quarta-feira, 5 de novembro de 2014

3650) O café de Balzac (5.11.2014)


Ainda vou escrever um conto futurista sobre uma sociedade onde várias drogas são proibidas a-ferro-e-fogo pelo Estado, entre elas café e açúcar.  Não existe estimulante mais poderoso, não é verdade?  Vai que de uma hora para outra a gente acaba votando (por motivos totalmente outros) num Congresso Nacional cuja maioria é composta de pessoas para quem nada pode haver de mais terrível e imoral do que a absorção dessa infusão negra e tenebrosa (dirão eles), demoníaca (dirão seus teólogos), viciante (dirão seus médicos).



Vôte!  Ainda bem que vivemos numa democracia.  Posso todo dia encher minha caneca fumegante e sentar aqui folheando Balzac, um adicto famoso.  Em seu texto de 1838 “Tratado dos Estimulantes Modernos” (aqui, em francês: http://tinyurl.com/7acapw2) ele fala das cinco substâncias de excitação artificial: o álcool, o açúcar, o café, o chá e o tabaco.  É um texto que antecipa o texto famoso de Baudelaire, Os Paraísos Artificiais (1860), onde o poeta fala do vinho, do ópio e do haxixe. 



Balzac era um cafezeiro hardcore, e sugere variadas maneiras de preparar a beberagem (ele é um dos que consideram uma heresia você jogar água fervendo em cima do pó – a água deve estar apenas quente).  E depois de comparar várias maneiras de administração do café ele diz: “Por fim, descobri um método horrível e brutal que recomendo apenas a homens de excessivo vigor. (...)  É o uso de café pulverizado muito fino, concentrado, frio e com pouca água ou nenhuma, consumido de estômago vazio.”  Ele explica que nessas circunstâncias o café é total e rapidamente absorvido pelo estômago, e a consequência imediata é o aumento da atividade cerebral, que ele descreve com metáforas militares:



“Logo as idéias se põem em marcha, como esquadrões de um exército se espalhando no campo de batalha, e a guerra principia. As lembranças fazem sua carga, com os estandartes tremulando; a cavalaria das metáforas se apresenta com seu magnífico galope; a artilharia da lógica avança com um clangor de máquinas e de munições; a uma ordem da imaginação, os atiradores de elite fazem mira e disparam; formas e silhuetas e personagens ficam prontos; o papel se cobre de tinta, porque essa vigília se abre e se fecha com torrentes dessa água negra, tal como uma batalha se inaugura e se encerra com o negror da pólvora.”


Poder discutir abertamente as vantagens e as desvantagens do café, do chá, do açúcar, etc.  é uma conquista cultural que não devemos desprezar.  Acho que isso tudo faz um pouco de mal, principalmente o açúcar branco, mas acho que proibi-los iria aumentar, e não diminuir, o número de suas vítimas.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

3649) Os Reptilianos (4.11.2014)


Tenho uma má e uma boa notícia.  Primeiro a má: os Reptilianos existem. (São aqueles seres possivelmente alienígenas, que se metamorfoseiam de humanos para conviver na sociedade humana, mas nos momentos mais sutis se desmascaram, mostram sua natureza iguana, sua vocação serpente, sua frieza réptil.)  Para compensar, digo logo a boa notícia: somos nós mesmos.  Ou, como dizia um personagem da tirinha de Al Capp, “they is us”.  Eles é nóis.

Minha teoria é de que os Reptilianos não são uma espécie biológica, algo que se distingue da nossa pela diferença genética.  Os Reptilianos são um estado de espírito.  São um software mental, um conjunto de ações, reações, estímulos, reflexos, impulsos, tudo executado por humanos biologicamente iguais a nós.  Por nós mesmos, na verdade. Eles não têm o corpo diferente do nosso, eles têm o corpo da gente, a mente deles é que é outra linguagem, outro volapuque, outro Fortran.

