sábado, 16 de agosto de 2014

3579) Singularidade Absurda (16.8.2014)




A Singularidade, segundo os cientistas e os escritores de FC, será aquele momento em que todos os processos de inteligência artificial que estamos criando irão convergir para a formação de um estado supra-biológico de consciência humana/cibernética.  Como um piloto automático que se apossasse do avião e impedisse os pilotos humanos de entrar na cabine. 

O que acontecerá então?

Temos a tendência de projetar um perfil antropomórfico, ou uma essência semelhante à humana, em todo fenômeno que nos transcende, sem atentar para essa contradição. Se nos transcende, não é como nós. Não parece conosco. Não pode ser descrito em nossos termos. Deus não é um homem de barbas brancas sentado num trono. 

A Super Inteligência Artificial do futuro não será um cientista (benigno ou psicótico) dando ordens que não conseguiremos desobedecer.

É bastante possível que estejamos criando não uma, mas uma série de Semi-Inteligências Artificiais, e que a Singularidade, o momento irreversível em que esse processo escapará das nossas mãos, não tenha uma consciência central. Não será um computador gigantesco dizendo: “Agora, vocês vão ter que me obedecer”. 

Fico até incomodado quando penso nisto, mas acho que a Singularidade não vai parecer nem com uma Divindade nem com um Super-Cérebro, vai parecer com um Doido.

Milhares, milhões de processos eletrônico-digitais controlando nossas finanças, nossas identidades sociais (documentos, senhas, acesso a tudo), nossos bancos, nossos meios de transporte, nossas formas de comunicação. Quem me garante que a Singularidade não será capaz de produzir pastiches perfeitos do meu texto e do meu estilo, postar em redes sociais, mandar emails para minha família dizendo o que bem entender – e fazer-se acreditar?

Isso, no entanto, não acontecerá com intenções malévolas, pois não há uma personalidade humana por trás. Será a combinação multiplicada de processos automáticos que se somarão uns aos outros para produzir efeitos aleatórios, não projetados por ninguém (e não desejados por ninguém, inclusive pelas “máquinas”). 

A Singularidade será um universo beckettiano ou douglasadamsiano. A vida no planeta correrá o risco de ser destruída justamente pela falta de um ditador antropomórfico em busca do poder. Serão mil ditadores algorítmicos, conflitantes, contraditórios, tentando se sobrepujar por mero determinismo de programação. 

E o mundo se transformará num pesadelo surreal-cubista, numa peça de Ionesco montada pelos loucos do Asilo de Charenton, e a vida humana se tornará finalmente um conto contado por um louco, cheio de som e de fúria e significando rigorosamente nada.


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

3578) Robin Williams (15.8.2014)



Tem atores que são capazes de se concentrar num personagem real ou imaginário e recriá-lo com competência: o Hamlet de Laurence Olivier, o Hitler de Bruno Ganz, o Gandhi de Ben Kingsley, o Gonzaguinha de Júlio Andrade, o Aguirre ou o Fitzcarraldo de Klaus Kinski. Ele cria um personagem como quem ergue uma catedral, com tudo que isso envolve de planejamento a longo prazo e de improviso instantâneo, com tudo que isso implica de filigrana milimétrica e de megalomania estrutural.

Não era o caso de Robin Williams, e não porque ele não fosse um excelente imitador. Imitou competentemente desde Theodore Roosevelt até Oliver Sacks e o marinheiro Popeye.  É que Williams era mais capaz de reproduzir os tiques exteriores de alguém do que de se transformar naquele alguém, com memórias profundas e tudo o mais. As pessoas e os personagens não lhe despertavam tanto interesse assim, a ponto de fazê-lo dizer: “Passarei dois anos estudando e compondo esse personagem”. Não, acho que era mais aquela coisa do cômico de vaudeville, do rádio e do cinema mudo, que abre uma folha: “Qual é o próximo papel? Ah, pirata decadente. Já sei.”

