terça-feira, 15 de novembro de 2011

2714) A verdade de Deivid (15.11.2011)




O Flamengo tem um atacante chamado Deivid que é um mistério maior do que a Esfinge. Em primeiro lugar, não é um mau jogador; já o vi jogando muito bem pelo Santos e outros clubes. Tem técnica, é esforçado. Mas quando desembarcou no Flamengo protagonizou a maior série de gols-feitos-perdidos-pelo-mesmo-jogador já vista em nosso futebol. Tornou-se candidato permanente àquela graçola do “Globo Esporte”, o “Inacreditável Futebol Clube”. (Está se redimindo, aliás – já é o 2o. artilheiro do Brasileirão.)

Mas não é dos gols de Deivid que quero falar, e sim de suas entrevistas. Dias atrás, o Flamengo teve que disputar uma partida no Chile precisando vencer de 5x0 para se classificar. Perguntaram a Deivid se ele viajaria de boa vontade, e ele disse: “Claro, pelo menos para ir no free-shopping”. A imprensa pegou esse mote e não falou noutra coisa durante dias (se isso era “atitude de profissional”, etc.). Não passou muito tempo, perguntaram a Deivid numa coletiva quem iria ser o campeão brasileiro, e ele disse: “Acho que é o Corinthians”. Pronto! Outro quelelêi. Agora leio no jornal que ele puxou a cadeira para dar mais uma coletiva e foi logo dizendo aos jornalistas: “Querem que eu fale a verdade ou que dê uma resposta-padrão?”.

Convenhamos, uma interpelação desse tipo não é comum num jogador de futebol, e só pela coragem e sinceridade de fazê-la perdôo a Deivid os últimos vinte gols feitos que ele perdeu, inclusive aquele contra o Santos. Existe uma sutileza insuspeitada nessa pergunta. Porque as respostas padrão existem para não responder nada (“Estamos bem preparados, é levantar a cabeça, vamos em busca do nosso objetivo, etc.”); e as respostas sinceras, mais capazes de surpreender e de causar assunto, são as que os jornalistas mais gostam. O engraçado, porém, é que o jogador em geral é elogiado quando dá respostas-padrão e criticado quando diz o que pensa.

Na política do futebol, tanto quanto na política da literatura ou na política da administração pública, nem sempre se deve dizer o que se pensa. É um jogo, e não devemos revelar ao adversário que cartas temos na mão, ou que movimentos pretendemos fazer daqui a pouco. Qualquer ABC de diplomacia desaconselharia Deivid a dar aquelas duas respostas. A diplomacia é a hipocrisia do Bem, aquela que prefere uma grande mentira a um pequeno constrangimento. Deivid falou na entrevista aquilo que os jogadores conversam entre si, quando não há jornalistas por perto. Os jornalistas deveriam agradecer-lhe por esse “flash”, essa revelação do que é o mundo quando não precisamos contar mentiras politicamente corretas para ninguém.

domingo, 13 de novembro de 2011

2713) Riscando livros (13.11.2011)




(Tom Philips, A Humument, pág. 312)

Diz-se que riscar um livro é uma mistura de falta de educação e desprezo. Não acho. Um livro é um mero suporte de um texto. 

Algumas pessoas o têm como uma distração descartável: o sujeito lê, põe o livro de volta na estante e, daí a alguns anos, manda vender no sebo. 

Para outros, porém, o livro é um objeto de trabalho. Ele não pega o livro para uma leitura casual e sem compromisso, e sim para um enfrentamento intelectual. Pega no livro (inclusive um romance, uma obra literária qualquer) para estudar. Nesses casos, meu conselho é que meta a caneta pra cima, se achar que com isso estuda melhor. 

A caneta serve, como diz Fausto Fawcett, como um contador Geiger que vai assinalando a radioatividade literária dos melhores trechos.

Há pessoas que têm memória visual, e recordam melhor um livro quando visualizam trechos sublinhados, parágrafos destacados com colchetes, anotações feitas nas margens. Minha memória é assim; quando penso naqueles livros que consulto com frequência, é a imagem da página que me vem à memória, com todos os riscos e todas as notas que fiz com meu próprio punho. Se lembro de uma frase que me é muito familiar, sei até se está a página da esquerda ou na da direita; lembro se fica no alto ou na parte baixa da página.

