domingo, 20 de abril de 2014

3478) Ladrão é gente (20.4.2014)



É tanto crime, tanto assalto, tanta violência feia campeando no mundo que as reações das pessoas pipocam por todo canto. Ninguém é tão veemente quanto um cidadão de bem quando vê seus direitos ameaçados.  Nas redes sociais, cada um traz sua receita de como lidar com o problema.  Um pede mais polícia no seu bairro, para que os ladrões vão todos para bairros mais distantes (e os bairros distantes que se danem, afinal ele não conhece ninguém lá). Outro exige educação gratuita e de boa qualidade para todos, o que é uma das melhores idéias da humanidade em todos os tempos, mas como não tem efeito retroativo deixa sem saída o camarada que está tendo os bolsos revirados sob a mira de um tresoitão.  Vem um terceiro e brada: “Vamos pra rua linchar!”, e de fato vai pra rua e lincha, e esta é uma solução tão eficaz que não tarda a surgir um outro grupo para linchar ele próprio, assim como os guilhotinadores franceses morreram todos na guilhotina.

Alguns dizem: “Que é isso... conversa com o ladrão... às vezes ele está ali por mero desespero... explica pra ele que aquilo não resolve...”.  Ouvi uma história de um cara que foi rendido por um ladrão: “Passa a grana!”  Ele meteu a mão no bolso, tirou todo o dinheiro que tinha, mas disse: “Vou te dar, mas isso não vai ser um roubo, eu quero salvar você desse caminho que não leva a nada, toma o dinheiro, é um presente!”.  O ladrão recebeu, desconcertado, e pra não perder a moral falou: “Tá OK, mas então me dá também o sapato.”

Não tem solução mágica, porque mesmo quando a solução serve para um ladrão, não serve pra outro.  Ladrão é gente.  Cada ladrão é um indivíduo, com uma história única e imprevisível, irredutível às estatísticas. A gente pode sair moendo números até concluir que 17,8% roubam porque fumam crack, 22, 1% porque estão desempregados, 7,4% porque são psicopatas... Mas na hora de encarar um indivíduo armado e ansioso, essa tabela serve pra quê? 

Pixinguinha foi assaltado uma vez, puxou conversa e acabou levando os ladrões pra beber num boteco. Sorte dele, porque se fosse o ladrão anterior ou o próximo ele podia ter acabado ali mesmo na calçada, coberto pela foto de um gol. Ladrão travado de crack mata sem saber que está matando. Psicopata mata e larga o dinheiro na calçada, pois não dá valor a dinheiro. Pai-de-família num momento de desespero acaba matando porque ficou com medo da reação da vítima.  Cada ladrão tem uma história; mesmo cruzando o eixo cartesiano de razões marxistas e freudianas, cada ladrão é tão gente quanto a gente, é tão único e imprevisível quanto a pessoa que está assaltando. Claro que nenhum cidadão-de-bem é obrigado a aceitar esta tese.


sexta-feira, 18 de abril de 2014

3476) Roubado não é bom (18.4.2014)




Continuam se fazendo sentir, Brasil afora, os abalos sísmicos provocados pela decisão do Campeonato Carioca de domingo, quando o Vasco vencia por 1x0 (resultado que lhe dava o título) e o Flamengo empatou no último instante, tornando-se campeão com um gol que, minutos depois, todo mundo viu que foi feito em impedimento. Dizem (eu procurei, mas não achei as imagens) que nas comemorações pós-jogo o goleiro Felipe, do Fla, teria dito: “Roubado é mais gostoso”. Ou seja, ganhar praticando uma injustiça é mais divertido, certamente porque eleva ao quadrado o desespero e a revolta dos adversários. Esse traço de muitos torcedores de futebol (não só aqui; creio que é assim no mundo todo) revela o que o esporte significa para eles. Significa a chance de tripudiar sobre um adversário, de exercer a “hubris”, a arrogância dos vencedores, para quem não basta derrubar o outro no chão, precisar pisar na cara, também.