Vi duas ou três entrevistas de Williams na TV e ele era aquele tipo não-entrevistável, porque ele nunca é ele mesmo, ele está sempre fazendo um personagem, e nunca é o mesmo personagem por mais de vinte segundos consecutivos, às vezes um pouco mais, quando a piada que está inventando se prolonga. Me lembra o que disse uma vez uma esposa de Peter Sellers: que era impossível conversar com ele, porque não havia “ele”, havia milhares de personagens que ele imitava quando precisava dizer alguma coisa. Eram mil máscaras sem um rosto por trás.

Williams sempre caminhou naquela linha difícil dos atores careteiros, a que também pertencem Jerry Lewis e Jim Carrey.  Sabem que estão sempre a um milímetro de resvalar no mau gosto, no patético, no cafona, no escatológico, mas é algo mais forte do que eles.  Fariam assim mesmo que a lei proibisse. Só sabem fazer se for assim.

Williams parece ter sido um desses caras que começou a inventar personagens-de-si-mesmo para se relacionar com os outros, e depois ficou dependente deles, porque não tinha uma voz central, um Eu principal que se responsabilizasse. Não faço idéia de como era conviver no dia-a-dia com alguém como ele ou Sellers, mas eu não gostaria, porque de um instante para outro ele seria capaz de desdizer ou desfazer tudo que tinha dito ou feito antes e dizer: “Tava brincando!”  Parecia não haver nenhum Robin Williams capaz de surgir entre as máscaras e dizer: “Rapaz, tou com um negócio sério pra te falar.”



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

3577) "O Mistério dos MMM" (14.8.2014)




Este romance policial de 1964, editado por João Condé, é um dos nossos mais famosos exemplos de “round-robin”, romance em que cada autor escreve um capítulo e passa a bola para o próximo.  No presente caso, eram dez. 

A história de um crime violento durante o Carnaval, no apartamento de um milionário em Copacabana, foi começada por Viriato Corrêa, que narrou o crime inicial e propôs o mistério básico sobre três mulheres não identificadas, cujos nomes começam pela mesma letra.

Os capítulos, se não me falha a memória, eram publicados semanalmente em O Cruzeiro. Lembro das páginas duplas com ilustrações, carros, homens empunhando armas, parecendo a revista X-9 ou algum outro pulp magazine nacional. 

Do segundo capítulo em diante colaboraram, pela ordem, Dinah Silveira de Queiroz, Lúcio Cardoso, Herberto Sales, Jorge Amado, José Condé, João Guimarães Rosa, Antonio Callado, Orígenes Lessa, com o último capítulo cabendo a Rachel de Queiroz.

Há vários crimes violentos, um grande número de personagens, o enredo tão claro ou tão confuso quanto o de qualquer pulp fiction. 

O curioso é que os estilos desses escritores tão diferentes convergiram na direção de um esperanto comum a todos.  Aqui e acolá reconhece-se o autor num diálogo, num nome de personagem, numa alusão geográfica ou literária. Mas vozes tão dissímiles quanto as de Jorge Amado, Guimarães Rosa e Antonio Callado estão quase intercambiáveis, na sua capacidade de entrar no diapasão feito soar por Viriato Corrêa.

Rosa contribuiu com uma detetive, a Tia Maria, que tem com o comissário Dr. Brasil uma relação parecida com a da Miss Marple de Agatha Christie com seu sobrinho.  A personagem foi adotada pelos autores dos capítulos finais, e traz uma certa ajuda para o delegado Rocha Novais, o velho investigador Soares e o próprio Dr. Brasil, que no auge do desespero com a investigação que não progride desabafa com a melhor frase do livro: “Esse negócio de crime devia ser proibido!” (episódio de Orígenes Lessa).

O enredo é cheio de reviravoltas, nenhuma delas excepcional, mas essa obra coletiva produziu um décimo-primeiro indivíduo a que todos se amoldaram e para o qual todos contribuíram. Se fosse assinado com um nome qualquer, poderia passar pelo romance de estréia de alguém. 