Eles têm uma moral binária; só enxergam sim ou não, preto ou branco.  (Isso vale para os répteis, mas não para ao mamíferos, que é o que somos por “default”. Só viramos reptilianos quando começamos a ver TV.)  Eles dominam um conjunto de algoritmos super complicados que lhes permitem, em fração de segundo, criar diante de qualquer massa de dados duas categorias nítidas (sim/não, on/off, etc.) e despejar tudo nesses dois pratos da balança.  No mundo mental deles, tudo deve ser dividido binariamente, porque na verdade eles são comandados por um cérebro primordial que divide tudo em “a favor / contra”.  O que é a meu favor deve ser preservado; o que é contra mim precisa ser destruído.

Os Reptilianos derivam com facilidade para o esporte e a política, duas atividades onde, por mais que haja “áreas cinzentas”, tudo se decide com resultados numéricos: sim/não, ganhou/perdeu, campeão/vice, governo/oposição.  Uma das frases preferidas dos Reptilianos, ao discutir, é: “Você tem que optar por um dos dois, não pode ficar em cima do muro”, porque para eles é imprescindível estar contra ou a favor deles.  Se eles dizem que a humanidade se divide entre os que gostam de hamburger e os que gostam de pão francês com bife, você tem (pra eles) a obrigação moral de optar por um dos dois. Não pode simplesmente dizer que essa divisão lhe parece irrelevante ou capciosa.

Estamos sendo treinados (pela imprensa, pela TV, pela Internet) para raciocinar sempre nesses termos, “meu lado / o outro lado”, “comigo / contra mim”.  Por que? Não sei, pode ser que os Reptilianos estejam se preparando para uma batalha e precisem de soldados assim, que dividam conceitos com presteza, obedeçam com eficiência, destruam sem remorsos.


domingo, 2 de novembro de 2014

3648) O cientista louco (2.11.2014)



Ele queria destruir o mundo.  Ele queria ser um deus no altar.  Ele enxergava em cada descoberta uma outra porta aberta a o desafiar.  

Ele trabalhava nos subterrâneos-do-vaticano da fortaleza-da-solidão, agitava o-inferno-de-wall-street enquanto tentava mobilizar os-dragões-do-éden e ao mesmo tempo transformar a porra toda numa supernova onde ele finalmente reinaria em paz, sem ter que explicar nada, que justificar nada, que planejar nada, que carregar ladeira acima nada, que despencar orçamento abaixo nada, sem ter que recuar, sem precisar transigir.

O cientista louco é uma função mental à solta na cidade, com a mente em questão correndo atrás.  Ele não quer destruir, para ele basta imobilizar.  Como Goldfinger, que não queria roubar o depósito de ouro dos Estados Unidos, queria torná-lo radioativo e inaproximável, para que o valor de suas reservas pessoais subisse como um foguete.  

O cientista louco não é grotesco, canibalesco e mau. Seria como achar que um louco é quem tem falta de asseio.  Não.  Às vezes um louco é quem tem falta de concatenação consigo mesmo.  Às vezes é quem não tem a menor empatia com o outro.  E às vezes é alguém sem rumo, quem não sabe ao certo quem é, nem o que está fazendo.



Cientista louco é um sujeito do olhar fixo.  A loucura do cientista louco não é caricatural como os das revistas de Hugo Gernsback, nem aquela coisa circense-espectral de Gene Wilder em P&B.  

O cientista louco é o dr. Jekyll de O Médico e o Monstro.  É danado teorizar em cima de um spoiler, mas esse já está mais desgastado do que os de Roger Ackroyd e de Diadorim, então vamos em frente.  O dr. Jekyll é o Bem, e Mr. Hyde, “o monstro”, é o Mal.  Correto?  Correto nada.  



No livro, o doutor comenta várias vezes que ser Mr. Hyde e fazer o que Mr. Hyde fazia lhe dava consternação, mas também um prazer culposo.  Ele gosta, toma a droga que o transforma no espancador de crianças e idosos, e mantém tudo sob controle.  

A cena crucial da história é quando o doutor, muito cotidiano e respeitável, está sentado no banco de um parque, e de repente tem um escurecimento de vista.  Quando torna, ele se  sente diferente.  Vendo, ouvindo, sentindo, tudo diferente. Então ele olha para os pulsos e os pés.  A roupa está amontoada, sobrando, porque Mr. Hyde é de estatura menor que o doutor.