Eu não acho uma vitória assim mais gostosa. Gostosa é quando o adversário faz um gol em impedimento, e depois a gente vai lá, faz um gol legal e ganha o jogo. Aí sim, é bom de esfregar a vitória na cara do outro. O gol roubado é um privilégio, e eu torço pelos desprivilegiados (inclusive para expurgar meus privilégios de sexo, de classe e de cor; quem foi que disse que agnóstico não crê em pecado original?). Vitória gostosa é virar para 3x2 um jogo que estava 0x2. É ficar com um a menos e derrotar o outro time. É ganhar na casa do adversário.  É precisar de um golzinho durante o jogo inteiro e fazê-lo nos acréscimos.  Ou seja: a vitória é mais gostosa (para mim, e acho que para alguns outros torcedores) quando o privilégio ou a vantagem estão todos do lado oposto, e mesmo assim a gente vai lá e passa por cima.

Nelson Rodrigues (ou seria Mário Filho?) tinha um personagem para quem a vitória só valia se o gol fosse de mão. Há pouco, um saite publicou uma matéria apontando 12 erros de arbitragem em favor do Brasil em Copas do Mundo (acertou em todos). Parece que existe em nós aquele complexo do sujeito que, mil vezes roubado, precisa roubar também para convencer a si mesmo de que não é um imbecil, não é um banana. Roubando, podemos enfim curtir aquele momento breve de esperteza que leva tantos otários mais cedo para o buraco.  

O futebol é um reflexo da nossa sociedade, onde (para alguns) só existe ascensão social através do privilégio.  O gol impedido dá ao torcedor a ilusão (porque se não for ilusão, é o quê?) de que daquela vez o grupo de que ele faz parte estava do lado dos poderosos, dos privilegiados, dos que podem fazer qualquer coisa porque acima deles não há ninguém para puni-los.



3477) Escrever no Brasil (19.4.2014)




Numa discussão sobre ficção científica brasileira, com dois ou três amigos, me queixei do pouco que o Brasil é retratado em histórias de FC nacionais. Todo mundo ambienta suas histórias em outro país ou outro planeta, e histórias ambientadas no Brasil são proporcionalmente poucas. Por que?  Alguém questionou: “Peraí, que dirigismo é esse? Então o escritor é um funcionário, tem que obedecer um Plano Quinquenal de Romances Futuristas?  O autor não é livre pra criar? Tem que produzir dentro de uma fórmula fornecida pelos críticos, ou pelo governo?” 

A crítica é procedente, e concordei. Cada sujeito, quando se senta para escrever, é livre para ambientar suas histórias onde bem quiser. Dei como exemplo eu mesmo: nos 19 contos de meus dois livros de FC, há dois que só poderiam ser ambientados (como são) no Rio de Janeiro. São dois contos sobre um Rio do futuro (“Príncipe das Sombras” e “Jogo Rápido”). O resto, ou é em outros planetas, ou numa cidade que poderia ser qualquer uma. (Há um conto, “Oh Lord, won’t you buy me”, ambientado em São Paulo, mas sua primeira versão, que escrevi nos EUA, era ambientada em Chicago, e o conto era exatamente o mesmo.)

O que acontece é que o questionamento sobre ambientação não deve ser feito aos indivíduos, e sim à uma geração inteira dos autores, depois dos livros escritos.  Cada um de nós, autores, é livre para ambientar suas histórias onde quiser, mas nós, críticos, temos o direito de estranhar se somente uma fatiazinha desses livros brasileiros diz respeito ao Brasil. Não se pode cobrar nada de cada escritor (cada um é livre, repito) mas se o país está conspicuamente ausente dessa produção literária isto é um sintoma cultural que não pode ser ignorado.  O crítico tem a obrigação moral e intelectual de perguntar por que é assim.

Um fato assim indica um viés, uma preferência. É mais fácil escrever sobre Marte do que sobre o Brasil?  Para mim, pelo menos é.  Se eu pudesse ambientar todas as minhas histórias em Londres na década de 1890, ô beleza, eu escreveria um conto por semana, porque não existe ambiente literário mais cômodo (pra mim) do que esse.  Doses cavalares de Conan Doyle, Stevenson, Chesterton, James, etc. me deixaram à vontade para passear literariamente por essa cidade (que nem conheço, aliás).  Ambientar no Brasil me leva a uma contaminação de realidade que, pra quem dá importância à verossimilhança externa do que escreve, chega a ser paralisante. É como pedir a um chargista para pintar a Capela Sistina.  O Brasil, como cenário minimamente verossímil, parece estar além da capacidade de muitos autores, inclusive eu mesmo.