Ele faz a ponte entre o Dr. Leite de Luiz Lopes Coelho e o Espinosa de Garcia-Roza, passando pelo Mandrake de Rubem Fonseca.  Sem ser um grande enredo policial, não faz feio.  Houve nos autores um certo interesse em ir solucionando os vários crimes aos poucos, ao invés de ir acumulando tudo (atitude bem pulp fiction) para ser resolvido pelo infeliz encarregado do derradeiro episódio.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

3576) Um autor novo (13.8.2014)




Descobrir um autor novo (novo pra mim, claro) me remoça. Mesmo quando eu já supervisionava o tráfego da literatura universal do alto dos meus vetustos 50-e-tantos anos, era extraordinário o quanto o mundo voltava a ficar grande quando eu fazia uma nova descoberta.  


Às vezes era um autor de quem eu só conhecia o nome, vagas referências. Um dia, eu começava a folhear um volume na livraria, sem muito interesse, dava uma conferida no que vinha logo abaixo de “Capítulo 1”, e quando voltava a mim estava na página 35, sob os olhares suspicazes dos atendentes. Em casos assim, já me ocorreu ir no caixa, pagar, sair da livraria e continuar a leitura de pé, na calçada, por entre os transeuntes, figurantes involuntários da epifania.

Ou então o cara está lendo uma antologia, ou uma revista literária, vê 2 ou 3 poemas de um(a) desconhecido(a), lê, relê, entende, desentende, pergunta de novo, acaba constatando uma espécie de fenômeno. Vai ao Google, depois à Estante Virtual ou à Abebooks... Tá fisgado. 

O primeiro indício de estar fisgado é se flagrar tentando escrever parecido com a figura. “Pronto,” pensa o cara, “era só o que me faltava, ser influenciado por uma poetisa senegalesa que tem idade pra ser minha avó, ou minha neta, tanto faz.”

Muita gente, quando descobre um autor novo, vira propagandista. Xeroca texto, escaneia texto, compra livros na ponta-de-estoque e distribui entre os amigos, vira “cabo leitoral”. Vira tiete e militante de um autor falecido no século passado, ou de um novato que está publicando lá nas brenhas e que ninguém se interessa. 

Por que?  Talvez porque um autor novo é como um bar novo que a gente descobre. O bar é ótimo, mas a gente não quer ficar lá sozinho, ou entre desconhecidos indiferentes. Quer levar a turma de amigos para usufruto em comum.

Há também quem descubra e esconda. Eu já fiz isso. Descobri um novo contista de FC, ou um novo curtametragista polonês, ou uma nova poetisa sulamericana, e não falei pra ninguém, apaguei meus passos, não deixei vestígios de minhas repetidas peregrinações ao pé de suas páginas. 

Por que? Talvez pra não quebrar o encanto, não correr o risco de ouvir um dos meus gurus dizer: “Ah, conheço, sim... Mas já passei essa fase...” Eu descubro e escondo. 

Fico com a ilusão benigna de que só eu conheço, só eu gosto, só eu plagio em vão e depois queimo por saber que é plágio, mas no momento de copiar experimento o prazer vicário de todo ator que desdobra no palco uma grande cena e, enquanto joga pra fora aquelas palavras, tem a certeza íntima (por isso a cena é grande) de que tudo aquilo foi ele quem pensou, de que tudo aquilo acaba de ali nascer.






terça-feira, 12 de agosto de 2014

3575) "Bar Don Juan" (12.8.2014)





A história da guerrilha comunista no Brasil já foi contada em livros, filmes, reportagens. Os romances, que eu me lembre, são poucos, mas o primeiro que li, e que mais me marcou, foi Bar Don Juan (1971) de Antonio Callado. É o livro do meio de uma espécie de trilogia que ele iniciou com o imenso e épico Quarup (1967) e concluiu com o multilingue e compacto Reflexos do Baile (1976). 

Callado tinha talvez o equilíbrio necessário para escrever sobre a guerrilha. Um equilíbrio que não vinha da neutralidade, mas do seu envolvimento ideológico e pessoal, que lhe permitia ser simpático a algumas intenções do movimento, e crítico quanto ao seu modo de atuação.


