sexta-feira, 9 de setembro de 2011

2657) Você que tinha razão (9.9.2011)



Uma das desvantagens de ter dez anos é que ninguém nos dá ouvidos. Uma das vantagens é que não passa pela cabeça de um adulto que nós, pirralhos, somos capazes de ver e ouvir.

Meu pai e minha mãe conversam um repertório espantoso de assuntos (que – se lhes fosse perguntado – eles garantiriam que “não era assunto para crianças”) na minha frente e da frente da minha irmã, de oito anos. Imagino que já se acostumaram tanto à nossa presença que é como se a gente nem estivesse ali. E que se acostumaram tanto com a nossa fase de bebezinhos (fraldas, mamadeiras) que na cabeça deles continuamos nessa fase, incapazes de focar o olho ou de apurar o ouvido.

Vai daí que discutem sem parar na nossa frente, e mostram o quanto os adultos são contraditórios. Todo dia a discussão obedece o mesmo padrão, só muda o assunto.

Digamos que o assunto é dinheiro. Minha mãe diz: “Você não tem jeito mesmo, a gente precisando das coisas e você torrando o dinheiro com besteira”.

Meu pai: “Eu só gasto com coisa necessária”.

Ela: “Duzentos reais num litro de uísque, isso é coisa necessária?”.

Ele: “Era uma promoção! Esse uísque não sai por menos de 400”.

Ela: “Homem é fogo, só homem mesmo pra raciocinar desse jeito”.

Ele: “Você não vive dizendo que eu sou gastador? Fiz 50% de economia e você ainda reclama”.

Ela: “Reclamo porque uísque não é economia, e além disso você só toma cerveja”.

Ele: “Mulher é tudo igual. Existe hora de cerveja e hora de uísque”.

Ela: “Sim, mas o ar condicionado quebrou e não apareceu dinheiro pra comprar outro. Já o uísque...”.

Ele: “Estou esperando aparecer uma promoção de ar condicionado. Não tenho culpa se a promoção do uísque apareceu primeiro”.

Ela: “Ah, chega, você parece que é imbecil, não tem diálogo”.

Ele: “Você que é idiota, parte logo pra agressão”.

Aí ficam os dois comendo em silêncio, e minha irmã pisca o olho pra mim.

Meia hora depois estão os dois nos braços um do outro.

Ele: “Desculpe. Eu sou mesmo um imbecil. Você que tinha razão”.

Ela: “Não, não, eu sou uma idiota. Quem tinha razão era você.”

Ele: “Não, meu amor, eu sou um irresponsável, vou devolver o uísque, espero que eles não percebam que está faltando uma dose”.

Ela: “Não, fique com seu uisquinho, você trabalha tanto, merece relaxar. Eu é que sou uma chata, uma egoísta.”

Ele: “Não, eu negligencio as coisas de casa, mas é tanto estresse, eu tenho que tomar uma”.

Ela: “Não, você cuida tanto, eu é que fico lhe cobrando sem necessidade, você é o melhor marido do mundo”.

Ele: “Tá certo, então eu fico com o uísque e compro um ventilador”.

Os dois se agarram aos beijos, e minha irmã pisca o olho pra mim.





quinta-feira, 8 de setembro de 2011

2656) A mansão sombria (8.9.2011)





("Hill House")

Alguns dos melhores filmes de terror ocorrem em castelos góticos ou mansões vitorianas. Longos corredores, arcadas, escadarias em ziguezague ou em caracol, pórticos sombrios, passagens secretas, sótãos, porões... 

Revi recentemente Os Inocentes de Jack Clayton (baseado na Outra Volta do Parafuso de Henry James) e Desafio ao Além (“The Haunting of Hill House”) de Robert Wise, baseado no romance de Shirley Jackson. Exemplos perfeitos desse terror cenográfico, arquitetônico, em que os elementos físicos da Casa Assombrada se entremeiam aos elementos sonoros: o vento, o ranger de portas, estalidos inexplicáveis, portas que batem, vidros que se quebram, relógios que soam badaladas.