Se você não lembra as coisas assim, não precisa riscar o livro, mas, se riscá-lo desse modo o ajuda a marcar melhor as coisas na memória, meu conselho é que o faça. 

Quando releio um livro, releio primeiro as partes sublinhadas, porque sei que ali estão os trechos que nas leituras anteriores achei mais importantes. Não que eu concorde, necessariamente, com o que está dito; mas porque aquilo concentra melhor as idéias do autor, sejam elas o que forem. 

Alguns leitores desenvolvem códigos próprios. Diz-se que Guimarães Rosa criou o código “m%” (“meu, cem por cento”) para indicar trechos com os quais se identificava especialmente.

Costumo fazer conexões entre trechos do livro, quando vejo a mesma idéia repetida em pontos diferentes. Se vejo na pág. 150 algo que tem tudo a ver com um trecho importante da pág. 82, coloco: “ver pág. 82” ao lado, e voltando à primeira coloco “ver pág. 150”, incluindo aí quantas referências houver. Daqui a 20 anos, quando precisar consultar o livro, não preciso ficar procurando aqueles trechos durante uma tarde inteira. 

Também aconselho criar um índice remissivo no final, registrando os assuntos importantes e as páginas em que aparecem. Muitos livros trazem esses índices, mas nem todos registram os assuntos que interessam à gente. Rabisco um livro para poupar tempo a um leitor de daqui a dez anos, que por coincidência serei eu mesmo.






sábado, 12 de novembro de 2011

2712) Pior do que o mal (12.11.2011)




Na cozinha de um restaurante, um sujeito não conserta direito a mangueira de um bujão de gás, que dias depois explode, matando algumas pessoas. 

Na estrada, um motorista se distrai tentando trocar o CD que estava ouvindo, bate de frente com outro carro, e morrem duas famílias. 

Num campo de batalha, uma ordem pelo rádio é mal compreendida e um batalhão se desloca para leste ao invés de oeste, sendo dizimado pela artilharia inimiga. 

Dois homens fazem uma piada de mau gosto na porta de um bar; um transeunte pensa que estão rindo dele e inicia uma briga que, muitos tiros depois, deixa alguns mortos.

Goethe afirmou certa vez que os mal-entendidos e as negligências causam mais danos ao mundo do que a maldade humana. A gente tem uma tendência a ver o Mal como um jorro íntegro e maciço de ruindade, algo que existe apenas para ofender, matar, destruir, corromper, vilificar. 

O Mal é uma força que tem a intenção, o orgulho e a vaidade de ser má. Faz a maldade com a dedicação circunspecta de quem cumpre uma missão inadiável, com a euforia de quem está fazendo o que mais gosta, com a brutalidade de quem só tem uma ação que justifique sua existência e precisa cumpri-la integralmente o mais depressa possível.

Este será o Mal grandioso, o Mal montanha, o Mal cordilheira. Mas pelo que se vê existe uma forma mais minúscula e mais insidiosa, uma espécie de varejo do Mal, em que nada é grandioso, nem mesmo as intenções, mas dá passagem ao Mal de qualquer forma (o Mal compreendido aqui como a fonte da infelicidade e da destruição humana). 

Há um poema de Brecht que diz: “Escapei dos tigres, alimentei os percevejos”. Esse Mal-percevejo habita nosso cotidiano. Mesmo quando escapamos aos tanques de guerra, aos genocídios étnicos, aos serial killers, existe uma maldadezinha mixuruca e tacanha destinada a empobrecer nossa vida, roê-la pelas beiradas, como uma cárie capaz de deteriorar tudo em pequena escala.

Pior, muitas vezes, do que o Mal grandioso, é o Mal insetóide, minúsculo, fervilhante, que se exprime pelo mal-entendido, pela má vontade, pela coisa mal feita; pelo erro de cálculo, pela imprevidência, pelo descuido, pelo esquecimento relapso, pela desatenção, pela omissão, pelo vacilo, pela bobeira. 