(Por distração, este artigo, que é do "Jornal da Paraíba" do sábado 19 de abril, foi postado aqui neste blog no dia 18, sexta. A postagem correta referente à a sexta 18 é "3476) Roubado não é bom".)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

3475) Bilac e o Brasil (17.4.2014)



O Brasil se vê como uma cultura periférica em relação à Europa e EUA, assim como o Nordeste em relação ao Rio e São Paulo.  Existe o fervilhar endêmico de sentimentos nativistas, separatistas, rebeldes, etc., mas o fato deles terem alvo certo comprova a existência do fenômeno.  Isso é errado?  É feio?  É não, rapaz, é a vida.  Na cidade-de-esmeralda distante tudo parece maior, melhor, mais bonito e mais bem feito do que na cidade-de-taipa que nos rodeia. Ouvimos as músicas dela, lemos os livros, sonhamos em conhecê-la. Uns vão tentar a vida lá, alguns dão com os burros nágua, outros descobrem que o tesouro estava enterrado no pé do sicômoro onde cochilavam...  É a vida.

No ensaio O alexandrino Olavo Bilac (1965) Virginius da Gama e Melo passa um pente fino na obra do poeta da Via Láctea. Virginius (para quem não conhece, um dos grandes intelectuais boêmios que a Paraíba produziu), faz um passeio amplo pela métrica, rima e temática bilaqueana, e a certa altura toca num ponto interessante. Cadê o Brasil na obra de Bilac?

Parece uma pergunta ociosa. Por que diabos um poeta brasileiro é obrigado a escrever sobre o Brasil? A pergunta procede, contudo. Bilac defensor do serviço militar obrigatório, fez letra de hino, fez poema ufanista (“Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste! / Criança, não verás país nenhum como este!”). Mas... Diz Virginius: “Basta a verificação dos seus temas principais, temas obtidos ora da mitologia e da história greco-romana, ora do cristianismo primitivo e medievo, além duma evidente inspiração francesa. Há numa visão panorâmica quase o levantamento total dos grandes episódios criadores e informadores dessa cultura latina (...)”.

Folhear os livros de Bilac é passear em Cartago, em Atenas, em Roma; é esbarrar em Xenócrates, em Frinéia, em Cleópatra.  Um épico como “O Caçador de Esmeraldas”, sobre Fernão Dias Paes Leme, é exceção, e mal se distingue do épico dedicado à Escola de Sagres (“Sagres”, que Ariano Suassuna, num ensaio notável, sugere ter influenciado o Mensagem de Fernando Pessoa, publicado pouco depois).  A inspiração de Bilac, diz Virginius, não lhe vinha da vida e sim da literatura: “Era ele, entretanto, pessoalmente, um patriota sincero, e muita fé no nacionalismo fez. Acontecia apenas que, de certo modo, passara sua sensibilidade a existir apenas literariamente. (...) O descritivo estereotipado de Bilac, as paisagens referidas nos seus elementos universal e historicamente comprovados, situam o poeta, nesse campo, numa categoria puramente intelectual, onde as imagens são produto do eruditismo, e não da sensibilidade”.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

3474) O erro poético (16.4.2014)




O erro pode ser fonte de criação e de fagulha poética. Até mesmo o erro produzido por ignorância ou desinformação.  

João Saldanha contou numa crônica a discussão que viu num ônibus entre dois sujeitos e um deles afirmava com veemência: “Você é um indivíduo sem crepúsculo!”.  

Se eu ouvisse isso, ficaria maravilhado com a finura de percepção poética do litigante. Um indivíduo que não tem crepúsculo é decerto um indivíduo que não conhece sutilezas, transições... Uma beleza, se bem que Saldanha adverte que o cara na verdade quis dizer “sem escrúpulos”. 