O uso desses espaços amplos, diversificados, permite ao diretor uma sucessão de efeitos visuais (geralmente baseados no uso do claro-escuro violento, dos movimentos de câmara, dos ângulos esquisitos) e sonoros (ecos, efeitos sonoros de origem indefinida, e música) sempre inesperados e sempre justificados pelo ambiente onde a história acontece. 

Num prédio moderno de apartamentos não existem tantas frestas por onde o vento possa uivar, tanta madeira suscetível de estalos e movimentação térmica, proliferação de tantos elementos decorativos multiplicando as formas e as sombras.

E essas mansões sombrias têm outro aspecto além do visual, um aspecto sociológico. Minha infância foi passada em casas modestas e pequenas, que mesmo assim davam um trabalho medonho a minha mãe e às empregadas. Era um tal de varrer, limpar, esfregar, recolher lixo, colocar objetos de volta no lugar... 

E no cinema surgiam aquelas mansões de 50 quartos, alguns deles trancados há gerações; móveis, tapeçarias, candelabros, quadros, um acervo que faria inveja a qualquer museu. E a impressão constante de decadência, de estagnação. 

Aqueles filmes são hinos visuais à riqueza coagulada de elites que conquistaram mais do que eram capazes de administrar. Enquanto se ergue de novo uma parede desmoronada na Ala Oeste, o vento, a chuva e os cupins estão botando outra parede abaixo na Ala Norte.

Buñuel, em O Anjo Exterminador, enclausura e desmoraliza esses aristocratas ociosos. Não têm a virilidade dos conquistadores que edificaram esses impérios; reproduzem o conhecido padrão de “pai rico, filho nobre, neto pobre”. A história de terror é o gênero ideal para descrever a vida dessas pessoas, herdeiras de um passado que conhecem pouco, de uma riqueza que não sabem usar, de um poder estancado que se deteriora a olhos vistos. 

O terror de uma casa onde caberiam cem pessoas e mora uma dúzia, e que se vinga dos pusilânimes que ousam ocupá-la hoje.





quarta-feira, 7 de setembro de 2011

2655) O filme que se ensina (7.9.2011)




(Gandalf e Bilbo)

O filme Julgamento em Nuremberg de Stanley Kramer (1961) mostra o famoso julgamento dos criminosos de guerra nazistas. Os juízes, advogados, testemunhas, etc. eram de nacionalidades diferentes, e usavam fones de ouvido com tradução simultânea. Isso é mostrado no começo do filme. Quando um americano fala em inglês, a tradutora repete em alemão, o alemão escuta, responde, outra tradutora repete em francês, outro advogado escuta, responde... É assim nos primeiros minutos do filme. Depois, o diretor presume que o público entendeu a mecânica da coisa; e os tradutores e fones de ouvidos desaparecem. Para que o filme possa fluir.

Na trilogia O Senhor dos Anéis de Peter Jackson várias raças se misturam: homens, hobbitts, elfos, anões, orcs... Diante dos hobbits, todos baixinhos, um humano é quase um gigante. Ora, o diretor escolheu atores de estatura normal para todos esses personagens, apenas ligeiramente mais atarracados uns, mais compridos outros. No filme A Irmandade do Anel (2001) há uma cena em que o mago Gandalf (Ian McKellen) conversa com Bilbo (Ian Holm) na casa deste. Nesse momento, um efeito especial indica que Gandalf tem ter mais do dobro da altura de Bilbo. Vemos e registramos; daí em diante essas diferenças vão se atenuando. Ao invés de usar os tais efeitos pelo restante do filme (o que iria complicar ainda mais um filme já complicado de fazer), Jackson mostra os diferentes tamanhos dos personagens apenas no início. Para que o filme possa fluir.