O cientista louco não é o que dá gargalhadas megalô-histéricas, o que ronca e babuja, o que brande o punho contra o crepúsculo e apostrofa uma civilização.  Basta ser o que perde o controle do experimento.  

O experimento começou sendo um eco dele, e ele agora é um eco do experimento.




sábado, 1 de novembro de 2014

3647) O dono da tese (1.11.2014)



Quando dirigi a fugaz Coleção Rama, de ficção científica, para a Editora 34, um dos primeiros títulos que mandei traduzir foi Dying Inside (1972) de Robert Silverberg, que foi traduzido por Ivanir Calado com o título Uma Pequena Morte (1993).  Este livro é uma espécie de A Náusea da new-wave da FC dessa época.  É a história de um telepata que pode entrar na mente de qualquer pessoa, num certo raio de alcance, e acessar tudo que ela está pensando, como quem captura um wi-fi alheio. Tal como Antoine Roquentin acessava a existência da raiz de uma árvore, no livro de Sartre. David Selig é um cara solteiro, solitário, sozinho, morando numa pensão mais-ou-menos, e parasitando as emoções alheias sem fazer muito esforço.

Mas mesmo um paranormal tem que pagar contas, e Selig precisa descolar grana de algum modo.  O que faz ele?  Como é um cara meio ocioso e que gosta de ler, ele ganha a vida falsificando trabalhos acadêmicos para alunos que têm muita grana ou pouco tempo, redigindo teses, “papers”, resenhas, artigos acadêmicos, etc., por um preço mais do que módico. (O pagante só enxerga o trabalho necessário para fazer seu artigo, que é sobre Surrealismo, ou sobre Churchill, ou sobre o Teorema de Fermat; esquece da amplitude de conhecimentos necessária para alguém se mover à vontade de um para o outro.)

Selig escreve sobre tudo, e hoje, por sincronicidade, abri um exemplar da revista Piauí (ano 1, no. 7, abril -- http://tinyurl.com/l3sfuxp) onde reencontrei um texto, tão saboroso quanto uma ficção, intitulado “Um trabalho de pontos, vírgulas e interrogações”, assinado por Maria Lopes, uma mulher que em São Paulo faz exatamente isso: recebe encomendas para escrever textos de nível universitário ou jornalístico, cobra X, entrega, recebe.  Tem gente que tem dinheiro e precisa de um diploma o mais rápido possível.  São uma clientela estável, e, quem sabe, em expansão.

A história de Maria Lopes mostra, mesmo com o que tem de específico, a vida do freelancer das letras ou do mercado editorial, porque isso inclui não somente o ghost writer, como é o caso dela, mas também redatores, tradutores, revisores, ilustradores, e vários outros que influem na forma final do livro. 

O Selig de Silverberg encarna bem a condição da mente de aluguel, que de tão embriagada de si mesma deixa-se no fim prender com facilidade numa grade tão elementar quanto a do dinheiro. O dono da tese é o “quarterback” que diz: “É sobre aquele livro, O Julgamento, de Kafka.”  E você mostra que entendeu, e corrige tudo muito diplomaticamente, porque você lê o que precisar na mente dele, e ele lê na sua cara que a sua carteira está vazia.


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

3646) Os candidatos (31.10.2014)


Nem sempre o melhor candidato é o melhor executivo.  Acho graça no modo como a democracia eletrônica, onde o objetivo é impor uma idéia a dezenas de milhões de pessoas desinformadas, deforma todo esse processo.  Deveríamos eleger o melhor administrador, o mais competente, o mais correto, o mais íntegro, o mais líder.  Ao invés disso, elegemos em geral o que tem sorriso mais aconchegante, o que tem rasgos oratórios que fazem explodir aplausos, os que pelas feições ou pelo traje se parecem com algum vago ideal de autoridade que trazemos adormecido em nossa subconsciência de classe. Votamos num ator.  Mesmo os bons administradores (que felizmente existem) descobriram muito cedo que para poder administrar em paz tinham que desenvolver, mesmo a contragosto, esse lado televisivo, histriônico, fotogênico.