Razão tinham os primitivos que acreditavam na existência de um Demônio Chefe mas também na existência de mil demoniozinhos menores, que quebram a telha, deixam o gás aberto, furam o pneu, desencapam o fio, travam o fecho, e produzem com certo esforço na mente humana aquele “branco” de dois ou três segundos de duração que é tudo de que o Mal precisa para fazer explodir sua catástrofe repentina.





sexta-feira, 11 de novembro de 2011

2711) As 7 maravilhas (11.11.2011)



(Ayers Rock)

Encerra-se hoje uma eleição, promovida pela Fundação New7Wonders (de promoção do turismo), para indicar as 7 Maravilhas da Natureza, por todo o mundo. Milhões de internautas estarão votando em 28 lugares candidatos a essa honra. Para chegar a eles, foram feitas 440 inscrições de 220 países, que depois foram filtrados até chegar a 77, entre os quais finalmente foram selecionados os 28. Como meu conhecimento geográfico é muito escasso, não conheço nem sequer de fotografia a maior parte dos candidatos. Mas votaria com prazer em sete lugares que, para mim, têm algo de especial.

Os dois primeiros são, é claro, os dois candidatos brasileiros: as Cataratas do Iguaçu e a Floresta Amazônica. Nunca fui ao Iguaçu, mas já sobrevoei um longo trecho da floresta amazônica no Pará, num daqueles Fokker para 6 pessoas. Aquela floresta é um acesso de megalomania da Natureza. Faz a gente se sentir, ao mesmo tempo, minúsculo em comparação com aquilo, e imenso por participar daquilo.

Eu votaria no Mar Morto, que é um dos lugares mais extraterrestres da Terra, um lago de sal, uma água onde não se afunda, abaixo do nível do mar. Parece inventado por um escritor de FC com depressão. Votaria no Grande Canyon, que ainda tenho esperança de conhecer um dia, e que deve ter proporcionado aos que o descobriram uma verdadeira “experiência numinosa” como dizia Jung.

Outro lugar que para mim merece ser eleito é o Vesúvio, talvez o vulcão mais famoso do mundo, herói de filmes e romances. Causou algumas das hecatombes mais notórias e foi responsável pela preservação intacta da cidade de Pompéia, cuja visão nos faz regredir no tempo e captar vidas humanas eternizadas em cinza. Votaria no Monte Kilimanjaro na África, que é famoso por ter virado personagem de livro de Hemingway. Com o aquecimento global as suas famosas neves estão derretendo; comparar as fotos de vinte anos atrás com as de hoje nos faz perceber o quando o mundo parece perto de acabar.

E finalmente eu votaria num dos monumentos naturais mais misteriosos do mundo: Uluru, ou Ayers Rock, aquela gigantesca plataforma rochosa no meio do deserto australiano, adorada pelos aborígenes como a morada dos deuses. Parece o lombo de um lagarto de pedra semi-soterrado, com 350 metros de comprimento, 8 quilômetros de circunferência.

Seriam estes os meus sete candidatos; e o mais curioso é perceber como conhecemos pouco o planeta. Se eu conhecesse todos, talvez escolhesse sete lugares completamente diferentes. O que é uma boa coisa. Pensamos tanto nas maravilhas que encontraremos em outros planetas, e o planeta mais estranho e mais belo é justamente este onde já estamos.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

2710) Micro-história presente (10.11.2011)



A ciência da História passou por uma grande mudança no último meio século. Grosso modo, a História antigamente era centrada nos grandes fatos (guerras, descobrimentos, revoluções, etc.) e nos grandes personagens (reis, imperadores, generais, presidentes, etc.). 

A gente folheava a História Geral de Borges Hermida e tinha a impressão de que no mundo só tinham acontecido coisas importantes. 

Aí surgiu a micro-história, que foi uma tentativa de falar do povo comum, ao invés dos reis e princesas. Como viviam os mercadores, os camponeses, os pedreiros, os artesãos? A História começou a vasculhar de novo os documentos acumulados nos museus e a deduzir daqueles relatos como era a vida cotidiana de gente sem importância, ou seja, nós, que não somos nem ditadores nem líderes de exércitos. 