São códigos que fazem parte da realidade mostrada no filme mas que, por economia narrativa, não podem ficar sendo mostrados o tempo inteiro. Os diretores mostram aquilo no começo, e, depois que o espectador entendeu do que se trata, omitem esse aspecto, que fica apenas subentendido no resto do filme.

Um filme pode, se necessário, conter dentro de si instruções para a decodificação da própria obra. Pode explicar em sua parte inicial qual o código de leitura específico que vai exigir, sem que o cineasta tenha um papel paternalista ou didático, e sem que o espectador seja obrigado a “engolir uma apostila”. Algumas realidades descritas num filme são especiais, e o diretor deve fazer uma rápida educação do público nos minutos iniciais: “Olha, isso aqui precisa ser interpretado assim e assim...” Feito isto, a demonstração pode desaparecer, e o filme pode fluir. Aliás, podemos extrapolar esse princípio e dizer que os minutos iniciais de qualquer filme esteticamente mais ambicioso são exatamente isso: um pequeno curso, ou tutorial, sobre como ler corretamente esse filme que já está acontecendo diante dos nossos olhos.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

2654) A Razão Cruel (6.9.2011)




(Goya, Que valor!)

A Razão Cruel, tão na moda, pode ser subdividida num feixe de quase sinônimos: egoísmo, insensibilidade, pragmatismo egocêntrico, auto-interesse, isolacionismo, preconceitos, etc.

Ela nos diz, com variados discursos e argumentos, que preocupar-se com a sorte dos outros (com a fome dos outros, a doença dos outros, a guerra dos outros...) só faz a gente perder tempo. Cada um deve cuidar de si. O mundo é uma corrida, ganha quem chega primeiro. E assim por diante.

Fico tentado a dizer que é a Razão fundadora do Capitalismo, sistema com o qual vivo num perrengue que não tem fim; e o Capitalismo, afinal, descreve o mundo como uma livre concorrência, um cada-um-por-si-e-o-governo-atrapalhando-todos.

A verdade, porém, é que a coisa está presente também em todos os sistemas que já presenciamos. A Razão Cruel é um individualismo inato do bicho humano. O Eu acima de tudo. A sobrevivência, alimentação, reprodução, conforto, luxo e regabofes do Eu acima de tudo. O resto que se explôda.

“Farinha pouca? Meu pirão primeiro!”. Parece que é um provérbio baiano, ou pelo menos foi numa canção de um baiano (Caetano, “Eles”) que ouvi pela primeira vez esta fórmula exemplar.

Régis Frota me ensinou uma versão do Ceará, muito repetida em sua proliferante família sobralense: “Quanto menos somos, melhor passamos”.

Os cantadores têm um mote-de-uma-linha que serve para muitos tipos de glosa: “Faz pena, mas é o jeito”, idéia que expressa uma certa compunção (fingida ou sincera) de quem vai tomar providências em seu benefício às custas de terceiros.

Uma fórmula mais rude e impiedosa é o nosso popular “quem fôr fraco que se quebre” (ou “quem for podre...”, “quem for pobre...”, conforme o caso), dita, é claro, por alguém que já encontrou seu jeito de não se quebrar.

Em outra canção tropicalista, o “Mamãe Coragem” de Caetano & Torquato Neto, vem essa fórmula de preciosa ambiguidade: “Eu posso, eu quero, eu quis, eu fiz... Mamãe, seja feliz”. É a frase do filho adulto que vai embora de casa “correr mundo, correr perigo” e avisa à Mama que se conforme.

E que frase perfeita, que cadência impiedosa de sílabas caindo como marteladas, pregando os pregos de um caixão! Todo jovem é impiedoso quando se trata de quebrar a casca do ovo e sair voando. Não posso censurar o poeta por um verso que em tantos momentos da vida cantarolei e me acalentou como se tivéssemos sido feitos um para o outro. Mas do ponto de vista do coração materno, minha gente, é uma expressão límpida da Razão Cruel, da que diz: “Eu tenho mais o que fazer, te vira, corre atrás do teu prejuízo, vou cuidar é de mim, sai da frente, não me atrapalha, problema teu”.






