sexta-feira, 9 de março de 2012
2813) A mão de tinta (9.3.2012)
(Ezra Pound, por Wyndham Lewis)
Existe hoje um frenesi de novidade, de originalidade, de ter que estar todo dia fazendo alguma coisa pela primeira vez. Não nego a importância da primeira vez. Tudo tem que nascer em algum ponto, tem que começar em algum ponto. Mas a segunda vez é tão importante quanto a primeira.
Lembram daquele lugar comum da crítica, “o segundo disco (filme, romance) é mais difícil de fazer do que o primeiro”? Se é mais difícil (e muitas vezes é mesmo) é porque essa segunda vez pede alguma coisa que a primeira não pôde dar, e não poderia.
Muitas coisas na cultura são como a pintura de uma casa, onde geralmente não basta dar uma mão de tinta, tem que dar depois a segunda, a terceira. À tinta não basta estar ali, precisa estar ali com mais peso, mais espessura, não só para não largar, como também para que sua luminosidade e sua cor sejam vistas com mais firmeza.
(Não sabemos, mas quando vemos uma parede bem pintada vemos essas várias camadas sobrepostas de cor, umas através das outras, porque a luz as atravessa e se reflete várias vezes simultâneas por entre elas.)
A segunda mão de tinta vem para salvar a primeira, a terceira vem para salvar a segunda. Como o tempo deixamos de perceber que são muitas, parecem uma só, e a intenção é esta.
De modo parecido, nas artes e nas culturas as coisas têm que ser ditas muitas vezes e por muitas vozes. Quanto mais pessoas aderem a uma nova forma de dizer, mais espessa e mais visível ela vai ficando, muito mais do que se tivesse se limitado à contribuição daquele criador solitário.
O que seria a Bossa Nova se tivesse tido apenas João Gilberto, o Cinema Novo se tivesse tido apenas Glauber Rocha, o baião se tivesse tido apenas Luiz Gonzaga? Cada artista que se deixou contaminar pela obra destes e criou sua própria obra seguindo seus passos deu uma mão de tinta a mais no que estava sendo feito.
É por isto que os chamados movimentos estéticos (Cubismo, Nouvelle Vague, Surrealismo, Folk-Rock, Expressionismo, etc.) se impõem com mais solidez na História. São compostos de um gesto inicial de um Inventor (no sentido que Ezra Pound usava: o que cria formas novas de fazer) e de gestos consecutivos de Mestres (o que não inventa, mas consegue fazer aquilo talvez até melhor do que o Inventor).
Quando a crítica se queixa de que “todo mundo agora está indo na onda de Fulano” pode até exprimir um descontentamento legítimo diante de obras medianas e pouco inventivas, mas não deve fechar a porta a essas novas contribuições. Quem vai ajudar a fixar na memória do tempo a obra de Fulano são aqueles que tentaram suplantar Fulano num momento em que todos estavam mergulhados num impulso único pelo novo.
quinta-feira, 8 de março de 2012
2812) Dickens e os piratas (8.3.2012)

Este ano, comemoram-se os 200 anos de nascimento de Charles Dickens, que talvez tenha sido, no auge da carreira, o escritor mais popular do mundo. Dickens escreveu folhetins que emocionavam milhões de leitores, descrevendo a vida das classes pobres inglesas. Seu estilo era vívido, coloquial, comunicativo, e ao mesmo tempo cheio de riquezas barrocas e de trechos meio delirantes. Sua imensa popularidade tem sido lembrada com relação a assuntos da literatura atual. Uma matéria de Simon Watts no saite da BBC (http://bbc.in/xIsGIL) lembra a primeira turnê de Dickens pelos EUA, em 1842, quando ele passou cerca de seis meses viajando pela América do Norte, fazendo conferências e leituras públicas de suas obras, sendo recebido em banquetes, etc.
Foi uma passagem turbulenta. Apesar dos bailes e das homenagens, Dickens decepcionou-se várias vezes com a grosseria dos norte-americanos, seus hábitos à mesa, seu comportamento em geral, como o hábito de mascar tabaco e cuspir em qualquer lugar. Um dos aspectos mais polêmicos da visita foi a tentativa do escritor de resolver os problemas de pirataria das suas obras. Naquele tempo, não existiam acordos editoriais internacionais, e os livros de Dickens vendiam milhares de exemplares nos EUA em edições piratas. Dickens tentava abordar o assunto em suas palestras, enfatizando a necessidade de uma lei de direitos autorais.
Dickens tentava proceder com tato. Afirmou que uma lei anti-pirataria ajudaria aos autores norte-americanos tanto quanto a ele próprio, e disse que “eu preferiria receber a admiração afetuosa dos meus semelhantes do que amealhar montanhas de ouro”. Dickens percebeu, pelas multidões que acorriam às suas conferências, e pela enorme cobertura dos jornais à sua visita, que se naquele país houvesse pagamento de direitos autorais pelos seus livros ele poderia facilmente duplicar o seu faturamento. Mas a reação era irritada. O “New York Courier and Enquirer”, o jornal mais popular da época, disse: “Estamos mortificados e entristecidos pelo fato dele ter praticado tamanha indelicadeza e impropriedade. Toda a imprensa do país estava pronta para fazer sua louvação, mas ele insistiu junto aos presentes para que não apenas fizessem honra ao seu gênio, mas também para que se preocupassem com sua bolsa”. O clima não foi desanuviado quando se tornaram bem claras, para os entrevistadores, as posições pró-abolicionistas de Dickens, para quem a escravidão negra era desumana e absurda, opinião que ele desenvolveu nos últimos capítulos de “American Notes for General Circulation” (1842), seu livro de comentários sobre a viagem.
quarta-feira, 7 de março de 2012
2811) O Poço do Dinheiro (7.3.2012)

Existem dois tipos de mistério, o mistério sobrenatural (que envolve espíritos, almas, etc.) e o mistério natural (que se reduz ao mundo da matéria). Este segundo tipo se divide em mistérios fantásticos e mistérios realistas. Os fantásticos incluem coisas que, se confirmada sua existência, mudariam nossa visão do mundo (sem envolver nada espiritual): o monstro do Lago Ness, a Atlântida, por exemplo. Os mistérios realistas envolvem apenas segredos, enigmas, etc., nada que mude nossa visão das ciências; são os mistérios históricos. Quem foi Kaspar Hauser? Quem era o Prisioneiro da Máscara de Ferro? Quem foi o Embuçado que avisou os inconfidentes mineiros que seu plano fôra descoberto? São fatos isolados, específicos, cuja solução em nada alteraria os paradigmas da Ciência humana.
Um dos mais interessantes é o que Rupert Furneaux chamou, em seu livro Grandes Mistérios da Humanidade, o Poço do Dinheiro. Em 1795, alguns rapazes descobriram em Oak Island (uma ilhota em Nova Escócia, na costa do Canadá) o que parecia ser uma escavação circular, como um poço soterrado. Iniciaram então uma “busca ao tesouro” que durou o resto das suas vidas, atravessou os séculos 19 e 20, e continua até hoje (veja o saite: http://www.oakislandtreasure.co.uk/). Toda a engenharia contemporânea não foi capaz de chegar ao fundo desse poço onde já foram encontrados vários tipos de artefatos (o que é de se esperar) e numerosas camadas protetoras de madeira ou de pedra indicando que quem enterrou algo ali cercou-se de enormes precauções para que aquilo não fosse descoberto. Talvez já se tenham gasto milhões de dólares na escavação desse poço, mas cada vez que se vai mais fundo ele é inundado pela água do mar (que fica próximo) por um “sofisticado sistema de túneis protetores”.
O que diabo pode haver ali? Talvez dinheiro dos piratas ou dos revolucionários do século 18. As teorias mais delirantes falam no Santo Graal, na Arca Perdida da Aliança, nos segredos dos Templários, e até (não estou brincando) na prova de que as peças de Shakespeare foram escritas por Sir Francis Bacon. A teoria mais cética diz que aquilo é apenas um sumidouro, uma terra alagadiça que desmorona sobre si mesma sempre que é escavada, e que engoliu artefatos dos antigos pioneiros ou de marujos que fizeram ali algum ponto de apoio provisório. O Poço do Dinheiro é um mistério natural (ninguém sugeriu explicações espirituais) e realista, porque o que quer venha a ser encontrado dificilmente mudará nossa visão do mundo. A menos que seja uma antecâmara para a cripta submarina em R’lyeh, onde Cthulhu prepara, sonhando, o seu retorno à Terra.
terça-feira, 6 de março de 2012
2810) A canção brechtiana (6.3.2012)
(Bertolt Brecht)
Em seu livro Crônicas, Vol. I, Bob Dylan conta o impacto que as canções de Bertolt Brecht tiveram sobre ele. Dylan chegou à obra de Brecht através de sua namorada Suze Rotolo (que aparece abraçada a ele na capa do álbum The freewheelin’ Bob Dylan), a qual era filha de pais esquerdistas e participava intensamente das agitações políticas da época.
Suze era desenhista e fazia parte da equipe de um espetáculo com as canções de Brecht e Kurt Weill. Dylan (na época com 21 ou 22 anos) começou a ver os ensaios, viu a montagem após a estréia, e ficou literalmente bouleversado com o tipo de letra de canção feito por Brecht – e que ele adotou para si. (Diz ele: “Woody Guthrie nunca tinha escrito canções como aquelas”.)
A grande iluminação (diz ele na parte final das Crônicas) foi ao ouvir “Pirate Jenny” (que, entre outras consequências, inspirou “Geni e o Zepelim” de Chico Buarque, em sua “Ópera do Malandro”). (Há mil versões da canção de Brecht no YouTube.)
A impressão que ele teve ao ouvir a música:
“Era uma canção surpreendente. Uma letra em doses concentradas. Ação do começo ao fim. Cada frase caía sobre você de uma altura de três metros, saía pela rua afora e em seguida vinha outra, como um soco no queixo. E retornava sempre aquele refrão fantasmagórico sobre o navio negro, refrão que vinha, cercava tudo e deixava a letra inteira retesada como uma pele de tambor. É uma canção má, cantada por uma pessoa cruel, e quando ela termina de cantar, não há mais uma palavra a dizer. Ficamos sem respiração”.
Dylan, um mero praticante, faz uma perfeita análise teórica do método de Brecht.
“Comecei a desmontar a canção, tentando entender o que a fazia funcionar, o que a tornava tão eficaz. Tudo nela era aparente e visível, mas a gente não percebia muito. Tudo estava pregado na parede, mas você não podia ver a soma total das partes, a não ser que esperasse até o fim. Era como Picasso pintando Guernica. (...) Era a forma, a associação livre dos versos, a estrutura, o desprezo pela previsível certeza dos padrões melódicos que lhe davam um sentido mais sério, uma aresta cortante. Tinha também um refrão perfeito para os versos. Comecei a perceber como poderia manipular e controlar essa estrutura e forma específicas, que eu percebi ser a chave para dar a ‘Pirate Jenny’ sua solidez e seu poder extraordinário”. (...) Comecei a brincar com esse formato, tentando dominá-lo – tentando escrever canções que transcendessem as informações dentro de si, os personagens e o enredo”.
Brecht ensinou a Dylan que uma canção é apenas o resumo de um filme inteiro (=de uma cena inteira de uma peça) que aconteceu na cabeça do compositor.
domingo, 4 de março de 2012
2809) ETs e presidentes (4.3.2012)

(Dwight Eisenhower e um alien grey)
Entre as mil teorias da conspiração que fervem de mundo afora uma das minhas preferidas é a de que a Humanidade já comprovou há muito tempo a existência de extraterrestres e a sua presença na Terra, mas os governos não divulgam essa informação por motivos variados. Ou por um motivo só: existem coisas que a plebe rude não precisa saber. Essa hipótese vai a reboque de casos como o de Roswell, do Triângulo das Bermudas, da Área 51 e outros. Nessas áreas teriam ocorrido os contatos iniciais entre os humanos e os ETs; dali em diante, tudo rolou sob sigilo absoluto. O governo dos EUA, os militares e as grandes empresas (possíveis beneficiárias da importação de know-how interplanetário) seriam os únicos a saber de tudo. Há muitos outros casos, é claro, mas esses são os mais famosos, inclusive porque a mídia dos EUA os considera um chamariz infalível para vender livros, tablóides e DVDs.
Foi divulgado agora um depoimento de Timothy Good, ex-assessor de Dwight Eisenhower, presidente dos EUA de 1953 a 1961. Segundo ele, “o ex-presidente teria se encontrado com seres de outro planeta, na base aérea do Novo México, em 1954, na presença de agentes do FBI”. O encontro teria sido marcado por meio do envio de mensagens telepáticas, como informa o jornal britânico Daily Mail. Eisenhower, um militar durão que teve um papel importante na II Guerra Mundial, o que o levou à presidência, era também um sujeito com um lado místico. Acreditava na vida em outros planetas, e isto contribuiu para que desse apoio ao programa aeroespacial do país. Segundo Good, o ex-presidente se encontrou com aliens de aparência nórdica e depois com outros que diziam pertencer ao grupo chamado "Alien Greys" (seres de corpo acinzentado e aparência ameaçadora). Para encobrir os encontros na época, o governo informou que o ex-presidente estava em uma viagem de férias em Palm Springs, na Califórnia. Segundo o ex-assessor, autoridades do mundo inteiro vêm há décadas mantendo contatos com extraterrestres.
O que alimenta essas crenças todas? Para mim é uma questão de lógica. Se eu próprio fosse presidente e meu país fizesse contato com extraterrestres, a última coisa que eu faria seria comunicar isto à população. Uma revelação desse porte não provocaria apenas um caos social, mas uma total desorientação de propósitos, uma perplexidade, uma celeuma, e isso iria desviar a população dos seus afazeres. É cruel dizer isto, mas a gente sempre acha que certas verdades só podem ser acessadas por uma elite de escolhidos, e a grande massa tem que se consolar com uma versão pacificatória e chapa-branca. Se eu penso assim, que dirá o presidente dos EUA.
sábado, 3 de março de 2012
2808) Dylan e Brecht (3.3.2012)
É um lugar comum da crítica comparar Bob Dylan a Dylan Thomas (por causa do nome) e a Rimbaud (por causa da “persona” rebelde e de alusões diretas feitas por BD).
Menos usual é compará-lo a Bertolt Brecht, mas para quem conhece a obra dos dois é uma comparação inevitável, porque Brecht tornou famosas as canções de suas peças cantando-as ao violão com voz rascante (dizia que tocava violão “pra pegar mulheres”), e há vários pontos de contato entre a poética de ambos.
As canções políticas de Brecht influenciaram o Dylan em sua fase de protesto 1962-64; e em todo o restante da obra dylaniana ecoa a lógica impiedosa, a imageria vívida, os paradoxos cruéis e o lirismo plebeu de BB: machista-charmoso, inflexível, rude, atento ao valor sonoro e visual das palavras, chegando ao abstrato e universal através de imagens concretas e inesquecíveis.
Nas canções políticas, para dar um só exemplo basta comparar as 9 implacáveis estrofes de “A Infanticida Marie Farrar” de Brecht:
“Marie Farrar, nascida em abril, menor
de idade, raquítica, sem sinais, órfã
até agora sem antecedentes, afirma
ter matado uma criança, da seguinte maneira:
diz que, com dois meses de gravidez
visitou uma mulher num subsolo
e recebeu, para abortar, uma injeção
que em nada adiantou, embora doesse.
Os senhores, por favor, não fiquem indignados.
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados. (...)”
(tradução de Paulo César de Souza)
...com as quatro de “The Lonesome Death of Hattie Carroll" (tradução minha):
“William Zanzinger matou a pobre Hattie Carroll
com uma bengala que floreava em seus dedos com anéis de diamante
numa reunião social num hotel de Boston
e a polícia veio, e tomou-lhe a arma
enquanto o levava sob custódia para a delegacia
e indiciou William Zanzinger por homicídio em primeiro grau;
mas vocês, que filosofam sobre a desgraça, e criticam todos os medos
afastem o lenço do rosto
porque ainda não é hora de chorar”.
A frieza jornalística do enunciado (transcrevi apenas a estrofe inicial de cada canção); o refrão repetitivo martelado sempre nas linhas finais, e a injustiça social clamorosa dos desfechos correm em paralelo, mostrando com clareza onde Dylan estava bebendo poesia aos 21 anos.
(O texto de Brecht: http://bit.ly/yTcrOO. O de Dylan: http://bit.ly/hYWVDV).
Esta tradição de canções crítico-jornalísticas foi mantida por Dylan, com ou sem conotações políticas ou de protesto, em toda sua carreira.
Talvez a mais famosa delas seja “Hurricane”, sobre o boxeador acusado injustamente de homicídio.
E caberia toda uma tese sobre o efeito de “distanciamento brechtiano” que ele consegue imprimir inclusive em suas canções de amor.
sexta-feira, 2 de março de 2012
2807) O isto e o aquilo (2.3.2012)

Gilbert Adair tem um pequeno e divertido texto (em seu livro de ensaios The Postmodernist always rings twice, 1992) sobre a presença ou não do artigo “the” em títulos de livros. Diz ele que estava lendo Orgulho e Preconceito de Jane Austen e um amigo brincou: “Puxa, isso deve ser um best-seller erótico sobre um fazendeiro de algodão que se apaixona por uma escrava mulata no Sul, antes da Guerra da Secessão”. E ele disse: “Não, porque se fosse isso o livro se chamaria ‘O Orgulho e o Preconceito’”. Adair parte disso para enumerar uma porção de filmes famosos que usam e banalizam essa fórmula, muitas vezes forçando uma antítese por aliteração: The High and the Mighty, The Bad and the Beautiful, The Proud and the Profane, The Pride and the Passion. Adair comenta a certa altura que a presença do “the” nesse tipo de título exprime “uma espécie de ideal pseudo-Platônico em sua pretensão, o qual no entanto é rebaixado e trivializado pela expressão”.
O nome Orgulho e Preconceito sugere que se trata de um romance sobre casos específicos, exemplos humanos dessas duas situações mentais; O Orgulho e o Preconceito, no entanto, é algo mais pomposo, mais armado em definição definitiva, como se o autor, num tom meio professoral, estivesse nos exibindo uma explicação que esgota o assunto. Se lemos um livro chamado Crime e Castigo, estamos acompanhando uma história humana, e qualquer sentido metafísico dessa história irá emergir lentamente ao longo da leitura, com suas camadas sucessivas de implicações morais e culturais; mas se o nome fosse O Crime e o Castigo, seria como se o autor estivesse nos oferecendo logo de cara dois verbetes do Dicionário Metafísico.
Será sempre assim? Não. Quando falamos de coisas demasiado concretas o artigo é inevitável; o livro de Hemingway não poderia ser intitulado Velho e Mar. Um exemplo interessante é o grande livro de estréia de Norman Mailer sobre a II Guerra Mundial, The Naked and the Dead. São dois adjetivos, ao invés de dois substantivos; e adjetivos que exprimem uma idéia de apequenamento e derrota. Neste caso, o uso do artigo amplia estes sintomas de irrisão e lhes dá uma redenção simbólica, uma dimensão grandiosa. Chamar o romance Nus e Mortos equivaleria a deixar os cadáveres dos soldados ali mesmo onde morreram, jogados na trincheira alagada onde apodrecem; chamá-lo Os Nus e os Mortos equivale a extrair desses corpos um espírito, um sentido coletivo e redentor, e projetá-lo no ar diante da multidão de milhões de leitores. Por esta mesma lógica, Dostoiévski poderia ter, sem grande perda, intitulado seu livro Os Humilhados e os Ofendidos.
quinta-feira, 1 de março de 2012
2806) A importância de copiar (1.3.2012)
Num artigo no blog do Discover Magazine (http://bit.ly/yUof3w) Razib Khan aborda um aspecto crucial da discussão sobre cópias, reproduções e pirateamento na Internet.
Há muitos aspectos envolvidos, e o dos direitos autorais é um dos mais importantes (pelo menos para mim, que preciso deles para viver). Mas existe um outro ponto de vista tão importante quanto o do autor ou do editor, e é o da civilização que está produzindo e reproduzindo esses textos.
Do ponto de vista da civilização, quanto mais cópias houver de textos importantes maior a chance de que esses textos sobrevivam a catástrofes (guerras, desastres, etc.) ou colapsos tecnológicos que inviabilizem milhões de obras que hoje supomos preservadas para sempre.
Diz ele:
“Por tudo que li, considero que toda a nossa destilação moderna do cânone da Antiguidade foi quase totalmente filtrada através de três grandes esforços coletivos de cópia de obras clássicas, ocorridos entre o fim da Antiguidade e o início da Idade Média:
1) os esforços dos árabes durante os primeiros anos dos califas Abássidas, no século 9;
2) o Renascimento Carolíngio do fim do século 8 e começo do século 9;
3) e um surto de atividade quando Bizâncio se recuperou dos ataques árabes nos séculos 9 e 10, principalmente sob o patronato de Constantino VII. Esses surtos se complementaram uns aos outros.
A transmissão islâmica de grandes obras filosóficas é bem conhecida, mas havia pouco interesse, entre eles, em preservar o ‘corpus’ humanístico grego, tal como as peças teatrais; neste caso, temos que agradecer aos bizantinos. Disto, combinado com a preservação carolíngia de inúmeras obras latinas, emerge hoje para nós uma imagem razoável da Antiguidade, por causa desses esforços independentes entre si”.
O artigo vai mais longe e mais fundo, mas o trecho acima me basta. Todos nós sabemos o quanto se perdeu da cultura antiga, desde a maioria do teatro grego (muito pouco foi preservado), até os numerosos incêndios criminosos ou acidentais de grandes bibliotecas. A multiplicação das cópias, numerosas, espalhadas por várias nações, salvou para nós um número incalculável de obras científicas, literárias e filosóficas cujos originais sumiram.
Pensamos com arrogância que temos uma civilização invulnerável, mas ela está tão dependente do sistema financeiro e de tecnologias específicas que não é pessimismo imaginar que um colapso social coletivo pode ocorrer em algum momento do futuro próximo.
Seria irônico que as grandes obras de nossa cultura se perdessem e deixássemos para o mundo futuro apenas o que temos de mais popularesco e descartável, cujas cópias se multiplicam sem parar.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
2805) Grande Joenilson (29.1.2012)
Pois é.
Joenilson tem 25 anos, é empresário (não se sabe do quê), mede um metro e 95 (“mais 22 centímetros extras”, diz ele com voz-de-urso, quando está de Red Bull em punho).
É bronzeado, musculoso, usa boné pra trás e óculos espelhados, gosta de bermudas floridas e regatinha “Deus é Meu Parente”, pilota um carro esporte vermelho. Quando ele sai sem cantar pneu tem que dar ré e começar de novo.
Assina “Veja” mas só lê a seção “Gente & Frases”. Casou no Rio, após um Carnaval, com a filha de um prefeito baiano, e tantas aprontou que hoje a ex-mulher vive em Miami e o ex-sogro banca seus supérfluos.
Cria dois cachorros enormes num apartamento do 15º. andar; todo fim de tarde desce com eles para fazerem suas necessidades no calçadão da praia.
A praia é um dos seus lugares preferidos; Joenilson desfila de sunga, estira uma toalha e fica passando óleo em si mesmo como se passasse protetor em Nicole Kidman. Tem cada rebôlo de braço dessa grossura; uma vez num boteco uma moça parou perto dele e disse: “Ai como eu queria um braço desse me agarrando”, e ele respondeu, sem tirar o palito da boca: “Traga uma amiga, eu tenho dois”.
Joenilson já se candidatou quatro vezes ao Big Brother e não entrou; a mãe, que é sua maior fã, diz às amigas: “Não são doidos, né? Ia desempregar Pedro Bial.” Joenilson tem “ator” no currículo; frequentava a esposa de um publicitário, o qual lhe conseguiu comerciais de ração canina, de pneus, de cerveja em lata, coisas verossímeis.
Anda com uma turma que só se distingue dele pela frase nas camisetas. Conversam o dia inteiro sobre dinheiro e motores, além de mulheres, mero pretexto para voltar a falar sobre dinheiro e motores.
Joenilson tem umas sete namoradas, e pondera: “Dou a cada uma seis dias pra repor as energias”. Frequenta coquetéis, recepções, meetings políticos; tem acesso livre aos camarins pós-show, e quando posa para a foto no celular murmura algo que faz a cantora de fora congelar o sorriso.
Circula pelas rodas políticas e financeiras, negocia ações ao celular enquanto faz baliza no estacionamento da academia, concede desplugar um dos earphones do iPod quando é apresentado a uma autoridade.
Toda primeira terça do mês tem um compromisso sagrado, a reunião do Clube do Mé, que fundou com seus manos Leguelé Jordão, Erik Bomba e Bianorzinho.
Vai todo ano a Aruba, Las Vegas, Orlando, e à final da UEFA Champions League.
Mora no meu prédio. Quando me encontra no elevador dá um sorriso desarmante, aperta minha mão, esmaga de novo meus dedos e diz: “Cara, sou seu maior fã, não perco um artigo seu!”.
Jesus Sacramentado, o que é que Joenilson tem que eu não tenho?!
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
2804) “Hugo Cabret” (28.2.2012)

Filmes de celebração ao cinema são um subgênero especial da arte cinematográfica. Narcisismo umbilical? Conspiração nostálgica? Sentimentalismo para eleitos? Talvez quem faça filmes assim esteja querendo, às vezes, injetar um pouco de sonho e de fantasia em algo que foi só fantasia e sonho no passado, mas a partir de certa idade tornou-se (para diretor, roteirista, atores, técnicos) apenas profissão, obrigação a mais, caminho sem escolha. Fazer filmes sobre “a magia do cinema” é uma tentativa de recuperar o frescor e a alegria dos começos felizes.
Este filme de Martin Scorsese, baseado num livro de Brian Selznick, aborda o cinema por vias transversas: mecanismos de relojoaria, autômatos, um misterioso livro manuscrito… Em cenas cruciais do filme os personagens trocam entre si as palavras “mistério” e “aventura”, e sorriem, como se uma senha tivesse sido fornecida e aceita. É um filme de jovens-adultos na linha de O enigma da pirâmide (“Young Sherlock Holmes” de Brian Levinson) mas também um filme para adultos-jovens na linha de Amélie Poulain de Jean-Pierre Jeunet. Sua homenagem ao cinema mudo vai se desvelando a partir da metade da narrativa, mas os autores não esquecem de fazer menção à literatura aventuresca (Alexandre Dumas, Julio Verne) cujo espírito recupera. É mais que adequado que um filme sobre Georges Méliès, o criador dos efeitos especiais do cinema mudo, seja feito em 3-D, reconstituindo a reação espantada das platéias e refletindo-se, na narrativa, naquelas longas sequências de perseguição e rápidos deslocamentos que não têm outro propósito senão o visual. O movimento cinematográfico é algo como uma melodia: umas pessoas sentem beleza nisso, outras não. Reclamar das vertiginosas perseguições deste filme em 3-D é como reclamar das iluminuras medievais e dizer que nada acrescentam ao texto bíblico.
O filme é longo e poderia contar a mesma história com 15 minutos a menos; imagino que Scorsese fez de propósito, para bater de frente com a montagem-relâmpago de hoje em dia. Quis uma montagem analítica, como a prosa de Dumas ou Verne. Se a montagem é lenta, é a câmara que é rápida, voando como uma seta, uma bala teleguiada, através de “tableaux” sucessivos e minuciosos como a arte da Belle Époque. Seu filme é uma homenagem ao Cinema, arte híbrida de química, ótica e mecânica. Uma arte que reúne os amantes de relojoarias, lanternas mágicas, diafragmas e íris, imagens impalpáveis, criaturas artificiais, sonhos, pesadelos, monstros de papelão, lâmpadas, desenhos que se movem, fantasmagorias, ectoplasmas, cavernas de Platão, ilusionismo, prestidigitação, imaginação, memória, aventura e mistério.
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