Por volta de 1968, na Zona Sul do Rio, um grupo de jornalistas, cineastas, escritores, junto com alguns de origem militar ou religiosa, se reúne para criar um foco de guerrilha na região de Corumbá. Seria uma ponte para a guerrilha que Che Guevara estava implantando (aos trancos e barrancos, na verdade) na Bolívia. 

Uns já tem experiência de combate, outros são “verdes”, alguns são claramente porraloucas, mas estão decididos ao sacrifício: “Em épocas como a nossa a vida particular é um vício. Um maconheiro que procura mudar o mundo é mais virtuoso do que um atleta ou um santo.”

Callado bebia uísque com aqueles jovens, presenciava suas discussões, entendia seu entusiasmo, e a crônica daquela derrota sangrenta é narrada com um distanciamento melancólico. 

Ele cobriu a Guerra do Vietnam e provavelmente entendia mais de vivência de guerra do que aquele grupo de jovens “que olhava o Banco como um terrorista árabe olhando uma sinagoga.” 

O bar e o livro podiam se chamar Bar Dom Quixote, porque a guerrilha rural planejada e arregimentada entre uísques nas noitadas do Leblon é também o resultado de leituras desordenadas, sentimentos nobres, ambições heróicas e leitura paranóica do Real. 

A arrogância ingênua da guerrilha se reflete no bordão com que os pretendentes a guerrilheiros se referem à conexão com a guerrilha boliviana do Che: “Com o Comandante a gente vence. É matemático.” 

É típico do desejo se fantasiar de necessidade. Quando queremos muito alguma coisa é forte a tentação de imaginar que o Universo inteiro conspira a favor daquilo.  Ou, para usar o jargão da época, dizemos que aquele evento será a consequência necessária da marcha inelutável da História, o resultado concreto de forças históricas objetivas.

Um personagem diz a certa altura que “no Brasil a pressão da vida particular das pessoas sobre a vida ideológica era provavelmente a mais alta do mundo”.  Que o resultado disto seja a opção pela luta armada só confirma a magnitude do choque entre essas duas realidades.






domingo, 10 de agosto de 2014

3574) Utopias totalitárias (10.8.2014)




(ilustração: Alessandro Bavari)


Embora o conceito e o nome tenham nascido no século 16 com a Utopia de Thomas Morus (1516), a utopia literária é um gênero típico do século 19. Antes disso, as utopias costumavam ser satíricas, ou meras fantasias literárias. No século 19 começaram as utopias científicas. O marxismo é produto desse tempo em que, num dos auges periódicos do capitalismo, a Razão mobilizou todos os seus instrumentos conceituais para criar o paraíso social na Terra.

Uma das utopias brasileiras mais curiosas é O Reino de Kiato (1922) de Rodolfo Teófilo, sobre o qual já falei aqui (http://tinyurl.com/qbomjfl). É a típica utopia positivista, baseada na higiene, no civismo, na obediência, na pontualidade, na estrita obediência às leis vigentes, na organização administrativa e burocrática, na tecnologia, na padronização das idéias e do comportamento.  Foi esse livro que me veio à memória ao ler Viagem (1954), o relato póstumo de Graciliano Ramos sobre sua visita à URSS no último ano de vida de Stálin.

Em Kiato, a história é narrada pelo ponto de vista de James Paterson, um visitante que vai parar naquele reino por acaso e que começa a se inteirar da revolução que pôs no trono o Rei Pantaleão III, a quem Kiato deve sua indescritível prosperidade e sua estabilidade política. Kiato, fantasia utópica, contemporânea de Stálin, não é uma república comunista, mas prefigura muitos dos aspectos que em 1922 (ainda em plena guerra pós-revolucionária) mal começavam a ser implantados na URSS.

John Paterson e Graciliano Ramos passeiam pelas avenidas, pelas fábricas, pelas praças e pelos centros cívicos de Kiato e da Rússia, conduzidos por cicerones que lhes explicam o impecável funcionamento das instituições burocráticas, a assiduidade infalível dos trabalhadores, o entusiasmo dos cidadãos diante de qualquer chance de manifestar sua lealdade ao regime. Não se vê um mendigo, um trombadinha, um monte de lixo, uma droga. As bibliotecas estão cheias de coleções encadernadas.