2653) A Segunda Idéia (4.9.2011)





Fernando Pessoa talvez tenha pensado em escrever algo como:

O poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a alegria que sente.

Mas achou essa primeira idéia boba, e continuou pensando. Achou uma segunda idéia que ficou muito melhor, e tornou o verso famoso. 

O primeiro impulso criador na arte é o impulso de fazer alguma coisa parecida com algo que vimos e gostamos, é o impulso de quem pensa: “Eu também quero fazer isso”. E quando fazemos, acabamos fazendo um isso parecidíssimo com o isso original, o que nos emocionou. Toda arte começa como imitação. 

E é uma imitação tão pura, tão inocente, tão destituída de maus sentimentos que se nos disserem “Você está escrevendo igualzinho a Marcel Proust!”, responderemos com fervor: “É mesmo?! Obrigado, obrigado!”.

Não custa nada ficar olhando aquilo que acabamos de escrever e pensar: “Muito bem, esta é a primeira idéia que tive, quando estava com a obra ou o estilo de Fulano ocupando minha cabeça. Vou esquecer Fulano agora, e pensar em mim. O que posso colocar de meu nessa frase, nesse verso, no enredo dessa história? Onde posso mexer para que ela se torne algo completamente diferente, e melhor?”.

Existe um ramo da crítica literária que examina os manuscritos originais dos textos, tentando ler tudo aquilo que o autor riscou, borrou, cancelou. 

São as primeiras idéias. Ele escreveu aquilo achando que estava arrasando. Depois releu e percebeu que ainda estava meio fraquinho. Riscou e escreveu por cima outra coisa. 

Sempre que examinei textos dessa forma cheguei à conclusão de que a segunda idéia é invariavelmente melhor do que a primeira. Basta comparar (por exemplo) os sonetos de Augusto dos Anjos conforme foram publicados nos jornais, e depois como foram publicados no Eu. Sempre há uma mudança de algumas palavras. E essas mudanças são sempre para melhor, e isto nada tem a ver com o fato de estarmos acostumados com a versão oficial do poema. A primeira idéia é sempre mais fraquinha, mais frouxa, mais clichê.

Graciliano Ramos ia dar ao livro Vidas Secas o título de “A Vida Cheia de Penas”. Felizmente o arcanjo Gabriel, ou outra autoridade do mesmo escalão, o visitou antes do manuscrito ir para a gráfica e ele teve uma segunda idéia, não é mesmo? 

Reza a lenda que o musical Oklahoma!, um dos grandes sucessos da Broadway em todos os tempos, estava pronto para estrear quando alguém teve a idéia de adicionar o ponto de exclamação depois da palavra-título; dezenas de milhares de cartazes foram reimpressos com este pequeno detalhe. 

Não sei se isto aumentou a bilheteria, mas mostra que sempre há tempo para dar uma injeçãozinha numa idéia, um “diferencial” como diz o pessoal da publicidade. 

A publicidade, aliás, é uma área que chega a exagerar, porque muitas vezes a galera vira noites em claro diante da 27ª. idéia, enquanto o Diretor de Criação incentiva: “Vamos lá, pessoal... Deve haver alguma idéia ainda melhor!"







segunda-feira, 5 de setembro de 2011

2652) O jeito regional (3.9.2011)




Uma vez estávamos ajudando um amigo a fazer uma mudança, em Campina. No meio da turma havia um carioca. A certa altura a dona da casa nos indicou uma caixa: “Podem ir levando aquela, mas cuidado, são coisas de quebrar”. O carioca ficou meio desconcertado, e arriscou uma brincadeira: “Bem, já que é de quebrar, vamos jogar no chão”.

“Coisa de quebrar”, em nordestinense, significa “coisa frágil, que corre o risco de se quebrar facilmente”. Para pessoas de outras regiões, deve significar “coisa para quebrar, coisa que é preciso quebrar para que tenha uso”. Casca de ovo, por exemplo. 