É como se de repente todos os historiadores tivessem lido aquele poema de Bertolt Brecht, “Perguntas de um Operário que Aprendeu a Ler”: “Depois de cada batalha um banquete, mas quem servia as mesas?”. A História tornou-se a micro-história, contando, como a poesia de Drummond, a vida “do sineiro, da viúva e do microscopista”. 

Amigos, os micro-historiadores que forem um dia contar o que era o Brasil do começo do século 21 não vão ter problema nenhum. Estamos vivendo o apogeu do detalhezinho, a hegemonia da banalidade, o endeusamento compulsório das tutaméias de cada um. Cada anônimo sabe de cor a pasta de dentes de cada famoso, e fica sonhando com a chance de alguém perguntar qual a pasta que ele próprio usa. 

Mal posso esperar o dia em que uma apresentadora de TV perguntará ao vivo a que horas eu acordo, a marca do meu tênis, minha cor preferida, que livro eu levaria para uma ilha deserta. Andy Warhol previu 15 minutos de fama para cada um, mas não viu que esses 15 serão esticados até virarem um estado de microvisibilidade permanente. 

O famoso é famoso até engraxando os sapatos ou tomando banho de chuveiro. O escritor não se sente realizado quando discute as idéias do seu livro, e sim quando alguém lhe pergunta se ele dorme de calção ou de pijama. Ele não se sente importante pelas coisas grandiosas que fez – porque qualquer idiota que faça uma coisa grandiosa é importante. Não, ele é importante porque come pão com goiabada, e sabe que basta revelar isso no Facebook para que uma horda de admiradores proclame o pão com goiabada como “o top do top”. 

Pobres micro-historiadores do futuro. Vão ter que copiar e decorar cada quark de informação que estamos preservando para eles. Overdose de infrassignificado. Que façam bom uso de cada estátua desenterrada deste Panteão das pulgas, deste Monte Rushmore dos ácaros.





quarta-feira, 9 de novembro de 2011

2709) A Tortura em Ostimburg (9.11.2011)



Por três vezes em minha vida visitei Ostimburg, aquele principado balcânico cujos vorazes desfiladeiros adornam cartões postais. Há quase um século aquela nação conhece uma paz ignorada pelas democracias do Ocidente, graças ao íntegro regime instaurado por Rabidovic I, que soube guiar seu povo com os cuidados de um pastor e a firmeza de um lobo. Na minha primeira visita a Ostimburg, aos 19 anos, foi-nos (a um grupo seleto de estudantes ocidentais) permitido conhecer os recentemente instalados Jardins do Perdão. Que não eram jardins, tecnicamente falando, mas aquilo que em outras circunstâncias teríamos denominado de calabouços subterrâneos, onde os inimigos do povo recebiam sua paga. Vimos, cela após cela, os complicados aparatos eletro-mecânicos; os foles-sanguessuga; as clarabóias-lupa; os poços-ampulheta, onde uma finíssima areia dava aos réus o tempo exato para uma autocrítica final. Nenhum condenado (disse-nos o guia) passava ali mais de três dias sem que a Natureza tomasse a iniciativa misericordiosa de perdoá-lo para sempre.

Voltei a Ostimburg aos 43 anos, como adido cultural de nosso país, e, nos intervalos da minha missão, matava as saudades de alguns ambientes que tinham me impressionado. (Os cafés são tão bons quanto os turcos, os bordéis superiores aos tailandeses.) Visitei os Jardins do Perdão, e vi que haviam evoluído. Agora, a intenção era impedir o desenlace. Como os dissidentes nunca passavam de algumas centenas, era possível preservar-lhes indefinidamente a vida, fazendo com que as máquinas omitissem com mestria todos os pontos vitais. Transfusões, comas induzidos, UTIs adaptadas, tudo conspirava para que aqueles réus estivessem recebendo há décadas os benefícios da arte da aprender na própria carne.