Toda utopia é um sonho centralizado, o mundo reformatado do ponto de vista de uma só idéia, um mundo onde tudo é possível para a mente que comanda. Já a democracia é esta bagunça que conhecemos, eleições, falcatruas, manifestações, todos mandam e ninguém obedece, grupos se alternam no poder, cada um desmonta o que o outro começou a construir, todos reclamam, saem à rua, quebram coisas. Não admira que em plena democracia muita gente sonhe com utopias centralizadas, assépticas, eugênicas, um povo sem pobres, um povo de operários bem vestidos e bem alimentados que leem os livros impressos pelo Estado e que vão dormir pontualmente às dez da noite quando soam as sirenes.


sábado, 9 de agosto de 2014

3573) O fantasma da catedral (9.8.2014)



O telephone soou no fim da tarde; era um diacono da Cathedral dos Martyrios. O supposto fantasma voltára a apparecer, e pediam o socorro do Departamento Parapsychico. Reuni ás pressas minha aparelhagem, meti-me num cabriolé e parti em disparada. Os lampiões a gaz já illuminavam as ruas, e os cascos do cavallo estalavam com estrepito nas pedras do calçamento. Fui recebido pelo diacono, um homem rubicundo e nervoso que me introduziu no templo. A Catedral, em obras, estava fechada ao publico até que se concluisse a instalação, por entre o madeirame, dos cabos neccessarios á moderna illuminação electrica. Cruzámos andaimes, trechos esburacados do piso; o altar-mór e os nichos dos santos estavam cobertos por lonas. No fim de um corredor flanqueado por colunas, tivemos accesso a um vestibulo e de lá a uma porta que o diacono empurrou com difficuldade. Um immenso banheiro de marmore, illuminado debilmente por claraboias, estendeu sua brancura polar á nossa frente.

“Tem sido visto aqui, Professor Fradique, e dois operários o perceberam uma hora atrás,” murmurou o homem, e, com um pretexto qualquer, ausentou-se ás pressas. Abri a maleta, instalei meus sensores, armei o tripé do ectoplasmoscopio. Enquanto o fazia, comecei a sentir a peculiar alteração da pressão atmospherica que antecede aos phenomenos astraes. A dois metros de mim um vulto materializou-se, um homem corpulento, em mangas de camisa, rosto largo, empunhando um instrumento à frente da bocca, mas de cabeça baixa, como que mergulhado em profundas meditações. Através de seu tronco viam-se azulejos do lado oposto. Os ponteiros dos sensores agitavam-se febrilmente. O ar foi invadido por um odor sulphurico. Senti-me entontecer, cambaleei; a imagem do homem se foi encorpando, tornou-se opaca, concreta.

E uma luz preternatural, quente, amarelada e solar, vinda de todos os lados, foi invadindo o recinto, ofuscando-me, acompanhada por um alarido de vozes; protegi os olhos com mãos trêmulas, e ao abri-los vi-me diante de arquibancadas cheias de mulheres jovens vestidas em cores berrantes, vi-me cercado por máquinas reluzentes e incompreensíveis, e ao meu lado o homem alto e forte bradava: “E vamos agora ao quadro Uma História Incrível, dentro do seu Domingão do Faustão!... Tá aqui o nosso bravo Professor Fradique, do Instituto de Arqueologia da UFRJ... É, meu, o homem é fera no assunto, coisa do passado é com ele mesmo! Ele vai contar pra gente como foi a sua aventura... É verdade, professor, que o senhor teve uma visão paranormal, e durante ela o senhor visitou no centro do Rio de Janeiro uma igreja que foi destruída por um incêndio em 1921?!”

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

3572) "Clara dos Anjos" (8.8.2014)





O romance é, muitas vezes, um círculo enxergado e analisado por um ponto externo a ele, que é o autor. 

O autor que tem intenções sociais, históricas, psicológicas, etc., prepara seu enredo como um laboratorista prepara uma lâmina a ser submetida ao microscópio. Ele tem uma opinião formada sobre o mundo e escreve o romance para ilustrar sua tese, porque admite que a tese sem as ilustrações ficaria chata demais. 