Este é um entre mil exemplos de um uso aparentemente errado de preposição, porque a palavra “de” nos evoca de imediato uma série de expressões em que indica finalidade, necessidade: água de beber, etc. Além de outras em que o sentido implícito é ligeiramente diferente (quarto de dormir, sala de estar, etc.), mas sempre positivo, ou seja, o verbo está ali indicando que deve ser praticado.

Numa expressão como “quarto de dormir”, “água de beber” ou “pedra de amolar”, o “de” pode ser substituído por “que serve para”. Numa expressão como “coisa de quebrar”, não pode. 

A idéia de que a expressão nordestinense está errada (como já ouvi dizer) talvez venha desse fato, do fato de que ela é tão rara (fiquei aqui tentando lembrar exemplos equivalentes a “coisa de quebrar” e não me ocorreu nenhum) que induz facilmente à confusão com expressões contrárias, pela semelhança estrutural. 

E isto parece ser o tipo de coisa que os gramáticos desaconselham. Eles tentam fazer com que o idioma fique mais organizado, mais claro, mais fácil de entender. O problema, como sempre, é que para cada gramático aconselhando a coisa mais lógica existe um milhão de usuários fazendo a coisa menos lógica, e a língua evolui nesse joguete entre o poder de decisão de uns e o poder de criação dos outros.

O erro alheio sempre dói no nosso ouvido, mas o erro que cresceu conosco não nos incomoda, mesmo quando aceitamos que é um erro. Eu não aguento ouvir certas formas de falar como por exemplo “Eu quero dizer a vocês DE que isto é muito importante”. Esse “de” fora de hora, fora de lugar, fora de propósito, é uma pedra no sapato. 

Já o “coisa de quebrar” não me soa como erro. Quem impõe um significado é o contexto. Passei a vida ouvindo dizer “cuidado, isso aí é de quebrar”, e mais que o sentido literal das palavras valia o contexto, o gesto de advertência, o tom de preocupação, e o fato de que em geral eu sabia que o pacote continha ovos ou a sacola continha taças de vidro. 

Que me corrijam os gramáticos, mas essas formas de dizer resultam de convenções, de hábitos tacitamente aceitos e que com o tempo se solidificam em norma. Em regiões diferentes essa cristalização se dá de forma diferente, e cada uma tem o direito de achar a sua forma tão legítima quanto as outras, mesmo que pela lógica não o seja.




sexta-feira, 2 de setembro de 2011

2651) BR-61 (2.9.2011)



“Sacrifica-me um filho”, disse Deus a Abraão,
e ficou à espera do “por quê?”,
mas Abraão era filósofo e apressou-se a obedecer.
Uma pira funerária foi erguida na montanha,
e o rapaz foi amarrado e untado de banha.
O facão no esmeril soltou chispas multicores,
e nisso Deus apareceu,
mediante rodas, labaredas e rumores.
“Pra que essa faca, Abraão!”, exclamou com voz assustada.
E o outro: “Oxente, Senhor! Não mandastes sacrificar esse camarada?”.
E Deus: “Mandar mandei, mas não falei em facão nenhum!
Libera o boy para ele ir ganhar a vida na BR-61!”.

Pior foi Samuel Caolho
que, com uma crise de pressão alta,
foi expulso de noite do Abrigo da Melhor Idade.
Saiu com meio litro de mineral com gás, um caderno sem pauta,
dois cobertores, um gorro, e um borderô do Ecad;
uma ratoeira, um par de havaianas, dois iogurtes vencidos,
um pacote de balas de café, seis jornais ainda não lidos,
uma sombrinha amarela e um postal de Trancoso.
Perguntou a Horácio Difícil onde podia arranjar um pouso.
O outro olhou o relógio digital, lembrou que era domingo,
limpou a garganta e apontou com o cachimbo:
“Mano, um intelectual como você dormindo aqui nesse futum?
Vá pra Central e pegue o primeiro ônibus pra BR-61!”.

Certo, mas Marquinho Cabuêta falou pra Zezim Azul:
“Herdei uma muamba daquela virada do caminhão baú.
Cinquenta caixas de livros! De auto-ajuda, de foguete,
de receita de bolo, de vendedor pitbull, e o cacete.
Livro grande, livro pequeno, livro fino, livro grosso,
é livro a dar com um pau, tô de livro até o pescoço!
Tem Paulo Coelho, vampiro, O Flanelinha de Cabul,
mas me diz o que é que eu faço com esse tal de Harold Bloom!”
E Zezim: “Não tem mistério, e só estender uma lona no acostamento da BR-61”.

Foi aí que o sétimo filho, na vigésima-quinta hora,
pregou na cara o segundo rosto
e chamou a décima vítima, que esperava lá fora.
Mostrou a ela a terceira onda e a vigésima posição;
ela passou a quinta marcha e pegou o sétimo céu com a mão.
Mas chegando no oitavo círculo, ela ligou o sexto sentido...
e viu o síndico olhando os dois com um binóculo invertido,
tomando Schin numa lata de Brahma, comendo farofa de atum.
E ela disse: “Não, não estou aqui pra ser a primeira dama
nem a nona sinfonia, eu vou é me mandar pra BR-61”.

Visto isto, o Maratonista Slowmotion chutou o pau da barraca;
decidiu tocar fogo no circo e dar a volta por cima na urucubaca.
Ordenou ao empresário que triplicasse o cachê,
e que só fechasse shows em cidades começando com C.
O empresário teve um tal susto que caiu através do piso.
Foi parar no andar térreo, onde funcionava o Café e Bar Valparaíso.
Desmagnetizou o cartão de crédito e quebrou as lentes de contato,
mas incluiu o preço de tudo numa alínea do contrato.
Então o Maratonista disse: “Fica frio que eu te faço meu sócio,
porque tem horas que o improviso é a alma do negócio.
Canta comigo: yo-ho-ho-e-uma-garrafa-de-rum!
Assunga a cueca e vamo simbora, porque hoje o show é na BR-61!”


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

2650) O Poeta Vidente (1.9.2011)



O poeta Arthur Rimbaud escreveu em 1871 a Paul Demeny uma carta que tornou-se famosa como a “Carta do Vidente”, em que ele diz: 

“É preciso ser um vidente, tornar-se um vidente. O Poeta se faz vidente através de um longo, imenso e pesquisado desregramento de todos os sentidos”. 

Há toda uma escola de poesia baseada em imagens visuais, geradas através da concentração mental, da anulação dos estímulos exteriores (através do silêncio, escuridão, etc.) e uma cuidadosa evocação proposital de imagens aleatórias, a um ponto em que tais imagens começam a ser substituídas por imagens nas quais não tínhamos pensado, e que não sabemos de onde vêm. (Vêm do que chamamos de Inconsciente, claro.) 

Daí que o poeta escreve, em Uma Estação no Inferno

“Habituei-me às alucinações simples: via sem esforço uma mesquita em lugar de uma fábrica, uma escola de tambores formada só por anjos, diligências a rodar nas estradas do céu, um salão no fundo de um lago”.

A poesia visual é um cinema feito de texto, baseado no extremo poder evocativo da palavra como deflagrador de sensações visuais, táteis, auditivas. Um bom exemplo no próprio Rimbaud é o famoso soneto em que ele atribui cores às vogais: A negro, E branco, I vermelho, U verde, O azul (por alguma razão ele inverte a ordem destas últimas), associando-as a imagens visuais muito intensas. 

Rimbaud chamou um dos seus livros Les Illuminations, título que sugere por um lado a iluminação mística, a revelação súbita de uma verdade oculta, e por outro as iluminuras, as ilustrações coloridas dos livros medievais.

