sexta-feira, 17 de maio de 2013

3188) Escritor profissional (17.5.2013)





Raymond Chandler tem dois episódios muito curiosos, em sua carreira, que têm a ver com o conceito de profissionalismo. Ele nunca tinha sido escritor profissional; era executivo de uma empresa petrolífera, muito competente, mas bebia pra caramba e acabou demitido. Aos 44 anos, resolveu escrever contos policiais para ganhar a vida. Conta-se que quando enviava um manuscrito (para ser mais exato, um datiloscrito) à redação da revista Black Mask, o editor chamava a equipe inteira para ver. Chandler datilografava os contos justificando a margem direita, ou seja, terminando todas as linhas exatamente abaixo uma da outra. Ora, isso dá um trabalho terrível, porque ao chegar perto do fim da linha a gente tem que contar quantos espaços faltam, e organizar as letras e sílabas do texto (inclusive a hifenização das palavras incompletas) para encaixar nessa margem vertical. (O computador faz isso automaticamente hoje). Na correspondência comercial, cartas, ofícios, isso é de praxe, mas porque são textos curtos, formais. Num conto de 20 ou 30 páginas, é loucura. E Chandler, sem saber que não precisava, fazia assim. O pessoal balançava a cabeça, perplexo: “Esse cara, além de escrever bem, é doido”.

Seus biógrafos (Frank MacShane, Tom Hiney) contam que em 1943, aos 55 anos, ele foi convidado a adaptar para a Paramount o romance Double Indemnity de James M. Cain, a ser dirigido por Billy Wilder. Chandler chegou no escritório do produtor e disse, cheio de empáfia: “Hoje já é terça-feira, e só vou poder entregar o roteiro na próxima segunda. E quero receber mil dólares”. (Que para ele, na época, era uma fortuna.) Os caras se entreolharam e um deles disse: “Mr. Chandler, o sr. tem 14 semanas para fazer o roteiro, e vai receber 750 dólares por semana”.

São episódios típicos de escritor novato, que não é do ramo. Curiosamente se referem a um escritor maduro, não a um rapaz de 20 anos. Uma editora (ou um estúdio) tem sua mecânica interna, sua rotina, dia após dia, ano após ano. Escritores em geral têm apenas uma vaga idéia desse processo. Quando é um autor voluntarioso, cheio de idéias, às vezes ele tem exigências que não fazem parte do que a editora pretende oferecer. Muitas polêmicas entre autores e editoras se devem a esse desencontro, porque o autor, desinformado sobre a rotina de produção editorial, cria expectativas infundadas ou irreais. O exemplo mais comum é a pressa: “Se o livro foi aceito em janeiro, por que não pode estar nas livrarias em março?”. Ou o famoso telefonema: “O que achou do romance que deixei aí anteontem?”. Não é assim, Mr. Chandler, mas de repente pode ser até melhor do que o sr. imagina.



quinta-feira, 16 de maio de 2013

3187) Os desenhos de Feynman (16.5.2013)




Richard Feynman não tinha a vida pacata e acadêmica que se espera da maioria dos cientistas. Entre outras coisas, gostava de tocar bongô, tocou tamborim numa escola de samba do Rio de Janeiro (quando era professor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), jogava em cassinos para testar o cálculo de probabilidades, e era um grande conquistador de mulheres. 

Seu volume de memórias, Deve ser brincadeira, Sr. Feynman! é um dos melhores que já li.

Feynman gostava de experimentar coisas que não conhecia; era um aventureiro do espírito, que não tinha medo de errar, nem de pagar mico, nem de perder tempo, nem de ser chamado de doido. Um cientista que tenha medo de qualquer dessas coisas nunca vai ser nada além de um burocrata de laboratório, e Feynman, de certo modo, fazia ciência porque achava divertido.

A certa altura da vida começou a frequentar aulas de desenho de um amigo que era artista, e a quem retribuía dando aulas de ciência. O resultado, bastante razoável (http://bit.ly/138CSxE), está no álbum The Art of Richard Feynman, com resultados que, se não são grandes obras de arte, são bastante apreciáveis, principalmente seus retratos de nus femininos. 

(Antes que digam que só gostei dos desenhos porque admiro o desenhista, lembro que acho muito ruinzinhos os desenhos e as pinturas de Bob Dylan, que, em outros aspectos, é um dos deuses-pequeninos do meu panteão.)

Disse Feynman sobre sua experiência artística: 

“O professor de desenho não dizia muita coisa aos alunos; a única coisa que me disse foi que meu desenho estava muito pequeno para a página. Em vez disso, ele nos estimulava a tentar novas abordagens. Pensei em como nós ensinamos Física: temos tantas técnicas, tantos métodos matemáticos, que nunca paramos de dizer aos alunos como fazer as coisas. Se você faz linhas muito grossas, o professor de Desenho não pode se queixar disso, porque sempre há um grande artista que fez grandes obras usando linhas grossas. Os professores não nos empurram numa direção especial; eles precisam transmitir o que sabem por osmose, e não por instruções, enquanto o professor de Física tem o problema de estar sempre ensinando técnicas, ao invés de ensinar o espírito da solução de problemas científicos.”

Essa diferença se dá porque a execução de cada desenho vai numa direção diferente: a da individualidade do aluno, do seu “olho”, da sua “mão”, seu jeito especial de fazer as coisas. 

Já um problema da Física precisa convergir numa única direção: a da descoberta de uma verdade universal. 

Ao desenhar, Feynman constatou que cada obra de arte é um universo próprio onde as leis dos outros universos têm validade limitada.







terça-feira, 14 de maio de 2013

3186) 16 mistérios (15.5.2013)




De quem era o número de telefone que o detetive Kingsley levava anotado num papel quando foi abatido a tiros na esquina de Oitava Avenida com rua 43? 

O que pretendiam os ladrões que arrombaram o Rijksmuseum em abril de 1976, sem nem sequer tocar em inúmeras telas valiosíssimas, e roubando apenas a obscura Telêmaco brinca na praia (1825) de Jacobo Mirotsky, que nunca foi recuperada? 

Por que motivo os mergulhadores do litoral paulista examinam todos os galeões naufragados naquela região, mas por uma espécie de consenso silencioso não se aproximam jamais dos restos da nau de Afonso Quartim, afundada por uma tormenta em 1647?

Quem deixou aberta naquela noite a janela do lado do motorista do carro do Dr. Sérgio, facilitando o posterior arrombamento e o roubo do aparelho de som onde ele, na volta para casa, deixou plugado o pendraive onde estava gravada a reunião dos acionistas, encerrada há pouco? 

Em que base militar sub-orbital estão vivendo e sendo analisados pela ciência a tripulação e os passageiros do “Mary Celeste”? 

Quem foi o homem preso num buraco e executado às pressas em nome de Saddam Hussein? 

O que disse Heloísa Binelli na longa mensagem de 11 minutos que deixou gravada na secretária eletrônica de seu noivo Rafael, antes de se suicidar, e que ele, sem perceber, apagou sem ouvir?

Quanto custou, afinal, a fazenda que Alípio Monteiro vendeu ao próprio sogro, e com o dinheiro recebido comprou a própria fazenda de volta e mais duas? 

Quem construiu as enormes plataformas submarinas com degraus por onde poderiam subir milhares de pessoas, e que hoje jazem submersas no Mar do Japão? 

Por que a palavra “adumptarelli” desapareceu do italiano moderno mercê de um simples decreto de um Papa no século 18? 

Onde está escondida a correspondência entre Lee Oswald e Jack Ruby nos seis meses que precederam o Caso Kennedy?

Quem estrangulou, no trajeto entre o 33o. andar e o térreo, o ascensorista encontrado morto no elevador do prédio da Sears na praia de Botafogo?  

Por que Nilcéia disse a Raimundo que não era prima de Rute, sem saber que ele conhecia a família dela e achou que mentindo ela revelava ter preconceito racial? 

Em poder de quem estão atualmente as máscaras de chumbo usadas por Manoel Pereira e Miguel Viana quando morreram em 20 de agosto de 1966, em Niterói? 

Quando será descoberto o cofre de mogno enterrado pelo coronel Pamplona embaixo da soleira de sua fazenda em Mirassol, contendo cartas e diários escritos por ele durante a fracassada Revolução da Foice? 

Como foi decidida a demarcação de fronteiras que cedeu ao Brasil o Pico da Neblina, com todas as consequências geopolíticas que isso terá no século 22?










3185) Viva o Socialismo (14.5.2013)




(Antonio Cândido)


Uma entrevista recente do crítico literário Antonio Cândido (http://bit.ly/qVH0r1) ao jornal Brasil de Fato andou dando o que falar nas redes sociais, onde há muita gente que ouviu o galo cantar e não apenas não sabe onde, mas desconhece o que seja um galo e o que seja um cocoricocó. Pensa que ouviu a buzina de um carro. 

Cândido afirmou, com a simplicidade com que fala de literatura, que o socialismo é uma doutrina triunfante, porque deve-se a essa doutrina a maior parte das conquistas sociais coletivas do nosso tempo. 

Muita gente acha que “ser triunfante” é conquistar o Poder, a Presidência da República, o Trono, ou então ter mais dinheiro, mais bancos ou mais exército.

Diz Cândido: 

“O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. 

Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais.”

Se alguém fosse esperar que os capitalistas criassem creches, dessem plano de saúde, garantissem salário-mínimo e carteira assinada, etc., ia morrer ao relento. O Capitalismo só fez essas concessões porque foi pressionado pela ameaça socialista; preferiu entregar os anéis para não perder os dedos. 

O Capitalismo, então, é a encarnação do demônio? Não: é a encarnação do Homem, de seu impulso de criar, de competir, de produzir, de crescer, de ser melhor, de ser maior, de lutar, de acumular e multiplicar. Só que esse é o nosso lado egoísta, individualista, reptiliano. Precisa ser contrabalançado pelo nosso lado gregário, solidário, compassivo, capaz de enxergar os interesses do grupo e não apenas os do indivíduo. Um equilibrando o outro.

Sem o Capitalismo, seríamos um mundo materialmente miserável. Sem o Socialismo seríamos modernos, sofisticados, auto-suficientes, mas capazes de vender a mãe a um bordel e o filho recém-nascido ao tráfico de órgãos, se isso nos proporcionasse um decimal a mais de lucro, uma dose a mais da droga chamada Dinheiro.




domingo, 12 de maio de 2013

3184) Posição e velocidade (12.5.2013)



Os “pardais” são esses sistemas de controle do trânsito que detectam quando um carro está acima da velocidade permitida, e tiram uma foto da placa para multar o motorista. 

Esse sistema tem dois equipamentos distintos. 

Um é o detetor de velocidade, que funciona parecido com o radar: manda um sinal na direção do carro e o recebe de volta, várias vezes por segundo, e a cada vez mede a distância desse percurso. Assim ele percebe que o objeto está cada vez mais próximo, compara as posições sucessivas ao longo do tempo, e calcula com que velocidade ele se move. 

O outro equipamento é uma câmara fotográfica: ela bate a foto do carro (para registrar a placa) e mostra exatamente em que ponto ele estava num momento específico.

Isto quer dizer que se você quer saber a velocidade com que o carro se move, tem que consultar o Equipamento 1, que mede o deslocamento dele em instantes sucessivos, mas não dá uma posição específica. Dá o deslocamento. Diz algo como: “Estava a 10,8 metros... estava a 10,7 metros... estava a 10,6 metros...” Mas é uma medição que não “congela” o objeto, não o mostra num lugar específico.

Se você quer saber onde estava o carro, ver o carro, você tem que usar o Equipamento 2, e bater a foto. Mas aí, a foto não pode mostrar a que velocidade o carro estava se movendo. Na foto, o carro aparece parado, congelado no tempo. Estava a mais de 80 km/h? Não dá pra saber.

É mais ou menos isso que acontece quando os cientistas querem detectar as partículas subatômicas, como o elétron. Por um lado, usando a medição 1, pode-se avaliar com precisão a velocidade com que ele se move, mas nunca se pode saber onde ele está, porque essa medida requer diferentes momentos no tempo, e diferentes posições. Quando se avalia, usando a medição 2, a posição dele, perde-se de vista a velocidade. 

É este o Princípio da Incerteza de Heisenberg.

Esse problema tradicional da Física já foi ilustrado por Arthur Koestler com uma comparação também muito útil: ele dizia que medir essas coisas era como filmar ou fotografar dois objetos situados a certa distância um do outro. Cada vez que focalizamos com nitidez absoluta o objeto mais próximo, o mais distante fica borrado; e vice-versa.


Uma das consequências filosóficas disto é que quanto mais examinamos o Universo com rigor de detalhe, com minúcia, mais difícil é estabelecer conclusões gerais. Quanto mais nítida fica a letra A, mais borrado fica o resto do alfabeto inteiro. 

O problema da ciência de hoje é uniformizar numa só teoria geral uma quantidade absurda de dados extremamente exatos colhidos por equipamentos extremamente precisos, mas que não dialogam uns com os outros.







sábado, 11 de maio de 2013

3183) "Iniciação amorosa" (11.5.2013)






(Drummond, menino)

A poesia erótica de Carlos Drummond está reunida e concentrada no livro O amor natural (1992) onde se exprime de maneira intensa, contida, e ao mesmo tempo livre, espontânea e alegre. Do jeito do poeta, que tinha seu lado filósofo e seu lado moleque. Mas já em Alguma Poesia (1930), seu primeiro livro, o poeta infiltrava memórias iniciais do fenômeno sexual, visto através daqueles olhos de criança antiga, que muitos anos depois nos deram Boitempo. É o caso de “Iniciação sexual”, onde o menino conta: “A rede entre duas mangueiras / balançava no mundo profundo. / O dia era quente, sem vento. / O sol lá em cima, / as folhas no meio, / o dia era quente. / E como eu não tinha o que fazer ficava namorando as pernas morenas da lavadeira”.

 É o velho erotismo entre patrões e escravos, aquela promiscuidade tropical e cúmplice que misturava negros e brancos, sinhozinhos e mucamas. A extinção da escravatura não mudou quase nada na relação posterior entre patrõezinhos e empregadas, numa sedução recíproca em que as vantagens de raça, gênero e poder, de um lado, eram contrabalançadas pela idade e vivência do outro. Na memória (ou fantasia) do poeta, nasce do menino o interesse, mas vem da mulher adulta a iniciativa: “Um dia ela veio para a rede, / se enroscou nos meus braços, / me deu um abraço / me deu as maminhas / que eram só minhas. / A rede virou, / o mundo afundou.”

 Interessante como nestes dois últimos versos, comparados aos dois versos iniciais do poema, é de fato como se o mundo fosse “telescopado” para dentro de si mesmo, como se tudo deixasse de existir. E o poema termina: “Depois fui para a cama / febre 40 graus febre. / Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava no espaço verde”. É a coexistência entre o impulso sexual juvenil e a languidez dos meninos brancos, como lembra o Padre Gama, citado em Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre, os meninos “tratados com tantas cautelas de sol, de chuva, de sereno, e de tudo, que os pobres adquirem uma constituição débil, e tão impressionável que qualquer ar os constipa, qualquer solzinho lhes causa febre, qualquer comida lhes produz indigestão, qualquer passeio os fadiga, e molesta”.

 Este poema se conecta com “Infância”, onde já estão as mangueiras e a preta. Mas aqui existe o desejo, existe o enxerimento, existem os olhos compridos que o menino bota para as pernas da mulher negra. A ideologia politicamente correta de hoje se dividiria entre denunciar o assédio sexual machista, por parte dele, ou a sedução pedófila, por parte dela. O poeta-menino fica apenas com a lembrança febril do sexo que se mistura ao aleitamento materno.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

3182) O sense-of-wonder (10.5.2013)






A expressão “sense of wonder”, um dos conceitos chaves da ficção científica, significa algo como “sentimento ou sensação de maravilhamento, de assombro, de deslumbramento” e busca reconstituir aquela epifania de olhos arregalados dos garotos de 11 anos que pegavam uma revista de pulp fiction como Amazing Stories e se deparavam com histórias sobre fendas transdimensionais através das quais se vislumbrava uma cidade futurista em outro planeta, ou uma máquina do tempo que levava caçadores para safaris jurássicos, ou a descoberta de uma Atlântida viva e florescente sob uma cúpula no fundo do mar, ou sobre três crianças tidas como retardadas que, juntas, compunham a mente mais poderosa da humanidade...

Era a sensação de ser capaz de imaginar um mundo além do mundinho restrito casa-cinema-parque-escola da maioria dos garotos urbanos, ou casa-riacho-cavalos-escola dos garotos rurais. A FC cresceu investindo na receptividade dos adolescentes às idéias malucas, idéias transgressoras, idéias fora de esquadro. Idéias que inquietavam e incomodavam os pais excessivamente preocupados com as notas do boletim e as futuras perspectivas de emprego. Faz parte de ser pai viver assim; e faz parte de ser jovem essa permanente disposição para se maravilhar, se entusiasmar, se apaixonar por idéias arrevezadas, teorias insólitas, enredos mirabolantes. Ser jovem é acreditar que tudo é possível. Quando a gente deixa de acreditar nisso, não importa em que idade, deixou de ser jovem.

Para um adolescente, não há muita diferença entre ler sobre o Budismo ou ler sobre o Mercerismo que Philip K. Dick inventou em Do androids dream of electric sheep?. Não há muita diferença entre EUA & Cuba e os planetas gêmeos (um capitalista, o outro anarquista) de Os despossuídos de Ursula Le Guin. Tudo existe no território impreciso das coisas que acabamos de conhecer. É mentira? É verdade? No momento não importa: importa a emoção vívida da descoberta, aquele “Puxa vida, nunca imaginei que...”, aquela mistura de êxtase, receio, curiosidade, vontade de seguir em frente para ver onde é que aquilo vai dar. Os garotos vão ser cientistas? As garotas vão ser romancistas? Não importa. Seja qual for o seu destino, serão, sempre, pessoas capazes do prazer de imaginar.

As revistas de FC dos anos 1930-40 tinham nomes onde apareciam palavras como “amazing”, “astounding”, “wonder”, “astonishing”, “fantastic”. Tudo que é extraordinário, maravilhoso, deslumbrante, imaginativo podia aparecer naquelas páginas amareladas onde ficou gravado o inconsciente coletivo de meio século de escritores para quem a Terra não era o bastante e o céu não era o limite.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

3181) O Dono do Mundo (9.5.2013)






Nossa literatura sempre gostou de contar a história dos Donos do Mundo. Qualquer cara merecedor desse título, mesmo em escala regional, merece um romance ou um filme 35mm, não é verdade? 

O regionalismo nordestino nos deu inúmeros donos-do-mundo na pessoa dos fazendeiros de Jorge Amado, José Lins do Rêgo, e por aí vai. Cada senhor de engenho ou criador de gado sabia-se dono de um mundo, e como era o único mundo de que ele tomava conhecimento, essa consciência era invulnerável a argumentos.

O Cinema Novo e o Realismo Mágico trouxeram uma dimensão extra a esse mito. O Dono do Mundo deixou de ser objeto de análises e descrições históricas e pulou direto para a categoria de mito, de lenda, de personagem maior-que-a-vida. 

Em O Senhor Presidente de Astúrias, O Outono do Patriarca de Garcia Márquez, Cabeças Cortadas de Glauber Rocha e inúmeras outras obras o Dono do Mundo é um indivíduo neurótico, desmedido, imprevisível, alucinado... 

Como os deuses bêbados das antigas mitologias, ele detém o poder total sobre nosso mundo mas não tem o menor controle sobre as próprias emoções. Como os reis bêbados (nos quais, certamente, o conceito antigo de Deus se inspirou), podem nos dar hoje a fortuna, amanhã o cadafalso, e depois de amanhã chorar nossa ausência.

A ficção científica está transpondo esse conceito para os ricos do nosso tempo. São aqueles bilionários, CEOs de megacorporações, políticos, altos funcionários, etc., que praticamente vivem em seus jatinhos, saltando de capital em capital e costurando a rede das finanças globalizadas. 

São o Hubertus Bigend dos livros de William Gibson, o governador Huey Hugelet de Bruce Sterling, o Weyland (Guy Pearce) do filme Prometheus... Não são indivíduos onipotentes, por mais poderes que tenham. São guerreiros envolvidos em conflitos que nós, formiguinhas perdidas na poeira das ruas, mal somos capazes de vislumbrar.

Ninguém melhor do que a FC para recuperar a aura mítica, surpreendente, aterrorizante e fascinante, daqueles ditadores latino-americanos “capazes de horrores e de ações sublimes”. 

São personagens de estatura mítica pela dimensão cósmica de sua ambição, crueldade, esperteza, magnetismo. Um pouco semideuses, um pouco super-heróis, não têm poderes de natureza física como Superman. Seu poder é totalmente social (os cargos que ocupam) e psicológico (as qualidades que têm). Projetamos neles nossos medos e nossas ambições. 

Eles são, de certo modo, o que qualquer um de nós seria se de uma hora para outra se tornasse bilionário, poderoso, influente, respeitado, paparicado. A FC é a única literatura que pode descrever adequadamente os Donos do Mundo de nosso tempo.









quarta-feira, 8 de maio de 2013

3180) Um gringo e o Brasil (8.5.2013)





Gosto de registrar aqui na coluna maneiras alheias de ver o Brasil, principalmente quando são estrangeiros que observam, de dentro, nossa cultura. “De dentro” significa que aprendem o português, vêm morar aqui, alugam casa, arrumam emprego, botam os filhos nas escolas, usam o supermercado, o hospital, a oficina mecânica, o correio. A gente só entende uma cidade (estrangeira ou não) quando vive nela dessa maneira. Pra mim não cola esse papo de viajar para uma cidade, ficar num hotel, conhecer meia dúzia de praias, shopping-centers e restaurantes, e depois voltar para casa. Turista não conhece nada, turista passa através.

Ethan é um norte-americano do Colorado que viveu em Belo Horizonte e publicou num blog (http://bit.ly/137suZA) suas opiniões sobre nosso povo. Ethan se admira com nossas frutas (“o Brasil tem mais variedade de frutas do que qualquer outro país do mundo”) e com o fato de que “almoço, aqui, é sempre feijão, arroz e mais alguma coisa”. Ele acha o brasileiro “o povo mais hospitaleiro do mundo”, e observa que a qualquer momento que encontra alguém comendo ou bebendo a pessoa o convida a compartilhar. Ele se admira de que no Brasil a cerveja (“a cerveja brasileira é a mais gelada do mundo”) seja uma bebida coletiva: “Pede-se uma garrafa grande para a mesa, e vários copos, e quando seu copo fica vazio e você quer enchê-lo, enche primeiro os copos das outras pessoas; não já falei como os brasileiros são amigáveis?”.

Ele estranha que as pessoas tomem café em copinhos de plástico, não só porque queima os dedos, mas porque a bebida quente libera componentes químicos. Constata que por toda parte há coisas quebradas ou fora de uso, mas isso é normal no Brasil, a pessoa se acostuma: “agora, acho graça quando ouço os gringos reclamando”. Para ele, contudo, é esquisito ver numa loja cinco caixas e só uma pessoa atendendo, e ver na quitanda cinco pessoas atendendo e somente uma caixa registradora.

“As pessoas pensam que o Grande Canyon fica no Colorado”, diverte-se ele. Eu não achei muita graça, porque também pensava. (É formado pelo Rio Colorado, mas fica no Arizona.) Ele se queixa de que os motoristas são malucos, e que um trajeto de ônibus traz mais emoções do que uma corrida na montanha russa; mas em compensação as pessoas sempre se oferecem para segurar os pacotes de quem está em pé. “Demonstrações públicas de afeto”, diz ele, “são culturalmente aceitáveis aqui, seja num parque ou num restaurante, e é mais uma coisa com que você tem que se acostumar”. E avisa: “As pessoas sempre dizem ‘vamos combinar algo’, mas para você conseguir que isso aconteça vai ter que empregar toda sua iniciativa”.



terça-feira, 7 de maio de 2013

3179) Paulo Vanzolini (7.5.2013)





Dizer que São Paulo é o túmulo do samba é a típica alfinetada carioca que se perde no vazio - menos para os cariocas, é claro. Seria como os EUA dizerem que a França é o túmulo da ficção científica, só porque a FC de lá é diferente da deles. O samba paulistano é amplo, geral e irrestrito (a bênção Adoniran, a bênção Celso Viáfora), mas uma parte dele acaba de ir para o túmulo com o falecimento de Paulo Vanzolini.

É sempre chato lamentar a morte de quem a gente admira diante dos que não sabem de quem se trata. Vanzolini, que muitos jovens desconhecem, morreu dias atrás, aos 89 anos. Deixou no mínimo dois clássicos da nossa música: “Ronda” (“À noite eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar...”), a canção que inspirou “Sampa” de Caetano Veloso; e “Volta por cima” (“Chorei, não procurei esconder; todos viram, fingiram, pena de mim não precisava...”), que incorporou ao linguajar brasileiro a sua triunfante frase final: “Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima!”.

Vanzolini surgiu na minha vida com essas duas músicas, que eu conhecia antes mesmo de imaginar quem as teria composto; mas principalmente através do LP Onze sambas e uma capoeira, uma espécie de ação entre amigos que eu acho que só comprei porque tinha Chico Buarque cantando duas faixas. Atirei no compositor de “A Banda” e acertei no autor de sambas magníficos como “Samba erudito”, “Praça Clóvis”, “Amor de trapo e farrapo”, “Juízo Final”, letras surpreendentes, carregadas de humor, ironia, percepção fina de um cronista do cotidiano.

Vanzolini na verdade era cientista, professor de Herpetologia (“ele ensina cobras e lagartos”, dizia Chico Buarque), fazia música nas horas vagas mas só acertava no alvo. Nunca se interessou pelo sucesso, compunha para si mesmo e para meia dúzia de amigos. Não tinha papas na língua e mandava torpedos ferinos na direção de quem não gostava. Suas músicas vão desde a mordacidade da “Capoeira do Arnaldo” (“Quando eu vim da minha terra / veja o que eu deixei pra trás: / cinco noivas sem marido / sete crianças sem pai / doze santos sem milagre / quinze suspiros sem ai / trinta marido contente / me perguntando "já vai?" / e o padre dizendo às beata: / "Milagre custa, mas sai") até o humor negro do “Samba do Suicídio”, onde o cara faz tudo para se matar e não consegue. (Escutem: tem tudo no You Tube).

Vanzolini parece nunca ter dado muita bola para o mercado da música, e infelizmente foi correspondido. É a música brasileira invisível, que hoje, graças à Web, está ao alcance de quem se interessa. Mas, como disse ele mesmo noutro samba: “Quando eu for, eu vou sem pena; pena vai ter quem ficar”.