Ele narra a história, e opina sobre o que está acontecendo. Conta o que um personagem fez, e logo se detém para explicar as motivações do personagem. Ação e teoria se alternam e se confundem no romance realista, de tese.

Clara dos Anjos (1948, póstumo) de Lima Barreto conta a história de uma mulatinha ingênua que se deixa seduzir por um mau-caráter, um pilantra, aquilo que em Campina se chamava “colecionador de cabaços”. A desgraça se anuncia nas primeiras páginas e se consuma nas últimas. 

Lima Barreto descreve e comenta seus personagens o tempo inteiro. As oficinas literárias nos dizem: “show, don’t tell”, “mostre em vez de dizer”. (Há teóricos que, com bastante fundamento, combatem a ditadura dessa norma, como Wayne C. Booth em The Rhetoric of Fiction, 1961/1983.)  

Lima Barreto mostra, mas também diz; era uma característica da literatura de seu tempo, de repisar a “moral da história”, por ver na literatura uma missão educativa, forjadora do caráter, distribuidora de lições de cima pra baixo.

O livro é ruim? Pelo contrário, o livro é muito bom. E fica melhor ainda quando (voltando à imagem inicial) não vemos somente o círculo que o autor nos mostrava, mas somos capazes de traçar um círculo mais amplo, envolvendo o círculo e o ponto externo a ele, e ver tudo com mais distanciamento. 

Dessa forma o romance absorve, e não rejeita, os comentários de Lima Barreto sobre raça, sobre classe social, sobre a mesquinhez de ambições dos minúsculos funcionários públicos, sobre a calhordice dos filhinhos-de-papai mimados e protegidos, sobre a tragédia da loucura que se abate sobre os indivíduos medianamente talentosos que seu ambiente não é capaz de assimilar, sobre a onipresença da cachaça (a “parati”) como analgésico moral, sobre a paisagem humana do subúrbio carioca, uma mistura de zona rural e cidade (a cidade vai até onde chegam o bonde e o trem).

Quase cem anos depois, Lima Barreto aparece menos como o analista distanciado que conta a desgraça alheia, e pode ser visto quase que dentro do próprio romance, como um dos seus personagens. A tragédia deles é a sua; ele os contempla através de uma parede de vidro, sem poder interferir no drama que relata.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

3571) Personagens de PK Dick (7.8.2014)



Philip K. Dick não foi apenas um grande autor de ficção científica, foi um dos grandes psicografistas do inconsciente coletivo dos EUA no tempo da Guerra Fria. Quando leio relatos históricos daquele tempo (que tinha como pano-de-fundo a Cortina de Ferro, a ameaça nuclear, a guerra de espionagem Oriente/Ocidente, a propaganda feroz de parte a parte) me sinto dentro de um romance de Dick. Agora mesmo, lendo um artigo sobre o espião duplo Kim Philby (o inglês que passou anos espionando para a URSS) fiquei imaginando como Dick o usaria num romance. (Não usou: quem usou foi Tim Powers, em Declare, de 2001, numa trama de horror cósmico.)  Seria algo parecido com seu livro O Homem Duplo (A Scanner Darkly), em que um agente da polícia passa meses investigando um viciado em drogas – e os dois são a mesma pessoa.

As paranóias de traição dos personagens de Dick têm três focos principais: 1) a esposa (seus protagonistas são quase invariavelmente masculinos, num casal em crise); 2) os colegas de trabalho; 3) o Governo.  Esses três círculos de convivência são uma fonte interminável de inquietação e desconfiança. O protagonista está sempre disposto a crer e a não crer. A possibilidade de estar sendo traído, iludido, investigado ou manipulado de alguma forma nunca se dissipa de sua mente. O personagem dickiano típico , por mais comum que seja, é sempre um sujeito inquisitivo, dado a teorizações, que está o tempo todo tecendo configurações e cenários paranóicos para explicar o que acontece ao seu redor.

Essas paranóias são tão vívidas e convincentes porque Dick era assim mesmo. Achava que estava sendo investigado, que o FBI lia sua correspondência e que arrombou sua casa certa vez. Ao se corresponder com o autor polonês Stanislaw Lem, que era seu fã (e chegava a dizer que Dick era o único autor da FC americana que merecia ser lido), acabou denunciando-o como agente da KGB, o que trouxe sérios problemas políticos para Lem e o deixou furioso.

O personagem dickiano é o americano comum da Guerra Fria. Em geral são caras de classe média, com problemas de classe média: conseguir (ou manter) um emprego, pagar dívidas, pedir dinheiro emprestado, conseguir uma promoção... Esse é o mundo dentro do qual a ruptura fantástica desaba de repente como uma torre gêmea. Dick tinha uma desconfiança instintiva dos ricos ou poderosos. Mesmo quando escolhia um deles para protagonista, como em Fluam, minhas lágrimas... ou Minority Report, era para logo despojá-lo do poder e reduzi-lo a um joão-ninguém lutando pela sobrevivência. Daí a enorme empatia despertada pelos seus livros, onde não há super heróis, nem sequer heróis.


3570) Os jovens milionários (6.8.2014)



A primeira Corrida do Ouro na Califórnia foi em meados do século 19, quando a descoberta de jazidas de ouro à flor do solo fez milhares de pessoas pegarem seus carroções e partirem para o Oeste; foi a Serra Pelada deles. A nova corrida do ouro não é feita de ouro e sim de silício. O Vale do Silício é o novo lugar onde rapazes ambiciosos podem ficar ricos do dia para a noite. O único problema é que, como diz a Bíblia, “são muitos os chamados e poucos os escolhidos”. Uma ótima matéria de Gideon Lewis-Kraus na revista Wired de maio (http://tinyurl.com/lvlfn8b) acompanha a saga da Boomtrain, uma empresazinha de dois rapazes que lutam para levantar um milhão de dólares e colocar no mercado um novo sistema de busca e seleção de vídeos.

Cinquenta e uma novas empresas de informática são criadas todo mês na região de San Francisco. Muitas querem ser o novo Google, o novo Facebook. Outras querem apenas crescer o bastante, atrair a atenção das grandes, e ser adquiridas. Isso gera o dilema nos seus criadores: ficar lutando mais 10 anos pensando em valer um bilhão de dólares, ou vender pela primeira oferta de 100 milhões que aparecer?  Vi muito tempo atrás um documentário sobre “os fracassados do vale de Silício”. Eram os caras que tinham percentagem numa empresa mixuruca e quando a empresa começou a crescer venderam essa percentagem por um bilhão de dólares. O problema é que a empresa era o Yahoo, o Google, a Microsoft, sei lá o quê. Um dos entrevistados, um cara de seus 40 anos, com a linda esposa no jardim deslumbrante de uma fantástica mansão, dizia: “Eu levo uma vida de príncipe, mas sempre que encontro um amigo ele me diz: Que pena que você jogou seu futuro pelo ralo, você podia ter hoje dez vezes mais.” E ele conclui: “Eu não preciso de dez vezes mais, mas não sei se digo isso só para me consolar.”

O capitalismo é alimentado fisicamente por tecnologia e dinheiro, mas ele é alimentado mentalmente pelo delírio quantitativo, a vertigem do número. Se você tem 100, você pode com esses 100 ganhar 200. Já que tem 200, por que não lutar para ter 400, uma coisa tão fácil?  E chegando aos 400, nada nos impede de chegar aos 800. É uma coisa parecida com encher um balão de soprar. Vai sempre haver um ponto em que a bolha pipoca e tudo vai pelos ares, mas enquanto a ilusão se mantém, você diz (como o viciado em droga): “Só mais este, e depois eu paro.”  Não para, ou melhor, é a bolha quem para, e aí você fica sem nada.

“Quer ser um jovem milionário?”  Todo mundo quer ser, e muitos conseguem. E muitos voltam à pindaíba porque ouviram a pergunta fatal, que vem depois: “Quer ser um jovem bilionário?”