraftiano, que despeja sua descarga numa medula pré-verbal que todos nós temos e que não é comandada pela linguagem, pelo menos a linguagem com que nos defendemos da realidade durante o dia a dia.  

Anne Sexton, numa carta de 1963, dizia: 

“As palavras me incomodam. Acho que é por isso que sou poeta. Eu fico me forçando a falar das coisas que permanecem mudas dentro da gente. Meus poemas só chegam quando eu já quase perdi a capacidade de articular uma palavra. De falar, de certo modo, do infalável. Produzir um objeto a partir do caos... Para dizer o que? Um último grito no vazio”.

Ninguém celebrou o Inominável tão bem quanto Samuel Beckett, cuja obra parece uma tentativa de recobrir com linguagem incompreensível a falta de sentido da existência humana. 

L’Innomable é um romance de 1953, que de romance só tem mesmo a designação, porque os críticos se divertem sugerindo novos nomes de gêneros literários para incluir obras assim, monólogos aparentemente desconexos em que a mente do narrador dá voltas e mais voltas sobre si mesma, narrando ações que talvez sejam imaginárias ou descrevendo ambientes que talvez não existam. Personagens sem nome, ou que mudam de nome no meio da história, ou que afirmam ser falso seu nome.

O inominável de Lovecraft é o horror monstruoso. Em certo momento percebemos que o mundo hospeda criaturas poderosas e malignas que se divertem destruindo seres humanos fisicamente, ou levando-os à loucura. 

O inominável de Beckett é o horror existencial. Em certo momento percebemos que o mundo não hospeda nada além da cortina de aparências materiais de que é feito. A relação entre as coisas e a linguagem é uma mera convenção, porque todas as coisas, em sua essência, são inomináveis, são uma existência pura, selvagem, monstruosa. 

Guimarães Rosa registra, entre os muitos nomes do Diabo, o Não-Sei-Que-Diga. É algo forte demais, pesado demais, capaz de rasgar qualquer invólucro verbal com que se procure contê-lo.








segunda-feira, 17 de junho de 2013

3215) Não são 20 centavos (18.6.2013)




Tudo indica que esta semana também vai ser de gente protestando nas ruas e a polícia descendo o cassetete. Dizem as autoridades e uma parte da imprensa que as manifestações têm como objetivo o vandalismo. É mentira. Vândalos e desordeiros se infiltram em qualquer multidão, até em torcida de futebol comemorando título. Alguns são manifestantes que querem sinceramente protestar mas também aproveitam para descarregar a raiva em vidraças e lixeiras. Outros são os habituais arruaceiros inimigos infiltrados, agindo contra a manifestação para sujar sua imagem. (É o que em política partidária se chama a “turma da pesada”, que ganha para ir aos comícios dos adversários e aprontar confusão.) E existem baderneiros que nem sabem do que se trata, não estão nem aí para o motivo da passeata, querem apenas a adrenalina do confronto e da depredação. Nenhum protesto de rua consegue se vacinar totalmente contra esses três tipos, mas isso não é motivo para proibir os protestos.

Protestos na rua não agradam a todo mundo. Causam transtorno, sim. Já fiquei preso no trânsito, já perdi compromisso, já me prejudiquei. Quem está numa ambulância pode se prejudicar mais ainda. Mas a verdade é que certas mudanças só acontecem depois que o caldo entorna. Autoridades são meio surdas, não escutam indivíduos, mas escutam multidões. Se um governo pudesse apertar um botão e acabar com as passeatas, qualquer um deles – direita, esquerda, centro – faria isso. Governo não gosta de protesto, gosta de voto.

O aumento nos preços das passagens coincide com muitos outros problemas (educação, segurança, moradia, meio ambiente, saúde) e, numa conjunção perversa, com a Copa das Confederações. E aí fica insultantemente visível o compromisso dos nossos governos (federal, estaduais, municipais) e todos os partidos com o capitalismo internacional, representado neste caso pela Fifa. O povo gosta de futebol, mas não gosta do modo sobranceiro, arrogante e acintoso com que a Fifa entra na casa alheia ditando ordens, impondo seus esquemas de exploração comercial, tratando nosso governo e nosso povo como capachos.

A Fifa e seus estádios de um bilhão de reais, que vão ficar às moscas depois da Copa do Mundo, deixando, como sempre, buracos irremediáveis nos orçamentos, e ajudando o Brasil a subir no ranking da “Forbes” dos “países com maior número de milionários” – acho que ganharemos mais algumas centenas deles depois destas Copas. Não, o problema não são vinte centavos, são bilhões e bilhões de reais, trilhões talvez, que existem, foram pagos, e deveriam estar tendo outra utilização. Mas os governos só escutam quando há milhões de pessoas nas ruas dizendo a mesma coisa.