Esse jogo foi zerado por Ronald Reagan.  Deve haver precedentes, mas eu diria que Reagan foi o primeiro caso de robô biológico na história da política moderna.  Um robô biológico é um ser humano incapaz de pensar por conta própria mas dotado de uma sólida capacidade de dizer e fazer o que lhe dizem para ser dito e feito.  Reagan tornou-se assim, para o neo-liberalismo republicano, o candidato perfeito e depois o administrador perfeito.  Foi treinado durante a campanha, e depois de eleito continuou recebendo os textos das mãos da mesma equipe.  Não sabia a diferença entre o Brasil e a Bolívia, tinha um “personal astrólogo” para lhe dizer como seria o seu dia, era um javali de terno, mas recebia os textos e aplicava a eles todo o seu charme de galã rústico de Hollywood.

A direita norte-americana trouxe mais atores à política: Schwarzenegger, Clint Eastwood...  Livro um pouco a cara deste último, que é reacionário mas parece ser capaz de pensar sozinho.  Mas o bom Arnold é um exemplo cristalino de como o mundo do espetáculo, a cada década que passa, é sugado para o interior da política.  Mais fácil do que transformar um político em ator é transformar um ator em político, afinal de contas ele vai precisar apenas ler coisas no teleprompter, porque todas as discussões já lhe chegarão brifadas e dirigidas.

Lembro de uma longínqua eleição nos EUA em que um comentarista falou: “O melhor presidente seria o senador Fulano, porque é honesto, competente, sabe costurar apoios.  Mas nunca seria eleito, porque é feioso, mau orador, gagueja.  Candidato tem que ser galã.”  A democracia eletrônica facilita a discussão e participação (via redes sociais), mas é toda voltada para a construção de uma imagem e desconstrução das demais.  Vota-se numa imagem cuidadosamente concebida e orquestrada, que não corresponde a uma pessoa real.



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

3645) Lovecraft datilógrafo (30.10.2014)





A literatura pode ser uma só, mas suas portas são legião. Todo caminho na sua Babel é único: só pode ser concebido e trilhado por aquela pessoa. É sempre bom tentar entender como o escritor trabalhava, fisicamente, porque isso pode ter alguma influência sobre seu modo de produção.  Sempre presto atenção à opinião dos autores que trabalharam durante as primeiras décadas da datilografia, no final do século 19 e começo do 20. 



Datilografar, para mim, é um prazer, hoje, no meu confortável desktop de teclado amplo e macio, cheio de recursos.  Como é ou era para os outros?  H. P. Lovecraft talvez tivesse um estilo menos ornamental e pomposo se o enfrentamento físico com o ato da escrita lhe fosse menos trabalhoso.  Numa carta de 1926 para August Derleth, ele diz: “Tenho tanto horror à tarefa de datilografar que não vou fazer isso sem antes ler tudo em voz alta para dois ou três bons avaliadores, e saber se vale a pena ser preservado ou não.”



Lovecraft era um compulsivo escrevedor de cartas, tanto à mão quanto à máquina. Também em 1926, escrevendo para Wilfred Blanch Talman, ele comentava: “O papel de formato longo que estou usando me foi dado pelo nosso companheiro e fã George Kirk, que você deverá conhecer em breve, o qual insistiu em me dar depois que não teve mais utilidade comercial para ele.  Se minha correspondência não fosse tão devastadoramente gigantesca, eu diria que o estoque de que disponho agora duraria para o restante de uma vida mediana.”



O papel podia ser muito, mas a energia era escassa. Lovecraft precisava fazer uma primeira versão à mão, corrigi-la, e depois datilografá-la, fazendo novos adendos e correções ao longo da versão passada a limpo, como a maioria dos autores.  De vez em quando conseguia alguém que fizesse isso para ele, mas a penúria financeira o impedia de contratar datilógrafos profissionais.  E o cansaço o impedia de fazer as sucessivas revisões que nós, hoje, fazemos com um pé nas costas.  Ironicamente, ele próprio faturava alguma grana, para completar o orçamento, com tarefas pagas de revisão de textos alheios, o que provavelmente o deixava, depois de um dia de trabalho, sem o menor saco para revisar seus próprios textos. (Pelo menos é o que aconteceria comigo, nessas circunstâncias.)