O Simbolismo poético é por muitas razões um Imagismo, uma tendência ao registro de impressões visuais inexplicáveis que parecem tomar de assalto o poeta e que ele registra com a estupefação de quem testemunha um fenômeno da natureza, algo que não lhe diz respeito e que lhe cabe apenas assistir e anotar. 

Daí que exista uma filiação de espírito entre o Simbolismo e o Surrealismo, porque o segundo é uma radicalização semi-científica de certos processos intuitivos do primeiro. O Surrealismo no conto ou no romance é inferior ao da poesia, porque se nesta última a imagética surrealista explode com toda força, na prosa ela se estilhaça em pequenos efeitos pela ausência de narrativa. 

Daí que um dos melhores caminhos encontrados para o Surrealismo narrativo seja o de Luís Buñuel: unir o melodrama e o folhetim às imagens surrealistas, que neutralizam a tendência desses gêneros à repetição e ao clichê. 

Daí que em nossa época a pulp fiction e as graphic novels sejam um terreno fértil para se plantar o Surrealismo, que as enriquece do ponto de vista de imagens, e em troca se beneficia de sua alta voltagem narrativa. 

O Surrealismo continua sendo a melhor vacina contra o clichê, principalmente em gêneros cuja vitalidade de enredo tem no lugar-comum seu ponto mais fraco. Existe uma linha evolutiva ligando Rimbaud, Fantomas, André Breton, Buñuel, David Lynch, Jodorowski e Moebius.






quarta-feira, 31 de agosto de 2011

2649) O líder que deixa liderar (31.8.2011)



(Garrincha, Didi e Pelé)

O designer Bruce Mau criou The Incomplete Manifesto, um conjunto de instruções para enfrentar situações em que a criatividade emperra. O texto (está completo aqui: http://tinyurl.com/yamtgvd) tem 43 itens, e aqui vai mais um, comentado por mim.

“10) Todo mundo é líder. O crescimento é algo que acontece. Quando acontecer, deixe que brote. Aprenda a segui-lo quando ele fizer sentido. Permita que qualquer um possa liderar”.

Estas poucas linhas me lembram episódios em que a liderança de um trabalho foi momentaneamente assumida por um subordinado, e o líder natural do grupo, ao invés de sentir-se ofendido ou ameaçado por isso, teve a lucidez de dar um passo de lado e ceder essa liderança a quem tinha uma proposta melhor que a sua.

Na Copa do Mundo de 1958, o Brasil estreou vencendo a Áustria (3x0) e empatando com a Inglaterra (0x0). O time tinha na reserva o adolescente Pelé, com 17 anos, e o imprevisível Garrincha, com 24, considerado por alguns cartolas um irresponsável, porque jogava para se divertir. 

Na véspera do jogo com a Rússia, que decidiria nossa classificação, Feola foi procurado pelos jogadores mais experientes do time: Nilton Santos, Didi, Gilmar, etc. Os jogadores o convenceram de que com Pelé e Garrincha o time ficaria imbatível. 

Feola não usava terno Armani à beira do campo, não era truculento, não se achava o dono da verdade. Aceitou o conselho dos jogadores, “e o resto é História”.

Em 1980, a diretora Tizuka Yamasaki estava realizando seu primeiro filme, Gaijin – Os caminhos da liberdade, história da imigração japonesa no Brasil. O roteiro original (que contava em linhas gerais a vida da avó da diretora) terminava com a impossibilidade do casamento entre ela e um namorado brasileiro (como ocorreu na vida real). 

Perto do fim das filmagens, Tizuka foi abordada por atores e membros da equipe técnica. Eles queriam que o filme terminasse com o casamento da japonesa e do brasileiro. Tizuka argumentou que na vida real não fôra assim; eles contra-argumentaram que o filme era a favor da miscigenação e da união entre as duas culturas, e que neste caso a fidelidade à biografia de uma única pessoa era de importância menor. A diretora aceitou, mudou o fim do filme, e o filme ficou muito melhor.