Agora, aqui estou pela terceira vez, aos 76, como convidado do jovem Rabidovic II, redigindo minhas memórias de diplomata. E os Jardins tornaram-se algo semelhante a um retiro ou spa. Não mais que trinta traidores da pátria sobrevivem, cada qual em sua cela. Celas amplas, dotadas de uma multiplicidade de aparelhos da mais avançada tecnologia. Prescindem de guardas e de carcereiros. Décadas de sofrimento contínuo os prepararam. Todo dia acordam, tomam um desjejum frugal, e eles mesmos se manietam e se plugam às engenhocas; eles mesmos manipulam os botões de controle; eles mesmos acionam os dínamos, as autoclaves, as vagarosas prensas, os tornos e parafusos, os velcros esfoladores, as espumas corrosivas. Há anos, nenhum guarda desce àquele subsolo que cheira a sangue e creolina, e onde os pecadores administram e refinam, dia após dia, seu pedido permanente de perdão.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

2708) "O Palhaço" (8.11.2011)



O circo, que tem idade para ser avô do Brasil, é tratado no Brasil como se fosse filho dele, como se tivesse nascido entre nós com a finalidade de nos definir e nos explicar. Curiosamente não são muitos os filmes de circo entre nós. Meus preferidos são O Profeta da Fome de Maurice Capovilla e Bye Bye Brasil de Cacá Diegues. Este filme de estréia de Selton Mello como diretor é simpático e terno do começo ao fim, e se tem algum defeito é uma certa indecisão narrativa que o recheia de tempos mortos, de expectativas que não resultam em nada, de cenas que poderiam ser comprimidas em alguns segundos mas levam um minuto na tela. Pode ser proposital, para ficar em sintonia com a melancolia do protagonista, um palhaço jururu que não sorri com nada; mas o filme, que é cheio de cores, vivacidade, tipos caricaturais e situações risíveis, parece estar o tempo inteiro estancando e precisando ligar de novo a ignição.

Selton e Paulo José são pai e filho, dois palhaços num circo mambembe, mas o rapaz tem uma angústia meio existencialista com tudo que vê; sonha com algo que não sabe bem o que é (e personifica isto na imagem permanente de um ventilador, que pelo menos serve para alguma coisa). É um road-movie, como convém a um filme de circo, fazendo um corte pelo interior daquele Brasilzão remoto onde o circo parece ter nascido, onde tudo é igualmente mambembe e vive muito-bem-obrigado, onde as figuras excêntricas do elenco parecem se refletir nos excêntricos da platéia.

Selton é um dos melhores atores de sua geração; aqui ele se cerca de colegas poucos conhecidos e alguns veteranos em participações especiais (além de Paulo José, aparecem Moacyr Franco, Tonico Pereira e Jorge Loredo, o histórico “Zé Bonitinho”). O filme tem encanto visual e humor, e só deixa de tê-los quando perde o passo narrativo. É algo muito frequente nos filmes de estreantes cuidadosos. Eles se preocupam demais com cada plano; depois, quando os planos são enfileirados um atrás do outro, percebemos que cada qual está ótimo mas sua sucessão não é fluida, porque o “timing” de cada um puxa o ritmo do filme para uma cadência diferente. Não é algo que se possa corrigir na montagem porque não dá mais para mexer nos tempos do diálogo e da ação.

Não importa; é um dos bons filmes brasileiros recentes, cheio de detalhes e de sacadas inteligentes, e mostrando uma compreensão e uma identificação instintivas com o espírito circense. Um espírito que toca de perto e fascina os atores, muito mais que diretores, roteiristas ou fotógrafos. Deve ser porque cada ator de teatro e de cinema tem algo de mágico, de domador de feras, de equilibrista e de palhaço.

domingo, 6 de novembro de 2011

2707) O ponto e o asterisco (6.11.2011)



Sugiro ao leitor que espere anoitecer (caso esteja lendo isto durante o dia) e saia ao ar livre. Se for uma noite limpa e sem nuvens, verá o céu estrelado. Este céu que há milhares de anos serve de inspiração aos artistas e de desafio aos cientistas... aquela lenga-lenga toda. Todos nós já vimos e admiramos um céu estrelado. Todos sabemos que quando estamos admirando as estrelas com uma moça bonita do lado, basta uma conversa bem encaixada para que as coisas se encaminhem a nosso favor. As estrelas são mágicas.