Em 1927 ele se queixa ao amigo Frank Belknap Long: “...a datilografia de manuscritos com essa extensão está totalmente além da capacidade de um cavalheiro idoso e cansado que costuma perder o interesse numa história no momento em que a completa...”  HPL dizia que era um homem do século 18 perdido no moderno e insuportável século 20.  Provavelmente era mesmo.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

3644) O Banqueiro (29.10.2014)





(ilustração: Benedetta Bonichi)


Na sala do Banqueiro ouve-se música clássica o tempo todo, mas ele não sabe identificar o que está tocando.  A música está ali apenas para atrapalhar possíveis microfones de espionagem embutidos nas paredes.  O Banqueiro já chegou a fazer reuniões secretas num jatinho, dando voltas sobre a cidade, para ter certeza de estar a salvo de espiões. O Banqueiro não gosta de olhar o interlocutor nos olhos. Enquanto conversa, caminha o tempo todo.  Prefere trabalhar de pé, diante de uma bancada de madeira, onde escreve, digita no laptop, telefona, despacha com funcionários. 



Sua casa sempre foi repleta de arquivos, pastas, material de trabalho por toda parte. É vegetariano, e seu prato preferido são legumes cozidos. Acha um desperdício o hábito de comidas sofisticadas e bebidas caras: “É muito mais fácil gostar de qualquer coisa.”  Se os outros comensais pedem uma refeição fina, ele se contenta com salada de tomate com palmito.  Sob suas ordens, mais de 70 pessoas trabalham em quase absoluto silêncio.  Sem risadas, sem ninguém elevar a voz.  Pedem comida lá mesmo no escritório; todos têm hora para entrar mas não para sair.  O Banqueiro lembra saudoso ambientes bancários que conheceu na juventude: “Existia ali uma disciplina rigorosa, era tudo silencioso, quase monástico.”  O Banqueiro já tentou, sem sucesso, proibir que seus funcionários lhe dirigissem a palavra, mesmo para dar bom-dia.



O Banqueiro não passeia, não vai à praia, e seu maior luxo hedonista é comer um peixe grelhado. Seus exercícios físicos são feitos em casa, numa esteira.  Raramente vai ao cinema.  Costuma perguntar a uma amiga, frequentadora de teatro, por que ela assiste peças, já que “nada do que acontecia no palco era verdade”.  A última obra de ficção que se lembra de ter lido é o Ensaio sobre a cegueira de Saramago. Seu apartamento tem numerosos quadros dos maiores pintores brasileiros, mas ele não lhes dá muita atenção, pois estão ali apenas a título de investimento.  O Banqueiro admite que não tem muitas idéias de como gastar dinheiro, e diz que o seu objetivo e o seu prazer não são o dinheiro em si. “É o negócio,” explica.


O Banqueiro não é uma invenção da mente insone e paranóica de um escritor.  É o banqueiro Daniel Dantas, do banco Opportunity, cuja fortuna pessoal é de mais de um bilhão de dólares. (ver Revista Piauí, # 7, 2007).  Conhecido como um trabalhador obsessivo, um negociador cruel, um investidor esperto e pouco confiável, sempre tentando dar um jeito de ser a única pessoa a ganhar com o negócio que está sendo feito.  É o retrato da geração que está transformando o planeta inteiro num dinheiro que ninguém conseguirá gastar.




terça-feira, 28 de outubro de 2014

3643) Sete veredas do sertão (28.10.2014)



Segundo o pesquisador Willi Bolle, a bibliografia de textos de análise ou comentário ao Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa já passa dos mil e quinhentos títulos.  Ele deve saber do que está falando, porque publicou em 2004 “grandesertão.br” (Eds. Duas Cidades / 7Letras).  Entre mil detalhes, Bolle propõe uma subdivisão da narrativa do romance em unidades, já que Rosa fez um texto corrido e sem cortes do começo ao fim. (Falei dias atrás das 10 subdivisões sugeridas por Ariano Suassuna.)