Não muito diferente do locutor de uma rádio de Campina que escutei, após a conquista de um título pelo Treze, berrar entusiasmado ao microfone: “A torcida do Galo está comemorando enfurecida!”  Pelo contexto, acho que ele quis dizer “eufórica”, mas euforia é assim, às vezes ela se sabota a si mesma.

Em outras situações de erros desse tipo – quando estamos ouvindo, e não falando – a palavra que entendemos mal cria um ruído em nossa mente e nosso primeiro esforço é para corrigir esse ruído, transformando a palavra que não faz sentido em algo que nos é familiar. 

Uma vez eu estava no aeroporto e havia umas senhoras idosas, visivelmente novatas em voos aéreos, pedindo explicações sobre como proceder para embarcar. A moça da empresa disse a uma: “Primeiro, a senhora precisa fazer o check-in”, e mostrou um bilhete de embarque que tinha na mão.  

A senhora voltou para junto das amigas e disse: “Ele disse que tem que fazer o chequinho, ter que ir no balcão e pegar aquele chequinho ali” – e macacos me mordam se naquele tempo um bilhete de embarque não tinha mesmo o formato de um cheque bancário.

Philip K. Dick dizia que nossa mente tem sede de sentido, sede de que as coisas tenham significado, de que o inexplicável possa ser explicado, não importa como.  

Em outra situação, vi duas pessoas novatas tentando acessar um saite na Web.  Uma delas disse: “Eles falaram que a gente tem que clicar nesse espaçozinho ali em cima e escrever a URL.”  A outra, estranhando: “A o quê?” “A URL, foi o que eles disseram.” (Como se sabe, URL quer dizer ‘Uniform Resource Locator”, é aquele endereço começando por “http” que a gente digita para chegar onde quer chegar.) 

A outra num esforço de tradução, perguntou, intrigada: “A arruela?...”, e fez com os dedos a forma circular do objeto. E a primeira, visivelmente aliviada, repetiu o gesto e disse: “Sim!  A arruela!  É como um link!”.  

E é desse jeito que acabamos chegamos ao destino certo por vias tortas, e mesmo virando à direita ao sair da porta podemos dar a volta ao quarteirão e chegar no prédio vizinho à nossa esquerda. Tipo assim.




terça-feira, 15 de abril de 2014

3473) Começar pela pintura (15.4.2014)




Um professor nos disse certa vez: “Começar a escrever um romance preocupado com o estilo é como começar a construir uma casa pela pintura, depois pensar onde vão ficar as paredes, e só no fim planejar em que rua vai ser a casa.”  


Exagero, é claro. Até porque a relação entre estilo e história não é a relação entre pintura e parede. Estilo não é uma coisa exterior que se espalha sobre algo de natureza diversa que foi colocado antes.  Estilo e história são como a casca da fruta e a “carne” da fruta. Coisas diferentes mas entrelaçadas, que crescem juntas, a partir de um só impulso inicial e do mesmo material genético.

Já citei aqui George Lucas, para quem de nada adianta ter 15% de um roteiro perfeito e não ter o resto. “Escreva tudo, até o The End,” aconselha ele; “depois volte ao começo e venha ajeitando. O importante é trabalhar em cima de algo já feito de ponta a ponta.”  

Essa recomendação pode até sofrer ressalvas de quem (como eu) acha Lucas um roteirista apenas sofrível, na melhor das hipóteses.  Mas não difere muito do que Raymond Chandler, um grande intuitivo que detestava planejar enredos, dizia numa carta a seu amigo Charles Morton em 1945: 

“Improvise a história o melhor que puder, com muito ou com pouco detalhe, conforme a inspiração do momento, escreva os diálogos ou deixe para depois, mas registre o andamento, os personagens, dê vida à história. Começo a perceber que um grande número de histórias são desperdiçadas por nós, sujeitos ultra-meticulosos, simplesmente porque permitimos que nossa mente fique paralisada por causa de pequenas falhas, em vez de permitir que ela trabalhe por algum tempo livre daquele supervisor crítico que fica implicando com cada coisinha que não ficou perfeita”.

Chandler sabia que uma história, e ainda mais um roteiro de filme (que é uma experiência sensorial e dinâmica, antes de chegar à alfândega do intelecto) depende desse andamento, desse movimento interno desencadeado pelo que acontece às pessoas e pelo modo como as pessoas reagem ao que lhes acontece, desencadeando novos fatos e novas reações, e assim por diante. 

Seus famosos atritos com Hitchcock (durante a roteirização de Pacto Sinistro) se deram porque Hitchcock não estava nem aí para as motivações íntimas dos personagens. O que lhe importava era o impacto visual, a dinâmica entre montagem e fotografia; não tem coisa mais improvável do que alguém querer fugir de um bando de espiões escalando os rostos esculpidos no Monte Rushmore (Intriga Internacional), mas ele sabia que o público ia ficar de boca aberta.  

Os dois estavam certos, ele e Chandler; apenas queriam fazer tipos diferentes de filme.






domingo, 13 de abril de 2014

3472) Planta de terraço (13.4.2014)



Ela chegou ali numa tarde em que o sol fazia do céu uma placa de churrasqueira, crestando a pele e encandeando os olhos.  Precisou de três homens suados para trazê-la, aos arrancos, dentro de um pote de barro atochado de terra, pesado como um bloco da Pirâmide. Foi instalada na quina do terraço onde o vento sul e a chuva batiam oblíquos e fortes quando era o caso, e onde o sol da manhã fazia sua vistoria diária entre as seis e as oito. Era uma palmeira-ráfia altiva, eriçada de lâminas verde-escuras, reluzentes, num desenho entrecruzado que o mexer do vento e os vidros da porta corrediça multiplicavam.

Parecia que a futura crônica estava se encaminhando bem, rumo a alguma platitude final sobre a possibilidade de harmonia entre a natureza e a construção civil, mas aí o dono da casa viajou, demorou-se, foi correr trecho para minimizar o vermelho do saldo.  Tome avião, tome hotel, tome entrevista na TV, tome passagem de som, tome espetáculos com zilhões de decibéis para porrilhões de pessoas, tome van do camarim para o aeroporto.  E no retorno, depois de cumpridas as mais agradáveis formalidades do reencontro familiar, chegou o momento da rede no terraço. Espanto!  Horror!  O que era aquela estrutura marrom, cinza, com os ramos pendidos, as folhas ressecadas, espantalho de si própria?  Como pode uma criatura em menos de um mês passar de vicejante a escangalhada?

Pode. Aquele recanto de terraço onde-o-vento-faz-a-curva a colocou num ângulo privilegiado do leiaute, deu-lhe uma visibilidade que vizinhos de outros prédios não deixaram de constatar; mas toda superexposição tem um preço. O dono da casa fumou em paz seu tranquilizante enquanto meditava sobre o preço da fama, o preço de brilhar e arder sob o resplendor das luzes “intelabeam”, sobre o deficit metabólico acumulado dos jet-lags, sobre o distanciamento brechtiano que lhe permitia berrar versos e fazer coreografias ensaiadas enquanto lá dentro de sua mente pensava que prato iria pedir no restaurante após o show.  O vento fustiga e mata, concluiu ele, por isso que a mata se agrupa, se encouraça em números para se proteger.  Palco fustiga e mata, derivou: mas lá em cima a gente é uma dúzia, e é no astro principal que mais recai o olhar vampírico e sequioso da multidão. Seu álbum seguinte se chamou Planta de Terraço e a foto da capa foi uma do seu próprio rosto depois de acordar e antes de fazer a barba.  Escusado dizer que foi um fracasso, o que lhe permitiu a saída honrosa de ir morar numa beira-de-praia num Estado onde ninguém o conhecia, e encher o terraço de palmeiras-ráfias que nas noites de cigarro aceso farfalhavam agradecidas.


sábado, 12 de abril de 2014

3471) "Sérgio Samba Sampaio" (12.4.2014)


Para os muitos jovens ele é um nome desconhecido, porque suas músicas não tocam mais nas rádios FM nem na TV.  Estão na Internet?  Sim, estão, mas achar algo por acaso na Internet é o mesmo que achar uma agulha de vitrola num palheiro de irrelevâncias.  Para os mais ligados em música brasileira, ele é o autor da uma das marchas-rancho-pop mais cantadas dos anos 1970, “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”. Para quem prestou mais atenção na sua obra, principalmente no seu inquietante primeiro álbum (que teve esse mesmo título), Sérgio Sampaio (1947-1994) foi um desses cantores-compositores surgidos na época da ditadura, cheio de talento imprevisível, de uma simplicidade poética que o colocava meio próximo de Luiz Melodia e Odair José, de uma pegada roqueira que o levava para a praia de Raul Seixas (de quem foi parceiro no projeto “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista”), de uma nunca apaziguada angústia existencial que o fazia ainda tão jovem ter algo do torvelinho dark e inescapável de Torquato Neto ou Nelson Cavaquinho.

Deve ser difícil encontrar os álbuns de Sampaio, mas sua audição pode ser complementada pela leitura de um precioso livrinho de análise do primeiro deles, de Paulo Henriques Britto: Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua (Ed. Língua Geral, 2009).  Mas o que muitos não sabem é que ele também era compositor de sambas saborosos e sincopados, pontuados por breques e refrões daqueles que grudam no ouvido.

Coube a um paraibano recuperar os sambas desse capixaba. Chico Salles, natural de Sousa e radicado no Rio há mais de 40 anos, é forrozeiro, sambista e cordelista de primeira água, e nas horas vagas de seu trabalho autoral fez o álbum Sérgio Samba Sampaio, produzido por Henrique Cazes e José Milton, com participações especiais de Zeca Pagodinho, Raimundo Fagner e Zeca Baleiro (este último, aliás, autor de outra compilação póstuma do poeta, Cruel, 2005). 

Nesse disco precioso encontrei tesouros que nem lembrava que sabia de cor, como “Cala a boca, Zé Bedeu” (“Mas que mulher danada / essa que eu arranjei / ela é uma jararaca / com ela eu me casei...”), composto pelo pai do artista. Tem o partido alto de “O que pintar pintou”, tem o criativo jogo de palavras de “Polícia, Bandido, Cachorro, Dentista”, o samba-canção de separação “Nem assim”...  Sérgio Sampaio era a cara dos anos 1970, meio Novos Baianos em sua mistura de rock e samba, mas sempre com um travo de angústia que era só seu, umas melodias com ziguezagues inesperados, um apreço pelas rimas toantes.  Sua obra inteira ainda merece um estudo mais profundo, proporcional à emoção que ele ainda desperta em quem o viu surgir e depois desaparecer.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

3470) "True Detective" (11.4.2014)




(Marty Hart e Rust Cohle)

A série True Detective, encerrada recentemente na TV a cabo, conta a investigação de crimes seriais na Louisiana, envolvendo elementos ritualísticos e satânicos. Os protagonistas são dois detetives, Marty Hart, um pai de família convencional, que convencionalmente trai a mulher a-dar-com-o-pau, e Rust Cohle, um semi-junkie niilista com fascinação por crimes rituais.  A história total abrange 17 anos da vida dos personagens e pode ser resumida assim: Hart e Cohle investigam os crimes, descobrem o criminoso, mas não se contentam e querem investigar mais, pois suspeitam de uma rede muito maior de fanáticos que sacrificam crianças e mulheres. A rivalidade mútua os leva a brigar, e Cohle larga a polícia. Muitos anos depois, crimes parecidos são descobertos, e dois novos policiais interrogam Hart e Cohle (os dois já enormemente mudados) para saber os detalhes da história, e solucionar a dúvida principal: se o criminoso foi apanhado anos atrás, como se explica que crimes idênticos tenham voltado a acontecer?

Hart (Woody Harrelson) é um daqueles policiais-modelo de um milhão de filmes, caras durões, sem frescura, sem teorias, interpretados por Richard Widmark ou Kirk Douglas. Rust Cohle (Matthew McConaughey) é de outra natureza. Um sujeito calejado, atormentado, que diz ter perdido a filhinha pequena anos atrás (não dá detalhes), e por isso torna-se obcecado por matadores de crianças (um pouco como o Fox Mulder de Arquivo X, que julga ter tido a irmã abduzida por alienígenas). O duplo arco narrativo (passado e presente) converge para uma situação em que dois ou três desfechos são plausíveis. Um deles acontece. Gente reclamou que era previsível. Eu achei que ia dar outro; mas acabei preferindo que terminasse como terminou. O final que eu imaginei seria cruel demais.

Louisiana é um estado anômalo nos EUA, com influência francesa, caribenha, negra, tudo misturado. É a pátria dos vampiros e bruxas de Anne Rice, e locação de muitas histórias de vudu e feitiçaria. Curiosamente, há poucos negros em True Detective.  O satanismo que campeia naquelas quebradas escondidas no mato é um satanismo do “white trash”, o lixo-humano branco, geneticamente deformado por séculos de semi-incesto dos miseráveis, misturado à mentalidade sádica e torturadora dos lordes escravagistas.  E instituído por uma organização que envolve xerifes, políticos, pastores evangélicos; é “o lado tenebroso da Força”, o retrato-de-dorian-gray onde se acumulam todos os crimes e pecados de uma América que se exibe ao mundo limpa, imaculada, conservadora e cristã.  Quem sabe o mal que se oculta no coração dos homens?  Rust Cohle sabe.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

3469) A Vida e os Tempos de Ribebê Trancaz (10.4.2014)



Cap. 1 – De como Ribebê Trancaz desembarcou certa tarde em Brasília de um voo da Avianca, vestindo um terno da “Taylor and Stewart” e trazendo consigo três smartphones e uma pasta de documentos com dois cadeados. 

Cap. 2 – De como ele foi direto para o restaurante Piantella, onde sentou vizinho à mesa onde almoçavam dois ministros e logo-logo lhes vendeu a idéia de uma base espacial secreta a ser construída em algum lugar entre o Bico do Papagaio e Brasília, e o pitch foi tão bem sucedido que durante o petit gâteau já manipulavam a alta do cimento. 

Cap. 3 – De como Ribebê decolou novamente, e, sentado por acaso junto a um neurocirurgião, maravilhou-se com essa coincidência que o obrigou a confidenciar um segredo cuidadosamente guardado, o de que um laboratório da Noruega acabava de produzir um coagulante específico para a rede vascular cerebral, e diante da esteira de bagagens trocaram cartões de visita e apertos de mão efusivos.

Cap. 4 – De como ele desembarcou na Cidade do México e foi direto reunir-se com o Núncio Apostólico, a quem apresentou um documento de cardeais brasileiros pronunciando-se sobre uma tecnicalidade metafísica qualquer, e apesar da resistência inicial do Núncio saiu de lá com sua assinatura no documento e um convite para visitar sua casa de veraneio em Acapulco.  

Cap. 5 – De como Ribebê desceu no Recife e havia à sua espera um carro que o levou ao estúdio do artista ghoul420: aquários com leishmaniose, pregos enferrujados, copo de cólera, sêmen congelado com HIV; “o direito a escolher a morte”, disse o artista, e Ribebê assinou o patrocínio da expô inteira a percorrer Genebra, Paris e Milão.  

Cap. 6 – De como Ribebê Trancaz tirou três dias de folga e relax na Tailândia (“seeeei...”).  

Cap. 7 – De como Ribebê voltou à carga em Toulouse (França), usando uma megacorp aeroespeacial como mula para produzir um sistema de malotes transgeográficos entre a Provença medieval e o Nordeste mais medieval ainda.

Cap. 8 – De como, numa reunião urgente em Zurique, Ribebê foi acusado de malversação de fundos durante um pau-na-mesa da diretoria, mas defendeu o bastião com bravura, conseguindo um voto de confiança dos acionistas e a instauração de duas comissões de inquérito contra os que o acusavam.  

Cap. 9 -  De como ele desceu em Brasília num jatinho japonês fretado, convocou uma entrevista coletiva, e no meio da discussão foi finalmente identificado, localizado e preso pelos encarregados do Pinel, de onde fugira um mês antes numa madrugada de temporal, após nocautear o psiquiatra-residente sueco e furtar-lhe um terno, três smartphones e uma pasta de documentos com dois cadeados.