O que pergunto ao leitor é o seguinte: quando você vê uma estrela, que formato tem ela? Um ponto ou um asterisco? Lembre que a imagem tradicional da estrela, rabiscada a lápis ou gravada num monumento da antiguidade, é de uma espécie de asterisco, algo assim: “*”, uma porção de raios divergentes que se espalham em todas as direções a partir do centro. É assim que as estrelas vêm sendo reproduzidas graficamente desde que o mundo é mundo. Dessa imagem inicial surgiu a estrela do xerife, a estrela de cinco pontas (ou pentaclo) dos magos, a estrela de Davi (de seis pontas), etc.

Para mim isto sempre pareceu natural, porque até os dezenove anos eu olhava para o céu noturno e o via coberto de asteriscos faiscantes. O problema é que quando comecei a usar óculos essa imagem mudou. As estrelas viraram prosaicos pontinhos, de uma nitidez perturbadora, e sem um raio sequer! Vistas com as lentes que corrigiam minha miopia, ficaram mais nítidas, mas graficamente mais pobres. (De vez em quando, quando o céu está bonito, tiro os óculos para ficar míope de novo e curtir melhor aquela beleza).

Duas teorias. Primeira: os antigos eram míopes, e viam as estrelas não em forma de pontos, mas de asteriscos, e as reproduziam assim nas cavernas, nos monumentos, nas “estelas” de pedra esculpida. Uma boa questão oftalmológica: como eram as condições de visão dos homens da antiguidade? Segunda teoria: mesmo quando eles enxergavam as estrelas como pontinhos nítidos, porque tinham visão normal, aceitavam e reproduziam o formato de asterisco proposto pelos míopes. Por que? Porque a imagem do asterisco é graficamente mais rica (tem mais informação visual) do que a imagem de um ponto. Se você desenha um asterisco numa folha de papel e pergunta o que é, muita gente vai dizer que é uma estrela. Se desenha um ponto, poucas pessoas dirão o mesmo. Embora seja uma imagem mais fiel ao modo como um olho normal vê uma estrela, o ponto é uma imagem mais vaga, mais parecida com qualquer coisa, menos específica. Os míopes, somente os míopes, veem a estrela artística; os outros veem a estrela científica e nada mais.

2706) Trabalhar de graça (5.11.2011)




(FunkyPix2)

Existe em alguns artistas um pudor de cobrar pelo próprio trabalho. De certa forma eles se acham privilegiados por serem convidados a fazer algo que lhes dá prazer. Cobrar por aquilo é introduzir no processo um elemento de comércio, frieza, cálculo. Como se alguém dissesse: “Teu prazer é insuficiente, é sem substância, talvez seja falso. Precisas lastreá-lo com dinheiro para que ele não se desmanche no ar”. Ele se julga pago pela mera alegria de ser lido, de ser escutado, de produzir no rosto alheio aquela expressão de deslumbramento e respeito.

Há quem se envergonhe de cobrar porque o “trabalho” em questão não é trabalho nenhum, esforço nenhum. No seu modo de ver as coisas, o pagamento de um trabalho não é a aquisição do produto final, é um ressarcimento pelo esforço e pelo sofrimento de quem produz. E ele se acha “um aproveitador” se tiver de cobrar para tocar mais uma vez as músicas que já tocou milhares de vezes, ou colocar por escrito idéias que de certo modo já estão prontas e arrumadas em sua mente. Não há esforço algum envolvido, nada que justifique uma remuneração por um “trabalho”.

Outros não cobram por uma questão de altivez aristocrática. Até acham que mereceriam receber; até precisam da grana. Mas cobrar os empobrece aos seus próprios olhos: “Sou alguém que precisa de dinheiro”. Trabalhar de graça, por outro lado, os transforma em generosos doadores de si mesmos, em alguém que tem tanto que não se furta a distribuir. São como aquelas tribos que, não satisfeitas de oferecerem banquetes, sentem-na na obrigação de destruir comida, para provarem que não são uns mortos-de-fome.