No seu livro (pags. 62-63) Bolle sugere uma divisão em sete partes.  Vou resumir. 

Um: Proêmio. Riobaldo fala, proseia, passeando por todos os temas principais da história que se inicia.  

Dois: “Recorte ‘in media res’ da vida do jagunço Riobaldo. Já jagunço, Riobaldo está no bando de Medeiro Vaz, que fracassa a travessia do Liso do Sussuarão. Surge a figura de Zé Bebelo.  

Três: Interrupção. O narrador comenta a dificuldade de narrar.  

Quatro: Primeira parte da vida de Riobaldo. Volta à infância, quando no rio ele conhece o Menino (que virá a ser Diadorim); ele fala de sua mãe, seu padrinho, sua criação, como estudou e viveu.  Sua ligação com Zé Bebelo, o jagunço-deputado.  Como vira jagunço. O bando de Joca Ramiro derrota, prende, julga e liberta Zé Bebelo.  Depois, notícia do assassinato de Joca Ramiro.  Começa “a outra guerra”. 

Cinco: Segunda Interrupção.  “O narrador, que se coloca numa situação de ‘acusado”, se põe a falar de sua ‘culpa’ e do que ‘errou’.  

Seis: Segunda parte da vida de Riobaldo: o conflito com Zé Bebelo, o pacto com o Diabo, a travessia (agora bem sucedida) do Liso, o encurralamento dos inimigos e o sangrento confronto final.  

Sete: Epílogo. Riobaldo proseia, amarra as últimas pontas falando como casou, como herdou uma fazenda, como transformou vários companheiros de jagunçagem em seus moradores e braços-de-armas.  “A viagem pelo sertão termina, em termos de perspectiva, com o signo do infinito.”

Um romance inconsútil como GSV meio que força o leitor mais atento a traçar esses esquemas, porque com eles diminui a sensação de estar sobrevoando a Amazônia sem bússola nem mapa. Esse fio básico conta a história. Bolle vê no livro de Rosa uma estrutura (a aventura de Riobaldo) que sugere a formação das instituições brasileiras, no que têm de flexíveis ou de viciadas.  Ele enfatiza o lado fazendeirão de Riobaldo, novo poderoso chefão estabelecido, contando sua trajetória rumo ao status quo, rememorando sua folha de serviços e tentando se justificar através de uma paixão e de uma culpa.  (O livro também tem vários mapas, cronologia de combates e eventos, etc.)


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

3642) 1x1 (27.10.2014)



(ilustração: Dariusz Klimczak)

Acabou a campanha.  Ontem, os brasileiros escolheram funcionários públicos de quem deverão cobrar serviço durante os próximos quatro anos.  Pra quem tem o poder, quatro anos passam num instante, vapt-vupt, não dá tempo nem de gelar a cerveja.  Para a oposição, quatro anos são uma eternidade. Uma Kalpa multiplicada por um Eon, um exílio sem fim na masmorra da ilha onde ficou preso o Conde de Monte Cristo.  Felizmente, ao contrário de Edmund Dantès, quem desaba na oposição tem direito, no seu calabouço, a internet bandalarga e conexão com tudo em tempo real.  Calada ela não vai ficar.

Poderiam todos ficar mais serenos, depois que passar a adrenalina das quatro linhas. (Do futebol ou do UFC?  Digamos futebol, é mais diplomático.) Todo mundo acha bonito quando, no fim de um clássico disputadíssimo, entre dois times de ponta e antagonistas históricos, num jogo de muitos gols e viradas no placar, cheio de cartões e “lances ríspidos”, então, conquistado o título, os que estavam trocando carrinhos e cotoveladas se abraçam, trocam de camisa, comentam alguma coisa, dão uma risada.  O jogo acabou (dizemos nós, ainda meio surpreendidos com essa cultura tão moderna); eles “são profissionais, são colegas de trabalho”.  E achamos bonita a transição da fúria guerreira para o sorrisão diplomático.