Um amigo meu, engenheiro elétrico, estava coordenando a construção de um conjunto habitacional popular. A certa altura surgiu um problema com a distribuição das redes elétricas dos blocos. As soluções padrão, que ele e os outros tinham aprendido na faculdade, não se aplicavam ali. Um morador local, que era eletricista nas horas vagas, propôs uma solução pouco ortodoxa. Eles ficaram um tempão avaliando e resolveram tentar. 

Deu certo. “Era uma solução típica de quem não aprendeu as soluções mais óbvias”, disse ele. “Mas funcionou, e fim de papo. Nosso mérito foi apenas o de dizer: ‘Vamos tentar a solução do cara’, e esquecer que ele estava ali como mero ajudante.”







terça-feira, 30 de agosto de 2011

2648) "Boletim da Guerra no Recife" (30.8.2011)



Mauro Mota, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado este ano (2011), tem muitos belos poemas. 

Um dos mais conhecidos e mais atuais dele é o “Boletim Sentimental da Guerra no Recife”, um longo poema no estilo do Romanceiro (redondilha maior, rimas toantes). 

O poema descreve e comenta (com ironia ferina, com carinho paternal, com melancolia) o destino das meninas recifenses que durante a II Guerra Mundial namoraram soldados norte-americanos aquartelados no Recife. 

Deixaram-se seduzir por promessas de ir morar na América do Norte, engravidaram, e no fim da Guerra ficaram a ver navios; e aviões. 

Um poema de meio século atrás mas que parece profetizar o turismo sexual de hoje: 

Éreis tão boas pequenas. 
Éreis pequenas tão boas! 
De várias nuanças morenas, 
ó filhas de Pernambuco, 
da Paraíba e Alagoas. 
Tínheis de quinze a vinte anos, 
tipos de colegiais, 
diante dos americanos, 
dos garbosos oficiais, 
do segundo time vasto 
dos fuzileiros navais 
prontos a entregar a vida 
para conseguir a paz, 
varrer da face do mundo 
regimes ditatoriais 
e democratizar todas 
as terras continentais 
a começar pelo sexo 
das meninas nacionais.

Um poema que bem poderia ser impresso em panfletos de papel barato e distribuído nos fins de semana nas praias de Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Maceió... Onde quer que exista a convivência-de-risco entre a solidão pobre e a solidão rica, entre homens que só têm o dinheiro para oferecer e mulheres que só têm o corpo para dar. 

E como dizer às meninas que isso é um sonho, se todas conhecem a história da amiga da prima de uma vizinha, que saiu com um gringo cinquentão, apaixonaram-se, casaram, e ele montou para ela uma casa na Europa, tornou-se um marido carinhoso e um pai exemplar para o seu bebê? 

Basta que uma única pessoa tenha ganho essa Mega-Sena matrimonial (e quem pode negar que isso já aconteceu uma ou outra vez?) para que todas se julguem merecedoras do mesmo, e comecem a sonhar. 

Mesmo que o preâmbulo do sonho envolva estar de shortinho e bustiê, sentada na perna de um gringo num boteco da praia, fazendo-lhe carinhos promissores enquanto ele contempla palmo-em-cima seus atributos e faz comentários em língua estrangeira com os outros que bebem na mesma mesa.

Quando o gringo vai embora... Diz o poeta: 

Ingênuas meninas grávidas, 
o que é que fostes fazer? 
Apertai bem os vestidos 
pra família não saber. 
Que os indiscretos vizinhos 
vos percam também de vista. 
Saístes do pediatra 
para o ginecologista. 

Quando um exército invade um país, a posse sexual da população feminina local é um símbolo e uma confirmação desse triunfo. Mesmo que seja a invasão pacífica de um exército aquartelado numa nação amiga. 

Mesmo que seja a invasão pacífica do turismo, financiado pelos governos, estimulado pela propaganda, sacramentado pelo princípio básico do Capitalismo: “Tudo tem um preço. Faça seu preço, e alguém poderá pagar”.