Há os que não cobram por mera desinformação. Cresceram num meio onde a idéia do trabalho artístico gratuito foi vigorosamente implantada. A arte é sagrada, é pura, não se suja com dinheiro. Viraram artistas por uma vocação sincera, mas sempre à sombra de outra ocupação. Quando ouvem alguém dizer que cobra para dar uma palestra, ficam constrangidos e sem parâmetros. É como o sujeito estar azarando uma garota numa festa e ela dizer: “Quer ir pra cama comigo? É tanto.”

Alguns não cobram por esperteza e tática de sobrevivência, porque dando-se de graça tornam-se credores, e já sabem exatamente como cobrarão a contrapartida num momento futuro. Seu comércio não é o do dinheiro, é o da cortesia, mas é de uma contabilidade implacável. Uma dívida não saldada fará o devedor desprevenido pagar em dobro o que não imaginava estar devendo. Generosidade e gratidão são transformadas nas regras de um câmbio que lida com sentimentos em vez de cifras, mas cuja execução contábil é igualmente precisa e sem perdão.





2705) Os três Cristos (4.11.2011)



Segundo um artigo de Jenny Diski (http://bit.ly/qmGqcA), uma experiência psicológica muito interessante foi a que o Dr. Milton Rokeach realizou em 1959 com três pacientes psicóticos do Ypsilanti State Hospital (EUA). O tema da pesquisa eram os sistemas de crenças das pessoas: “como as pessoas desenvolvem e mantêm (ou modificam) suas crenças de acordo com suas necessidades e com as exigências do mundo social em que vivem”.

Rokeach afirma que existem versões conflitantes sobre o mundo e que as pessoas recorrem a algum tipo de autoridade (religiosa, científica, política, etc.) para se posicionar. Uma das crenças básicas do ser humano é a própria identidade (eu sou eu); e essa identidade é única e personalizada (eu não posso ser você; você não pode ser eu). Ele fez uma experiência em sua própria casa, trocando os nomes de suas duas filhas pequenas; no começo era uma brincadeira, mas quando ele continuou insistindo, com ar sério, as duas foram ficando nervosas e começaram a chorar.

Rokeach reuniu três internos do hospital que afirmavam ser Jesus Cristo. A experiência resultou no livro Os Três Cristos de Ypsilanti (1964). Eles eram Clyde (70 anos), Joseph (58) e Leon (40). Os dois primeiros estavam internados há décadas, o outro há cinco anos. O médico pôs os três para conviverem juntos e executarem juntos pequenas tarefas, sob vigilância constante. (Diz Jenny Diski que era algo parecido ao “Big Brother”, com a diferença de que no BB a alucinação das pessoas é de que são famosas ou interessantes.)

Os três “Cristos” desenvolveram uma convivência social em que cada um mantinha sua posição mas procurava não antagonizar os outros dois. Leon dizia: “Eu sei quem eu sou”, e Joseph respondia: “Eu não quero tirar isto de você. Pode ficar. Eu não o quero”. Joseph explicava ao médico que os outros dois eram doidos, já que estavam todos num hospital psiquiátrico. Clyde assumia um tom imperial, e era de opinião que os outros dois eram seres inferiores, e além do mais estavam mortos. Dizia ao médico: “Eu sou ele. Está vendo? Entenda, agora!”. E Leon afirmou a certa altura: “Vocês estão usando um paciente contra o outro, tentando fazer lavagem cerebral e também manipular a situação através de vudu eletrônico”.

Me veio a idéia de pegar três indivíduos sadios, que não se conhecessem entre si: um cristão, um judeu e um muçulmano. E repetir a experiência, perguntando-lhes: “Qual de vocês acredita no verdadeiro Deus?”. Teríamos então dois conjuntos de crenças conflitantes. E talvez descobríssemos semelhanças inesperadas entre eles, porque estariam fazendo afirmações igualmente impossíveis de provar.