Quando é com os políticos... Por que todo mundo se escandaliza quando os vê trocando de time, abraçando os ex-antagonistas, trocando por elogios os antigos vitupérios? Ora, por que não o fariam? São profissionais também.  São colegas de trabalho.  Surgem na vida com um personagem, ou com um projeto de.  São aceitos, burilados em público, jogados à arena das gramas e à das urnas, e os que vão sobrevivendo têm chance de um dia serem convocados para alguma coisa. 

Num ano como 2014 não é possível não matutar um pouco como são duas profissões incompreendidas no Brasil: político e jogador de futebol!  Veja com quantas más avaliações se faz um Irremediável. Nossos principais super-heróis, e começam a pedir recall. Cada um deles tem seu quinhão de hubris e de comemorações na avenida, seu quinhão de cooptações ou de apequenamentos, seu pênalti chutado às nuvens, seus sonhos em reboot.  São profissionais. Não sei se pensam em salvar o mundo, nem se acreditam quando são chamados de deuses com asas nos pés.  Os dois são injustiçados de um lado, hiperinflacionados do outro, mas isto é Brasil, é nessa dinâmica que toca a orquestra. Se é tudo um jogo, que se jogue o jogo; e não pode ficar um a um.  Que se jogue limpo, porque há leis de sobra.  Projetos para melhorar nem se fala.  Ídolos, não maltratem a bola não, que a bola pune. Vida que segue.


domingo, 26 de outubro de 2014

3641) A catedral gótica (26.10.2014)




Um país é como uma catedral gótica que está em construção há séculos. O “pobrema” é quando uma nova equipe assume o projeto. Resolve continuá-lo. Só que agora vai ser um edifício-garagem.  Mais algumas décadas, nova troca de comando.  Surge uma idéia brilhante: por que não transformar aquele edifício-garagem num heliporto?  E por aí vai.  Quando séculos depois a equipe primordial reassume o controle tem que explicar como alegoria cristã todos aqueles penduricalhos arquitetônicos, que à primeira vista parecem não ter nada a ver com catedrais. A doutrina, a teoria, tem que bater com a realidade.  Quando a realidade se mostra irredutível, não custa nada a teoria dar a volta ao quarteirão e trazer um novo aprouche.



Imagine o velho Oeste americano, as imensidões do Vale da Morte ou Monument Valley, aquela horizonte árido e aquelas formações geológicas impudentes, “cheguei”, tão reconhecíveis quanto uma assinatura num cheque.  Parece um trecho do país construído em mandatos sucessivos por dois partidos que eram não apenas politicamente antagonistas, mas esteticamente jurados de morte.  Tudo lhes era permitido no poder, menos destruir o que o outro conjurou.  (Na China, a solução de cada um era avançar a muralha mais para a esquerda. Mais para a direita.)



Pode um país ser tocado pra frente assim?  Meu amigo – você está preparado para escutar a resposta?  Pois tanto pode como vai.  Tanto pode como vem sendo tocado assim há muito tempo, desde antes de qualquer um de nós aqui se entender de gente.  Todos os países assim são tocados. Uns resvalam pra guerra civil, outros pra economia de mercado, e não se sabe qual dos dois teve mais sorte, ou menos.



Vejam só.  Atravessei a catedral gótica e no meio dela não tinha um altar. Tinha um bloco de pedra com uma porta.  Abri-a – e não vi nada do lado de lá.  Eu ia dizer para não incendiar a cidade conquistada, porque o poder é uma mistura de mil teorias das conspirações e um bilhão de desconfianças.  Talvez seja esta, na História da Humanidade, a primeira geração em que nerds de 50 anos estão no Poder.  Cinquentões cobertos de acne e sardas, dispostos a devolver com juros tudo que sofreram. 


Nerds grisalhos em posição de mandar em conglomerados bancários, equipes científicas, telecomunicações, mercados, em tudo que um nerd gosta.  Não são os Homens de Preto, embora haja muitos cidadãos assim trajados.  O espetáculo é vibrante, e eles o assistem das coxias, paralelos ao palco, fumando um cigarro (o teatro é deles) de vez em quando afastando a beira da cortina e olhando para nós, aqui nesta abóbada, nesta platéia que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim.